Terras do Sem Fim

Jorge Amado · Capítulo 2 de 5 · parte 3/4

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Terras do Sem Fim

E se enternecia de repente, lem brando-se…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

- Nunca vi tanta nota de quinhentas m il-réis com o em Ferradas. . Era a nota m ais alta que havia naquele tem po. Em Ferradas ninguém tinha troco, níqueis quase não existiam . Contavam outras anedotas tolas, com o todas as anedotas dos caixeirosviaj antes.

- Quando alguém chegá em Ferradas, Chico Martins, que é o dono da pensão, põe açúcar na cam a onde o hóspede vai dorm ir.

O que ouvia a história se adm irava:

- Açúcar? Para quê?

- Para dar form iga e as form igas com erem os percevej os. A varíola e o tifo eram endém icos no povoado e a casa m elhor de Ferradas não estava propriam ente nas suas ruas. Estava m ais para dentro da m ata, era o lazareto onde internavam os bexigosos. Diziam que nenhum bexigoso voltara de lá. Era cuidado por um preto velho que tivera a bexiga negra e se salvara. Ninguém entrava no pedaço de m ata onde estava o lazareto. Infundia terror em toda a população.

Ferradas nascera em torno do arm azém de cacau que Horácio fizera construir ali. Ele precisava de um depósito onde j untar o cacau j á seco das suas diversas fazendas. Ao lado do arm azém foram surgindo casas, em pouco tem po se abriu um a rua na lam a, dois ou três becos a cortaram , chegaram as prim eiras prostitutas e os prim eiros com erciantes. Um sírio abriu um a venda, dois barbeiros se estabeleceram vindos de Tabocas, passou a haver feira aos sábados, Horácio m andava abater dois bois para vender a carne. Tropeiros, que vinham conduzindo tropa de cacau seco das fazendas m ais distantes, pernoitavam em Ferradas, os burros vigiados por causa dos ladrões de cacau. Mas Ferradas com eçou a ser m esm o m uito falada quando da nom eação dos subdelegados. O prefeito de Ilhéus, a instâncias de Juca Badaró, nom eara um subdelegado de polícia para Ferradas. Era um a m aneira de ferir Horácio, de se m eter nas terras dele. Disseram que aquilo j á era um povoado e não im portava que estivesse em terras de Horácio. Era necessário que a j ustiça se im plantasse ali e se pusesse cobro aos assassinatos e roubos que se sucediam . O delegado chegou por um a tarde. Vinha com três soldados de polícia, aném icos e tristes. Chegaram m ontados e pela noite voltaram a pé e nus, após terem tom ado um a surra trem enda. O j ornal governista de Ilhéus falou no assunto atacando Horácio, o j ornal da oposição perguntou por que nom eavam um subdelegado e no entanto não calçavam nem um a rua, não punham nem um candeeiro de ilum inação nas esquinas? As benfeitorias que Ferradas possuía eram feitas pelo coronel Horácio da Silveira. Se, o m unicípio queria intervir na vida da localidade que então contribuísse tam bém com algum progresso para ela. Ferradas vivia em paz, não precisava de polícia, precisava era de calçam ento, de luz e de água encanada. Mas não adiantaram os argum entos do j ornal da oposição que respondia aos interesses de Horácio. O prefeito, sem pre atiçado por Juca, nom eou outro delegado. este era conhecido com o valente, era Vicente Garangau, que fora m uito tem po j agunço dos Badarós. Chegou com dez soldados, conversando m uito, que ia fazer e acontecer. Logo no dia seguinte prendeu um trabalhador de Horácio que arm ara um a baderna num a casa de raparigas. Horácio m andou um recado pra ele soltar o hom em . Ele m andou dizer que Horácio viesse soltar. Horácio veio m esm o, soltou o hom em , Vicente Garangau foi m orto no cam inho dos Macacos quando procurava se esconder na fazenda de Maneca Dantas. Arrancaram -lhe a pele do peito, as orelhas e os ovos e m andaram tudo de presente ao prefeito de Ilhéus. Desde esse tem po não havia subdelegado em Ferradas por m ais que Juca Badaró procurasse um hom em que quisesse o cargo. Horácio fizera construir um a capela e conseguiu um frade que viesse para ali. Frei Bento parecia m ais um conquistador de terra que um sacerdote de Cristo. Sua paixão era o colégio que as freiras estavam construindo em Ilhéus com todas as dificuldades, e todo o dinheiro que conseguia arrebanhar em Ferradas enviava para as freiras, para a sua obra. Por isso não era sim patizado no povoado. Esperavam que ele se preocupasse m ais com Ferradas, que pensasse em levantar um a igrej a m elhor que a de Tabocas para substituir a capela. Mas Frei Bento só pensava no colégio das freiras que se iniciara m onum ental no m orro da Conquista, na cidade de Ilhéus. Fora um proj ecto dele, custara-lhe m uito convencer ao arcebispo da Bahia, para que m andasse as freiras. E se as obras se haviam iniciado devia-se a Frei Bento que form ou com issões de senhoras em Ilhéus. E ele, se aceitara aquele lugar de capelão em Ferradas, fora com o fito de arranj ar dinheiro ali para as obras do colégio. Metia-lhe m edo a indiferença dos coronéis pela educação das filhas. Pensavam m uito nos filhos, em fazer deles m édicos, advogados ou engenheiros, as três profissões que haviam substituído a nobreza, m as nas filhas não pensavam , bastava que aprendessem a ler e a cozinhar. Em Ferradas não perdoavam a Frei Bento o desinteresse pelo povoado. Diziam que ele dorm ia com a cozinheira, um a m ulatinha que viera da fazenda de Horácio. E, quando ela pariu, apesar de que todo m undo sabia que o m enino era filho de Virgulino, o em pregado do sírio, todos achavam que ele se parecia com Frei Bento. Frei Bento sabia dos com entários, encolhia os om bros, saía à cata de dinheiro para o colégio. Tinha um secreto desprezo por aquela gente toda que ele considerava irrem ediavelm ente perdida, assassinos, ladrões, hom ens sem lei, sem respeito a Deus. Segundo Frei Bento não havia um só m orador de Ferradas que não houvesse há bastante tem po conquistado a eternidade do inferno. E o dizia nos serm ões de poucos assistentes nas m issas de dom ingo. Essa opinião do frade era m ais ou m enos generalizada pelas terras do cacau onde Ferradas era sinónim o de m orte violenta. Mais que o catolicism o representado pelo frade com seu desinteresse pela povoação, o espiritism o m edrava. Na casa de Eufrosina, um a m édium que com eçava a criar fam a, os "crentes" se reuniam para ouvir os parentes e os am igos m ortos. Eufrosina trem ia na cadeira, com eçava a falar com a língua em bolada, um dos presentes reconhecia a voz de um defunto conhecido. Contavam que, há m uito tem po, os m ortos, principalm ente o espírito de um índio que era o guia de Eufrosina vinha anunciando os barulhos por causa da m ata de Sequeiro Grande. Aquelas profecias eram com entadas e ninguém era cercado de tanto respeito em Ferradas com o a m ulata Eufrosina que atravessava a sua m agreza pelas ruas enlam eadas. Com o sucesso das "sessões", Eufrosina iniciou tam bém uns tratam ento de m oléstias pelo espiritism o, com relativo sucesso. Foi só então que o Dr. Jessé Freitas, que era m édico em Tabocas e que vinha um a vez por sem ana a Ferradas para atender aos doentes do povoado, que era cham ado tam bém nas noites de tiroteio, uniu a sua cam panha à de Frei Bento, contra Eufrosina. Ela lhe estava tirando a clientela, os doentes de febre iam cada vez m ais à m édium que ao m édico. Frei Bento chegou a falar com Horácio. Mas Horácio não ligou. Dizem que foi por isso que Frei Bento inventou aquela história sobre Horácio e as sessões espíritas. Frei Bento tinha - segundo Ferradas - um a língua venenosa. E desta vez fora m esm o ele quem espalhara a história. Dizia esta que, em certa sessão espírita em casa de Eufrosina, cham aram o espírito de Mundinho de Alm eida, um dos prim eiros conquistadores de terra, o m ais terrível deles m orto m uitos anos antes, m as cuj a fam a de m alvadez ainda perdurava. Falava-se nele com o sím bolo de hom em ruim .

