Terras do Sem Fim

Jorge Amado · Capítulo 2 de 5 · parte 2/4

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Terras do Sem Fim

E se enternecia de repente, lem brando-se…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Raim unda chega, term inadas as tarefas da cozinha, se senta no chão, por detrás da rede, com eça a catar cafuné nas ancas de Don'Ana. Os dedos da m ulata estalam na m orte de im aginários piolhos, nem m esm o aquela carícia suave consegue adorm ecer a inquietação da m oça. Que segredo guardam Sinhô e Juca, seu pai e seu tio Onde se encontrarão Viriato e o negro Dam ião Por que Juca está tão inquieto, por que olha o relógio tantas vezes? O uivo do cachorro corta a noite de agonia.

Sinhô abre lentam ente os olhos, dem ora-os na filha:- Por que não com eça, filha?

Don'Ana abre a Bíblia, Olga olha com desinteresse, Juca larga o j ornal sobre as pernas.

Don'Ana com eça a ler:

"E todos estes saíram com as suas tropas, um a m ultidão de gente tão num erosa com o a areia que há nas praias do m ar; e um núm ero im enso de cavalos e carroças."

Era a história das lutas de Josué, e Don'Ana se adm ira de Sinhô não m andar que ela abra noutra página. E, enquanto o pai ouve m uito atento os versículos, ela procura tam bém penetrar o sentido deles, encontrar a ligação que existe entre eles e o segredo que a preocupa. Sinhô está voltado para a frente, a barba descansando sobre as pernas, curvado, no interesse de não perder um a só palavra. Mais de um a vez olhou para Juca. Don'Ana lê vagarosam ente, procura ela tam bém sair de um m undo de dúvidas.

E Sinhô pede que ela repita um versículo, aquele que dizia: "Tom ou pois Josué toda a terra das m ontanhas e do m eio-dia, e a terra de Gosen, e a planície, e o distrito ocidental, e o m onte de Israel e as suas cam pinas."

A voz de Don'Ana silenciou, o pai fez um gesto para ela esperar. Estava refletindo, se bem lhe parecesse clara a bendição divina á sua fam ília e aos seus proj ectos. Se sentia invadido por um a grande tranquilidade e por um a segurança absoluta. Falou:

- A Bíblia não m ente nunca. Nunca m e dei m al seguindo ela. Nós se toca pra essas m atas de Sequeiro Grande, essa é a vontade de Deus. Hoj e ainda tava com dúvida, agora não tenho m ais.

E, de repente, Don'Ana com preendeu e ficou feliz, agora sabia que as m atas de Sequeiro Grande iam ser dos Badarós, que naquelas terras iam crescer os pés de cacau e que, com o um a vez Sinhô lhe prom etera, o nom e daquela fazenda seria escolhido por ela. Seu rosto se abriu de alegria. Sinhô Badaró se levantou, era m aj estoso, parecia um profeta antigo com os longos cabelos que com eçavam a em branquecer e a barba negra rolando sobre o peito. Juca olhou o irm ão m ais velho:

- Sem pre te disse, Sinhô, que a gente tinha que entrar nessa m ata. No dia que a gente tiver ela ninguém vai m esm o poder com os Badarós. . Don'Ana abriu m ais seu riso. Apoiava as palavras do tio. A voz de Olga veio assustada:

- Vão com eçar de novo com os barulhos? Se é assim vou pra Ilhéus. Não m e dou com essa vida de ver se m atar gente..

Nesse m om ento Don'Ana a odiou. Teve um olhar de infinito desprezo pela esposa do tio, desprezo e raiva, era um a pessoa de outro m undo, um m undo inútil e torpe, segundo pensava Don'Ana. O relógio bateu as horas. Sinhô falou para a filha:- Vá dorm ir, Don'Ana, esta na hora. Você tam bém , Olga, que eu quero conversar com Juca.

Toda alegria desapareceu do rosto de Don'Ana. Olga e Raim unda j á se levantavam , ela ainda procurava as palavras para pedir a Sinhô para ficar. Mas os latidos do cachorro que acusava alguém no terreiro fizeram com que todos parassem . Segundos depois Viriato aparecia na porta da varanda, o cachorro o seguia, logo que o reconhecera parara de latir. Juca se adiantou perguntando:- E o serviço?

O m ulato baixou os olhos, falou apressadam ente:- O hom em veio pelo atalho, não veio pelo m eu lado. Se tivesse vindo eu tinha derrubado ele...

Sinhô perguntou:

- Que foi que teve? Se passou algum a coisa com Dam ião? Fale logo.- Errou a pontaria...

- Não é possível!

- Errou? - Juca se adm ira.

- É o que tou pensando, sim senhor. Não sei o que deu nele. Tava esquisito desde que saiu daqui. Não sei o que deu nele. Cachaça não era, eu havia de conhecer. .- O que é que tu sabe? - perguntou Sinhô.

O m ulato baixou de novo os olhos:

- Seu Firm o nem foi ferido. Todo m undo j á sabe Pela redondeza. Tão dizendo que Dam ião m aluqueceu. Ninguém sabe que rum o tom ou...- E Firm o? - quis saber Juca.

- Topei com dois hom ens levando um defunto. Diz que seu Firm o passou no rum o da casa do coronel Horácio. Ia no galope, só parou para dizer que vosm ecê tinha m andado liquidar ele m as que Dam ião errou a pontaria. Não quis m ais conversa, ia com um a pressa da disgram a.. Topei com os hom ens, j á tava m uita gente conversando. . .

As m ulheres estavam paradas, Don'Ana segurava a Bíblia na m ão, seguia a conversa com os olhos ávidos. Agora com preendia tudo. E dava ao acontecim ento toda a sua im portância. Sabia que o futuro dos Badarós estava sendo j ogado naquela noite. Sinhô atravessou a sala em passos largos. Falou:- Que teria dado no negro?

