Tormento
Sete
Havia oito cadeiras em volta da mesa de jantar, e por ser o meu aniversário eu
estava na cabeceira. Papai estava sentado na outra ponta, assim era mais fácil de
entrar e sair da cozinha sempre que achasse que tinha esquecido alguma coisa. A
vovó e o vovô sentaram num dos lados, deixando um lugar vazio entre eles; era ali
que a mamãe deveria estar sentada. E de frente pra eles estavam o Luke Kennedy, a
mãe dele e o Benjamin Benson, que se encarregava de não deixar a conversa
morrer.
— Meu pai passou a maior parte da guerra na prisão — ele contou pra gente. —
Ele era um objetor de consciência, sabe? Não conseguia admitir todo aquele
conflito. Ele foi um pacifista a vida toda.
— É mesmo? — o vovô perguntou, erguendo uma sobrancelha. Algo me dizia
que ele não tinha muita consideração pelas pessoas que haviam se comportado
daquele jeito, mas nós tínhamos estudado sobre eles na escola e eu não sabia bem o
que pensar a respeito.
— Ele passou metade da vida em caminhadas pela paz — o sr. Benson continuou.
— Viu o sol nascer quadrado de novo nos anos setenta, quando o belicista do Nixon
nos fez uma visita. Foi isso que fez eu me interessar pelo direito, sabe? O jeito como
eles tratavam um homem comum, que não queria fazer mal a ninguém.
— Você está certíssimo — o vovô disse, com sarcasmo. — O panorama aqui seria
muito melhor se a gente agora falasse alemão e tivesse que marchar em volta da
Trafalgar Square.
Já eram sete e quinze e a mamãe estava quinze minutos atrasada, mas ninguém
tocava no assunto.
— Você ganhou presentes legais, Danny? — a sra. Kennedy perguntou.
— Não ganhei nada — eu falei, balançando a cabeça como se nem eu mesmo
pudesse acreditar no que estava dizendo.
— Você não ganhou nada? — Luke perguntou, atônito. — No seu aniversário?
— Ora, isso não é verdade, Danny — papai disse rapidamente. — Sua avó trouxe
um lindo pulôver pra você, não foi?
— Ah, é — eu disse, lembrando do pulôver de tricô que eu tinha guardado no guarda-roupa mais cedo e que nunca, mesmo sob ameaça de morte, iria vestir. — É
isso mesmo, eu tinha esquecido. E o vovô me deu um dinheirinho.
— Dinheiro? — a vovó perguntou, olhando para o vovô e apertando os lábios. —
O que foi que eu te disse?
— Ah, foram só algumas libras pro garoto — o vovô disse, sem dar muita
importância. — Fica quieta, mulher.
— Eu trouxe uma coisa pra você, Danny — a sra. Kennedy disse. — Não é nada
de mais, só um livro. Te dou depois do jantar.
— E eu esqueci de te dar isto — papai disse, estendendo o braço para o aparador
e me entregando um envelope. — Veio na remessa da tarde.
Eu sorri ao reconhecer a letra do remetente. Dentro tinha um cartão de
“Parabéns pela aposentadoria”, e não um de aniversário, o tipo de coisa que o Pete
sempre fazia porque achava que era engraçado. Ele nunca mandava o cartão certo
para a comemoração. Também tinha uma nota de dez libras lá dentro. Li o cartão
bem rápido e senti um alívio, porque até então eu achava que o Pete tinha se
esquecido de mim. Eu tinha me perguntado se ele apareceria pra festa, mas ele
ligou de Amsterdam umas duas noites antes e não deu pra entender nada do que
ele disse. Papai tomou o telefone de mim e disse pra ele não se dar o trabalho de
ligar enquanto não estivesse sóbrio.
— Então por que você disse que não ganhou nada? — Luke perguntou.
— Ele quis dizer que não ganhou nada da mãe dele e de mim — papai explicou.
— No fim de semana a gente vai sair com ele pra comprar um presente bem
especial.
— Mas não é a mesma coisa — Luke falou. — Você tem que ganhar o presente no
dia do aniversário, senão não vale.
— Fique quieto, Luke, e coma o jantar — a sra. Kennedy disse.
— Mas o jantar ainda nem foi servido! — ele disse, espantado, e eu tive que
morder o lábio pra segurar o riso.
— Ele tem toda razão — papai disse, olhando o relógio. — Ela já está vinte e
cinco minutos atrasada.
— Ela vem, Russell — vovó disse.
— Fico feliz que a senhora esteja tão confiante.
— Um de nós devia ter ido com ela — vovó disse. — Pra garantir que ela
estivesse bem.
— Talvez eu deva sair para procurá-la — a sra. Kennedy sugeriu. — Talvez ela
tenha ido dar uma volta.
— Não é uma boa ideia sair andando por aqui muito tarde da noite — Benjamin
Benson disse, passando a mão na barba. — Você pode ser assaltado, morto, ou algo pior.
— Seu pai tem um jeito engraçado de encarar as coisas — o vovô disse pro Luke.
— Ele não é meu pai — Luke respondeu.
— Eu podia dar só uma volta bem rápida pela vizinhança e ver se conseguia…
— Não! — papai disse, batendo a mão na mesa e assustando todo mundo. Por um
momento ninguém disse nada. Só ficamos olhando pra ele. — Ela está meia hora
atrasada agora e estamos todos famintos. Além disso, é aniversário do Danny. Está
na hora de comer, Belinda — ele disse, olhando para a vovó. — Talvez você possa
me ajudar a servir o jantar.
Então ele foi até a cozinha e eu soube que a oitava cadeira do meu jantar de
aniversário ficaria vazia a noite inteira.
