Torto Arado
Fio de corte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
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Ao meu pai
A terra, o trigo, o pão, a mesa, a família (a terra); existe neste ciclo, dizia o pai nos seus sermões, amor, trabalho, tempo.
Raduan Nassar
Fio de corte
1
Quando retirei a faca da mala de roupas, embrulhada em um pedaço de tecido antigo e encardido, com nódoas escuras e um nó no meio, tinha pouco mais de sete anos. Minha irmã, Belonísia, que estava comigo, era mais nova um ano. Pouco antes daquele evento estávamos no terreiro da casa antiga, brincando com bonecas feitas de espigas de milho colhidas na semana anterior. Aproveitávamos as palhas que já amarelavam para vestir
feito roupas nos sabugos. Falávamos que as bonecas eram nossas filhas, filhas de Bibiana e Belonísia. Ao percebermos nossa avó se afastar da casa pela lateral do terreiro, nos olhamos em sinal de que o terreno estava livre, para em seguida dizer que era a hora de descobrir o que Donana escondia na mala de couro, em meio às roupas surradas com cheiro de gordura rançosa. Donana notava que crescíamos e, curiosas, invadíamos seu quarto para perguntar sobre as conversas que escutávamos e sobre as coisas de que nada sabíamos, como os objetos no interior de sua mala. A todo instante éramos repreendidas por nosso pai ou nossa mãe. Minha avó, em particular, só precisava nos olhar com firmeza para sentirmos a pele arrepiar e arder, como se tivéssemos nos aproximado de uma fogueira.
Por isso, ao vê-la se afastar em direção ao quintal, olhei para Belonísia.
Decidida a revirar suas coisas, não hesitei em caminhar, na ponta dos pés, em direção ao quarto, para abrir a mala de couro envelhecida, com manchas e uma grossa camada de terra acumulada sobre ela. A mala, durante toda a nossa existência até então, estava debaixo da cama. Eu mesma fui para o quintal espiar pela porta e ver vó Donana se arrastando em direção à mata, que ficava depois do pomar e da horta, depois do galinheiro com seus poleiros velhos. Naquele tempo, costumávamos ver nossa avó falar sozinha, pedir coisas estranhas como que alguém — que não víamos — se afastasse de Carmelita, a tia que não havíamos conhecido. Pedia que o mesmo fantasma que habitava suas lembranças se afastasse das meninas. Era uma profusão de falas desconexas. Falava sobre pessoas que não víamos — os espíritos — ou de pessoas sobre as quais quase nunca ouvíamos, parentes e comadres distantes. Nos habituamos a ouvir Donana falar pela casa, falar na porta da rua, no caminho para a roça, falar no quintal, como se conversasse com as galinhas ou com as árvores secas. Eu e Belonísia nos olhávamos, ríamos sem alarde, e nos aproximávamos sem que percebesse. Fingíamos brincar com algo por perto só para escutar e, depois, com as bonecas, com os bichos e as plantas, repetirmos o que Donana havia dito como coisa séria. Repetíamos o que minha mãe dizia baixo para o pai na cozinha. “Hoje ela está falando muito, a cada dia fala mais sozinha.” O pai relutava em admitir que minha avó estivesse com sinais de demência, dizia que a vida
toda a mãe havia falado consigo mesma, a vida toda havia repetido rezas e encantos com a mesma distração com que revirava os pensamentos.
Naquele dia, escutamos a voz de Donana se afastar no espaço do quintal, em meio ao cacarejo e aos cantos das aves. Era como se as rezas e sentenças que proferia, e que muitas vezes não faziam sentido para nós, estivessem sendo carregadas para longe, carregadas pelo sopro de nossas respirações ansiosas pela transgressão que estávamos prestes a cometer.
Belonísia se enfiou debaixo da cama e puxou a mala. O couro de caititu que cobria as imperfeições do chão de terra se encolheu sob seu corpo. Abri a mala sozinha, sob nossos olhos luminosos. Levantei algumas peças de roupa antigas, surradas, e de outras que ainda guardavam as cores vivas que a luz do dia seco irradiava, luz que nunca soube descrever de forma exata. E
no meio das roupas mal dobradas e arrumadas havia um tecido sujo envolto no objeto que nos chamou a atenção, como se fosse a joia preciosa que nossa avó guardava com todo seu segredo. Fui eu quem desatou o nó, atenta à voz de Donana que ainda estava distante. Vi os olhos de Belonísia cintilarem com o brilho do que descobríamos como se fosse um presente novo, forjado de um metal recém-tirado da terra. Levantei a faca, que não era grande nem pequena diante dos nossos olhos, e minha irmã pediu para pegar. Não deixei, eu veria primeiro. Cheirei e não tinha o odor rançoso dos guardados de minha avó, não tinha manchas nem arranhões. Minha reação naquele pequeno intervalo de tempo era explorar ao máximo o segredo e não deixar passar a oportunidade de descobrir a serventia da coisa que resplandecia em minhas mãos. Vi parte de meu rosto refletido como num espelho, assim como vi o rosto de minha irmã, mais distante. Belonísia tentou tirar a faca de minha mão e eu recuei. “Me deixa pegar, Bibiana.”
“Espere.” Foi quando coloquei o metal na boca, tamanha era a vontade de sentir seu gosto, e, quase ao mesmo tempo, a faca foi retirada de forma violenta. Meus olhos ficaram perplexos, vidrados nos olhos de Belonísia, que agora também levava o metal à boca. Junto com o sabor de metal que ficou em meu paladar se juntou o gosto do sangue quente, que escorria pelo canto de minha boca semiaberta, e passou a gotejar de meu queixo. O
sangue se pôs a embotar de novo o tecido encardido e de nódoas escuras que recobria a faca.
Belonísia também retirou a faca da boca, mas levou a mão até ela como se quisesse segurar algo. Seus lábios ficaram tingidos de vermelho, não sabia se tinha sido a emoção de sentir a prata, ou se, assim como eu, tinha se ferido, porque dela também escorria sangue. Tentei engolir o que podia, minha irmã também esfregava rápido a mão na boca com os olhos marejados e apertados, tentando afastar a dor. Ouvi os passos lentos de minha avó chamando Bibiana, chamando Zezé, Domingas, Belonísia.
“Bibiana, não está vendo as batatas queimando?” Havia um cheiro de batata queimada, mas tinha também o cheiro do metal, o cheiro do sangue que ensopava minha roupa e a de Belonísia.
Quando Donana levantou a cortina que separava o cômodo em que dormia da cozinha, eu já havia retirado a faca do chão e embrulhado de qualquer jeito no tecido empapado, mas não havia conseguido empurrar de volta a mala de couro para debaixo da cama. Vi o olhar assombrado de minha avó, que desabou sua mão grossa na minha cabeça e na de Belonísia.