Viriato tentou explicar:

- Parece que deu o m edo nele. . .

- Não estou lhe perguntando. . .

O m ulato se encolheu, Juca esfregou as m ãos, procurava esconder seu nervosism o:

- Agora não tem m ais j eito... É m elhor com eçar antes que Horácio com ece... Porque vai ser guerra de verdade. .

Olga suspendeu um gesto com m edo do m arido. Sinhô sentou-se novam ente. Esteve um m inuto silencioso, pensava nos trechos da Bíblia que a filha lera. Era bem claro m as ele queria m ais:

- Lê m ais, Don'Ana. ..

Ela tom ou do livro, abriu-o ao acaso e leu m esm o de pé. Suas m ãos trem iam um pouco m as sua voz estava firm e:

"Não terás m isericórdia com ele, m as far-lhe-ás pagar vida por vida, olho por olho, dente por dente, m ,o por or pé po. pé."

Sinhô suspendeu a cabe ça, j ánão tinha dúvidas. Fez com a m ão um gesto para que as m ulheres saíssem . Olga e Raim unda com eçaram a andar m as Don'Ana não se m oveu. Jáas duas estavam no corredor e ela ainda se encontrava de livro na m ão, em péna sala, olhando o pai. Juca estava ansioso que ela partisse para conversar livrem ente com Sinhô. Este disse com voz áspera:- Já te m andei ir dorm ir, Don'Ana. Que está esperando? E então ela recitou de m em ória, sem olhar sequer para o livro, olhos fitos nos do pai:

"Não te ponhas contra m im obrigando-m e a deixar-te e a ir-m e; porque para onde quer que tu fores irei eu; e onde quer que tu ficares, ficarei eu tam bém ."

- Isso não é coisa pra m ulher. . . - com eçou Juca. Mas Sinhô Badaró o interrom peu:

- Deixe que ela fique. E um a Badaró. Um dia vão ser os filhos dela, Juca, que vão colher o

cacau das roças de Sequeiro Grande. Pode ficar, m inha filha.

Juca e Don'Ana sentaram -se perto dele. E com eçaram a traçar os planos da lua pela posse das m atas de Sequeiro grande. Don'Ana Badaró estava alegre e a alegria fazia ainda m ais form osa sua cabeça m orena, de olhos ardentes e negros. 12

Em torno da m ata, na noite de am bições, desej os e sonhos desencadeados, as luzes se acendiam . Luzes de placas de querosene da casa de Horácio, luzes da casa dos Badarós. Vela que Don'Ana acendera aos pés da Virgem , no altar da casa grande, para que ela aj udasse os Badarós nos dias que iam vir, vela que ilum inava o cam inho do defunto que os hom ens levavam para entregar às filhas, em Ferradas. Luzes na fazenda das Baraúnas, onde Juca Badaró e Maneca Dantas chegaram quase ao m esm o tem po pra conversar com Teodoro. Luz de fifós, verm elha e fum acenta, nas casas dos trabalhadores que despertavam m ais cedo para ouvir a história do negro Dam ião que havia errado a pontaria e sum ira ninguém sabia para onde. Luz na casa de Firm o onde dona Teresa esperava o m arido com seu corpo branco, pronto para o am or na cam a de j acarandá. Luzes nas casas dos pequenos lavradores despertados pela inesperada chegada de Firm o com os cabras de Horácio, convidando-os para o alm oço no dia seguinte. Em torno da m ata brilhavam as luzes das lanternas, das placas, dos candeeiros e dos fifós. Marcavam os lim ites da m ata de Sequeiro Grande, ao norte e ao sul, a leste e a oeste.

Os hom ens a cavalo ou a pé cortavam , por vezes, para atalhar a estrada real, pequenos trechos da m ata. Eram os que iam de fazenda em fazenda, de roça em roça, nos convites para as conversações do dia que se avizinhava. Em torno da m ata a am bição dos hom ens acendia luzes, cortava as estradas num galope. Mas nem as luzes, nem o passo dos hom ens acordava a m ata de Sequeiro Grande que dorm ia seu sono de centenas de anos pelos galhos e pelos troncos. Repousavam as onças, as cobras e os m acacos. Ainda não se haviam despertado os pássaros para saudar a m adrugada. Som ente os vaga-lum es, lanternas de assom brações, ilum inavam com sua verde luz o verde espesso das árvores. A m ata de Sequeiro Grande dorm ia, em torno dela os hom ens ávidos de dinheiro e de poder concertavam planos para conquistá-la. E, no coração da m ata, no m ais fechado da floresta, ilum inado som ente pela luz incerta e inconstante dos vagalum es, dorm e Jerem ias, o feiticeiro.

Com o as árvores e os anim ais tam bém ele não se deu ainda conta de que a m ata está am eaçada, de que a am bição dos hom ens a cercou, de que os dias das grandes árvores, dos anim ais ferozes e das assom brações chegaram ao fim . Na sua cabana m iserável ele dorm e j unto com as árvores e os anim ais.

Quantos anos terá esse negro Jerem ias, de carapinha branca, de olhos que j á perderam o brilho, quase cegos, de corpo curvado, seco de carnes, de rosto retalhado de rugas de boca sem um só dente, e cuj a voz é apenas um m urm úrio que é necessário adivinhar?

