Torto Arado
Fio de corte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Chupim aos montes e todo dia, ao alvorecer. Nós seguíamos para espantá-los com nossas armas. Chupim engana, é matreiro e preguiçoso.
Come o arroz que a gente planta — ouvíamos falar —, gosta de coisa pronta. Não batalha pelo seu grão. Chupim nos marimbus podia colocar ovos no ninho de xanã, no do sangue-de-boi de penugem vermelha cor de fogo, cantando “tiê, tiê” para os ovos dos filhotes que pensa serem seus.
Chupim coloca ovos no ninho de carrega-madeira que esteve construindo sua casa para abrigar sua cria — e as crias do parasita sem saber. Deixava seus ovos fecundados para serem chocados nos ninhos de xorró-d’água, cabeça-de-velho, sabiá-bosteira, sabiá-bico-de-osso, bem-te-vi, patu-d’água e guachu. Os ovos do chupim cresciam debaixo da beleza do canto do sofrê e até de zabelê no chão. Mas nunca vi ovo de chupim no ninho de paturi.
Por que será? É o que guardo das conversas que tínhamos quando nos encontrávamos em nossa casa, quando muito, na casa da família de tio Servó, no sequeiro do rio Santo Antônio.
Com a chegada do tio, ganhamos um tocador de pífaro para alegrar as festas de santos, porque as festas dos encantados eram dominadas pelos atabaques. Por muitos anos, a música do pífaro de nosso tio dominou nossas celebrações e as mais distantes, quando viajávamos para festejar são Francisco e outros santos de nossa estima nos povoados de Remanso e Pau-de-Colher.
No dia de são Sebastião, santo de devoção de nosso pai e celebrado na sua data de nascimento, havia a maior festa, a que mais agregava gente e a que mais trazia devotos de fora da fazenda. Muitos vinham de longe para seguir os rituais da brincadeira para festejar com bebidas e comidas as dádivas que haviam recebido dos encantados. Nós, crianças, permanecíamos distantes das atividades principais, os mais novos em brincadeiras ao redor da casa; os mais jovens disputando a atenção dos adultos. Eu e Belonísia ouvíamos a conversa das filhas de dona Carmeniuza e dona Tonha. Elas falavam da visita dos patrões às roças da fazenda.
Queriam saber se eles haviam chegado por aqui, se tinham levado as batatas
do nosso quintal também. “Mas as batatas do nosso quintal não são deles”, alguém dizia, “eles plantam arroz e cana. Levam batatas, levam feijão e abóbora. Até folhas pra chá levam. E se as batatas colhidas estiverem pequenas fazem a gente cavoucar a terra para levar as maiores” — disse Santa, arregalando os olhos para mostrar sua revolta. “Que usura! Eles já ficam com o dinheiro da colheita do arroz e da cana.” Poderiam muito bem comprar batata e feijão no armazém ou na feira da cidade. Nós é que não conseguíamos comprar nada, a não ser quando vendíamos a massa do buriti e o azeite de dendê, escapulindo dos limites da fazenda sem chamar a atenção. “Mas a terra é deles. A gente que não dê que nos mandam embora.
Cospem e mandam a gente sumir antes de secar o cuspo” — alguém disse, num sentimento de deboche e indignação.
Severo nos observava de longe, riscando um graveto no barro seco.
Quando já era madrugada minha mãe perguntou se havia visto Belonísia e Domingas. Domingas estava brincando com a filha de Jandira, na lateral da casa. Belonísia eu havia perdido de vista. “O povo está indo embora”, disse minha mãe. Pediu que levasse minha irmã para a cama. Não obedeci logo, deixei Domingas num canto, parecia não ter sono àquela altura, quando dei uma volta ao redor da casa procurando por Belonísia. Não muito distante, debaixo do umbuzeiro quase seco, vi uma sombra que se distinguia do resto da escuridão da noite. Era uma noite fresca e parte das pessoas que iam embora estava agasalhada para caminhar para suas casas. Outros abraçavam o próprio corpo, tentando se aquecer. Me aproximei devagar da árvore onde se abrigava a sombra e, antes que chegasse mais perto, a vi se dividir. Belonísia deixou o abrigo como se nada tivesse acontecido. Passou por mim de cabeça erguida e sorrindo. Antes que eu me aproximasse mais, Severo também deixou o umbuzeiro e seguiu em direção aos pais que estavam prontos para caminhar até sua casa com o candeeiro que tremulava a luz ao longe nas mãos.
Sem conseguir dormir o resto da noite, nem olhar para minha irmã, fui tomada por um sentimento de decepção e rivalidade que desconhecia até aquele instante.
8
Ao amanhecer, fiz chegar a minha mãe a mensagem de que Belonísia estava com primo Severo debaixo do umbuzeiro na noite passada. Sem ter certeza do que vira, mas intuía, adicionei à narrativa a visão de um beijo. Pela primeira vez vi os olhos de minha mãe crisparem e, sem esperar explicações, antes que meu pai soubesse, se encarregou da punição: uma surra de sandália. Cada batida que ouvi Belonísia receber ardia em minha pele. Fui invadida por uma estranha vontade de vingança, pela traição que vi naquele ato, ao mesmo tempo que doía em mim, por nunca ter visto minha irmã apanhar, e porque, desde o acidente, nós havíamos mantido uma relação de reciprocidade maior do que as gêmeas de compadre Saturnino.
Até aquele instante Belonísia havia sido mais próxima de minha mãe, enquanto eu sempre havia me sentido mais ligada ao pai. Mas a surra repercutiu mais em seu íntimo do que o ardor e o machucado na pele. Com medo da reação de meu pai, minha mãe não compartilhou o ocorrido.
Nunca soube ao certo, mas deve ter dado um jeito de falar com tio Servó sobre o sucedido, de mandar um recado por alguém ou algum bilhete, afinal ela sabia escrever. E durante um tempo considerável não vimos Severo.
Nem mesmo nas brincadeiras de jarê que continuaram com a regularidade de sempre em nossa casa.
Belonísia ficou por semanas sem me olhar diretamente. Passava do quarto para a sala, ou mesmo para o quintal ou terreiro, interagia com os outros irmãos, mas me ignorava. O sentimento de decepção que eu tinha sobre o incidente aos poucos foi se desfazendo diante da mágoa que ela externava. De repente, senti um enorme pesar por ter feito minha mãe castigar Belonísia e, ao mesmo tempo, por ter afastado, de forma involuntária e sem medir as consequências, Severo de nossa convivência. A casa se tornou mais silenciosa, apesar das traquinagens de Zezé — quando não estava na roça com o pai — e Domingas, e do movimento de gente que
aparecia quase todos os dias procurando os préstimos do curador Zeca Chapéu Grande. Vi também o remorso no semblante de minha mãe pelo que tinha feito. Salu era enérgica, falava de forma firme e sem hesitar, mas nunca tinha levantado a mão para bater em qualquer filho, muito menos com uma sandália. Ela tentava reparar seu ímpeto de correção oferecendo a Belonísia uma caneca de mingau antes de qualquer um de nós, ou deixando para ela os trabalhos domésticos menos fatigantes, como lavar a louça no jirau, enquanto para mim destinava o carregamento de baldes de água do poço ou do rio.