Ouvi Donana perguntar o que estávamos fazendo ali, porque sua mala estava fora do lugar e que sangue era aquele. “Falem”, disse, nos ameaçando arrancar a língua, que estava, mal ela sabia, em uma das nossas mãos.
2
Nossos pais retornaram da roça e encontraram minha avó desorientada, com nossas cabeças mergulhadas numa tina de água, gritando: “Ela perdeu a língua, ela cortou a língua”. Repetia tanto que, certamente, naqueles primeiros momentos, Zeca Chapéu Grande e Salustiana Nicolau acharam que as duas filhas haviam se mutilado num ritual misterioso que, nas suas crenças, precisaria de muita imaginação para explicar. A tina era uma poça
vermelha e nós duas chorávamos. Quanto mais chorávamos abraçadas, querendo pedir desculpas, mais ficava difícil saber quem tinha perdido a língua, quem teria que ir para o hospital a léguas de Água Negra. O gerente da fazenda chegou numa Ford Rural branca e verde para nos conduzir ao hospital. Essa Rural, como chamávamos, servia aos proprietários quando estavam na fazenda, servia a Sutério para os trabalhos como gerente, se deslocando entre a cidade e Água Negra, ou percorrendo as distâncias na própria fazenda, quando não queria fazer a cavalo.
Minha mãe se muniu de colchas e toalhas que recobriam as camas e a mesa, para tentar estancar o sangue. Ela gritava para meu pai, que colhia com as mãos trêmulas ervas nos canteiros próximos à casa, impaciente, transmitindo seu desespero na voz, que se tornou mais aguda, além do olhar espantado. As ervas eram para ser usadas no caminho até o hospital, em rezas e encantos. Os olhos de Belonísia estavam vermelhos de tanto choro, os meus eu não conseguia sequer sentir, e minha mãe perguntava perplexa o que havia acontecido, com o que brincávamos, mas nossas respostas eram longos gemidos difíceis de interpretar. Meu pai segurava a língua envolta numa de suas poucas camisas. Mesmo naquelas horas, meu medo era que o órgão em arrebatamento se dispusesse a falar sozinho no colo dele sobre o que havíamos feito. Que falasse sobre nossa curiosidade, nossa teimosia, nossa transgressão, nossa falta de zelo e respeito por Donana e por suas coisas. Mais ainda, sobre a nossa irresponsabilidade de colocar uma faca na boca, sabendo que facas sangram caças, sangram as crias do quintal e matam homens.
Meu pai recobriu a pequena trouxa com as folhas que havia colhido antes de sair. Da janela do carro vi meus irmãos ao redor de Donana, dona Tonha a amparando pelo braço e a levando de volta para casa. Anos depois viria a sentir remorso por esse dia, por ter deixado minha avó desnorteada, aos prantos, se sentindo incapaz de cuidar de qualquer pessoa. Durante a viagem, ouvimos a angústia de minha mãe transmitida nos sussurros de suas preces e por suas mãos calosas e sempre quentes, mas que agora pareciam saídas de uma bacia de água que dormiu ao relento no sereno da noite.
No hospital, demoramos a ser atendidas. Nossos pais estavam encolhidos em um canto ao nosso lado. Vi as calças sujas de terra que ele não teve tempo de trocar. Minha mãe tinha um lenço colorido amarrado na cabeça. Era o mesmo lenço que usava embaixo do chapéu que levava para se proteger do sol na roça. Ela limpava nossos rostos com peças da trouxa de roupa, a cada momento com um novo tecido com cheiro de guardado, e que não conseguia identificar. Meu pai ainda segurava a língua envolta na mesma camisa. As folhas estavam guardadas nos bolsos de sua calça, talvez por vergonha de o apontarem com desdém como feiticeiro dentro daquele lugar que ele não conhecia. Foi o primeiro lugar em que vi mais gente branca que preta. E vi como as pessoas nos olhavam com curiosidade, mas sem se aproximar.
Quando o médico nos levou para a sala e meu pai lhe mostrou a língua como uma flor murcha entre as mãos, vi sua cabeça balançar num sinal de negação. Vi também o suspiro que deu ao abrir nossas bocas quase ao mesmo tempo. Ela terá que ficar aqui. Terá problemas na fala, para deglutir.
Não tem como reimplantar. Hoje sei que se diz assim, mas à época nem passava por minha cabeça o que tudo aquilo significava, e muito menos na cabeça de meu pai e de minha mãe. Belonísia nesse instante nem sequer me olhava, mas ainda continuávamos unidas.
Nossas feridas foram suturadas, e permanecemos juntas por mais dois dias. Saímos com um carregamento de antibióticos e analgésicos nas mãos.
Teríamos que voltar dali a duas semanas para retirar os pontos. Teríamos que comer mingaus e purês, alimentos pastosos. Minha mãe deixaria o trabalho na roça nas semanas que se seguiriam para se dedicar integralmente aos nossos cuidados. Somente uma das filhas teria a fala e a deglutição prejudicadas. Mas o silêncio passaria a ser nosso mais proeminente estado a partir desse evento.
Nunca havíamos saído da fazenda. Nunca tínhamos visto uma estrada larga com carros passando para os dois lados, seguindo para os mais distantes lugares da Terra. Foi o que Sutério disse. No caminho de ida, estávamos tomados de aflição, pelo cheiro de sangue coagulando, pelas preces de meu pai e de minha mãe, atônitos. O gerente da fazenda apenas
ria dizendo que crianças são iguais a gatos, que cegam, uma hora estão num lugar outra hora estão em outro, quase sempre aprontando algo para dar dor de cabeça aos pais. Que ele tinha filhos e sabia. Na volta estávamos bastante doloridas, uma mais que a outra, esgotadas da mesma forma, apesar da extensão das lesões ter sido distinta. Uma havia amputado a língua, a outra tinha tido um corte profundo, mas estava longe de perdê-la.
Nunca havíamos andado na Ford Rural da fazenda ou em qualquer outro automóvel. E como era diferente o mundo além de Água Negra! Como era diferente a cidade com suas casas grudadas umas às outras, dividindo paredes. As ruas calçadas com pedras. O chão das nossas casas e dos caminhos da fazenda era de terra. De barro, apenas, que também servia para fazer a comida de nossas bonecas de sabugo, e de onde brotava quase tudo que comíamos. Onde enterrávamos os restos do parto e o umbigo dos nascidos. Onde enterrávamos os restos de nossos corpos. Para onde todos desceriam algum dia. Ninguém escaparia. Só pudemos observar tudo aquilo durante o retorno, em lados opostos do veículo, com nossa mãe no meio, absorta em pensamentos que nosso alarido havia precipitado em seu íntimo.
Ao chegarmos a casa, só estavam Zezé e Domingas, pequenos, acompanhados de dona Tonha. Vi meu pai perguntar por Donana enquanto minha mãe nos segurava pelas mãos diante da porta. Desceu faz umas duas horas para o rumo do rio, foi o que dona Tonha respondeu. Sozinha?, quiseram saber. Sim, saiu levando um embrulho.