Eufrosina em pregou-se toda em cham ar o espírito de Mundinho de Alm eida. Não havia j eito dele vir. Foi um a luta trem enda, a m édium se rebentando num esforço enorm e de trem edeiras e transes. Por fim , ao cabo de m ais de um a hora de trabalho, os assistentes j á cansados de tanta concentração, Mundinho de Alm eida chegou, m uito cansado e m uito apressado. Que dissessem logo o que queriam , ele tinha que voltar rapidam ente. A m édium perguntou com doçura:- Mas, por que tanta pressa, irm ão?

- Ah! no inferno a gente está m uito ocupado. Todo m undo.. - respondera o espírito de m aus m odos, e pelos m aus m odos os m ais velhos afirm aram que era m esm o Mundinho de Alm eida.

- O que é que estão fazendo? - quis saber Eufrosina, voz da curiosidade geral.- Tam os j untando lenha o dia todo. Trabalha todo m undo, os pecador e os diabo. .- Pra que tanta lenha, irm ão?

- Tam os fazendo a fogueira pro dia que vier Horácio. . . Eram assim as histórias do povoado de Ferradas, feudo de Horácio coito de bandidos. Dali partiram para as m atas os desbravadores de terra. Era um m undo prim itivo e bárbaro cuj a única am bição era dinheiro. Cada dia chegava gente desconhecida em busca de fortuna. De Ferradas, partiam as novas estradas recém -abertas da terra do cacau. De Ferradas, os hom ens de Horácio iam partir para dentro das m atas de Sequeiro Grande. Naquele dia Ferradas vivia das notícias que o velho trouxera com o cadáver. Juca Badaró passara por ali na ida para Tabocas. Na volta j á não poderia vir por Ferradas, teria que procurar outro cam inho. De m anhã para a tarde Ferradas se pôs em pé de guerra. Chegaram j agunços para guardar o arm azém de Horácio. Nas vendas, os hom ens bebiam m ais cachaça que norm alm ente. No princípio da noite, Horácio chegou. Chegou com um a com itiva grande, uns vinte cavalos, um a tropa de burros que conduzia as bagagens. Se dirigiam a Tabocas, onde, no dia seguinte, Ester tom aria o trem para Ilhéus. Ela vinha m ontada á m aneira daquele tem po, sentada de banda no selim que tinha cabeção de prata com o de prata era o cabo do rebenque que ela trazia na m ão. A seu lado m archava Virgílio num cavalo tordilho. Mais atrás, ao lado de Horácio pesado na sua m ontaria, vinha, baixo e troncudo, o rosto cortado por um longo talho de facão, com padre Braz, dono de um a roça j unto das m atas de Sequeiro Grande, respeitado com o ele só na zona do cacau. Trazia um a repetição na frente da sela e sobre ela descansava a m ão que segurava a rédea. E vinham cabras e tropeiros, repetição no om bro, o revólver no cinto. Fechando a m archa cavalgava Maneca Dantas que havia fracassado na sua m issão ante o coronel Teodoro Martins, o proprietário das Baraúnas. Este ficara com os Badarós. Vinham todos num grupo cerrado, levantando poeira na estrada de barro verm elho. Os tropeiros gritavam pelos burros de carga, aquilo parecia m ais um pequeno troço de exército invadindo um povoado. Entraram num galope. Logo no com eço da rua, Horácio passou na frente de todos e riscou o solo com as patas do seu cavalo ao parar defronte da casa de Farhat, o sírio, onde iam pernoitar. Assim com o cavalo levantado sobre as patas traseiras, levantado ele tam bém da sela, o chão com as m arcas do risco das patas do anim al, o rebenque num a m ão, a outra sustentando pela rédea o equilíbrio do cavalo, Horácio parecia um a estátua equestre de um antigo guerreiro. Os cabras e os tropeiros se espalharam pelo povoado que fervia de com entários. Nessa noite pouca gente dorm iu em Ferradas. Era com o um a noite de acam pam ento antes da m anhã da batalha.

