Torto Arado
Fio de corte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Como o buriti estava levando alimento para nossa mesa, diversificando nossa dieta de beiju de jatobá, ninguém inquiria sobre o tempo que eu passava na mata, na beira dos marimbus colhendo os frutos, que começavam a rarear com o término da safra. À medida que ficavam mais escassos, precisávamos de mais tempo para encontrá-los. Nesse período, me aproximava mais das margens do rio Santo Antônio, me aproximava mais da roça de meus tios e de Severo. Ficávamos cada vez mais juntos, rindo ou divergindo, ou apenas em silêncio. Até que as mãos passaram a se tocar para impedir um gesto, ou apenas por pilhéria. Eu sentia sua respiração, por vezes calma, em outros momentos intensa, dependendo do teor das suas manifestações. Até que passei a ouvir os batimentos de seu coração diante do silêncio que vinha da tranquilidade da mata, sem água, sem folhas farfalhando, por horas sem pássaros, que não tinham alimento. Sua mão já não tocava apenas a minha, tocava meu ombro. Eu me permitia empurrar
levemente seu peito. E quando estávamos cansados, apenas deitávamos em qualquer lugar da margem do rio para sentir o vento, que só para contrariar nem chegava a soprar. Mas quando soprava, lançava sobre nossos corpos a terra seca. Eu passei minhas mãos pelo seu rosto, para limpá-lo, ele fez o mesmo com o meu, e um dia deixei que sua boca tocasse a minha, e nesse dia apenas lembrei do meu sentimento quando o vi beijando Belonísia. Não retornei bem para casa, era como se tivesse traído minha irmã. Mas não suportei muito tempo esse sentimento de traição, subverti, porque tudo o que estava sentindo era grandioso. Voltei para a beira do rio só por voltar, o buriti já tinha terminado. Saía sem avisar e ouvia reclamações de minha mãe, que queria saber por onde eu andava. Ainda não podia dizer a verdade, dizia apenas que estava com algumas das meninas que moravam mais distantes.
Tudo foi crescendo de forma tão pujante que era como se meu corpo se guiasse sozinho, e Severo agia da mesma forma na trama em que estávamos enredados. Naquela terra mesmo, entranhada da secura da falta de chuva, deixamos nossos suores para que lhe servisse de alívio. O silêncio da ausência dos pássaros, dos animais que migravam para onde havia água, foi rompido por nossos sussurros. Depois de tanto ouvirmos falar sobre as crianças mortas, a natureza, misteriosa e violenta, nos impelia para conceber a vida.
14
Fui tomada por uma intensa ansiedade quando comecei a sentir tontura e enjoos quase diários. Tinha dezesseis anos e já havia visto muitas mulheres da fazenda pegarem barriga. A primeira coisa a me causar repulsa foi o beiju de jatobá. Saía devagar para o quintal, distante de casa, para colocar para fora o que não caía bem. Não iria aguentar olhar para minha mãe e meu pai e explicar o que estava acontecendo. Me preocupava ainda mais a
reação de Belonísia. Se estivesse mesmo grávida, teria que deixar a casa e ir morar com Severo. Isso significava que nossos laços seriam ao menos esgarçados. Não eram meros laços de irmãs: havia o que nos unia de forma irremediável. Nos últimos dez anos, embora preservássemos nossas individualidades, fortalecemos uma ligação muito íntima, gestos e expressões que somente nós sabíamos interpretar. Além disso, havia a minha desconfiança dos sentimentos que Belonísia nutria por Severo, embora naquele instante fossem menos intensos que no passado. De qualquer forma, ela não receberia a notícia muito bem. Poderia ser doloroso.
Continuava a encontrar Severo e deitávamos juntos na terra, em lugares mais afastados da vista de qualquer pessoa. Quando levantávamos, ele retirava de meu cabelo a palha seca acumulada no chão. Sentia a minha preocupação. Estava dispersa, preservava pouco do que me falava e compreendia tudo pela metade. Quando comuniquei minhas suspeitas, que minhas regras não haviam descido, senti seu rosto se iluminar. Assim como eu estava aflita por tudo que teria que enfrentar quando meus pais descobrissem, vi em suas expressões sentimentos diversos dos que me afligiam. Severo ficou eufórico, subiu numa jaqueira de fronde vistosa naquela atmosfera de galhos secos e retirou um fruto do seu tronco para comermos juntos. Abriu a jaca viscosa com o facão que trazia junto ao corpo e sorriu. O leite grudento minando da casca aumentou ainda mais minha náusea. Mas gostei tanto de vê-lo agitado que comi dois bagos, num esforço tremendo para fazê-los descer pela garganta — era jaca mole e eu regurgitava tentando engolir —, até que prendi a respiração para mantê-los em meu estômago.
Ele voltou a falar sobre o desejo de sair pela estrada e continuarmos a estudar, tentar a sorte, não queria ficar trabalhando pelo resto da vida em Água Negra. Aqui já não tem mais trabalho, dizia, talvez seja a hora de seguirmos. Você vem comigo. Aquela ideia me deixou mais atordoada, não tinha condições de pensar em nada. Era coisa demais acontecendo comigo, e o mais imediato a fazer era domar meu corpo. Depois contar tudo a meus pais e enfrentar Belonísia. Era ela quem mais me preocupava e mais
ocupava meus pensamentos. Imaginar que seria mãe não havia me deixado com a mesma empolgação que vi no semblante de Severo. Não aludia a nenhum sentimento especial, pelo menos até aquele momento.
O tempo foi passando e a barriga começou a despontar. Como estava mais magra, acho que ninguém notou, a não ser eu mesma na hora do banho no rio. Me tornei mais solitária. Sentia mais tristeza do que empolgação por tudo. Qualquer coisa me fazia chorar. Quando viu o tempo passar, quis Severo, ele mesmo, falar com meus pais, disse que não poderíamos adiar a confissão, que quanto mais o tempo passava, pior para todos. Meu primo era jovem, mas tinha um senso de responsabilidade admirável desde criança. Era também destemido, em nenhum momento pensou em se esquivar de seu dever. Cada vez me sentia mais ligada à sua vida, e quase não ficava um dia sem vê-lo, mesmo ouvindo os queixumes de minha mãe que perguntava para onde eu caminhava, que tanto tempo era esse que passava sozinha.