Se minha irmã demonstrava desencanto em relação à reação de nossa mãe, comigo ocorreu pior. O sentimento que Belonísia me destinou naquelas semanas foi de total desprezo. Ignorava qualquer gesto de aproximação que eu fazia, o que só aumentava meu arrependimento. Era orgulhosa e conduzia muito bem suas decisões, apesar da pouca idade. Eu não sabia o que havia se passado naquele dia, o que a levou a estar a sós com Severo. Nós, que compartilhávamos tudo sobre nossas vidas, nunca falamos sobre o interesse que passamos a sentir desde a chegada de nosso primo. Talvez houvesse o medo de nos desapontarmos mutuamente, já que era notório, para nós duas, o encanto que nutríamos por ele. Talvez fosse mais cômodo manter uma disputa velada, acreditando que nenhuma de nós ultrapassaria a linha imaginária que traçamos para aquele caso.
Tudo começou a mudar numa tarde, após um temporal inesperado, quando minha mãe fechou a casa e nos levou para o rio Santo Antônio, com latas e vara de pescar para capturar os peixes que chegariam com a correnteza. Eu e Belonísia seguimos afastadas, interagindo com Domingas, mas sem partilhar qualquer comunicação. Nas primeiras vezes em que minha mãe enviava recado a uma ou a outra, como sempre fizera, nos esquivávamos, e Domingas assumia a função de replicar a informação.
Quando minha mãe percebeu o mal-estar que havia se introduzido entre nós, tratou de nos repreender com rigor, que aquela não era a atitude de duas irmãs que conviviam na mesma casa, que cresceram na mesma barriga e que vieram ao mundo pelas mãos do encantado Velho Nagô. Que ela havia parido irmãs, e não inimigas, e que não iria tolerar mais nossos
calundus. Era bom que voltássemos a nos comunicar porque não admitiria malquerença entre suas filhas. Não houve contestação à repreensão de nossa mãe, mas tampouco alguma reação de nossa parte para restabelecer nossa interação. Com um significativo espaço de tempo desde o episódio da surra, passamos a nos comunicar com os sorrisos que Domingas nos provocava, com sua curiosidade e com as coisas que encontrava na estrada. Uma tangerina madura era disputada pelas duas, e Domingas tentava me envolver também. Por fim, Domingas dividia os gomos sumarentos para dizer que havia degustado os maiores e os mais doces.
O rio estava com forte correnteza e minha mãe nos levou para uma pequena lagoa, tributária das águas do Santo Antônio. Passamos a cavar a terra molhada e a retirar algumas minhocas para servirem de isca.
Domingas dizia que retirava as maiores minhocas, ria das minhocas que Salu e eu retirávamos. Minha mãe com suas mãos habilidosas transformava as pobres minhocas em sanfonas encolhidas, com seus corpos transpassados pelo anzol. “Tá parecendo são Sebastião”, e todas rimos juntas, menos minha mãe, que censurou: “Não brinca com o santo, Domingas. Onde já se viu?”.
A lagoa era lodosa. Sua superfície estava repleta de algas verdes, mas a cheia tinha trazido peixes, que fisgavam com rapidez as iscas. Domingas ia nomeando, com a ajuda da mãe, a qualidade dos animais. Cascudo tem de monte. “Cascudo anda em rebanho, Domingas.” “Cascudo tem pouco peixe” — queria dizer pouca carne — “pega outro”, ria Domingas. “Cuide da sua vara e do seu anzol”, dizia minha mãe, atenta ao céu, para saber se viria mais chuva. “Beliscou, mãe”, Domingas arregalou os olhos. Senti uma fisgada em minha linha também, e vi que Belonísia levantava a sua vara.
“Um apanharí”, disse minha mãe, “Segura, Belonísia, esse vai pro almoço.
Espera que te ajudo”, e correu para ajudar a puxar. O meu se debatia tentando se desgarrar do anzol, e Domingas se aproximou de mim. “Ajuda sua irmã, menina” — orientou minha mãe enquanto tentava salvar o seu pescado. Quando ergui o peixe, vivo, tentando retornar para a água para respirar, vi Salu, satisfeita, identificar que era um molé e que o prepararia cozido no dendê.
Passamos mais uma hora daquela manhã capturando os peregrinos que chegavam à lagoa de Água Negra, levados pela chuva. No retorno para casa, tínhamos que atravessar novamente o lodaçal dos marimbus descalças.
Nossas sandálias grudavam na lama de tal forma que não conseguíamos erguê-las nos pés. “Pisem devagar” — disse minha mãe, para que não nos machucássemos em pedras e lascas de madeira que porventura estivessem submersas naquele grande lago de lama para chegar à estrada. De súbito, senti meu pé pisar em algo duro, e meu rosto se contraiu de dor. Havia ferido meu pé, um corte profundo, com algo parecendo um pedaço de louça.
Belonísia, que estava mais perto de mim, me ajudou a levantar a perna, a chegar na estrada e retirou, com as orientações gritadas por Salu, que atravessava com dificuldade o charco, o objeto que havia cortado meu pé.
“Não disse para terem cuidado?” Era um casco de caramujo abandonado, quebrado, entranhado como um espinho. Eu mesma não tive coragem de retirar, comecei a chorar de dor. Belonísia me segurou e puxou de uma vez.
Domingas, que agora chegava mais perto, pedia “deixa eu ver, deixa eu ver”. Fomos para a beira do rio para lavar os pés. Um sangue grosso e substancioso deixava meu corpo pintando a terra com seu vermelho cor de pássaro. Salu colheu uma erva, uma folha e outra, para esmagar entre os dedos e pôr em cima do ferimento, até chegarmos a casa e saber o que meu pai iria fazer.
9
Voltei para casa apoiada em minha mãe e em Belonísia, pulando de um pé só. Afora o corte profundo que me impediria de colocar o pé no chão por muitos dias, senti certo alívio ao perceber que minha irmã havia voltado a se comunicar comigo; ela me serviu de apoio por semanas junto a Domingas, permitindo que andasse com as mãos repousadas em seus ombros nos deslocamentos que precisava fazer.
