Terras do Sem Fim

Jorge Amado · Capítulo 1 de 5 · parte 2/4

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Terras do Sem Fim

Terras do Sem Fim

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

- Com o queiram - respondeu João Magalhães.- Pôquer Curingado não é pôquer - falou Totonho e era a prim eira vez que ele falava. - Não bote o curinga, por favor.

- Tá feita a sua vontade, com padre - e Maneca j ogou o curinga no m eio das cartas inúteis.

Ferreirinha foi o cacifeiro, cada um com prou quinhentos m il-réis de ficha. João Magalhães estudava Totonho do Riacho Seco que tinha um olho vazado e num a das m ãos apenas três dedos. Era som brio e calado. Coube a ele dar cartas. João tinha resolvido não fazer patota no j ogo, j ogar lealm ente, até fazer besteira se fosse possível, perder algum a coisa. Assim ganhava os parceiros para outras partidas que pudessem render bastante m ais.

Tinha um par de rei na m ão, foi ao j ogo. Maneca Dantas cham ou com m ais dezasseis, Ferreirinha fugiu. Totonho pagou, João com pletou. Ferreirinha deu cartas, Maneca pediu duas. Totonho pediu um a.- Todas as três... - pediu João.

Totonho deu m esa, Maneca apostou, ninguém foi ver. Maneca arrastou a m esa, não se conteve, m ostrou o blefe:

- Trinca Pirangi. . .

Estava com um valete, um rei e um a dam a, tinha pedido duas cartas para sequência. João Magalhães riu, bateu palm adinhas nas costas de Maneca:- Muito bem , coronel, bem passado esse...

Totonho olhou com um olhar torvo, não com entou. João Magalhães perdeu todo o respeito pelos parceiros. Decididam ente ia enriquecer nessas terras do cacau.

9

O caixeiro-viaj ante se cansou de peruar o j ogo, subiu para o tom badilho. O luar cobria Margot que cism ava debruçada na am urada. O m ar era de um verde escuro, há m uito que as últim as luzes da cidade haviam desaparecido. O navio j ogava m uito, quase todos os passageiros se haviam recolhido aos cam arotes ou estavam estirados em cadeiras de lona, o corpo coberto com grossos cobertores. Na terceira a harm ónica voltara a tocar um a lânguida m úsica e a lua, agora, estava no m eio do céu. Um frio cortante vinha do m ar, trazido pelo vento sul que fazia voar as cabelos longos de Margot. Ela arrancara os gram pos e a loira cabeleira ao vento flutuava no ar. O caixeiro-viaj ante assobiou baixinho quando a viu só e foi se aproxim ando de m anso. Não levava nenhum plano traçado, um a vaga esperança no coração apenas:

- Boa noite...

Margot se voltou, segurou os cabelos com a m ão:- Boa noite...

- Tom ando fresco?

- É...

Novam ente olhava o m ar onde as estrelas se refletiam . Cobriu a cabeça com um lenço, am arrando os cabelos, afastou o corpo para que o viaj ante pudesse se encostar tam bém na am urada. Ficaram em silencio um longo m inuto. Margot parecia não vê-lo, distante na contem plação do m istério do m ar e do m istério do céu. Foi ele quem falou por fim :

- Vai para Ilhéus?

- Vou, sim .

- Vai para ficar?

- Sei lá... Se m e der bem . ..

- Tu estavas na pensão de Lísia, não estavas?

- Hum ... Hum .. - e balançou a cabeça.

- Eu te vi lá, no sábado. Por sinal que estavas com o doutor. . .- Já sei... - atalhou ela e voltou a espiar o m ar com o se não quisesse continuar a conversa.

- Ilhéus é terra de m uito dinheiro... Um a bichinha assim tão linda com o você é capaz de botar roça por lá... Não há de faltar coronel que entre com as m assas. Ela desviou os olhos do m ar, fitou o viaj ante. Parecia pensar, com o se estivesse em dúvidas se devia falar ou não. Mas voltou a olhar o m ar sem dizer nada. O viaj ante continuou:

- Juca Badaró te segurou indagora... Tom a cuidado...- Quem é ele?

- E um dos hom ens ricos da terra... E valente tam bém ... Falam por lá que os trabalhadores dele tem pintado o diabo. Invadem terra dos outros, m atam , fazem e acontecem . É o dono do Sequeiro Grande.

Margot estava interessada, ele com pletou:

- Dizem que toda a fam ília é valente, hom ens e m ulheres. Que até as m ulheres tem m ortes feitas. Quer um conselho? Não se m eta com ele. Margot estirou o beiço num gesto de desprezo:- E quem lhe disse que eu tenho interesse nele? Ele é que tá m e cercando que nem galo velho com franga nova. . . Não quero nada com ele, não vou atrás de dinheiro...

O caixeiro-viaj ante sorriu com o quem não acreditava, ela deu de om bros com o se pouco lhe im portasse a opinião dele.

- Contam por lá que a m ulher de Juca j á m andou raspar a cabeça de um a rapariga que estava am igada com ele...

- Mas quem m eteu na sua cabeça que eu estou com interesse nele? Ele pode ter as m ulheres que quiser, não tem essa aqui. . . - batia a m ão no peito. Mais um a vez ficou com o que duvidando de falar ou não, se resolveu:- Tu não m e viu no sábado dançando com Virgílio? Pois ele está em Ilhéus, eu vou ver é ele.

