Terras do Sem Fim
Terras do Sem Fim
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Mas, de súbito, O grito de um a rã assassinada num charco por um a cobra atravessava a m ata, as roças, entrava pela casa adentro, era m ais alto que o pio das coruj as e o rum or das folhas, era m ais alto que o vento que assobiava, vinha m orrer na sala que a lâm pada de querosene ilum inava, estrem ecia o corpo de Ester. Silenciava a cantiga. Fechava os olhos e via - via nos m ínim os detalhes - o réptil que chegava devagar, Oleoso e repelente, se arrastando em curvas sobre a terra e as folhas caídas, de súbito se j ogava em cim a de um a rã inocente. E o grito de desespero, de despedida da vida, abalava as águas calm as do riacho, enchia de m edo, de m aldade e de dor, O cenário da noite am edrontadora. Nessas noites ela via as cobras em cada canto da casa, saindo de entre as gretas do tabuado, de entre as telhas, de cada vão de porta. Via de olhos fechados com o cada um a ia se arrastando, se aproxim ando cautelosam ente até o pulo fatal sobre as rãs. Trem ia sem pre que pensava que sobre o telhado podia estar um a delas, sutil e silenciosa, vindo de m anso para o leito de j acarandá, talvez para se enroscar no seu pescoço durante o sono. Ou então para penetrar no berço da criança e se enrodilhar sobre ela. Quantas noites passara sem dorm ir porque repentinam ente pensara que um a cobra descia pela parede? Bastava um rum or ouvido no princípio do sono. Era o bastante para enche-la de terror. Levantava-se, arrancava as cobertas, atirava-se para a cam a do filho. Quando se convencia de que ele estava dorm indo sem perigo, realizava um a busca por todo o quarto, O candeeiro num a m ão, Os olhos abertos de m edo. Horácio por vezes acordava e resm ungava na cam a, m as Ester continuava sua busca infrutífera. Não dorm ia m ais. Esperava e esperava com terror que ela chegasse. Apareceria de súbito, m ovendo-se pela cam a e Ester j á não poderia tentar nenhum a reacção. Chegava a sentir o estrangulam ento na sua garganta onde a cobra se enroscaria. Chegava a ver o filho m orto, vestido de anj o no caixão azul. No rosto a m arca dos dentes venenosos.
Certa vez foi um pedaço de corda entrevisto na escuridão que a fez soltar um grito que, igual ao das rãs, atravessou o cam po e o charco, foi m orrer na m ata. Ester se recorda de outra noite. Horácio viaj ara para Tabocas, ela estava só com a criança e as em pregadas. Dorm iam , quando pancadas na porta as despertaram . Felícia foi ver o que era e cham ou Ester aos gritos. Ela chegou e deparou com uns trabalhadores que traziam Am aro m ordido por um a cobra. Ester espiava da porta, sem querer se aproxim ar. Ouvia os hom ens que pediam m edicam entos e ouvia a explicação que um dava em voz rouca: "fora um a surucucu apaga-fogo, venenosa com o que". Am arraram a perna de Am aro com um cordão, acim a do lugar da m ordida. Felícia trouxe um a brasa da cozinha, Ester viu quando a puseram sobre a picada. A carne queim ada chiou, Am aro gem eu, um cheiro estranho se espalhou pela casa. Um trabalhador havia m ontado para ir a Ferradas em busca de um soro antiofídico. Mas o veneno teve um a acção m uito rápida. Am aro m orreu entre Ester, as negras e os trabalhadores, o rosto esverdeado, os olhos dem asiadam ente abertos. Ester não podia se desprender do cadáver e ouvia sair daquela boca para sem pre calada gritos dolorosos com o os das rãs assassinadas nos charcos. Quando Horácio chegou, pelo m eio da noite, de Tabocas, e deu ordem para que levassem o cadáver para um a das casas de trabalhadores, Ester teve um a crise de choro e pediu ao m arido, soluçando, que fossem em bora dali, que partissem para a cidade ou ela m orreria, as cobras viriam , seriam m uitas, a picariam toda, m atariam a criança, term inariam por estrangulá-la com seus anéis viscosos. Sentia no pescoço o frio do corpo m ole da cobra, um arrepio a percorria e chorava m ais alto. Horácio riu do m edo dela. E quando ele se tocou para a sentinela de Am aro, ela não quis ficar só em casa e tam bém foi. Os hom ens em torno do cadáver bebiam cachaça e contavam histórias. Histórias de cobras, a história de José da Tararanga que vivia bêbado e um a noite voltava para casa caindo de cachaça, na m ão direita o fifó aceso, na esquerda um litro de parati. Na curva da estrada a surucucu pulou no fifó, com o baque José da Tararanga caiu. Quando sentiu a prim eira picada da cobra abriu o litro e o bebeu todo. No outro dia, quando os hom ens passaram para o trabalho nas roças, encontraram José da Tararanga que dorm ia, a surucucu dorm indo tam bém enroscada no seu peito. Mataram a cobra, José da Tararanga tinha dezessete picadas, m as nada lhe aconteceu por causa da cachaça. O álcool diluiu o veneno, só que José inchou durante quinze dias, ficou do tam anho de um cavalo, depois foi ficando são.
Contaram tam bém de hom ens curados de cobra que as pegavam pelas estradas sem que elas nada fizessem . Bem próxim o da fazenda, m orava Agostinho que era "curado", cobra não lhe fazia m al, e ele, só para se divertir entregava o braço pra elas m orderem .
Joana, m ulher do tropeiro, que bebia com o qualquer dos hom ens, contou que, num a fazenda do sertão, onde ela vivera antes de vir para essas terras do sul, sucedera um a história triste.
