Terras do Sem Fim
Terras do Sem Fim
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
- Tu acha bom m atar gente? Tu não sente nada? Nada por dentro? Por que ninguém pode olhar o sol de cara para cim a? Não há quem aguente. Tam bém aos hom ens que m atara, Dam ião nunca havia olhado depois. Não tinha tem po, tinha que arribar logo depois de feito o "trabalho". Tam bém nunca tivera o desgosto de saber que um ficara com vida, com o o finado Vicente Garangau que tinha tanta fam a e foi acabar nas m ãos de um em quem atirara. Não foi se certificar se o hom em estava m orto m esm o e depois term inou daquela m aneira horrorosa, cortado aos pedacinhos. . Dam ião tam bém nunca foi ver nenhum dos que derrubou. Com o ficariam ? Ele j á viu m uito hom em m orto, m as com o seria que haviam de ficar os que ele m atou? Com o ficaria Firm o nessa noite de hoj e? Cairia de bruços sobre o burro, que o arrastaria na corrida, ou cairia logo no chão, o sangue correndo do peito? Assim de peito furado o levariam para casa quando o encontrassem no outro dia. Dona Teresa la estaria aflita com a dem ora. E que faria quando o visse chegar j á frio, m orto pelo negro Dam ião? As lágrim as desceriam pelo seu rosto branco de cal. Talvez até fizesse m al à prenhez dela. Talvez, com o choque, tivesse o filho antes do tem po. Talvez até m orresse, que era fraca, tão m agra na sua brancura... Assim , em vez de m atar um , o negro teria m atado dois. . . Teria m atado um a m ulher e isso um negro valente não faz... E o m enino? Não estava contando com o m enino. Com o m enino - Dam ião contou nos dedos – eram três. . . Agora j á não discutia que Teresa estivesse grávida. Era um a coisa certa para ele. Ia m atar três nessa noite.. Um hom em , um a m ulher e um m enino. Os m eninos são tão lindos, bons para o negro Dam ião, gostam dele. Com aquele tiro ele ia m atar um ... E tam bém a dona Teresa, a carne branca m orta no caixão de defuntos, o enterro saindo para o cem itério de Ferradas que era o m ais perto. Ia ser preciso m uita gente para levar os três caixões. Iriam buscar gente pela redondeza, possivelm ente acudiriam à fazenda dos Badarós. E Dam ião viria e levaria o caixãozinho azul da criança que estaria vestida de anj o... Era quase sem pre ele quem levava os caixões de "anj o' quando um a criança m orria na fazenda. Dam ião arranj ava flores silvestres, enfeitava o caixão, levava-o no om bro. Mas o do filho do Firm o ele não poderia levar... Pois se foi ele quem o m atou... O negro Dam ião faz força novam ente. Sua cabeça não lhe obedece, por que? A verdade é que ele não m atou nenhum a criança, não m atou dona Teresa, não m atou nem m esm o a Firm o ainda. Nesse m om ento foi que a idéia de não m atar Firm o apareceu pela prim eira vez na cabeça do negro Dam ião. Levem ente apenas, ele não chegou propriam ente a pensar em não m atar. Foi um a coisa rápida e fugidia, m as ainda assim o am edrontou. Com o não cum prir um a ordem de Sinhô Badaró? Hom em direito, Sinhô Badaró. Dem ais gostava dele, do seu negro Dam ião. Na estrada conversava com ele, tratava-o quase com o a um am igo. E Don'Ana tam bém . Lhe davam dinheiro, seu salário era dois m il e quinhentos réis por dia, m as em verdade ele tinha m uito m ais, cada hom em que derrubava era um a gratificação na certa. Além de que trabalhava pouco, há m uito que não ia para as roças, ficava sem pre fazendo pequenos serviços na casagrande, acom panhando o coronel nas suas viagens, brincando com as crianças, esperando ordens para m atar um hom em .. Sua profissão: m atar. Agora Dam ião se dá perfeita conta disso. Sem pre lhe parecera que ele era um trabalhador da fazenda dos Badarós. Agora é que via que era apenas um "j agunço". Que sua profissão era m atar, que, quando não havia hom ens que derrubar na estrada, ele não tinha nada que fazer. Acom panhava Sinhô m as era para guardar a vida dele, era para baixar algum que quisesse balear o coronel. Era um assassino.. Essa fora a palavra que Sinhô Badaró em pregara a respeito de Juca, na conversa daquela tarde. Palavra j usta para ele tam bém . Ainda agora que fazia ali senão esperar um hom em para atirar nele? Estava sentindo algum a coisa por dentro, algum a coisa que era terrivelm ente dolorosa. Doía com o um a ferida. Era com o se o tivessem apunhalado por dentro. A lua brilha sobre a m ata silenciosa. Dam ião se lem bra que pode fazer um cigarro, assim terá algum a coisa em que se ocupar.