- É verdade... Estava m e esquecendo... Ele está por lá, sim . Advogando... Rapaz de futuro, hein? Dizem que foi o coronel Horácio quem m andou buscar para ele dirigir o partido. . . balançou a cabeça, convencido. - Se é assim não digo nada. Só que aconselho: cuidado com Juca Badaró... Se afastou, não valia a pena a conversa, rapariga apaixonada é pior que m oça donzela. Com o Juca Badaró iria se arranj ar? Margot desam arrava o lenço, deixava que o vento fizesse voar os seus cabelos. 10

Um a som bra desliza pela escada, antes de por o pé na prim eira classe espia se não há m ovim ento. Aj eita o cabelo, o lenço am arrado no pescoço. As m ãos ainda estão inchadas dos bolos que tom ou da polícia. No dedo ainda não entra o anelão falso. O subdelegado disse que nem que tivesse de quebrar aquelas m ãos, elas não voltariam a se m eter nos bolsos alheios. Fernando escala o últim o degrau, tom a o lado contrário daquele onde Margot se encontra. Com o vem um m arinheiro, se encosta na am urada, parece um passageiro de prim eira vendo a noite. Sai devagar, deita-se j unto à cadeira de lona onde o hom em ronca. Suas m ãos sutis deslizam sob o cobertor, sob o paletó, tocam no revólver de aço frio, tiram do bolso da calça a carteira recheada. O hom em nem se m oveu.

Retorna para a terceira. Atira a carteira ao m ar, guarda o dinheiro no bolso. Agora anda de cócoras entre os grupos da terceira que dorm em , procura alguém . Num canto, deitado de bruços com o se dorm isse sobre a terra ressona o velho que volta para vingar a m orte do filho. Fernando tira de entre as notas um as quantas, coloca-as, com toda a sutileza de que são capazes as suas m ãos, no bolso do velho. Depois esconde as notas que lhe restaram no forro do paletó, suspende a gola e vai se deitar no canto m ais distante, onde António Vítor se im agina em Estância tendo j unto a si o calor de Ivone.

11

A m adrugada é fria, os passageiros se encolhem sob os cobertores. Margot ouve a conversa que vem de longe:

- Se o cacau der quatorze m il-réis esse ano levo a fam ília ao Rio...- Tou com vontade de fazer um a casa em Ilhéus...

Os hom ens se aproxim avam conversando:

- Foi um caso feio. Mandaram m atar Zequinha pelas costas...- Mas, dessa vez vai haver processo, eu lhe garanto.- Vá esperando. . .

Pararam diante de Margot, ficaram a espiá-la sem a m enor cerim ónia. O baixinho sorria sob um bigode enorm e que alisava a cada m om ento:- Assim você se resfria, m enina...

Margot não respondeu. O outro perguntou:

- Onde é que você vai pousar em Ilhéus? Em casa de Machadão?- Que lhe im porta?

- Não sej a orgulhosa, m enina. Não é da gente m esm o que você vai viver? Olha aqui, o

com padre Moura bem que pode te m ontar um a casa. O baixo riu repuxando os bigodes:

- E m onto m esm o, belezinha. É só dizer sim ...

Juca Badaró veio chegando:

- Com licença. .

Os dois se afastaram ligeiram ente.

- Boa noite, Juca.

Juca cum prim entou com a cabeça, se dirigiu a Margot:- Tá na hora de ir dorm ir, dona. É m elhor dorm ir que estar aqui dando prosa a todo m undo... Olhou acintosam ente para os dois, eles foram se afastando. Margot ficou só com ele:

- Quem lhe deu direito a se m eter na m inha vida?- Espie, dona. Eu vou descer, vou ver se m inha m ulher tá bem no cam arote. Mas volto j á e se

encontrar vosm ecê ainda aqui vai haver barulho. Mulher m inha m e obedece... -e saiu.

Margot repetiu com asco: "m ulher m inha" e foi andando devagar para o cam arote. Ainda ouviu o baixinho, de bigodes, dizer quando ela passava:- Esse Juca Badaró está m erecendo um a lição bem dada. Então se sentiu com o se fosse m ulher de Juca e perguntou:- E por que você não dá?

12

Sobre o navio que corta a noite do m ar se estende um silêncio cala vez m aior. Já não soavam as harm ónicas e os violões na terceira classe. Nenhum a voz cantava j á tristezas de am or, lam entos de saudade. Margot se havia recolhido, ninguém m ais cism ava na am urada do navio. As palavras dos j ogadores de pôquer não chegavam até o m ar. Banhado pela luz verm elha de um a lua de presságios, o navio cortava as águas, coberto agora pelo silencio. Um sono povoado de sonhos de esperanças enchia a noite de bordo.

O com andante desceu da sua torre do com ando, vinha com o im ediato. Atravessaram toda a prim eira classe, os grupos que dorm iam nas espreguiçadeiras, cobertos com cobertores de lã. Por vezes alguém m urm urava um a palavra no sonho e estava sonhando com as roças de cacau carregadas de frutos. O com andante e o im ediato desceram pela estreita escada e atravessaram por entre os hom ens e m ulheres que dorm iam na terceira, uns sobre os outros, apertados pelo frio. O com andante ia calado, o im ediato assobiava um a m úsica popular. António Vítor dorm ia com um sorriso nos lábios, sonhava talvez com um a fortuna conquistada sem esforço nas terras de Ilhéus, com sua volta a Estância, em busca de Ivone. Sorria feliz.

O com andante parou, olhou o m ulato que sonhava. Virou-se para o im ediato:- Tá rindo, vê? Vai rir m enos quando estiver na m ata. . . Em purrou com o pé a cabeça de António Vítor, m urm urou:- Me dão pena...

Chegaram j unto à am urada, na popa do navio. As ondas subiam revoltas, o luar era verm elho

de sangue. Ficaram calados, o im ediato acendendo seu cachim bo. Por fim o com andante falou:

- Por vezes m e sinto com o o com andante de um daqueles navios negreiros do tem po da

escravidão...

Com o o im ediato não respondesse, ele explicou:- Daqueles que em vez de m ercadorias traziam negros pra serem escravos.. Apontou os hom ens dorm idos na terceira. António Vítor que ainda sorria:- Que diferença há?

O im ediato levantou os om bros, puxou um a baforada do cachim bo, não respondeu. Olhava o

m ar, a noite im ensa. o céu de estrelas.

A Mata

1

A m ata dorm ia o seu sono j am ais interrom pido. Sobre ela passavam os dias e as noites, brilhava o sol do verão, caíam as chuvas do inverno. Os troncos eram centenários, um eterno verde se sucedia pelo m onte afora, invadindo a planície, se perdendo no infinito. Era com o um m ar nunca explorado, cerrado no seu m istério. A m ata era com o um a virgem cuj a carne nunca tivesse sentido a cham a do desej o. E com o um a virgem era linda, radiosa e m oça apesar das árvores centenárias. Misteriosa com o a carne de m ulher ainda não possuída. E agora era desej ada tam bém .

