Tormento
Quatro
Mais tarde, estávamos assistindo tevê quando o telefone tocou e a sra. Kennedy
foi atender. Ela falou por uns minutos no corredor antes de espiar pela porta.
— Danny, é o seu pai. Ele quer falar com você.
— Alô? — eu disse, nervoso.
— Oi — papai respondeu. — Desculpa por não ter ninguém em casa quando você
chegou.
— Não tem problema — eu disse, mesmo sabendo que tinha.
— Você já jantou?
— Sim.
— Ótimo. Então quero que você faça uma coisa pra mim.
— O quê?
— Você não se importa de dormir na casa da sra. Kennedy hoje, não é?
Meu coração apertou. Eu queria estar em casa. Queria que todos nós estivéssemos
em casa juntos.
— Por quê? — perguntei. — Onde é que vocês estão?
Ele fez uma pausa.
— Eu não te falei?
— Não.
— Nós estamos no hospital, Danny — ele disse baixinho. — Sua mãe está um
pouco pálida, eu já tinha te avisado.
Eu abri a boca para dizer outra coisa, mas antes disso a sra. Kennedy, que tinha
aparecido ao meu lado sem fazer nenhum barulho, tirou o telefone da minha mão.
— Russell? — ela disse, soando bem determinada agora. — É a Alice de novo.
Olha, não precisa se preocupar. Estamos todos assistindo tevê e o Danny vai ficar
muito bem aqui. Você e a Rachel precisam se cuidar, certo? — Então ela parou de
falar e deu para ouvir uma voz do outro lado da linha, mas não consegui entender o
que estava dizendo. A sra. Kennedy balançou a cabeça antes de voltar a falar. — Eu
posso tirar um dia de folga — ela disse. Outra pausa. — Bem, se você precisar, eu
posso — ela disse. Mais uma pausa. — Certo, nos vemos de manhã, então. — Ela
olhou pra mim e acho que tomou uma decisão, porque em seguida me virou as costas. — O Danny está dizendo boa-noite — ela falou, embora eu não estivesse
dizendo nada. — A gente se vê amanhã. Boa noite, Russell.
Ela encerrou a ligação e voltou a conversar comigo.
— Olha — ela disse, adivinhando meus pensamentos —, encare isso como uma
aventura.
— Mas onde eu vou dormir?
— No quarto do Luke. Ele tem um beliche.
Estava começando a melhorar. Fiz que sim com a cabeça.
— Em qual cama que ele dorme?
— Você quer dormir em qual?
Pensei um pouco.
— Na de cima.
— Então ele fica com a de baixo — ela disse, piscando pra mim. — Vem, vamos
pra sala. Tá na hora do meu programa.
No fim daquela noite, a sra. Kennedy pegou no guarda-roupa uns lençóis,
travesseiros e um edredom e preparou a parte de cima do beliche. Depois ela pegou
um pijama do Luke em uma gaveta e deu pra mim, e nós três ficamos nos olhando
de um jeito estranho por mais ou menos um minuto, até que ela se tocou.
— Volto daqui a pouco pra ver se você não vai precisar de mais nada — ela disse.
— Deixei uma escova nova no banheiro, Danny. Está em cima da pia, ainda na
embalagem, então você não tem por que se preocupar.
Fui até o banheiro e escovei os dentes bem devagar. No caminho de volta, vi uma
porta entreaberta à esquerda e dei uma espiada. Era o quarto da sra. Kennedy. As
luzes estavam apagadas, mas a cortina estava aberta, deixando a luz da lua entrar e
criando uma luminosidade feita de escuridão e sombras. Eu sabia que não devia
entrar, mas entrei mesmo assim. A cama dela era muito grande, maior até que a da
mamãe e do papai. Do lado direito tinha uma penteadeira com tantos frascos de
vidros e loções que eu fiquei imaginando como ela sabia o que era cada um.
