Teoria epidemiológica hoje

Naomar de Almeida Filho · Capítulo 2 de 13

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Teoria epidemiológica hoje

Parte I - Fundamentos

 

Epidemiology is essentially an inductive science, concerned not

merely with describing the distribution of disease, but equally

or more with fitting it into a consistent philosophy.

Wade Hampton Frost

 

1. Epistemologia e epidemiologia*

 

Juan Samaja

 

Notas preliminares sobre a noção de ciência

Que interesse pode ter para a epidemiologia o debate sobre seus fundamentos epistemológicos? O que a epistemologia tem a dizer para a epidemiologia?

A resposta a estas questões, que examinaremos neste trabalho, pressupõe a revisão prévia de certos aspectos da palavra 'ciência', tal como se pode extrair das circunstâncias de sua origem.

Primeiro a metafísica e depois a física (como batismo inicial das 'ciências particulares') surgiram no cenário da cultura com a pretensão de estabelecer o saber legítimo e efetivo para os homens: esse que deve ser adotado como verdadeiro por ser efetivamente verdadeiro.

O surgimento dessas ciências resultou de mudanças nas formas da consciência social que se produziram na transição das sociedades gentílicas às sociedades já dotadas de Estados. Em outras palavras, a filosofia e a ciência emergiram como a expressão das novas condições de direção social introduzidas pela gestão estatal. Com esse propósito, elas contrapuseram à força das representações éticas e das narrações mítico-religiosas a operação eficiente de seus próprios instrumentos de simbolização: os conceitos, juízos e encadeamentos argumentativos, e, o que é de particular interesse aqui — a eficácia de suas aplicações técnicas.

Este processo se inicia na Antigüidade, amadurece e se aperfeiçoa a partir da formação dos Estados burgueses. No seio desta nova forma de vida, a filosofia e as ciências particulares se consolidam como a organização válida e efetiva de conhecimento, apta a conduzir os assuntos centrais na gestão dos Estados e de sua economia. Os organismos estatais começaram a formar seus recursos técnicos (funcionários de todas as categorias) mediante treinamentos sistemáticos para o exercício dos procedimentos discursivos (característicos deste modo de manejar os símbolos e suas conseqüências operatórias) em escolas ou universidades.

Os cerimoniais estatais foram substituindo, em suas liturgias religiosas, a comunhão dos membros pela busca da 'comunhão política', recorrendo ao debate cortesão ou ao parlamentar, com suas novas 'liturgias': a retórica e a lógica acadêmicas. As narrações míticas cederam lugar às teorias explicativas na produção da compreensão ou produção de sentido. As fórmulas mágicas abriram espaço às operações mecânicas, energéticas, cibernéticas etc. — reais ou simbólicas.

Cabe agora retornar à questão inicial deste trabalho: o que implica examinar os fundamentos epistemológicos de uma disciplina?

De acordo com o que foi dito, não está em jogo averiguar, inocentemente, quais são suas noções básicas ou preliminares e se estas noções coincidem ou não com o real, mas algo muito mais comprometedor. O que está efetivamente em jogo é sua legitimidade como forma de saber, o que significa muito mais do que se interrogar sobre a verdade ou falsidade dos fatos. Está em jogo o que os juristas denominam "a verdade formal", isto é, a sua adequação aos pressupostos formais da consciência social que se toma como válida.

 

O status epistemológico da epidemiologia

Quando se debate o estatuto cognitivo de um certo tipo de disciplina ou campo do saber — neste caso, a epidemiologia — no âmbito acadêmico (aulas, conferências ou congressos), o que se discute, de uma maneira ou de outra, é a sua legitimidade, isto é, a sua adequação ou não aos pressupostos formais dominantes da consciência social que ora impõe os cânones de validação.

O debate epistemológico sobre a epidemiologia encerra, ademais, um interesse adicional, já que esta disciplina aspira a estabelecer o saber verdadeiro sobre a saúde e a enfermidade nas populações humanas, o que implica colocar em questão o que se entende por normal ou anormal na vida dos homens, nas sociedades e nos Estados. Mas quem estabelece os critérios de validação?

Pelo exposto anteriormente, infere-se que a epistemologia constitui um espaço de luta entre posições adversárias em torno do que representa uma 'boa' legitimação, ou, expresso de uma forma mais direta, de quais são ou deverão ser as formas institucionalmente válidas de fazer circular o conhecimento.