3
Salu disse que eu era a filha mais velha, a primeira de quatro filhos vivos e de outros tantos que nasceram mortos. Belonísia veio pouco tempo depois, enquanto minha mãe ainda me amamentava, contrariando a crença de que quem amamenta não engravida. Entre nós duas, diferente dos intervalos entre os outros filhos, não houve natimortos. Dois anos depois que
nasceram dois filhos mortos veio Zezé e, por último, Domingas. Entre eles, mais duas crianças que não vingaram. Minha avó, Donana, foi quem ajudou minha mãe nos partos. Era nossa avó, mas também mãe de pegação. Esse era o título que dizia qual era o seu lugar em nossas vidas: avó e mãe.
Quando deixamos o ventre de Salustiana Nicolau — os vivos, os que morreram tempos depois e os natimortos — encontramos primeiro as mãos pequenas de Donana. Foi o primeiro espaço no mundo fora do corpo de Salu que ocupamos. Suas mãos côncavas que muitas vezes vi se encherem de terra, de milho debulhado e feijão catado. Eram mãos pequenas, de unhas aparadas, como deveria ser a mão de uma parteira, dona Tonha dizia.
Pequenas, capazes de entrar no ventre de uma mulher para virar com destreza uma criança atravessada, mal encaixada, crianças com os movimentos errados para nascer. Ela faria os partos das trabalhadoras da fazenda até poucos dias antes de sua morte.
Quando nascemos, nossos pais já eram trabalhadores da Fazenda Água Negra. Meu pai havia ido buscar Donana semanas antes do meu nascimento. Cresci ouvindo minha avó se queixar da distância da fazenda onde havia passado sua vida, nota evidente de uma saudade que não admitia sentir. Não exigia seu retorno, compreendia seu papel ao lado do filho, mas não deixava de externar seu lamento. Quando meu pai apareceu na fazenda onde havia nascido, para buscá-la, Donana já se encontrava sozinha na casa velha onde viveu quase todo o seu tempo. Seus outros filhos haviam partido em busca de trabalho, cada um na sua vez. A primeira a deixar a casa depois de meu pai havia sido Carmelita, que partiu sem indicar o rumo que tomaria, logo após a mãe ficar viúva pela terceira vez. Mas a própria Donana, em seu íntimo, quis que a filha seguisse seu destino.
Àquela altura, a terra da Fazenda Caxangá, que havia rendido fartura de frutos por toda a sua vida, estava retalhada. Cada homem com desejo de poder havia avançado sobre um pedaço e os moradores antigos foram sendo expulsos. Outros trabalhadores que não tinham tanto tempo na terra estavam sendo dispensados. Os homens investidos de poderes, muitas vezes acompanhados de outros homens em bandos armados, surgiam da noite para o dia com um documento de que ninguém sabia a origem. Diziam que
haviam comprado pedaços da Caxangá. Alguns eram confirmados pelos capatazes, outros não. Meu pai, depois de chegar a Água Negra, retornou algumas vezes ao lugar onde havia nascido. Essas histórias nos foram contadas por Salustiana, enquanto crescíamos. Só preservaram Donana por lá por conta da idade avançada, por já terem de alguma forma se afeiçoado à sua presença. E também porque corriam de casa em casa, de boca em boca, os poderes da velha feiticeira, das viuvezes, provas do seu fardo, e do filho que enlouqueceu e foi viver no mato com uma onça por semanas.
Eu e Belonísia éramos as mais próximas e, talvez por isso, as que mais se desentendiam. Tínhamos quase a mesma idade. Andávamos juntas pelo terreiro da casa, colhendo flores e barro, catando pedras de diversos formatos para construir nosso fogão, galhos para fazer nosso jirau e nossos instrumentos de trabalho para arar nossas roças de brinquedo, para repetir os gestos que nossos pais e nossos ancestrais nos haviam legado.
Disputávamos espaços, disputávamos sobre o que plantar, sobre o que cozinhar. Disputávamos os calçados feitos das folhas verdes e largas que encontrávamos na mata que circundava as nossas casas. Montávamos bastões de madeira que fazíamos de nossos cavalos, recolhíamos sobras de lenha para fazer nossos móveis. Quando as disputas se tornavam brigas e gritos, nossa mãe intervinha, pouco paciente, e nos levava de volta para casa nos retirando a liberdade de sair até que nos comportássemos.
Prometíamos que não brigaríamos mais, até que saíamos para o quintal ou para o terreiro e recomeçávamos a brincadeira, para pouco tempo depois retornar à rixa, às vezes com direito a arranhões e puxões de cabelo.
Nos primeiros meses após perder a língua fomos tomadas de um sentimento de união que estava embotado com aquele passado de brigas e disputas infantis. No início se instalou uma grande tristeza em nossa casa.
Os vizinhos e compadres vinham nos visitar, fazer votos de melhoras.
Minha mãe se revezava com as vizinhas, que olhavam os filhos menores enquanto ela cozinhava papas, mingau de cachorro para ajudar na cicatrização, purês de inhame, batata-doce ou aipim. Nosso pai seguia para a roça ao nascer do dia. Rumava com seus instrumentos depois de passar a mão nas nossas cabeças com suas preces sussurradas aos encantados.
Quando retomamos as brincadeiras, havíamos esquecido as disputas, agora uma teria que falar pela outra. Uma seria a voz da outra. Deveria se aprimorar a sensibilidade que cercaria aquela convivência a partir de então.
Ter a capacidade de ler com mais atenção os olhos e os gestos da irmã.
Seríamos as iguais. A que emprestaria a voz teria que percorrer com a visão os sinais do corpo da que emudeceu. A que emudeceu teria que ter a capacidade de transmitir com gestos largos e também vibrações mínimas as expressões que gostaria de comunicar.
Para que essa simbiose ocorresse e produzisse um efeito duradouro, as disputas ficaram, naturalmente e por um tempo, de lado. Ocupávamos o tempo com as apreensões do corpo da outra. No começo foi difícil, muito difícil. Era necessário que se repetissem palavras, que se levantassem objetos, que se apontasse para as coisas que nos cercavam, tentando apreender a expressão desejada. Com o passar dos anos, esse gesto se tornou uma extensão das nossas expressões, até quase nos tornarmos uma a outra, sem perder a nossa essência. Às vezes nos aborrecíamos com algo, mas logo a necessidade de comunicar o que uma irmã precisava, a mesma necessidade de comunicar à outra irmã o que precisava ser expressado, fazia com que esquecêssemos a causa de nossas queixas.
Foi assim que me tornei parte de Belonísia, da mesma forma que ela se tornou parte de mim. Foi assim que crescemos, aprendemos a roçar, observamos as rezas de nossos pais, cuidamos dos irmãos mais novos. Foi assim que vimos os anos passarem e nos sentimos quase siamesas ao dividir o mesmo órgão para produzir os sons que manifestavam o que precisávamos ser.
