Tormento
Dois
— Rachel — papai disse, olhando para um deles de cada vez.
— Sr. Delaney — o policial disse. — Podemos entrar, por favor?
Papai concordou com a cabeça e se afastou para deixá-los entrar no corredor.
— O que aconteceu? — ele perguntou enquanto fechava a porta. Eu estava
agachado, o rosto no balaústre, tentando permanecer o mais quieto possível para
que ninguém me ouvisse. — Foi um acidente? Aconteceu alguma coisa com o seu
carro?
Os policiais trocaram olhares e depois olharam para a mamãe, que na verdade
nem se parecia muito com a mamãe agora.
— Será que dá para alguém me dizer o que está acontecendo? — papai insistiu
depois de um tempo. — Guarda?
— O senhor confirma que esta senhora é sua esposa, sr. Delaney? — ele
perguntou, e também tirou o capacete. Sua cabeça era raspada e ele não parecia
mais velho do que o Pete, o que me deixou mais tranquilo. A policial parecia a
moça do Property Ladder, aquele programa antigo do Channel 4.
— Mas é claro que ela é minha esposa — papai disse, nervoso. — Rachel, o que
está acontecendo? Será que alguém poderia simplesmente…
— Se o senhor puder se acalmar por um momento — o policial disse —, então
nós explicaremos tudo.
— Me acalmar? Minha esposa desaparece por horas a fio e volta pra casa num
carro da polícia, e o senhor pede para eu me acalmar? Onde é que ela estava? O que
foi que aconteceu?
— Talvez seja melhor a gente sentar em algum lugar — a policial disse. — Sua
esposa passou por um choque, e uma boa xícara de chá cairia bem agora.
— Tá — papai disse. — Vamos até a cozinha para eu colocar a chaleira no fogo.
Mas quero saber tudo o que aconteceu. Entendido?
— Claro, senhor — ela disse, e então eles sumiram de vista e eu não consegui
mais ouvir o que estavam dizendo. Só o policial jovem não foi. Ele ficou no
corredor, botou o capacete no chão e se olhou no espelho. Girou a cabeça para um
lado e para o outro e puxou a jaqueta para baixo, alisando os amarrotados. Ao se virar, ele olhou para cima e me viu. Pensei em me esconder, mas ele apenas deu um
sorriso meio triste na minha direção e balançou a cabeça antes de se juntar aos
outros na cozinha.
Foi quando comecei a pensar no Pete. Fazia alguns dias que ele não telefonava
pra gente — desde que tinha dito que ia viajar em vez de ficar enfurnado na loja do
papai durante três meses enquanto os amigos curtiam a vida por aí. No café da
manhã, a mamãe disse que se ele não telefonasse até o fim da temporada de
Coronation Street, ela mesma ia ligar.
— Não sei por que você se importa com aquele ingrato — papai disse.
Talvez tivesse acontecido alguma coisa com ele e a polícia tinha vindo falar com
a mamãe e ela tinha ido com eles até a delegacia e ele estava lá, metido em alguma
encrenca. Ou pior: talvez algo ruim tivesse acontecido com o Pete e eu não tinha
nem falado com ele da última vez que ele ligou, porque eles brigaram tanto que
nem passaram o telefone pra mim.
Desci os degraus bem devagarzinho, mas mesmo assim ainda não dava pra ouvir
direito o que eles conversavam. O capacete do policial estava no chão, perto da
mesinha do telefone. Eu o segurei e fiquei olhando pra ele.
Era um daqueles capacetes de guarda antigos, alto e duro, com a insígnia da
polícia de Norfolk na frente. Era bem pesado, e quando o coloquei na cabeça senti
como se estivesse sendo coroado rei. Era bem grande pra mim, chegava a cobrir
meus olhos, e eu não entendia como é que alguém podia ficar o dia todo com aquilo
na cabeça.
Então a porta da cozinha se abriu e eu dei de cara com o papai, o rosto mais
vermelho do que antes, acompanhando os policiais de volta pelo corredor. Os três
pararam e ficaram me encarando, o que me deixou com vergonha, já que eu estava
só de pijama e com o capacete na cabeça.
— Desculpe, guarda — papai disse, tirando o capacete da minha cabeça. —
Danny, já para o quarto.
Subi correndo pela escada e bati a porta do quarto, mas fiquei do lado de fora.
Esperei um pouco e voltei para onde estava antes, no balaústre.
Papai abriu a porta da rua e os policiais saíram.
— Se surgir alguma novidade… — papai começou, mas a policial o interrompeu.
A voz dela era firme.
— Entraremos em contato na hora, claro — ela disse. — Mas precisaremos falar
com sua esposa de novo amanhã. O senhor entende?
— Claro — papai disse. — Tudo isso é horrível.
— É o procedimento padrão, sr. Delaney. Entraremos em contato em breve.
Então eu ouvi eles se afastarem e o papai fechou a porta, mas ficou ali por um tempo, sem se mexer. Dava pra vê-lo parado, fitando a parede e esfregando as mãos
nos olhos enquanto respirava fundo. Então ele voltou para a cozinha, fechou a
porta e tudo ficou em silêncio.
Depois que a mamãe foi pra cama, o papai veio conversar comigo. Eu estava
deitado, mas me sentei assim que ele entrou.
— Ainda acordado? — ele perguntou.
— Não consegui dormir. O que foi que aconteceu? Tá tudo bem com o Pete?
— Pete? Sim, ele está ótimo. Ah, acho que é melhor ligar pra ele também. Bom,
amanhã eu ligo. Isso pode esperar.
— O que foi que aconteceu? — repeti.
— Um acidente — ele disse então, baixinho. — Mas, olha, não é pra você ficar
preocupado. Um garotinho apareceu na frente da sua mãe. Quer dizer, na frente do
carro da sua mãe. Ele simplesmente apareceu do nada, sabe? Ninguém teve culpa.
Fiquei paralisado. Não sabia o que dizer. Pisquei algumas vezes e esperei ele
continuar.
— Agora ele está bem. Quer dizer, ele está bem mal, na verdade, mas está num
hospital, que é o melhor lugar onde poderia estar, claro. Ele vai receber o melhor
tratamento lá e vai ficar bom, tenho certeza disso.
— Como que você pode ter certeza?
— Porque ele tem que ficar — ele disse, convicto. — Você não precisa se
preocupar, está me ouvindo? Vai ficar tudo bem. Agora durma um pouco, e
amanhã cedo tente ficar quietinho e não incomodar a mamãe. Ela está muito
abalada.
Concordei com a cabeça. Ele saiu do quarto e seguiu pelo corredor, mas eu só
deitei quando ouvi a porta do quarto deles fechar. Então fechei os olhos e pensei no
garotinho, e torci para ele ficar bem, mas algo me dizia que ele não iria ficar e que
nada em casa voltaria a ser como antes.