Quando acabou de acender o cigarro a idéia voltou: e se ele não m atasse Firm o? Agora chegou com o um a coisa definida, Dam ião se encontrou pensando no assunto. Não, isso não era possível. Dam ião sabia perfeitam ente por que Sinhô Badaró necessitava da m orte de Firm o. Era para poder m ais facilm ente se apossar da sua roça e m archar para as m atas de Sequeiro Grande. Quando os Badarós tiverem aquelas m atas vão ter a fazenda m aior do m undo; vão ter m ais cacau que o resto de toda gente j unta, vão ser m ais ricos que m esm o o coronel Misael. Não, deixar de liquidar Firm o nessa noite era faltar à confiança que Sinhô depositava nele. Se o m andara é porque confiava no negro Dam ião. Tinha que m atar. Se aferrou a esse pensam ento. Matara tantos antes, por que hoj e era tão difícil? O pior era Teresa, a branca dona Teresa, com um filho no bucho. Ia m orrer com certeza, o m enino tam bém . Está vendo dona Teresa, antes aqui era o branco luar que caía, agora é o rosto alvo da m ulher de Firm o. Nem que tivesse bebido, um porre m ãe. Outros bebiam antes de ir liquidar um hom em . Ele nunca precisou. Veio sem pre calm o, confiante na sua pontaria. Nunca precisou tom ar um trago com o os outros, se ? em bebedar para atirar num hom em . Mas hoj e se encontra m o se tivesse bebido m uito e a cachaça tivesse subido. Está vendo no chão o rosto branco de dona Teresa. Antes era o luar, alvo de leite, se derram ando sobre a terra. Virou dona Teresa, de rosto branco e aflito, de rosto aberto num a surpresa trágica; estava esperando o m arido para o am or, ele chegava m orto, um a bala no peito. Do chão ela olhava para o negro Dam ião. Está pedindo que ele não m ate Firm o, que pelo am or de Deus ele não m ate... No chão de luar o negro vê perfeitam ente visto o rosto de Teresa. Se estrem ece todo, seu enorm e corpo de gigante.
Não, não podia atender, dona Teresa. Sinhô Badaró m andou, o negro Dam ião tem que fazer. Não podia trair a confiança de um hom em direito com o Sinhô Badaró. Ainda se fosse Juca que tivesse m andado.. Mas era Sinhô, dona Teresa, esse negro não pode fazer nada. A culpa tam bém é de seu m arido... Por que diabo ele não vende a roça? Não tá vendo que contra os Badarós ele não pode lutar? Por que ele não vendeu a roça, dona Teresa? Não chore que o negro Dam ião é capaz de chorar tam bém ... E um cabra valente não pode chorar que se desm oraliza. O negro Dam ião lhe j ura que se pudesse não m atava Firm o, lhe fazia a vontade. Mas foi Sinhô quem m andou, negro Dam ião tem que obedecer... Quem disse que Dona Teresa era boa! m entira. Agora ela abre a boca e com sua voz m usical repete aquelas palavras de Sinhô Badaró:- Tu acha bom m atar gente Tu não sente nada? Nada por dentro? A voz dela é m usical m as é terrível tam bém . Soa com o um a praga na m ata, no coração am edrontado do negro. O cigarro se apagou, ele não tem coragem de riscar um fósforo para não despertar as assom brações da m ata. Só agora pensou nelas porque esse rosto de dona Teresa se desenhando no chão é com certeza coisa de bruxaria. Dam ião sabe que m uita gente tem rogado praga contra ele. Parentes de gente que ele m atou. Pragas horríveis, ditas na hora do sofrim ento e do ódio. Mas eram coisas distantes. Dam ião apenas sabia delas por ouvir dizer. Agora não. É dona Teresa que está ali, seus olhos tristes, seu branco rosto, sua voz m usical e terrível. Am aldiçoando o negro Dam ião. Perguntando se ele não sente nada por dentro, lá no fundo do coração. Sente, sim , dona Teresa. Se o negro Dam ião pudesse não m atava Firm o. Mas não tem j eito, não é porque ele queira, não. . .
E, se dissesse que errou o tiro? Era um a idéia nova, ilum inou o cérebro de Dam ião. Por um segundo ele viu o luar em vez do rosto de Teresa. Ficaria desm oralizado, outros cabras não erravam a pontaria, quanto m ais o negro Dam ião! Sua pontaria era a m elhor de toda aquela zona do cacau. Nunca dera dois tiros para m atar um hom em . Bastou sem pre com o prim eiro. Ficaria desm oralizado, toda a gente ia rir dele, até as m ulheres, até os m eninos. Sinhô Badaró daria seu lugar a outro... Iria ser um trabalhador com o os outros, colhendo cacau, tocando burros, dançando na barcaça para secar os caroços m oles. Toda gente ia rir dele. Não, não podia. Dem ais ia trair da m esm a m aneira a confiança de Sinhô Badaró. O coronel precisava que Firm o m orresse, quem tinha culpa era m esm o Firm o que era tão cabeçudo. Dona Teresa sabe de tudo no m undo, é m esm o assom bração, porque ela agora está lem brando ao negro, desde o chão onde seu rosto substituiu novam ente o luar, que Sinhô estava indeciso naquela tarde, só m andou os hom ens porque Juca forçara. Dam ião levanta os om bros... Sinhô Badaró era lá hom em para decidir um a coisa só porque Juca insistia... Isso era não conhecer Sinhô Badaró... Bem se vê que dona Teresa não o conhece... Ela, porém , está lem brando detalhes e o negro Dam ião com eça a vacilar. E se Sinhô não quisesse tam bém a m orte de Firm o? Se tam bém ele tivesse pena de dona Teresa? Do filho que ela tem na barriga? Se ele tam bém estivesse sentindo algum a coisa por dentro com o o negro Dam ião Dam ião aperta a cabeça com as m ãos. Não, era verdade. Era tudo m entira de dona Teresa, de dona Teresa com suas bruxarias. Sinhô Badaró, se não quisesse que Firm o m orresse, não o m andaria. Sinhô Badaró só faz o que quer. Para isso ele é rico e é o chefe da fam ília. Juca tinha m edo dele, apesar de toda valentia que arrota. Quem é que não tinha m edo de Sinhô Badaró? Só m esm o o negro Dam ião. Mas, se não m atar Firm o, vai ter m edo toda vida, nunca m ais vai olhar direito para Sinhô Badaró.