Ninguém não sabe nessas vinte léguas de terra em torno das m atas de Sequeiro Grande. Para toda gente ele é um ser da m ata, tão tem ível com o as onças e as cobras, com o os troncos enredados de cipós, com o as próprias assom brações que ele dirige e desencadeia. Ele é dono e senhor dessa m ata de Sequeiro Grande que Horácio e os Badarós disputam . Desde a fím bria do m ar, no porto de Ilhéus, até o m ais longínquo povoado no cam inho do sertão, os hom ens falam em Jerem ias, o feiticeiro, o que cura as m oléstias, o que fecha o corpo dos hom ens para as balas e para as m ordidas de cobra, o que dá rem édios tam bém , para os m ales do am or, aquele que sabe as m andingas que fazem um a m ulher se agarrar a um hom em que nem visgo de j aca m ole. Sua fam a anda por cidades e povoados que ele nunca viu. De m uito longe vem gente para consultá-lo.

Um dia, m uitos anos antes, quando a floresta cobria m uito m ais terra, quando se estendia em todas as direcções, quando os hom ens ainda não pensavam em derrubar as árvores para plantar a árvore do cacau que todavia não chegara da Am azónia, Jerem ias se acoitou naquela m ata. Era um negro j ovem , fugido da escravidão. Os capitães-do-m ato o perseguiam e ele entrou pela floresta Onde m oravam os índios e não saiu m ais dela. Vinha de um engenho de açúcar onde o senhor m andara chicotear as suas costas escravas. Durante m uitos anos tivera tatuada nas espáduas a m arca do chicote. Mas m esm o quando ela desapareceu, m esm o quando alguém lhe disse que a abolição dos escravos havia sido decretada, ele não quis sair da m ata. Fazia m uitos anos que chegara, Jerem ias havia perdido a conta do tem po, j á tinha perdido tam bém a m em ória desses acontecim entos. Só não havia perdido a lem brança dos deuses negros que seus antepassados haviam trazido da África e que ele não quisera substituir pelos deuses católicos dos senhores de engenho. Dentro da m ata vivia em com panhia de Ogum , de Om olu, de Oxóssi e de Oxolufã, com os índios havia aprendido o segredo das ervas m edicinais. Misturou aos seus deuses negros alguns dos deuses indígenas e invocava a uns e a outros nos dias em que alguém ia lhe pedir conselho ou rem édio no coração da m ata. Vinha m uita gente, vinha m esm o gente da cidade, e aos poucos foram abrindo um cam inho até a sua cabana, estrada feita pelos passos dos doentes e dos angustiados.

Viu os hom ens brancos chegarem para perto da m ata, assistiu a outras m atas serem derrubadas, viu os índios fugirem para m ais longe, assistiu ao nascim ento dos prim eiros pés de cacau, viu com o se form avam as prim eiras fazendas. Foi se retirando cada vez m ais para o fundo da m ata e um tem or foi se apossando dele: o de que os hom ens chegassem um dia para derrubar a m ata de Sequeiro Grande. Profetizara desgraças sem conta para esse dia. A todos que o vinham ver ele dizia que essa m ata era m oradia dos deuses, cada arvore era sagrada, e que, se os hom ens pusessem a m ão nela, os deuses se vingariam sem piedade.

Se alim enta de raízes e ervas, bebe a água pura do rio que corta a m ata, tem na sua cabana duas cobras m ansas que assom bram os visitantes. E nem m esm o os coronéis m ais tem idos, nem m esm o Sinhô Badaró que e chefe político e hom em respeitado, Horácio, sobre quem contam tantas histórias, nem m esm o Teodoro das Baraúnas que tem um a fam a terrível de m alvado, nem m esm o Brasilino que é sím bolo de valentia, ninguém é tão tem ido nessas terras de São Jorge dos Ilhéus com o o feiticeiro Jerem ias. Dele são as forças sobrenaturais, aquelas que desviam o curso das balas, que transform am em água inofensiva o veneno m ais perigoso da cobra m ais m ortífera que é a cascavel.

Na sua cabana dorm e Jerem ias, o feiticeiro. Mas seus ouvidos acostum ados a todos os ruídos da floresta percebem , m esm o no sono passos precipitados que se aproxim am . Abre os olhos cansados, levanta a cabeça que repousa na terra. Procura enxergar na m adrugada que apenas se avizinha, ergue o busto m agro, vestido de farrapos. Os passos estão cada vez m ais próxim os, alguém corre pela picada que conduz à cabana. Alguém que vem em busca de rem édio ou de conselho e que vem com o desespero no coração. Jerem ias j á se acostum ou a conhecer a angústia dos hom ens pela rapidez com que atravessam a m ata. Esse vem desesperado, vem correndo pela picada, deve trazer o peito pesado de dor. O feiticeiro se acocora no chão, de entre os galhos chega um a luz dúbia que ilum ina fracam ente a cobra que se arrasta pela cabana. Jerem ias espera. Esse que vem não traz luz que ilum ine o cam inho, seu sofrim ento é suficiente para guiá-lo. O feiticeiro m orde palavras ininteligíveis.

E, subitam ente, o negro Dam ião se arroga na cabana, aj oelha no chão, beij a as m ãos de Jerem ias:

- Pai Jerem ias, m e sucedeu um a desgraça. . . Nem tenho voz pra contar, nem sei com o dizer... Pai Jerem ias, eu tou perdido. .

O negro Dam ião trem e todo, seu corpo enorm e parece um frágil bam bu batido pelo vento na beira do rio. Jerem ias pousa sobre a testa do negro as suas m ãos descarnadas:

- Filho, não há desgraça sem cura. Tu conta pra eu, negro velho vai dar rem édio. . .

Sua voz é fraca m as suas palavras tem um a força de convicção. O negro Dam ião se aproxim a m ais, arrastando os j oelhos pela terra:- Meu pai, não sei com o se deu... Nunca se deu isso com o negro Dam ião. Desde que vosm ecê m e fechou o corpo pras balas que nunca perdi um tiro, nunca m e m eteu m edo ter de derrubar um desinfeliz.. Não sei com o se deu, pai Jerem ias, foi coisa de feitiço..