Dois grandes tipos de orientações têm-se destacado neste debate: o empirismo e o apriorismo. Pastes têm sido os caminhos mais amplos e mais freqüentemente trilhados pelos acadêmicos em busca dessa legitimação, porque, cada um a seu modo, ofereceu importantes vantagens para a consolidação dos diferentes interesses das classes hegemônicas. Ε como se estas duas variantes epistemológicas compartilhassem o mesmo espaço: o do exercício atual do poder institucionalizado.

Há, ainda, um terceiro caminho que, todavia, tem permanecido à margem destes trajetos hegemônicos: o historicismo, inaugurado por Vico, no início da modernidade, e desenvolvido inicialmente por Kant e imediatamente depois por Hegel, sob a denominação de dialética. Um traço decisivo desta via marginal de legitimação consiste em sua pergunta a respeito do 'nascimento do novo', formulada por meio da questão do Vir a ser', e não da questão de 'derivar o que deve ser' ou de 'demonstrar o que não é' Este caminho, à diferença dos outros dois, caracteriza-se por substituir a questão 'qual é o saber legítimo?' por 'qual é a história formativa deste ou daquele critério de legitimidade?' Ε como se esta variante epistemológica ocupasse o espaço do desafio ao poder, ou, mais especificamente, ao poder emergente ainda não instituído.

A questão 'como se produzem os critérios de legitimidade?' foi contestada pelo historicismo da seguinte maneira: é legítimo o que coincide com o aceito como evidente por todos os membros de uma comunidade, e, por sua vez, é evidente o que é essencialmente congruente com os pressupostos que tornaram possível seu contrato de fundação. De uma maneira propriamente epistemológica, um saber é legítimo quando organiza as representações de maneira análoga ao contrato que logrou obter uma resolução transacional suficientemente estável para dar lugar a uma forma de vida social.

 

Em que um debate epistemológico contribui para

a epidemiologia?

Uma vez definido, de modo genérico, o sentido de um debate epistemológico como o aqui evocado, é importante indagar de onde os principais modelos (ou analogias permitidas) extraem a capacidade de se legitimar nas ciências modernas; de quais traços da organização social procede a potência legitimante dos grandes modelos epistemológicos da cultura moderna (os modelos mecânicos, processuais, orgânicos, morfogenéticos, praxiológicos etc). De acordo com o construtivismo dialético defendido aqui, responderse-ia: da própria vida, de seus conflitos e pactos.

Por conseguinte, a tarefa referente ao debate sobre a legitimidade do saber epidemiológico consistirá em discutir sobre que processos sociais as analogias permitidas e os objetos-modelo da epidemiologia como disciplina têm-se estabelecido. Por exemplo, que analogias tornaram possível a idéia ingenuamente empirista de que este campo surgiu como resultado de observações atentas sobre o cólera realizadas por um observador talentoso — John Snow? Ou, então, que analogias permitiram a idéia dedutivista, segundo a qual o nascimento da epidemiologia deveu-se a um duelo entre 'hipóteses contrapostas' (por exemplo, a miasmática em oposição à bacteriológica)? E, finalmente, o que torna possível a existência de cientistas que se interrogam sobre a origem de seus conceitos e pretendam fazer sua própria crítica histórica, desconstruindo seus discursos e rastreando sua genealogia (por exemplo, Goldmann ou Habermas)?

 

O exame historicista de alguns dos pressupostos

da epidemiologia

Embora não seja possível detalhar aqui os resultados que a epistemologia historicista alcançou nas últimas décadas de investigação, mencionaremos dois dos mais notórios, os de Michel Foucault e os de Ian Hacking. São conhecidos os estudos do primeiro sobre o nascimento da medicina, bem como sua tese de que aquilo que a sociedade capitalista, nos fins do século XVII e inícios do século XVIII, trouxe de original foi não a medicina do corpo individual, mas, ao contrário, a medicina social (primeiro como medicina de Estado e depois como medicina urbana). Para Foucault (1981), a mudança rumo a uma medicina do corpo individual aparece recentemente, na segunda metade do século XIX, quando o problema da força de trabalho se torna uma questão crítica.

Por sua vez, os estudos sobre os recursos dos Estados foram motivados por razões muito mais amplas do que o horizonte das questões sanitárias ou de medicina social. Eles estão referidos à emergência dos modelos de interpretação da realidade que surgiam das novas práticas políticas no cotidiano das ações administrativas das formações estatais. Foram os requisitos relativos ao manejo dos recursos e do funcionamento dos órgãos estatais que deram origem a novos modelos de interpretação tanto das realidades sociais quanto das naturais. Este aspecto foi brilhantemente analisado pelos estudos de Hacking sobre o nascimento das estatísticas, em seu livro A Domesticação do Acaso (1991). Nele, o autor comprova em que medida a importância das estatísticas foi reconhecida e fomentada pelos grandes intelectuais da época, como parte de sua tarefa de prestar assessoria aos funcionários estatais.