Certa cobra penetrara na casa-grande ande os senhores estavam a passeio. Vinham sem pre no fim do ano e desta vez vinham felizes pois havia nascido um a criança. Mas a cobra entrara e fora se aninhar no berço da criança que era a prim eira dos senhores casados há pouco m ais de um ano. A criança chorava pelo seio m aterno e tom ou do rabo da cobra na sua inocência. No outro dia tinha na boca o rabo da j araraca que dorm ia m as j á não m am ava porque o veneno agira logo. A senhora saíra pelos cam pos, os cabelos de oiro soltos ao vento, os pés nus e alvos, com o Joana nunca vira iguais, pisando os espinhos, e dizem que nunca m ais voltara a ser perfeita da cabeça, que ficara idiota e enfeara, perdera toda aquela lindeza de rosto e de corpo. Antes, parecia um a destas bonecas estrangeiras, depois do acontecido ficara que nem um a bruxa de pano. A casagrande se fechou para sem pre, nunca m ais as senhores voltaram , a hera cresceu pelas varandas, o capim invadiu a cozinha e os que passam perto ouvem hoj e os pios das cobras que fazem ninho lá dentro. Joana term inou a sua narração, bebeu outro trago de cachaça, cuspiu, procurou com os olhos a Ester. Mas ela j á não estava, correra para casa, para j unto do filho, com o se fora enlouquecer tam bém .
Agora, na varanda, onde o sol brinca descuidado, Éster recorda essa e outras noites de terror. De Paris, Lúcia lhe escrevia, cartas que levavam três m eses a chegar e que traziam notícias de outra vida, de outra gente, de civilização e de festas. Aqui eram as noites da m ata, do tem poral e das cobras. Noites para chorar sobre o destino desgraçado. Crepúsculos que apertavam o coração, tiravam toda a esperança. Esperança de que? Tudo era tão definitivo na sua vida...
Chorava noutras noites tam bém . Quando via Horácio sair á frente de um grupo de hom ens para um a expedição qualquer. Sabia que nessa noite, em algum a parte soariam os tiros. Que hom ens m orreriam por um pedaço de terra, que a fazenda de Horácio, que era tam bém sua, aum entaria de m ais um pedaço de m ata. De Paris, Lúcia escrevia, contava bailes na Em baixada, óperas e concertos. Na casa-grande da fazenda, o piano de cauda esperava um afinador que nunca viera.
Noites em que Horácio saía na frente dos hom ens para expedições arm adas! Certa vez, depois dele partir, Ester se encontrou im aginando a m orte de Horácio. Se ele m orresse... Então as fazendas seriam som ente dela, entregaria ao pai para adm inistrá-las e partiria... Iria encontrar Lúcia... Foi porém um sonho curto. Para Ester, Horácio era im ortal, era o dono, o patrão, o coronel... Tinha certeza de que m orreria antes dele... Ele dispunha da terra, do dinheiro e dos hom ens. Era feito de ferro, nunca adoecera, parecia que as balas o conheciam e tem iam ... Por isso ela nem se abalou naquele sonho tão ruim e tão m aravilhoso... Para ela não tinha m esm o j eito, nem esperança. Sua vida era aquela, aquele era seu destino. E em Ilhéus quanta m oça não a invej ava Ela era a dona Ester, a m ulher do hom em m ais rico de Tabocas, do chefe político, dono de tantas terras plantadas de cacau e de tanta m ata virgem ...
Horácio chegou j unto da rede. Ester m al teve tem po de enxugar as lágrim as. Ele trazia na m ão um pequeno coco de cacau, prim ícia da roça nova. Vinha quase sorridente:
- A roça j á está botando...
Ficou parado, não com preendia por que ela estava chorando. Prim eiro lhe deu raiva:
- Por que diabo está chorando? Sua vida é chorar? Não tem tudo o que quer? Que é que lhe falta?
Ester prendeu o soluço:
- Não é nada... Besteira m inha...
Tom ou do fruto do cacaueiro, sabia que aquilo agradaria ao m arido. Horácio sorriu j á alegre, j á feliz da esposa, os olhos descendo pelo corpo dela. Ali estavam as únicas coisas que ele am ava no m undo: Ester e cacau. Sentou-se j unto a ela na rede, perguntou:
- Por que chora, tola?
- Não estou m ais chorando...
Horácio ficou pensando, logo falou, os olhos estirados para o lado das roças, o pequeno coco de cacau na m ão calosa:
- Quando o m enino crescer - sem pre cham ava o filho de "m enino" - ele há de encontrar tudo isso aqui cheio de roça. Tudo cultivado... Ficou m ais tem po calado, por fim concluiu:
- Meu filho não vai precisar viver socado nas brenhas com o a gente. Vou m eter ele na política, vai ser deputado e governador. Pra isso é que faço dinheiro. Sorriu para Ester, desceu a m ão pelo corpo dela. Depois avisou:- Enxugue esses olhos, m ande fazer um j antar direito que hoj e vem com er aqui o Dr. Virgílio, esse advogado novo que tá em Tabocas e é protegido do Dr. Seabra. E você se vista direito tam bém . E preciso m ostrar ao m oço que a gente não é bicho do m ato..
Riu sua risada curta, deixou com Ester o coco de cacau, saiu para dar ordens aos trabalhadores. Ester ficou pensando nesse j antar da noite, com esse tal de advogado, igual naturalm ente ao Dr. Rui que se em briagava e ficava, na hora da sobrem esa, a cuspir para todos os lados e a contar histórias porcas... E, de Paris, Lúcia escrevia cartas, falava de festas e de teatros, de vestidos e de banquetes... 5
Os dois hom ens transpuseram a porta, o negro falou:- Mandou cham ar, coronel?