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Com seus longos chicotes que estalavam ao tocar o solo, os tropeiros atravessavam as ruas enlam eadas de Tabocas. Gritavam , para os burros não entrarem pelos becos e pelas ruas novas que se abriam :- Eh! Diam ante! Dianho! Pra frente, burro da desgraça..

Na frente da tropa chocalhando de guizos, com um peitoral enfeitado, ia o burro que m elhor conhecia o cam inho, a "m adrinha da tropa". Os coronéis requintavam no enfeite dos peitorais das "m adrinhas das tropas", era um a prova da sua fortuna e da seu poderio.

O grito dos tropeiros atravessava dia e noite o povoado de Tabocas, se elevando sobre todas as vozes e todos os ruídos:- Xô, Piranha! Toca pra frente, Borboleta! Mula em pacadeira dos diabos... E os longos chicotes estalavam no ar e no solo, enquanto as tropas de burros revolviam a lam a das ruas no seu passo seguro e tardio. De um a porta qualquer um conhecido pilheriava com o tropeiro na pilhéria m ais gasta de Tabocas:- Com o vai, m ulher de tropeiro?

- Vou ver tua m ãe daqui a pouquinho.. .

Por vezes entravam boiadas que vinham do sertão e que, ou paravam em Tabocas, vendidas aos abatedores, ou seguiam no cam inho de Ilhéus. Os bois m ugiam nas ruas, os vaqueiros vestidos de couro, nos seus pequenos cavalos de tanta agilidade, se m isturavam aos tropeiros nas vendas onde bebiam cachaça ou nas casas das ram eiras onde buscavam um carinho de m ulher. Cavaleiros atravessavam a rua no galope dos cavalos, o revólver no cinto. As crianças que brincavam na lam a se afastavam rápidas, abrindo cam inho. E m il vezes por dia a lam a das ruas era revolvida, cacau e m ais cacau se depositava nos arm azéns enorm es. Assim era Tabocas.

Prim eiro não teve nom e, quatro ou cinco casas apenas à m argem do rio. Depois foi o povoado de Tabocas, as casas se construindo um as atrás das outras, as ruas se abrindo sem sim etria ao passo das tropas de burros que traziam cacau seco. A estrada de ferro avançou de Ilhéus até ali e, em torno dela, nasceram novas casas. E eis que não eram só casas de barro batido, sem pintura, de j anelas de tábuas, casas levantadas ás pressas, casas m ais para pouso que m esm o para m oradia com o as de Ferradas, Palestina e Mutuns. Em Tabocas se levantaram casas de tij olos e tam bém casas de pedra e cal, com telhados, verm elhos, com j anelas de vidro, um a parte da rua central tinha sido calçada de pedras. É verdade que as outras ruas eram um puro lam açal, revolvido diariam ente pelas patas dos burros que chegavam de toda a zona do cacau, carregados com sacos de quatro arrobas. As ruas se abriam em arm azéns e arm azéns onde o cacau era depositado. Algum as casas exportadoras j á tinham filial em Tabocas e ali com pravam o cacau aos fazendeiros. E se bem não tivesse sido ainda instalada um a filial do Banco do Brasil, havia um representante bancário que evitava a m uitos coronéis fazerem a viagem de trem a Ilhéus para depositar e retirar dinheiro. No m eio de um a larga praça plantada de capim , havia sido construída a igrej a de São José, padroeiro da localidade. Quase em frente, num dos poucos sobrados de Tabocas, estava a Loj a Maçónica que reunia no seio a m aioria dos fazendeiros e que dava bailes e m antinha um a escola. Do outro lado do rio j á se levantavam várias casas e com eçava-se a falar em construir um a ponte que ligasse os dois pedaços da cidade. Os habitantes de Tabocas tinham um a grande reivindicação: que o povoado fosse elevado à categoria de cidade e fosse sede de governo e de j ustiça, com seu prefeito, seu j uiz, seu prom otor, seu delegado de polícia. Alguém j á propusera até o nom e que devia ter o novo m unicípio e a nova cidade: Itabuna, que em língua guarani quer dizer "pedra preta". Era um a hom enagem às grandes pedras que surgiam nas m argens e no m eio do rio e sobre as quais as lavadeiras passavam o dia no seu trabalho. Mas com o Tabocas respondia politicam ente a Horácio, sendo ele o m aior fazendeiro das proxim idades, o governo do Estado não atendia ao apelo dos m oradores. Os Badarós diziam que era um plano político de Horácio para dom inar ainda m ais aquela zona. Tabocas continuava um povoado do m unicípio de São Jorge dos Ilhéus. Mas j á m uita gente quando escrevia cartas, não as datava m ais de Tabocas e, sim de Itabuna. E quando perguntavam a um m orador dali, que estivesse de passeio em Ilhéus, de onde ele era, o hom em respondia cheio de orgulho:

- Sou da cidade de Itabuna.. .