As principais analogias e paradigmas que constituíram o capital conceitual da epidemiologia derivam das grandes tendências que caracterizaram as sociedades modernas nos séculos XVII, XVIII e XIX. Esse capital conceituai foi organizado, por seu turno, segundo um critério lógico que se pode caracterizar como formal e conjuntista, entendendo por tais denominações a concepção de que as noções são dispositivos classificatórios, mais ou menos convencionais, de ordenação de um material que permanece externo a essas formas.

A grande supremacia obtida por esta maneira de entender a lógica devese ao fato de que ela traduzia para categorias epistêmicas o sentido comum que imperava nas sociedades modernas 'guiadas'

pela praxis contratualista interindividual.1 Esta práxis contratualista é compreensível em sua especificidade quando comparada àquela outra que ela desloca do cenário social — as relações comunais. Com efeito, a relação de contrato se diferencia essencialmente das relações comunais pelo fato de que os sujeitos de um contrato não compartilham vínculos de mútua dependência: constituem indivíduos diferentes e autônomos que, por mútua vontade, se põem de acordo acerca do intercâmbio de algum bem ou serviço externo a eles, e cuja racionalidade depende essencialmente de algum tipo de valor computável presente nos objetos do intercâmbio (Samaja, 1993a).

Para que as relações contratuais pudessem existir e se difundir, foi necessário que ocorresse previamente um processo de rompimento dos vínculos de dependência mútua dos membros da comunidade. Talvez seja esta a razão básica pela qual as relações de intercâmbio não floresceram no interior das comunidades, como mostrou Max Weber (1978) em sua História Econômica.

Para que os fenômenos naturais e sociais estudados pela ciência pudessem ser pensados, com a força da evidência, mediante as categorias de 'conjunto e elementos', e, assim, operacionalizados por meio dos métodos da contabilidade (somas, diferenças, igualdades), foi necessário que a trama da vida cotidiana deixasse para trás a evidência dos vínculos familiares e comunais — argamassa da sociedade em suas fases iniciais — e que se construíssem em seu lugar mecanismos contratuais, com seu triplo registro: interindividualidade, centricidade e associatividade. Tornou-se igualmente necessário que os sistemas de parentesco fossem desestruturados, como resultado do desdobramento da crise da propriedade comunal, em benefício do avanço da divisão do trabalho social e do desenvolvimento do intercâmbio.

A essa supremacia lógica das categorias de conjunto, como agregado de elementos independentes, deve-se tanto a potência quanto os limites do advento da epidemiologia na modernidade, como a disciplina ou o método que busca taxas de morbi-mortalidade e correlações com possíveis fatores causais.

De acordo com a lógica dominante, as inferências lógicas, aplicadas ao trabalho dos cientistas, registra apenas duas aplicações: a dedução - aplicação de um conhecimento sobre a totalidade do conjunto a uma parte ou subconjunto — e a indução — a generalização do que se sabe acerca de uma parte do conjunto a todo o objeto. Derivar conclusões particulares (deduzir) ou produzir uma generalização (induzir) constituem as operações elementares do raciocínio científico. As demais formas de operar com o conhecimento são postas à margem pelas teorias metodológicas, pressupondo-se que sejam irracionais.

Ressurgimento do historicismo

Sem dúvida, a supremacia destes paradigmas do nascimento e da maturidade do capitalismo, cujo melhor emblema é a teoria newtoniana, está chegando ao fim. A transformações das sociedades atuais têm engendrado condições extremas de crise da própria matriz da modernidade e de seu tríplice registro. Mas a esta crise têm se somado perspectivas inspiradas em notáveis avanços científicos, estreitamente relacionados entre si: a cibernética, a teoria da informação e da comunicação, a investigação de sistemas complexos, as estruturas hierárquicas, as investigações semióticas etc.

Ε importante insistir sobre o fato de que todos estes avanços teóricos, somados à crise da modernidade, parecem conduzir a uma inesperada reaparição daquilo que representou o 'paradigma marginal' da modernidade: o historicismo e a dialética. Todos estes desenvolvimentos, na verdade, confluem para um paradigma que, adotando a conceituação de Buckley (1982), pode ser também denominado de paradigma morfogenético. Pode-se afirmar, sem dúvida, que este paradigma retoma a direção da epistemologia historicista de Vico e a dialética de Hegel e Marx.