4
Donana retornou com a barra da saia molhada. Disse que tinha ido à beira do rio deixar o mal por lá. Entendi por “mal” a faca com cabo de marfim e,
mesmo distante, senti seu brilho ofuscar minhas lembranças. Deveria estar no “embrulho” que dona Tonha disse que ela havia levado. Parecia abatida, pálida, com as pálpebras caídas e inchadas. Se aproximou de nós para nos afagar com a mesma mão que desabou sobre nossas cabeças. Senti suas mãos nodosas percorrendo nossos rostos, para logo depois entrar no quarto sem dizer mais nada. Dali não sairia até o dia seguinte.
Meu pai se dirigiu ao quarto dos santos e acendeu uma vela. Nossa mãe nos levou para o seu quarto de dormir e pediu que ficássemos quietas na cama. Amarrou a cortina que separava a porta da sala para que pudesse nos observar de onde estivesse. Parecia ter medo que aprontássemos algo de novo. Disse que iria lavar a trouxa de roupa, empapada de sangue, que levou na viagem para o hospital. Do quarto, ouvi dona Tonha pedir as roupas para ela mesma lavar. Minha mãe era uma mulher alta — mais alta que nosso pai —, com um corpo forte e mãos grandes. Tinha uma distinção admirada pelos que a cercavam, o que a fazia também querida pelos vizinhos. Mas naquele dia parecia ter perdido aquela aura nobre, estava com os ombros curvados, demonstrava exaustão.
Senti Belonísia estender sua mão até a minha e a segurar com força.
Estávamos impedidas de falar, então fomos aprendendo de forma instintiva que os gestos comunicariam o que não poderia ser dito. Adormecemos assim naquele primeiro dia.
Donana jamais se recuperou do ocorrido. Mal saía de casa para o quintal ou terreiro. Costumava sentar na beira da cama, arrumava e desarrumava sua velha mala de couro. Retirava os objetos, roupas, frasco de perfume vazio, um pequeno espelho, uma escova de cabelo velha, um missal, papéis que pareciam ser documentos. Lamentava não ter nenhum retrato dos filhos. Não se incomodava mais com a nossa presença ao seu lado, mesmo nesse momento de intimidade, de arrumar e desarrumar seus objetos. Fazia aquilo para preencher o tempo. Havia muito que não ia mais para a roça, estava reduzida a remexer no que se plantava no quintal. E até mesmo este, que era dos seus poucos prazeres no fim da vida, foi deixando de lado.
Havia perdido o interesse pelas plantas de que cuidava, pelos xaropes de raiz que costumava receitar aos vizinhos e à própria família. Minha mãe
assumiu essas poucas tarefas que Donana considerava suas. Ainda tentou estimular a sogra, chamando para o quintal para ver como tal planta estava vistosa, se o umbuzeiro estivesse florido, ou se alguma praga tivesse surgido em meio ao caos de nossa horta. Minha avó apenas olhava, sem interesse, resmungava e voltava para o quarto, se ocupando de retirar e colocar os objetos em sua velha mala, como se aguardasse a qualquer momento um convite para uma viagem de volta à fazenda onde havia nascido, o único lugar que parecia lhe interessar na vida.
Nos meses que se seguiram, durante o tempo em que nos recuperávamos, enquanto uma aprendia a expressar o desejo da outra, e a outra se fazia legível na expressão dos desejos, apenas algo retirou Donana do mundo de suas lembranças e do arrumar e desarrumar cotidiano daquela mala: um cão que Belonísia encontrou com a pata quebrada na estrada para a roça. Ele abanava o rabo como as folhas da palmeira e andava em pequenos pulos sobre três pernas, sendo que uma das patas dianteiras tinha algum osso quebrado, o que fazia com que a balançasse no ar enquanto se esforçava de forma comovente para caminhar. Algo no animal havia rompido o mutismo de todos nos últimos meses e víamos Donana chamar qualquer um da casa para relatar algum movimento diferente do cão. Por um período ela se esqueceu da mala e passou mais tempo na janela para observar Fusco, nome que ela mesma escolheu, e que parecia ser a única companhia que lhe importava.
Logo passou a pedir que dormíssemos em seu pequeno quarto para não deixá-la só. Seguíamos. Donana contava histórias que não tinham fim.
Antes de terminá-las, adormecia. Por saber que aquelas histórias não acabariam, às vezes eu dormia antes dela. Escutava-a levantar de madrugada para abrir a porta do quintal ainda no sereno para conversar com Fusco, quase em sussurros. Ainda assim era possível ouvir o som de sua voz. Em toda nossa vida, Donana nunca tinha nos batido como naquele dia em que contrariamos o que considerava sagrado, violando seu passado, trazendo de volta coisas que decerto não gostaria de recordar. Nem queria que nossas mãos inocentes segurassem o motivo de suas dores, ao mesmo tempo que não gostaria de ter que se desfazer de suas lembranças por
completo, porque a mantinham viva. Davam sentido ao que lhe sobrara dos dias, na mesma medida em que demonstravam que não havia sido compassiva com as dificuldades que encontrou em seu caminho.
Numa manhã, Donana acordou me chamando de Carmelita, dizendo que iria dar um jeito em tudo, que eu não me preocupasse, que não precisaria mais viajar. Àquela época eu tinha doze anos e Belonísia se aproximava dos onze. Vi Donana nas manhãs seguintes chamar Belonísia de Carmelita também. Minha irmã apenas ria da confusão. Olhávamos uma para a outra e nos deixávamos caçoar pela desordem que se instaurou nos falares de Donana. Em seus pensamentos, Fusco havia se tornado uma onça, pedia para que tivéssemos cuidado. Nos convidava a caminhar pelas veredas por onde iríamos buscar meu pai que, haviam dito, estava dormindo aos pés de um jatobá ao lado da onça mansa que o cão havia se tornado. Sabíamos que nosso pai estava na roça, trabalhando todos os dias, então as coisas que minha avó falava não faziam sentido. Mesmo assim, minha mãe pedia que a acompanhássemos, que vigiássemos para que não lhe sucedesse nenhum acidente ou se perdesse em meio à mata. “Não deixem sua avó se embrenhar nas ribanceiras. Cuidado com a cobra. Não riam de sua avó.”
Caminhávamos colhendo os frutos que já estavam doces, enquanto adentrávamos o mês de dezembro. Nos esquecíamos de Donana, às vezes nos perdíamos, ficávamos quietas, e logo uma ordem vinha do meio da mata, chamando Carmelita e os meninos para buscar Zeca, e então corríamos ao seu encontro.
Quando meu pai chegava a casa e os netos diziam que Zeca estava ali diante de seus olhos, minha avó dizia não ser verdade, que dele só queria o chapéu que levaria com ela.