Juca Badaró ia dizer que eles entrassem , m as o irm ão fez um gesto com a m ão que eles
esperassem lá fora. Os hom ens obedeceram e sentaram num dos bancos de m adeira que estavam na varanda larga da casa-grande. Juca andou de um lado para outro da sala, pitou o cigarro. Esperava que o irm ão falasse. Sinhô Badaró, o chefe da fam ília, descansava num a alta cadeira de braços, cadeira austríaca que contrastava não só com o resto do m obiliário, bancos de m adeira, cadeiras de palhinha redes nos cantos, com o tam bém com a m ística sim plicidade, das paredes caiadas. O relógio na sala de j antar deu as cinco horas da tarde. Sinhô Badaró pensava, os olhos sem icerrados, a longa barba negra se estendendo sobre o peito. Levantou os olhos, espiou Juca que andava nervosam ente pela sala, o rebenque num a m ão, o cigarro fum egando na boca. Mas logo desviou os olhos e fitou o único quadro da parede, um a reprodução oleográfica de um a paisagem de cam po europeu. Ovelhas pastavam num a suavidade azul. Pastores tocavam um a espécie de flauta e um a cam ponesa, loira e linda, bailava entre as ovelhas. Descia um a im ensa paz da oleogravura. sinhô Badaró se lem brou de com o a com prara. Entrara casualm ente num a casa de sírios na Bahia para avaliar um relógio de ouro. Vira o quadro e se lem brara que Don'Ana há m uito dizia que as paredes da sala necessitavam de algo que as alegrasse. Por isso o com prara e só agora reparava nele atentam ente. Era um cam po tranquilo, de ovelhas, pastores, flautas e baile. Azul, quase cor do céu. Bem diferente era esse cam po deles Essa terra do cacau. Por que não haveria de ser assim tam bém com o esse cam po europeu? Mas Juca Badaró andava im paciente de um lado para outro, esperava a decisão do irm ão m ais velho. A Sinhô Badaró repugnava ver correr sangue de gente. No entanto m uitas vezes tivera que tom ar um a decisão com o a que Juca esperava naquela tarde. Não era a prim eira vez que ordenava que um ou dois de seus hom ens fossem se postar na "tocaia" para esperar alguém que passaria na estrada.
Olhou o quadro. Bonita m ulher... De faces rosadas, os olhos celestes. Mais bonita talvez que Don'Ana. . . E os pastores eram sem dúvida bem diversos dos tropeiros da fazenda... Sinhô Badaró gostava da terra e de plantar a terra. Gostava de criar anim ais, os grandes bois m ansos, os nervosos cavalos, as ovelhas de terno balar. Mas lhe repugnava ter de ordenar a m orte de hom ens. Por isso dem orava sua decisão, só a pronunciava quando via que era o único cam inho. Ele era o chefe da fam ília, estava construindo a fortuna dos Badarós, tinha de passar por cim a daquilo que Juca cham ava as "suas fraquezas". Nunca havia reparado antes, detidam ente, naquele quadro. O colorido azul era um a beleza... Bem m ais bonito que qualquer folhinha de fim de ano, e havia folhinhas lindas. . .
Juca Badaró parou em frente ao irm ão:
- Eu j á lhe disse, sinhô, que não há outro j eito... O hom em em pacou que nem um j um ento... Que não vende a roça, que não há dinheiro, que ele não precisa... E você bem sabe que Firm o sem pre teve fam a de cabeçudo. .. Não tem j eito m esm o.
Sinhô Badaró arrancou com tristeza os olhos da oleografia:- É pena que é um hom em que nunca fez m al à gente. . . Se não fosse porque esse é o único j eito de estender a fazenda prós lados de Sequeiro Grande... Senão vai cair nas m ãos de Horácio...
Sua voz se alterou ligeiram ente quando pronunciou o nom e odiado. Juca aproveitou:
- Se a gente não m anda fazer o serviço, Horácio m anda na certa. E quem tiver a roça de Firm o tem a chave das m atas de Sequeiro Grande.. Sinhô Badaró estava perdido novam ente na contem plação do quadro. Juca continuou:
- Tu sabe, Sinhô, que ninguém conhece terra pra cacau com o eu conheço. Tu veio de fora m as eu j á nasci aqui e desde m enino que aprendi a conhecer terra que é boa pro plantio. Posso te dizer que basta eu pisar num a terra e sei logo se ela presta ou não pro cacaueiro. É um a coisa que tenho na sola dos pés. Pois eu te digo que não há terra m elhor pra lavoura de cacau que as de Sequeiro Grande. Tu sabe que eu j á passei m uita noite dentro daquele m undo de m ata espiando a terra. E se a gente não chega lá depressa, Horácio chega antes. Ele tam bém tem faro. . .
Sinhô Badaró passou a m ão pela barba negra:
- E engraçado, Juca, tu é m eu irm ão, tua m ãe foi a m esm a velha Filom ena que m e pariu e Deus tenha em sua guarda. Teu pai era o finado Marcelino que era o m eu pai tam bém . E nós dois é tão diferente um do outro com o pode ser duas pessoas no m undo. Tu gosta de resolver logo tudo com tiros e m ortes. Eu queria que tu m e dissesse: tu acha bom m atar gente? Tu não sente nada? Nada por dentro? Aqui! - e Sinhô Badaró m ostrava o lugar do coração. Juca pitou o cigarro, bateu com o rebenque na bota enlam eada, andou pela casa. Depois falou:
- Se eu não te conhecesse, Sinhô, m o eu te conheço, e se não te respeitasse com o m eu irm ão m ais velho, eu era até capaz de pensar que tu era um cagão.- Tu não respondeu o que eu te perguntei.
- Se gosto de ver a gente m orrer? Nem sei m esm o. Quando tenho raiva de um , sou capaz de cortar ele devagarinho. Tu sabe...- E quando não tem raiva?