Trata-se de uma epistemologia que incorpora a idéia do desenvolvimento de sistemas adaptativos complexos, que não somente possuem mecanismos de conservação das estruturas, mas, e sobretudo, de produção de novas estruturas, como sistemas intrinsecamente instáveis, inconstantes, e histórico-evolutivos. Tais modelos são mencionados porque proporcionam ricas analogias para se pensar a saúde e a enfermidade. Permitem contextualizar a noção de saúde no âmbito do que se pode designar de sistema sociocultural, com o que se alude a uma estrutura de processos morfogenéticos, mediante os quais o sistema se reproduz, incluindo nessa reprodução a produção de novas formas.

 

Perspectivas para a epidemiologia No contexto de novas analogias e paradigmas, que perspectivas se abrem para o debate epistemológico sobre a epidemiologia? Que novos desenvolvimentos, no âmbito da epidemiologia, possibilita esta forma de conceber a saúde-doença como funções da auto-regulação da reprodução social?

Conforme exposto anteriormente, o limite mais significativo dos modelos epidemiológicos que possibilitaram os paradigmas dedutivistas e indutivistas foi a lógica conjuntista, que forneceu o paradigma de base para pensar que a avaliação das situações de saúde das sociedades humanas somente podia ser efetuada mediante taxas e correlações, ou seja, mediante o cálculo de casos e sua referência a diferentes denominadores possíveis.

Diferentemente do que se pensa com bastante freqüência, não foi a hegemonia da medicina clínica que limitou os desenvolvimentos da epidemiologia. Ao contrário, foi a própria epidemiologia, inspirada na lógica conjuntivista, que vinculou seu 'destino' à locomotiva da nosografia e, com ela, ao cômputo de casos e à sua ponderação com relação a diferentes grupos populacionais. Tanto é verdade que, atualmente, a epidemiologia parece carecer de objeto-modelo, em um sentido teoricamente ambicioso.

Efetivamente, se entendemos por objeto-modelo a conceitualização de um campo da realidade mediante a seleção de um conjunto de variáveis, é necessário reconhecer que a epidemiologia parece carecer de variáveis próprias. Se, em relação às variáveis contextuais, ela lança mão das variáveis da sociologia ou da antropologia, em relação ao campo da saúde, conforma-se com taxas. O mais alto nível de teorização alcançado com a utilização destas taxas, ao menos na prática dominante deste campo, consiste em aproveitar a polissemia encerrada na palavra metafórica 'risco'. A pobreza deste nível de teorização foi examinada e criticada por

Almeida Filho em seu livro A 2 Clínica e a Epidemiologia (1992).

Talvez não seja inteiramente exagerado afirmar que a única noção de que a epidemiologia dispôs — desde seu advento até hoje, no sentido de buscar uma compreensão da saúde como fenômeno social - que possui hierarquia teórica para além de indicadores em estado bruto continua sendo a categoria durkheimiana de anomia. Como se sabe, Durkheim propôs que os valores das taxas de suicídio constituíssem indicadores de uma variável teórica que expressa uma condição relevante da vida das sociedades humanas. Não uma simples média ou proporção, mas uma propriedade

objetiva dos sistemas normativos sociais 3 e de sua potencialidade para organizar e conter a vida dos indivíduos. O sociólogo francês distinguiu três situações ou condições sociais típicas, defendendo a adoção de um novo conceito para interpretar uma situação preponderante nas sociedades contemporâneas: as transições aceleradas das estruturas econômicas (atualmente conhecidas como processos de reconversão), que determinavam superposições de sistemas normativos incompatíveis entre si, dando lugar a esse fenômeno particular batizado por ele de anomia.

Uma taxa de morbidade refere-se somente a um número maior ou menor de episódios; isso, ainda, não constitui um fato social. Assim como Marx sustentava que não é a quantia que uma pessoa tem no bolso que informa sobre sua classe social, mas sim a sua inserção no sistema de produção, não são essas taxas que revelam a saúde ou a doença das populações, mas sim a sua distribuição como expressão de algo presente na discursividade da vida cotidiana de uma população.

