Tormento

John Boyne · Capítulo 8 de 10

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Tormento

Nove

 

 

— Danny — papai disse no fim daquela tarde, entrando no meu quarto sem bater

—, me diga que você não fez isso.

— Não fiz o quê? — perguntei, olhando pra ele como se realmente não soubesse.

— Você sabe muito bem o quê. E pela sua cara, sei que você fez, sim. Caramba, o

que é que você estava pensando?

— Não sei do que você está falando, eu…

— Ah, não banque o inocente! — ele retrucou. — A polícia acabou de vir na

nossa porta, e o máximo que eu consegui fazer foi convencê-los a deixar que eu

viesse falar com você sobre o que aconteceu, e não eles. Aparentemente, o sr. e a sra.

Maclean deram queixa de você por ter invadido o quarto do filho deles no hospital.

Diga que não é verdade, pelo amor de Deus. Diga pra mim que eles entenderam

errado.

Eu abaixei a cabeça, envergonhado. Por alguns instantes, realmente pensei em

dizer que sim, que eles haviam entendido errado, que eu não tinha chegado nem

perto do hospital. Por que eu iria até lá, afinal? E provavelmente o Luke Kennedy

poderia providenciar um álibi pra mim, se eu realmente precisasse de um. Mas não

dava pra fugir disso. Eu tinha que jogar limpo.

— Não é o que parece — comecei, mas ele me interrompeu e soltou os braços,

decepcionado.

— Inacreditável! — ele gritou. — Você não acha que a cota de policiais passando

pela nossa casa para trazer más notícias já estourou? Que diabos você estava

pensando? Aliás, o que você foi fazer lá?

— Eu queria vê-lo — eu disse. — A Sarah falou que queria que eu fosse e…

— Sarah? — ele perguntou, me encarando com surpresa. — E quem diabos é

Sarah? Nunca ouvi você falar dela.

— Sarah Maclean — respondi. — Irmã do Andy.

— Irm… — Ele refletiu sobre isso por um momento, sentou na beirada da cama e

começou a balançar a cabeça, rindo um pouquinho. — Você é amigo da irmã

daquele garotinho? E nunca me contou?

— Não sou amigo dela — expliquei. — Quer dizer, eu não a conhecia antes de tudo isso ter acontecido. Ela veio até aqui. Umas duas semanas atrás.

— Ela veio até a nossa casa?

— Ela ficou parada do outro lado da rua. Eu vi que ela estava me encarando. Nós

conversamos um pouco e depois nos encontramos no parque pra conversar mais. E

então ela veio até aqui depois da minha festa de aniversário. — Eu mencionei o

aniversário na esperança de que ele pegasse mais leve comigo, considerando como

o jantar tinha acabado. — Ela é legal — acrescentei, apesar de não saber muito bem

por que eu tinha que dizer isso pra ele.

— Eu não quero saber se ela é legal ou não. Ela não tem nada que passear por

aqui, assim como você não tem que ir visitar o irmão dela no hospital. Como você

acha que a sua mãe iria se sentir se trombasse com ela e descobrisse quem ela é?

— Acho que você não escolheu bem as palavras — eu disse.

— Não banque o espertinho comigo — papai disse, levantando e apontando o

dedo pra mim. Agora ele parecia realmente bravo, e me arrependi de ter falado

aquilo. — O que você acha que os pobres pais daquele menino devem ter sentido

quando viram você sair de debaixo da cama dele?

— Ah, eu estou de saco cheio dele! — gritei. — Não tá todo mundo cheio dele?

Se ele vai morrer, queria que ele morresse logo e parasse de…

Não cheguei a terminar a frase, porque o papai me deu um tapa no rosto. Só

conseguia piscar, espantado pelo que tinha acabado de acontecer. Ele nunca tinha

me batido antes. Eu o olhei direto nos olhos e tentei segurar as lágrimas.

— Danny — ele disse baixinho, recuando um pouco e parecendo igualmente

chocado pelo que tinha acabado de fazer. — Danny, me desculpa…

Eu parei de escutar. Fechei os olhos, fiquei calado e esperei até ele sair do quarto.

Eu não queria mais morar ali, nunca mais.

 

A campainha tocou uma hora depois e eu achei que estivesse imaginando coisas

quando ouvi a voz da Sarah lá embaixo. Desci voando e encontrei o papai

conversando com ela.

— Danny, volte pro seu quarto, por favor — ele disse numa voz exausta.

— O que está acontecendo? — perguntei.

— Eu vim pedir desculpas — Sarah disse, parada na soleira. — Minha mãe e meu

pai também estão furiosos comigo. Eles acham que estou no meu quarto, mas eu saí

pela janela.