- Toda vez que um se m ete na m inha frente tem que sair pra eu passar. Tu é m eu irm ão m ais velho e é tu quem resolve das coisas da fam ília. Tu é que Pai deixou tom ando conta de tudo: das roças, das m eninas, de m im m esm o. Tu é que tá fazendo a riqueza dos Badarós. Mas eu te digo, Sinhô, que se eu tivesse no teu lugar a gente tinha duas vezes m ais terra.
Sinhô Badaró levantou-se. Era alto de quase dois m etros a barba rolava-lhe pelo peito, negra de tinta. Os olhos se acenderam , sua voz encheu a sala:- E quando tu j á m e viu, Juca, deixar de fazer um a coisa quando era necessário? Tu bem sabe que eu não tenho esse gosto de sangue que tu tem . Mas quando tu j á viu eu deixar de m andar liquidar um quando houve necessidade? Juca não respondeu. Respeitava o irm ão e talvez a única pessoa do m undo que ele tem esse fosse Sinhô Badaró. Este baixou a voz:- Só que não sou com o tu, um assassino. Sou um hom em que só faz as coisas por necessidade. Tenho m andado liquidar gente, m as Deus é testem unha que só faço quando não tem j eito. Sei que isso não vale nada quando chegar o dia de prestar contas lá em cim a - apontava o céu.:Mas para m im m esm o, tem o seu valor. Juca esperou que o irm ão se acalm asse.
- Tudo isso por causa de Firm o, um idiota cabeçudo. Tu pode m e cham ar do que quiser, eu não m e im porto. Agora só te digo um a coisa: não há terra pra cacau com o as de Sequeiro Grande e se tu quer elas prós Badarós não há j eito m esm o... Film o não vende a roça.
Sinhô Badaró fez um gesto com a m ão, Juca com preendeu, cham ou os hom ens que estavam na varanda. Mas, antes que eles entrassem , disse:- Se tu não quer, eu explico tudo aos cabras.
Sinhô sem icerrou os olhos, sentou-se na alta cadeira:- Quando decido um a coisa, tom o a responsabilidade. Eu m esm o falo. Olhou o quadro, tão tranquilo na sua paz azul. Se aquela terra retratada na oleogravura fosse boa para o cultivo do cacau ele, Sinhô Badaró, teria que m andar j agunços pra detrás de um a árvore, para a "tocaia", j agunços que liquidassem os pastores que tocavam gaita, a m oça rosada que dançava tão alegre... Os hom ens estavam esperando, ele fez um esforço, esqueceu toda a cena do quadro, a m ulher parando seu baile com o tiro que ele m andara dar, com eçou a repetir ordens com sua voz pausada de sem pre, firm e e calm a. 6
Pela estrada onde o venta da tarde levanta um a poeira verm elha de barro vão dois hom ens, cada um com sua repetição a tiracolo. Viriato, m ulato sarará que viera do sertão, propõe um a aposta:
- Tou apostando cinco m il-réis que o hom em vem é do m eu lado. . .
Acontecia que a estrada real se bifurcava nas proxim idades da fazendola de Firm o. Por isso Sinhô Badaró m andara dois hom ens. Um para cada cam inho. O negro Dam ião, que era seu hom em de confiança, certeiro na pontaria, devotado com o um cão de caça, ficaria no atalho por onde era m ais provável que Firm o passasse, econom izando cam inho e tem po. Viriato esperaria na estrada real, por detrás de um a goiabeira onde j á outros haviam caído antes. Viriato está propondo um a aposta e apesar de que é quase certo que Firm o venha pelo atalho, Dam ião não aceita. Viriato se adm ira:
- Tou te desconhecendo, irm ão. Tá curto de aram e?...
Mas não era porque lho faltasse cinco m il-réis, salário de dois dias, que Dam ião não aceitava. Muitas vezes havia apostado m ais que isso, em outras tocaias, noutras tardes com o esta. Mas hoj e há algum a coisa que o im pede de aceitar.
A noite vai caindo sobre os dois hom ens na estrada deserta de viandantes. Só encontraram até agora um hom em m ontado num burro que os olhou m uito e logo esporeou o burro pedindo distância. Quem não conhece nessas redondezas ao negro Dam ião, o j agunço de confiança de Sinhô Badaró Sua fam a corre terra, há m uito que está além da Palestina, de Ferradas e de Tabocas. Dos botequins de Ilhéus; onde com entavam seus feitos, ele viaj ara nos pequenos navios até a capital e um j ornal da Bahia j á publicara seu nom e em letra redonda. Com o era um j ornal de oposição falava m uito m al dele, cham ava-o de nom es feios. Dam ião se lem bra perfeitam ente desse dia: Sinhô Badaró o m andara cham ar na casa-grande na hora do alm oço. Estava m uita gente na m esa, onde as garrafas de vinho destapadas revelavam a presença do j uiz. Estava tam bém o Dr. Genaro, o advogado dos Badarós, e fora ele quem trouxera o j ornal. Dr. Genaro não era brilhante com o o Dr. Rui, não sabia fazer aqueles discursos cheios de palavras bonitas, m as conhecia m eticulosam ente todos os intrincados detalhes da lei e de com o passar por cim a da lei, e Sinhô Badaró o preferia a qualquer dos vários advogados do foro de Ilhéus. Sinhô Badaró sorriu para Dam ião, m ostrou-o aos outros:
- Tá aqui a fera. . .
Com o ele riu, Dam ião riu tam bém , seu largo riso inocente, os dentes brancos e perfeitos brilhando na enorm e boca negra. O j uiz bêbado riu alegrem ente m as o Dr. Genaro apenas sorriu e dava a im pressão de que o fazia por pura cortesia. Sinhô Badaró continuou, agora falava para Dam ião:
- Tu sabe, negro, que os j ornais da capital tão se ocupando de ti Diz que não há m elhor m atador nessa zona que Dam ião, o cabra de Sinhô Badaró. Dizia com orgulho e com orgulho Dam ião respondeu:- E verdade, Sinhô, sim . Não sei de cabra m ais certeiro na pontaria que esse negro que tá aqui
- e riu novam ente com satisfação.
