Tormento

John Boyne · Capítulo 3 de 10

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Tormento

Quatro

 

Mais tarde, estávamos assistindo tevê quando o telefone tocou e a sra. Kennedy

foi atender. Ela falou por uns minutos no corredor antes de espiar pela porta.

— Danny, é o seu pai. Ele quer falar com você.

— Alô? — eu disse, nervoso.

— Oi — papai respondeu. — Desculpa por não ter ninguém em casa quando você

chegou.

— Não tem problema — eu disse, mesmo sabendo que tinha.

— Você já jantou?

— Sim.

— Ótimo. Então quero que você faça uma coisa pra mim.

— O quê?

— Você não se importa de dormir na casa da sra. Kennedy hoje, não é?

Meu coração apertou. Eu queria estar em casa. Queria que todos nós estivéssemos

em casa juntos.

— Por quê? — perguntei. — Onde é que vocês estão?

Ele fez uma pausa.

— Eu não te falei?

— Não.

— Nós estamos no hospital, Danny — ele disse baixinho. — Sua mãe está um

pouco pálida, eu já tinha te avisado.

Eu abri a boca para dizer outra coisa, mas antes disso a sra. Kennedy, que tinha

aparecido ao meu lado sem fazer nenhum barulho, tirou o telefone da minha mão.

— Russell? — ela disse, soando bem determinada agora. — É a Alice de novo.

Olha, não precisa se preocupar. Estamos todos assistindo tevê e o Danny vai ficar

muito bem aqui. Você e a Rachel precisam se cuidar, certo? — Então ela parou de

falar e deu para ouvir uma voz do outro lado da linha, mas não consegui entender o

que estava dizendo. A sra. Kennedy balançou a cabeça antes de voltar a falar. — Eu

posso tirar um dia de folga — ela disse. Outra pausa. — Bem, se você precisar, eu

posso — ela disse. Mais uma pausa. — Certo, nos vemos de manhã, então. — Ela

olhou pra mim e acho que tomou uma decisão, porque em seguida me virou as costas. — O Danny está dizendo boa-noite — ela falou, embora eu não estivesse

dizendo nada. — A gente se vê amanhã. Boa noite, Russell.

Ela encerrou a ligação e voltou a conversar comigo.

— Olha — ela disse, adivinhando meus pensamentos —, encare isso como uma

aventura.

— Mas onde eu vou dormir?

— No quarto do Luke. Ele tem um beliche.

Estava começando a melhorar. Fiz que sim com a cabeça.

— Em qual cama que ele dorme?

— Você quer dormir em qual?

Pensei um pouco.

— Na de cima.

— Então ele fica com a de baixo — ela disse, piscando pra mim. — Vem, vamos

pra sala. Tá na hora do meu programa.

 

No fim daquela noite, a sra. Kennedy pegou no guarda-roupa uns lençóis,

travesseiros e um edredom e preparou a parte de cima do beliche. Depois ela pegou

um pijama do Luke em uma gaveta e deu pra mim, e nós três ficamos nos olhando

de um jeito estranho por mais ou menos um minuto, até que ela se tocou.

— Volto daqui a pouco pra ver se você não vai precisar de mais nada — ela disse.

— Deixei uma escova nova no banheiro, Danny. Está em cima da pia, ainda na

embalagem, então você não tem por que se preocupar.

Fui até o banheiro e escovei os dentes bem devagar. No caminho de volta, vi uma

porta entreaberta à esquerda e dei uma espiada. Era o quarto da sra. Kennedy. As

luzes estavam apagadas, mas a cortina estava aberta, deixando a luz da lua entrar e

criando uma luminosidade feita de escuridão e sombras. Eu sabia que não devia

entrar, mas entrei mesmo assim. A cama dela era muito grande, maior até que a da

mamãe e do papai. Do lado direito tinha uma penteadeira com tantos frascos de

vidros e loções que eu fiquei imaginando como ela sabia o que era cada um.