Belonísia não expressou nada sobre o que me ocorria, mas parecia saber o que estava acontecendo. Possivelmente não desconfiava da gravidez, mas deduzia aonde ia com minhas caminhadas. Ela própria estava mais solitária, pouco interagia com nossos irmãos. Minha mãe creditava nossa melancolia à seca que enfrentávamos, dizia que era o mal do tempo. Meu pai prescreveu banhos, trazia as folhas da mata e entregava à minha mãe para que as preparasse, na expectativa de que se revertesse o banzo que nos assolava. Eu me envergonhava porque, além da omissão do que me ocorria, havia planos para deixar Água Negra na calada da noite, sem que eles soubessem. Severo não via outra opção diante do medo que eu lhe relatava, estava paralisada por tudo. Já discutíamos os caminhos, a melhor hora, o melhor dia, o que levaríamos e o que faríamos depois. No início resisti à ideia de deixar a fazenda e me afastar de todos. Mas gostava tanto de Severo, ele havia iluminado meu horizonte com a possibilidade de uma vida além da fazenda. Era difícil não me deixar seduzir pelos seus planos e entusiasmo. O desalento que se abateu sobre todos com a prolongada estiagem contrastava com o sopro de vida que tudo aquilo poderia ser para nós. Se desse tudo certo, voltaríamos para dar melhores condições de vida aos nossos pais e irmãos. Voltaríamos para retirá-los de lá. Aquela fazenda sempre teria donos, e nós éramos meros trabalhadores, sem qualquer direito sobre ela. Não era justo ver tio Servó e os filhos crescendo espantando os chupins das plantações de arroz. Não era justo ver meu pai e minha mãe envelhecendo, trabalhando de sol a sol, sem descanso e sem qualquer garantia de conforto em sua velhice. Mas não conseguia me empolgar da mesma forma que Severo com essa possibilidade, e por isso às vezes me sentia mais abatida e confusa.
Foi naquele período, nas festas de jarê que continuavam a acontecer, mais modestas, mas na esperança de se mobilizar o panteão de encantados para que trouxessem a chuva e a fertilidade à terra, que apareceu uma misteriosa encantada, de quem nunca havíamos ouvido falar. Nada se sabia sobre ela entre os encantados que corriam de boca em boca, muito menos havia sido vista se manifestar nas casas de jarê da região. Dona Miúda, viúva que morava sozinha num descampado no final da estrada para o cemitério da Viração, e que sempre acompanhava as brincadeiras em nossa casa, foi quem recebeu o espírito. Quando ela se anunciou como Santa Rita Pescadeira, os tambores silenciaram e uma comoção tomou conta dos presentes. Era possível distinguir os questionamentos no meio da audiência, se a encantada de fato existia ou não, e por que até então não havia se manifestado, já que aquele jarê era tão antigo quanto a fazenda e os desbravadores daquela terra.
Naquele momento, com a roupa rota que vestia, mas com um véu antigo e esgarçado lhe cobrindo a cabeça, ouvimos sua voz fraca, quase inaudível, entoar uma cantiga, “Santa Rita Pescadeira, cadê meu anzol? Cadê meu anzol? Que fui pescar no mar”. A encantada, apesar da idade de dona Miúda, dava giros hábeis na sala, ora como se jogasse uma rede de pesca no meio de todos, ora correndo em evoluções como um rio em fúria. Alguns pareciam estar perplexos e querendo desvendar o mistério da aparição.
Outros sorriam, talvez incrédulos, achando que a velha Miúda havia enlouquecido e precisasse dos cuidados de meu pai.
No meio das evoluções, enquanto o fiapo de voz da velha entoava a canção que parecia ter sido composta ali mesmo para a ocasião, ela segurou
meu braço com força. Não tentei me desvencilhar, estava acostumada com a presença dos encantados nas brincadeiras de jarê. Era a casa de meu pai, o curador Zeca Chapéu Grande, e havia crescido entre loucos e preces, entre gritos e xaropes de raiz, entre velas e tambores. A simples presença de um encantado que eu não conhecia não seria capaz de me intimidar, fosse uma real manifestação do encanto ou da loucura. Os olhos de dona Miúda estavam turvos por trás do véu, cinza, quase brancos. Talvez fosse a catarata. Mas ela disse algo muito íntimo, que eu não podia explicar, mas sabia bem o que poderia ser.
Ela falou sobre um filho, mas era uma frase sem nexo que não recordo com exatidão, algo como “vai de filho”. Falou também que eu estava para correr o mundo a cavalo, animal que nossa família não tinha, o que me deixou ainda mais atordoada. Que tudo iria mudar. E a sentença que permaneceu mais exata em minha memória e resistiu aos golpes que minha vida sofreria nos anos vindouros foi que “de seu movimento virá sua força e sua derrota”.
A voz estava tão fraca que só eu pude escutar o que ela dizia. Aquela mensagem se inscreveu em mim como uma marca esculpida na rocha e atravessou meu espírito durante o tempo que tenho sobre a terra.
15
Belonísia me encontrou dobrando algumas peças de roupa e guardando na mala que pertenceu a nossa avó. Vi seus olhos surpresos com a descoberta e não fui capaz de comunicar nada sobre o que estava fazendo. Nem ela. Seu olhar era inquisidor, árido como o tempo que nos cercava, e minha vergonha era suficiente para que sequer tentasse justificar o que fazia.
Chorei depois que minha irmã saiu, porque tinha a certeza de que estava contribuindo para seu sofrimento. Estava tendo encontros com nosso primo, talvez ela já desconfiasse da gravidez, mas além de tudo isso, eu era sua
irmã — não tínhamos segredos, ou ao menos evitávamos ter — e havia me encerrado em meu mundo naquelas últimas semanas, esquecendo-me da família e dela, principalmente, que parecia cada vez mais distante.
Não suportei recordar seu olhar, chorei longe de casa, não poderia mais continuar com a ideia de deixar Água Negra, precisava dizer a Severo que queria continuar a viver na fazenda, que enfrentaríamos nossos pais, que no fim tudo daria certo. Construiríamos nossa casa perto da casa de tio Servó e de tia Hermelina. Era assim que deveria ser quando dois jovens se uniam; construíam sua casa no terreiro da casa dos pais, havia uma comunicação e a espera de uma espécie de consentimento por parte do gerente da fazenda para que começassem a erguê-la. Faríamos nossa casa como todas as outras, com o barro das várzeas, com as forquilhas que forjávamos das matas.
Cobriríamos com o junco que tomou conta do leito do Utinga com a grande seca. Quando estivéssemos estabelecidos poderíamos planejar a nossa partida, ir atrás dos sonhos de Severo, que passaram a ser meus também.
Não queria também viver o resto da vida ali, ter a vida de meus pais. Se algo acontecesse a eles, não teríamos direito à casa, nem mesmo à terra onde plantavam sua roça. Não teríamos direito a nada, sairíamos da fazenda carregando nossos poucos pertences. Se não pudéssemos trabalhar, seríamos convidados a deixar Água Negra, terra onde toda uma geração de filhos de trabalhadores havia nascido. Aquele sistema de exploração já estava claro para mim. Mas eu era muito nova, e aquele não seria o momento, muito menos as circunstâncias adequadas para partir.