Havia um subdelegado, era a m aior autoridade. Isso de nom e, porque em verdade, a m aior autoridade era Horácio. O subdelegado era um ex-cabo do exército, pequeno, m agro e valente, que se m antinha ali apesar de todas as am eaças dos cabras de Horácio. Fora hábil tam bém , procurava não abusar da sua autoridade, e só se envolvia num barulho quando ou j á as feridas eram graves ou alguém havia caído m orto. Horácio se dava com ele, e, m ais de um a vez, havia apoiado algum as atitudes do cabo m esm o contra j agunços seus. Quando Horácio chegava em Tabocas, o cabo Esm eraldo ia sem pre visitá-lo, trocar dois dedos de prosa com ele. E sem pre falava na possibilidade de um a reconciliação com os Badarós. Horácio ria, seu riso para dentro, batia no om bro do cabo:

- Tu é um hom em direito, Esm eraldo. Porque tu ta servindo a esses Badarós é que eu não entendo. No dia que tu quiser, tem um am igo às ordens. Mas Esm eraldo sentia por Sinhô Badaró um a veneração que vinha de longe, de dias rem otos quando haviam os dois varado j untos as m atas da terra do cacau. Nessas terras se dizia que os hom ens de Sinhô eram fiéis por am izade. Quem so ligava a ele não o abandonava nunca. Que não era com o Horácio, hom em de trair os seus am igos.

Em Tabocas quem era am igo e eleitor de Horácio m antinha sem pre um a atitude de hostilidade em relação aos am igos e eleitores dos Badarós. Nas eleições havia barulhos, tiros e m ortes. Horácio ganhava sem pre e sem pre perdia porque as urnas eram fraudadas em Ilhéus. Votavam vivos e m ortos, m uitos votavam sob a am eaça dos cabras. Nesses dias Tabocas se enchia de j agunços que guardavam as casas dos chefes políticos locais; a do Dr. Jessé, que era eternam ente o candidato de Horácio, a de Leopoldo Azevedo, chefe dos governistas, a do Dr. Pedro Mata, agora tam bém a do Dr. Virgílio, o novo advogado. Havia um a farm ácia para cada partido e nenhum doente que votasse nos Badarós se tratava com o Dr. Jessé. Era com o Dr. Pedro. Os dois m édicos m antinham relações pessoais, m as diziam horrores um do outro. Dr. Pedro dizia que o Dr. Jessé não ligava para os enferm os, m uito m ais preocupado com a política e com a sua roça de cacau. Dr. Jessé afirm ava. e a população fazia coro, que o Dr. Pedro não respeitava as enferm as, que um hom em casado ou pai de fam ília não lhe podia entregar sua m ulher ou sua filha para um exam e geral. Havia tam bém um dentista para cada um dos partidos. Todo o povoado estava dividido nos dois partidos políticos e trocava desaforos pesados nos j ornais de Ilhéus. Horácio j á encom endara as m áquinas para fundar em Tabocas um sem anário que Dr. Virgílio dirigiria.

Só os advogados eram m uitos, seis ou sete naquele povoado, ganhando dinheiro todos com os "caxixes" escandalosos. Mais que em Ilhéus, era em Tabocas que o "caxixe" m edrava. Hom ens que há anos possuíam terras e plantações as perdiam de um dia para outro devido a um "caxixe" bem feito. Não havia coronel que se anim asse a fazer negócios sem antes consultar um bom advogado, se resguardar com pletam ente da possibilidade do "caxixe" futuro. Um negro de Tabocas, Claudionor, fazendeiro que colhia suas m il arrobas de cacau, fizera certa vez um "caxixe" que ficara célebre e fora citado m esm o pelos j ornais da Bahia. A vitim a fora o coronel Misael, cuj a fortuna j á era m eio lendária ainda naquele tem po, fazendeiro de m uitas m il arrobas, accionista das obras do porto e da estrada de ferro, dono de um banco em Ilhéus. Era toda um a força económ ica, tinha um advogado por genro. Pois ainda assim fora logrado pelo negro Claudionor. Na quietude da sua fazenda, Claudionor estudara o "caxixe" e o realizara com a aj uda do Dr. Rui.