Da m ata vinham trinados de pássaros nas m adrugadas de sol. Voavam sobre as árvores as andorinhas de verão. E os bandos de m acacos corriam num a doida corrida de galho em galho, m orro abaixo, m orro acim a. Piavam os coruj ões para a lua am arela nas noites calm as. E seus gritos não eram ainda anunciadores de desgraças j á que os hom ens ainda não haviam chegado á m ata. Cobras de inúm eras espécies deslizavam entre as folhas secas, sem fazer ruído, onças m iavam seu espantoso m iado nas noites de cio.

A m ata dorm ia. As grandes árvores seculares, os cipós que se em aranhavam , a lam a e os espinhos defendiam o seu sono. Da m ata, do seu m istério, vinha o m edo para o coração dos hom ens. Quando eles chegaram , num a tarde, através dos atoleiros e dos rios, abrindo picadas, e se defrontaram com a floresta virgem , ficaram paralisados pelo m edo. A noite vinha chegando e trazia nuvens negras com ela, chuvas pesadas de j unho. Pela prim eira vez o grito dos coruj ões foi, nesta noite, um grito agoureiro de desgraça. Ressoou com voz estranha pela m ata, acordou os anim ais, silvaram as cobras, m iaram as onças nos seus ninhos escondidos, m orreram andorinhas nos galhos, os m acacos fugiram . E, com a tem pestade que desabou, as assom brações despertaram na m ata. Em verdade teriam elas chegado com os hom ens, na rabada da sua com itiva, j unto com os m achadas e as foices, ou j á estariam elas habitando na m ata desde o início dos tem pos? Naquela noite despertaram e eram o lobisom em e a caipora, a m ula-de-padre e o boitatá. Os hom ens se encolheram com m edo, a m ata lhes infundia um respeito religioso. Não havia nenhum a picada, ali habitavam som ente os anim ais e as assom brações. Os hom ens pararam , o m edo no coração. A tem pestade caiu, raios que cortavam o céu, trovões que ressoavam com o o rilhar dos dentes dos deuses da floresta am eaçada. Os raios ilum inavam por um m inuto a m ata, m as os hom ens não viam nada m ais que o verde-escuro das árvores, os sentidos todos presos aos ouvidos que ouviam , j untam ente com o silvo das cobras em fuga e com o m iado das onças aterrorizadas, as vozes terríveis das assom brações soltas na m ata. Aquele fogo que corria sobre os m ais altos galhos saía sem dúvida das narinas do boitatá. E o tropel am edrontador que era senão a corrida através da floresta da m ula-de-padre, antes linda donzela que se entregou, num a ânsia de am or, aos braços sacrílegos de um sacerdote? Não ouviam m ais o m iado das onças. Agora era o grito desgraçado do lobisom em , m eio hom em , m eio lobo, de unhas im ensas, desvairado pela m aldição da m ãe. Sinistro bailado da caipora na sua única perna, com o seu único braço, rindo com sua face pela m etade. O m edo no coração dos hom ens, E a chuva caía pesada com o se fora o com eço de outro dilúvio. Ali tudo lem brava o princípio do m undo. Im penetrável e m isteriosa, antiga com o o tem po e j ovem com o a prim avera, a m ata aparecia diante dos hom ens com o a m ais tem ível das assom brações. Lar e refúgio dos lobisom ens e das caiporas. Im ensa diante dos hom ens. Ficavam pequenos aos pés da m ata, pequenos anim ais am edrontados. Do fundo da selva vinham as vozes estranhas. E m ais terrível era o espetáculo, j á que a tem pestade irrom pia com fúria, do céu negro, onde nem a luz de um a estrela brilhava para os hom ens recém -chegados. Vinham de outras terras, de outros m ares, de próxim o de outras m atas. Mas de m atas j á conquistadas, rasgadas por estradas, dim inuídas pelas queim adas. Matas de onde j á haviam desaparecido as onças e onde com eçavam a rarear as cobras. E agora se defrontavam com a m ata virgem , j am ais pisada por pés de hom ens, sem cam inhos no chão, sem estrelas no céu de tem pestade. Nas suas terras distantes, nas noites de luar, as velhas narravam tétricas histórias de assom brações. Em algum a parte do m undo, em algum lugar que ninguém sabia onde estava, nem m esm o os andarilhos m ais viaj ados, aqueles que cortam os cam inhos dos sertões recitando profecias, nesse distante lugar tem a sua m orada as assom brações. Assim diziam as velhas que possuíam a experiência do m undo. E, de súbito, na noite de tem poral, diante da m ata, os hom ens descobriam esse recanto trágico do universo, onde habitavam as assom brações. Ali, na m ata, em m eio da floresta, sobre os cipós, em com panhia das cobras venenosas, das onças ferozes, dos agoirentos coruj ões, estavam pagando pelos crim es com etidos aqueles que as m aldições haviam transform ado em anim ais fantásticos. Era dali que nas noites sem lua partiam para as estradas a esperar os viandantes que buscavam seus lares. Dali partiam para am edrontar o m undo. Agora, em m eio do ruído do tem poral, os hom ens parados, pequeninos, ouvem , vindo da m ata, o rum or das assom brações despertadas. E vêem , quando cessam os raios, o fogo que elas lançam pela boca, e vêem , por vezes, o vulto inim aginável da caipora bailando seu bailado espantoso. A m ata! não é um m istério, não é um perigo nem um a am eaça. É um deus

Não há vento frio que venha do m ar. Distante está o m ar de verdes ondas. Não há vento frio, nessa noite de chuva e relâm pagos. Mas, ainda assim , os hom ens estão arrepiados e trem em , se apertam os seus corações. A m ata-deus na sua frente. O m edo dentro deles.