 

Nosografia versus semiótica narrativa e

discursiva

As vantagens decorrentes do renascimento do paradigma dialético (morfogenético) consistem, precisamente, em manter aberta a possibilidade de pensar a complexidade sem ter que lançar mão de uma redução de um nível a outro, do social ao individual, por exemplo. Permanece aberta a possibilidade de compreender os novos planos de realidade que se produzem nas interfaces hierárquicas, como na passagem do natural ao cultural. Com base neste paradigma, torna-se possível imaginar uma epidemiologia menos limitada pela nosografia que computa casos e calcula taxas, valendo-se de eventos individuais, que caminha na direção de uma epidemiologia mais inspirada nos processos normativos (cujo conteúdo é semiótico, comunicacional, e não unicamente físico).

Toda nosografia, como resultante de um tipificação de processos particulares, vê-se sempre às voltas com uma tendência a 'fisicalizar' seus tipos, ao invés de se deixar atravessar pelos seus fundamentos de caráter sociocultural.

Os desenvolvimentos epistemológicos contemporâneos, decorrentes especialmente da teoria da informação e da comunicação, permitem distinguir claramente as relações próprias do nível orgânico, das relações sociais. As primeiras implicam intercâmbios de energia físico-química, ao passo que as demais põem em jogo complexos processos de comunicação ou de intercâmbio de informação. As primeiras remetem à noção tradicional de causa eficiente, já as segundas remetem aos significados (isto é, aos efeitos desencadeadores da transmissão de informação, em contextos pragmáticos). De acordo com Buckley (1982:74), "o indivíduo que atua —a pessoa psicológica — é, em essência, uma organização que se desenvolve e mantém somente um intercâmbio simbólico com outras pessoas em permanente desenvolvimento e por meio de tal intercâmbio".

O 'fato' relativo à saúde-doença é concebido como um componente de um sistema de processos reais e simbólicos, como a expressão ou o sinal de que alguns desses processos foi interrompido, violado, bloqueado, perturbado e que os processos encarregados de reequilibrá-los ou não existem ou não estão operando como deveriam. Operando no sentido de restituir o anterior ou de criar uma nova alternativa de reordenamento, seria então uma visão concreta e dinâmica que inclua os componentes simbólico-comunicacionais em jogo. Isto supõe afirmar que a saúde/doença é, desde sempre, um fenômeno semiótico-comunicacional, uma instância de sentido significativa para sujeitos da cultura, e não apenas um fenômeno natural.

Parafraseando Buckley, poderíamos afirmar que o objeto das ciências da saúde é realmente social e a sociedade é, de fato, um fenômeno psíquicosemiótico. A epidemiologia terá como objeto-modelo um objeto que implica a produção de sentido, devendo suas variáveis explicar o sucesso ou o fracasso na produção do sentido.

 

A produção de sentido

O aspecto mais geral da produção de sentido se expressa, no âmbito formal, de maneira simples: somente há sentido quando a parte é relacionada ao todo ao qual pertence. A relação de significação é uma função dos vínculos que unem, de maneira viva, uma parte ao seu conjunto. Em outras palavras, somente se compreende aquilo que se pode referir a seus processos de formação ou construção na totalidade em que está inserido.

Desse modo, segundo as recentes investigações cognitivistas, a forma mais elementar e onipresente de produção de sentido por parte dos seres humanos consiste na narração. A fonte mesma da significação parece derivar da dinamicidade das estruturas do mundo da vida. Em conseqüência, para um integrante de uma configuração cultural, a reprodução de seu mundo é aquilo que é obviamente dotado de sentido, aquilo pelo qual não se pergunta nem se narra. Assim, não é a narração a criadora originária de sentido, mas sim a que restaura ou reengendra um sentido vivido como primário no momento em que ele já se perdeu. "A função da história é encontrar um estado intencional que mitigue ou pelo menos torne compreensível o desvio em relação ao padrão cultural canônico. Este objetivo é o que empresta verossimilhança a uma história." (Bruner 1992:61) (grifo do autor).

Mediante a narração, os membros de uma cultura reintroduzem a significação onde havia se produzido uma fratura, um hiato, uma situação excepcional, ou, como disse Giddens, a irrupção de "situações críticas" (1995:95).

Os processos de reprodução social constituem o que se pode denominar 'a discursividade esperada da vida'. Quando essa discursividade é interrompida, a narração constitui o procedimento mediante o qual os membros de uma cultura restituem esta discursividade esperada.

Conflitividade e contratualidade parecem ser, portanto, os dois pólos de uma incessante dialética, no âmbito da qual a sociedade e sua cultura vão se construindo e se preservando. Observamos então como a reprodução e a narratividade estão articuladas como duas rodas de engrenagens, como dois momentos do mundo da vida humana: a narratividade restitui o sentido no ponto em que a discursividade esperada (fonte primária de sentido) viu-se interrompida.