Sofri um tanto com o pé cortado, sem poder andar por terreiro e quintal, por roça e beira de rio. Aquele era o nosso pacto de vida, desde o fatídico dia em que a faca de Donana havia fendido nossa história, decepado uma língua, impedido a produção de sons, ferindo a vaidade de uma Mãe d’Água, mas unindo duas irmãs nascidas do mesmo ventre, em tempos diferentes, pela vida até aquele instante. Meu encanto por primo Severo não era maior do que o que sentia por minha irmã, do sentido de proteção que lhe devia, da proteção que ela me devotava também. Não fosse o pé ressentido pela ferida que a tarde de pesca me havia produzido, talvez permanecesse ainda por mais tempo distante de Belonísia. Sem a comunicação era como se nos silenciássemos mutuamente. Era silenciar o que tínhamos de mais íntimo entre nós. Sem poder me tocar, ela não poderia sentir a vibração da respiração em meu corpo. Sem poder lhe tocar, não poderia sentir a velocidade com que o rio de sangue corria em suas veias.
Não poderia saber, a partir da sua agitação interior, seus humores, se bravos ou mansos. Não poderia olhar para meus olhos e perceber, apenas com o exame de meus movimentos, o que intencionava.
Aos poucos, fomos superando a desordem, e ao mesmo tempo que nos aproximávamos, evitávamos falar sobre Severo. Ele passou a ser apenas mais um membro da família e, na distância dos nossos sentimentos, todo o encantamento que ele nos produziu pareceu estar enterrado. Era esperado que o tempo cuidasse daquela paixão repentina e nos devolvesse apenas os laços de família. Meu pai, misteriosamente, parecia não saber sobre o ocorrido, ou, se sabia, preferiu não demonstrar, por qualquer motivo moral ou místico que nunca poderíamos saber.
Voltamos a ver primo Severo em nossa casa nas brincadeiras de jarê, acompanhado de tio Servó e Hermelina, além dos primos menores, que cresciam espantando a praga do chupim dos arrozais. Fazíamos cumprimentos formais, sem grandes emoções, como quando o conhecemos ao chegar à fazenda. Crescíamos a olhos vistos. Eu e Belonísia já enterrávamos nossos restos de regra com um punhado de terra. Cobríamos nossos seios com um tecido para que os mamilos não despontassem através do pano de nossos vestidos. Os homens da fazenda cresciam os olhos para
nós duas. Mas nada mais que isso, afinal, éramos as filhas do curador Zeca Chapéu Grande. Meu pai era respeitado pelos vizinhos e filhos de santo, por seus patrões e senhores, e por Sutério, o gerente. Era o trabalhador citado como exemplo para os demais, nunca se queixava, independente da demanda que lhe chegava. Por mais difícil que fosse, arregimentava os vizinhos e trabalhava para entregar o que lhe foi encomendado com o esmero que lhe era creditado. Represava água de rio para algum pedido de irrigação que lhe era feito por Sutério. Reunia os compadres para cortar madeira e conter com grande engenhosidade um afluente. Pastoreava o gado da fazenda, levando-o para comer onde houvesse verde. Era o trabalhador da mais alta estima da família Peixoto. A ele recorriam para trazer novos trabalhadores para Água Negra, porque confiavam na sua responsabilidade com a fazenda. Confiavam na sua capacidade de persuadir e de reconciliar os que viviam em conflito, por cerca ou por animal solto que acabava em suas roças provocando prejuízo.
Por isso, diferente das jovens de nossa idade, e mesmo com os olhares invasivos que nos despetalavam como flores, éramos quase intocáveis ao assédio tão comum dos homens sobre as meninas que chegavam à mocidade. Muitas caíam sob o peso da insistência, não resistiam às abordagens, e com as bênçãos dos pais se uniam com seus corpos ainda em formação. Sucumbiam ao domínio do homem, dos capatazes, dos fazendeiros das cercanias.
A família Peixoto queria apenas os frutos de Água Negra, não viviam a terra, vinham da capital apenas para se apresentar como donos, para que não os esquecêssemos, mas, tão logo cumpriam sua missão, regressavam.
Mas havia os fazendeiros e sitiantes que cresceram em número e que exerciam com fascínio e orgulho seus papéis de dominadores, descendentes longínquos dos colonizadores; ou um subalterno que havia conquistado a sorte no garimpo e passava a exercer o poder sobre outros, que, sem alternativa, se submetiam ao seu domínio.
Numa dessas manhãs, minha mãe chegou inquieta e procurou dona Tonha para uma conversa. Eu me interessava mais pela vida alheia do que Belonísia, dispersa que ela ficava nesses momentos. Me pus a lavar as louças no jirau, enquanto escutava as duas.
Falavam de Crispiniana, que estava com barriga crescida. Que havia levado uma surra de compadre Saturnino. Constatavam como era difícil para um pai, viúvo, criar filhos sozinhos. E filhas dão mais trabalho. Vêm com barriga para dentro de casa. E depois? Quem cria as crianças? Diziam que Crispiniana se recusava a dizer quem era o pai. Que tiveram que retirá-la de casa por uns dias com receio de que Saturnino a matasse. E as conversas já iam de boca em boca pela fazenda. Quem seria o pai da criança? Algum trabalhador de fazenda vizinha? Alguém de Água Negra mesmo? “Se o pai bateu tanto assim, comadre” — ponderou dona Tonha —,
“será que esse filho não é do cunhado que desgraçou a irmã na loucura, por causa de Crispiniana mesmo?” Minha mãe semicerrou os olhos, incrédula:
“Será, comadre? Isidoro? Que se juntou com Crispina?”.
Passaram-se dias, e Belonísia veio me comunicar o que havia escutado de conversa de Salu com dona Tonha: que as irmãs Crispina e Crispiniana estavam sem se falar. Que Crispina estava de barriga de Isidoro, mas Crispiniana estava de barriga mais avançada e ninguém sabia quem era o pai. Que havia apanhado mais que mala suja. Que nossa mãe ficou ofendida porque compadre Saturnino disse que deixaria a filha sem a língua, como a filha de compadre Zeca. Que agora elas se miravam de sua porta e se insultavam com toda a discórdia que poderia existir entre duas mulheres, que ocuparam o mesmo ventre, mas que na vida se desconheciam como irmãs. Que o pai estava desgostoso e tinha dado pra beber de descontentamento.
Belonísia demonstrava firmeza em seu semblante. Estava muito claro que ela havia assumido um lado nessa história. Embora primo Severo não fosse mais um empecilho para nossa irmandade, e o encanto por ele parecesse ter se esvanecido. Seu posicionamento me soou como uma advertência sobre até onde poderíamos ir, enquanto irmãs.
10
Naquele tempo, minha mãe já havia assumido em definitivo o ofício de parteira. Meu pai, que era o parteiro até então, transferiu a responsabilidade para Salu. A formalidade do homem simples e cavalheiro se refletia na vergonha que sentia diante das mulheres de seus compadres e filhos de santo. Tudo isso o fizera designar minha mãe para a lida com os nascimentos. Enquanto Donana vivia e tinha saúde, assumiu a missão com toda deferência que o nascimento de um novo ser poderia ter. Minha avó dizia que não fazia parto, quem o fazia era a mãe, apenas ajudava. Ajudava desde as moças, que se uniam muito cedo ou engravidavam de viajantes e trabalhadores, até as vacas, éguas e cadelas. Tinha mãos pequenas, capazes de virar a criança no ventre de um lado a outro. Era no que acreditavam, caso não houvesse o movimento certo para o nascimento, ou a criança não estivesse bem encaixada.