Puxei a mala de debaixo da cama e retirei tudo o que havia guardado.
Não iria seguir viagem com Severo, para um destino incerto, de fazenda em fazenda até chegar à cidade. Iria encontrá-lo naquele mesmo dia para dizer que falaria tudo aos meus pais e que permaneceríamos ali, juntos, se assim quisesse. Se quisesse deixar a fazenda, seguiria só sua vida, que se sentisse livre. Eu criaria a criança, não nos faltaria família. Não seria abandonada por meus pais. Eles eram rigorosos na nossa educação, mas até esse rigor tinha um limite. Terminariam por me ajudar, me acolheriam em casa, não haveria mágoa nem rancor. Até Belonísia se renderia ao sorriso do sobrinho, e eu poderia dá-lo para que batizasse, o que significaria um gesto
de aproximação e perdão pelas diferenças que haviam surgido entre nós nos últimos meses.
Havia também o que foi dito pela encantada de dona Miúda, a tal Santa Rita Pescadeira. Não me deixava impressionar pelos encantados, estava tão acostumada à sua presença que não me permitia envolver pelo mundo de obrigações e interditos da crença. A distância me protegia das bênçãos ou infortúnios, era o que esperava. Mas também não havia sido o acaso que me trouxera aquela mensagem. Ou se fosse o acaso, era fato que o que foi dito se endereçava a mim, e achava que apenas eu e Severo sabíamos.
Permaneci no limite entre a crença e a descrença. Passei noites em claro, pensando no significado das palavras “vitória” e “derrota” e o que tudo aquilo poderia dizer sobre a viagem, sobre o filho, sobre minha vida com Severo. Minha ansiedade aumentou. Imaginava o porquê da encantada segurar meu braço e não o de dona Tonha que estava ao meu lado, ou o braço de Crispina de mãos dadas com o sobrinho e a irmã Crispiniana. Será que dona Miúda já havia me visto deitada com Severo no meio da mata?
Sua casa não era muito próxima do lugar onde costumávamos nos encontrar, e ela parecia ser muito idosa para sair vagando pela mata e bisbilhotar dois jovens em momentos de afeto.
Encontrei Severo no mesmo lugar de sempre. A jaqueira fazia uma sombra rara, considerando a estiagem que se prolongava além do esperado.
Comuniquei que havia começado a separar algumas roupas para nossa viagem, mas que Belonísia tinha me surpreendido. Gesticulei muito para expressar o quanto não estava segura da viagem. Para tentar fazê-lo compreender que eu era muito nova. Minhas mãos iam à cabeça e ao peito numa urgência que o deixou sobressaltado. Quis fazer com que soubesse que aquela fuga seria uma ruptura — e cruzei meus braços para depois separá-los — e uma traição imperdoável para meus pais. Por tudo que eles haviam vivido, por tudo que fizeram por nós. Que não era certo com tio Servó e tia Hermelina, da mesma forma. Que eles ficariam aflitos — levei a mão direita ao meu rosto —, e que eu não sabia como cuidar de uma criança sem ter minha mãe por perto, apesar de ser a mais velha e de ter cuidado um pouco de todos os outros irmãos.
Severo apenas se aproximou e me acolheu em seus braços. Disse que era normal que estivesse aflita, mas que já se sentia homem e pronto para deixar a fazenda. Que não falaria de imediato aos pais porque enfrentaria resistência, mas que em breve, quando encontrasse pouso e trabalho, mandaria notícias e diria qual era o seu destino. Senti vontade de dizer que ele poderia ir só, que eu permaneceria ali, esperaria a criança nascer. Ficaria com meus pais, trabalharia em Água Negra. Quando ele estivesse estabelecido, iria encontrá-lo, com as bênçãos de Zeca e Salu. Mas me faltou coragem. Estava com o coração quebrantado pela iminência da separação, seja de Severo ou da minha família. Com muito sofrimento, nos despedimos sem decidir nossos destinos.
Na manhã seguinte, Sutério apareceu em nossa casa para dizer que meu pai precisava terminar o pequeno barramento que fazia no riacho. Que precisava organizar os trabalhadores para capinar e fazer a coivara, deixar a terra limpa, sempre, para quando a chuva chegasse. Entrou em nossa cozinha e perguntou onde havíamos colhido as batatas-doces. Meu pai respondeu que havíamos comprado na feira da cidade. Com que dinheiro, ele quis saber. Vendemos o resto de azeite de dendê que tínhamos fabricado, disse. Sutério pegou a maior parte da batata-doce com as duas mãos grandes que tinha e levou para a Rural que havia deixado em nossa porta. Pilhou também duas garrafas de dendê que guardávamos para fazer os peixes miúdos que pescávamos no rio. Lembrou a meu pai da terça parte que tinha que dar da produção do quintal. Mas as batatas não eram produção do quintal. Da terra seca não brotava nem pasto, muito menos batata. E a secura era tanta que nem as várzeas estavam sendo cultivadas. No leito do rio, onde não havia água, era possível encontrar uma lama que apodrecia as sementes, de onde também não brotava nada, apenas taboa para fazer esteira, sacola e teto de casa. Vi a vergonha de meu pai crescer diante de nós, sem poder fazer nada. Zeca Chapéu Grande era um curador respeitado e conhecido além das cercas de Água Negra. Mas ali, nos limites da fazenda, sob o domínio da família Peixoto — que quase não colocava os pés por lá a não ser para dar ordens, pagar ao gerente e dizer que não poderíamos fazer casa de tijolo — e de Sutério, sua lealdade pela morada
que havia recebido no passado, quando vagava por terra e trabalho, falava mais alto. Vi minha mãe se movimentar, seus olhos se injetaram, indignados, mas se deteve ao perceber meu pai se sentindo incapaz de questionar e reclamar de qualquer coisa. Muito pelo contrário, ainda colaborava com sua liderança espiritual para a manutenção da ordem entre as famílias que moravam ali. Era a ele que Sutério ou qualquer um dos herdeiros se dirigia para pedir a intervenção em conflitos dos mais variados, desde animal comendo em roça alheia até construção erguida com material que descumprisse as interdições impostas aos moradores.
Não poderíamos feri-lo ainda mais em sua humilhação, pedindo que ele tomasse de volta as batatas-doces que havíamos adquirido com nosso trabalho na feira. Como foi longa aquela noite. Não dormi. A insônia havia se tornado companheira nas últimas semanas. Pensei nas palavras de Severo sobre a situação de nossas famílias na fazenda. Que a vida toda estaríamos submissos, sujeitos às humilhações, como a pilhagem do nosso alimento.