A natureza última da sociedade consiste em inserir-se em um

constante processo de construção,4 o que implica um processo contínuo de reconstrução de cada uma de suas subestruturas — indivíduos, famílias, grupos primários e secundários, organizações informais, instituições da sociedade civil, Estados etc. De acordo com Giddens (1995:95),

0 conceito de rotinização, ancorado em uma consciência

prática, é vitalpara a teoria da estruturação. Uma rotina é algo

inerente tanto à continuidade da personalidade do agente,

quando ele andapelos caminhos das atividades cotidianas,

quanto às instituições da sociedade, que são como são

somente em virtude de sua reprodução continuada.

A reprodução social é o conjunto de ações mediante as quais os diversos atores mencionados satisfazem, em uma hierarquia de combinações, as necessidades de seus próprios modos de funcionamento, em conformidade às regras que lhes dão validade — o reconhecimento social. A validação ou o reconhecimento social é a função assimiladora própria das subjetividades como fenômenos sociais. Essa função expressa o movimento de busca do equilíbrio dos integrantes na condição de protagonistas de um presente contratual com a memória semiótica de uma passado conflitivo.

Tomando-se essa nova perspectiva, a patologia, como entidade físicocomputável, perde esse valor fascinante, permanecendo, contudo, referida à patologia semiótico-narrativa, isto é, aos processos reprodutivos, ao conflito e às transações que emergem dos contextos socioculturais no âmbito dos quais é produzida. Na perspectiva da reprodução, o 'caso' deixa de ocupar a posição central, cedendo esse posto aos contextos, aos ambientes e aos mecanismos por intermédio dos quais se reproduzem ou renegociam constantemente os processos que tecem a discursividade esperada da vida. A relação de causalidade cede a vez à noção, mais rica e complexa, de 'significação' e 'estruturação'.

De tudo o que foi exposto, depreende-se que os desenvolvimentos científicos e metodológicos contemporâneos exigem da epidemiologia uma profunda revisão epistemológica, capaz de torná-la apta para reexaminar seus conceitos básicos, seu objeto, suas categorias de análises, seus procedimentos investigativos, suas relações interdisciplinares etc. No cenário dessa revisão, deve-se incluir o vasto campo da significação que procura se constituir no âmbito das situações críticas, campo que configura o processo patológico. Significação que o ato clínico freqüentemente perde quando limita a história clínica a um mero registro de fatos. Não importa se fatos biológicos ou sociais, meros fatos dos quais se eliminou o sentido que lhes é conferido pela narração do paciente, no momento mesmo em que este narra sua situação crítica, impregnada de vínculos com os processos de reprodução continuada das instituições e da sociedade global. Talvez os objetos dos epidemiologistas, ao solapar a reprodutibilidade da vida diária, estejam mais próximos destes processos que engendram situações críticas do que do conteúdo de casos patológicos e das suas associações com variáveis sociais e econômicas. Em outras palavras, talvez tenha chegado a hora de completar o conceito de 'significação estatística', que meramente nos informa que é pouco provável que uma certa associação se deva ou não ao acaso, lançando mão do conceito de 'significância narrativa', que nos informa que os processos de estruturação social contêm oposições que produzem conseqüências perversas, associadas significativamente a essas circunstâncias particulares narradas por cada paciente.

 

Referências bibliográficas

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* Tradução: Cláudia Bastos

1 Adota-se o critério de Bidet (1993) que distingue três dimensões na matriz da modernidade: a contratualidade interindividual, a 'centricidade' e a associatividade.

2 O capítulo 2, Risco: objeto-modelo da epidemiologia, ilustra bem esse ponto.

3 "As tendências coletivas têm uma existência própria: são forças tão reais como as forças cósmicas, ainda que sejam de outra natureza, moldam igualmente o indivíduo de fora, embora isso ocorra por outras vias.(...) Mas qualquer que seja o nome que lhe é dado, importa reconhecer sua realidade e concebê-la como um conjunto de energias que determinam nossas ações proveniente de fora, assim como o fazem as energias físico-químicas cuja ação sofremos. Deste modo são coisas suigeneris e não entidades verbais" (Durkheim, 1965:249).

4 "A natureza última do real consiste em estar em construção permanente, ao invés de consistir em uma acumulação de estruturas já realizadas" (Piaget, 1969:62).