Durante esse período em que Donana cuidava dos partos em Água Negra e propriedades vizinhas, minha mãe foi sua ajudante. Observava os movimentos do corpo, rezas e interditos; o que poderia e não poderia ser comido, bebido, feito. Aprendia sobre o tempo certo para o banho da criança e da mãe, ou a tesoura nova que ficava guardada esperando o nascimento. Atentava para as provações do resguardo. Quando minha avó já não podia ajudar mais, Salu passou a acompanhar meu pai, que, como curador, prestava a assistência de que as mulheres necessitavam. Nunca vi meu pai nessas missões, mas minha mãe relatava para as comadres todo o constrangimento que ele transparecia ao tocar no corpo de uma mulher prestes a dar à luz. Por vezes as acomodava no chão, enquanto estavam amparadas por uma mulher da família ou vizinha, e as tocava com o pé direito na barriga, para capturar mensagens dos movimentos da criança, se havia ou não chegado a hora do parto.
Mas não era meu pai quem estava ali, constrangido, envergonhado de estar com uma mulher em uma delicada posição, com dores lancinantes, se contorcendo em gestos bruscos que faziam despontar um seio desnudo ou sua genitália. Muitas vezes a roupa mal cobria o corpo. Era um encantado, o Velho Nagô, antigo conhecido do povo de Água Negra. Era o senhor do corpo e do espírito de meu pai, das bênçãos e curas que chegavam aos
necessitados e à terra. Foi também o Velho, segundo meu pai, que designou Salustiana Nicolau como parteira. Eram as forças do seu encanto que guiavam as mãos e os saberes de comadre Salu na condução do parto. Pelo menos era isso que dizia quando era indagado por alguém que não tinha vivência em nossas paragens.
Fusco latia de forma incessante no terreiro de casa. Belonísia conduziu o mensageiro pela porta e o fez aguardar por minha mãe na sala. Uma das gêmeas de Saturnino estava em trabalho de parto, se contorcia de dor na casa de barro em que vivia, nas margens do rio Santo Antônio. No afã da notícia, não soube dizer qual das filhas estava prestes a parir, mas pelas contas de minha mãe deveria ser Crispiniana, a que havia se hospedado em nossa casa com Crispina — que eu recordava com a situação extrema de desencanto causada, em parte, pela própria irmã.
Era coisa urgente, pelo rosto desesperado do mensageiro. O pai estava em tempo de amarrá-la, por não conseguir deixar coisa alguma em pé dentro de casa. Parecia estar abrigando algum espírito perverso. Seus olhos ardiam feito brasas e os gritos podiam ser escutados a algumas léguas de distância. Os sons que percorriam o vale eram ecos assustadores, gritos de fúria, que nos chegavam com o vento morno da tarde.
A casa ficou sob a responsabilidade de Belonísia, e, diante da urgência, minha mãe me levou como companhia, e seguiu o caminho um tanto aflita com as notícias trazidas sobre o estado da gêmea. Ainda recordo como sua tensão se avolumou ao sermos alcançadas por um dos bramidos, atirado em nossos rostos como um bafo quente e colérico. “Misericórdia!”, teria clamado ao Velho Nagô em sua prece não tão íntima, quebrando a concentração que se infligia naqueles momentos em que precisava dar sentido à expressão de outros seres para sua tarefa, assim como meu pai fazia.
Naquele dia, os objetos que compunham a paisagem daquela casa se comportavam como se estivessem vivos. Havia uma árvore derrubada e retalhada em achas, certamente para abastecer o fogão da casa de Saturnino e de todos os outros filhos, que germinaram suas moradas ao redor. Havia um pequeno monte de jacas moles que atraía grande quantidade de moscas
e até abelhas. Havia restos de forquilha e barro, outro tanto de terra acondicionado em poucas latas. Certamente mais uma casa para a colmeia que a família de Saturnino estava formando em Água Negra. Havia objetos lançados pela porta: pente, frasco vazio de perfume, canecas e pratos de esmalte, uma grande bacia amassada, mas que preservava certo brilho diante da sua presumível antiguidade.
Minha mãe não tinha a mesma força que a sogra diante desses eventos.
Era como se Salu fosse mais humana e falível que Donana. Minha avó transitava como uma entidade viva, quase sobre-humana. Mesmo assim, Salu adentrou a casa com a altivez e a autoridade que emanavam da sua posição de mulher do curador Zeca Chapéu Grande. De imediato, pude entrever o transtorno na fisionomia da mulher em trabalho de parto.
Incontrolável, avançou para agredir Salu. Naquele momento, pude antever a beleza do que nos aguardava. Cresci em meio às crenças de meu pai, de minha avó, e mais recentemente de minha mãe. Os objetos, os xaropes de raízes, as rezas, as brincadeiras, os encantados que domavam seus corpos, tudo era parte da paisagem do mundo em que crescíamos. Mas a transformação da mulher hesitante, que vinha na estrada em preces por misericórdia e bem-aventurança, na força que se antepunha à perturbação de uma grávida transtornada pelas dores, e talvez por espíritos que desconhecíamos, era um milagre de energia. De tão habituada à assertividade de Zeca, eu nunca havia sido capaz de contemplar com a atenção que agora tinha. Diante de meus olhos, vi minha mãe erguer sua mão direita e segurar com força o braço que avançava rompendo o ar para lhe atingir. Bastou esse gesto para que cessassem os urros e a cólera da mulher, e um fluxo de serenidade se instaurasse entre os presentes.
Era Crispiniana quem estava em trabalho de parto. Que, talvez afligida pelo abandono e pela solidão de amar o homem de sua irmã, havia se deixado levar por uma torrente de mágoas tão semelhantes às mágoas da outra que tempos atrás a fizeram chegar amarrada à nossa casa. Minha mãe a levou para a cama, com a ajuda de tia Hermelina, que nos encontrou no meio do caminho, e fez com que repousasse. Dali a algum tempo nasceria um menino, e seu vagido anunciando a vida preencheria o espaço onde
poucas horas antes havíamos escutado os urros de dor e delírio de sua mãe.
Exausta, Crispiniana adormeceu com a criança em seu peito. Já não chorava de agonia por seu futuro nem pelo dele. Assim como a mão do Velho Nagô pacificou seu corpo em cólera, seu filho confortou naqueles dias seu coração dos maus-tratos de que tínhamos conhecimento.
O perdão brotou no rosto de Saturnino quando sorriu, meio bobo, ao encontrar o rosto do menino.