Que eu tinha um papel nisso tudo, e que meus pais precisavam de mim para mudar de vida. Que poderíamos, sim, comprar nossa própria terra e vir buscá-los. Que só assim conseguiríamos ter uma vida digna.
Dei um jeito de encontrar Severo, mesmo sem ter combinado. Quando nos vimos, precisei apenas olhar para que ele soubesse que havia me decidido pela partida. Então planejamos o dia exato, a hora, até onde seguiríamos andando e de onde tentaríamos carona para deixar a Chapada Velha. Na madrugada da partida, a mala antiga de Donana estava arrumada, com a poeira espanada, para que eu pudesse levar o pouco que tinha para essa nova vida que despontava. Levantei enquanto todos dormiam, pedi a Deus pela saúde e pela vida de todos durante o tempo que passaria fora.
Pedi que os encantados me ajudassem a não ser considerada uma desonra e que, quando retornasse com dinheiro, já estabelecida em nossa terra, para buscar nossas famílias, todos entendessem que aquela viagem havia sido por uma boa causa. Pedi a Deus, especialmente por Belonísia, que há pouco mais de dez anos compartilhou comigo o incidente que mudou de certa forma nossas vidas. Quando deixei a casa pela porta do quintal, no sereno da noite, não pude evitar de olhar para trás por algumas vezes, enquanto
seguia pela estrada ao encontro de Severo. Enumerava as coisas que levava comigo e tudo que deixava para trás. Quase desisti nesse exato momento, deixaria Severo partir sozinho, mas a imagem de Sutério levando nosso pouco suprimento, e a fome e o improviso que se seguiram para fazermos a refeição mais tarde, me deram a firmeza necessária para prosseguir. Dentre as coisas que levava, e talvez a que mais me machucava, era a minha língua. Era a língua ferida que havia expressado em sons durante os últimos anos as palavras que Belonísia evitava dizer por vergonha dos ruídos estranhos que haviam substituído sua voz. Era a língua que a havia retirado de certa forma do mutismo que se impôs com o medo da rejeição e da zombaria das outras crianças. E que por inúmeras vezes a havia libertado da prisão que pode ser o silêncio.
Torto arado
1
Corria entre papiros, cabelos-de-nego e capins-navalha que nasciam na beira dos marimbus, abrindo lanhos profundos em minha pele seca. Não minava sangue. Não minava pus. Do meu corpo só escorria o suor que empapava minhas vestes, que empapava o pano que amarrava meus seios.
A canoa de ajoujo deslizava sozinha como uma baronesa até ser engolida pelo Veião, desaparecendo num rodamoinho de água escura como a cor de minha pele. Corria em meio à caatinga antiga de árvores altas, buscando a vereda para casa, quando pedaços da pele de meus braços ficaram enganchados nos espinhos de tucum. Nem dia, nem noite, e a terra assava
meus pés com a quentura que emanava. Surgiu um homem bem-vestido de pele branca e igual cavalo branco, sorrindo, cerrando a trilha por onde eu corria. Eu tentava escapar por outros rumos, gritava, mas estava tudo cercado. O arame brilhante como a prata ladeava a terra e só restava tucum, mandacaru, palma, jenipapeiro e pau seco. Não podia retornar para casa.
Até que vi uma pedra que irradiava luz, luzia feito uma joia preciosa. Pus a mão sobre ela. O que de longe parecia uma pedra era um pedaço de marfim que não se movia do chão, parecia ter o peso do mundo. Com as duas mãos tentei levantar até que o marfim saiu, com o metal polido, puro brilho, a faca de Donana, perdida, que voltava para minhas mãos. A faca que num impulso retirei da boca de Bibiana para repetir o gesto, naquela idade em que queremos ser como os irmãos mais velhos, sem perceber que da boca de minha irmã minava sangue. Sem perceber o perigo do fio de corte da lâmina que produzia um lume violento. O lume que deceparia minha língua.
Me encerraria, sem palavras, envergonhada do que tinha feito a mim mesma, como o arame que me cercava naquele campo. Ao retirar o punhal de minha avó do chão seco percebi que sangrava, e um rio vermelho começou a correr pela terra.
Durante anos acordei, no meio da noite pesada, molhada de suor, com esse mesmo sonho, contado de muitas maneiras, mas sempre com o homem bem-vestido, a cerca, o punhal de Donana e o sangue que brotava do chão.
O único sentimento bom que essas imagens me deixavam era que eu gritava, falava pelos cotovelos, coisa que havia muitos anos já não fazia. Na noite em que Bibiana deixou nossa casa, o sonho se repetiu dessa exata forma. E talvez por isso passei a contar a mim mesma dessa maneira.
Quando despertei sufocada, percebi que o lugar onde minha irmã dormia estava vazio. Levantei para tomar um copo de água e não a vi em casa. Se tivesse ido ao quintal para alguma necessidade teria deixado a porta aberta.
Abri a porta e Fusco, que estava deitado, veio mancando procurar o afago de minhas mãos.
Mas bastou eu voltar até o quarto e procurar pela mala velha e rota de minha avó para entender que Bibiana havia nos deixado. Seus olhos não escondiam a sua intenção quando cheguei de repente, enquanto arrumava
suas peças de roupa na mala de couro gasta. É fato que planejava uma viagem escondida. Poderia ter feito como ela mesma fez ao me ver com Severo debaixo do umbuzeiro numa noite de jarê. Poderia ter azucrinado o juízo de minha mãe para que lhe devolvesse a surra que levei por conta da mentira que inventou sobre mim e meu primo. Mas já havia passado tanto tempo e eu não queria vê-la chorar. Nem queria sentir que revidava algo que já havia passado. Estava cicatrizado. Não queria que ela tivesse mágoa de mim, como fiquei amargurada pelo que me aconteceu, quando não pude me defender das acusações de que estava beijando Severo. Quando o que fazíamos, eu com doze anos, era admirar os vaga-lumes da noite, longe dos candeeiros da casa.
O que se seguiu àquela descoberta, que para mim não chegava a ser uma surpresa, foi uma comoção que só havia visto anos antes, quando me mutilei. Ao ver Salu devastada com a atitude de Bibiana, de sair na calada da noite como uma mulher qualquer, me culpei por não ter comunicado à minha mãe, por não tê-la levado por minhas mãos à mala de Donana, às roupas de Bibiana, por não ter exposto o que havia visto dias antes. Depois matutei que, com meu gesto, queria dar uma chance para que minha irmã pensasse sobre o sentido daquilo tudo. Queria, ao poupá-la, dizer que precisava dela ao meu lado, que ela precisava permanecer conosco. Que se os enjoos que ela sentia, a irritação com o calor e a falta de chuva, os olhos injetados de rancor diante de Sutério levando nossas batatas sem que nosso pai fizesse nada para detê-lo, num claro descontrole por conta de sua barriga, eram a razão para querer deixar Água Negra, não precisava fazê-lo.