Um dia apareceu para o coronel Misael e lhe pediu setenta contos de réis em prestados, para com prar um a roça. Misael em prestou com j uros altos e prazo curto: seis m eses. Tam bém o coronel Misael tinha seu plano, que era ficar com a fazenda de Claudionor quando este não pagasse. Claudionor era analfabeto e assinou em cruz os docum entos de reconhecim ento de dívida. Voltou para a sua fazenda e, na passagem por Itabuna, contratou um professor de prim eiras letras. Levou-o para a roça e com ele aprendeu a ler e a assinar o nom e. Seis m eses depois, quando a dívida venceu, Claudionor apenas negou que devesse. Que nunca tom ara dinheiro algum a Misael, que era tudo um a tram pa do coronel. E a m elhor prova - argum entava o Dr. Rui, seu advogado - era que Claudionor sabia ler perfeitam ente e assinava o nom e. E o coronel Misael perdeu setenta contos de réis, Claudionor aum entou suas terras e aj udou ás festas de São José naquele ano. Em verdade não se podia dizer que fossem apenas seis ou sete advogados. Estes, eram os que m oravam em Tabocas. Mas os que habitavam em Ilhéus trabalhavam tam bém no povoado, e os de Tabocas trabalhavam na cidade. Eram apenas três horas e m eia de trem , um dia havia de ser tão som ente quarenta e cinco m inutos pela estrada de rodagem que havia de ser construída com o progredir da zona,

Em m eio aos "caxixes", às lutas políticas às intrigas e ás festas da Igrej a ou da Maçonaria, vivia Tabocas, que antes não tivera nom e e agora pensava em se cham ar Itabuna. Muitas vezes o sangue de hom ens caídos nos barulhos se m isturava á lam a das ruas. Os burros revolviam tudo no seu passo lento. Por vezes, quando o Dr. Jessé chegava com sua m ala de ferros, custava encontrar a ferida, porque a lam a cobria o corpo do hom em . Mas, ainda assim , a fam a de Tabocas corria m undo, se falava desse povoado até no sertão, e certo j ornal da Bahia j á o cham ara de "centro de civilização e de progresso'. 5

Margot estendeu a m ão, apontou o trecho de rua que se via pela j anela aberta, queria indicar todo o povoado de Tabocas:- Isto é a últim a terra do m undo. . . É um cem itério. . Virgílio a puxou para si, Margot deixou a cadeira com m á-vontade, veio se sentar nas pernas dele:

- Você é um a gatinha m al acostum ada.

Ela se levantou num repente, falou zangada:

- E só o que você sabe dizer.. Eu é que sou culpada.. Quando você veio se m eter nessa terra não faltou quem lhe abrisse os olhos. Me lem bro de Juvenal dizendo que você devia era ir pro Rio, fazer carreira. Não sei por que você aceitou vir porótaquis.. .

Virgílio chegou a abrir a boca para falar. Mas ficou com o gesto pela m etade, encontrando que não valia a pena. Se fosse um m ês antes, ele perderia, sem dúvida, um tem o enorm e em explicar para a am ante que ali estava o seu futuro, que se a oposição vencesse as eleições, com o tudo indicava que venceria, ele seria candidato a deputado por aquela zona que era a m ais próspera do Estado. Que o cam inho do Rio de Janeiro era m uito m ais fácil através das estradas do cacau, que através do m ar, num transatlântico. Que Tabocas era terra de dinheiro e que ele, em poucos m eses, havia ganho ali o que não ganharia em anos de advocacia num a capital. Já lhe explicara isso m ais de um a vez, sem pre que Margot sentia saudades das festas, dos cabarés, dos teatros da Bahia. De certa m aneira ele com preendia o sacrifício que a am ante estava fazendo. Aquele caso com eçara quando ele era ainda quartanista. Conhecera Margot num a pensão de m ulheres, dorm ira com ela algum as vezes, não tardou que a m ulher se enxodozasse por ele. E quando ele esteve a pique de abandonar os estudos, devido à m orte do pai que deixara m al os negócios da fam ília, ela viera lhe oferecer o que possuía e o que ganhava cada noite. Aquele gesto o com overa e, com o um chefe político oposicionista lhe conseguira um em prego na secretaria do partido e um lugar na redacção do j ornal, ele pudera ficar com Margot só para si. Passou a pagar o quarto dela na pensão, dorm ia lá todas as noites, saía m esm o com ela para os teatros. Só não vivia publicam ente com a am ante porque isso seria um escândalo que poderia prej udicar sua carreira. Mas foi no quarto de Margot que, com Juvenal e outros colegas, concebeu toda a cam panha académ ica que faria dele o orador da turm a e j unto a ela escreveu o discurso de form atura. E quando, aconselhado pelo chefe político aceitou o lugar de advogado do partido em Tabocas perdeu horas para convencer Margot de que devia ir com ele. Ela não queria, achava de m enos as festas, a vida e o m ovim ento da Bahia. Sem pre acreditara que Virgílio, logo depois de form ado, rum aria para o Rio de Janeiro. Tam bém Virgílio pensava o m esm o nos seus dias de académ ico. Mas os chefes políticos souberam convence-lo de que, se queria fazer carreira, devia perder uns anos naquelas terras novas do cacau. E veio, apesar de Margot ter declarado que estava tudo term inado entre eles. Fora um a noite dolorosa aquela últim a noite na "Pensão Am ericana". Ela chorava, abraçada a ele, e o acusava de abandoná-la. Ele dizia que era ela quem o abandonava, não gostava dele. Margot tinha m edo:- Você vai pra lá, vai casar com um a tabaroa rica qualquer, m e larga naquelas brenhas.. Não vou não...

- Você não gosta é de m im . Se gostasse ia m esm o.. Se possuíram em m eio à agonia daquela noite que pensavam ser a últim a que passavam j untos. E se requintaram no am or, querendo cada um conservar do outro a m elhor lem brança.