Crispina observava tudo de sua janela, do outro lado do terreiro, sem saber expressar a remissão que seu pai e mesmo sua irmã esperavam.
Isidoro, talvez envergonhado, tinha preferido seguir para a roça, incapaz de encarar as gêmeas diante do mal que julgava ter feito. Passaram-se vinte e oito luas quando minha mãe foi chamada de novo para ajudar no parto, dessa vez de Crispina. Seria de novo dia de lua cheia.
Quem a acompanhou foi Belonísia, mas, pouco tempo depois de terem partido, minha irmã voltou sozinha e aflita para levar meu pai. Algo adverso acontecia a Crispina e minha mãe achou por bem buscar Zeca. Com o pé direito na barriga da mulher, meu pai viu que não havia movimento da criança.
“É um anjo”, minha mãe disse. A sentença que ninguém queria ouvir naquelas horas.
11
Todos temeram, por algum tempo, que Crispina tivesse uma recaída do seu acesso de loucura, que desaparecesse como no passado, ou mesmo que precisasse ser recolhida a nossa casa para tratar novamente dos males de sua alma. Chegavam notícias de que ela havia mergulhado num estado de melancolia preocupante, sem comer ou cuidar da própria higiene. Isidoro zelava por ela, sacrificando em parte seu trabalho na fazenda, expressando preocupação com a tristeza da mulher. Havia o peso da irmã instalada ainda
na casa do pai, no outro lado do terreiro, com seu sobrinho crescendo saudável, sobrinho este que talvez fosse filho de seu companheiro.
As coisas não se resolveram de forma fácil, mas o tempo cuidou para que as emoções esmorecessem. Soubemos que, apesar da indiferença que Crispina havia demonstrado durante o difícil trabalho de parto de Crispiniana, a gêmea não hesitou em procurar pela irmã, que, mergulhada em sua melancolia, foi incapaz de reagir e se deixou cuidar como se fosse a sua mãe ausente quem fazia aquela tarefa. No princípio, Crispiniana evitou levar o pequeno consigo, temendo sua reação, que pudesse considerar a presença da criança uma afronta ao seu sentimento de perda. Ainda, porque temia que pudesse Crispina vislumbrar algum traço de Isidoro em seu rosto.
Mas a própria criança, com seus gestos inocentes de choro ou satisfação, se encarregou de despertar um brilho na palidez das atitudes da tia. E como as coisas que não podemos explicar ou entender, aconteceu que o leite de Crispiniana secou. Nunca saberemos se foi uma ação deliberada da mãe, ou um dos eventos místicos tão comuns na vida do povo de Água Negra. A irmã que estava mergulhada na melancolia pela perda do filho, mas atenta ao desconforto revelado no constante berreiro do sobrinho, o abrigou em seu seio sem que ninguém precisasse pedir por isso. Talvez de forma instintiva tenha deixado a criança por si só perseguir seu leite que, mesmo passados tantos dias da chegada do filho natimorto, ainda minava feito uma fonte de água, como as que surgem nas serras que circundam a Chapada Velha. Era o gesto que faltava para unir as gêmeas, por um breve tempo, até as próximas disputas e brigas, num movimento de afeto e rancor que faria parte de seus dias até o fim de suas vidas.
Vi o menino dando seus primeiros passos e depois correndo para o seio da tia, em plena brincadeira de jarê, numa das muitas celebrações da liturgia em nossa casa. A última vez que o vi mamar no seio de Crispina, na conversa tímida que tinham diante da audiência, o menino já se aproximava dos dois anos. Era forte, ativo, parecia muito com as duas irmãs e com o compadre Saturnino, nada guardando dos seus traços da possível paternidade de Isidoro.
Foi na noite de santa Bárbara, em dezembro, e meu pai, apesar de suas obrigações nas brincadeiras de jarê, havia acordado mal-humorado, com respostas lacônicas às perguntas que lhe faziam. Só os mais próximos, como nós, sabíamos o porquê do desconforto visível em seus gestos. No fim da tarde, dona Tonha trouxe, numa caixa antiga, adornos de encantada que meu pai vestiria à noite, depois da ladainha e à medida que os espíritos chegassem e lhe tomassem o corpo para se fazerem presentes. Na caixa estavam guardadas as roupas de santa Bárbara, Iansã, a dona da noite, lavadas e passadas desde a última vez que Zeca a havia vestido. A repulsa pelas vestes era tanta que a roupa não era guardada no quarto dos santos como as demais, mas na casa de Tonha, ela mesma cavalo para a encantada nas noites de jarê.
Zeca Chapéu Grande se envergonhava de ter que deixar as calças que honravam a sua posição de liderança na fazenda, como pai espiritual, e vestir saias, emprestando seu corpo a uma mulher. Fazia porque era a sua obrigação, compromisso que havia assumido quando se curou da loucura e se fez no santo na casa de João do Lajedo, em Andaraí. Mas se envergonhava, porque a audiência era formada por seus compadres e vizinhos, que muitas vezes conduzia nos trabalhos de mutirão para a fazenda.
Nessa noite, fiquei ao lado das filhas de santo que o ajudavam a se trocar durante a celebração. Os tocadores aqueceram seus tambores na fogueira acesa no terreiro. A primeira a chegar, após a ladainha e a saraivada de fogos, foi justamente a dona da festa, santa Bárbara; a caixa trazida por dona Tonha continha a saia vermelha, o adê e a espada de Iansã, todos os adornos que a santa vestiria. O quarto dos santos, onde rezavam a ladainha, tinha velas acesas e uma profusão de cores das imagens e bonecas. Havia imagens de gesso e madeira de diferentes tamanhos e estados de conservação. São Sebastião, Cristo Crucificado, o Bom Jesus, são Lázaro, são Roque, são Francisco, padre Cícero. Havia pequenos quadros, uns de cores vivas, outros desbotados, de são Cosme e são Damião, Nossa Senhora Aparecida, santo Antônio. Havia fotografias de meus pais, da velha Donana, outras tantas, pequenas, de devotos. Havia flores de papel, algumas
mais novas, outras pálidas. Sempre-vivas, que colhíamos na estrada ou nas cercanias, entre as rochas.
Fazia calor. Os presentes suavam e enxugavam o suor com as costas ou a palma das mãos, sem deixar os lábios vacilarem na prece. Havia muita gente e o quarto era tão pequeno que a maioria acompanhava da sala, principalmente as mulheres e os homens mais velhos. Os mais jovens e as crianças ficavam alheios às rezas e conversavam em tom baixo; as crianças brincavam e, quando saíam de controle, uma das mulheres se virava para reclamar e pedir silêncio, com os dedos em riste e olhos arregalados.