Caminhei até a janela e olhei para fora. Dava pra ver meu próprio quarto do outro
lado da cerca, porque eu tinha deixado a cortina aberta. Fiquei olhando para o lugar
de onde eu observava a sra. Kennedy. Lembrei exatamente onde eu estava na noite
em que a vi de sutiã. Dava pra ver os pôsteres nas paredes e a camiseta que eu tinha
deixado largada na cadeira.
“Se a mamãe estivesse em casa”, pensei, “a essa hora aquela camiseta já estaria
pra lavar.”
— Já acabou? — Luke perguntou quando eu voltei pro quarto, e fiz que sim com a cabeça. Ele já estava de pijama e passou por mim para ir ao banheiro, fechando a
porta atrás de si. Eu tirei a roupa o mais rápido que pude e coloquei o conjunto que
a sra. Kennedy tinha separado pra mim. Quando ele voltou, eu estava dobrando
com cuidado a minha calça e a minha camisa e pondo a roupa no encosto da
cadeira. Subi pela escadinha do beliche e me enfiei embaixo do edredom.
— O Benjamin é um idiota, não é? — Luke disse.
— O sr. Benson? — perguntei. — Ele é legal. Ele parece um urso-polar.
— Ele não deveria estar aqui — Luke continuou. — Afinal, que direito ele tem de
cozinhar pra nós? Esta casa não é dele. É do meu pai. Quando eu for passar as férias
com ele, vou contar tudo.
Eu virei para cima e dei de cara com o teto, que estava coberto de centenas de
adesivos de estrelinha que brilhavam no escuro. Era assim que eu imaginava como
seria dormir no topo de uma montanha. Estendi o braço para tocar nelas, mas meus
dedos não conseguiam alcançá-las.
— O que é que está acontecendo na sua casa? — Luke perguntou depois de um
tempinho.
— Nada.
— Está sim. Conta aí.
— Nada — insisti, torcendo pra ele não perguntar mais sobre aquilo.
Ele bufou.
— Não foi isso o que ouvi dizer — ele disse.
— E o que foi que você ouviu?
— Que a sua mãe encheu a cara, atropelou e matou alguém.
Eu me sentei na cama.
— Isso não é verdade — eu disse.
— Foi a minha mãe que falou.
— Ela falou isso? — eu perguntei, chocado.
— Bom, não — Luke confessou. — Ela não disse que sua mãe o matou. Mas que
ele provavelmente vai morrer. Que ele tá em coma e que não há muita esperança.
Eu a ouvi falando isso antes de você vir pra cá.
Deitei de novo e encarei as estrelas, sentindo um embrulho no estômago.
Alguém bateu na porta e abriu, a princípio só um pouquinho e depois inteira, e um
facho de luz entrou, seguido pela sra. Kennedy.
— Tudo bem, meninos? — ela perguntou. — Você precisa de alguma coisa,
Danny?
— O Danny vai ficar aqui amanhã de noite? — Luke perguntou.
— Não sei — a sra. Kennedy disse. — Amanhã a gente vê.
— Eu vou? — perguntei, espantado, imaginando quanto tempo tudo aquilo ia durar.
— Não se preocupe com isso — ela disse. — Durma um pouco. Amanhã a gente
vai ficar sabendo. Agora, não fiquem conversando a noite inteira, ouviram? Já é
tarde.
Ela se inclinou para a parte de baixo do beliche e eu a ouvi dando um beijo de
boa-noite no Luke.
— Boa noite, Danny — ela disse em seguida, sorrindo na minha direção. — Você
sabe onde me procurar se precisar.
— É a segunda porta à direita — Luke disse.
— Ah, ele sabe — a sra. Kennedy disse. Dava pra vê-la sorrindo à luz da lua
enquanto saía do quarto, e mesmo no escuro eu podia sentir meu rosto ficando
vermelho.
Luke e eu não dissemos nada por um bom tempo. Então eu tive a impressão de
ouvir o som de sua respiração mudar enquanto ele virava de lado e imaginei que já
estivesse dormindo.
— Ela não tinha enchido a cara — eu falei baixinho.