Do chão a voz de dona Teresa se rindo do negro: "então é só de m edo de Sinhô Badaró que ele vai m atar Firm o? Com m edo de Sinhô Badaró? E esse é o negro Dam ião que se diz o cabra m ais valente da redondeza?..." Dona Teresa não ri, a risada cristalina e burlona sacode os nervos do negro. Ele está trem endo todo por dentro. A risada vem do chão, vem da m ata, da estrada, do céu, de toda parte, todos estão dizendo que ele tem m edo, que ele é um m edroso, um cagão, ele, o negro Dam ião falado nos j ornais... dona Teresa no ria m ais, eu sou capaz de lhe dar um tiro. Nunca atirei em m ulher, um hom em não faz isso. Mas sou capaz de atirar em vosm ecê, se vosm ecê não parar de rir. Não ria do negro Dam ião, dona Teresa. O negro não tem m edo de Sinhô Badaró.. Tem é respeito, não quer faltar á confiança que Sinhô tem nele. . Por Deus que é isso. . . Não ria m ais que eu lhe dou um tiro, lhe m eto bala nessa cara branca... Estão apertando seu peito. O que foi que puseram em cim a dele? Isso é bruxaria, é praga que lhe rogaram . Praga de m ulher em cim a do negro. Vem da m ata a voz que repete as palavras de Sinhô Badaró:
- Tu acha bom m atar gente? Tu não sente nada? Nada por dentro? A m ata inteira ri dele, a m ata toda grita aquelas palavras, a m ata toda aperta seu coração, dança na sua cabeça. Na frente dona Teresa, não é ela toda, é só o rosto. Isso é bruxaria, é praga que rogaram no negro. Dam ião sabe bem o que eles querem . Querem que ele não m ate Firm o... Dona Teresa está pedindo, o que ele pode fazer? Sinhô Badaró é um hom em direito, dona Teresa tem o rosto branco. Está chorando... Mas quem é? E dona Teresa com seu rosto no chão ou é o negro Dam ião? Está chorando... Dói m ais que talho de facão, que brasa chiando na carne do negro...
Prenderam seus braços, não pode m atar. Prenderam seu coração, ele tem que m atar.. . Pelo rosto negro de Dam ião choram os olhos azuis de dona Teresa... A m ata se sacode em riso, se sacode em pranto, a bruxaria da noite rodeia o negro Dam ião. ele sentou no chão e chora m ansam ente com o um a criança castigada. O ruído de um burro trotando aum enta na estrada. Vem m ais perto, cada vez m ais perto, sob o luar aparece o vulto de Firm o. O negro Dam ião alteia seu corpo, se levanta, um nó na garganta, suas m ãos trem em na repetição. A m ata grita em torno, Firm o se aproxim a.
7
- Cristal bacarat... - anunciou Horácio batendo com o dedo na taça. Sonoridades claras e pequenas se espalharam pela m esa. Horácio com pletou;- Me custou um dinheirão. . . Foi quando casei. Mandei buscar no Rio... O Dr. Virgílio tom ou da sua taça onde as gotas do vinho português m anchavam de sangue a transparência do cristal. Suspendeu-a à altura dos olhos:- É de refinado bom gosto. . .
Se dirigia a todos m as seu olhar dem orou em Ester com o a lhe dizer que ele, Virgílio, sabia perfeitam ente que o bom gosto era dela. Falava com sua bela voz cheia e m odulada e escolhia as palavras com o se estivesse num torneio de oratória. Saboreava o vinho com o um conhecedor, em pequenos goles que valorizavam a bebida. Suas m aneiras finas, seu lânguido olhar, sua cabeleira loira, tudo contrastava com a sala. Horácio o sentia vagam ente. Maneca Dantas se dava conta. Mas para Ester a sala não existia. Ela, com a presença do j ovem advogado, fora bruscam ente retirada da fazenda, j ogada para os dias do passado. Era com o se ainda estivesse no colégio de irm ãs, num a daquelas grandes festas de fim de ano, quando dançava com os rapazes m ais finos e distintos da capital. Sorria a respeito de tudo requintava tam bém nas palavras e nos m odos, um a doce m elancolia que era quase alegre andava dentro dela. "Era o vinho", pensava Ester. O vinho lhe subia facilm ente à cabeça. Pensava e bebia m ais e bebia tam bém as palavras do Dr. Virgílio.