Havia beleza nos cantos que antecediam a aparição da encantada, e muito mais encanto quando meu pai deixava o quarto dos santos para dançar ao som dos atabaques, no meio da sala. Era um homem magro, mais baixo que minha mãe, e com um tom de pele mais claro que o nosso. Não era jovem, e carregava no rosto os traços de sua idade. Sulcos profundos, vales na sua pele erodida pelo sol e pelo vento, que ainda enfrentava todos os dias para plantar e ter direito à morada de sua família na fazenda. Àquela época, Zeca Chapéu Grande já parecia um ancião, guia do povo de Água Negra e das cercanias, referência para todos os tipos de assuntos, desde divergência de trabalho a problemas de saúde.
Dali, do quarto quente dos santos que rescendia a suor e alfazema, Zeca, que agora abrigava santa Bárbara, vestia a saia vermelha e branca, engomada com todo zelo por dona Tonha, e com o rosto encoberto pelo adê lustroso, ornado de contas vermelhas, saiu empunhando a espada de madeira feita por ele mesmo. A espada, pequena, cortava o ar com seus movimentos ágeis. “Ê, santa Bárbara, virgem dos cabelos louros, ela vem descendo com sua espada de ouro”, a audiência batia palmas e cantava em coro, seguindo o tocador de atabaque. Enquanto os homens aceleravam o toque, santa Bárbara se agitava em seus passos e giros. Duas mulheres arriaram no chão, com os olhos semicerrados e movimentos que anunciavam a chegada de mais santas Bárbaras. Foram conduzidas para o quarto por minha mãe e dona Tonha para que pudessem colocar suas vestes também.
Severo, nas últimas brincadeiras de jarê, havia se postado mais próximo aos tocadores. Atento aos toques, já arriscava bater sozinho no couro aquecido, tentando reproduzir o ritmo. Estava maior e mais forte. Tinha um sorriso luminoso, a pele mais negra pela faina debaixo do sol. O corpo irrompendo das roupas, que estavam pequenas. Os olhos de Belonísia, assim como os meus — sei que ela também me notava —, perseguiam com atenção seus gestos. Tio Servó também assumia, por um breve tempo, um dos atabaques, sempre no começo da festa, ou quando um encantado de sua estima, como Tupinambá, vinha girar na sala entre os presentes. Muitas vezes, Sutério vinha participar da audiência e também ensaiava tocar o atabaque nos intervalos entre um giro e outro.
Nessa noite, em particular, estava presente o prefeito. Havia cinco anos, meu pai tinha atendido um de seus filhos. Vieram buscá-lo de carro, um Gordini vermelho, coisa nunca vista em Água Negra. Até então só conhecíamos a Ford Rural da fazenda e os carros que vimos na estrada quando fomos para o hospital por causa do acidente. Desde então, o prefeito aparecia na festa de santa Bárbara. Da primeira vez, meu pai não aceitou seu pagamento, mas pediu que trouxesse um professor da prefeitura para que desse aula às crianças da fazenda. Contava que viu um tanto de constrangimento no rosto de Ernesto, que, sem escapatória, fez a promessa.
A gratidão por meu pai e pela encantada era grande, por isso teve que cumprir o que prometeu. Havia também o medo de que o encantamento que curou o filho se desfizesse. Então, meses mais tarde, viria uma professora no carro da prefeitura, três dias na semana, para dar três horas de aula na casa de dona Firmina. Firmina vivia sozinha e dispunha de um pequeno galpão com tábuas, que, apoiadas em duas latas cheias de barro, se tornavam um banco para sete ou oito crianças. Para reforçar o que aprendíamos com a professora Marlene, tínhamos o apoio de minha mãe.
Dizia que só não poderia ensinar matemática, porque não sabia; “tenho a letra, mas não tenho o número”.
Inclusive, no princípio, o prefeito sugeriu uma solução menos trabalhosa e, sabendo que minha mãe era alfabetizada, quis fazê-la professora. Minha mãe, consciente de suas limitações, recusou. Reforçou em sua fala a
expressão “tenho a letra, mas não tenho o número”, e que queria muito que seus filhos de sangue e de pegação tivessem estudo e pudessem ter uma vida melhor do que a que tinha. Essa era a razão de todo o esforço que meu pai fez para que tivéssemos um professor e, percebendo que não era o suficiente, uma escola. Meu pai não era alfabetizado, assinava com o dedo de cortes e calos de colher frutos e espinhos da mata. Escondia as mãos com a tinta escura quando precisava deixar suas digitais em algum documento.
De tudo que vi meu pai bem-querer na vida, talvez fosse a escrita e a leitura dos filhos o que perseguiu com mais afinco. Quem acompanhasse sua vida de lida na terra ou a seriedade com que guardava as crenças do jarê, acharia que eram os bens maiores de sua existência. Mas pessoas como nós, quando viam o orgulho que sentia dos filhos aprendendo a ler e do valor que davam ao ensino, saberiam que esse era o bem que mais queria poder nos legar.
E não foi com espanto que vi naquela noite, antes de todos os outros encantados chegarem e se abrigarem no seu corpo, santa Bárbara girar, gritar e parar com sua espada apontada para o prefeito, a quem fez honras, como se cumprimentasse um monarca, mas também como se se dirigisse a um súdito, para lhe pedir, na frente da audiência, que cumprisse a promessa feita no passado — e que não me recordo de sabermos — de construir uma escola para os filhos dos trabalhadores. O prefeito olhou desconcertado, esboçando um sorriso sem graça, quando se viu diante do olhar das quarenta famílias que moravam em Água Negra. Quase compassivo, recordando das graças e temendo a má sorte que teria, dependendo do esforço empreendido para realizar a ordem dada pela encantada, aquiesceu.
12
Em poucos meses iniciaram a construção da escola. Não soubemos como, nem quais interesses particulares envolveram a negociação entre o prefeito e a família Peixoto, mas a obra foi autorizada, e os próprios moradores
passaram a construir o pequeno edifício de três salas em regime de mutirão, aos domingos, dia em que poderiam deixar de cuidar da roça — mas não poderiam deixar de dar comida e água aos animais. O local destinado à construção era o cruzamento dos caminhos para os rios Santo Antônio e Utinga.
Foi uma obra providencial, porque naquele mesmo ano se iniciou um período longo de estiagem, de modo que o pouco dinheiro destinado aos que construíam a escola, mesmo com os meses de atraso e o pequeno montante de recursos destinado ao pagamento da mão de obra, garantiu a sobrevivência de muitas famílias. Foi um tempo difícil. Meu pai se referia àquele período como a pior seca desde 1932. Aquele também foi o último ano que vi uma plantação extensa de arroz naquelas terras. O arroz, dependente de água, foi o primeiro a secar com a estiagem. Depois secaram a cana, as vagens de feijão, os umbuzeiros, os pés de tomates, quiabo e abóbora. Havia uma reserva de grãos guardada em casa e no galpão da fazenda. Com a seca, veio o medo de que nos mandassem embora por falta de trabalho. Depois veio o medo mais imediato da fome. Os grãos passaram a rarear, o feijão acabou antes do arroz, e do arroz restava muito pouco.
