Tormento

John Boyne · Capítulo 4 de 10

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Tormento

Cinco

 

— Mas é claro que ela não tinha enchido a cara — papai disse quando eu contei a

história pra ele no dia seguinte. — Pelo amor de Deus, Danny, alguma vez na vida

você já viu sua mãe bêbada? Você por um acaso sabe o que significa “encher a

cara”?

— É como os amigos do Pete sempre estão quando vêm dormir aqui — eu disse.

— Humm — papai resmungou enquanto tirava os óculos para ler as instruções

em um pacote de espaguete. — Bom, isso até que é verdade. Mas você devia

conhecer melhor a sua mãe e não acreditar nessas histórias. Foi um acidente. Só

isso. A polícia sabe disso. Os pais do garotinho também. E até a sua mãe sabe disso.

— Então por que ela está tão chateada?

— Porque, mesmo não sendo culpa dela, ela se sente responsável. Você entende

isso, não entende? Olha, ela estava vindo pra casa depois das compras, dirigindo

pela Parker Grove. Teve uma testemunha que viu tudo. E a testemunha disse que a

mamãe nem estava em alta velocidade, mas que esse garotinho, Andy, saiu

correndo de uma casa. Ele foi direto pra rua, sem olhar para os lados. Não tinha

como ela frear a tempo. Não se sabe nem o que o garotinho estava fazendo ali. Não

era a casa dele. Ele mora algumas casas pra baixo, do outro lado da rua.

— Talvez ele estivesse perdido — sugeri.

— Bem, nós vamos acabar descobrindo, eu tenho certeza.

— Ele vai morrer? — perguntei, e papai balançou a cabeça.

— Por que você não vai dar uma volta? — ele disse. — O jantar ainda vai

demorar pra ficar pronto.

Suspirei e fui pro jardim. Minha bicicleta estava onde eu tinha deixado,

encostada na cerca que separava nossa casa e a do Luke Kennedy. Pulei para o

selim e foi então que a vi pela primeira vez. Ela estava me encarando do outro lado

da rua, de pé ao lado de uma árvore. Seu cabelo era ruivo-claro, na altura dos

ombros, e ela vestia um jeans com uma margarida enorme bordada na altura de um

dos joelhos. Ela era mais ou menos da minha idade, mas eu não a conhecia, então

ela não devia ser da minha escola.

Sem diminuir a velocidade, continuei a pedalar rua abaixo, com os olhos fixos na garota, imaginando por que ela me encarava, até que virei a esquina e sumi de

vista.

 

Um pneu furou enquanto eu estava fora e não tinha como consertar, então voltei

empurrando a bicicleta por todo o caminho. Eu sempre pegava o atalho pelo

parque quando estava perto de casa, mas naquele dia fiz um caminho diferente.

Voltei pela Parker Grove, a rua onde a mamãe estava dirigindo quando o garotinho

apareceu correndo na frente dela.

Era uma rua como a nossa, com um monte de árvores na frente das casas. Eu não

sabia qual era a casa do Andy, mas enquanto descia a rua, empurrando a bicicleta

ao meu lado, um carro estacionou e uma mulher saiu correndo do outro lado da rua

em direção a ele.

— Michael! Samantha! — ela gritou para o casal que saía do carro. — Como é que

está o Andy? Alguma novidade?

— Ele… Bom, ele não piorou — a outra mulher, Samantha, respondeu baixinho.

— Os médicos dizem que é um bom sinal. Eles sempre dizem que as primeiras

quarenta e oito horas são as mais críticas, né?

— Bem, não piorar é melhor do que nada — a mulher disse. — Ele deve acordar

logo.

— Se pelo menos ele respondesse a algum estímulo… — Samantha disse,

balançando a cabeça, frustrada. — Nós conversamos com ele o tempo todo.

Colocamos as músicas preferidas dele pra tocar. Hoje de manhã colocamos o vídeo

de um desenho que ele gosta de assistir e repetimos sem parar, mas nada. É como

se…

Ela perdeu a voz e começou a chorar. Eu girei a roda da bicicleta mais algumas

vezes e vi um caquinho de vidro enfiado no pneu. Na verdade, eu não estava

procurando o furo, mas acabei encontrando. Pressionando os dedos com cuidado

dos dois lados do caquinho, eu o puxei pra fora. O pneu começou a murchar, e só

então me toquei que deveria ter deixado pra fazer isso quando chegasse em casa.

— E como a Sarah está lidando com isso? — a mulher perguntou, e ouvi a mãe do

Andy fungando, como se estivesse muito resfriada. Sempre que eu fazia esse tipo

de barulho a mamãe me dizia pra ir pegar um lenço e parar de ser tão nojento.

— Não sei — ela disse. — Ela tem andado muito calada. Não conversou sobre

isso com a gente. Eu nunca a vi se isolar tanto.

Então ela parou de falar, eu levantei os olhos e vi as duas mulheres paradas na

beira da calçada, olhando na minha direção.

— Tudo bem com você? — a mãe do Andy perguntou.

— Tudo — respondi.

— O que você está fazendo aí?

Tossi e tentei parecer o mais inocente possível.

— O pneu da minha bicicleta furou. Eu estava tentando encontrar o buraco. —

Elas continuaram me encarando. Segurei o guidão e comecei a empurrar a bicicleta.

— Tenho que levar até em casa pra fazer o remendo.

Elas não disseram nada, mas ficaram me observando enquanto eu ia embora.

Levei uns dois minutos pra chegar no fim da rua e deu pra sentir os olhos delas nas

minhas costas esse tempo todo. Normalmente eu teria pedalado o mais rápido

possível, mas não dava pra fazer isso com o pneu furado.

Por fim dobrei a esquina, mas ainda levei uns vinte minutos até chegar na minha

rua. Ela estava lá, esperando. A garotinha ruiva. Sentada no fim da rua, encostada

numa árvore. Eu sabia que ela estava me esperando. Mas não imaginava por quê.

Não lembrava nem de tê-la visto antes. Mas, de alguma forma, eu simplesmente

sabia que ela estava ali para falar comigo.

Fui diminuindo a velocidade enquanto me aproximava. Ela deu uma olhada ao

redor e depois me encarou. Então ficou de pé, tirando a poeira do jeans com as

mãos. Virei a cabeça pro outro lado, imaginando se ela ainda estaria olhando pra

mim quando eu virasse de volta, e ela estava. Eu não gosto muito de falar com

meninas, porque elas sempre olham pra mim como se eu tivesse acabado de sair

rastejando de debaixo de uma pedra. Mas eu sabia que tinha que parar pra

conversar com aquela menina em particular. Eu sabia que não tinha escapatória.

— Oi — eu disse quando cheguei mais perto, parando ali e segurando a bicicleta

entre nós.

— Você é o Danny? — ela perguntou.

— Sim.

— Eu sabia que era você. Eu te vi mais cedo.

— Você estava parada na frente da minha casa. Estava me espiando.

Ela abriu a boca, como se fosse negar, mas então deu de ombros, como se aquilo

não a incomodasse.

— Sim — ela disse. — Eu estava mesmo.

Foi então que me toquei, e soube exatamente quem ela era.

— Você é a Sarah, não é? — perguntei. — A irmã do Andy?

Ela confirmou com a cabeça e não pude deixar de pensar que, enquanto eu

espionava a família dela naquela tarde, ela passou quase o dia inteiro espionando a

minha. E só naquele momento, com o dia já quase no fim, a gente finalmente

começou a conversar. Era como se fôssemos agentes secretos, mas tivéssemos

cansado de tudo e decidido simplesmente abandonar o disfarce.