- Foi um a festa em casa do senador Lago. . . Um baile com em orando exactam ente a sua eleição. Que festa, dona Ester! Algo inim aginável! O am biente era o que havia de m ais aristocrático. Estavam as Paivas - Ester conhecia as Paivas, haviam sido suas colegas - Mariazinha estava encantadora de tafetá azul. Parecia um sonho...
- Ela é linda... - fez Ester, e ia certa reserva em sua voz, que não escapou ao Dr.
Virgílio.
- Não, porém , a m ais linda do colégio no seu tem po... -esclareceu o advogado e Ester ruborizou se. Bebeu m ais vinho.
Virgílio continuou discorrendo. Falava de m úsica, lem brou um a valsa pelo nom e, Ester recordou a m elodia. Horácio interveio:
- Ester é um a pianista de m ão cheia, hein!
A voz de Virgílio num a súplica doce:
- Então, após o j antar irem os ter a alegria de ouvi-la.. . Não nas vai negar esse prazer. . .
Ester disse que não, há m uito que não tocava, j á tinha perdido a agilidade dos dedos e dem ais o piano estava que era um horror... desafinado, abandonado ali naquele fim de m undo. . .
Mas Virgílio não aceitou as desculpas. E se dirigiu a Horácio e lhe pediu que "insistisse j unto a dona Ester para que ela abandonasse a m odéstia e enchesse a casa de harm onia:' Horácio insistiu:
- Deixe de rodeio e toque pro m oço ouvir. Eu tam bém quero ouvir.. Afinal m eti um dinheirão nesse piano, o m aior que havia na Bahia, deu um trabalhão dos diabos trazer ele para aqui e pra que? Um dinheiro posto fora.. seis contos de réis. . .
Repetiu, era quase um desabafo:
- Seis contos postos fora... - e olhava Maneca Dantas, este era capaz de com preender o que ele sentia... Maneca Dantas achou que devia apoiar:- Seis contos é m uito dinheiro... É um a roça...
Dr. Virgílio tinha com pleta im punidade:
- Que são seis contos de réis, seis m íseros contos, se são em pregados em dar um a alegria à sua esposa, coronel?. . . - e levava o dedo ao alto, próxim o ao rosto do coronel, o dedo de unha bem tratada onde o rubi do anel de advogado brilhava escandaloso. - O coronel fala, m as garanto que j am ais gastou seis contos tão satisfeito com o quando com prou esse piano. Não é verdade?- Bem , que dei contente, é verdade. Ela tocava piano na casa do pai.. Eu não quis que ela trouxesse o de lá, um piano pequenininho, chinfrim , m uito reles. . - fez com a m ão enorm e um gesto de desprezo. - Com prei esse. Mas ela quase não toca. Um a vez na vida...
Ester ouvia m uda, um ódio ia subindo dentro dela. Maior ainda que o que sentira na noite do seu casam ento quando Horácio rasgou seus vestidos e se lançou sobre seu corpo. Estava ligeiram ente tom ada pelo vinho, em briagada tam bém pelas palavras de Virgílio, e seus olhos eram novam ente os trêfegos e sonhadores olhos da norm alista dos anos passados. E viram Horácio transform ado num grande porco suj o, igual a um que havia na fazenda e habitava os lam açais próxim os à estrada. E Virgílio surgia com o um cavalheiro andante, um m osqueteiro, um conde francês, m istura de personagens de rom ances lidos no colégio, todas nobres, audazes e belas. . Apesar de tudo, apesar do ódio - ou m esm o por causa do ódio? - era delicioso aquele j antar. Sorveu m ais um copo de vinho e anunciou sorrindo:
- Pois eu toco... - tinha falado para Virgílio e então voltou-se para Horácio. - Você tam bém nunca m e pediu... - sua voz era suave e m eiga e seu ódio se satisfazia porque ela agora com preendia que podia se vingar dele. Falou m ais, tinha desej os de, depois, m agoá-lo m uito:
- Pensava até que a m úsica não lhe agradava... Agora, que sei que você gosta, o piano não vai ter descanso.
Tudo havia m udado para Horácio. Essas não eram palavras contrafeitas. Essa não era a Ester de antes. Era outra. Que pensava nele, num desej o seu. Sentia um a sensação boa, um a coisa que rom peu as m uitas capas com que estava coberto o seu coração e o lavou de bondade. Talvez tivesse sido sem pre inj usto com Ester... Não a havia com preendido, ela era de outro m eio... Achou que devia lhe prom eter algum a coisa m uito grande, m uito boa, que a fizesse m uito feliz. Falou:
- Pelas festas, vam os à Bahia... - falava para ela, som ente para ela, não enxergava m ais ninguém na m esa.
E a conversa adquiriu novam ente sua brilhante norm alidade. Conversa gasta quase que som ente por Ester e Virgílio, descrições de festas, discussão sobre m odas, sobre m úsicas e rom ances. Horácio envolvido na adm iração da esposa, Maneca Dantas olhando de olhos astutos.
- Gosto de Jorge Ohnet. .. - esclareceu Ester. - Chorei quando li "O Grande Industrial".
Dr. Virgílio se fez levem ente m elancólico:
- Porque lhe encontrou algo de autobiográfico? Horácio e Maneca Dantas não com preendiam nada e a própria Ester dem orou um pouco em com preender. Mas quando o com preendeu, pôs um a m ão sobre o rosto e negou nervosam ente:
- Oh! não, não!