Dr. Genaro engoliu em seco, encheu seu copo. O j uiz acom panhou a gargalhada de Sinhô Badaró. Esse leu a notícia para Dam ião que só a com preendeu pela m etade, havia m uitos term os dem asiado difíceis para ele. Mas se foi satisfeito porque Sinhô Badaró gritara para dentro:- Don'Ana! Don'Ana!
A filha chegou da cozinha onde dirigia o andam ento do alm oço, era m orena e forte, silvestre flor da m ata:
- Que é, pai?
O j uiz a olhava de olhos interessados. Sinhô Badaró ordenou:- Tira cinquenta m il-réis do cofre e dá a Dam ião. O nom e dele anda pelos j ornais..
Depois despediu o negro e a conversa continuara na sala de alm oço. Dam ião fora a Palestina gastar o dinheiro com as ram eiras. Bebera a noite toda e a toda gente contava que um j ornal da Bahia tinha escrito que não havia pontaria com o a dele.
Por isso o hom em m ontado esporeava o burro. Sabia que tiro do negro Dam ião era caixão de enterro encom endado e sabia tam bém que cabra de Sinhô Badaró era cabra garantido, não havia polícia para eles. Toda a gente sabia que o j uiz era hom em dos Badarós, até roça tinham botado para ele, os Badarós estavam por cim a na política, contavam com a j ustiça. Quando o hom em esporeou o burro, Viriato riu se divertindo. Mas o negro Dam ião ficou sério e Viriato repetiu:- Tou te desconhecendo, irm ão..
Dam ião tam bém estava se desconhecendo. Muitas vezes j á fora para outras "tocaias", esperar hom ens a quem m atar. E hoj e era com o se fosse pela prim eira vez.
Aqui a estrada se bifurcava. Viriato insistiu:
- Não quer apostar, negro
- Já disse que não.
Se separaram , Viriato foi assobiando. A noite descera com pletam ente, a lua iniciava sua subida para o céu. Noite boa para um a "tocaia". Se via a estrada com o se fosse de dia. O negro Dam ião tom ou pelo atalho, sabia de um a árvore m agnífica para a espera. Era um a j aqueira frondosa na beira da estrada, parecia de propósito para um hom em se esconder atrás dela e atirar no que passasse. "Nunca atirei em nenhum dessa j aqueira", pensou Dam ião. O negro vai triste, desde a varanda ele ouvira a conversa dos irm ãos Badarós. Ouvira o que Sinhô dissera a Juca e é isso que o perturba nessa noite. Seu coração inocente está apertando num a agonia. Nunca Dam ião se sentiu assim . Não com preende, nada lhe dói no corpo, não está doente, e no entanto era com o se o estivesse. Se antes alguém lhe dissesse que era terrível esperar hom ens na "tocaia" para m atá-los, ele não acreditaria, pois seu coração era inocente e livre de toda a m aldade. As crianças da fazenda adoravam o negro Dam ião que servia de cavalo para as m ais pequenas, que ia buscar j aca m ole nas grandes j aqueiras, cachos de banana-ouro nos bananais onde viviam as cobras, que selava cavalos m ansos para os m aiorezinhos passearem , que levava todos para o banho no rio e lhes ensinava a nadar. As crianças o adoravam , para elas ninguém era m elhor que o negro Dam ião.
Sua profissão era m atar, Dam ião nem sabe m esm o com o com eçou. O coronel m anda, ele m ata. Não sabe quantos j á m atou. Dam ião não sabe contar além de cinco e ainda assim pelos dedos. Tam pouco lhe interessa saber. Não tem ódio de ninguém , nunca fez m al a pessoa algum a. Pelo m enos assim pensou até hoj e. Por que hoj e tem o coração pesado com o se estivesse doente? É delicado na sua rudeza, se há um trabalhador enferm o na fazenda, logo aparece Dam ião para fazer com panhia, para ensinar rem édios de ervas, para cham ar Jerem ias, o feiticeiro. Por vezes os caixeiros-viaj antes que param na casa-grande obrigam -no a contar algum as das m ortes que ele praticou. Dam ião narra com voz calm a, inocente de todo o m al. Para ele um a ordem de Sinhô Badaró é indiscutível. Se ele m anda m atar há de m atar. Da m esm a m aneira que quando ele m anda selar a sua m ula preta para um a viagem há que selar a m ula preta rapidam ente. E dem ais, não há o perigo da cadeia porque cabra de Sinhô Badaró nunca foi preso. Sinhô sabe garantir os seus hom ens, trabalhar para ele é um prazer. Não é com o o coronel Clem entino que m andava fazer o trabalho e depois entregava os hom ens. Dam ião desprezava o coronel. Um patrão assim não é patrão para um hom em de coragem servir. ele o servira m uito antes quando era um rapazola. Lá aprendera a atirar, para Clem entino m atara o prim eiro hom em . E um dia teve que fugir da fazenda porque a polícia fora procurá-lo e o coronel nem o avisara sequer... Se acoitara em terras dos Badarós e agora era o hom em de confiança de Sinhô Se no seu coração há algum m au sentim ento é o desprezo profundo que ele sente pelo Coronel Clem entino. Por vezes, quando falam no seu nom e nas casas dos trabalhadores, o negro Dam ião cospe e diz:- Aquilo não é hom em . É m ais covarde que um a m ulher... Devia vestir saia... Diz e depois ri com seus dentes brancos, com seus