Queria que refletisse mais um pouco antes de tomar qualquer decisão errada. Que nossos pais poderiam ficar aborrecidos no princípio, mas nunca deixariam de acolher a criança. Feito o estrago, não tentariam mais afastá-la de Severo. Ela já era uma mulher, e talvez por isso minha mãe não lhe batesse como fez comigo. Já não era pequena e não tentaria torcê-la como a um pepino, como havia feito comigo. Duvidei que fosse levar à frente o que vi em seus olhos.
Se seguiu um período de calmaria depois de sua partida. Vi meu pai concentrado no quarto dos santos. Talvez se comunicando com os
encantados para ter notícias da filha. Para que entre velas, folhas, incensos e ladainhas pudesse ver o destino de Bibiana e Severo, de quem gostava muito, tratando como filho, porque nele havia uma energia de líder que não via em mais ninguém. Meu pai tentava confortar minha mãe, que se precipitava em tristeza e choro. Meu pai confortou da mesma forma tio Servó e tia Hermelina, desolados com a partida do filho mais velho, que ainda havia levado a prima, menor de idade. Também o vi proibir que se falasse do ocorrido em casa e entre os vizinhos. Não por malquerença, mas porque considerava desonesto falar de qualquer pessoa longe de sua presença. Queria, eu intuía, que continuássemos a bem-querer Bibiana, mesmo tendo ela quebrado a lealdade que regia o universo de nossa casa.
Apesar de ser uma liderança entre o povo que vivia em Água Negra, meu pai se negava a ser juiz, e acreditava que qualquer pessoa poderia se redimir de seus erros.
Semanas depois chegaram as primeiras nuvens de chuva, e da terra subia um frescor que os trabalhadores chamavam de ventura. Diziam que poderíamos cavar um pouquinho o barro seco para sentir que a umidade iria chegar, para sentir a terra mais fria. Era o sinal de que o tempo de estiagem estava findando. Não tardou muito para as primeiras gotas de chuva caírem do céu, e mesmo com todo desalento em que nossa casa havia afundado com a partida de Bibiana, minha mãe sorriu e colocou os tonéis para encherem de água. Vi as mulheres da fazenda entoarem suas cantigas com mais força pelos caminhos, enquanto levavam suas roupas para lavar no rio que crescia em volume, ou carregando suas enxadas para capinar e fazer a coivara no terreno onde fariam seus plantios. Os homens só puderam se juntar às mulheres depois de limpar o terreno onde plantariam as roças dos donos da fazenda.
A chuva a cada dia caía mais forte e se estendia por mais tempo, e com ela vinham as cores misteriosas do céu, dos animais e da gente que vivia em Água Negra. Francisco Peixoto, o herdeiro mais velho, voltou a aparecer com mais frequência, e Sutério, à sua frente, baixava um pouco a crista, guardando a valentia para sua ausência. Ora seu Francisco nos cumprimentava, ora fingia não nos ver. Na fazenda não havia uma sede
onde repousar, só o barracão onde guardava a produção e onde, não podendo ir à cidade, comprávamos mantimentos a preços altos, muito maiores do que na feira. Na fazenda nunca houve sede, escutava os trabalhadores dizerem, porque a família Peixoto tinha outras na região, maiores e mais produtivas que Água Negra, e era em alguma dessas que residiam.
No mesmo tempo, ainda antes do Dia de São José, o prefeito inaugurou a escola, que teve a construção — com telhas de cerâmica que nenhuma casa de trabalhador poderia ter — concluída no verão. O prédio recebeu o nome de Antônio Peixoto, pai dos Peixoto. Homem que, diziam, foi proprietário da fazenda, mas nunca havia posto os pés ali. Todos os moradores estiveram presentes à inauguração: as mulheres de lenços na cabeça; os homens de chapéu e enxada na mão; as crianças rindo da novidade, um pequeno prédio de três salas, e sem o tal banheiro que ninguém tinha mesmo. Da família Peixoto se fez presente também a irmã mais velha, que nunca havia visto por ali, uma senhora gorda e muito branca, que não dirigiu seu olhar para nós em nenhum momento. Levava um lenço aos olhos enquanto o prefeito falava. Quando retiraram o papel que cobria a placa com o nome de seu pai falecido, ela quase caiu, num choro convulsivo que fez com que seus irmãos a amparassem para que não desabasse de vez no chão. Nenhuma palavra de agradecimento a meu pai, que, na noite em que celebrava o jarê de santa Bárbara, havia requestado, quase ordenado, o cumprimento da promessa de construção da escola feito à santa no passado. Mas ele estava lá, em pé, um dos primeiros da audiência, segurando a mão de Domingas, e ao lado de minha mãe, com o rosto satisfeito. Pouco importava, poderia ver em seu semblante a luta que havia travado com as forças da encantada santa Bárbara para que tivéssemos um destino diferente do seu, para que não fôssemos analfabetos.
Meu pai não sabia nem mesmo assinar o nome, e fez o que estava ao seu alcance para trazer uma escola para a fazenda, para que aprendêssemos letra e matemática. Muitas vezes o vi tentar convencer algum vizinho que não queria que o filho fosse à escola; até concordava que o filho fosse, mas dizia que menina não precisava aprender nada de estudo. Mesmo
contrariando o compadre, conseguia com que seu pedido fosse acatado, grande era a consideração e prestígio que fluíam de sua liderança.
Demorou mais um tempo para que enviassem uma nova professora, substituindo a que dava aula três vezes por semana na apertada sala da casa de dona Firmina. No caminho para a escola, que fazia todas as manhãs, via os umbuzeiros com copas verdejantes, mandacarus floridos, a chuva mais fina que ainda caía mesmo depois do Dia de São José. Pensava em Bibiana e Severo, me perguntava se por onde andavam a chuva havia chegado também, se tinham encontrado abrigo em alguma fazenda ou cidade distante. Se os caminhos os haviam levado para a capital.
2
Na escola, sem Bibiana ao meu lado para me ajudar, minha vida se tornou um tormento. Desde o início, minha mãe avisou à dona Lourdes, a nova professora, da minha mudez. Ela foi cuidadosa, no começo, e bastante generosa para me ensinar as tarefas. Àquela altura eu já sabia ler, graças muito mais aos esforços de minha irmã mais velha e minha mãe do que da professora sem paciência que dava aula na casa de dona Firmina. Para mim era o suficiente. Diferente de Bibiana, que falava em ser professora, eu gostava mesmo era da roça, da cozinha, de fazer azeite e de despolpar o buriti. Não me atraía a matemática, muito menos as letras de dona Lourdes.