Suspiro de Dr. Virgílio:
- Ah!
Ela achou que tinha ido dem asiado longe.
- Isso não quer dizer...
Porém ele não queria saber. Estava radiante, seus olhos brilhavam e perguntou finalizando a conversa:
- Zola, j á leu Zola?
Não, não havia lido, as freiras no colégio não deixavam . Virgílio achou que, realm ente, para m ocinhas não estava bem . Mas um a senhora casada... ele tinha o "Germ inal" em Ilhéus. Ia m andar à dona Ester. As negras serviam as infindáveis sobrem esas. Ester propôs que tom assem o café na sala. Virgílio levantou-se rapidam ente, tom ou da cadeira da qual ela se levantava, puxou-a para trás fazendo espaço para ela sair. Horácio olhava com certa longínqua invej a. Maneca Dantas adm irava os m odos do advogado. Considerava que a educação era um a grande coisa. E pensou nos filhos e os im aginou, no futuro, iguais ao Dr. Virgílio. Ester saía da sala, os hom em a seguiram .
Chuviscava no cam po, um chuvisco m iúdo, atravessado pela claridade da lua. As estrelas eram m uitas, nenhum a outra luz em panava sua luz celeste. Virgílio chegou até a porta, andou um passo na varanda. Felícia entrava com a bandej a de café, Ester servia o açúcar. Virgílio voltou, fez a consideração com o se declam asse um poem a:
- Só na m ata se vê um a noite tão bela...
- Está bonita, sim ... - apoiou Maneca Dantas que m exia sua xícara de café. Voltou-se para Ester: - Mais um a colherzinha, com adre. Gosto de café bem doce...Mais um a vez atendeu ao advogado. - Muito bonita a noite e essa chuvinha ainda dá m ais graça... - fazia força para acom panhar o ritm o que Virgílio e Ester em prestavam à conversa. Ficou contente porque teve a im pressão de que dissera um a frase parecida com as deles.
- E o doutor? Pouco ou m uito açúcar?
- Pouco, dona Ester... Basta... Muito obrigado... A senhora tam bém não acha que o progresso m ata a beleza?
Ela entregou o açucareiro a Felícia, tardou um m inuto a responder. Estava pensativa e séria.
- Acho que o progresso tam bém tem tanta beleza...- Mas é que nas grandes cidades, com a ilum inação, nem se vêem as estrelas... E um poeta am a as estrelas, dona Ester... As da céu e as da terra...- Mas há outras noites que não são de estrelas...agora a voz de Ester era profunda, vinha do coração. - Nas noites de tem pestade é horroroso..- Deve ser terrivelm ente belo... - a frase subia pela sala, dançava diante de todos. Com pletou: É o belo horrendo...
- Talvez. . . - disse Ester. - Mas eu tenho m edo nessas noites - e o olhava com um olhar súplice, com o a um am igo de largos anos. Virgílio viu que ela j á não representava e teve pena, im ensa pena. Foi nesse m om ento que pousou os olhos nela com doçura e com verdadeiro interesse. E os pensam entos risonhos e astuciosos de antes desapareceram substituídos por algo m ais sério e m ais profundo.
Horácio se m eteu:
- Sabe de que essa tola tem m edo, doutor? Do grito das rãs quando as cobras engolem elas na beira do rio...
O Dr. Virgílio j á tinha tam bém ouvido aquele grito e tam bém ao seu coração ele confrangera. Disse apenas:
- Eu com preendo. . .
Foi um m om ento feliz, os olhos dela estavam puros e de um a alegria sã. Agora não representavam . Foi um segundo só m as foi o bastante. Nela não restou nem o ódio por Horácio.
Andou para o piano. Maneca Dantas com eçou a expor a Virgílio o seu negócio. Era um "caxixe" im portante, causa de m uitos contos de réis. Virgílio esforçava-se para prestar atenção. Horácio aparteava por vezes com sua experiência. Virgílio citou um a lei. Os prim eiros acordes vibraram na sala. O advogado sorriu:- Agora vam os ouvir dona Ester. Depois aum entarem os sua fazenda. . Maneca Dantas concordou num gesto, Virgílio se aproxim ou do piano. A valsa não cabia na sala, saía pelo cam po até a m ata nos fundos da casa. No sofá, Maneca Dantas com entou:
- Moço distinto, hein! E que talento! Diz que é até poeta... Com o fala... De advogado estam os bem servidos. . Tem tutano na cabeça. Horácio estendeu as grandes m ãos, esfregou-as um a na outra, sorriu seu sorriso para dentro:
- E Ester? Que é que você m e diz, seu com padre Quem é que tem em Ilhéus, e m esm o na Bahia – repetia - e m esm o na Bahia, um a m ulher tão educada?... Entende desses troços todos: francês, m úsica, figurinos, de tudo. . . Tem cabeça -batia com o dedo na testa - não é só boniteza. . . - falava com orgulho com o um dono falaria de um a propriedade sua. Sua voz respirava vaidade. E era feliz porque im aginava que Ester fazia m úsica para ele, tocava porque ele pedira. Maneca Dantas concordou balançando a cabeça. "A com adre era m ulher educada, sim ".
Junto ao piano, os olhos enternecidos, Virgílio trauteia a m elodia. Quando Ester term ina e vai levantar-se, ele lhe dá a m ão para aj udá-la. Ela fica em pé, bem próxim a a ele. Enquanto bate palm as, aplaudindo, Virgílio m urm ura para que só ela o ouça:
- É com o um passarinho na boca de um a cobra. . Maneca Dantas pedia, com entusiasm o, outra m úsica. Horácio vinha se chegando, Ester fez um esforço suprem o e prendeu as lágrim as. 8
Ao bordo da m ata o negro Dam ião esperava um hom em na tocaia. Ao luar via alucinações e sofria. Ao bordo de outra m ata, na sala da casa grande, o Dr. Virgílio punha seus conhecim entos da lei a serviço da am bição dos coronéis e descobria o am or nos olhos am edrontados de Ester. Junto á m ata que descam bava por detrás do m orro, na fazenda Sant'Ana da Alegria, a fazenda dos Badarós, António Vítor espera, os pés enfiados na água do rio. O rio corria m anso, pequeno e claro, e nas suas águas se m isturavam as folhas caídas dos cacaueiros e as que caíam do outro lado, das grandes árvores que os hom ens não haviam plantado. Aquelas águas lim itavam a m ata das roças, e António Vítor, enquanto espera, pensa que não tardará que os m achados e o fogo ponham a m ata abaixo. Seria tudo cacaueiro, o rio não m arcaria m ais nenhum a separação. Juca Badaró falava em derrubar aquela m ata nesse m esm o ano. Os trabalhadores se aprontavam para as queim adas, j á estavam sendo preparadas as m udas de cacau que encheriam o lugar que a m ata ainda ocupava. António Vítor gostava da m ata. Sua cidade de Estância, tão distante agora até no seu pensam ento, ficava dentro de um bosque, dois rios a cercavam e as árvores a penetravam nas ruas e nas praças. Ele se acostum ara m ais com a m ata, onde todas as horas eram horas de crepúsculo, que m esm o com as roças de cacau que explodiam no ouro velho dos frutos, lum inosos e brilhantes. Vinha para j unto da m ata quando, nos prim eiros tem pos, term inava o trabalho nas raças. Ali é que descansava. Ali recordava Estância todavia presente, recordava Ivone deitada na ponte sobre o rio Piauitinga. Ali sofria a doce dor da saudade. Nos prim eiros tem pos, que foram tem pos duros, a saudade roendo por dentro, o trabalho pesado, im ensam ente m ais pesado que no m ilharal que ele plantara com os irm ãos, antes de vir para estas terras do Sul. Na fazenda era o levantar-se às quatro da m anhã, preparar a carne seca para com er ao m eio-dia com o pirão de farinha, beber a caneca de café e estar na roça colhendo cacau às cinco, quando o sol apenas com eçava a sua subida pelo m orro de detrás da casa-grande. Depois o sol chegava ao cim o do m orro e doía nas costas nuas de Ancóneo Vítor, dos outros tam bém , principalm ente dos que haviam vindo com ele e não estavam acostum ados. Os pés afundavam nos atoleiros, o visgo do cacau m ole se grudava neles, de quando em vez a chuva vinha suj á-los ainda m ais pois atravessava as copadas roças e chegava carregada de gravetos, de insectos, de im undícies de toda classe. Ao m eio-dia - conheciam pelo sol - paravam o trabalho. Engoliam a bóia, derrubavam um a j aca m ole de um a j aqueira qualquer e era a sobrem esa. Mas j á o capataz estava gritando de cim a de seu burro que pegassem as foices. E recom eçavam até às seis horas da tarde quando o sol abandonava as roças. Chegava a noite triste e cheia de cansaço, sem m ulher com quem deitar, sem Ivone para acariciar na ponte que não existia, sem as pescarias de Estância. Falavam nesse dinheiro do sul. Um a dinheiram a de fazer m edo. Ali por aquele trabalho todo, eram dois m il e quinhentos réis por dia, em pregados inteiram ente no arm azém da fazenda, um saldo m iserável no fim do m ês, quando havia saldo. Chegava a noite, trazia a saudade com ela, pensam entos tam bém . António Vítor vinha para perto da m ata, m etia os pés no rio, cerrava os olhos e recordava. Os dem ais ficavam pelas casas de barro batido, j ogados nos leitos de tábuas, dorm indo quebrados de cansaço, outros cantavam saudosas tiranas. Gem iam as violas, versos de outras terras, lem branças de um m undo deixado para trás, m úsica de partir corações. António Vítor vinha para perto da m ata, trazia consigo suas recordações. Novam ente, pela centésim a vez, possuía Ivone na ponte de Estância. E era sem pre pela prim eira vez. Novam ente a tinha nos braços e novam ente m anchava de sangue seu desbotado vestido de flores verm elhas. Sua m ão calosa do trabalho nas roças era m ulher de suave pele, era Ivone se entregando. Sua m ão tinha a quentura, a m aciez, o requebro e dengue do corpo de m ulher. Crescia j unto da m ata, virava, no sexo de António Vítor, a vir em se entregando. Ali, na beira do rio, nos prim eiros tem pos. Depois o rio lavava tudo, corpo e coração, no banho noturno. Só restava m esm o o visgo de cacau m ole preso na sola dos pés, cada vez m ais grosso, igual a um estranho sapato.