Numa tarde de fevereiro, no meio da modorra que o calor nos fazia, Donana saiu sem que percebêssemos. Quando minha mãe, que lavrava um pedaço de terra mais perto de casa, entrou para tomar um copo d’água, percebeu que a sogra não estava ali. Pediu que eu fosse atrás dela. Procurei Belonísia para me acompanhar, mas não a encontrei. Desci pelo caminho que minha avó costumava fazer buscando por meu pai, acompanhada dos
“meninos”. Tinha um pé de buriti grande por onde andei, o chão estava
coberto de frutos. Antes de seguir na busca por Donana, que deveria estar no lugar de sempre, juntei os que conseguia carregar e levei na barra de meu próprio vestido transformado em cesto. Eram frutos rígidos, cor de cobre, nem pareciam se desmanchar numa polpa suculenta, untando os corpos das mulheres que iam vender sua massa na cidade. A venda nos garantia comprar as coisas de que precisávamos quando a roça não resistia à seca ou à enchente do rio. Foi assim que cheguei à beira do rio Utinga, no raso que era passagem permanente para o brejo no caminho das roças, e encontrei Donana emborcada como um bicho na beira e dentro d’água. Seus cabelos brancos pareciam uma esponja luminosa que refletia a luz do sol no espelho que se formava. Reconheci porque era o vestido surrado de minha avó, um vestido que, de tão velho, talvez fosse o mesmo com que ela chegou numa boleia de caminhão, acompanhada de meu pai, pouco antes que eu nascesse. Assombrada com aquela visão, talvez a primeira de minha vida, deixei os frutos caírem e rolarem para o leito de água. Sacudi minha avó — poderá acordar? —, virei seu corpo pequeno e frágil, puxei sem conseguir, não tinha força para retirá-la da água.
Corri para casa para buscar ajuda, sufocada pelo que havia visto.
Encontrei Belonísia agachada no mesmo pé de buriti de onde eu havia colhido os frutos. Ela juntava os que não pude carregar no caminho para o rio, quando viu o pavor em meu rosto. Uma de nós levaria a notícia para casa.
5
Ninguém desfez a mala que Donana havia passado a arrumar diariamente nos últimos meses de sua vida. Já conhecíamos cada peça de roupa, cada objeto, de tanto observá-la retirando e pondo tudo de novo na canastra, num ritual que se tornou permanente. Minha mãe sugeriu que algum passante e sua família, em busca de trabalho e necessitado de roupas, recebesse a mala
por inteiro de dádiva. Mas meu pai não teve coragem de dar as coisas que pertenciam a Donana, e minha mãe não tocou mais no assunto. Ninguém também falava na faca de cabo de marfim, nem sabíamos do seu paradeiro, nem o porquê de tanto mistério em volta da sua existência. Até a morte de Donana, não sabia por que a lâmina estava enrolada naquele tecido com nódoas de sangue, nem mesmo por que um objeto bonito, com um cabo branco perolado, que meu pai, com a sabedoria de suas andanças, julgava ser marfim, não havia sido vendido diante da escassez em que vivíamos.
Meu pai passaria longo tempo em luto. As festividades que conduzia para os encantados em nossa casa foram suspensas. Continuou atendendo aos que chegavam carregando aflições, querendo um alento, uma reza, um remédio de raiz para curar seus males. Zeca Chapéu Grande guardava luto fechado nos gestos, porque não era hábito vestir preto na servidão de nossas vidas; tinha os olhos marejados, falava muito pouco naqueles dias. Só não deixou de caminhar para a roça, como sempre fazia.
Algumas semanas depois do enterro, vi minha mãe empalidecer à porta de casa com a visão que tinha da estrada. Cheguei ao umbral e me postei ao seu lado. Belonísia e Domingas corriam no terreiro com Fusco, o cão perneta, que havia voltado a ser apenas cão em nossas brincadeiras. Vi minha mãe exclamar uma misericórdia. Belonísia, Domingas e Fusco também pararam para olhar para a estrada, alertados pelos urros que escutávamos. Um homem trazia uma mulher amarrada por corda, os dois acompanhados por outra mulher. Ainda estavam distantes, mas era possível ver o grande esforço que faziam para avançar pelo chão de terra. A mulher gritava os clamores mais ameaçadores e incômodos que eu já tinha ouvido.
“E não é Crispiniana quem vem ali? Ou é Crispina?”, perguntou minha mãe, se referindo às gêmeas, filhas de Saturnino, nossos vizinhos em Água Negra. Ele vinha à frente da filha amarrada com corda, enlouquecida, gritando coisas que ecoavam por céu e terra e não conseguíamos compreender. Uma das duas, ou Crispina ou Crispiniana, vinha atrás, auxiliando o pai na jornada, segurando a irmã, certamente se machucando com os golpes do corpo selvagem da transtornada que estava envolta em um laço, como um animal, com uma volta e nós nos braços, outra volta
amarrando os punhos. Os pés descalços, o cabelo armado no alto da cabeça, sem o lenço que costumava usar.
Salustiana perguntou por Zezé — “está com o pai”, respondeu Domingas —, “então vá você”, disse, “vá você e Belonísia chamar seu pai.
Diga que compadre Saturnino chegou com as filhas, é coisa para ele”. Vi minhas irmãs se afastarem em direção à roça, enquanto me aproximei mais do corpo forte de minha mãe. Ela suava como o sereno da madrugada. Dali, víamos os olhos vermelhos, o rosto contorcido, a enorme quantidade de saliva como espuma que saía da boca da mulher. Toda aquela cena me deixava com um misto de curiosidade e medo. Com a família cada vez mais perto, minha mãe perguntou o que havia acontecido, qual das duas moças estava amarrada. O compadre parecia cansado, esgotado de levar a filha do rio Santo Antônio ao rio Utinga, e respondeu, tirando o chapéu em reverência: “É Crispina”.
“Ah, então vocês encontraram?”, ouvi minha mãe perguntar com a voz trêmula.
“Estava no cemitério da cidade, deitada, escondida”, disse Saturnino entrando no terreiro da nossa casa.
De fato, havia uma semana o pai, irmãos, dentre eles Crispiniana, estavam à procura de Crispina. A família havia sido acolhida na fazenda fazia muitos anos. Saturnino, Damião e meu pai foram os pioneiros a chegar para trabalhar em Água Negra. Crispina e Crispiniana eram as únicas gêmeas do povoado e as primeiras que me lembro de ter tido contato. Era algo misterioso olhar para as duas mulheres jovens, recém-saídas da adolescência. Espelho não era coisa comum por ali. Havia o pedaço de espelho de Donana, que podíamos admirar vez ou outra, enquanto desarrumava e arrumava sua mala naquela rotina instituída na sua caduquice. Mas espelho mesmo, acessível para nos observarmos, era apenas o espelho d’água dos rios com seu líquido escuro e ferruginoso, onde nos víamos negras num espelho também negro, talvez criado exatamente para nos descobrirmos. Do espelho cintilante da faca de cabo de marfim também não esquecia, afinal, nele havia vislumbrado nossos rostos para num átimo ver a lâmina inflexível fazer cair uma língua com os sons que poderiam ser
produzidos por ela. Crispina e Crispiniana caminhavam juntas, lado a lado, como um duplo da outra. Como um espelho com profundidade, comprimento e altura, mas sem as bordas quebradas como o que pertenceu a Donana, ou as margens de areia e mata que emolduravam nossa imagem nas águas do rio.