Havia um razoável suprimento de farinha de mandioca que algumas famílias fabricavam e trocavam por outros alimentos. Agora, mais que antes, seguíamos quase todos os dias para os rios para pescar, e a cada pescaria só conseguíamos capturar peixes cada vez menores, que só serviam para dar um gosto ao angu de farinha. Peixes grandes chegavam das cabeceiras com as enxurradas, e como não caía nem um chuvisco, restavam apenas os menos nobres e menos desenvolvidos, como o cascudo e a piaba.
Foi possível temperar os peixes enquanto havia umbu, que, junto com o sal, garantiu algum sabor à carne. Quando a farinha passou a rarear, meu pai recordou a receita do beiju de jatobá que Donana fazia. Havia vagens em abundância. Era uma árvore que resistia bem à falta d’água, frondosa, imponente, uma reserva de alimento de segunda linha, ignorada quando havia tudo o mais. Assim, comemos beiju de jatobá por meses, até enjoar.
Disputamos a palma com o gado da fazenda. Havia uma parcela de terra destinada ao seu plantio. O cacto que se destinava à nossa alimentação
estava em nossos quintais. Quem não foi previdente em ter sua própria plantação de palma, que acabaria com o passar dos meses, tinha que contar com a solidariedade de um vizinho, para garantir o cortado na mesa, guisado no azeite de dendê. Também havia as caças. Mas, no alto da estiagem, era mais fácil encontrar as carcaças dos animais mortos pela falta de alimento do que achar algum para ser abatido. Os veados eram escassos, seja pela caça ou pela falta de água nas áreas de sequeiro. Com muito esforço, os víamos bebendo água nos marimbus, mas estavam cada vez em menor número. A paca, muito apreciada, não dava as caras na mata. Nem capivara, nem cutia. Era possível capturar algumas aves como o jacu, inhambu e juriti, mas elas quase não tinham carne, então nos contentávamos com o gostinho dos ossos. Houve até o caso de uma família em Pau-de-Colher, contou tia Hermelina, que morreu depois de comer uma sariema no desespero da fome; a ave tinha comido uma cascavel e sua carne estava impregnada do veneno peçonhento.
Com mais frequência conseguíamos um teiú, fácil de encontrar porque comia as carcaças dos animais mortos, do gado minguando sem pasto, das caças abatidas pela estiagem. Então, bastava ficar à espreita onde houvesse bicho morto para acossá-lo. E se não os comêssemos, certamente eles comeriam nossa carne magra.
As crianças eram as que mais padeciam: paravam de crescer, ficavam frágeis e por qualquer coisa caíam doentes. Perdi a conta de quantas não resistiram à má alimentação e seguiram sem vida, em cortejo, para o cemitério da Viração. A morte apeava nas casas dos nossos vizinhos e, mesmo com todo esforço de Zeca Chapéu Grande para restituir a saúde e o vigor às crianças doentes, muitas não resistiam. As velas que meu pai acendia para cada criança pareciam não querer permanecer acesas: mesmo sem ventos ou golpes de ar, se apagavam. Não havia remédio, dizia sem se conformar com a sua incapacidade de reverter a situação. Que procurassem outro curador ou se conformassem com os desígnios de Deus.
Continuávamos a colher buriti e dendê para levar para a feira da cidade às segundas-feiras. Minha mãe, as comadres, eu, Belonísia e Domingas catávamos os frutos nas várzeas dos marimbus. Meu pai, Zezé e os outros
moradores colhiam os cachos de dendê nos pés para prepararmos o azeite.
Os buritizeiros eram altos e seus frutos não eram de serventia se colhidos nos cachos. Era preciso esperar que caíssem para que pudessem ser consumidos. Armazenávamos os frutos em grandes tonéis de água para amolecer a casca. Retirávamos com as mãos, de forma suave, para aproveitar a polpa, e levávamos aquelas massas em sacos de linhagem na cabeça, pela estrada, para comerciar com as senhoras que faziam doce de buriti e sucos para vender.
Pela estrada, debaixo do sol forte, a massa do buriti aquecido escorria pelas tramas da linhagem e nos besuntava com sua polpa gordurosa e alaranjada. Nossa pele negra ficava quase acobreada. Chegávamos à cidade envergonhadas da sujeira em nosso cabelo e roupas. Levávamos tecidos enrolados embaixo da cabeça para ajudar no equilíbrio do peso e amenizar um pouco o que escorria. Mas tinha dias em que o sol parecia uma fogueira acesa de cabeça para baixo, nossos corpos se enchiam do sumo do buriti. Eu mesma cheguei a escorregar na massa que escorria. Da mesma forma, levávamos o azeite de dendê fabricado em nossos quintais, quando havia, em garrafas vazias de cachaça, fechadas com cortiças usadas. Não tínhamos animal naquele tempo, então era preciso contar com a força dos braços para carregar as sacolas de taboa com as garrafas cheias de azeite, chegando com as mãos inchadas e dormentes à feira.
O sol nos castigava com a fome e nos restava o desalento pelas roças perdidas. Meu pai estava alquebrado, e mesmo o jarê perdeu um pouco do brilho que havia antes. Num desses dias, depois de acondicionarmos a massa do buriti nos sacos de linhagem, minha mãe adoeceu com febre e forte dor de barriga, nada ficava em seu estômago. Mas precisávamos de dinheiro, então, como ocorria nesses casos, eu iria com as filhas de Tonha para a cidade, e Belonísia ficaria cuidando de Domingas.
Nesse dia, segui apenas com um dos sacos na cabeça pela estrada que levava à cidade. Sentei numa parca sombra no cruzamento onde construíam a escola, esperando pelas filhas de Tonha. O dia mal tinha começado, e eu colocara um dos beijus de jatobá no estômago junto com chá de capim-santo. Belonísia ficou com minha mãe. Domingas era a menor e andava
muito mirrada, não conseguiria equilibrar o outro saco de linhagem na cabeça. Mas havia ocorrido algum mal-entendido quando marcamos o encontro, porque o tempo passava e as meninas não chegavam. Adormeci apoiada numa cerca de arame que tinha sido instalada para demarcar o terreno da escola. Fui despertada por alguém chamando por Bibiana e levantei sobressaltada. Era Severo, com um facão enterrado na bainha em sua cintura. Tinha saído para tirar cacho de dendê para a mãe fazer azeite.
Eles também iam à feira com frequência para vender e comprar suprimento para passar a semana.
Disse então que esperava as filhas de Tonha, pois iríamos juntas para a cidade. Que minha mãe tinha adoecido e ficaria sob os cuidados de Belonísia. Severo se ofereceu para me acompanhar, a feira começava bem cedo, funcionaria até o meio-dia. Precisávamos do dinheiro, não poderia perder a oportunidade de vender o buriti. Era meu primo, alguém da família, e passávamos dificuldades. Nossos pais não iriam criar caso por isso. Severo era querido por todos, meu pai gostava de vê-lo nos atabaques do jarê e se orgulhava de seu interesse pela crença.