Deixaram cair os m achados, os serrotes e as foices. Estão de m ãos inertes diante do espetáculo terrível da m ata. Seus olhos abertos, desm esuradam ente abertos, vêem o deus em fúria ante eles. Ali estão os anim ais inim igos do hom em , os anim ais agoureiros, ali estão as assom brações. Não é possível prosseguir, nenhum a m ão de hom em pode se levantar contra o deus. Recuam devagar, o m edo nos corações. Explodem os raios sobre a m ata, a chuva cai. Miam as onças, silvam as cobras, e, sobre todo o tem poral, as lam entações dos lobisom ens, das caiporas e das m ulas-de-padre, defendem o m istério e a virgindade da m ata. Diante dos hom ens está a m ata é o passado do m undo, o princípio do m undo. Largam os facões, os m achados, as foices, os serrotes, so há um cam inho, é o cam inho da volta.

2

Os hom ens vão recuando. Levaram horas, dias e. noites, para chegar até ali. Atravessaram rios, picadas quase intransitáveis, fizeram cam inhos, calçaram atoleiros, um foi m ordido de cobra e ficou enterrado ao lado da estrada recém -aberta. Um a cruz tosca, o barro m ais alto, era tudo que lem brava o cearense que havia caído. Não puseram o seu nom e, não havia com que escrever. Naquele cam inho da terra do cacau aquela foi a prim eira cruz das m uitas que depois iriam ladear as estradas, lem brando hom ens caídos na conquista da terra. Outro se arrastou com febre, m ordido por aquela febre que m atava até m acacos. Se arrastando chegou e agora ele tam bém recua, a febre fá-lo ver visões alucinantes. Grita para os dem ais:

- É o lobisom em ...

Vão recuando. A princípio devagar. Passo a passo até alcançar o cam inho m ais largo, onde são m enos num erosos os espinhos e os atoleiros. A chuva de j unho cai sobre eles, encharcando as roupas, fazendo-os trem er. Diante deles a m ata, a tem pestade, os fantasm as. Recuam .

Agora chegam à picada, é um a corrida só, atingirão as m argens do rio onde um a canoa os espera. Quase respiram aliviados. O que vai com febre j á não sente a febre. O m edo dá-lhe um a nova força ao corpo alquebrado.

Mas diante deles, parabélum na m ão, o rosto contraído de raiva, está Juca Badaró. Tam bém ele estava ante a m ata, tam bém ele viu os raios e ouviu os trovões, escutou o m iado das onças e o silvo das cobras. Tam bém seu coração se apertou com o grito agourento do coruj ão. Tam bém ele sabia que ali m oravam as assom brações. Mas Juca Badaró não via na sua frente a m ata, o princípio do m undo. Seus olhos estavam cheios de outra visão. Via aquela terra negra, a m elhor terra do m undo para o plantio do cacau. via na sua frente não m ais a m ata ilum inada pelos raios, cheia de estranhas vozes, enredada de cipós, fechada nas árvores centenárias, habitada de anim ais ferozes e assom brações. Via o cam po cultivado de cacaueiros, as árvores dos frutos de ouro regularm ente plantadas, os cocos m aduros, am arelos. Via as roças de cacau se estendendo na terra onde antes fora m ata. Era belo. Nada m ais belo no m undo que os roças de cacau. Juca Badaró, diante da m ata m isteriosa, sorria. Em breve ali seriam os cacaueiros, carregados de frutos, um a doce som bra sobre o solo. Nem via os hom ens com m edo, recuando.

Quando os viu, só teve tem po de correr na sua frente, se postar na entrada do cam inho de parabélum na m ão, um a decisão no olhar:- Meto bala no prim eiro que der um passo...

Os hom ens pararam . Ficaram um instante assim , sem saber o que fazer. Atrás estava a floresta, na frente Juca Badaró disposto a atirar. Mas o que tinha febre gritou:

- É o lobisom em ... - e avançou num pulo.

Juca Badaró atirou, novo raio atravessou a noite. A m ata repetiu num eco o som do tiro. Os outros hom ens ficaram em torno do que caíra, as cabeças baixas. Juca Badaró se aproxim ou vagarosam ente, o parabélum ainda na m ão. António Vítor tina se abaixado, segurava a cabeça do ferido. A bala atravessara o om bro. Juca Badaró falou com a voz m uito calm a:

- Não atire para m atar, só para m ostrar que vocês tem que obedecer... - Apontou para um : Vá buscar água para lavar a ferida.

Assistiu a todo o tratam ento, ele m esm o am arrou um pedaço de pano no om bro do hom em ferido e aj udou a levá-lo para o acam pam ento j unto da m ata. Os hom ens iam trem endo, m as iam . Deitaram o ferido que delirava. Na m ata as assom brações estavam soltas.

- Adiante - disse Juca Badaró.

Os hom ens se espiavam uns aos outros. Juca suspendeu o parabélum :- Adiante. . .

Os m achados e os facões com eçaram a cair num ruído m onótono sobre a m ata, perturbando seu sono. Juca Badaró olhou na sua frente. Via novam ente toda aquela terra negra plantada de cacau, roças e roças carregadas de frutos am arelos. A chuva de j unho rolava sobre os hom ens, o ferido pedia água num a voz entrecortada. Juca Badaró guardou o parabélum . 3