Jerem ias espera a história em silencio. Suas m ãos sobre a testa de Dam ião são seu único gesto. A cobra agora parou de andar, se enrodilhou no quente onde o feitiço dorm ia. Dam ião trem e ao continuar com um a voz que ora é precipitada, ora é dem orada na busca das palavras:

- Sinhô Badaró m andou eu ir liquidar o hom em . Era seu Firm o, o que tem a roça dele bem aqui j untinho. Fui tocaiar no atalho e veio assom bração, m eu pai, veio assom bração, era a m ulher dele a dona Teresa, e m e perturbou o entendim ento. . .

Fica esperando. Seu coração está pequeno, são as em oções que enchem seu peito, em oções novas e desencontradas.

Jerem ias diz:

- Conta, m eu filho.

- Tava tocaiando o hom em , apareceu a m ulher, andava de barriga, diz que o filho ia m orrer, que o negro Dam ião ia m atar todos três... Foi m e am olecendo, foi m e pegando, foi botando coisa na m inha cabeça, tirou a força de m inha m ão, tirou a pontaria de m eu Olho. Coisa de feitiço, m eu pai, negro Dam ião errou o tiro. . . Que vai dizer agora Sinhô Badaró? Ele é um hom em bom , eu atraiçoei ele. . . Não m atei o hom em , foi coisa de feitiço, botaram m andinga, m eu pai! Jerem ias está com o corpo duro e os olhos parados, seus olhos quase cegos. Tam bém ele com preende que, por detrás da histórias do negro Dam ião, está um a história m uito m ais im portante, que por detrás do destino do negro está o de toda a m ata de Sequeiro Grande:

- Pra que era que Sinhô queria fazer o trabalho em Firm o, filho?- Seu Firm o não quis vender a roça, com o Sinhô podia entrar na m ata, nessa m ata, m eu pai? E eu atraiçoei ele, não derrubei o hom em , os olhos da m ulher tirou a coragem do m eu peito. Eu j uro que vi, m eu pai, não é m entira do negro não...

Jerem ias se ergue. Desta vez não precisou de bordão para sustentar em pé seu corpo centenário. Deu dois passos para a porta da cabana. Agora seus olhos quase cegos viam perfeitam ente vista a m ata em todo seu esplendor. E a via desde os dias m ais longínquos do passado até esta noite que m arcava o seu fim . Sabia que os hom ens a iam penetrar, iam derrubar a floresta, m atar os anim ais, plantar cacau na terra onde havia sido a m ata de Sequeiro Grande. Enxergou o fogo das queim adas se estorcendo nos cipós, lam bendo os troncos, ouviu o m iado das onças acossadas, o guincho dos m acacos, o silvo das cobras se queim ando. Viu os hom ens de m achado e facões acabando com o resto que o fogo deixara, pelando tudo, pondo a terra nua, arrancando até as raízes m ais profundas dos troncos. Não via o negro Dam ião que traíra seu chefe e chorava agora a sua traição. Via era a m ata devastada, derrubada e queim ada, via os cacaueiros nascendo, e estava possuído de um ódio im enso. Sua voz não saiu num m urm úrio com o sem pre, não se dirigia tam pouco ao negro Dam ião que trem ia e chorava na espera das palavras que alij ariam o sofrim ento para longe. As palavras de Jerem ias eram para os seus deuses, os deuses que tinham vindo das florestas da África, Ogum , Oxóssi, Iansã, Oxolufã, Om olu, e tam bém a Exu, que é o diabo. Clam ava por eles para que desencadeassem a sua cólera sobre aqueles que iam perturbar a paz da sua m oradia. E disse:

- O olho da piedade secou e eles tá olhando pra m ata com o olho da ruindade. Agora eles vai entrar na m ata m as antes vai m orrer hom em e m ulher, os m enino e até os bicho de pena. Vai m orrer até não ter m ais buraco onde enterrar, até os urubu não dar m ais abasto de tanta carniça, até a terra tá verm elha de sangue que vire rio nas estrada e nele se afogue os parente, os vizinho e as am izade deles, sem faltar nenhum . Vão entrar na m ata m as é pisando carne de gente, pisando defunto. Cada pé de pau que eles derrube vai ser um hom em derrubado, e os urubu vai ser tanto que vai esconder o sol. Carne vai ser estrum e de pé de cacau, cada m uda vai ser regada com sangue deles, deles tudo, tudo, sem faltar nenhum .

Gritou m ais um a vez o nom e dos seus deuses queridos. Gritou por Exu tam bém , entregandolhe sua vingança, sua voz atravessando a m ata, despertando as aves, os m acacos, as cobras e as onças. Gritou m ais um a vez, era um a praga ardente:- Cada filho vai plantar seu cacaueiro em riba do sangue do pai. . . Depois olhou fito para a m adrugada que se abria em trinados de pássaros sobre a m ata de Sequeiro Grande. Seu corpo foi cedendo, tinha sido im enso o esforço. Foi cedendo, seus olhos cegaram de todo, as pernas se dobraram e ele caiu sobre a terra, os pés tocaram no negro Dam ião transido de m edo. Não saiu da sua boca nem um suspiro, nem um lam ento. No estertor da m orte, Jerem ias procurava apenas repetir sua praga, torcida de ódio sua boca agonizante. Nas árvores, os pássaros gorj eavam um canto m atinal. A luz da m adrugada ilum inava a m ata de Sequeiro Grande.

Gestação de Cidades

1

Era um a vez três irm ãs: Maria, Lúcia, Violeta, unidas nas correrias, unidas nas gargalhadas. Lúcia, a das negras tranças; Violeta, a dos olhos m ortos; Maria, a m ais m oça das três. Era um a vez três irm ãs, unidas no seu destino.

