Tormento
Um
John Boyne
Tormento
Tradução:
CARLOS ALBERTO BÁRBARO
UM
Começou na tarde de uma quarta-feira, em julho, poucos dias depois do início
das férias.
Eu tinha passado a tarde jogando bola com o Luke Kennedy. Ele morava com a
mãe e o namorado dela na casa ao lado da nossa. O pai dele não morava mais lá. Ele
tinha se mudado uns dois anos antes, um dia depois do décimo aniversário do
Luke. Para compensar, no fim de semana em que foi embora ele levou o Luke para
ver o Norwich pegar o Arsenal. O Norwich perdeu.
Não tinha ninguém em casa quando entrei, o que era estranho. Eram só quatro e
meia e eu sabia que o papai ainda levaria uma hora pra chegar, mas não era normal
a mamãe estar na rua a essa hora. Fui até a cozinha, abri a geladeira e tomei um
pouco de leite direto da caixa. Eu gostava de ficar sozinho em casa, mas era melhor
quando isso acontecia perto do Natal e eu podia procurar os presentes escondidos.
Não dava pra fazer isso no verão.
Assim, subi as escadas e parei na porta do quarto do Pete. Ele tinha começado a
faculdade em outubro e devia ter voltado no verão para trabalhar com o papai na
loja, mas ligou uns dias antes e disse que em vez disso iria viajar de trem pela
Europa com os amigos.
— Que novidade — papai disse depois de desligar. — Ele promete uma coisa e
depois não cumpre.
— Ele é jovem — mamãe disse. — Não dá pra condenar. — Ela sempre defendia
o Pete, porque ele era o seu queridinho. Todo mundo dizia que ele parecia um galã
de cinema e que levava qualquer um na conversa.
— Não liga — vovó me disse certa vez. — O cérebro da família é você, e além do
mais aparência não é tudo.
Aquilo me deixou todo convencido.
Pete levou a maioria das coisas dele para a faculdade — bem, pelo menos tudo o
que era legal. Quando ele foi pra lá eu torci para ele deixar o som, porque era
melhor que o meu, mas ele não deixou. E levou também quase todos os CDs,
deixando os que não prestavam empilhados atrás da porta. O guarda-roupa ficou
quase vazio. Os cabides pareciam esqueletos.
Na parte de cima do guarda-roupa ele deixou uma caixa cheia de coisas que
ainda queria, mas que não dava pra levar. A caixa estava lacrada com fita-crepe,
mas uma vez, quando não tinha ninguém em casa, eu abri para dar uma espiada
nas revistas que ele guardava lá. No dia seguinte, comprei um rolo de fita-crepe só
pra mim, assim eu poderia abrir a caixa e folhear as revistas quando quisesse.
Depois era só passar mais fita pra ninguém descobrir.
Sentei na cama dele e desejei que ele estivesse ali pra gente conversar. Pete não
era como os outros irmãos mais velhos que eu conhecia, que ainda estavam no
colégio. Esses sempre ignoravam os irmãos mais novos quando encontravam com
eles, mas o Pete nunca fez isso.
Fui pro meu quarto e olhei pela janela. Luke Kennedy estava falando sozinho,
abaixado ao lado da bicicleta, olhando o pneu traseiro pra ver se não estava furado.
Eu não queria que ele me visse, então agachei atrás do parapeito e fiquei espiando
até ele entrar em casa.
Demorou um bom tempo para eu cogitar que algo ruim tivesse acontecido.
— Aí está você — papai me cumprimentou quando chegou. A essa altura eu
estava estirado no sofá, vendo tevê. — Como foi o seu dia?
— Legal. Andei de bicicleta com o Luke. Depois jogamos bola.
— Deviam proibir as bicicletas na rua — ele disse, balançando a cabeça. — São
uma ameaça.
— Talvez eles devessem proibir os carros de andar na rua — eu respondi. — E
obrigar todo mundo a andar de bicicleta. Tem muita poluição por aí, na minha
opinião. — Falei isso porque o noticiário tinha acabado de mostrar uma matéria
sobre poluição.
— Genial, Danny — papai disse, dando umas batidinhas na minha cabeça, como
se eu fosse um cachorrinho. — Isso resolveria o problema. — Eu nem respondi.
Papai sempre achava que estava sendo engraçado quando jogava um sarcasmo. —
Cadê a sua mãe? — ele finalmente perguntou, olhando ao redor. Ele parecia
espantado por ela não estar ali parada com os chinelos dele e uma xícara de chá.
— Ela não estava aqui quando eu cheguei.