Ao se aproximarem da porta de nossa casa, Crispina tombou no chão.
Estava suja, tinha um cheiro ruim de suor, urina e flores mortas. Vi o horror se instaurar nos olhos de minha mãe. Não era a primeira, nem segunda, nem terceira vez que chegava alguém desvairado. E certamente não seria a última que se internaria em nossa casa, como diziam que faziam num hospital da capital para os que enlouqueciam. Não eram hóspedes, visitas ou convidados. Eram pessoas desconectadas de seu eu, desconhecidas de parentes e de si. Eram pessoas com encosto ruim, conhecidos e também desconhecidos de todos. Eram famílias que depositavam suas esperanças nos poderes de Zeca Chapéu Grande, curador de jarê, que vivia para restituir a saúde do corpo e do espírito aos que necessitavam. Desde cedo, havíamos precisado conviver com essa face mágica de nosso pai. Era um pai igual aos outros pais que conhecíamos, mas que tinha sua paternidade ampliada aos aflitos, doentes, necessitados de remédios que não havia nos hospitais, e da sabedoria que não havia nos médicos ausentes daquela terra.
Ao mesmo tempo que me orgulhava da deferência que lhe dedicavam, sofria por ter que dividir a casa com visitas nada discretas, gritando suas dores, seus desconhecimentos, impregnando-a do cheiro de velas e incensos, das cores das garrafas de remédios de raízes, das pessoas boas ou ruins, humildes ou inconvenientes, que se instalavam por semanas no nosso pequeno lar. Minha mãe era a que mais sofria, porque precisava permanecer em casa, atenta aos horários dos remédios, acompanhando os parentes que também se acomodavam com o doente — era uma condição para a
“internação” — no intuito de auxiliar nos cuidados aos perturbados.
A ordem delicada da vida havia sido rompida, o que se refletia no desequilíbrio de todos, inclusive de nós, crianças, que passávamos a ter medo das sombras da moradia iluminada por candeeiros e velas durante a noite. Evitávamos dormir sozinhas e ficávamos amontoadas para nos
protegermos dos espaventos que vinham por vezes durante a madrugada, com um grito rouco ou com a sensação de um sutil tremor de terra, que acreditávamos serem causados pelas forças contrárias dos internos.
Vislumbrar Crispina no chão, aos nossos pés, com olhos cor de fogo, cabelos crespos enredados em pétalas de flores e folhas secas — algumas guardando a reminiscência da cor e certamente de algum perfume que tivera no auge do seu viço —, com a boca branca minando saliva, e o odor nauseante que exalava de seu corpo ao lado da irmã Crispiniana, foi experimentar de novo a sensação de infortúnio que nos devastou no dia em que retiramos a faca da mala e, querendo experimentar a beleza de um brilho misterioso e proibido, a colocamos na boca, completamente libertas, como se fosse possível, sem experimentar os interditos das crenças de nossos pais e vizinhos, ou sem, ainda, compreender a dominação que nos fazia trabalhadores cativos da fazenda. Foi como se o espelho de minha avó, que continuava em sua mala debaixo da cama, coberta por grossa camada de terra, tivesse perdido mais um pedaço, e só pudéssemos ver àquela distância parte de nós mesmos. Talvez por estar tão impressionada, Crispina tenha segurado meu pé com tamanha força que me derrubou no chão sem que minha mãe conseguisse evitar a queda, e o choro que brotou de meu rosto guardava a impressão daquela visão que remetia a algo muito recente em nossas vidas.
Saturnino, impaciente, desferiu um tapa sonoro na cara da filha, que não reagiu, ao mesmo tempo que Crispiniana, que testemunhava o ato, levava a mão ao rosto como se o golpe do pai tivesse sido em sua própria face.
Enquanto chorava, avistei Belonísia e Domingas saindo da vereda que levava à roça. Não demorou para meu pai chegar carregando sua sacola e enxada. Zeca Chapéu Grande era diferente de nós, que não sabíamos lidar com eventos daquela natureza. Agia com grande afeição diante das dificuldades mais díspares que nos chegavam à porta. De imediato, ordenou que Saturnino desamarrasse a filha, o que ele fez sem questionar ou temer, como parecia minutos antes. Ajudou a moça a se levantar. Vi que dos lábios grossos e antigos de meu pai saíam as rezas que nos remetiam à segurança da magia que lhe creditavam. Ele pediu que minha mãe e Crispiniana a
levassem para tomar um banho, enquanto Belonísia e Domingas se postaram ao meu lado. Seguiu para o quarto dos santos, estendeu uma esteira de palha, pôs um banco de assento de couro velho ao lado.
Acendeu uma vela e a atenção de todos que estavam por perto se voltou para o lume; se permanecesse acesa, Crispina, agora perturbada, poderia ficar; se a chama não resistisse à energia da atmosfera, se apagando, era porque não havia remédio.
6
Demorou algumas semanas até que Crispina, em parte, se pacificasse. Antes disso foi preciso conviver com seus gritos e gemidos, dia e noite. De dia, já era de certa forma esperado. À noite, nos arrepiávamos e acordávamos aturdidos. Via meu pai Zeca levantar de seu quarto e seguir acompanhado de minha mãe para onde estava a interna. Escutávamos tudo de onde estávamos, minúsculo cômodo onde nós, irmãos, dormíamos amontoados, mas quando as palavras chegavam até mim eram apenas sussurros que mal conseguia distinguir. Minha mãe passava com o candeeiro aceso no quarto para bem-fadar nosso sono. Essa rotina se repetiu por semanas.
Quando retornei certa manhã, depois de aguar as plantas do quintal — e Crispina já reagia bem às rezas e poções de raízes que meu pai administrava
—, ouvi as duas irmãs conversando baixo, a princípio, mas depois se tornou um crescente exaltar de vozes vindas do quarto onde estavam. Tinham acabado de voltar de um passeio pelo terreiro da casa, consentido pelo curador. Não pude escutar tudo, mas suas sentenças passaram o resto do dia martelando em minha cabeça: “Não foi verdade”, “Foi, sim”, “Você adoeceu, Crispina”, “Não estou doida, Crispiniana”, “Não diga uma tolice dessas na frente de nosso pai”, “Que você estava no mato com ele”,
“Isidoro nem estava por lá essa hora”, “Isidoro fez promessa de morar comigo”, “Fez promessa não, senhora. Você que está inventando coisa”,
“Fala isso porque é você que quer ele e estava lá no mato”, “Maluca, por isso está aqui”.