A m anhã de sol dourava os cocos ainda verdes dos cacaueiros. O coronel Horácio ia andando devagar entre as árvores plantadas dentro das m edidas estabelecidas. Aquela roça dava seus prim eiros frutos, cacaueiros j ovens de cinco anos. Antes ali tam bém fora a m ata, igualm ente m isteriosa e am edrontadora. Ele a varara com seus hom ens e com o fogo, com os facões, os m achados e as foices, derrubou as grandes árvores, j ogou para longe as onças e as assom brações. Depois fora o plantio das roças, cuidadosam ente feito, para que m aiores fossem as colheitas. E, após cinco anos, os cacaueiros enfloraram e nessa m anhã pequenos cocos pendiam dos troncos e dos galhos. Os prim eiros frutos. O sol os doirava, o coronel Horácio passeava entre eles. Tinha cerca de cinquenta anos e seu rosto, picado de bexiga, era fechado e soturno. As grandes m ãos calosas seguravam o fum o de corda e o canivete com que faziam o cigarro de palha. Aquelas m ãos, que m uito tem po m anej aram o chicote quando o coronel era apenas um tropeiro de burros, em pregado de um a roça no Rio-do-Braço, aquelas m ãos m anej aram depois a repetição quando o coronel se fez conquistador da terra. Corriam lendas sobre ele, nem m esm o o coronel Horácio sabia de tudo que em Ilhéus e em Tabocas, em Palestina, e em Ferradas, em Água-Preta, se contava sobre ele e sua vida. As velhas beatas que rezavam a 'São Jorge na igrej a de Ilhéus costum avam dizer que o coronel Horácio, de Ferradas, tinha debaixo da sua cam a, o diabo preso num a garrafa. Com o o prendera era um a história longa, que envolvia a venda da alm a do coronel num dia de tem poral E o diabo, feito servo obediente, atendia a todos os desej os de Horácio, aum entava-lhe a fortuna, aj udava-o contra os seus am igos. Mas um dia- e as velhas persignavam ao dize-lo - Horácio m orreria sem confissão e n diabo saindo da garrafa levaria a sua alm a para as profundas dos infernos. Dessa história o coronel Horácio sabia e ria dela, um a daquelas suas risadas curtas e secas, que am edrontavam m ais que m esm o os seus gritos nas m anhãs de raiva.

Outras histórias se contavam e essas estavam m ais próxim as da realidade. O Dr. Rui, quando bebia dem asiado, gostava de lem brar a defesa que certa vez fizera do coronel num processo de há m uitos anos passados. Acusavam Horácio de três m artes e de três m ortes bárbaras. Dizia o processo que não contente de ter m atado um dos hom ens, cortara-lhe as orelhas, a língua, o nariz, e os ovos. O prom otor estava com prado, estava ali para im pronunciar o coronel. Ainda assim o Dr. Rui pudera brilhar, escrevera um a defesa linda, onde falara em "clam orosa inj ustiça", em "calúnias forj adas por inim igos anónim os sem honra e sem dignidade". Um triunfo, um a daquelas defesas que o consagraram com o um grande advogado. Fizera o elogio do coronel, um dos fazendeiros m ais prósperos da zona, hom em que fizera levantar não só a capela de Ferradas, com o ainda agora com eçava a levantar a igrej a de Tabocas, respeitador das leis, por duas vezes j á vereador em Ilhéus, grão-m estre de m açonaria. Um hom em destes poderia por acaso praticar tão hediondo crim e?

Todos sabiam que ele o havia praticado. Fora um a questão de contrato de cacau. Nuns terrenos de Horácio o preto Altino. m ais seu cunhado Orlando e um com padre cham ado Zacarias, haviam botado um a roça, em contrato com o coronel. Derrubaram a m ata, queim aram na, plantaram cacau e, entre o cacau, a m andioca, o m ilho de que iam viver os três anos de espera até que os cacaueiros crescessem . Passaram -se os três anos, eles foram ao coronel para entregar a roça e receber o dinheiro. Quinhentos réis por pé plantado e vingado de cacau. Com aquele dinheiro poderiam adquirir um terreno, um pedaço de m ata qualquer e desbravá-la e plantar então um a roça para eles m esm os. Iam alegres e cantavam pela estrada. Oito dias antes tinha vindo Zacarias trazer m ilho e farinha de m andioca e levar carne seca, cachaça e feij ão, do arm azém da fazenda. Encontrara então o coronel e tinham ficado os dois conversando, ele dando conta do estado dos cacaueiros, o coronel lem brando que faltava pouco tem po para findar os três anos. Depois Horácio lhe oferecera um a pinga na varanda da casa-grande e lhe perguntara o que pensavam fazer depois. Zacarias lhe contara do proj ecto de com prar um pedaço de m ata, derrubá-la e plantar um a roça. O coronel não só o aprovou com o, am avelm ente, se dispôs a aj udá-los. Não vê que ele tinha ótim as m atas em terrenos excelentes para o plantio de cacau? Em toda a zona de Ferradas, aquela im ensa zona que lhe pertencia, eles podiam escolher um pedaço de m ata. Assim era m elhor para ele tam bém , j á que não teria de puxar do dinheiro. Zacarias voltou radiante para o rancho.

Foram ao coronel quando o prazo findou. Fizeram as contas dos pés de cacau que haviam vingado, j á antes tinham escolhido o pedaço de m ata que queriam com prar. Chegaram a um acordo com o coronel, beberam um as cachaças, Horácio disse:

- Vocês podem se botar pra m ata que um dia desses quando eu descer a Ilhéus m ando avisar a vocês pra ir um tam bém e a gente botar o preto no branco no cartório...

Assim diziam de passar a escritura. O coronel m andou que eles fossem em paz, com um m ês m ais ou m enos iriam a Ilhéus. Os três foram , depois de cum prim entos e reverencias ao coronel. No outro dia partiram para a m ata, com eçaram a derrubá-la, arm ando um rancho. Passou-se o tem po, o coronel foi a Ilhéus duas e três vezes, eles j á haviam iniciado a plantação e nada de escritura. Um dia Altino tom ou coragem e falou ao coronel:

- Vosm ecê m e adisculpe, seu coronel, m as nós queria saber, quando é que a gente passa a escritura da terra?