Às quinze para as nove, quando já estávamos comendo o bolo, a porta se abriu e,
silenciosamente, como um fantasma, a mamãe entrou.
— O que está acontecendo? — ela perguntou. — Ah, sim, esqueci. Você ia
cozinhar hoje à noite, não ia?
— Por volta das sete — papai falou. — Você disse que já estaria em casa.
— Eu me atrasei. Desculpa, eu…
— Não é o bastante — ele disse, mantendo o tom firme. — Não é mesmo o
bastante. É aniversário do Danny e você disse que iria…
— Russell, eu pedi desculpas — ela retrucou. — Eu me atrasei.
— Você não chegava nunca!
— Ah, Russell, cala a boca, pelo amor de Deus — ela retorquiu, e todo mundo se
assustou, menos o papai, que permaneceu totalmente imóvel antes de se levantar e
ir até onde ela estava.
— Não. Grite. Comigo — ele disse claramente, espaçando as palavras.
— Rachel, querida, por que você não se senta enquanto eu esquento alguma coisa
pra…
— Ela não vai comer — papai disse, voltando-se para encarar a vovó, que ficou
quieta na hora e concordou com a cabeça, reconhecendo quem é que mandava ali.
— Se ela não consegue chegar em casa a tempo do jantar, então ela não janta.
Ouvi a mamãe arfar de espanto, mas não quis olhar pra ela. Ela arfou de novo,
dessa vez quase rindo.
— Se eu não chegar na hora eu não posso comer nada? — ela perguntou,
impressionada. — E eu sou o quê? Uma garotinha de oito anos? Sim, mãe, se a
senhora puder esquentar alguma coisa pra mim, eu adoraria.
— Fique onde está, Belinda — papai disse, se aproximando da mamãe sem dizer nada, apenas a encarando como se não conseguisse mais reconhecê-la. Todo mundo
estava observando a cena, prendendo a respiração. Dessa vez, quando ela falou, sua
voz saiu entrecortada, como se ela soubesse que estava chegando a hora de uma
batalha há muito tempo aguardada, mas que na verdade queria evitar. Só por mais
um ou dois dias. Até ela se sentir um pouco mais forte.
— Me desculpem — ela disse baixinho, os olhos se enchendo de lágrimas.
— Pra mim já deu, Rachel — papai disse. — Pra todos nós.
— Pra você já deu? — ela gritou, recuperando a voz de repente. Me dei conta de
que agora ela era assim. De um momento para o outro, eu nunca sabia o que
esperar. — Pra você já deu? Não é você que tem esse peso na consciência, Russell.
Não foi você que quase matou uma criança. Não é você que precisa viver com isso, é?
— E nem você precisa — ele disse, impassível. — Foi um acidente. O garoto
ainda está vivo. E o Danny também está vivo, caso você não tenha notado. E o Pete.
Como é que ficam os meninos, Rachel? Será que você não pode pensar neles, pelo
menos uma vez?
Eu me virei na cadeira para encará-la, sentindo agora as lágrimas escorrerem. Ela
olhou na minha direção por um momento e balançou a cabeça.
— Só tem um que importa — ela disse, e eu sabia que ela não estava falando de
mim. Em outra ocasião, eu acharia que ela estava se referindo ao Pete, porque ele
era o queridinho dela, mas naquela noite o único garoto que importava pra ela era
o Andy.
Já era bem mais tarde naquela noite, passando das onze. Eu estava levando o lixo
pra fora, para a coleta da manhã, quando ouvi uma voz sussurrando meu nome.
— Danny! — disse a voz. — Danny! Aqui!
Dei uma olhada rápida em volta, tentando identificar de onde vinha o chamado,
e então ela saiu de trás de uma árvore.
— Sarah? — eu disse, indo ao seu encontro. — Você voltou!
— Desculpa — ela me disse. — Eu não sabia se devia aparecer.
— Fiquei feliz por ter vindo.
— Não posso ficar muito tempo — ela disse. — Se descobrirem que eu não estou
em casa, vou ficar encrencada.
Concordei, balançando a cabeça. Eu queria contar pra ela que era meu
aniversário, mas não conseguia achar um jeito de dizer isso. Fiquei imaginando
qual seria a reação dela se soubesse. Me perguntei se ela me daria um beijo.
— Tem uma coisa que eu queria perguntar pra você — ela disse.
— O quê?
— O que você vai fazer na segunda?
— Nada.
— Segunda à tarde eu vou sozinha ao hospital — ela disse. — Minha mãe e meu
pai só vão passar lá à noite. Você quer vir comigo?
Hesitei, sem saber ao certo se queria ou não ver o que a mamãe tinha feito com o
irmão da Sarah. Fiquei olhando pro chão, sabendo que aquela não era uma boa
ideia.
— Por favor, Danny — ela disse. — Eu queria que você o visse.
— Por que você falou que foi culpa sua? — perguntei a ela.
— O quê?
— Naquele dia no parque. Você disse que a culpa era sua, não da minha mãe. O
que você quis dizer?
Agora foi a vez dela de hesitar; ela olhou para o vazio por um momento antes de
me encarar de novo e balançar a cabeça.
— Foi porque… — ela começou, mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa,
a porta lateral se abriu e escutei o papai vindo pra fora.
— Danny? — ele chamou. — Danny, você está aí fora? Por que está demorando?
— Quatro da tarde, na segunda-feira — Sarah cochichou, segurando meu braço.
— Nos encontramos do lado de fora do hospital. Vou te explicar tudo, juro.
E então ela disparou rua abaixo.
— Danny — papai disse, vindo na minha direção. — O que você está fazendo
sozinho aqui fora? Vamos entrar.
Concordei com a cabeça.
— Eu já estava indo — eu disse.