Escutei tudo suavizando minha respiração, atenta ao que diziam, na mesma medida que estava alerta à presença de minha mãe, que poderia chegar a qualquer momento e me surpreender escutando a conversa. Sabia bem que repreensão teria se fosse apanhada ouvindo duas pessoas mais velhas. Foi quando Crispina gritou para que a irmã saísse dali, que a deixasse em paz, e das brechas da cortina que separava os cômodos, vi seus olhos ficarem vermelhos feito dois torrões de brasa. Ela começou a salivar de tal forma que se formou um muco leitoso no canto da boca. Eram gritos misturados ao choro alto. O caos se instaurou naquele instante, as duas choravam até que, depois de certo ponto, rolavam pelo chão retirando seus lenços e se agarrando aos cabelos.
Eu estava surpresa, mas Belonísia se aproximou de mim rindo da cena.
Minha mãe, que lavava utensílios com a água que eu havia pegado no rio mais cedo, deixou as panelas no jirau e correu para o quarto. “Mas o que é isso?”, disse, avançando para tentar separar as duas. “Anda, vocês duas” —
olhou para mim e Belonísia — “me ajudem aqui.” Seguramos Crispiniana pelos braços. Ela tinha os olhos lacrimosos e o cabelo em pé de tantos puxões que havia levado; minha mãe segurou os dois braços de Crispina, a perturbada, com os olhos vítreos e a boca repetindo as acusações que havia lançado à irmã. Minha mãe ameaçou chamar compadre Saturnino para levar as duas dali, “e aí não tem remédio, acaba o tratamento e não vou querer você de volta, Crispina”. Nos braços de minha mãe mesmo, Crispina, agitada, chorou repousando a cabeça nos seus seios. Salustiana Nicolau ordenou que Crispiniana saísse com nós duas e que as deixássemos a sós por um tempo.
Crispiniana ajeitou a roupa rasgada em seu corpo e foi para o quintal.
Chorou em silêncio e, quando seus olhos ficaram cansados de verter lágrimas, pegou os utensílios que minha mãe lavava para terminar o trabalho. Eu e Belonísia continuamos na sala, fingindo brincar em silêncio para escutar o que Crispina dizia. Crispina repetiu o que havia dito, que encontrou seu noivo deitado com a irmã na roça dele. Que foi tomada de
um sentimento de amargor que nunca havia experimentado. Que já não atinava mais coisa com coisa e foi tomada de uma coisa ruim que a perturbou por completo. Só veio recobrar a consciência quando já estava instalada em nossa casa, havia semanas, e aos poucos foi recordando os dias que antecederam seu desaparecimento.
O resto da história nós sabíamos de escutar compadre Saturnino contar no dia em que chegaram a casa, e mais as prosas das vizinhas, compadres e comadres que repetiam a novidade nos caminhos que cortavam a fazenda.
Depois de sumir sem deixar vestígios, pai, noivo e irmãos procuraram Crispina por roças, na mata que cercava o rio Santo Antônio, pelos pântanos e brejos dos marimbus, sem êxito. O pai, atormentado com aquele inesperado desaparecimento, chegou à cidade caminhando e procurou por ajuda da polícia. A cada dia chegava uma notícia nova, de que Crispina estava indo para um povoado nas cercanias da fazenda, ou que alguém a havia visto subindo num ônibus em direção à capital, ou que ouviram urros de uma mulher louca durante a madrugada, como se fosse um bicho. Ou, ainda, que tinham visto alguém tirando frutas do quintal, que compadre Domingos havia atirado numa pessoa pensando que era uma raposa, e quando Saturnino chegou tonto na casa do compadre, teve a história desmentida.
Oito dias depois, Crispina foi encontrada por um coveiro deitada entre os túmulos no cemitério da cidade, incapaz de responder sobre quem era, muito menos onde vivia e o que estava fazendo ali. Surgiu poucos dias depois do feriado de finados, deitada em meio a flores murchas que já haviam perdido a frescura, mas ainda guardavam o perfume das coisas que mirram e diminuem em sua própria finitude. Angélicas, crisântemos, lírios deixados pelas famílias mais abastadas, e flores artificiais, de arame e papel crepom desbotado pelo tempo, pelas famílias desprovidas. Estava mais magra, abandonada ao próprio esquecimento, suja da terra que revolviam para sepultar os mortos, da longa caminhada, com os pés e mãos feridos, com um odor forte de suor e urina. Compadre Saturnino foi ao encontro da filha, submisso ao destino, aceitando o imprevisto. Não contou com a boa vontade de Sutério para buscá-la com a Ford Rural. O gerente havia alegado
trabalhos para não fazer o transporte no carro do patrão. Daí que veio a ideia de laçá-la como se laçam os animais na lida do campo ou os perturbados conduzidos aos curadores de jarê. E caminhando por muitas horas chegaram aos domínios de Zeca Chapéu Grande, para que pudesse curá-la do infortúnio da loucura que havia se abatido sobre seu juízo.
De loucura meu pai entendia, assim diziam, porque ele mesmo já havia caído louco num período remoto de sua vida. Os curadores serviam para restituir a saúde do corpo e do espírito dos doentes, era o que sabíamos desde o nascimento. O que mais chegava à nossa porta eram as moléstias do espírito dividido, gente esquecida de suas histórias, memórias, apartada do próprio eu, sem se distinguir de uma fera perdida na mata. Diziam que talvez fosse por conta do passado minerador do povo que chegou à região, ensandecido pela sorte de encontrar um diamante, de percorrer seu brilho na noite, deixando um monte para adentrar noutro, deixando a terra para entrar no rio. Gente que perseguia a fortuna, que dormia e acordava desejando a ventura, mas que se frustrava depois de tempos prolongados de trabalho fatigante, quebrando rochas, lavando cascalho, sem que o brilho da pedra pudesse tocar de forma ínfima o seu horizonte. Quantos dos que encontravam a pedra estavam libertos dos delírios? Quantos tinham que proteger seu bambúrrio da cobiça alheia, passando dias sem dormir, com os diamantes debaixo do corpo, sem se banhar nas águas dos rios, atentos a qualquer gesto de trapaça que poderia vir de onde menos se esperava?
Crispina tentou de todo jeito fazer com que minha mãe mandasse a irmã de volta para casa, que a deixasse ali sozinha. Minha mãe, de forma assertiva, disse que o passado ficaria para trás, que elas eram irmãs e naqueles dias que se encontrava recolhida em nossa casa Crispiniana tinha zelado por ela como se fosse uma mãe. “Onde já se viu irmãs da mesma barriga viverem a vida como se fossem inimigas?”, perguntou. Disse que nunca em sua vida tinha visto algo assim, e que aquilo deveria trazer má sorte para a vida das duas. As gêmeas voltaram a se falar e a conviver como antes no resto da temporada em nossa casa. Não brigaram mais, porém tampouco “se uniram como os dedos da mão”, diria minha mãe certo dia para meu pai.
