Tormento

John Boyne · Capítulo 2 de 10

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Tormento

Três

 

Na manhã seguinte, levantei bem cedo. Quando desci, o papai já estava na

cozinha, mas nem sinal da mamãe.

— Ela vai passar a manhã na cama hoje — ele falou. — Ela mal pegou no sono à

noite. Tente não ficar zanzando por aí.

Eu não fiquei zanzando por ali, principalmente porque tinha medo de topar com

ela. Eu não ia saber o que dizer se isso acontecesse. Mas quando a manhã estava

quase no fim, subi pra pegar o David Copperfield e a encontrei saindo do banheiro.

Quando me viu, ela desatou a chorar.

— Caramba, Danny! — papai disse, subindo voando pela escada. — Eu não falei

pra você não arrumar confusão?

— Mas eu não fiz nada! — eu falei, levantando o livro bem alto. — Só vim pegar

este livro.

— Vá lá pra fora — ele disse, balançando a cabeça. — Vou te contar, você nunca

escuta o que eu digo, né?

Fui pro jardim e sentei no balanço, mas não consegui fazer nenhum progresso na

leitura. Eu estava bravo demais para me concentrar, então resolvi dar uma volta de

bicicleta em vez de ler.

Quando voltei pra casa, quase de noite, percebi que estava vazia de novo. Já eram

quase seis horas e eu estava com fome. Abri a geladeira e pensei em fazer um

sanduíche, mas então escutei baterem na porta da frente.

— Danny? — era uma voz de mulher. — Danny, é a Alice Kennedy. Você está aí?

Atravessei o corredor e abri a porta, mas sem escancarar, colocando a cabeça para

fora pela fresta, como as velhinhas fazem nos comerciais da tevê quando o homem

do gás vem fazer a leitura do relógio. Só que nos comerciais ele não é o homem do

gás, ele veio roubar a aposentadoria delas e lhes dar uma surra.

— Oi.

— Oi, Danny — ela disse, sorrindo.

— Minha mãe não está — eu falei, porque sempre que vinha mulher em casa era

pra ver a mamãe.

— Eu sei que ela não está — a sra. Kennedy disse. — Seu pai ligou pra mim. Ele achou que você poderia estar com fome.

— Bom, eu não almocei — admiti.

— E já são quase seis horas — ela disse, passando a mão pela fresta que nos

separava. — Achamos que talvez seja melhor você vir jantar na minha casa.

— Minha mãe deve fazer o jantar mais tarde — eu disse bem baixinho, os olhos

fixos nos sapatos.

— Seu pai disse que eles vão parar pra comer alguma coisa no caminho. Ele

perguntou se você poderia comer com a gente e eu disse que sim, claro.

Adoraríamos a sua companhia. Mas é melhor você vir logo comigo, senão meus

bifes vão queimar.

Ela praticamente me arrancou de dentro de casa e eu bati a porta atrás de mim.

Achei legal ela segurar minha mão. A pele dela era macia e a mão, quase tão

pequena quanto a minha. Mas eu não queria que o Luke me visse chegar de mãos

dadas com a mãe dele, então soltei antes de entrarmos.

— E eles chamam isso de verão! — ela disse enquanto a gente caminhava,

sorrindo pra mim como se fôssemos as pessoas mais despreocupadas do mundo.

Como se não estivesse acontecendo nada de ruim na minha casa e como se o sr.

Kennedy ainda estivesse morando na dela. — Não chega nem perto dos verões de

quando eu era criança, não mesmo. Naquele tempo o sol ainda esquentava um

pouco.

Lá dentro, senti o cheiro da carne assando na grelha.

— Chegamos — ela disse animada quando entramos na cozinha. Olhei em volta

e vi o Luke sentado à mesa, me encarando sem saber direito por que eu estava ali.

Benjamin Benson, o namorado da sra. Kennedy, estava de pé na frente do fogão,

mexendo numa panela, e virou para me dar um sorriso. Ele era o maior cara que eu

já tinha visto na vida. Praticamente um gigante, com cabelo grosso e branco e uma

barba desgrenhada. Sempre achei que ele parecia um urso-polar.

— Boa noite, jovem Danny — disse o sr. Benson, que falava como alguém de

outro século. — Você deu sorte, porque eu comprei um filé a mais para o caso de a

gente receber alguma visita. Melhor prevenir do que remediar, esse é o meu lema.

Você já foi escoteiro?

— Não.

— Os escoteiros são gays — Luke disse, e o sr. Benson virou na direção dele e fez

que sim com a cabeça.

— Eu diria que alguns são, mesmo — ele falou. — E outros são tristes, e alguns

são ansiosos, outros meio loucos. Somos todos inclinados a naturezas diversas.

Espero que você goste de molho de cogumelos, Danny.

— Adoro.

— Excelente! — ele exclamou, virando-se e voltando a mexer na panela. Depois

ergueu a colher de madeira e a aproximou de mim. — Prove um pouco disso e me

diga se está bom de sal. Mas lembre-se: sempre dá pra colocar mais, mas uma vez

que colocamos, não dá pra tirar. É o contrário de cortar cabelo. Cabelo sempre dá

pra tirar mais, mas depois não dá pra devolver.

Encostei os lábios na ponta da colher tomando bastante cuidado, com medo de

me queimar, mas estava numa temperatura boa, não muito quente. E uma delícia.