Cortaram as tranças de Lúcia, cresceram seus seios redondos, suas coxas com o colunas, m orenas, cor de canela. Veio o patrão e a levou. Leito de cedro e penas, travesseiro, cobertores. Era um a vez três irm ãs.

Violeta abriu os olhos, seus seios eram pontudos, grandes nádegas em flor, ondas no cam inhar. Veio o feitor e a levou. Cam a de ferro e de crina, lençóis e a Virgem Maria. Era um a vez três irm ãs.

Maria, a m ais m oça das três, de seios bem pequeninos, de ventre liso e m acio. Veio o patrão, não a quis. Veio o feitor, não a levou. Por últim o veio Pedro, trabalhador da fazenda. Cam a de couro de vaca, sem lençol, sem cobertor, nem de cedro, nem de penas. Maria com seu am or.

Era um a vez três irm ãs: Maria, Lúcia, Violeta, unidas nas gargalhadas, unidas nas correrias. Lúcia com o seu patrão, Violeta com seu feitor e Maria com seu am or. Era um a vez três irm ãs, diversas no seu destino.

Cresceram as tranças de Lúcia, caíram seus seios redondos, suas coxas com o colunas, m arcadas de roxas m arcas. Num auto pela estrada cade o patrão que se foi Levou a cam a de cedro, travesseiros, cobertores. Era um a vez três irm ãs.

Fechou os olhos Violeta com m edo de olhar em torno; seus seios bam bos de pele, um filho pra am am entar. No seu cavalo alazão, o feitor partiu um dia, nunca m ais há de voltar. Cam a de ferro se foi. Era um a vez três irm ãs.

Maria, a m ais m oça das três, foi com seu hom em pro cam po, pras plantações de cacau. Voltou do cam po Maria, era a m ais velha das três Pedro partiu um dia, não era patrão nem feitor, partiu num pobre caixão, deixou a cam a de couro e Maria sem seu am or. Era um a vez três irm ãs. Cade as tranças de Lúcia, os seios de Violeta, cade o am or de Maria? Era um a vez três irm ãs num a casa de putas pobres. Unidas no sofrim ento, unidas no

desespero, Maria, Lúcia, Violeta, unidas no seu destino. 2

Na porta da casa de barro, sem pintura e sem caiação, os três hom ens pararam . O j ovem e o cearense levavam a rede com o cadáver, o velho descansava, apoiado no bordão. Na porta da casa ficaram um m inuto parados. Era m anhãzinha e na rua de ram eiras não havia m ovim ento. O j ovem disse:

- E se ela tiver dorm indo com m acho?

O velho suspendeu os braços:

- A gente tem m esm o que acordar.

Bateram palm as m as ninguém respondeu de dentro da casa. O silencio ia pela rua a fora. Um a rua de canto no povoado de Ferradas. Casas pequenas, de barro batido, algum as cobertas de palha, duas ou três de telhas, a m aioria de zinco. Ali viviam as ram eiras, ali os trabalhadores das fazendas vinham nos dias de festa em busca do am or. O velho bateu na porta com o bordão. Bateu um a vez e outra. Afinal alguém gritou lá de dentro:

- Quem é? Que diabo é que quer? - era um a voz de m ulher m al despertada. Logo um hom em com pletou:

- Vá adiante... Aqui tá tudo cheio.. - e riu um a gargalhada satisfeita.- Tão com m acho... - com entou o j ovem . Ele não via com o entregar o cadáver às filhas se elas

estivessem dorm indo com hom ens.

O velho refletiu um m om ento:

- Não tem j eito... A gente tem m esm o que entregar... O cearense interveio na conversa:

- Não era m elhor esperar?

- E o que é que a gente faz com ele? - o velho apontava O cadáver.- Já tá sem cova há m uito

tem po. O pobre precisa descansar...

E gritou para dentro:

- Lúcia! Violeta! Lúcia!

- Que é que quer? - era um a voz de hom em que perguntava. O velho cham ou pela terceira filha:

- Maria! Oh! Maria!

Na porta da casa vizinha apareceu um a m ulher velha e sonolenta. Vinha reclam ar contra o

ruído m as ao ver o cadáver parou e apenas perguntou:- Quem é?

- E o pai delas...- respondeu o cearense apontando para a casa.- Foi m orte m atada? - quis saber a m ulher.

- Foi de febre...

A m ulher saiu da porta, se aproxim ou do grupo. Exam inou o cadáver com ar de noj o:

- Que coisa..

O velho perguntou:

- Elas tão em casa? Ninguém atende...

- Tavam de farra na noite passada. Era aniversário de Juquinha que tem um rabicho com

Violeta. Tiveram de ferra até de m adrugada. Por isso não acordam . Juntou a sua voz á do velho:

- Violeta! Violeta!

- Que é? Que diabo é que quer?

A m ulher se esganiçou num grito.

- É teu pai!

- Quem ? - a voz chegava de dentro da casa num a surpresa.- Teu pai

Houve um silencio logo cortado pelo m ovim ento de gente que andava na casa. A porta se

abriu e apareceu a cabeça de Violeta. Viu o grupo, esticou o pescoço, reconheceu o cadáver do pai. Deu um grito, O ruído dentro da casa aum entou.

E logo se m ovim entou a rua toda. Saíam m ulheres de todas as casas, m ais lentam ente vieram vindo hom ens que pernoitavam com algum as delas. A m aior parte das ram eiras vinha em traj es m enores, algum as traziam apenas um a cam isa sobre o corpo. Cercavam o cadáver, m urm uravam com entários:

- Foi a febre...

- Ninguém pode com ela.

- Será que não pega m ais?

- Diz que pega até pelo ar. . .

- É m elhor enterrar logo.. .

- Fazia anos que não via as filhas. . . Tinha raiva delas ser perdidas...- Dizque nem vinha a Ferradas de vergonha...