Horácio prim eiro se indignou com a falta de confiança. Mas diante das desculpas de Altino explicou que j á dera ordens ao Dr. Rui, seu advogado, para tratar do assunto. Não ia dem orar, um dia destes eles seriam cham ados para darem um pulo a Ilhéus, e liquidarem o assunto. Mais tem po se passou, da terra plantada com eçaram a surgir as m udas de cacau, ainda sim ples gravetos que em breve seriam árvores. Altino, Orlando e Zacarias olhavam as plantas com am or. Eram cacaueiros deles, plantados com as suas m ãos, em terras que eles haviam desbravado. Cresceriam e dariam frutos am arelos com o ouro, dinheiro. Nem se recordavam da escritura. Só o negro Altino, por vezes parava pensando. Há m uito que conhecia o coronel Horácio e desconfiava. Ainda assim ficaram surpresos no dia que souberam que a fazenda Beij a-Flor fora vendida ao coronel Ram iro e que a roça deles estava com preendida na venda. Foram falar ao coronel Horácio. Orlando ficou, foram os outros dois. Não encontraram o coronel, estava em Tabocas. Voltaram no outro dia, o coronel estava em Ferradas. Então Orlando resolveu ir ele m esm o. Para ele aquela terra era tudo, não a perderia. Disseram -lhe que o coronel estava em Ilhéus. Ele fez que sim m as entrou pela casa-grande adentro e encontrou o coronel na sala de j antar, com endo. Horácio olhou o lavrador, falou com sua voz seca:- Quer com er, Orlando? Se quer se abanque..

- Não sinhô, obrigado.

- Que lhe traz por aqui? Algum a novidade?

- Um a novidade bem feia, sinhô, sim . O coronel Ram iro apareceu lá pela roça, diz que a roça é dele, diz que com prou ao sinhô, coronel.- Se o coronel Ram iro é que diz deve ser verdade. Ele não é hom em pra m entira...

Orlando ficou m irando o coronel Horácio que voltava a com er. Olhava as grandes m ãos calosas do coronel, a sua face fechada. Por fim , falou:- Vosm ecê vendeu?

- Isso é negócio m eu...

- Mas vosm ecê não se arrecorda que nos vendeu esse pedaço de m ata? Pelo dinheiro do contrato de cacau?

- Vocês tem a escritura? - e Horácio voltou a com er. Orlando rodou na m ão o chapéu enorm e de palha. Tinha consciência de toda a desgraça que lhes havia acontecido, a ele e aos dois com panheiros. Sabia tam bém que legalm ente não havia com o lutar contra o coronel. Sabia que não tinham m ais terra, nem roça plantada, não tinham m ais nada. Um véu de sangue turvou-lhe o olhar, não m edia m ais suas palavras:

- Desgraça pouca é bobagem , coronel. Vosm ecê fique avisado que no dia que o coronel Ram iro entrar na roça, nesse dia vosm ecê paga por tudo. . . Pense bem . Disse e saiu afastando com o braço a negra Felícia que estava servindo o coronel. Horácio continuou a com er, com o se nada houvesse passado. De noite Horácio chegou com seus cabras na roça dos três am igos. Cercou o rancho, dizem que ele m esm o liquidou os hom ens. E que depois, com sua faca de descascar frutas, cortou a língua de Orlando, suas orelhas, seu nariz, arrancou-lhe as calças e o capou. Tinha voltado para a fazenda com seus hom ens e quando um deles foi pegado, bêbado, pela polícia e o denunciou, ele apenas riu sua risada. Foi im pronunciado.

Seus j agunços diziam que ele era um m acho de verdade e que valia a pena trabalhar para um hom em assim . Nunca deixava que j agunço seu parasse na cadeia e certa vez saíra especialm ente da fazenda para libertar um que estava na prisão de Ferradas. Depois de tirá-lo de entre as grades, rasgara o processo na cara do escrivão.

Muitas histórias contavam do coronel Horácio. Diziam que, antes de ser chefe do partido político oposicionista, para conquistar esse posto, m andara que seus j agunços esperassem na tocaia o antigo chefe político, um com erciante de Tabocas, e o liquidassem . Depois lançou a culpa contra os inim igos políticos. Agora o coronel era chefe indiscutido da zona, o m aior fazendeiro dali e im aginava estender suas terras por m uito longe. Que im portavam as histórias que contavam sobre ele? Os hom ens, fazendeiros e trabalhadores, contratistas e lavradores de pequenas roças, o respeitavam , o núm ero dos seus afilhados era incontável.

Nessa m anhã ele ia entre os cacaueiros novos que davam seus prim eiros frutos. Acabara de preparar o cigarro com as grandes m ãos calosas. Pitava vagarosam ente e não pensava em nada, nem nas histórias que contavam dele, nem m esm o na chegada recente do Dr. Virgílio, o novo advogado que o partido enviara da Bahia para os trabalhos de Tabocas, não pensava nem m esm o em Ester, sua esposa, tão linda e tão j ovem , educada pelas freiras na Bahia, filha do velho Salustiano, com erciante de Ilhéus que a dera, encantado, de esposa ao coronel. Era a sua segunda m ulher, a prim eira m orrera quando ele era ainda tropeiro. Era triste e linda, m agra e pálida, e era a única coisa que fazia o coronel Horácio sorrir de um a m aneira diferente. Neste m om ento nem em Éster pensava. Não pensava em nada, via apenas os frutas dos cacaueiros, verdes ainda, pequeninos, as prim eiros daquela roça. Com a m ão tom ou de um deles, doce e voluptuosam ente o acariciou. Doce e voluptuosam ente com o se acariciasse a carne j ovem de Ester. Com am or. Com infinito am or. 4

Ester andou para o piano, piano de cauda, num canto da sala enorm e. Descansou as m ãos sobre as teclas, os dedos iniciaram m aquinalm ente um a m elodia. Velha valsa, farrapo de m úsica que lhe lem brava as festas do colégio. Recordou-se de Lúcia. Onde andaria ela, Fazia tem po que não lhe escrevia, que não m andava um a das suas cartas loucas e divertidas. Tam bém a culpa era sua, não respondera às duas últim as cartas de Lúcia. . . Nem agradecera as revistas francesas e os figurinos que ela m andara.. Ainda estavam em cim a do piano, j unto com antigas m úsicas esquecidas. Éster riu tristem ente, arrancou outro acorde do piano. Para que figurinos naquele fim do m undo, naquelas brenhas? Nas festas de São José, em Tabocas, nas festas de São Jorge, em Ilhéus, as m odas andavam atrasadas de anos e ela não poderia exibir os vestidos que a am iga vestia em Paris. . . Ah! se Lúcia pudesse im aginar sequer o que era a fazenda, a casa perdida entre as roças de cacau, o silvo das cobras nos charcos onde com iam rãs E a m ata... Por detrás da casa ela se estendia trancada nos troncos e nos cipós. Ester a tem ia com o a um inim igo. Nunca se acostum aria, tinha certeza. E se desesperava porque sabia que toda a sua vida seria passada ali, na fazenda, naquele m undo estranho que a aterrorizava.