— Muito bom — eu disse.

— Excelente — ele respondeu. — Sugiro então que você se acomode enquanto

termino. Alice, nem pense em amassar as batatas. Isso não é trabalho de mulher.

Sente-se, sirva o seu vinho e deixe tudo por minha conta, pelo amor de Deus.

Fui até a mesa onde o Luke estava sentado e ele fez um aceno com a cabeça para

mim.

— Tudo certo? — ele perguntou.

— Tudo — respondi. — Eu não pedi pra vir, sabe? — contei a ele, sussurrando. —

Ela que foi me buscar.

— Não tô nem aí. Você acha que me importo com quem ela convida para jantar?

Esta casa ainda é do meu pai, é isso o que importa.

— Danny? — a sra. Kennedy chamou, e me virei pra ela, com a impressão de que

ela já tinha me chamado algumas vezes e eu não tinha ouvido. — O que você quer

beber?

— O que tiver. Um copo d’água.

— Acho que tem opção melhor, não é? Uma coca, talvez? Ou um suco de laranja?

— Coca — respondi depressa.

— Coca, então. E você, Luke, vai querer o quê?

— Nem ligo — ele resmungou.

— Certo — a sra. Kennedy disse, servindo um copo de coca pra mim. — Bom,

quando você ligar, a geladeira fica bem ali e você sabe como se servir.

— Coca estraga os dentes — o sr. Benson disse, e eu olhei pra ele com medo de

tê-lo decepcionado de alguma forma, mas ele não parecia zangado. — Mas eu não

consigo começar o dia sem beber um gole. É um vício. É que nem certas pessoas

com café. — Ele disse aquilo olhando pra sra. Kennedy, mas ela só riu. — E outras

com cigarro. — Ele olhou pra ela de novo, insistente, e ela riu de novo e balançou a

cabeça. Não dava pra dizer se ele estava brincando ou não, mas eu achei que estava,

já que ela parecia estar se divertindo. — Mas pra mim é coca. E você, Luke? Quais

são os seus vícios?

— Afinal, nós vamos ou não vamos comer hoje? — Luke perguntou, encarando o

sr. Benson. — Ou será que vamos ficar só falando em comida?

— O homem está faminto! — o sr. Benson disse, começando a servir os bifes com

batata e legumes. Em seguida despejou o molho de cogumelos sobre a carne e pôs

os pratos à nossa frente. Ele sentou de frente pra mim e o Luke ficou de frente pra

mãe dele.

— Ao chef — o sr. Benson disse, levantando a taça. — Ei, espera um pouco — ele

acrescentou, como se tivesse esquecido alguma coisa. — O chef sou eu. Que

grosseria!

A sra. Kennedy deu uns risinhos, mas o Luke parecia que ia matar alguém, o que

me fez tentar apagar o sorriso do rosto para que o escolhido não fosse eu.

— E como foi o seu dia, Danny? — a sra. Kennedy perguntou. — O que você fez

de bom?

— Andei de bicicleta.

— Não posso mais andar de bicicleta — o sr. Benson disse. — Sou muito grande

pra elas. É sentar e quebrar.

— Eu gostava de dar umas pedaladas quando era menina — a sra. Kennedy disse.

— Foi como conheci o David, na verdade. Num passeio de bicicleta na França.

— David é o meu pai — Luke disse, mesmo que eu já soubesse. — Esta casa é

dele.

— Na verdade, esta casa é minha — a sra. Kennedy disse, encarando o filho. —

Minha e sua.

O sr. Benson e eu trocamos olhares, mas não dissemos nada. Eu tentei imaginar

como seria se o papai não morasse com a gente e quase não viesse nos visitar, que

nem o pai do Luke fazia, mas não consegui. Não dava pra imaginar a nossa casa

sem ele. Nem sem a mamãe.

Olhei para a comida e, mesmo faminto, percebi que não estava com muita

vontade de comer.

— Que foi, Danny? — a sra. Kennedy perguntou. — Você não está com fome?

Olhei de novo para o prato e balancei a cabeça. Comecei então a contar

mentalmente de um a dez, o mais rápido possível, porque já começava a sentir as

lágrimas se acumulando nos meus olhos e sabia que logo, logo começaria a chorar.

— Você vai ficar doente se não comer — ela disse.

— Olha só pra ele! — Luke gritou em triunfo. — Ele tá chorando!

— Não tô, não! — gritei, assim que uma lágrima caiu no prato. Me virei para

encará-lo, sentindo meu queixo tremer enquanto as lágrimas desciam. Levantei a

mão para enxugá-las.

— Luke, fique quieto! — a sra. Kennedy disparou.

— Desculpa — eu disse.

— Você não tem nada que pedir desculpas — ela disse, levantando. — Nada mesmo. Venha até a sala comigo. Vamos ficar um pouco sozinhos, só nós dois.

Quanto a você, Luke, não quero ouvir um pio enquanto estivermos lá. Entendeu?

Luke fez que sim com a cabeça, um pouco envergonhado, e a mãe dele pegou a

minha mão e me tirou da cozinha. Dei uma espiada enquanto ela fechava a porta

atrás de nós, e pude ver ele e o sr. Benson olhando um pro outro.

— Mais um pouco de molho de cogumelos, Luke? — o sr. Benson perguntou.