Não me interessava por suas aulas em que contava a história do Brasil, em que falava da mistura entre índios, negros e brancos, de como éramos felizes, de como nosso país era abençoado. Não aprendi uma linha do Hino Nacional, não me serviria, porque eu mesma não posso cantar. Muitas crianças também não aprenderam, pude perceber, estavam com a cabeça na comida ou na diversão que estavam perdendo na beira do rio, para ouvir aquelas histórias fantasiosas e enfadonhas sobre os heróis bandeirantes,
depois os militares, as heranças dos portugueses e outros assuntos que não nos diziam muita coisa.
Meu desinteresse só fazia crescer. Tinha a sensação de que perdia meu tempo naquela sala quente, ouvindo aquela senhora de mãos finas e sem calos, com um perfume forte que parecia incensar a escola nos dias de calor.
Olhava para o quadro verde, as letras embaralhadas, bonitas, mas que formavam palavras e frases difíceis que não entravam em minha cabeça, e pensava em meu pai na várzea encontrando coisa nova na terra para a qual se dedicar, ou minha mãe cuidando do quintal, dos bichos, costurando. E as horas modorrentas pareciam custar a passar para que pudesse tomar meu rumo para casa. Não evitava que meu pensamento encontrasse Bibiana naquela sala, talvez interessada na aula, próxima da professora, tentando fazer com que me interessasse também pelas coisas. Minha apatia vinha também de perceber que havia crianças muito mais novas, algumas mais dispostas a aprender, lendo com muitos erros, mas em voz alta, sendo interrompidas a cada duas palavras por dona Lourdes para lhes corrigir a pronúncia. Eu conseguia ler, acompanhava a escrita, conseguia identificar alguns erros nas pronúncias graças ao que havia aprendido antes. Domingas e Zezé frequentavam a escola em outro turno, havia uma diferenciação entre os estágios, talvez a presença deles até me desse algum ânimo. Me perguntava se naquele instante a irmã ausente tinha livros ou enxada nas mãos, se seguia com o sonho de ser professora. Comparava suas ambições às minhas, para concluir que, talvez por sermos diferentes naquele entendimento, tivéssemos certo equilíbrio em nossos vínculos.
Um dia inventava uma dor de cabeça, outro dia uma dor de barriga, e aos poucos fui fazendo valer minha vontade de voltar ao trabalho da roça e da casa. Deixei caderno e lápis num canto do quarto e, mesmo percebendo meu pai amuado com o meu desinteresse pela escola, fiz valer meu querer.
Se fosse a dor de cabeça o motivo para não ir à escola, logo após o começo da aula o padecimento passava, então me juntava à minha mãe na cozinha para preparar o almoço, ou me arvorava com um balde para a beira d’água para trazer o que precisávamos para aguar o quintal. Minha mãe, depois de muito aborrecimento, já se mostrava conformada, afinal eu já sabia ler e
escrever o necessário, e fazia rol de feira melhor que ela. Sabia fazer também contas simples. Seu coração ficou quieto. No mais haveria de concordar comigo que meu futuro não poderia ser melhor, no fim das contas eu não poderia dar aula em Água Negra, nem em povoado ou cidade próxima. Não se tinha notícia de professora muda nas redondezas. Em seu íntimo, assentia que eu não poderia ensinar já que não saía palavra de minha boca. Que era melhor que continuasse a minha andança por roça, quintal e cozinha, por marimbus, estrada e feira, para que na ausência deles pudesse me virar sozinha.
Poder estar ao lado de meu pai era melhor do que estar na companhia de dona Lourdes, com seu perfume enjoativo e suas histórias mentirosas sobre a terra. Ela não sabia por que estávamos ali, nem de onde vieram nossos pais, nem o que fazíamos, se em suas frases e textos só havia histórias de soldado, professor, médico e juiz. Não precisaria ouvir os risinhos das crianças quando repetiam quase ao infinito que eu não falava. Alguns me pediam para escancarar minha boca para que pudessem ver o que não tinha dentro.
Com Zeca Chapéu Grande me embrenhava pela mata nos caminhos de ida e de volta, e aprendia sobre as ervas e raízes. Aprendia sobre as nuvens, quando haveria ou não chuva, sobre as mudanças secretas que o céu e a terra viviam. Aprendia que tudo estava em movimento — bem diferente das coisas sem vida que a professora mostrava em suas aulas. Meu pai olhava para mim e dizia: “O vento não sopra, ele é a própria viração”, e tudo aquilo fazia sentido. “Se o ar não se movimenta, não tem vento, se a gente não se movimenta, não tem vida”, ele tentava me ensinar. Atento ao movimento dos animais, dos insetos, das plantas, alumbrava meu horizonte quando me fazia sentir no corpo as lições que a natureza havia lhe dado. Meu pai não tinha letra, nem matemática, mas conhecia as fases da lua. Sabia que na lua cheia se planta quase tudo; que mandioca, banana e frutas gostam de plantio na lua nova; que na lua minguante não se planta nada, só se faz capina e coivara.
Sabia que para um pé crescer forte tinha que se fazer a limpeza todos os dias, para que não surgisse praga. Precisava apurar ao redor do caule de
qualquer planta, fazendo montículos de terra. Precisava aguar da mesma forma, para que crescesse forte. Meu pai, quando encontrava um problema na roça, se deitava sobre a terra com o ouvido voltado para seu interior, para decidir o que usar, o que fazer, onde avançar, onde recuar.
Como um médico à procura do coração.
3
Meses depois que a escola abriu, chegou uma pequena leva de trabalhadores à fazenda. Dentre eles, uma mulher franzina de cabelos negros e lisos, de nome Maria Cabocla. Estava na companhia do marido e seis filhos. A família foi instalada em uma tapera nas terras onde morava tio Servó. Havia chegado também um homem alto e magro, talvez com idade para ser meu pai, que se tornou vaqueiro da fazenda. Tinha gestos discretos e era de pouca fala. Se apresentou como Tobias e passou a frequentar as festas de jarê em nossa casa. Fez amizade com Zeca Chapéu Grande e tinha grande apreço por histórias. Logo passaram a se encontrar nas roças e no barracão para ouvir as ordens do gerente da fazenda. Às vezes, eu o via nas trilhas da fazenda ou nas veredas para a várzea. Ouvia seu cumprimento —
bom dia, sinhá moça —, acenava com a cabeça, seguia meu caminho, mas sentia seus olhos queimarem minhas costas feito brasa.