olhos grandes, com o rosto todo. Risada feliz e sã, inocente com o a gargalhada de um a criança. Rolava pela fazenda, ninguém a distinguia da risada das crianças quando Dam ião estava brincando com elas no terreiro, ao lado da casagrande. O negro Dam ião chega à j aqueira. Tira a repetição, coloca-a sobre o tronco dá árvore. De um bolso da calça de bulgariana saca o pedaço de fum o de corda. Com eça com o facão a cortar fum o para um cigarro. A lua agora é enorm e e redonda, tão grande assim Dam ião nunca viu. Sente que dentro dele algum a coisa se aperta com o se tivesse um a m ão enorm e, um a das suas enorm es m ãos negras, a apertá-lo por dentro. Nos seus ouvidos ainda soam as palavras de Sinhô Badaró: "Tu acha bom m atar gente? Tu não sente nada? Nada por dentro?" Dam ião nunca pensou que se pudesse sentir nada. E hoj e ele sente, as palavras do coronel estão sobre seu peito com o um peso im possível de arrancar, m esm o por um negro forte com o Dam ião. ele sem pre odiou a dor física. Suportava-a bem , um a vez deu um profundo talho no braço esquerdo com o facão, quando cortava os cocos de cacau nas roças. Atingira quase o osso e ele odiou a dor, se bem que continuasse assobiando enquanto Don'Ana Badaró botava iodo na ferida. Outra vez Jacundino o cortara tam bém a facão, três talhos num a perna. Aquilo, aquela dor ele com preendia, era um a coisa que estava, por assim dizer, diante dos seus olhos. Mas o que ele sente agora é diferente. Coisas em que ele nunca pensou enchem sua cabeça quase tão grande com o a de um boi. Tinha as palavras de Sinhô Badaró m etidas na cabeça e atrás delas vinham im agens e sensações, velhas im agens j á esquecidas e novas sensações antes desconhecidas. Acabou de fazer seu cigarro. A luz do fósforo brilhou na m ata. Pitou. ele nunca pudera im aginar o coronel com rem orso. Era rem orso a palavra. Um a vez um caixeiro-viaj ante lhe perguntara se ele, Dam ião, não tinha rem orsos. ele pedira que lhe explicasse o que era. O viaj ante explicou e Dam ião apenas disse na m aior inocência:
- Por que?
O caixeiro-viaj ante saíra assom brado e até hoj e narrava o caso nos cafés da Bahia, quando, com outros, discutia sobre a hum anidade, a vida, os hom ens, e outras filosofias. Depois, num Natal, Sinhô Badaró trouxera um frade para celebrar m issa na fazenda. Havia arm ado um altar na varanda - um a beleza de altar, ao se lem brar Dam ião sorri seu único sorriso dessa noite de "tocaia" -Dam ião aj udara m uito a Don'Ana, a j á finada Lídia, esposa de Sinhô, a Olga, m ulher de Juca, que tratavam da festa. O frade chegou de noite, houve um j antar com um a infinidade de pratos, galinhas, perus, carne de porco e de carneiro, caça e até peixe que haviam m andado buscar em Água-Branca. Havia aquela pedra fria que cham avam gelo e Don'Ana, que era um a m enina ficando m oça, dera um pedaço a Dam ião, pedaço que lhe queim ara a boca. Don'Ana rira m uito com a cara desconsolada do negro. No outro dia foi a m issa, quem era am igado se casou, os m eninos se batizaram , os padrinhos eram sem pre da fam ília dos Badarós. Por fim o frade fez um serm ão, um discurso que nem o Dr. Rui era capaz de fazer tão bonito nos j uris de Ilhéus. É verdade que ele tinha a língua m eio em bolada porque era estrangeiro, m as talvez por isso m esm o quando falava do inferno, das cham as que queim avam os condenados para todo o sem pre, fazia estrem ecer os hom ens. Até Dam ião ficara com m edo. Antes nunca pensara no inferno, depois tam pouco voltou a pensar. Só hoj e se lem bra do frade, da sua voz gritando com ódio contra os que m atavam seus sem elhantes. O frade falara m uito em rem orso, o inferno em vida. Dam ião j á sabia o que era rem orso, m as naquela ocasião tam pouco a palavra o im pressionou. Ficara im pressionado, sim , com a descrição do inferno, um fogo que não acabava, um queim ar sem fim das carnes. No pulso Dam ião tem a m arca de um a queim adura, um a brasa que lhe caíra em cim a, um dia em que aj udava as negras na cozinha. Doera de fazer m edo. Im agine então o corpo todo queim ado e queim ando sem pre, sem pre, sem pre. E o frade disse que bastava m atar um para ir com certeza pro inferno. Dam ião nem sabe quantos m atou. Sabe que foram m ais de cinco porque até cinco sabe contar e contou. Depois perdera a conta, sem achar que aquilo tivesse m uita im portância. No entanto hoj e, enquanto fum a seu cigarro na "tocaia", ele se esforça inutilm ente para se recordar de todos. Prim eiro fora aquele tropeiro que desfeiteara o coronel Clem entino. Fora um a coisa inesperada, ele ia com o coronel, m ontados os dois, quando cruzaram com a tropa que viaj ava para o Banco-da-Vitória. O tropeiro quando viu Clem entino lançara o longo chicote de tocar os burros na cara do coronel. Clem entino ficara branco, gritara para Dam ião:
- Abaixa ele. . .