Ele veio sozinho, m as poucas sem anas se passaram e ela chegou inesperadam ente, escandalizando Ilhéus com seus vestidos da últim a m oda, com seus chapéus largos, com o rosto pintado. E a noite do reencontro encheu as ruas de Ilhéus de suspiros e ais de am or. Viera com ele para Tabocas e nos prim eiros tem pos se com portara bem , parecia ter esquecido a vida brilhante e alegre da Bahia, parecia até um a senhora casada, cuidando da roupa dele, dirigindo a com ida na cozinha, toda entregue a ele, descuidando um pouco da elegância, deixando os cabelos caírem sobre os om bros sem reclam ar contra a falta de cabeleireiros que lhe fizessem os com plicados penteados de então. Não viviam j untos, que Virgílio não podia escandalizar o povoado preconceituoso. ele era advogado de um partido político, tinha responsabilidades. Ela vivia num a casa bonita com a am ante de um com erciante local. Nessa casa Virgílio passava um a grande parte do dia, por vezes recebia lá m esm o algum constituinte m ais apressado, lá com ia e dorm ia. lá redigia os considerandos dos casos que tinha de defender perante a j ustiça, em Ilhéus.

Margot parecia feliz, os vestidos de grandes babados dorm iam esquecidos nos arm ários, quase não falava na Bahia. Mas aos poucos foi se cansando. Aos poucos foi se dando conta de que era m ais largo do que ela pensava, o tem po que ele devia passar ali. Dem ais ele, em geral, evitava levá-la a Ilhéus nas suas repetidas viagens, para eludir os com entários m aliciosos. E quando ela ia, era noutro trem e na cidade pouco o via. E, o que era pior, o vira m ais de um a vez de conversa com m oças casadoiras, filhas de fazendeiros ricos. Nesses dias o m undo vinha abaixo, Margot abria a boca em escândalos que abalavam a rua, e, nem Virgílio lhe dizer que aquilo era necessário para a sua carreira, nem isso a com ovia. Saíam brigados e ela lhe lançava em rosto o sacrifício que estava fazendo por ele, socada ali naquelas brenhas, quando podia estar na Bahia, vivendo no bom e no m elhor, porque não faltava com erciante rico ou político m ontado na vida, que quisesse botar casa para ela. Muitos a haviam convidado, ela deixara tudo para vir atrás dele, feito um a tola.- Bem que Cléo m e dizia que não viesse... Que era essa a paga que você ia m e dar. . .

As brigas term inavam sem pre no abrir de um a garrafa de cham panha e no estalar dos beij os, na noite de am or delirante. Mas restava depois, cada vez m aior dentro de Margot, a saudade da vida boa da Bahia e a certeza de que Virgílio não sairia m ais daquelas terras. E o tem po entre as brigas ia dim inuindo, agora se sucediam com espaço de poucos dias, por qualquer m otivo. Ela se queixava da falta de costureiras, de que ali estava botando seu cabelo a perder, de que estava engordando, de que nem sabia m ais dançar, de tanto tem po que não dançava. Nessa tarde a coisa fora m ais séria. ele anunciara que ia a Ilhéus onde se dem oraria uns quinze dias ou m ais. Margot pulou de contente. Ilhéus afinal era um a cidade, se podia dançar no cabaré de Nhozinho, havia algum as m ulheres com quem era possível conversar, não eram só aquelas raparigas im undas de Tabocas, vindas na sua m aioria das roças, defloradas pelos coronéis ou pelos capatazes e que caíam na vida no povoado. Mesm o a m ulher que vivia com ela, a am ante do com erciante, era um a m ulata que nem sabia ler, de corpo bonito e de riso idiota, que o filho de um fazendeiro desfrutara e que o com erciante tirara da rua do Poço que era a rua de m ulheres fáceis. Em Ilhéus, havia m ulheres que vinham da Bahia e do Recife, havia m esm o m ulheres chegadas do Rio de Janeiro, e com elas era possível conversar sobre vestidos e penteados. Margot se alvoroçou toda quando Virgílio anunciou a ida a Ilhéus e a dem ora na cidade. Correu para ele, o enlaçou pelo pescoço, beij ou-o repetidas vezes na boca:- Que bom ! Que bom !

Mas a alegria não durou porque ele lhe avisou que não podia levá-la. Antes m esm o de que ele explicasse por que não a levava, ela j á gritava entre soluços e lágrim as:

- Você tem é vergonha de m im . . . Ou tem algum a outra em Ilhéus. . É capaz de estar m etido com algum a sem -vergonha. Mas fique sabendo que eu quebro a cara dela, que faço um escândalo que todo o m undo vai saber. . . Você não sabe quem sou eu, ainda não m e viu zangada. . .

Virgílio deixou que ela gritasse e só quando ela parou, apenas as lágrim as corriam dos olhos e os soluços saíam do peito, é que ele com eçou a explicar, com um a voz que procurava fazer a m ais carinhosa possível, por que não a levava. Ia a negócios sérios, não teria tem po para cuidar dela, será que ela não sabia ainda que as coisas estavam se pondo feias entre Horácio e os Badarós por causa da m ata de Sequeiro Grande? Ela fez com a cabeça que sim , que sabia. Mas não via naquilo m otivo para ele não a levar. E, quanto ao tem po, não tinha im portância. Ele não havia de trabalhar a noite toda e era pela noite que a acom panhava ao cabaré quando estavam em Ilhéus. Virgílio ficou procurando argum entos. Sentia que ela tinha razão e que as desconfianças que vinham no voz dela, nas acusações vagas de que existia outra m ulher, que vinham nesse olhar entre raivoso e m edroso que ela punha ao fitá-lo, eram certas. Ele não queria levá-la porque ia não só tratar dos interesses de Horácio, com o pensava em poder, nesses dias, ter todo o tem po para Ester. Ester não lhe saía da cabeça. Ainda não deixara de ouvir, dia e noite, aquele pedido de socorro que ela m urm urara, quando o m arido estava na varanda:- "Me leve em bora... Pra longe daqui...