Com o passar do tempo, Tobias já deveria saber de minha deficiência e não me importunava com perguntas. Retirava um raminho de sempre-viva do chapéu e ajeitava em meu cabelo. Sentia vergonha e incômodo. Não estava acostumada a ter que responder às cortesias de estranhos. Depois tive vontade de sorrir, mas, desajeitada que era quando precisava me relacionar com outras pessoas, só conseguia desviar meu olhar e seguir minha caminhada. Nas noites de jarê via o vaqueiro de prosa com outros moradores, por vezes se juntavam mulheres, como as meninas de dona Tonha, e ele continuava sorrindo, cortejando, principalmente depois de
tomar umas boas doses de cachaça. No começo senti indiferença, até gostava quando estava em prosas animadas com outras pessoas e seus olhos me deixavam quieta, ao lado de Domingas ou de minha mãe. Depois passei a me sentir inquieta e desconfiada, querendo talvez que dirigisse sua atenção a mim.
Tobias ganhou a confiança de Sutério e passou a guiar a boiada pela estrada, porque havia parado de chover e os pastos continuavam mirrados.
Muitos trabalhadores destinavam horas que deveriam dar nos roçados para cortar a taboa dos marimbus, que servia para dar de comer aos animais.
Mas, ainda assim, Tobias e outros vaqueiros por vezes levavam o gado para terrenos mais distantes, na beira do Utinga, no caminho da estrada de rodagem.
Ele também começou a substituir o gerente nos assuntos que precisavam ser resolvidos na cidade. Alguma encomenda que chegava, ou mantimentos para serem vendidos a preços altos no barracão. Nas conversas longe de Sutério, chamávamos o barracão de “um roubo”. “Vou ter que comprar em
‘um roubo’, não dá pra ir à cidade hoje”, era o que dizíamos aos cochichos, e terminamos por batizar o armazém. Tobias seguia com seu cavalo pela estrada até a cidade e voltava trazendo as encomendas em bocapios dispostos na carroça. Ao retornar de uma dessas andanças, veio pela estrada afoito, como se guardasse uma boa notícia. Quando eu via alguém nessa alegria desmedida, deixava minha imaginação correr livre e pensava de pronto que havia encontrado uma pedra de diamante, tirado a sorte grande e iria arrumar seus panos para partir. Apeou do cavalo, chamou meu pai, que havia acabado de chegar da roça, e lhe entregou um envelope. Meu pai não poderia ler, então passou o envelope para minha mãe, que perguntou o que era, e Tobias só fez repetir que lhe deram na cidade e que era para o compadre Zeca. Salu estava envelhecendo, e no cair da tarde, à luz de candeeiro, não enxergava mais direito. Deveria estar precisando de óculos, como a professora Lourdes. Passou o envelope para Domingas, que leu com os olhos que faiscavam refletindo a luz fraca. “É de Bibiana, mãe.”
Meu pai sentou numa cadeira. Não conseguia olhar fixamente para ninguém. Minha mãe suspirou por Deus, em prece para que fossem boas
notícias. Domingas rasgou o envelope, havia outro envelope dentro, esse destinado a Severo pai, nosso tio Servó. Tobias se aproximou de mim, seu gibão cheirava a couro que ainda curtia, seus olhos cercavam Domingas, mas logo se desviavam em minha direção. Minha irmã se pôs a ler, aproximando o papel de vez em quando do candeeiro. Parecia que o bilhete havia sido escrito com uma caneta fraca. Estavam todos bem, trabalhavam em uma fazenda na região de Itaberaba. Bibiana se aproximava de ganhar criança. Gostaria que nossa mãe fizesse o parto, tentaria voltar para o nascimento, mas se não desse, viriam no fim do ano. Severo estava trabalhando no corte de cana, tinha feito amizade com gente do sindicato.
Tinham notícias da chuva que havia encerrado o longo período de seca, porque lá também chovia. Que iriam tentar guardar dinheiro para comprar um pedaço de terra. Queriam ser donos da própria terra. Estavam bem, não lhes faltava nada. Que no início do próximo ano ela iria fazer um supletivo voltado para trabalhador rural e logo poderia fazer o magistério para ser professora. Perguntava por mim, Domingas e Zezé. Dizia que sentia falta de todos. Logo mandaria notícias.
“O que é que esses meninos têm na cabeça?”, perguntou meu pai sem esperar resposta.
Salu enxugou uma lágrima e levou o candeeiro para a cozinha, chamando Domingas para ler de novo. Senti conforto em saber que estavam bem, abrigados, dormindo sob um teto e se alimentando do próprio trabalho. Senti um tanto de mágoa também pela atenção que minha mãe dava à carta, pelo alvoroço que havia causado naquele momento, mesmo estando distante. Senti amargura pela simplicidade das palavras, pela culpa não expiada, pela voz que Bibiana me negava. Por eu estar na mesma linha da carta como um nome apenas, junto a Domingas e Zezé. Não havia nenhuma pergunta sobre como eu estava na escola, quem me fazia companhia, quem comunicava as coisas que eu precisava, como me desenrolava entre minhas atividades sem sua presença.
O cheiro do gibão de Tobias era uma mistura de suor e couro que ainda estava sendo curtido, como se não estivesse pronto para ser usado. Quase conseguia ver as moscas procurando restos de carne sobre seu corpo. Ele
trocou duas frases com meu pai, pediu licença, fez uma reverência se despedindo de mim e montou o cavalo. Ao vê-lo seguindo pela estrada, senti vontade de que desse meia-volta, voltasse ao meu encontro e pedisse a meu pai para me levar para seu rancho. Queria que cuidasse de mim, eu cuidaria dele. Queria experimentar a vida que Bibiana agora mostrava em sua carta, com sua letra bem desenhada, que levou Salu às lágrimas e deixou meu pai contrariado só na casca, por dentro feito de mel, com uma expressão séria, interrompida por chamas de luz que diziam o que não soube dizer: ele estava contente por saber que eles estavam bem e que pensavam na família. Senti vontade de que Tobias voltasse naquele instante, quiçá amanhã ou depois, mas que não demorasse a fazer de mim sua mulher também.
4
Quanto mais criança via nascer, mais sentia como se meu corpo vibrasse, em movimento, pedindo para parir, como a terra úmida parece pedir para ser semeada; e se não fosse semeada, a natureza faz ela mesma seu cultivo, dando a capoeira, o maracujá-da-caatinga e folhas de toda sorte para curar os males do corpo e do espírito.
Depois do fim da estiagem, nasceram crianças como orelha-de-pau em troncos apodrecidos nos charcos que se tornaram a vazante. Passei a acompanhar Salu quase toda semana para ajudar as mulheres no parto.