— E que horas foi isso?
— Quatro e meia.
— Estranho — ele disse, dando uma espiada no relógio. — E ela não ligou para
avisar que estava saindo?
— Não.
— Nem deixou um bilhete?
— Não vi bilhete nenhum — eu disse, depois de pensar um pouco. — Mas
também não procurei.
Normalmente, quando sabia que ia demorar, a mamãe deixava uma mensagem
no bloquinho ao lado do telefone. Eu tinha me esquecido de olhar ali quando voltei.
Papai foi até o corredor e voltou em seguida, balançando a cabeça.
— Nenhum recado — ele disse. — Alguma coisa deve tê-la atrasado. Você tá com
fome?
Pensei no assunto.
— Morrendo! — respondi.
Lá pelas oito, a mamãe ainda não tinha voltado pra casa e o papai estava
começando a ficar preocupado. Ele ligou para uns amigos, mas eles também não
sabiam dela. Eu tinha certeza de que ele queria ligar para mais gente, mas aquilo já
tinha acontecido antes e dado confusão. No fim a mamãe tinha encontrado uma
conhecida na biblioteca, elas tinham saído pra beber e acabaram demorando mais
do que pretendiam.
— Quer dizer que eu não posso ter vida própria? — ela perguntou quando soube
que ele tinha ligado para um monte de gente. — Ou será que eu tenho que pedir
permissão pra você antes de fazer qualquer coisa?
— Não — papai disse, sorrindo para ela ao responder a primeira pergunta. — E
sim.
Como sempre, ele achava que estava sendo engraçado. Mas depois ela passou uns
dias quase sem falar com ele, e o Pete e eu tivemos que preparar as refeições,
porque o papai alegava que não conseguia nem ferver água sem queimar tudo.
— É melhor você ir pra cama — ele disse lá pelas nove e meia, quando ela ainda
não tinha voltado.
— Mas eu estou de férias. Não tem escola amanhã de manhã.
— Ainda assim, você precisa dormir. Então por favor faça o que estou mandando,
rapazinho.
Normalmente eu teria feito um pouco mais de manha, mas dava pra ver que ele
estava preocupado. Eu também estava começando a me preocupar, e achei que
seria melhor fazer isso sozinho no meu quarto em vez de ali embaixo com ele.
Então fui lá pra cima e pus um CD pra tocar, mas desliguei o aparelho logo em
seguida, porque não queria perder o som da mamãe girando a chave na fechadura
lá embaixo.
Fui até a janela e olhei pra fora. A janela da sra. Kennedy ficava de frente para a
minha e de vez em quando, ao fechar a cortina antes de deitar, eu a via no quarto
dela. Teve uma vez que eu a vi de sutiã e fiquei supervermelho, mesmo estando só
eu no quarto. Ela não percebeu que eu estava ali olhando, mas quando puxei a cortina tive a impressão de vê-la virar a cabeça. Depois disso fiquei meses sem
encarar a sra. Kennedy.
Vesti o pijama e olhei para os meus pés, tentando mexer um dedo de cada vez
sem mover os outros junto, mas não consegui.
Estava lendo David Copperfield, do Charles Dickens, mas quando tentei retomar a
leitura, não consegui me concentrar e repeti a mesma linha um monte de vezes.
Então ouvi o som de um carro descendo a rua, mas não era o som que o carro da
mamãe fazia. O dela era um carrinho popular, que ela chamava de Bertha, o que
sempre me fazia rir. Se bem que, num dia que fiquei zangado, eu disse a ela que era
estúpido dar nome a um carro, e ela disse que eu não devia levar tudo tão a sério,
que era apenas uma piada. Primeiro eu pensei que o carro ia passar direto, mas
depois ouvi ele parar, o motor ser desligado e as portas serem abertas e fechadas.
Abri a porta do meu quarto e segui até o patamar das escadas, de onde dava para
ver o corredor lá embaixo sem que ninguém me visse. A campainha tocou, o papai
apareceu, caminhou ligeiro até a porta e abriu. Mamãe estava parada do lado de
fora, sem olhar pra ele, mas também sem olhar pro chão. Parecia que ela estava
encarando um ponto fixo na parede atrás do papai e que ia continuar olhando
naquela direção para sempre.
Ela estava cercada por dois policiais. Mas aí um deles tirou o capacete e um
montão de cabelo loiro se espalhou pelos seus ombros, e então eu percebi que era
uma policial. Todos pareciam muito sérios.
Não era preciso ser um gênio para perceber que alguma coisa ruim tinha
acontecido.