Foi com um revólver que levava no cinto. Atirou e o tropeiro caiu, os burros passaram por cim a do cadáver. Clem entino tocou para a fazenda, no rosto levava a m arca verm elha do chicote. Dam ião nem tivera tem po de pensar no caso porque a polícia apareceu dias depois e ele tivera que fugir. Depois com eçaria a m atar para Sinhô Badaró: Zequinha Fontes, o coronel Eduardo, aqueles dois j agunços de Horácio no encontro de Tabocas, faziam cinco, m as j á Sílvio da Toca o negro Dam ião não sabia que núm ero era. Muito m enos o hom em que quisera atirar em Juca Badaró num a casa de m ulheres em Ferradas e que só não atirou porque Dam ião puxara antes o revólver. Muito m enos os que se seguiram . Que núm ero seria Firm a? "Vou pedir a Don'Ana que m e ensine a contar na outra m ão." Havia trabalhadores que sabiam contar nos dedos da m ão e nos dedos dos pés, m as estes eram uns inteligentes, não eram um negro burro com o Dam ião. Mas agora era necessário saber contar pelo m enos os dedos da outra m ão. Quantos hom ens j á havia m atado? A lua sobe sobre a j aqueira, ilum ina a estrada por onde virá Firm o. Sim , porque com certeza ele virá por aqui e não pela estrada real onde está Viriato. É um atalho de quase um a légua, Firm o deve estar com pressa de chegar em casa, de arrancar as botas e deitar com dona Teresa, sua m ulher. Dam ião a conhecia, algum as vezes parara em frente da casa, quando ia de viagem , para pedir um caneco de água. E dona Teresa, um certo dia até lhe dera um a pinga e trocara duas palavras com ele. Era bonita, branca que nem um papel de escrever. Mais branca que Don'Ana. Don'Ana era m orena, queim ada do sol. Dona Teresa parecia que nunca tinha estado ao sol, que o sol não queim ava suas faces, sua carne branca. Tinha vindo da cidade, era filha de um italiano e possuía um a voz bonita, parecia que estava cantando quando falava. Firm o, com certeza, vem com pressa de chegar em casa, deitar com a m ulher, se enfiar naquelas carnes brancas. Mulher naquelas bandas era coisa rara. Tirando as ram eiras dos povoados, quatro ou cinco em cada um , cada qual m ais acabada de doença, apenas uns poucos hom ens tinham m ulher. E claro que isso se passava com os trabalhadores e Firm o não era um trabalhador, tinha um a rocinha, ia andando para a frente, se deixassem ia acabar um coronel com m uitas terras. Botara a rocinha, foi logo pra Ilhéus arranj ar um a m ulher. Casara com a filha de um italiano que era padeiro. Mulher branca e bonita, até haviam dito que Juca Badaró, que era doido por m ulher, andara de Olho nela. Dam ião não sabia ao certo. Mas m esm o que fosse verdade, com certeza ele não tinha querido nada porque Juca arrepiara carreira e os com entários haviam cessado. Sim , não tinha dúvida, Firm o viria pelo atalho, não ia encom pridar cam inho quando tinha um a m ulher branca e m oça esperando por ele. E' a verdade é que o negro Dam ião está preferindo que Firm o venha pela estrada real... É a prim eira vez que lhe acontece isso. Na confusão que vai pela sua cabeça e pelo seu peito ele sente tam bém um a certa hum ilhação.
Parecia até que ele não estava acostum ado. Parecia até António Vítor, aquele trabalhador que viera de Sergipe e que quando m atara um hom em no encontro de Tabocas, com a gente de Horácio, ficara trem endo a noite toda, chegara m esm o a chorar que nem um a fêm ea. Depois acostum ara e agora era o capanga de Juca Badaró, andava sem pre a seu lado nas suas viagens. Quem estava igual a António Vítor, naquele dia era o negro Dam ião com o se não estivesse acostum ado a ficar um a noite toda na "tocaia' esperando um hom em . Se os outros soubessem ia se rir dele com o se haviam rido de António Vítor naquela noite do barulho de Tabocas. O negro Dam ião fecha os olhos para ver se consegue esquecer todas aquelas im agens. O cigarro j á acabou e ele pensa se vale a pena fazer outro. Tem pouco fum o e a espera pode dem orar. Quem sabe a que horas virá Firm o? Fica indeciso, está quase contente porque agora só pensa nesse problem a do fum o. Fum o bom ... Esse é sertanej o do bom , o que é feito em Ilhéus não vale nada, é um a desgraça, seco, não dura... Mas que faz ali Teresa? E branca, Dam ião está pensando e no fum o negro, que é que vem fazer ali o rosto branco de dona Teresa? Quem a cham ou? O negro Dam ião tem raiva. Mulher é sem pre m etida, aparece sem pre onde ninguém a cham a. Más tam bém , por que Sinhô Badaró, naquela tarde, dera de falar naquelas coisas para o irm ão? Por que pelo m enos não m andara que ele e Viriato fossem para longe? Da varanda ouvia a conversa toda:
- Tu acha bom m atar gente? Tu não sente nada? Nada por dentro O negro Dam ião está sentindo. Antes nunca sentia nada. Talvez se não fosse Sinhô Badaró quem houvesse falado, se fosse o próprio Juca, talvez ele nem ligasse. Mas Sinhô Badaró era com o um deus para Dam ião. Respeitava-o m ais que a Jerem ias, o feiticeiro que o tinha "curado" de bala e de m ordida de cobra. E as palavras tinham ficado dentro dele, pesavam sobre seu coração, andavam pela sua cabeça. E traziam Para a sua frente o rosto branco de dona Teresa, esperando o m arido, repetindo as palavras de Sinhô Badaró, as palavras do frade tam bém . Ela era m eio estrangeira com o o frade. Só que a voz do frade era cheia de raiva, anunciava coisas terríveis, e a voz de dona Teresa era doce com o um a m usica.