Depois Juca Badaró se afeiçoara a ele. Prim eiro porque, quando derrubavam a m ata onde hoj e era a roça do Repartim ento, ele não a tem era com o os outros quando chegaram de noite, na tem pestade. Fora m esm o ele, António Vítor, quem derrubara a prim eira árvore. Hoj e era a roça do Repartim ento, onde as m udas de cacau com eçavam a virar troncos débeis ainda, m as j á próxim os á prim eira floração. Depois, no barulho de Tabocas, António Vítor baixara um hom em
- seu prim eiro hom em - para salvar Juca. É verdade que chorara m uito na volta para a fazenda, desesperado, é verdade que passou noites e noites vendo o hom em cair, a m ão no peito, a língua saindo pra fora. Mas isso passara tam bém . Juca o tirara do trabalho nas roças para o trabalho m uito m ais suave de "capanga". Acom panhava Juca Badaró na fiscalização do trabalho da fazenda, nas viagens repetidas que ele fazia aos povoados e à cidade, trocara a foice pela repetição. Conhecera as prostitutas de Tabocas, de Ferradas, de Palestina, de Ilhéus, tivera doença feia, levara um tiro no om bro. Ivone agora era um a som bra distante e vaga. Estância um a lem brança quase perdida. Restara o costum e de vir pela noite deitar no bordo da m ata, os pés dentro do rio.
E de esperar ali a Raim unda. Ela vinha pelas latas de água para o banho noturno de Don'Ana Badaró. Descia cantando, m as m al enxergava António Vítor parava o canto e fechava a cara, um ar de aborrecida. Respondia de m aus m odos ao cum prim ento dele e a única vez que ele quis pegá-la, apertá-la contra si, ela deu um j eito no corpo e atirara o cabra no rio, era forte e decidida com o um hom em . Nem por isso ele deixara de voltar todas as noites, apenas nunca m ais tentou abusar dela. Dava as boas noites, recebia a resposta resm ungada, ficava assobiando a m odinha que ela cantava pelo cam inho. Ela enchia a lata de querosene na beira no rio, ele aj udava-a a pô-la na cabeça. E Raim unda se perdia entre os cacaueiros, os pés grandes, m uito m ais negros que o rosto m ulato, afundando na lam a da picada. Ele se atirava n'água. Se estava distante o dia em que dorm ira com m ulher num povoado, possuía antes Raim unda que aparecia nua na sua m ão transform ada em sexo. Voltava pela roça de cacau, ia receber as ordens de Juca Badaró para o dia seguinte. Por vezes, Don'Ana m andava lhe dar um copo de pinga. António Vítor ouvia os passos de Raim unda na cozinha, sua voz que respondia ao cham ado do Don'Ana.
- Já tou indo, m adrinha.,
Era afilhada de Don'Ana se bem que fossem as duas da m esm a idade. Nascera no m esm o dia que Don'Ana, filha da negra Risoleta, cozinheira da casa-grande, um a negra linda, de ancas roliças e carne dura. Ninguém sabia quem era o pai de Raim unda que nascera m ulata clara, de cabelos quase lisos. Mas m uita gente m urm urava que não era outro que o velho Marcelino Badaró, o pai de Sinhô e de Juca. Essas m urm urações não foram m otivo para que dona Filom ena m andasse a cozinheira em bora. Ao contrário, foi Risoleta quem am am entou nos seus grandes seios negros a "sinhazinha" recém -nascida, a prim eira neta dos velhos Badarós. Don'Ana e Raim unda cresceram j untas nos prim eiros tem pos, um a em cada braço de Risoleta, um a em cada seio seu. No dia do batizado de Don'Ana, a m ulatinha Raim unda se batizou tam bém . A negra Risoleta escolhera os padrinhos. Sinhô, que era então um rapaz de pouco m ais de vinte anos, e Don'Ana que tinha apenas m eses. O padre não protestou, j á então os Badarós eram um a potencia diante da qual a lei e a religião se inclinavam . Raim unda cresceu na casa-grande, era a irm ã de leite de Don'Ana. E com o Don'Ana chegara inesperadam ente para alegrar a fam ília, na quase velhice dos avós, vinte anos depois da últim a m enina Badaró que enchera a casa de dengues, a fam ília toda fazia-lhe as vontades. E Raim unda ganhava as sobras desse carinho. Dona Filom ena, que era um a m ulher religiosa e boa, costum ava dizer que Don'Ana havia tom ado a m ãe de Raim unda e por isso os Badarós tinham que dar algo à m ulatinha. E era verdade: a negra Risoleta não tinha olhos para outra coisa no m undo que não fosse a "sua filha branca', a sua "sinhazinha", a sua Don'Ana. Por ela, na infância da m enina branca, chegara a levantar a voz contra Marcelino quando o velho Badaró tentava castigar a neta m im ada. p desobediente. A negra Risoleta virava fera quando escutava o choro de Don'Ana. Chegava da cozinha, os olhos brilhando, o rosto inquieto. Fora m esm o um a das diversões predilectas de Juca, então m eninote, fazer a sobrinha chorar para assistir á tem pestade de fúria de Risoleta. Esta o cham ava de "dem ónio", não o respeitava, chegara por vezes até a dizer que ele era "pior que um negro". Na cozinha, dizia ás outras negras, enxugando as lágrim as:
- Este m enino é um a pestinha...