— Ah, isso está ficando cada vez melhor — papai disse, rindo impotente. —

Sarah, não sei o que dizer. Você realmente não deveria estar aqui. Se os seus pais

descobrirem que você sumiu…

— Eles não vão ligar — ela disse. — Eles só pensam no Andy mesmo.

— É porque ele está no hospital — papai disse enquanto esfregava os olhos com

uma das mãos. — É natural que eles pensem nele o tempo todo, já que ele está tão

mal.

— Será que ela pode subir até o meu quarto pra gente conversar? — perguntei.

— Não! — Papai retrucou. — De jeito nenhum!

— Por que não?

— Porque ela devia estar na casa dela. Os pais dela vão ficar preocupados. E ela

não tem por que estar aqui. Vocês dois — ele olhou de um para o outro —, vocês

dois não têm nada que ficar amigos. Sarah, eu não tenho nada contra você

pessoalmente, mas ter você por perto não facilita o que a nossa família está

enfrentando. Você consegue entender isso? E a situação da sua família também não

vai melhorar se o Danny ficar visitando o seu irmão ou se escondendo embaixo da

cama dele. Por que é tão difícil pra vocês entenderem isso?

— Eu só queria falar com ele — Sarah disse. — Eu queria explicar.

— Vá para a sua casa, Sarah — papai falou.

Ela pensou um pouco e fez um movimento em direção à escada, mas ele ficou na

frente dela e balançou a cabeça.

— Vá para a sua casa — ele repetiu. — Por favor. Apenas faça o que eu estou

pedindo. Se a Rachel chegar agora…

— Não vá, Sarah — pedi.

Ela olhou pra cima, na minha direção, e balançou a cabeça.

— Desculpa — ela disse —, é melhor eu ir.

— Obrigado — papai disse em voz baixa.

Ela se virou e foi em direção à porta.

— Eu te ligo — gritei enquanto ela saía. — Vou manter contato!

— Não vai, não — papai disse.

Ele fechou a porta assim que ela saiu e eu voltei correndo para o quarto. Ele foi

atrás de mim, chamando meu nome, mas não respondi e tranquei a porta. Corri até

a janela, pensando em abri-la e gritar para a Sarah. Contudo, ao chegar na beirada

vi uma cena que deixou o meu estômago embrulhado de ciúmes.

Sarah estava parada no fim do jardim, mas não estava sozinha. Ela estava

conversando com o Luke Kennedy, que parecia falar sem parar. No meio de

alguma coisa que o Luke dizia, ela balançou a cabeça e sorriu pra ele, e então ele

começou a gargalhar. Minha bicicleta estava largada no gramado de casa e ele

apontou pra ela enquanto a Sarah continuava balançando a cabeça pra tudo o que

ele dizia. Então o Luke deve ter dito alguma outra coisa, porque ela concordou com

a cabeça e ele entrou correndo na casa dele.

Fechei a cara. Não dava pra saber o que estava rolando, mas boa coisa não podia

ser. Detestei ver os dois conversando. Quando eu estava com a mão no trinco para

abrir a janela, o Luke apareceu de novo, trazendo a bicicleta dele. Ele passou a

perna por cima do cano, mas ficou com os dois pés no chão, sem sentar no selim.

Sarah caminhou até ele e segurou em seu braço enquanto se acomodava na traseira

da bicicleta. Ele chacoalhou um pouquinho no começo, mas depois controlou a

bicicleta e pedalou rua abaixo, dando uma paradinha no final antes de virar à

direita e sumir de vista.

Eu não liguei. Não queria ver nenhum deles mesmo, nunca mais. Nem o papai.

Ou a mamãe. Olhei pro meu relógio. Eram sete horas e agora eu podia ver a mamãe

chegando da rua, com uma caixa de leite na mão. Tomei uma decisão. Esperaria até

que todo mundo estivesse dormindo.

E então fugiria de casa.

 

Esperei até ficar bem escuro, quase onze e meia, antes de sair. A mamãe e o papai

já estavam dormindo quando botei umas roupas na mochila e desci até a cozinha,

onde peguei uns biscoitos e uma garrafa de água pra levar comigo. Eu não sabia

bem pra onde estava indo. Só sabia que não queria mais ficar em casa. De qualquer

jeito, eu tinha completado treze anos e achava que já era tempo de seguir meu

próprio caminho no mundo. David Copperfield tinha bem menos quando seguiu o

dele.

Saí pela porta dos fundos e dei uma olhada na rua pra ver se não tinha ninguém

por ali. Então pus a mochila nos ombros, subi na minha bicicleta e fui na direção da

rua principal.

Até onde eu sabia, nunca mais iria voltar para casa.