Crispina recobrou a saúde, o viço da pele, as forças de jovem lavradora, como grande parte das mulheres que residiam na fazenda. Havia brilho em seus olhos e se tornou novamente um espelho da irmã, Crispiniana. Logo seria hora de regressarem para as margens do Santo Antônio. Agora, mais que antes, laços concretos nos uniam: a mão de meu pai estava repousada, enquanto vivesse, em sua cabeça. Repousada na cabeça dos membros de sua família. Zeca Chapéu Grande não era apenas um compadre. Era pai espiritual de toda a gente de Água Negra.
Quando deixou nossa casa, ela voltou, contra a vontade do pai, a se encontrar com Isidoro. Pegaram seus pertences e foram morar juntos numa casa de barro que levantaram na parte destinada à morada dos trabalhadores. Da porta da casa do pai, Crispiniana mirava a vida da irmã com sua grande paixão. Não acreditávamos que a história das irmãs fosse terminar daquela forma.
7
Anos depois do acidente que emudeceu uma de suas filhas, meu pai, incentivado por Sutério, havia convidado o irmão de minha mãe para residir em Água Negra. O gerente queria trazer gente que “trabalhe muito” e “que não tenha medo de trabalho”, nas palavras de meu pai, “para dar seu suor na plantação”. Podia construir casa de barro, nada de alvenaria, nada que demarcasse o tempo de presença das famílias na terra. Podia colocar roça pequena para ter abóbora, feijão, quiabo, nada que desviasse da necessidade de trabalhar para o dono da fazenda, afinal, era para isso que se permitia a morada. Podia trazer mulher e filhos, melhor assim, porque quando eles crescessem substituiriam os mais velhos. Seria gente de estima, conhecida, afilhados do fazendeiro. Dinheiro não tinha, mas tinha comida no prato.
Poderia ficar naquelas paragens, sossegado, sem ser importunado, bastava obedecer às ordens que lhe eram dadas. Vi meu pai dizer para meu tio que
no tempo de seus avós era pior, não podia ter roça, não havia casa, todos se amontoavam no mesmo espaço, no mesmo barracão.
Para convencê-lo, meu pai disse que o arrozal era bom de trabalhar. Que ali chovia, tinha terra boa, que, “olha”, abria os braços mostrando a roça e o quintal, mostrando a mata ao seu redor, “aqui não nos falta nada”. “Você tem os meninos, isso é de ajuda. Tem um passarinho preto miudinho assim”, mostrava as falanges dos dedos dando a dimensão aproximada da praga, “que ataca o arrozal de manhã cedo. Os meninos podem ajudar a espantar eles. Aqui todo mundo acorda cedo para espantar os passarinhos, só assim fazemos boa colheita.”
Era verdade. Nos longos anos em que plantaram arroz no meio do sertão de água, na beira dos pântanos dos marimbus, acordávamos antes que o sol se levantasse no horizonte e seguíamos rumo à roça da fazenda. Nos muníamos de galhos, pedras, tudo que fosse instrumento para espantar os pássaros, miudinhos, de penas negras e que brilhavam quase azuis na luz da manhã. Se não fôssemos rápidos o suficiente, seu bico entrava no grão que amadurecia e sugava tudo que estivesse dentro, com sua minúscula língua.
Enquanto os adultos trabalhavam, cabia a nós, as crianças, espantar a praga.
Os meninos chegavam com estilingues, por vezes abatiam a ave pequena.
Certa vez, Belonísia chorou e só cessou o pranto quando sugeri que fizéssemos um enterro, com direito a uma caixa de vela, como urna, e flores que colhemos no campo.
Meu tio viajou no lombo de um burro, a mulher em outro, os filhos caminhando, se revezando na travessia para a montaria dos animais. Foram morar numa construção de alvenaria, uma casa vazia que abrigava os trabalhadores que chegavam. Era permitido que se hospedassem ali até a aceitação definitiva da morada, dada de acordo com a produtividade e a disposição para o trabalho da nova família. Se aceitos, destinava-se a eles uma parcela de terra para que pudessem construir a tão almejada casa e ter seu quintal e animais pequenos.
Tio Servó chegou acompanhado da esposa, Hermelina, e dos seis filhos.
Era a primeira vez que os via. Minha mãe estava emocionada, com a discrição de sentimentos que lhe era peculiar. Matou duas galinhas de nosso
quintal e fez um almoço farto. Sentamos no chão com nossos pratos, as crianças tímidas se escondiam atrás dos pais. Salu não conhecia a cunhada e logo quis saber o nome dos sobrinhos. “Este aqui guardei pra você batizar, Salu”, disse. Era meu primo mais velho, Severo. Era quase um rapaz, crescido, mas igualmente tímido como os irmãos. “Mas deixou o menino tanto tempo pagão, Servó?”, reclamou minha mãe da negligência do irmão.
Depois do almoço, e espalhados pelo terreiro, meus primos foram se entrosando. A casa onde iriam ficar estava mais próxima do rio Santo Antônio, do lado oposto à nossa casa. Assim, nosso contato não seria tão frequente, nos veríamos nas festas e nos feriados, ou nos dias das brincadeiras de jarê em nossa casa. Não cheguei a vê-los nos arrozais da várzea do Santo Antônio, para saber se espantavam o chupim tão bem como nós. Mas Severo, o primo tímido, chegava de tempos em tempos com meus tios para nos visitar. Se era brincadeira de jarê, ficávamos acordados até a madrugada correndo pelo terreiro, contando histórias e rindo alto.
Eu e Belonísia, estranhamente, já que estávamos cada vez mais próximas, nos dispersávamos nesses momentos, talvez de forma irrefletida, para disputar a atenção de Severo. Domingas e Zezé se ocupavam com brincadeiras com os menores, enquanto nós, quase adolescentes, descobríamos aos poucos o interesse que um menino poderia despertar em duas moças com seios despontando nos vestidos, ancas se firmando e o perfume do corpo abundando como nunca. Duas moças que se descobriam vaidosas, que reclamavam por um espelho em casa, que ocupavam o tempo vago com penteados e combinações de vestimentas diferentes com as poucas peças de roupa que tinham.
Severo superou aos poucos a timidez e passou a se comunicar de forma incessante conosco. No início, a que era a voz duplicada, a que falava pelas duas, cuidou, sem perceber, de instruir o primo de como poderia ser fácil entender os sinais que havíamos elaborado, sem o recurso de uma escola, para nos comunicarmos. De maneira breve, ele aprendeu a se comunicar também, às vezes melhor que qualquer um da casa, e logo se passou a sentir, além do óbvio ciúme pela atenção do primo, ciúme pela capacidade
de compreensão que havia adquirido em tão pouco tempo. Quiçá o primo nos compreendesse melhor que nossos pais.