Virgílio sabia que se Margot fosse a Ilhéus não tardaria a ouvir algum com entário m aledicente. E seria um inferno, ela era capaz de um escândalo que inclusive envolvesse Ester. E Virgílio não sabia colocar j untas, num m esm o pé, Ester e Margot. Esta fora a am ante dos tem pos de estudante, que são tem pos de loucuras. Ester era o am or descoberto entre as m atas, aquele que chega um dia e é m ais forte que o m undo. Não queria que ela fosse, estava decidido. Mas não a queria ferir tam bém , ele não sabia m agoar um a m ulher. Procurava com o um desesperado um argum ento decisivo. E acreditou encontrá-lo quando disse a Margot que não queria deixá-la em Ilhéus sem poder cuidar dela, tinha ciúm e dos outros, a casa de Machadão, onde ela pousava sem pre, era a casa de m ulheres m ais freqüentada pelos coronéis de m aior fortuna. Era por ciúm es que não a levava. Disse, dando à sua voz a m aior força de convicção que conseguiu. Margot sorriu por entre as lágrim as. Virgílio se sentiu vitorioso. E esperava poder dar o assunto por term inado, quando ela veio, sentou-se no seu colo e falou:- Tá com ciúm e da tua gatinha? Por que? Você bem sabe que eu nem ligo pras propostas que m e fazem . Se eu m e soquei aqui foi por tua causa, por que havia de te enganar?

Beij ou-o m uito, agora pedia:

- Leva tua gatinha, m eu negro, eu j uro que não saio. Só com você para ir no cabaré. Não saio do quarto, não converso com hom em nenhum . Quando você não tiver tem po eu passo o dia trancada..

Virgílio sentiu que estava cedendo. Mudou de táctica:- Tam bém não sei o que é que você acha de tão horroroso em Tabocas que não pode passar dez dias aqui sozinha. . . Só quer estar m etida em Ilhéus. . . Ela levantou-se, foi quando apontou a rua:

- E um cem itério. . .

Falou de novo no erro dele ter se m etido ali, sacrificando seu futuro e a vida dela. Virgílio pensou em explicar. Mas com preendeu que não valia m ais a pena, naquela hora viu que seu caso com Margot havia chegado ao fim . Desde que conhecera Ester que não tinha olhos para outra m ulher. Mesm o na cam a, com Margot, não era o m esm o am ante de outras noites, sensual, apaixonado pelo corpo dela. Já olhava com certa indiferença os seus encantos, as coxas roliças, os seus seios de virgem , as invenções que ela sabia para tornar ainda m ais saborosa a hora do am or. Agora, seu peito era só desej o, m as desej o de Ester dela toda seus pensam entos e seu corpo, seu coração e seu sexo. Por isso ficou de boca sem i-aberta naquele gesto de quem ia com eçar a dizer qualquer coisa. Margot esperava. E com o ele não falasse, apenas levantasse a m ão com o a dizer que não valia a pena, ela voltou à carga:

- Tu m e trata com o um a escrava. Se toca pra Ilhéus, m e larga aqui. Depois vem com essa história de ciúm e. Conversa fiada. Eu é que sou m esm o besta. Mas agora não vou ser m ais.. Agora quando vier um com conversa pra m eu lado, querendo m e levar pra Ilhéus e pra Bahia, eu vou dar trela. .. Virgílio se irritou:

- Por m im , m inha filha, pode dar.. Pensa que eu vou m orrer? Ela se enfureceu:

- Eu aqui bancando a tola.. Não falta hom em atrás de m im ... Juca Badaró vive pelo beiço m e m andando recado... E eu feito besta por tua causa e tu o que quer é se tocar pra Ilhéus, atrás com certeza de algum a tabaroa rica pra casar pelo dinheiro dela...

Virgílio se levantou, os olhos cheios de raiva:

- Cala a boca...

- Pois não calo. Deve ser isso m esm o. Tu quer é enganar um a tabaroinha qualquer, agarrar o dinheiro dela. ..

Virgílio virou as costas da m ão, bateu com ela na boca da m ulher. O sangue correu do beiço partido, Margot olhou assustada. Quis dizer um desaforo m as apenas rom peu em soluços:

- Tu não gosta m ais de m im . . . Tu nunca tinha m e tocado... Ele se com oveu tam bém . E se adm ira do seu gesto bruto. Sentia que o clim a daquela terra estava penetrando nele tam bém , estava a m odificá-lo. Já não era o m esm o hom em que chegara m eses antes da Bahia, todo gentil, incapaz de pensar em bater num a m ulher. Tam bém sobre ele, ser civilizado de outra terra, pesava o clim a da terra do cacau. Baixou a cabeça envergonhado. Olhava a m ão com tristeza. Andou para Margot, tirou o lenço, lim pou a gota de sangue:- Me perdoe, m inha filha. Perdi a cabeça, é tanto negócio em que pensar que m e põe nervoso... E tam bém você falando em m e deixar, em Juca Badaró, em ir com outro... Foi sem querer. . .

Ela soluçava, ele prom eteu:

- Não chore m ais, eu lhe levo a Ilhéus. . .

Margot suspendeu a cabeça, j á sorria. Pensava que ele lhe batera por ciúm es. Se sentia ainda m ais dele. Virgílio era seu hom em . Se apoiou nele, estava pequena e terna, toda m etida no peito dele. E se encheu de desej o e o arrastou consigo para o quarto.

6

Os gritos dos alfaiates alcançaram o Dr. Jessé que j á ia na esquina:- Doutor Doutor Jessé l Chegue aqui!