Caminhei até a janela e olhei para fora. Dava pra ver meu próprio quarto do outro

lado da cerca, porque eu tinha deixado a cortina aberta. Fiquei olhando para o lugar

de onde eu observava a sra. Kennedy. Lembrei exatamente onde eu estava na noite

em que a vi de sutiã. Dava pra ver os pôsteres nas paredes e a camiseta que eu tinha

deixado largada na cadeira.

“Se a mamãe estivesse em casa”, pensei, “a essa hora aquela camiseta já estaria

pra lavar.”

— Já acabou? — Luke perguntou quando eu voltei pro quarto, e fiz que sim com a cabeça. Ele já estava de pijama e passou por mim para ir ao banheiro, fechando a

porta atrás de si. Eu tirei a roupa o mais rápido que pude e coloquei o conjunto que

a sra. Kennedy tinha separado pra mim. Quando ele voltou, eu estava dobrando

com cuidado a minha calça e a minha camisa e pondo a roupa no encosto da

cadeira. Subi pela escadinha do beliche e me enfiei embaixo do edredom.

— O Benjamin é um idiota, não é? — Luke disse.

— O sr. Benson? — perguntei. — Ele é legal. Ele parece um urso-polar.

— Ele não deveria estar aqui — Luke continuou. — Afinal, que direito ele tem de

cozinhar pra nós? Esta casa não é dele. É do meu pai. Quando eu for passar as férias

com ele, vou contar tudo.

Eu virei para cima e dei de cara com o teto, que estava coberto de centenas de

adesivos de estrelinha que brilhavam no escuro. Era assim que eu imaginava como

seria dormir no topo de uma montanha. Estendi o braço para tocar nelas, mas meus

dedos não conseguiam alcançá-las.

— O que é que está acontecendo na sua casa? — Luke perguntou depois de um

tempinho.

— Nada.

— Está sim. Conta aí.

— Nada — insisti, torcendo pra ele não perguntar mais sobre aquilo.

Ele bufou.

— Não foi isso o que ouvi dizer — ele disse.

— E o que foi que você ouviu?

— Que a sua mãe encheu a cara, atropelou e matou alguém.

Eu me sentei na cama.

— Isso não é verdade — eu disse.

— Foi a minha mãe que falou.

— Ela falou isso? — eu perguntei, chocado.

— Bom, não — Luke confessou. — Ela não disse que sua mãe o matou. Mas que

ele provavelmente vai morrer. Que ele tá em coma e que não há muita esperança.

Eu a ouvi falando isso antes de você vir pra cá.

Deitei de novo e encarei as estrelas, sentindo um embrulho no estômago.

Alguém bateu na porta e abriu, a princípio só um pouquinho e depois inteira, e um

facho de luz entrou, seguido pela sra. Kennedy.

— Tudo bem, meninos? — ela perguntou. — Você precisa de alguma coisa,

Danny?

— O Danny vai ficar aqui amanhã de noite? — Luke perguntou.

— Não sei — a sra. Kennedy disse. — Amanhã a gente vê.

— Eu vou? — perguntei, espantado, imaginando quanto tempo tudo aquilo ia durar.

— Não se preocupe com isso — ela disse. — Durma um pouco. Amanhã a gente

vai ficar sabendo. Agora, não fiquem conversando a noite inteira, ouviram? Já é

tarde.

Ela se inclinou para a parte de baixo do beliche e eu a ouvi dando um beijo de

boa-noite no Luke.

— Boa noite, Danny — ela disse em seguida, sorrindo na minha direção. — Você

sabe onde me procurar se precisar.

— É a segunda porta à direita — Luke disse.

— Ah, ele sabe — a sra. Kennedy disse. Dava pra vê-la sorrindo à luz da lua

enquanto saía do quarto, e mesmo no escuro eu podia sentir meu rosto ficando

vermelho.

Luke e eu não dissemos nada por um bom tempo. Então eu tive a impressão de

ouvir o som de sua respiração mudar enquanto ele virava de lado e imaginei que já

estivesse dormindo.

— Ela não tinha enchido a cara — eu falei baixinho.