Mulheres de caras m achucadas, m ulatas, negras, um a que outra branca. Nas pernas e nos braços, por vezes nos rostos, m arcas de feridas. Havia no ar um cheiro de álcool m isturado com perfum e barato. Um a m ulata cuj a cabeleira despenteada subia enorm e para o alto andou até j unto do cadáver:- Um a vez dorm i com ele... Foi em Tabocas...

Houve um silencio em torno dela. Violeta ainda parava na porta sem coragem de se aproxim ar. E foi a m ulata que ordenou:- Levem ele pra dentro.

Lúcia e Maria iam chegando. Lúcia chorava: "m eu pai, m eu pai". Maria vinha devagar, seus olhos m edrosos. Uns hom ens apareceram atrás. Um a m ulher com entou, rindo:

- Juquinha, teu sogro m orreu...

O velho pediu:

- Respeitem o m orto. . .

Outra m ulher xingou a que falara:

- Tu é m esm o um a puta suj a...

Levantaram a rede, levaram para dentro. Entrou todo m undo atrás do cadáver. Alguns hom ens ainda term inavam de abotoar as calças, as m ulheres iam m esm o com o estavam , vestidas pela m etade. Todas pareciam ter a m esm a idade e a m esm a cor, um a cor de doença. Era um resto de gente perdido no fim do m undo. E, com o não havia sala na casa, eram cinco quartos pequenos ocupados por cinco m ulheres, deitaram o m orto na cam a de Violeta, que era no quarto da frente. O velho acendeu o toco de vela que estava quase todo gasto. Por detrás da cam a havia um a gravura de um santo, Senhor do Bonfim . Um a página de revista m ostrava, pregada na parede, um a m ulher loira e nua. Lúcia soluçava, Maria atendia ao cadáver, Violeta fora em busca de outra vela. A gente se espalhou pelo corredor. Juquinha foi lá dentro, trouxe um a garrafa de cachaça, com eçou a servir aos hom ens que haviam trazido o cadáver. Maria tirou o violão que estava ao lado da cam a, j unto à cabeça do m orto.

O velho falou pro cearense, apontando Maria que passava com o violão.- Conheci ela quando era m enina. .. Era um a lindeza. Depois foi um a m oça bonita com o que. . . Quando casou com Pedro. Hoj e nem parece.- Ainda tem uns traços. . .

- Essa vida de rapariga com e a beleza de m ulher em dois dias. . . O j ovem ficou olhando Maria com interesse.

Algum as m ulheres se retiravam para se vestir. Antes de partir, um hom em ofereceu seus préstim os a Lúcia. Violeta fazia com Juquinha cálculos dem orados sobre o caixão e o enterro. Era caro. Entraram para o quarto onde estavam , com o cadáver, Lúcia e Maria. Ficaram no quarto discutindo. Juquinha era com o se fosse da fam ília. Fazia contas. Não era possível com prar um caixão. Já o lugar no cem itério era m uito caro:

- O j eito é enterrar m esm o na rede... - disse Lúcia. - A gente cobre com um lençol.

Violeta, que agora, após os gritos iniciais, estava serena, falou:- Tam bém não sei por que não enterraram de um a vez na estrada... Ele nunca ligou pra gente...

- Tu não tem m esm o coração... - atalhou Maria. - Não sei por que tu gritou quando viu ele. . Só de fita.. Ele era um hom em bom . Violeta ia retrucar, Maria continuou:

- Ele tinha era vergonha da gente ser m ulher da vida. . . Tinha sentim ento... Não era que não gostasse da gente...

No corredor, o velho que trouxera o cadáver contava para as visitas com o o hom em m orrera" aquela febre de três dias liquidando com a força dele:- Não teve rem édio que servisse... Ficou um a conta braba de m edicação no arm azém das Baraúnas... Não adiantou.

No quarto, Lúcia, que era m uito religiosa, propôs cham arem Frei Bento para rezar as orações. Juquinha duvidou que o frade viesse:- Ele não vem em casa de m ulher-dam a. .

- Quem foi que disse? - perguntou Violeta. – Quando Isaura m orreu ele veio... Só que cobra caro.

E não acrescentou nenhum com entário, ela não queria que a tom assem por m a inim iga do pai. Foi Juquinha quem a apoiou:

- Só vem por m uito dinheiro. Por m enos de vinte m il réis não há de vir.. . Lúcia ia desistindo do seu proj ecto:

- Se é assim não se cham a. . .

Olhou o defunto, sua cara m agra, verdosa, parecendo sorrir na aflição da m orte. E deu em Lúcia um a agonia, um a tristeza do pai se enterrar sem orações, balbuciou num a crise de choro:

- Vai se enterrar sem oração, coitado! Não fez m al a ninguém , era um hom em bom ... E vai se enterrar sem ser encom endado. Nunca pensei. . . Meu pai. . . Violeta tom ou do braço dela, o m elhor gesto de carinho que conhecia.- A gente m esm o reza... Eu ainda m e lem bro de um a oração... Mas a m ulata que havia certa vez dorm ido com o m orto, e que do corredor ouvia o diálogo, tirou vinte m il-réis da m eia e, entrando no quarto, entregou a Lúcia:- Não deixe ele sem oração. . .

Foi isso que deu idéia a Juquinha de fazer um a subscrição. Saiu entre os presentes recolhendo dinheiro. Um hom em que não tinha o que dar se ofereceu para ir cham ar Frei Bento e partiu. Era a sua m aneira de colaborar. Lúcia lem brou enxugando as lágrim as:

- É preciso dar café aos hom ens que trouxeram ele... Maria partiu para os fundos da casa. Quando cham ou o velho, o j ovem e o cearense, todos a acom panharam para a cozinha. No quarto ficaram apenas Violeta e, a m ulata que dera os vinte m il-réis. Ela nunca tinha visto, repousando na paz da m orte, um hom em com quem houvesse dorm ido. Estava im pressionada e o considerava com o um m orto seu, com o um parente próxim o. Na cozinha, em torno do café, o velho contou para m udar a conversa:- Sabe que ontem os Badarós m andou liquidar seu Firm o? Houve um interesse geral:

- O que tá m e dizendo?