Nascera na Bahia, em casa dos avós, onde a m ãe fora ter criança e m orreu do parto. O pai negociava em Ilhéus, naquele tem po iniciava a vida e Ester ficou com os avós que lhe faziam todas as vontades, que a m im ava. e viviam exclusivam ente para ela. O pai prosperou em Ilhéus com um arm azém de secos e m olhados, aparecia de quando em vez, duas viagens por ano à capital, a negócios. Ester cursara o m elhor colégio para m oças da Bahia, um colégio de freiras, prim eiro externa, interna depois quando os avós m orreram no últim o ano do curso. Morreram um após o outro no m esm o m ês. Ester vestiu luto, naquele m om ento não chegou a se sentir sozinha porque tinha as colegas. No colégio sonhavam sonhos lindos, liam rom ances franceses, histórias de princesas, de um a vida form osa. Todas tinham planos de futuro, ingénuos e am biciosos: casam entos ricos e de am or, vestidos elegantes, viagens ao Rio de Janeiro e à Europa. Todas m enos Geni que desej ava ser freira e passava o dia rezando. Ester e Lúcia, consideradas as m ais elegantes e belas do colégio, sonhavam de im aginação solta. Conversavam nos pátios, durante os recreios, no silencio do dorm itório tam bém .

Ester deixa o piano, o últim o acorde vai m orrer na m ata. Ah! os tem pos felizes do colégio Ester se recordava de um a frase de sóror Angélica, a freira m ais sim pática de todas, quando elas desej avam que o tem po de colégio passasse quanto antes e chegasse o m om ento de viver a vida intensam ente. Então soror Angélica pousara nos seus om bros as delicadas m ãos, tão m agras! e lhe dissera:- Nenhum tem po é m elhor que este, Ester, em que o sonho é possível.

Naquele dia ela não entendera, fora preciso que passassem os anos, até que a frase lhe viesse à m em ória de novo para ser recordada desde então quase diariam ente. Ah! Os tem pos felizes do colégio... Ester anda até a rede que a espera na varanda. Daí ela vê a estrada real onde de raro em raro um trabalhador passa em busca do cam inho de Tabocas ou de Ferradas. Vê tam bém o grupo de barcaças onde o cacau seca ao sol, pisado pelos pés negros dos trabalhadores. Term inado o curso, ela viera para Ilhéus, nem assistira ao casam ento de Lúcia com o Dr. Alfredo, o m édico de tanto sucesso. A am iga viaj ara logo. Rio de Janeiro e Europa, onde o m arido ia se dem orar em hospitais célebres, especializando-se. Lúcia fora realizar seus sonhos, os vestidos caros, os perfum es, os bailes de grande orquestra. Éster pensa nas diferenças do destino. Ela viera para Ilhéus, outro m undo. Um a cidade pequena, que apenas com eçava a crescer, de aventureiros e lavradores, onde só se falava em cacau e m ortes.

O pai m orava num prim eiro andar, por cim a do arm azém , da sua j anela Ester via a m onótona paisagem da cidade. Um m orro de cada lado. Não encontrava beleza no rio, nem no m ar. Para ela a beleza estava com a vida de Lúcia, os bailes em Paris. Nem m esm o nos dias de chegada de navios, quando toda a cidade se anim ava, quando havia j ornais da capital, quando os botequins se enchiam de hom ens que discutiam política, nem nesses dias quase de festa Ester saía de sua tristeza. Os hom ens a adm iravam e a cortej avam de longe. No tem po das férias um estudante de m edicina escreveu-lhe um a carta e m andou-lhe versos. Mas para Ester o tem po era pouco para chorar, para lastim ar a m orte dos avós que a obrigavam a viver naquele desterro. As notícias de brigas e de m ortes a assustavam , deixavam -na num a agonia. Aos poucos foi se deixando vencer pela vida da cidade, se despreocupando da elegância que tanto sucesso (e certo escândalo) fizera quando da sua chegada, e quando um dia seu pai, m uito alegre, lhe com unicou que o coronel Horácio, um dos hom ens m ais ricos da zona, pedia a sua m ão, ela se contentou em chorar.

Agora era um a festa quando ia a Ilhéus. O sonho das grandes cidades, da Europa, dos bailes im periais e dos vestidos parisienses, ficara para trás. Parecia tudo m uito longe, perdido no tem po, naquele tem po "em que era possível sonhar". Poucos anos se haviam passado. Mas era com o se toda um a vida tivesse sido vivida num a rapidez de alucinação. Seu m elhor sonho desses dias é um a viagem a Ilhéus, assistir às festas da igrej a, um a procissão, um a querm esse com leilão de prendas.

Balança-se na rede m ansam ente. Na sua frente, até onde seus olhos alcançam , estendem -se, subindo e baixando os m orros, as roças de cacau, carregadas de frutos. No terreiro ciscam as galinhas e os perus. Os negros trabalham nas barcaças, revolvendo o cacau m ole. O sol irrom pe sobre a paisagem , saindo de entre as nuvens. Ester se recorda do dia do casam ento. No dia que casara, nesse m esm o dia, havia vindo para a fazenda. Ester estrem ece na rede ao lem brar. Fora a sua m aior sensação de horror. Se lem brava que antes, ao ser anunciado o noivado, a cidade se encheu de cochichos, de disses-não-disses. Um a senhora, que nunca a visitara, apareceu um dia para lhe contar histórias. Antes haviam vindo velhas beatas, conhecidas da igrej a, que lhe diziam das lendas sobre o coronel. Mas aquela m ulher trouxe um a notícia que era m ais concreta e m ais terrível. Dissera que Horácio m atara a prim eira m ulher a rebenque porque a encontrara com outro na cam a. Isso no tem po em que ainda era tropeiro e atravessava as picadas recém -abertas no m istério da m ata. Só m uito tem po depois, quando j á ele enricara, essa história com eçara a circular nas ruas de Ilhéus, nas estradas da terra do cacau. Talvez porque toda a cidade falasse dele em voz baixa, Ester, com certo orgulho e m uito despeito, levou o noivado adiante, um noivado feito de silêncios longos nos raros dom ingos em que ele baixava à cidade e ia j antar em sua casa. Um noivado sem beij os, sem carícias sutis, sem palavras de rom ance, tão diferente do noivado que Ester im aginara um dia, na quietude do colégio de freiras.