Seguimos.
Era um caminho longo e ele falou sobre as coisas que nos sucediam naquele tempo. Falou sobre a escola que não seria suficiente para completarmos os estudos, mas que era um grande benefício para nós que morávamos em Água Negra, carentes de tudo. Ouvi-o falar da seca, dos bichos que morriam, dos peixes cada vez menores, das crianças que haviam morrido nos últimos meses. Ouvi-o falar sobre nossa família, o jarê, só não falamos sobre Belonísia, não queria trazer minha irmã para a conversa. Não queria lembrar a querela que o beijo de Severo havia provocado entre a gente. Meu primo já era um homem, forte, trabalhava de sol a sol, não tinha mais o corpo de menino de quando havia chegado. Tinha uma estatura mediana, um sorriso largo, falava de forma desinibida, como se conversássemos desde sempre. Como se entre nós não houvesse se imposto um interdito pelo ciúme que senti de Belonísia, pelo medo de nossos pais que acontecesse algo entre nós, afinal, éramos primos, criados ali na fazenda; portanto, a proibição de namoro se estendia a nós. Casamento
entre primos não era visto com bons olhos. Poderia nascer uma criança defeituosa, faltando um membro ou com perturbação. Os casos eram muitos, todos tinham uma história para contar sobre o interdito. Havia outras razões, talvez com motivações econômicas, para não se incentivar casamentos entre primos. Não conseguia entender exatamente por quê, mas havia. Naquele dia, nas horas que passamos juntos no caminho de ida e de volta, na feira, não pensei em nenhuma delas. Pensei apenas que Severo —
queria afastar de meus pensamentos a lembrança do parentesco — era um jovem homem que falava bem sobre as coisas da terra, que tinha sentimentos bons e respeito por meus pais, seus tios, por nossa família como um todo. Ele se sentia à vontade para falar sobre seus sonhos, tinha planos de estudar mais e não queria ser empregado para sempre da Fazenda Água Negra. Queria trabalhar nas próprias terras. Queria ter ele mesmo sua fazenda, que, diferente dos donos dali, que não conheciam muita coisa do que tinham, que talvez não soubessem nem cavoucar a terra, muito menos a hora de plantar de acordo com as fases da lua, nem o que poderia nascer em sequeiro e na várzea, ele sabia de muito mais. Havia sido parido pela terra.
Achava engraçado vê-lo utilizar essa imagem para afirmar sua aptidão para a lavoura. Nunca havia pensado que tinha sido parida pela terra. A terra
“paria” plantas e rochas. Paria nosso alimento e minhocas. Às vezes paria diamantes, escutava dizer. Ele falava que poderia aliar seu conhecimento da natureza e da lavoura com sua disposição para o trabalho, além do estudo que poderia lhe dar conhecimentos novos para mudar de vida. Eu achava tudo aquilo interessante, mas nunca havia parado para pensar porque estávamos ali, o que poderia modificar nessa história, o que dependia de mim mesma ou o que dependeria das circunstâncias. Mas ouvir as coisas que ele falava iluminou meu dia, e quis ouvir mais. Nunca havia conhecido ninguém que me dissesse ser possível uma vida além da fazenda. Achava que ali havia nascido e que ali morreria, como acontecia à maioria das pessoas.
Na feira, vendemos o saco de linhagem com a massa do buriti sem muito esforço. Com o dinheiro, passei no armazém e comprei arroz, feijão, açúcar, farinha de milho e café. Comprei Água Inglesa, que meu pai havia prescrito
a uma vizinha gestante. Ela restituiria o valor. Voltei no meio da tarde debaixo do sol escaldante, sem almoçar, mas na companhia de Severo. Não esqueci aquele dia, e antes de chegar a casa havia decidido que não deixaria mais de vê-lo, se assim também ele quisesse. Comecei a inventar desculpas para ir colher buriti sozinha, de modo que poderia ir para os marimbus e me comunicaria distante dos olhos de todos. Queria experimentar a vida, para ver o que poderia nos acontecer.
13
Continuei a encontrar Severo na estrada, quase sempre no mesmo lugar, às segundas-feiras. Minha mãe havia melhorado e Belonísia havia retomado sua rotina de me acompanhar à feira. Meu pai também costumava ir com Zezé, mas na maioria das vezes preferia continuar labutando com a terra, para ver se dava alguma coisa. Procurava por um frescor de umidade, uma
“ventura”, como ele mesmo dizia. Cavava e lançava sementes. As roças haviam migrado para mais perto do rio, e chegou um tempo em que o próprio leito, sem água em alguns trechos, passou a ser utilizado para plantar. E mesmo no leito tinha porções de terra que não serviam para o plantio, eram por demais argilosas. O que vingava ia para a mesa. Uns poucos quiabos ou abóboras miúdas. A mandioca não prestava, as raízes apodreciam com o excesso de umidade. E se ficasse no sequeiro naquele tempo de estiagem nem chegava a se desenvolver.
Severo nos seguia para a cidade, era de conhecimento dos nossos pais.
As filhas de Tonha também iam, e ele passou a ser visto como um protetor.
Belonísia estava mais retraída, parecia perceber que naquele período as atenções dele estavam voltadas para mim. Por algumas vezes tentou se desobrigar de me acompanhar, principalmente quando o buriti não rendia as duas sacas. Pedia para ajudar nosso pai a colher taboa e alimentava os animais que sobreviviam. Ela manejava o facão melhor que eu, e confesso
que invejava sua habilidade. Brandia os instrumentos com uma força de admirar, ao mesmo tempo que fazia me sentir fraca para a lida com a terra.
Com sua disposição, Belonísia se aproximava mais de meu pai, passava a lhe fazer companhia, junto com meu irmão, e participava das decisões, embora Zeca sempre lembrasse que ela era mulher, e lhe negasse determinadas tarefas. Mas isso não a abatia. Era como se estivesse sempre esperando a oportunidade para demonstrar sua força, seus conhecimentos e sua destreza.
Apesar desse afastamento sutil, sentia que Severo a entusiasmava nas brincadeiras de jarê, já que a nossa convivência passou a ser de novo mais constante. Havíamos estreitado os laços dormentes devido às adversidades que vivíamos naquela estiagem. Observava os movimentos brandos que Belonísia fazia para chamar a atenção de Severo, que, apesar de demonstrar grande apreço por ela, estava de forma mais constante comigo. Talvez a pequena diferença de idade que havia entre nós, dois adolescentes, representasse um hiato. Talvez fossem apenas as afinidades que descobrimos nos caminhos para a feira: a vontade de estudar, a casa de dona Firmina se tornou minúscula para o que ansiávamos; a vontade de deixar a fazenda que, assim como nele, foi despertada em mim.