Estavam os quatro alfaiates na porta da "Tesoura de Paris", a m elhor alfaiataria de Tabocas,

propriedade de Tonico Borges que, neste m om ento, segurava as m etades de um a calça num a m ão e na outra a agulha e a linha. A "Tesoura de Paris" era não som ente a m elhor alfaiataria de Tabocas com o tam bém , no dizer de todos, o quartel-general das m ás línguas locais. Ali se com entavam todos os fatos, ali se sabia de todos os acontecim entos, se sabia até o que se com ia nas casas particulares. Naquele dia a "Tesoura de Paris" estava alvoroçada com as noticias chegadas de Ferradas na rabada da com itiva de Horácio. Por isso Tonico Borges reclam ava aos berros a presença esclarecedora do Dr. Jessé.

E quando ele chegou, gordo, baixo e apressado, o chapéu no alto da cabeça, os óculos querendo cair pelo nariz, as botas m uitos suj as de lam a, perguntando o que queriam , um dos alfaiates correu com um a cadeira para ele se sentar:- Estej a a gosto, doutor.

O m édico sentou-se, depositou no chão de ladrilhos a sua m aleta de ferros. Maleta que era célebre no povoado porque dentro dela o m édico levava as m ais diversas coisas: desde o bisturi até grão de cacau seco, desde inj ecções até frutas m aduras, desde vidros de rem édios até os recibos a cobrar das casas que possuía para aluguel. Tonico Borges, que havia ido aos fundos da casa, chegou com um grande abacate m aduro que ofereceu ao Dr. Jessé:- Guardei isso pro senhor, doutor.

Jessé agradeceu, m eteu o abacate entre as inúm eras coisas que abarrotavam a m aleta. Os alfaiates cercaram o m édico. Puxaram as cadeiras para perto da dele, dali dom inavam toda a rua. Dr. Jessé se adiantou:

- Que há de novo?

- O senhor é quem pode contar, doutor - riu Tonico Borges. - O senhor é quem bem sabe. . .

- De que?

- Tão dizendo por aí que a coisa vai se esquentar entre o coronel Horácio e os Badarós. .. adiantou outro alfaiate.

- Que Juca Badaró anda recrutando gente... - com pletou Tonico.- Isso não é novidade, eu j á sabia - falou o m édico.- Mas tem um a coisa que o senhor não sabe.. Posso garantir.- Vam os a ver. . .

- Que Juca Badaró j á tem um agrónom o contratado para fazer a m edição das m atas de Sequeiro Grande. . .

- O que está m e dizendo? Quem lhe disse?

Tonico fez um gesto cheio de m istério:

- Os filhos da Candinha, seu doutor... O que é que não se sabe em Tabocas? Aqui, quando não se tem o que falar, se inventa... Mas Jessé queria saber:

- Falando sério. . . Quem disse?

Tonico Borges baixou a voz:

- Foi o Azevedo da loj a de ferragens. Foi lá que Juca redigiu o telegram a cham ando o hom em .. .

- Isso eu não sabia... Vou m andar um recado pro com padre Horácio hoj e m esm o..

Os alfaiates se olharam : a coisa estava feia. Tonico continuou:- Dizque o coronel Horácio m andou dona Ester pra Ilhéus pra ela não correr perigo na fazenda... Que ele vai entrar pela m ata ainda essa sem ana... Que j á fez um contrato com Braz, com Firm o, com José da Ribeira e com Jarde pra divisão da m ata... Ele fica com m etade e divide a outra m etade com os que aj udar ele. É verdade, doutor?

O m édico quis negar.

- Pra m im é novidade...

- Doutor. . . - Tonico Borges entornou os olhos. – Pois se até se sabe que foi o Dr. Virgílio quem redigiu o contrato, que está selado e tudo... Ah I que Maneca Dantas tam bém faz parte. Todo m undo j á sabe, doutor, é segredo em saco furado. . .

Dr. Jessé acabou por confessar e confessou tam bém que até ele iria ter um pedaço da m ata. Tonico Borges pilheriou:

- Então até o senhor vai pegar no pau furado, hein, doutor? Já com prou seu Colt trinta e oito? Ou quer um parabélum Se quer lhe vendo um em bom estado... Dr. Jessé riu tam bém :

- Já estou m uito velho para com eçar carreira de valente... Riram todos, a covardia do Dr. Jessé era proverbial. E o que espantava era ele ser, apesar disto, um hom em respeitado nas terras do cacau. A única coisa que realm ente desm oralizava alguém por com pleto, naquela zona, de Ferradas a Ilhéus, era a covardia. Hom em com fam a de covarde era hom em sem futuro nessas estradas e nesses povoados. Se algum a virtude era exigida a um hom em para tentar a vida no sul da Bahia, na época da conquista da terra, essa virtude era a coragem pessoal. Com o se aventurar alguém entre j agunços e conquistadores de terra, entre advogados sem escrúpulos e assassinos sem rem orsos, se não levasse consigo a despreocupação da vida e da m orte? Hom em que apanhava sem reagir, que fugia de barulho, que não tinha um a história de valentia para contar, não era levado a sério entre os grapiúnas. Dr. Jessé era a única exceção. Médico em Tabocas, vereador em Ilhéus, eleito por Horácio, sendo um dos chefes políticos da oposição, fora a única pessoa que se sustentara no conceito público apesar de todos o saberem m edroso. A covardia do Dr. Jessé era proverbial e quando queriam m edir a de outro, a m edida era sem pre o m édico:

Continuar: parte 4 de 4