Quisera um casam ento sim ples, se bem Horácio tentasse fazer as coisas a grande: banquete e baile, foguetes e m issa cantada. Mas fora tudo m uito íntim o, realizados em casa os dois casam entos, o do padre e o do j uiz. O padre fez um serm ão, o j uiz desej ou felicidades com sua cara cansada de bêbado, o Dr. Rui botou discurso bonito. Casaram pela m anhã, e à noitinha, no lom bo dos burros, através dos atoleiros, chegavam à casa-grande da fazenda. Os trabalhadores que se haviam reunido no terreiro em frente dispararam suas repetições quando os burros se aproxim aram . Estavam desej ando boas-vindas ao casal, porém Ester sentiu seu coração apertar com o estam pido dos tiros na noite. Horácio m andara distribuir cachaça pelo pessoal m as, m inutos depois, j á a deixava sozinha e saía para se inform ar do estado das roças, para saber com o se haviam perdido as arrobas de cacau que estavam secando na estufa, devido às chuvas. Só quando ele voltou as negras acenderam as lâm padas de querosene. Ester se assustou com o grito das rãs. Horácio quase não falava, esperava im paciente que o tem po passasse. Quando outra rã gritou no charco, ela perguntou:

- Que é?

A voz dele veio indiferente:

- Um a rã na boca de um a cobra...

E chegou o j antar servido pelas negras que olhavam desconfiadas para Ester. E de repente, m al term inado o j antar, foi aquele rasgar de vestidos e do seu corpo na posse brutal e inesperada.

Se acostum ou com tudo, agora se dava bem com as negras, a Felícia até estim ava, era um a m ulatinha dedicada. Se acostum ou até com o m arido, com o seu silencio pesado, com os seus repentes de sensualidade, com as suas fúrias que deixavam os m ais ferozes j agunços encolhidos de m edo, acostum ou com os tiros à noite na estrada, com os cadáveres que por vezes passavam estirados em redes, um triste acom panham ento de m ulheres chorando, só não se acostum ou com a m ata no fundo da casa, onde pelas noites, ao charco que o riacho fazia, as rãs gritavam seu grito desesperado na boca das cobras assassinas. No fim de dez m eses nascera um filho, agora tinha ano e m eio e Ester via horrorizada que Horácio nascera novam ente na criança. Era tudo dele e Ester pensava consigo m esm a que ela era culpada, pois não colaborara no gestar daquele ser, nunca se entregara, fora sem pre tom ada com o um obj ecto ou um anim al. Mas ainda assim o queria, o am ava ardentem ente e sofria por ele. Se acostum ara com tudo, não sonhava m ais. Só não se acostum ara com a m ata e com a noite da m ata. Nas noites de tem poral era espantoso: os raios ilum inando os altos troncos, derrubando as árvores, os trovões roncando. Nessas noites Ester se encolhia com m edo e chorava sobre o seu destino. Eram noites de pavor, de m edo irreprim ível, um m edo que era com o um a coisa concreta e palpável. Com eçava na hora dilacerante do crepúsculo. Ah! aqueles crepúsculos da m ata, anunciadores de tem pestades. .. Quando a tarde caía, cheia de nuvens negras, as som bras eram com o fatalidades definitivas, não havia luz de querosene que tivesse força de espantá-las, de evitar que elas cercassem a casa e fizessem dela, das roças de cacau e da m ata, um a coisa só, ligadas pelo crepúsculo igual a um a noite. As árvores se agigantavam , cresciam com o estrum e m isterioso das som bras, os ruídos se faziam dolorosos, pios de aves desconhecidas, gritos de anim ais que Ester nunca sabia onde estavam . E o silvar dos répteis, o bulir das folhas secas onde se arrastavam .... Ester tem sem pre a im pressão de que as cobras term inarão um dia por subirem na varanda, penetrarem na casa e chegarem , num a noite de tem poral, ao seu pescoço e ao da criança, nos quais se enroscarão com o um colar. Ela m esm a não poderia contar o horror daqueles m om entos que duravam desde a chegada do crepúsculo até o cair do tem poral. Então, quando ele desabava, a natureza desej ando destruir tudo, ela procurava os lugares onde a luz das lâm padas de querosene m ais brilhava. Ainda assim as som bras que a luz proj ectava lhe davam m edo, faziam sua im aginação trabalhar, acreditar nas m ais supersticiosas histórias dos capangas. Havia um a coisa que sem pre voltava à sua m em ória nessas noites. Eram as cantigas de ninar que sua avó cantava para acalentá-la na sua infância distante. E Ester, j unto á cam a da criança, as repetia baixinho, um a a um a, por entre lágrim as, acreditando m ais um a vez no seu sortilégio. Cantava para a criança que a olhava com seus olhos baços e duros, os olhos de Horácio, m as cantava para si tam bém , tam bém ela um a criança am edrontada. Cantava baixinho, se em balava na m elodia, as lágrim as rolavam pela sua face. Esquecia a escuridão da varanda, as terríveis som bras do cam po, o gem er aziago das coruj as nas árvores, a tristeza da noite, O m istério da m ata. Cantava distantes cantigas, m elodias sim ples contra os m alefícios. Era com o se a som bra protectora da avó se estendesse ainda sobre ela, carinhosa e com preensiva.

Continuar: parte 3 de 4