- Mataram ele?

- O tiro não pegou. É de adm irar... Foi o negro Dam ião. Um hom em assobiou sua adm iração. Outro falou:- O negro Dam ião errando tiro? É o fim do m undo... O velho se sentia orgulhoso do interesse despertado. Meteu a unha no dente, com o se fora um palito, arrancando um a felpa de aipim . E contou:- Seu Firm o passou pela gente, ia num a pressa dos diabos, ia tocando pra casa do coronel Horácio. Diz que a coisa vai pegar fogo.. . Haviam esquecido o defunto e cercavam o velho, alguns se debruçavam sobre a pequena m esa da cozinha para não perder um a palavra. Assom avam cabeças sobre os que estavam na frente, olhos abertos de curiosidade. O velho explicou o que todos sabiam :- É por causa da m ata de Sequeiro Grande...

- A coisa vai com eçar. .

O velho pediu silencio e relatou:

- Já tá com eçando... Mais adiante a gente se encontrou com seu Firm o que vinha de volta com dois cabras do coronel Horácio. Vinha tam bém o coronel Maneca Dantas que tom ou pelo atalho pras Baraúnas. . . Ia tudo no galope. . . Juquinha, que era hom em dos Badarós, interveio:- Coronel Horácio tá pensando que Teodoro vai fazer parte com ele. Parece m enino que se engana com chupeta. Não vê que coronel Teodoro é unha e carne com os Badarós. . .

Lúcia interrom peu:

- É m iserável, isso sim . Um bandido daqueles.. Ta com quem der m ais vantagem pra ele...

Um a m ulher riu:

- Tu é que bem sabe, foi am ásia dele, foi ele que te descabaçou. Lúcia ergueu o busto, os olhos com raiva:

- Aquilo é a pior m iséria do m undo. Não há hom em tão desgraçado.- Mas é valente. . . - falou um hom em .

- Valente pro lado de m ulher - era a voz de Lúcia, - quando quer com er um a fica m ais m anso que um passarinho. Tou m e lem brando com igo. Vinha pra m eu lado, era um presente todo dia, um corte de fazenda, um a sandália, um lenço bordado. E prom essa de fazer m edo. Me prom eteu casa em Ilhéus, m e prom eteu vestido, até aquele anelão de brilhante que usa no dedo m indinho. Prom eteu tudo até que eu fui na conversa e dei pra ele... Depois, prom essa foi um dia... Me largou foi na rua de m ulher-dam a e sem a bênção de m eu pai!. . . Estavam calados, o cearense olhava alarm ado, Lúcia espiou todos, viu que ainda estavam esperando m ais:

- E pensa que foi só? Quando m e tinha com ido e não queria m ais, j á tinha se cansado, botou o olho em Violeta... Se não fosse Ananias, que era o capataz, que j á tinha passado antes e j untado as pernas com ela.. . Só não fez m ais porque tinha m edo de Ananias.. .

O velho falou:

- Negro tem filha é m esm o pra cam a de branco. . . Lúcia ainda tinha o que contar:

- E quando m orreu Pedro, que tinha casado com Maria, na m esm a noite do enterro, o coronel apareceu na casa dela com a conversa de oferecer seus préstim os. . . E não respeitou nem a dor da pobre, foi ai m esm o, na cam a que ainda tava quente do corpo do m arido... Aquilo é pior que a desgraça... Houve silencio. O j ovem que trouxera o cadáver, desde que chegara olhava Maria com olhos de desej o. Se não fosse dia de noj o teria proposto dorm ir com ela. Fazia dois m eses que ele não sabia o que era m ulher. Desde que entrara, que os restos de beleza de Maria lhe haviam cham ado a atenção. E de toda a conversa, só aquele caso do coronel Teodoro possuindo ela no dia do enterro do m arido interessara ao j ovem .

O velho que perdera im portância com a interrupção de Lúcia, puxou de novo a conversa para os acontecim entos da noite:

- Jagunço agora vai valer ouro... Se com eçar os barulhos quem tiver pontaria vai enricar. Pode botar roça.. .

- Eu tou apostando nos Badarós - disse Juquinha. - Eles tão por cim a na política. Vão ganhar com certeza. Sinhô e Juca são dois m achos.- Ninguém pode com o coronel Horácio. . . - falou outro. Um hom em saiu. Juquinha com entou:

- Chico j á vai se apresentar... Não há barulho que não se m eta. É hom em do coronel Horácio...

Algum as visitas saíram tam bém na ânsia de espalhar as notícias que o velho trazia. E se distribuíram pelas poucas ruas de ferradas, indo de conhecido a conhecido. O cearense se adm irava daquela terra:- Nessa terra só se fala em m orte. . .

O velho sentenciou:

- Morte aqui é m ercadoria barata. E agora vai ser m esm o de graça. Tu saiu em tem po. .

- Tá fugindo? - perguntou um a m ulher,

- Tou indo em bora..

Juquinha riu:

- Logo agora que a coisa vai se por boa?

Mulheres j á vestidas voltavam a entrar na casa. Um a trazia flores, m urchas flores que um am ante ocasional lhe dera dois dias antes, e as depositou nos pés do cadáver. Chegavam hom ens tam bém , queriam saber das notícias que o velho trouxera. Pelo povoado circulavam , aum entadas. Diziam que havia chegado o cadáver de um cabra que acom panhava Firm o e m orrera com o tiro destinado ao patrão. Que Firm o escapara por m ilagre do tiro do negro Dam ião. Outros diziam que fora o cadáver do próprio Firm o que chegara. Frei Bento entrou em casa das m ulheres. Um a que ainda estava em cam isa saiu correndo para se vestir direito. Atrás de Frei Bento vinha o sacristão. O frade saudou da porta, com sua voz estrangeira:

- Deus estej a convosco.