Crispina e Crispiniana engravidaram de novo, ao mesmo tempo, e ninguém perguntava mais quem era o pai do filho da segunda. A notícia que chegava a nossa casa era que viviam às turras. O segundo filho de Crispina vingou, o que para minha mãe foi de grande alívio. Temia que nascesse outro anjo e fosse desconsiderada como parteira. Seguia de casa em casa para pegar criança, com as forças do Velho Nagô, lembrava sempre, e se regozijava com o “Deus lhe pague”. Não vi minha mãe se queixar da quantidade de
mulheres parindo, do trabalho que não era pouco, do preparo do ferrado para evitar qualquer mal depois da parição, dos restos a serem enterrados no quintal, do cuidado com o corte do cordão do umbigo. O som da colher quente queimando o umbigo do recém-nascido e o cheiro de banha derretida que enchia o ambiente ficaram gravados em minha memória. Era o cheiro daquele ano movimentado de tanto trabalho, mas tido como de grande benção, diferente dos anos de seca, quando enterramos anjinhos na Viração.
Os dias se passaram como o vento. Nem Bibiana nem Severo vieram no fim do ano, como prometido. Nem mesmo um bilhete chegou para dizer se a criança havia nascido, se era menino ou menina, se se chamava Severo ou José, ou Salustiana ou Hermelina. Ou se se chamava Maria ou Flora, como chamávamos as bonecas de sabugo de milho de nossa infância. Minha mãe se demonstrava aflita, sensível a qualquer anúncio de chegada de um caixeiro ou vendedor de mantas e panelas, que poderia trazer um novo bilhete com notícias de Bibiana. Eu sonhei qualquer dia, porque me esqueci depois, que minha irmã dava à luz e que quem fazia o parto era meu pai, muito mais velho e encurvado pelos anos. No sonho, eu cantava as cantigas das lavadeiras da beira do rio e a criança, que deveria nascer chorando, vinha ao mundo sorrindo, como nunca havia visto.
Em dezembro, caiu um aguaceiro com trovoada, bem no dia da festa de santa Bárbara. Dona Tonha trouxe as vestes guardadas e engomadas do ano anterior para o jarê, e meu pai, quanto mais velho ficava, mais envergonhado parecia por ter que se vestir com saia e adê. Nem meu pai pôde prever em sua encantaria que as chuvas arrasariam um ano de trabalho duro nas roças de vazante. Mal havíamos saído da seca e passamos a sofrer com os prejuízos da cheia. Algumas casas, precárias, praticamente ruíram com a força da água e do vento.
“Se a água não levar, a gente come”, meu pai me disse entre uma capina e outra no roçado. A água levou tudo. As roças viraram charcos e lagoas, e em vez da mandioca e da batata-doce, que apodreceram debaixo de tanta água, pegávamos cumbás, molés, cascudos e jundiás onde antes era sequeiro. Boa parte das famílias havia armazenado farinha de mandioca fabricada ao longo dos últimos meses. O povo de Água Negra passou a seguir para a cidade antes de o sol raiar, sem conhecimento do gerente, se embrenhando pelas matas para não serem descobertos, na intenção de vender o peixe e comprar mantimentos. Pescavam dia e noite, e só não conseguiam pescar em noite de lua nova porque os peixes ficavam com os dentes moles e não seguravam as iscas. Para despistar Sutério, os trabalhadores deixavam vara e anzol escondidos na mata da beira da lagoa ou amarrados em galhos de árvores. Naquele verão me embrenhei muitas vezes na lama com Domingas e minha mãe para apanhar peixe. Zezé e meu pai continuavam a trabalhar na roça do alto, mais distante da vazante, aproveitando a chuva que se tornou constante naqueles primeiros meses.
Como havíamos cultivado nossos quintais desde o fim do longo período de estiagem, e muitas famílias fizeram o mesmo, abençoávamos a chuva e não lamentávamos, mesmo ao ver meses de trabalho debaixo d’água. Era doído ver a lavoura encharcada, mas tínhamos força e água para labutar com a roça de novo.
Naquele ano, continuei a ver Tobias. Eu o percebia me observando, me cercando com gestos corteses, mas era cada vez menor a frequência com que isso ocorria. Parecia dividir seu interesse por outras moças da fazenda.
Ressentida, passei a ignorá-lo nos caminhos ou nas noites de jarê. Por um tempo, cheguei a achar que fazia aquela cena de dengo para me atiçar a atenção. E de fato, sentia vontade de desviar meu olhar para saber até onde iria com a bebedeira a que se entregava nessas noites. Mas continha o querer, me lembrava de minha condenação ao silêncio, da minha timidez rude, arisca, que me fazia selvagem e afastava as pessoas.
Desviei muitas vezes meu olhar para evitar os olhos dele. Mas quando percebia sua distração em outras moças e pessoas, ou sua dedicação ao serviço, o observava ao longe e sentia o interesse crescer. Meu corpo se descontrolava como um potro, suava, exalava odores, tremia, fazia movimentos que levavam o coração à boca.
Me lembrava da chegada de Severo ainda menino a Água Negra. Mas não havia toda essa potência no desejo, era algo bom como asas frágeis se movendo em meu corpo. Agora
eu era uma fruta amadurecida convidando os pássaros a me bicarem, como os chupins que espantávamos dos arrozais até pouco tempo atrás.
Em certa manhã, meu pai se dirigiu a mim à mesa, que exalava o cheiro do café fresco que Salu coava. Disse que Tobias o havia procurado com respeito, porque queria me levar pra morar com ele. Falou que o homem se queixava da solidão na tapera da margem do Santo Antônio. Que tinha muita estima e consideração por mim. Por um minuto, imaginei meu pai alertando o homem do meu defeito, dizendo que a filha era deficiente, que tinha uma natureza forte, rude como uma onça, mas que tinha um bom coração. Imaginei meu pai lhe fazendo prometer que cuidaria de mim, que eu não conheceria sofrimento. Imaginei aquela conversa que nunca soube se existiu, porque nada foi dito sobre minha condição. Disse que não precisava responder logo, poderia pensar, e que só aceitasse se me sentisse pronta para ir, porque ele não queria conceder a mão da filha a qualquer um. Que só o fazia porque conheceu Tobias durante aquele ano e o considerava trabalhador e de respeito.
Não sei por que naquela hora me veio a imagem de Donana à cabeça.
Minha avó surgiu em meus pensamentos com sua brabeza, com seu chapéu grande, com seu punhal com cabo de marfim, com as histórias que me contavam sobre ela, com seus três casamentos e o mistério da vida de tia Carmelita, de que ninguém tinha notícias. Sobre que resposta daria se fosse ela a cortejada naquelas circunstâncias. Se sim ou se não, escreveria os rumos que daria à minha vida num pedaço de papel pardo guardado debaixo do colchão.
5
Deixei a casa de meus pais montada num cavalo e na companhia de Tobias, levando uma trouxa pequena de roupas, lembrando a mala de couro surrada de Donana que Bibiana havia retirado de debaixo da cama antes de partir.