Para Don'Ana a cozinha fora sem pre o grande lugar do asilo. Quando fazia um a traquinagem dem asiado grande fugia para ali, para j unto das saias de sua "m ãe negra" e ali nem m esm o dona Filom ena, nem m esm o o velho Marcelino, nem m esm o Sinhô que era seu pai, a vinham buscar. A negra se preparava com o se fosse para um a batalha. Raim unda fazia pequenos trabalhos caseiros, aprendia a cozinhar, m as na casa-grande lhe ensinaram tam bém costura e bordado, lhe ensinaram a ler as prim eiras letras, a assinar o nom e e a fazer contas de som ar e de dim inuir. Os Badarós acreditavam estar pagando a sua dívida. Risoleta m orrera com o nom e de Don'Ana na boca, olhando a filha de criação que lhe dera a alegria de estar ao seu lado naquela hora final. O velho Marcelino Badaró j á estava enterrado ha dois anos e há um ano falecera a sua filha, que casara com um com erciante e fora m orrer na Bahia, não tendo se acostum ado com a cidade, longe da fazenda. Dera de enfraquecer e pegara a tísica. Dona Filom ena tirou Raim unda da cozinha, a trouxe em definitivo para dentro da casa-grande. E protegeu sem pre a m ulatinha enquanto viveu. Depois, quando a esposa de Sinhô m orreu tísica, ficaram os padrinhos, Sinhô e Don'Ana, m as aos poucos Raim unda foi tendo um a vida igual às das dem ais criadas da casa: lavar, rem endar roupa, buscar água no rio, fazer os doces. Só que nas festas Don'Ana lhe regalava um corte de fazenda para um vestido m elhor e Sinhô lhe dava um par de sapatos e um pouco de dinheiro. Ela não tinha ordenado, para que precisava ela de dinheiro se tinha de tudo na casa dos Badarós? Quando Sinhô, pelas festas de São João e de Natal, lhe dava dez m il-réis, dizia sem pre:
- Vá guardando para o seu enxoval...
É que ele m esm o não se dava conta de que Raim unda pudesse ter nenhum desej o. No entanto, desde sua infância, o coração de Raim unda vivia cheio de desej os irrealizados. Prim eiro foram as bonecas e os brinquedos que vinham da Bahia para Don'Ana e nos quais lhe proibiam de tocar. Quantas surras não levara da negra Risoleta por bulir nos brinquedos da "irm ã de criação". Depois fora o desej o de m ontar com o Don'Ana num cavalo bem arreado e partir a correr os cam pos. E por fim desej ara ter, com o ela, algum as daquelas coisas tão lindas, um colar, um par de argolas, um pente espanhol para os cabelos. Herdara um destes, fora buscá-lo no lixo onde Don'Ana o j ogara com o inútil, os dentes partidos, restando dois ou três apenas. E, no seu pequeno quarto que um candeeiro ilum inava pelas noites, ela o colocava no cabelo e sorria para si m esm a. Talvez fosse esse o seu prim eiro sorriso daquele dia, pois Raim unda tinha um a cara séria e zangada, fechada para todos. Juca, que não deixava passar m ulher perto dele, fosse m ulher da vida ou m ulher casada na cidade, fossem as m ulatinhas na roça, m esm o as negras, nunca se m etera com Raim unda, talvez a achasse feia, o nariz chato contrastando com o rosto quase claro. Era zangada, a própria Don'Ana o notava e em geral, na fazenda, diziam que Raim unda era "ruim ", não era de bom coração. Parecia não estim ar ninguém , vivia sua vida calada, trabalhando com o quatro, recebendo, o que lhe davam , com um agradecim ento m urm urado. Assim crescera e se fizera m oça. Mais de um pretendente lhe aparecera, na certeza de que Sinhô Badaró não deixaria de aj udar aquele que casasse com sua afilhada, a irm ã de leite de Don'Ana. O em pregado do arm azém , um loiraço que viera da Bahia e sabia contas e lia livros, quis casar com ela. Era m agro, e fraco, usava óculos, Raim unda não aceitou, chorou quando Sinhô falou no assunto, disse que não e não. Sinhô fez um gesto de desinteresse com os om bros:
- Não quer, acabou-se... Não tou obrigando...
Juca ainda se m eteu:
Mas é um casam então... Um rapaz branco, instruído... Nunca m ais aparece outro igual. Nem
sei o que ele viu nessa negra...
Porém Raim unda, suplicou a Sinhô e esse deu o assunto por encerrado. Sinhô com unicou ao em pregado do arm azém a recusa de Raim unda, Juca Badaró lhe perguntou o que ele vira de bonito naquela cara fechada da m ulata. Tam bém Agostinho, que era capataz num a das roças dos Badarós, a desej ou e falou com ela. Raim unda respondeu de m aus m odos. Don'Ana tinha um a explicação para o fato:
- Raim unda nunca há de deixar a gente. Ela tem aquela cara fechada m as gosta da gente...