Entrou pelo corredor, antes de tudo quis saber das notícias. Depois do velho ter repetido toda a história num a voz hum ilde, o frade se dirigiu para o quarto, parou j unto ao cadáver. Violeta explicou, com voz envergonhada, as dificuldades de dinheiro. Depois fez contas com o sacristão deu a nota de vinte m il-réis que a outra oferecera e m ais um as pratas. O frade iniciou as orações. Hom ens e m ulheres repetiam em coro:

- Ora pro nobis..

Lúcia chorava baixinho, as três irm ãs estavam j untas, apertadas um a na outra. O j ovem olhava Maria. Será que ela não aceitaria dorm ir com ele nesse m esm o dia, depois do enterro? Não j á dorm ira ela com o coronel Teodoro depois do enterro de Pedro, que fora seu m arido. Repetia com o coro m aquinalm ente:- Orai pro nobis..

O frade desfiava as orações da ladainha. Da porta alguém gritou:- Lá vem Juca Badaró.. .

Correram todos para a rua onde, num galope que levantava poeira, Juca passava acom panhado por António Vítor e m ais dois cabras, a cam inho de Tabocas. Haviam corrido todos, até o sacristão, para vê-los passar. Frei Bento espiou pela j anela, a cabeça esticada por cim a do cadáver, sem parar a oração. Só as três irm ãs e o j ovem que desej ava Maria ficaram com o frade ao lado do cadáver. Juca Badaró e os cabras j á iam no fim do povoado. Passavam em frente ao grande arm azém de Horácio, onde era depositado o seu cacau seco, e deram uns tiros pro ar. Os hom ens e m ulheres foram voltando. As orações de defuntos se perdiam em m eio aos com entários. O j ovem ia se aproxim ando de Maria. 3

Muitos anos depois quando alguém atravessava esse povoado de Ferradas em com panhia de um velho que conhecia as histórias da terra do cacau, era quase certo o velho com entar apontando as casas e as ruas cuj a lam a desaparecera sob o calçam ento de pedras:

- Isso aqui j á foi coito dos piores bandidos dessa terra. Muito sangue j á correu em Ferradas. No com eço do cacau. . .

O povoado de Ferradas era feudo de Horácio. Estava encravado entre as fazendas dele. Durante algum tem po Ferradas m arcara os lim ites da terra do cacau. Quando os hom ens iniciaram no Rio-do-Braço a plantação da nova lavoura, ninguém pensava que ela ia term inar com os engenhos de açúcar, os alam biques de cachaça e as roças de café que existiam em redor do Rio-do-Braço, de Banco-da-Vitória, de água-Branca, os três povoados da beira do rio Cachoeira que ia dar no porto de Ilhéus. Mas o cacau não só liquidou os alam biques, os pequenos engenhos e as roças de café, com o andou m ata adentro. E no seu cam inho nasceram as casas do povoado de Tabocas e m ais longe as casas do povoado de Ferradas, quando os hom ens de Horácio haviam conquistado a m ata da m argem esquerda do rio. Ferradas foi, durante algum tem po, o povoado m ais distante de Ilhéus. Dali partiam os conquistadores de novas terras. Por vezes, rom pendo a m ata, chegavam viaj antes de Itapira, da Barra do Rio de-Contas, que era o outro lado das terras do cacau. Ferradas foi um centro de com ércio, pequeno e m ovim entado. Iria parar seu crescim ento com a conquista da m ata de Sequeiro Grande, nos lim ites da qual nasceria o povoado de Pirangi, um a cidade feita em dois anos. E anos depois, com o andar rápido da lavoura do cacau, nasceria Baforé, j á no cam inho do sertão, que logo trocaria seu nom e pelo m ais eufônico de Guaraci. Mas, nos tem pos da conquista, Ferradas era im portante, talvez m esm o m ais im portante que Tabocas. Falava-se que a estrada de ferro chegaria até lá. Era um proj ecto m uito discutido nas vendas e na farm ácia. Ditavam -se prazos, falava-se no progresso que isso traria a Ferradas. Mas a estrada nunca veio. Acontecia que Ferradas politicam ente era de Horácio. Mandava ele e m ais ninguém . E com o ele era seabrista, estava na oposição, o governo nunca aprovara o proj ecto dos ingleses de criarem um ram al da estrada até Ferradas. E quando Seabra subiu ao governo e Horácio esteve de cim a j á se encontrava m uito m ais interessado em levar a estrada até Sequeiro Grande j unto ao qual nascia Pirangi. Ferradas foi um a etapa, naqueles anos fervia de gente, com erciava, era conhecida das grandes casas exportadoras da Bahia, estava no roteiro de todos as caixeiros-viaj antes. Estes chegavam no lom bo dos cavalos, as m alas de am ostras trazidas por um a tropa de burros, e durante alguns dias exibiam suas roupas de linho branco entre a roupa caquis dos grapiúnas. Os caixeiros-viaj antes nam oravam as m oças solteiras do povoado, bailavam quando havia bailes, bebiam cervej a quente reclam ando contra a falta de gelo, faziam grandes negócios. E na cidade da Bahia, na volta das viagens, contavam nos cabarés as histórias bravias daquele povoado de aventureiros e j agunços, onde havia apenas um a pensão, onde a lam a era o calçam ento da rua, m as onde qualquer hom em de pé descalço levava um m aço de dinheiro no bolso. Com entavam :

Continuar: parte 3 de 4