Já não pensava em fazer um cigarro e pitar. Pensava era em dona Teresa esperando Firm o para o am or na cam a de casal. Carnes brancas que esperavam o m arido. Tinha cara de ser um a criatura boa. Um a vez dera um a pinga ao negro Dam ião... E trocara com ele um as palavras sobre o sol que batia a estrada naquela tarde. Sim , era um a m ulher boa, sem besteiras. Bem que podia nem ter falado a um negro assassino com o Dam ião. Ela tinha sua roça de cacau, podia ser um a orgulhosa com o tantas outras. Mas tinha lhe dado um a pinga e falara sobre o sol escaldante. Não tivera m edo dele com o m uitas outras... Muitas outras que, m al enxergavam o negro Dam ião que vinha vindo, se escondiam pela casa adentro, eram os m aridos que atendiam . Dam ião sem pre se rira desse m edo que algum as senhoras lhe tinham , até se orgulhava dele: era a sua fam a, que corria m undo. Mas hoj e, Dam ião, pela prim eira vez, im agina que não fugiam de um negro valente. Que fugiam de um negro assassino... Um negro assassino... Repetiu as palavras baixinho, devagarinho, e elas soaram tragicam ente aos seus ouvidos. O frade disse que ninguém deve m atar os outros, que é um pecado m ortal que se pagava com o inferno Dam ião não ligara. Mas hoj e fora Sinhô Badaró que dissera aquelas coisas sobre m atar. Um negro assassino. . . E dona Teresa era boa, bonita com o que, branca com o ela não havia outra nas fazendas próxim as... Gostava do m arido, bem se via, tanto que nem aceitara o arrastar de asa de Juca Badaró, hom em rico por quem as m ulheres viviam se babando. . . As m ulheres tinham m edo dele, do negro Dam ião, o assassino. .. Agora se recordava de um a série longa de detalhes, m ulheres que desapareciam dos terreiros quando ele surgia, outras que o espiavam a m edo pelas frestas das j anelas, aquela prostituta de Ferradas que não quis dorm ir com ele de j eito nenhum " apesar dele m ostrar a nota de dez m il-réis na m ão... Não quisera dorm ir com ele. Não dissera por quê, inventara que estava doente, m as na sua cara, Dam ião vira outra coisa: o m edo. Não ligara, rira sua gargalhada am pla, foi em busca de outra m ulher. Mas agora a recusa da ram eira lhe dói no peito j á tão ferido nesse dia. Só Don'Ana Badaró era boa com ele, não tinha m edo do negro. Mas Don'Ana era um a m ulher valente, era da fam ília dos Badarós. As crianças é que não tinham m edo dele, as crianças não entendiam nada ainda, não sabiam que ele era um assassino que ia para as "tocaias" esperar hom ens para derrubar com sua pontaria certeira. Gostava das crianças. Se entendia m elhor com elas que com os grandes. Gostava de brincar com os ingénuos brinquedos dos m eninos das casas-grandes, gostava de fazer as vontades dos filhos m iseráveis dos trabalhadores. Se dava bem com as crianças. . . E, de súbito, a idéia aterradora cortou sua cabeça: e se dona Teresa estivesse prenhe, um filho na barriga? Ia nascer sem pai, o pai teria ficado debaixo da pontaria do negro Dam ião. . . Faz um a força im ensa, sua enorm e cabeça está pesada com o nos dias de grande bebedeira: não, dona Teresa não está grávida, ele reparara bem nela no dia em que haviam trocado duas palavras na porta da casa de Firm o. Ela não tinha barriga nenhum a, não, não estava prenhe... Mas isso j á fazia seis m eses, quem sabe se agora? Bem que pode estar pra parir, um filho na barriga... Ia nascer sem pai, ia saber que o pai caíra na estrada num a noite de lua, derrubado pelo negro Dam ião. E teria ódio do negro, não seria com o as outras crianças que vinham brincar com Dam ião, que subiam nas suas costas quando ainda não podiam m ontar nos burros m ais m ansos.. Não com eria j aca colhida pelo negro Dam ião, nem banana-ouro que o negro ia buscar nos bananais. Olharia o negro com ódio, para ele Dam ião seria sem pre o assassino de seu pai... Dam ião sente um a tristeza infinita. A lua sobre ele, a j aqueira o esconde da estrada, a repetição descansa no tronco. Outros m arcavam no cabo da arm a, com um traço, cada m orto derrubado. Ele nunca o fizera porque não queria estragar sua repetição. Gostava dela, guardava-a sem pre dependurada sobre sua cam a de tábuas, sem colchão. Por vezes, à noite, Sinhô Badaró tinha que sair de viagem e m andava cham ar o negro para acom panhá-lo. Era só pegar da repetição e andar para a casa-grande. Os burros j á estavam selados, quando Sinhô m ontava ele m ontava tam bém , ia atrás do patrão, a repetição na frente da sela. Podia um hom em de Horácio estar escondido na estrada. Acontecia que Sinhô Badaró o cham ava para a frente e ia conversando com ele sobre as raças, as safras, sobre o estado do cacau m ole, sobre um a série de coisas que se relacionavam com a vida da fazenda. Esses eram dias felizes para o negro Dam ião. Felizes tam bém porque, quando chegavam no term o da viagem : Rio-do-Braço, Tabocas, Ferradas ou Palestina, o coronel lhe dava um a nota de cinco m il-réis e ele ia passar o resto da noite na cam a com um a m ulher. Aí deixava a repetição nos pés da cam a porque Sinhô poderia querer voltar a qualquer m om ento e um m oleque do povoado corria as casas de m ulheres à procura do negro. Ele saltava da cam a - certa noite saltou m esm o do corpo da m ulher -pegava da repetição e ia de novo. Se encam inhara com a arm a, a trazia lim pa, dava gosto ver. Hoj e, no entanto, nem a quer m irar, seus olhos procuram outra visão. A lua está no alto dos céus. Por que se pode fitar a lua e não há olhos que aguentem fitar o sol? Esse problem a nunca ocorrera ao negro Dam ião Agora se tranca nele, sua cabeça toda em pregada em resolve-lo. Assim não vê dona Teresa, nem o filho que ela vai ter, nem a voz de Sinhô Badaró perguntando a Juca: