Torto Arado
Fio de corte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
ranchinho uma boa morada. Daria um destino aos entulhos, Tobias adiava o momento de forma desinteressada, mas agora carregaria tudo e deixaria no lixão. Logo, aquela casa sombreada pelo grande jatobá seria um lugar muito diferente de quando cheguei. Não pretendia me juntar de novo a alguém, não queria casar nunca mais. Conservaria a casa e o pedaço de terra que a cercava porque talvez fossem tudo que pudesse ter na vida.
Só assim poderia experimentar o sofrimento como o sentimento que unia a todos que viviam em Água Negra e em muitas outras fazendas de que tínhamos notícia. Foi sozinha que experimentei as aflições que vi meus pais passarem ao longo de suas vidas. Não tinha descendentes para alimentar, mas fiz questão de trabalhar com mais força e vigor que muitos homens que ali viviam. O sofrer vinha das coisas que nem sempre davam certo, me fazia sentir viva e unida, de alguma forma, a todos os trabalhadores que padeciam dos mesmos desfavorecimentos. Nunca pude reclamar da sorte, que também se postou com seu encanto ao meu lado. Bati saco de milho, fiz muitos sacos de farinha, labutei dia a dia na roça que crescia verde. Se o sol fosse inclemente e matasse a plantação, deixando um rastro de cultivo mirrado e queimado, ou se os rios enchessem e a água comesse o que não deu tempo de colher, dava meu dia de trabalho onde precisassem dele.
Quando não havia trabalho, me agarrava à colheita do buriti e do dendê, e seguia com Maria Cabocla e outras mulheres para a feira da cidade. Vez ou outra um motorista nos oferecia carona para andar na boleia de seu veículo, ao nos ver caminhando pela estrada besuntadas da massa do fruto.
Um dia, ao subir no buritizeiro, furei meu pé em um espinho. Fui abatida como uma caça no chão dos marimbus. Só pude seguir adiante porque Maria Cabocla mandou dois de seus meninos chamarem Zezé e Domingas para me acudirem. Tentaram a todo custo me fazer voltar para casa. Até Zeca Chapéu Grande veio, com sua autoridade de pai e curador, tentar me demover da ideia de viver desacompanhada. Apelei para sua fé, que de certa forma refletia a minha também, para lembrar, apontando para o céu e para o meu pequeno altar de santos na sala — um santinho de são Sebastião crivado de flechas, um porta-retratos faltando uma das tiras laterais, com uma imagem escurecida de são Cosme e são Damião, uma pequena imagem
de Nossa Senhora Aparecida, outra de santa Bárbara, uma imagem nova de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro que me foi dada por comadre Nini e uma garrafa de Coca-Cola com ramalhetes de sempre-vivas que colhia na fazenda. Era pra dizer que nunca estávamos sozinhos, porque Deus e os encantados sempre estariam ao nosso lado.
Nunca mais meu pé voltou a ser como era, o espinho, como um punhal, atravessou-o de um lado a outro, deixando como sequela uma dor permanente, seguida de inchaço e vermelhidão. Segui algumas vezes para a cidade, com Domingas, minha mãe e dona Tonha, os médicos examinavam, passavam remédio, mas não curava. Meu pai fez remédio de raiz, pediu paciência, a dor foi aliviando a ponto de quase desaparecer. Mas bastavam os dias exaustivos de trabalho para que o inchaço retornasse e a dor se agravasse. Porém, nada disso retirou a vontade de transformar meu entorno com meu trabalho, mesmo sabendo que, por não ter filhos, Sutério levaria uma generosa parte de minha produção. Por isso saía muitas vezes antes de o dia raiar, levava parte do que colhia para a casa de meus pais para que fosse dividido entre todos. Esperava Maria Cabocla vir com os meninos para saber como eu estava, e fazia questão que levasse aipim, feijão-de-corda, abóbora e batata para sua casa.
Quando me senti melhor do ferimento, comecei a construir uma nova casa. Não há como consertar as casas de barro, então o jeito é construir uma nova, em outra parte do terreiro. Era assim com todos que moravam na fazenda: enquanto fazíamos a nova, deixávamos a antiga tombar ali mesmo.
Zezé ajudou a carregar o barro do rio, a cortar estacas para a forquilha e parede. Via como um encanto uma casa nascer da própria terra, do mesmo barro em que, se lançássemos sementes, veríamos brotar o alimento.
Quantas vezes havia visto aquele ritual de construir e desmanchar casas, e ainda me maravilhava ao ver se levantar as paredes que seriam nosso abrigo.
No mesmo dia em que terminei de trazer as coisas da casa antiga para a nova, Maria Cabocla adentrou a casa, acuada, com um corte na boca. Não precisava falar para que eu soubesse. Aparecido estava a cada dia pior.
Disse que se voltasse e a encontrasse em casa, que a mataria na frente dos
filhos. Senti revolta, tive más recordações de Tobias, mesmo achando que não deveria lembrá-lo dessa forma, para que tivesse seu derradeiro descanso. Arrastei Maria para sua casa de novo, havia chegado com três crianças, mas as outras continuavam lá, sozinhas. Não achava justo deixá-las aos cuidados de um bêbado. Estava farta de vê-la desamparada. Ela parecia não querer ir, tinha o medo nos olhos, mas cedeu. Fui buscar algumas coisas no armário de roupa para pôr no pequeno bocapio. Pensei em pedir a ajuda de algum homem, mas antes que externasse isso, Maria me disse que se um homem fosse à sua casa seria pior, poderia até haver morte, Aparecido tinha ciúme doentio dela. Desisti e decidi ir sozinha, em sua companhia.
A porta não estava bem aprumada e demandou força de minha parte para fechá-la antes de seguir. Deixei a pequena sacola cair no chão e Maria Cabocla se abaixou para juntar tudo de novo. Se deteve no cabo de marfim da faca de prata que, passado tanto tempo, ainda era puro brilho, encantada com o objeto. Seu olhar parecia o olhar de Bibiana no dia em que a colocamos na boca. Passou de uma mão a outra antes de devolver a sacola e não ousou perguntar por que a estava levando comigo.
12
Para meu azar, o pé começou a doer no caminho, e quando resolvi parar para ajeitar o calçado, vi que estava inchado. Cheguei mancando à casa de Maria Cabocla. A primeira coisa que me saltou aos olhos foram duas garrafas de cachaça jogadas em um canto da sala. Havia roupa suja, restos de comida no prato em cima da mesa e uma grande quantidade de moscas, fiéis companheiras a viverem das nossas sobras, talvez aguardando a hora em que nossos corpos poderiam também lhes servir de alimento. Aliás, não precisavam nem de nossos corpos totalmente mortos: bastava uma ferida aberta para abrigarem suas larvas. Sabíamos bem como viviam. Havia
períodos do ano em que o zumbido era tão intenso que eu dormia e acordava as escutando. Talvez se desaparecessem ou silenciassem perceberíamos de imediato que algo estranho acontecia à nossa volta.
As paredes se erodiam, com buracos que permitiam ver o outro lado.
Ajudei a reunir as crianças para o banho, enquanto eu mesma cuidava também de lavar pratos, copos e vasilhames que estavam ao redor da mesa ou dispostos em pilhas no chão. Era uma tarde fresca, nublada, mas que com o avançar das horas tornava o semblante de Maria Cabocla tenso, como se uma inevitável tempestade se aproximasse. Por várias vezes ela disse que estava tudo bem, pediu que eu fosse embora. Resisti. Me metia a arrumar as coisas, a ajeitar algo que estava fora do lugar ou a consertar qualquer coisa quebrada. Não sei o que me aconteceu com aquela total ausência de medo. Talvez fosse a morte de Tobias, a solidão em que havia me encerrado. Talvez fosse a lembrança de Donana, as conversas que escutava escondida sobre sua valentia. Talvez fossem os percalços que vivi até aqui, mesmo sem ter completado vinte anos. Ou o desejo de defender a mulher Maria, eu sabia bem o que era aquele desprezo; embora Tobias nunca tenha me triscado a mão, ainda lembrava de seus insultos e de toda a revolta que me crescia no peito. Queria crer que faltava a Maria Cabocla um traço de bravura para enfrentar o marido. Quando percebesse que ela não o temia e poderia lhe ferir do mesmo jeito que ele fazia sempre, pensaria duas vezes antes de levantar a mão de novo para qualquer gesto de violência.
A noite desceu lenta e eu preparei batata-doce e café para as crianças comerem. O ar fresco invadiu a casa, que permanecia com portas e janelas abertas, apesar da invasão de mosquitos que abatíamos entre a palma das mãos. Maria Cabocla acendeu o único candeeiro, o cheiro de querosene queimado foi se misturando ao frescor que adentrava a casa. Ela havia me dito, tempos atrás, que não tinha chegado aos trinta anos, mas parecia ter bem mais. Tinha muitos fios brancos entre o cabelo liso que parava na altura dos ombros. Seu rosto sempre reluzia à oleosidade do próprio corpo, o brilho se tornava mais intenso entre a luz e a sombra projetadas pelo candeeiro. Olhava as crianças ao redor da mãe, às vezes ficavam à minha
volta, tentando fazer com que eu participasse de suas brincadeiras.
Brincavam de casa e escola, de roça e de caça, e eu olhava saudosa, recordando minha infância na beira do rio Utinga, entre bonecas de sabugo de milho e enxotando chupins dos campos de arroz. Algumas das crianças pareciam com a mãe, outras com o pai, mas todas, sem distinção, carregavam as marcas de abandono: barriga grande, corpo frágil e, principalmente, tristeza e medo, que recendiam em seus olhos pela rotina de violência que tinham na própria casa.
Depois que as crianças dormiram, fiquei com Maria Cabocla na sala, de portas fechadas, escutando suas conversas sobre a vida antes de Água Negra. “Já nasci cativa. Numa fazenda. Assim como você”, me disse, mexendo numa caixa que tinha restos de tecido, linha, agulha e alguns poucos fuxicos de cores distintas. “Mas meu pai andava como cigano, andava de um lado para outro em busca de trabalho e condição melhor para criar os filhos”, continuava a dizer sem olhar para mim. “Antes daqui vivi em seis fazendas diferentes, por isso também não sei ler e escrever.”
Retirou três peças de tecido redondas do tamanho da palma de sua mão e deitou sobre seu colo, procurando linha e agulha para começar a alinhavar as peças até que parecessem botões de flor. “Por mim não morava mais em fazenda, não, debaixo do cabresto de ninguém”, aproximou a agulha bem perto dos olhos para tentar enfiar a linha, “mas Aparecido é incutido com roça e veio pedir ao dono daqui pra vir morar, bem nesse tempo da última seca.”
Ela desfiava as lembranças como uma reza estranha e antiga, comum a todos os que em algum momento chegaram em romaria a Água Negra e tantas outras fazendas de que temos notícia. “Quando cheguei aqui achava que essa era a Fazenda Boa Sorte, veja só”, disse, rindo quase sem vontade,
“ele vivia falando nessa Boa Sorte, que tinha terra boa, que tinha casa boa para os trabalhadores, mas a gente veio parar aqui, que não tinha nada de diferente de outros lugares que passamos e que de ‘boa sorte’ não tem nada.
Quando me juntei com Aparecido eu tinha catorze anos”, levantou para pegar mais uma caneca de café. “Você quer mais café?”, perguntou olhando para mim, esperando que me manifestasse pelos gestos que já lhe eram
familiares. “Ele não bebia, não. Era um homem bom. Mas a bebida agora desgraçou com ele”, colocou uma caneca cheia na pequena mesa em que me apoiava. “Já pedi que ele conversasse com compadre Zeca para receitar garrafada, mas ele não quis.”
Sem conseguir se concentrar nos fuxicos que pretendia fazer, que talvez tentasse fazer àquela hora para aliviar a inquietação que consumia seu corpo, Maria Cabocla pôs a pequena caixa de lado e se dirigiu a mim.
Mesmo na penumbra da casa mal iluminada pelo pequeno candeeiro, vi suas mãos trêmulas, nodosas, se aproximarem de minha cabeça.
“E você que ficou viúva... que tristeza pode ser ficar desamparada, mas deve ser melhor que ficar como eu estou”, disse, retirando o lenço de minha cabeça, e senti uma onda quente percorrer o interior de meu peito. Passou a mão sobre meu cabelo crespo, deixando que seus dedos se emaranhassem nele. Senti um conforto que nunca havia sentido com o toque de qualquer pessoa. Poucas vezes deitei no colo de Donana ou de minha mãe para que fizessem o que Maria me fazia agora. Recendia um cheiro de água doce, que bem conhecia, de seus poros. “Seu cabelo é muito preto, Belonísia.
Nunca te vejo sem lenço.” Sem que voltasse meus olhos para encontrar os seus, deixei que ela afundasse as mãos em mim. Parou. Foi ao quarto para pegar algo. Passou a trançar o meu cabelo, usando o pente para desembaraçar os fios, e fazia tranças rentes ao couro cabeludo. Por um instante fechei os olhos para sentir melhor a ponta de seus dedos, que alternavam voltas entre falas e silêncios preenchidos apenas por sua respiração ofegante, em contraste com a minha, que estava cada vez mais lenta, como se me preparasse para dormir. Quando terminou o penteado, eu estava quase cochilando, e senti o calor de seu corpo próximo à minha cabeça. Levei minhas mãos para sentir as formas do cabelo, já que não havia espelho, e sem querer encontrei a sua pele áspera. Caminhos se formaram no alto de minha cabeça e pareciam se moldar com a quentura que percorria meu corpo.
Durante muito tempo depois daquela noite, fechei os olhos para tentar sentir de novo Maria Cabocla. “Você deve estar cansada, deite um pouco na cama. Vou ficar acordada, não consigo dormir”, disse, quando seguia para
guardar o pente. Dobrei meu lenço e o pus na sacola onde estava a faca, o que me fez lembrar que precisava retirar as batatas que havia trazido. Tentei resistir por algum tempo, mas depois aceitei. “Pode ficar despreocupada”, me disse, “deite aqui do lado que eu deito, porque Tião tem mal dormir”, disse, ajeitando as pernas do menino e das duas meninas que dormiam em sua cama, “se o homem chegar, te acordo.”
Senti o cheiro de água doce no lençol que recobria a cama, e por muito tempo resisti ao sono, tentando acalmar o interior de meu corpo que ainda pulsava vivo ao afeto que havia recebido. Quando finalmente me dobrei ao repouso, sonhei com Tobias, que me olhava de longe, e eu tentava me afastar dele. Subia cansada pelas encostas do vale, mas me deparava com uma cerca brilhante. Tentava escapar por outro lado e via mais cerca.
Quando me afastava, vi a mata queimar. Depois que tudo virou cinza, sem que nada me acontecesse, me percebi encurralada, sem saída. O cabo de marfim da faca de Donana aparecia quando tentava voltar para o rio.
Bibiana e Severo surgiam em minha frente, mas não conseguiam me ver.
Chamava por eles, minha voz era alta, mas ainda assim não me ouviam.
Quando retirava a faca da terra, o chão começava a se abrir, dividido, e o buraco os engolia sem que se dessem conta.
Acordei alarmada e com a respiração ofegante. Levantei da cama, era quase dia, e encontrei Maria Cabocla cochilando sentada próxima à porta, vigiando para que o marido não me surpreendesse deitada em sua cama.
Retornei para minha casa ainda no sereno da madrugada, precisava alimentar os bichos. Segui pelo caminho, preocupada, mas sabia que se algo acontecesse Maria ou os meninos dariam um jeito de pedir a minha ajuda.
13
Menos de uma semana depois, um dos filhos de Maria foi me encontrar enquanto limpava a roça. Disse que o pai estava louco, batendo de novo na mãe. Fiz sinal para que o menino esperasse. Passei em casa para pegar o que precisava. Aproveitei e coloquei aipim e banana na sacola, pedi ajuda para carregar o peso. Não tirei a calça que vestia, suja de terra, nem a camisa de manga comprida que quase havia esquecido ter sido de Tobias.
Cheguei à casa de Maria Cabocla como quem não queria nada, e a certa distância pude ouvir o choro ecoando pela trilha em que caminhava a passos rápidos. Bati na porta que já se encontrava aberta, mas avisando que alguém iria entrar. Aparecido parou para me observar, estava confiante na covardia dos homens que ouviam o desespero daquela mulher e nada faziam. Entrei como se a casa fosse minha, apoiei os alimentos na mesa da cozinha, reuni as crianças desesperadas. Limpei seus rostos com um pedaço de tecido que estava num canto do fogão.
O homem gritou para que eu fosse embora, que cuidasse da minha vida.
Não olhei em nenhum momento para Maria, que estava no quarto aos soluços. Se ela tivesse visto minha cabeça, veria que ainda preservava as tranças que havia feito uma semana antes, e nos meus olhos tudo que advinha daquele gesto íntimo. Permaneci em pé, desafiando-o, para que viesse ele mesmo me arrancar para fora, porque não sairia com minhas próprias pernas. Ouvi de sua boca que respeitava muito meu pai, que era seu compadre, mas que não iria admitir desacato em sua própria casa. Maria levantou de onde estava, veio para cima dele, mas foi lançada em seguida ao chão por um tapa desferido com as costas da mão desproporcional do homem. Eram mãos engrossadas pelo trabalho, pela vida nada fácil. Meus olhos cresceram ferozes ao ver Maria no chão, que parecia não se acovardar àquela hora, dizendo que eu iria ficar. Quando ele veio para cima para tentar me retirar dali à força, meu coração estava aos pulos, sentia meu interior frio como a brisa da madrugada, mas permaneci firme como meus antepassados. Não foi o suficiente para evitar que Aparecido apertasse meu punho e tentasse me arrastar para fora. Encostei a lâmina que escondia atrás de mim em seu queixo, olhando segura para seus olhos vermelhos e com veias que se espantaram ao ver minha reação. Estava em minha mão direita, com o cabo fresco como um seixo recém-tirado do rio. Maria parecia sobressaltada com a visão que tinha, mas não hesitou em pedir que
Aparecido fosse embora de novo. Correu para o quarto para fazer uma pequena trouxa e voltou gritando que não iria mais apanhar, que ele fosse de uma vez e a deixasse com os meninos, que se virariam. A faca encostou de tal maneira no seu queixo que quase vi o momento em que o laceraria.
Seus olhos vermelhos de fúria amansaram como os de uma criança acuada pelo medo de uma aparição da mata. Aparecido chorou, pedindo perdão, dizendo que ele não era de fazer isso, que a bebida era uma desgraça em sua vida. Maria Cabocla aproveitou a fragilidade que ele transparecia para afastá-lo de vez. Mostrava as marcas do corpo, as que pareciam estar curadas, as que não curaram e as daquele instante. Sua raiva dizia muito das dores da alma — e sobre estas ela não falou —, aquelas que demoram a curar, as que no meio das lembranças precisamos afastar com um gesto de negação para que não se abata sobre nós o desânimo. Dizia que não queria mais ver o marido naquele pedaço de chão. Duas das crianças mais novas choraram quando a mãe atirou as roupas pela porta, pedindo:
“Não, mainha, não manda painho embora”. Maria, conquanto parecesse não ouvir ninguém, continuava a gritar para que o homem se fosse para a casa das putas com quem ele deitava, que os deixasse de uma vez. Ele gritava entre lágrimas que a casa era dele, ele a havia levantado, ele que havia pedido abrigo. A mulher parecia firme, e eu apoiava a sua resolução.
Depois que ele seguiu cambaleando pela trilha, arrumamos a casa e alimentamos as crianças. Tive vontade de cuidar de Maria Cabocla, de lavar suas feridas, de lhe dar de comer, mas ela disse que estava tudo bem e me agradeceu com um gesto sincero. Fui embora com um aperto, pensando no homem vagando pela estrada. Pensei também em Maria com aquela ruma de filhos para cuidar e alimentar. O que haveria de ser dela? E se a mandassem embora da fazenda? E se o marido fosse ele mesmo falar com Sutério? Dormi com essas coisas martelando na moleira, pensando em Maria machucada, sozinha, com vontade de lhe agradar, de pentear seus cabelos dessa vez, fazer uma trança, se o brilho oleoso, que desprendia deles, deixasse.
Passei a levar aipim e batata, a safra estava boa, era a minha desculpa para justificar a frequência com que a visitava toda semana. De fato, não me
faziam falta, e aqui era assim desde o princípio, uma mão lavava a outra.
Afinal, nossos pais e esse povo de Maria Cabocla, e tantos outros, chegaram de lugares diferentes e distantes, mas, passado tanto tempo, viviam como uma parentela de filhos de pegação, de compadre, comadre, vizinho, marido e mulher, cunhados, primos e inimigos. Muitos haviam casado entre si e eram parentes de verdade, nos laços e no sangue. Os que não, eram de consideração. Então, o coração mandava dividir o que tínhamos, e por isso sobrevivíamos às piores dificuldades.
Semanas depois, soube que Aparecido havia retornado. Senti tristeza, mas pensei: “Se é pai dos meninos dela tem de haver algum perdão”. Quem sabe o homem não muda? Ou, quem sabe, o gostar de Maria seja maior que as diferenças que existem entre eles. No fundo, será que ela percebeu que poderia ser pior estar sozinha na terra com aquele tanto de filhos, sem condições de roçar e dar de comer a todo mundo? Talvez tenha sido por isso, pela vergonha de ter me chamado naquele dia em que o enfrentei com a valentia que corria em meu sangue, que Maria se afastou de mim. Foi mudando com o tempo, se tornando mais tristonha, mais sozinha do que era. Se me encontrava, cumprimentava, mas já não se detinha a falar da vida, das mazelas que sofria, das pancadas do marido, das dificuldades para botar comida na mesa. Eu também, para não a magoar sem querer, nem mesmo ofender, deixei de levar as coisas que plantava e que fui trabalhando com minha força.
Quanta gente foi adentrando na solidão de meu rancho e foi dizendo que era uma roça bonita, que era maior e mais bem cuidada que a roça de muitos homens? Se admiravam quando viam que eu trabalhava sozinha.
Com os olhos, mediam meu corpo de cima a baixo, se pudessem me fariam disputar uma queda de braço com os homens, só para saber se a força para revirar a terra, para trabalhar o chão, vinha dele mesmo. Para ter certeza de que não era das forças dos encantados em que o povo acreditava. Sutério passava rigorosamente toda semana e levava o que podia. Mas não o deixava levar o melhor, como meu pai fazia por gratidão. Separava os legumes maiores para a casa, para meus pais. Só não o deixava apodrecer nos pés, de desgosto, porque achava um desrespeito com a própria terra.
Mas se desse para dar aos animais, eu dava, só para não deixar que ele levasse meu suor, minhas dores nas costas, meus calos nas mãos e minhas feridas nos pés, como se fosse algo seu.
14
Bibiana e Severo retornaram com seus quatro filhos para a fazenda alguns anos depois. Nesse meio-tempo, vieram para as festas de fim de ano e de são Sebastião com certa frequência. Numa dessas visitas batizei dois de seus filhos, como havia prometido: Inácio, o mais velho, que havia crescido e tinha quase minha altura; e Maria, a terceira. Domingas batizou a segunda, Flora, e Zezé também foi escolhido padrinho dela. Santa, filha de Tonha, batizou Ana, a caçula, que havia recebido o nome de nossa avó, e que já havia completado três anos. Minha mãe havia viajado para fazer o parto da segunda, e também acompanhou Bibiana no hospital no parto das duas últimas. O ano do regresso foi o ano em que chegou a primeira televisão à fazenda. Ela havia sido dada a Damião por um dos filhos, que trabalhava na cidade. Era uma televisão em preto e branco com uma caixa cinza, com antenas que mal serviam e uma esponja de aço na ponta. No começo, víamos mais os chuviscos do que qualquer imagem. Depois chegou a primeira antena parabólica, “um prato grande virado para as estrelas”, Damião disse a meu pai, numa de suas visitas ao jarê. Recordo da cara de espanto e riso do povo de Água Negra, conhecíamos a televisão de andarmos pela cidade e por outros lugares, mas nunca havíamos tido uma por ali. Chegou antes da energia elétrica, e na casa de Damião a faziam funcionar com uma bateria de veículo antiga, que precisava ser recarregada sempre. Ou seja, assistíamos a uma novela por quinze dias e passávamos mais quinze sem ver nada, até que alguém da família fosse à cidade levando o peso da bateria. A partir de então, o povo passou a se reunir na casa à noite; quando acabava a bateria ouvíamos queixa na roça, na feira e em
todo canto, até que retornassem com ela carregada de novo. Até mesmo Sutério vinha, mancando, de vez em quando, “para espiar”, como dizia.
Formava uma aglomeração de gente conversando, outros pedindo silêncio.
Outras pessoas começaram a se debruçar na janela porque não havia mais lugar nem no chão da sala. Bibiana disse que quando tivéssemos energia elétrica compraria uma para nossos pais.
Antes do retorno de minha irmã, havíamos passado por novos tempos de cheia e estiagem. Aos poucos, a paisagem foi mudando também. As grandes roças que os homens trabalhavam foram reduzidas, ano a ano. A família Peixoto já não tinha interesse em produzir. Um dos irmãos, que ficava à frente do trabalho instruindo Sutério, havia falecido. Já tinha idade avançada e os filhos pareciam não ter interesse em continuar cuidando da fazenda. As estiagens tinham sido duras, não se plantava mais arroz, eles diziam que faltava dinheiro para comprar adubo e sementes. As únicas coisas que vicejavam eram as nossas roças na vazante, os marimbus, a televisão de Damião e as brincadeiras de jarê. Meu pai estava envelhecendo, se encurvando com o tempo, os cabelos ficando brancos de forma lenta, mas ainda trabalhava de domingo a domingo. Não falava em parar. Ele e outros trabalhadores pioneiros que chegaram nos primeiros anos a Água Negra estavam se aposentando. Foram orientados pelo próprio Sutério a requerer o benefício — ele mesmo sem registro de trabalho, confessou —, o que era de muita ajuda e mudava em parte a situação dos moradores. Passaram cópia do documento do imposto da terra de mão em mão para que os mais velhos pudessem ter o que nunca tiveram, como se todo tempo de espera e trabalho tivesse sido para este momento derradeiro, quando iriam receber seus parcos recursos no banco da cidade. Era como se, passado tanto tempo trabalhando sem qualquer remuneração, agora entendessem que tinham direito a receber um ordenado todo mês.
Continuavam a trabalhar nos seus roçados, a cultivar seus alimentos, muitos seguiam montando banca na feira da cidade, mas não existiam mais as empreitadas fatigantes que retiraram a saúde de muitos e que significavam a servidão dos antigos, dos avós e bisavós, a sujeição que gostariam de poder esquecer.
Apesar das mudanças lentas, muitas interdições impostas pelos fazendeiros ainda existiam. O dinheiro não era usado para a melhoria das casas, que continuavam a ser de barro, não podíamos construir casa de alvenaria. Mas o povo começou a melhorar o seu interior: colchões de espuma para substituir os colchões de palha de milho, uma cama, mesa e cadeiras, remédios, roupas e alimentos. Panelas e colchas que os ciganos vendiam de tempos em tempos em nossas portas.
Bibiana havia se formado professora, falava diferente, bonito, via o orgulho de meu pai ao vê-la ensinar os filhos. Dizia que queria a filha professora da escola de Água Negra. Que falaria com o prefeito numa festa de jarê para que desse o cargo de professora à filha, se assim fosse possível.
Ela e Severo construíram uma casa perto de nossos pais, como a maioria costumava fazer quando casava e não seguia para outros rumos. Eu continuei a morar perto do rio Santo Antônio, mas passava os finais de semana entre eles. Gostava de estar com as crianças, de escutar Severo sobre nossa situação na fazenda. Aprendia coisas novas. Meu primo deixava a fazenda para participar de reuniões do sindicato, de movimentos, para congressos. Gostava de sua companhia, mas guardava certa distância porque sentia que minha irmã tinha ciúmes do marido, mesmo de mim. Ou talvez eu tenha ficado com essa impressão ao ver seus olhos se crisparem quando alguma mulher ficava atraída pelo discurso de Severo, pela sabedoria que ele emanava, deslumbrada diante de sua oratória e do seu sorriso, que parecia ser do mesmo menino que havia me encantado e me feito querer ser como ele na minha mocidade.
Quando Severo viajava para encontrar o povo que lhe ensinava as coisas, sobre a precariedade do trabalho, sobre o sofrimento do povo do campo, eu dormia na casa de Bibiana para lhe fazer companhia. Inácio, meu afilhado, já era menino crescido, tinha corpo de homem, gostava de me ajudar a plantar no quintal de casa. Ele mesmo tomava a enxada da minha mão ou da mão da mãe, cavava cova, fazia coivara, com nossa vigília.
Tinha o mesmo interesse pelos livros da mãe e do pai. Maria, minha outra afilhada, era traquina, vivia surpreendendo a todos. Se pendurava nos umbuzeiros e cajueiros, sumia nos matos. No dia em que caiu e quebrou o
braço, me lembrei da Rural que nos levou para o hospital na infância que se distanciava, mas que em momentos como esse retornava como um sonho.
Minha mãe olhava para a neta e dizia: “Essa teve a quem puxar, nunca vou me esquecer do que vocês me fizeram passar, correndo para o hospital”.
Bibiana ficava aflita, mas eu ria em silêncio, pensava como era engraçado poder ver a vida se repetir como uma história antiga. Meu pai se juntava a Bibiana na preocupação, dizia para que não castigasse a menina, que ela tinha os Cosmes que ele não quis cuidar. Por isso nós duas tínhamos sofrido na infância, porque ele não quis cuidar do são Cosme e Damião, ou, quando cuidava, fazia com malgrado. Ficava contrariado quando incorporava os santos, quando agia como criança, quando subia nas árvores ou pulava as janelas, e se fosse o telhado da casa de cerâmica teria corrido por cima dela como um menino irrequieto.
O ano do retorno da filha foi a última vez que meu pai e minha mãe viajaram para os festejos de Bom Jesus da Lapa, terra de Salu, em caminhada e romaria, promessa feita por ocasião da partida de Bibiana e Severo, para que retornassem à fazenda. Só soubemos da promessa quando se aproximou agosto e eles partiram a pé até seu destino, com moradores de Água Negra e fazendas vizinhas. A romaria também era para agradecer a chuva, ainda que cada vez mais parca. Por isso, muitos moradores, principalmente os mais antigos, partiram naquela viagem. Caminharam por dezessete dias, ida e volta, e todos nós nos sentimos aflitos com a segurança dos romeiros, principalmente Bibiana, sentindo-se culpada pelo fardo da promessa, temendo que algo ocorresse e ela levasse a culpa pelo resto da vida. Mas retornaram bem, queimados de sol, cansados, no entanto revigorados, como sempre acontecia após uma viagem às terras do Bom Jesus, agradecendo ao santo pela romaria, por terem pernas e saúde para caminhar. Voltaram, como sempre, carregados de graça, com imagens, terços e promessas. Voltaram mais velhos na carne, com dores que os acompanharam por semanas, anos, talvez por toda a vida, mas os olhos reluziam como o lume de uma vela, e isso bastava para sabermos que era o que devia ser feito.
Mas depois dessa viagem meu pai nunca mais foi o mesmo. Suas forças foram declinando. Talvez a força despendida numa caminhada tão longa como aquela fosse demais para sua idade. Minha mãe retornou com o corpo abatido, mas Zeca Chapéu Grande voltou muito mais fraco. Sentir o sol no caminho do asfalto, entre rezas e encantos, reviver a caminhada que o trouxe a Água Negra, talvez a emoção de ver o santo, filhos e netos à sua volta, houvesse preparado seu corpo para a partida.
15
No último ano de vida, meu pai foi contra todas as recomendações que havia feito em relação aos interditos próprios do jarê, e que nos eram impostos para os anos bissextos. Construiu nos primeiros meses a base, o centro e as forquilhas da nova casa, com a ajuda do genro e do filho. Nós desconfiávamos do que estava por vir, mas não falávamos para não atrair a má sorte. Plantou duas jaqueiras num terreiro a meia légua de casa, três cajueiros próximos à porta da nova construção, bananeiras no quintal e uma mangueira no curto caminho para a casa antiga. Nesses anos, meu pai dizia que não poderíamos plantar espécie de raiz profunda, nem fazer cultivos permanentes como café. Dizia que não poderíamos construir o meio nem o centro da casa. Que se fizéssemos tudo no ano anterior, era permitido colocar as portas, as telhas, caiar, terminar uma casa no ano bissexto, mas as bases tinham que ser feitas antes. Naquele ano, porém, ele não falou no interdito, nem falou do risco de morte, nem mesmo do mau agouro que era a quebra das proibições, nem ninguém questionou quando o viu plantar as mudas e pedir ajuda para levantar a nova casa.
Minha mãe ainda tentou argumentar sobre por que não esperávamos o próximo ano, principalmente para construir a casa. Ele respondeu apenas que não fazia sentido esperar. Dava a entender que tudo que tinha dito por conta da crença era superstição, que não nos ativéssemos aos detalhes, que
vivêssemos o que tínhamos que viver. O último inverno tinha sido de muita chuva e ventos fortes, que haviam causado avarias na casa em que morava sozinho com minha mãe depois da partida dos filhos. O barro havia cedido, deixando à mostra o trançado de madeira que sustentava a parede da frente.
Era como um corpo corroído que nos permitia ver os ossos. Que nos permitia ver a intimidade de uma casa, porque buracos e frestas já não cobriam o seu interior. E o interior de uma casa era tudo que tínhamos.
Guardava segredos que nunca seriam revelados. Guardava segredos que eram parte do que todos nós éramos naquelas paragens. Ele não dizia as razões da pressa para construir, mas todos nós intuíamos: que o corpo de nosso pai declinava como as paredes da casa que se desfazia. Que talvez aqueles fossem os últimos meses que teríamos ao seu lado. Era previsível, já que estava avançado em anos, e era certo que se aproximava o momento do seu descanso.
Ao mesmo tempo que víamos seu corpo cansado caminhando de um lado a outro da estrada, de uma porta a outra da casa, testemunhávamos seu vigor de trabalho ao amanhecer, quando saía com sua enxada e sacola de palha e descia para as várzeas do rio, na primeira luz do dia. Nos confortávamos ao ver que mantinha a mesma disposição para o trabalho de domingo a domingo, e que trazia a sacola carregada de milho e arrastava a malha de raízes de mandioca para casa. Trazia peixes nos dias em que se dispunha a pescar nas águas negras do rio. Comia com a mesma fome e continuava a acender as velas, a colher as ervas, a preparar os remédios de nossos vizinhos. Não deixou são Sebastião sem festa, ainda que os encantados que o acompanharam por toda a vida não o tomassem como cavalo. Ainda que as palmas, as cantigas e os sons dos atabaques não fossem mais capazes de tirar de seu corpo a dança ágil, nem mesmo o fizessem levantar de sua cadeira. Seus filhos e filhas, que eram tão numerosos quanto o junco que crescia na várzea, não conseguiam tirá-lo da cadeira, nem eram capazes de fazer com que reagisse aos cantos. Dona Miúda esteve presente com Santa Rita Pescadeira, lançando redes no ar.
Mas meu pai permaneceu todo o tempo fumando seu cachimbo, com o olhar vago, mirando muito além das danças na sala, para logo após os
convidados comentarem sobre a debilidade de Zeca Chapéu Grande, no terreiro em frente, no caminho de volta para suas próprias casas, nos dias que se seguiram à festa.
Até que, depois do Dia de São José, percebi que a energia que ainda guardava para o trabalho também se esvanecia. Acordava, acendia o cigarro, mas já não saía para o roçado. Levantava à mesma hora, mas da porta apenas contemplava o horizonte para onde caminhou por tantos anos, onde estava tudo de que mais gostava. Olhava para o chão que semeou com as próprias mãos. Descia o batente da porta e se apoiava com cuidado, para repousar entre as plantas que cresciam no terreiro. Suas mãos tocavam a água fresca do orvalho, quando o sol ainda não havia levantado com sua força descomunal, com a força de uma bênção ou de um castigo. Levava as gotas de água para a frente dos olhos, desmanchando-as entre os dedos, para só então voltar à casa, deixando o toco do cigarro no chão.
Mãe Salu o esperava na cozinha com um café fumegante e batata-doce.
Ele sentava, mas não tocava no prato, deixava o café esfriar e voltava depois de alguns minutos em silêncio para a sala. Ficava perto da porta, adormecia enquanto minha mãe me falava sobre o tempo. Ela tentava não transparecer preocupação, e quando eu estava mais distante a ouvia perguntar se ele estava sentindo alguma coisa. Ele não respondia. Levantava a mão esquerda, com a palma grossa e visíveis nós nos dedos, para fazer um gesto de negação.
Fechei a casa da beira do rio Santo Antônio. Colhia, vez ou outra, o que devia ser colhido, e saía para trabalhar na roça de meu pai, mas com um aperto na garganta que por vezes me sufocava. Bibiana, na casa ao lado, seguia para a escola onde dava aula, mas, preocupada, retornava na hora do almoço e passava para saber dele, antes mesmo de chegar à sua casa. Minha mãe tomava conta dos netos, cozinhava, aguava o quintal, despachava as visitas e os que buscavam consultas para os males do corpo e do espírito.
Foi difícil fazer as pessoas entenderem que nosso pai estava cansado, que não dava sinais de que poderia atender ninguém. Pedíamos que aguardassem a melhora. Ele passava a maior parte do tempo em sonos breves, mas continuava a acordar cedo para abrir a porta e mirar de novo o caminho para a várzea.
Meu irmão alternava os dias de trabalho em sua roça com o dia de trabalho na roça do pai, comigo. Contava, tentando despertar seu interesse, que os pés de pimenta haviam florescido ou que o plantio de abóbora não tinha vingado. Mas nada parecia tirá-lo do desligamento do mundo, cada dia um gesto a menos, até que nas últimas semanas passou a não levantar da cama. Sua magreza e apatia mudaram o semblante de minha mãe. Ele fez apenas um pedido: que não o levassem para o hospital da cidade. Domingas tentou argumentar, meu irmão, Bibiana e Severo também. Nesse momento o silêncio se quebrou e todos passaram a discutir sobre quais providências tomar. A ambulância poderia vir buscá-lo, mas não deveríamos ir de encontro à sua vontade. Eu me expressava como podia, me atrapalhava nos gestos, e a tensão era permanente.
O médico que veio disse que ele precisava ser levado urgente para o hospital. Que seus pulmões conservavam uma capacidade pequena de respiração, que tinha líquido neles e que estava desidratado e desnutrido.
Ele permaneceu de olhos fechados durante toda a consulta, embora soubéssemos que estava acordado e lúcido. Não dizia nem que sim nem que não. Fora do quarto, Bibiana falou ao médico que conversaríamos de novo e chamaríamos a ambulância. “Mas a ambulância pode estar em outro atendimento, o correto seria levarmos agora. Já fizemos a viagem, gastamos combustível e tempo.” Foi assim que vimos a ambulância se afastar.
Agora todos juntos tentávamos convencê-lo de que deveria ir para o hospital. Que não poderíamos tratá-lo do cansaço cada vez mais agudo que apresentava. “O médico nos disse que o senhor precisa ficar no oxigênio.”
Nessa hora seus olhos permaneceram fechados, mas sua boca, que proferiu sentenças de vida e de morte do povo, não hesitou em lembrar: “Eu ainda estou vivo, eu sou o curador, não ele”.
Em determinado momento, ele só pôde ficar sentado para que não sufocasse nos líquidos que borbulhavam em seu peito. Às vezes era Domingas que o amparava na cama. Minha mãe também fazia, mas logo se cansava, embora não se queixasse. Bibiana continuava indo para a escola,
mas nas horas vagas se posicionava, amparando o corpo do pai. E eu da mesma forma. Certa vez adormeci de cansaço. Acordei com Zezé o levantando do meu colo, onde sufocava. Não havia percebido que ele tinha escorregado de meus braços e deitado a cabeça em meu colo, numa posição em que não poderia ficar. Quando notei que havia me descuidado e deixado que quase morresse, me desesperei de tal forma que, em anos, foram os primeiros gemidos que deixei escapar de minha boca mutilada diante de minha família. Chorei com tanta dor que a única coisa que me confortou foi o abraço de minha mãe, ao mesmo tempo que todos pareciam ter se esquecido dos problemas reais, para ver aquele gesto involuntário do meu corpo como um milagre de que tudo poderia mudar e meu pai se restabelecer; afinal, havia quase trinta anos não escutavam nenhum som de minha boca. Os olhos de Bibiana guardavam o mesmo espanto do dia em que me viu silenciar.
Na Semana Santa, ele já se encontrava com um fiapo de fôlego.
Aceitava o caldo que preparávamos sem relutar. Continuava desidratado, mas respeitamos a sua vontade de permanecer em casa. Na sexta-feira, aproveitamos o caldo de carne vermelha que o alimentou no dia anterior.
Minha mãe dizia que era mais nutritivo que o peixe, embora não nos fosse permitido comer carne no dia da Paixão. Quando ela sentou na caixa de legumes vazia ao seu lado e lhe deu a primeira colher do caldo, ele cerrou os dentes. Pareceu concentrar todo o resto de força em sua boca. Para nós, aquele foi um sinal de que Zeca Chapéu Grande ainda tinha seus pés plantados na terra.
No domingo de Páscoa, minha mãe contou que sentiu uma forte corrente de ar fria e úmida da madrugada percorrer seu quarto. Levantou atordoada, achando que havia esquecido a janela aberta, mas viu que permanecia cerrada. Acendeu o candeeiro para ver se meu pai precisava de algo. O
encontrou com os olhos abertos, apesar da face serena. Seu rosto, à luz parca, era um jogo de sombras contornando os ossos. Foi assim que veio chamar pelos filhos, com sua voz rompendo o canto dos insetos. Zeca havia partido.
16
Cresci escutando as histórias de José Alcino, meu pai, o Zeca Chapéu Grande. Algumas vinham de sua própria energia e disposição para contá-las aos filhos, de sangue ou de santo. Mas grande parte vinha da memória de minha mãe, que já ouvia histórias sobre meu pai antes mesmo de se conhecerem e de receber proposta para viver com ele. Foi dela que ouvi as mais emocionantes, e também as que custávamos a acreditar que tinham acontecido. Ouvi as primeiras ainda quando era criança, mas guardei pouca coisa do que se contava. À medida que crescia, via meus irmãos indagarem sobre nossas origens. Eles respondiam e nós apenas escutávamos seus desabafos. Muitas vezes as histórias vinham em momentos de reprimenda, quando nos queixávamos da quantidade de trabalho.
“Vocês não passaram metade do que seu pai passou”, dizia minha mãe, enquanto debulhava as vagens do feijão que seria vendido na feira. “Isso foi muito antes, muito antes de chegar para esta fazenda.” Meu pai havia nascido quase trinta anos após declararem os negros escravos livres, mas ainda cativo dos descendentes dos senhores de seus avós. Minha avó, Donana, tinha dado à luz o filho José Alcino em meio a uma plantação de cana na Fazenda Caxangá. Ele nasceu no meio de um charco, porque não haviam permitido que sua mãe deixasse de trabalhar naquele dia. Meu pai veio ao mundo cercado das mulheres que, assim como minha avó, cortavam apressadas a cana sob a vigilância dos capatazes da fazenda. Donana dizia que ele nasceu com os olhos esbugalhados e não chorou nos primeiros minutos. Quase sem forças o levou ao seio para que tomasse de seu peito.
Somente depois de saciado deu um berro, que pôde ser ouvido de longe, anunciando sua chegada.
Meu pai foi o primeiro dos onze filhos que minha avó teve com diferentes maridos. Chamavam nossa avó de Donana Chapéu Grande porque não abandonava o chapéu de palha do primeiro companheiro. Ele
havia falecido pouco antes do nascimento de meu pai, e minha avó durante muito tempo não se conformou com seu destino. De longe, apesar de sua baixa estatura, era vista nas plantações cortando cana, por causa do chapéu que havia decidido usar até o fim da vida. Protegia seus olhos do sol forte, ao mesmo tempo que contribuía para a imagem de feiticeira que se criou à sua volta. De Donana só sabíamos que a chamavam assim, nem sabíamos o nome que sua mãe ou seu pai haviam lhe dado. Minha mãe apenas dizia que deveria ser Ana. Quando morreu, não tinha sequer documento, e como foi enterrada no cemitério da Viração, ninguém reclamou.
Da boca de Donana não soube quase nada. Só da insistente lembrança de Carmelita e de um medo de onça que ninguém entendia muito bem. Salu era quem contava dos anos que ela própria havia vivido em Caxangá, e mesmo assim só se dispôs a falar depois que a sogra já não estava mais viva. Ela só teve contato com as histórias que contava na mocidade quando deixou as terras de Bom Jesus da Lapa ao lado dos pais, rumando para a fazenda onde conheceu Donana Chapéu Grande e o filho, que já eram parte das crenças daquelas terras.
Minha mãe me contou que, ainda menina, Donana viveu na companhia da família do capataz que havia assumido sua guarda, servindo como empregada em sua casa na fazenda. Foi lá que passou a sentir grande desconforto, pouco antes do período de sua menarca. Tinha febre, sentia um sono intenso durante o dia, não conseguia dormir à noite. Vomitava quase tudo que lhe caía no estômago. Ouvia a dona da casa dizer que ela estava com encosto, que não iria durar muito tempo. Dias antes de o sangue lhe escorrer pelas pernas, Donana passou a ver objetos balançarem de forma violenta, o mato seco queimar por onde caminhava, e até mesmo as roupas que secavam no varal desaparecerem como palha seca. A família, com medo, levou a menina para um curador conhecido de Caxangá, e a deixou hospedada em sua casa. Lá, Donana viu portas e janelas baterem onde nem corrente de ar havia, viu a esteira de palha que foi destinada para o seu sono queimar. Até que o curador desistiu do tratamento.
A família percorreu léguas, indo de casa em casa, em busca dos curadores conhecidos da região, “bateram em dezesseis portas, dezesseis
casas de jarê”, disse Salu, enquanto retirava as folhas secas da pequena horta no quintal. “Eram os curadores mais conhecidos da Chapada Velha.”
Por último, a menina passou a receber encantados, com mais frequência o Velho Nagô, e foi dito à família que o problema do outro mundo tinha sido resolvido. Os encantados a aguardariam chegar à idade adulta para que pudesse ela própria ser uma curadora e guiar os espíritos em benefício dos que necessitavam de seus poderes. Foi nessa última casa, ao lado do curador João do Lajedo, que Donana aprendeu a manejar ervas e raízes para fazer xaropes e remédios para os mais distintos males que acometiam gente de toda origem: de coronéis a trabalhadores, de moças ricas que viviam na cidade às mulheres da roça que trabalhavam ao lado de seus maridos.
Quando o destino levou José Alcino, o marido, ao seu encontro, Donana não teve dúvidas de que se abrigaria embaixo do chapéu que o protegeu do sol durante a longa travessia que havia feito. José migrou das cercanias do Recôncavo para a Chapada, atraído pela promessa de riqueza, vinda das notícias de exploração de diamante. Tão logo chegou à região, viu que a sanha pela pedra havia transformado a terra num horizonte de lutas e de bandos armados guiados por coronéis que enriqueciam às custas do sangue e da loucura dos que se entregavam à sorte do garimpo. O homem, então, deitou sua sacola com seus poucos objetos e duas mudas de roupa no chão onde Donana vivia. Decidiu fazer o que havia aprendido com seus pais, o que o havia sustentado até o momento da partida e durante o caminho em que seguiu para chegar à Chapada. José Alcino pediu uma enxada e mostrou que sabia trabalhar a terra. Pediu morada na mesma fazenda onde minha avó vivia cativa, sem nunca ter tentado deixar seus tutores, trabalhando pelo que comia. Construiu uma casa de barro, cobriu com junco, fez amizade com o capataz que havia criado Donana. Com o tempo, disse que precisava de companhia, que queria família e não podia viver sozinho. Notou que a moça não parava de olhar para o seu chapéu, e mesmo evitando seus olhos, a levou para casa.
Pouco antes de Donana dar à luz meu pai, José Alcino caiu de um cavalo, enquanto viajava acompanhando um carregamento de cana. Os dons de minha avó voltaram a ser motivo de conversas e intrigas na casa-grande,
nos rumos que os trabalhadores tomavam para suas roças debaixo do sol.
Contou minha mãe que Donana andou devagar, amparada por vizinhas, para o local onde havia ocorrido o acidente. Não chorou quando o viu caído já sem vida no chão, assim como eu não havia derramado lágrima por Tobias.
Talvez por motivos diferentes, mas foi estranho saber, depois de tudo o que aconteceu, que a história havia se repetido. Salu disse que, assim que Donana pegou o chapéu caído a alguns passos do corpo, voltou num carro de boi, com a cabeça do homem que havia lhe dado casa e companhia no colo.
Quando minha avó enviuvou pela segunda vez, recebeu um recado do curador João do Lajedo, que já se encontrava muito idoso: era hora de tomar para si as obrigações que Deus havia lhe dado. Deveria cuidar dos encantados que a acompanhavam. Deveria servir em sua casa para curar os males do corpo e do espírito dos que fossem encontrá-la. Seu poder era uma dádiva que deveria ser devolvida em favor dos que sofrem. Do contrário, seria perseguida pela má sorte pelo resto da vida, e ela já tinha provas suficientes dessa sentença.
Donana não deu ouvido. Faria o que estivesse ao seu alcance. Era raizeira e parteira, e já fazia muito pelo povo que a procurava. Mas não podia colocar jarê em sua casa. Não podia organizar festas, hospedar enfermos. Não havia nascido para vida de privações e obrigações sem tempo para acabar. “Não adianta rogar. Eu não faço e pronto”, devolveu em resposta às palavras da mensageira.
Foi pouco depois dessa época, ou assim entendi, que Zeca, quase homem-feito, passou a ter fortes dores de cabeça. Não conseguia concluir o dia de trabalho ao lado da mãe e dos irmãos. Voltava para casa cedo, por vezes não conseguia nem se banhar no rio para retirar a areia que lhe cobria o cabelo e a pele, levantada no ar na tarefa de revolver a terra com arado e enxada em mãos. Deitava no chão, encolhido, sem comer ou dormir. Se passaram dias e Zeca começou a gritar como um animal de caça, lançando gemidos por todo canto, os olhos percorrendo o espaço e as pessoas.
Donana viu que sua resistência havia feito com que o filho mais velho enlouquecesse. “Louco, louco”, gritavam as crianças na janela da casa de
Donana, que saía à porta com vassoura na mão, sem esquecer o grande chapéu que a acompanhava.
Donana tentou de todo jeito fazer com que o filho retornasse do encanto.
Deu-lhe xarope de raízes, consultou o curador João do Lajedo, conversou com outros curadores, e todos diziam que não havia muito a fazer, que ela estava em dívida com os encantados porque se negava a cumprir sua missão na terra. Donana não se sentia capaz para tanto sacrifício. Por isso rezava, acendia vela dia e noite, muitas se apagavam antes de queimar por completo, sinal de que suas intenções não estavam sendo consideradas. Por fim, começou a trancar o filho em casa quando seguia para a roça. Deixava meu pai no quarto, sem coberta que lhe fosse objeto para morte, sem um copo de água, sem vela, sem comida, sem nada que pudesse fazer com que se ferisse. Zeca viveu por alguns dias no espaço escuro de um quarto sem janela.
Até o dia em que Donana retornou para casa e não o encontrou mais lá.
17
Se soubesse que tudo que se passa em meus pensamentos, essa procissão de lembranças enquanto meu cabelo vai se tornando branco, serviria de coisa valiosa para quem quer que fosse, teria me empenhado em escrever da melhor forma que pudesse. Teria comprado cadernos com o dinheiro das coisas que vendia na feira, e os teria enchido das palavras que não me saem da cabeça. Teria deixado a curiosidade que tive ao ver a faca com cabo de marfim se transformar na curiosidade pelo que poderia me tornar, porque de minha boca poderiam sair muitas histórias que serviriam de motivação para nosso povo, para nossas crianças, para que mudassem suas vidas de servidão aos donos da terra, aos donos das casas na cidade.