Torto Arado
Fio de corte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Quando Bibiana já morava novamente entre nós, passei a ler tudo o que visse em suas mãos ou nas de Severo. Passei a sentir fome de leitura, levava
livro até para a sombra do descanso na roça. Essas histórias que encontrava nos livros e ouvia da boca do povo vão se desenrolando em minha cabeça como um novelo de malha de apanhar peixe. Quando sento quieta para costurar uma roupa velha ou levanto a enxada para devolvê-la de novo ao chão, abrindo covas, arrancando as raízes das plantas, é que esse fio, que tem sido meu pensamento, vai se fazendo trama. Nessas horas eu, que tomei raiva de homem, que nunca mais quis deitar ou casar com homem, talvez deitasse de novo só para ter filhos, para ter com quem sentar para desfiar essas histórias que não me abandonam. Talvez lhes desse uma pilha de cadernos velhos, manchados de umidade da chuva, ou roídos de traças, para que lessem e pudessem entender do que somos feitos.
O enterro do meu pai aconteceu depois de um dia de velório, quando os aflitos que tinham passado por suas mãos para cura vieram prestar homenagem ao curador. Zeca Chapéu Grande havia colocado sua mão sobre a cabeça dos que agora se abaixavam e rezavam por sua alma, em reverência. Cada um tinha uma história de loucura, de bebida, de quebranto e mau-olhado, e todas as coisas que contavam se encontravam no enxame de sentimentos que se abateu sobre a fazenda naquele dia. Era uma manhã morna, eu revezava com minha mãe e irmãs na cozinha, preparando chá de capim-cidreira para acalmar o choro do povo. A casa que se desfazia, a sala onde meu pai emprestou seu corpo para que os encantados dançassem, curassem quem precisava, impusessem respeito e tolerância, organizassem os vizinhos, agora abrigava os que acolheu durante sua vida. Ouvia o som das conversas, cada um contando sua história com Zeca, cada um lembrando porque ele faria falta a Água Negra. As mulheres mais próximas chegavam à cozinha, perguntavam se comadre Salu precisava de ajuda.
Deixavam por ali um pacote de café pilado, outro de açúcar, as garrafas térmicas de suas casas, e levavam a bebida para servir na sala. Quanto mais a hora passava, chegava gente de cada vez mais longe. Vinham de automóvel, de cavalo, de carro de boi, a grande maioria a pé, com suas sombrinhas para se proteger do sol. “Esse sol ainda me come o juízo”, bradou dona Miúda enquanto entrava em nossa casa. “Bença, minha comadre, que Deus lhe conforte.” Entre sussurros e conversas mais acaloradas ouvi, como uma constante companhia, o zumbido das moscas. Eu mesma espantava os insetos enquanto estava ao lado do caixão. Aquele som de insetos e vozes misturadas sempre me vem à mente quando me recordo daquele dia. O
mesmo som que escutei no dia do velório de Tobias. Os vizinhos e parentes se guardavam em seus silêncios, tiravam seus chapéus e os baixavam à altura de seus umbigos, e só de vez em quando sussurravam coisas que eu não conseguia escutar.
Como se aguardasse uma boa notícia, me aproximava do caixão, juntava as flores miúdas sobre seu corpo, uma manta alva da terra que pudesse cobri-lo. Olhava suas mãos antigas e grossas de trabalho, como se tivesse muitas luvas de pele e de calos as calçando. Mãos grandes e desproporcionais, quando olhava para o braço seco como um graveto. Senti Maria Cabocla me amparar, segurando meus braços, sem conseguir dizer palavra que pudesse me consolar. Depois de uma madrugada em vigília, depois de coarmos cafés e cobrirmos nossas cabeças, rumamos num cortejo para Viração, o cemitério da fazenda, onde estavam Donana e Tobias. Onde estavam as crianças que não vingaram no parto. Onde estavam as dores e as lembranças de muitas famílias que nos acompanhavam. Onde estavam os que morreram de doença e do esgotamento que advinha da labuta. Os que morreram de feitiço ou porque Deus assim o quis, como ouvia. A cova estava pronta, havia um monte de terra acumulada em sua borda para depois das rezas ser lançada sobre o caixão.
18
Donana temeu muitas vezes que adentrassem sua porta para dizer que haviam encontrado o filho morto. Meu pai sumiu sem deixar rastros, e já tinham se passado muitos dias desde que minha avó havia chegado a casa e encontrado a porta arrebentada.
Foi difícil continuar a roçar naqueles dias. Minha avó encerrava o trabalho e espalhava os outros filhos pelas veredas na estrada, para procurarem pelo irmão. Ela própria avançava na mata com o facão, abrindo picadas, chamando por Zeca — José Alcino, quando queria repetir seu nome todo — ou prendendo a respiração, para que do seu silêncio viesse uma mensagem de onde se encontrava. Voltavam a se encontrar à noite, em casa, à luz de vela e lampião, para dizer que viram pegadas próximo à margem do rio, ou que uma mulher na lonjura das cercas da fazenda havia dito que viu Zeca, que não tinha certeza porque já não enxergava muito bem, mas, se não estava enganada, era ele andando feito doido. Ou que alguns haviam dito que tinha onça agitada na mata, por onde poderia estar escondido. Ou que tinham roubado ovos e frutas nos seus quintais ou tinha sumido roupa do varal.
O tempo parecia não se movimentar naqueles dias, as notícias chegavam de forma lenta. O sol não fazia o caminho nos mesmos passos no céu e a noite parecia longa. Foi quando um dos meninos de Donana chegou correndo em casa dizendo que um vaqueiro da Fazenda Piedade, a muitas léguas de distância, avistou um homem jovem, preto, sem roupas que lhe tapassem a vergonha, vivendo num pé de jatobá no meio da mata, nos limites com outra fazenda que não sabia o nome. Minha avó deixou Carmelita com as crianças menores, avisou ao capataz que precisava saber se era o filho e rumou com os maiores para o tal lugar. Levou farinha, rapadura e beiju para matar a fome das crianças. Não sabia por quanto tempo caminharia.
Seguiram pela estrada até chegar à Piedade. O vaqueiro disse que já tinha alguns dias que não via o homem, mas “aquilo não era coisa certa não, dona, ele dorme no pé de jatobá e junto de uma onça mansa, que não faz mal a ele”. A onça, disse, parecia estar enfeitiçada porque o rondava e o protegia como se cria fosse. O homem não falava, ficava em silêncio, encolhido naquele canto. A mesma onça que Donana mais tarde viu nos olhos de Fusco.
Minha avó pedia também um pouco de farinha para alimentar as crianças quando nas suas andanças encontrava alguém usando uma casa de preparo. Acampou com os meninos perto do pé de jatobá. Colheu os frutos caídos. Colheu a semente de jatobá para fazer beiju. O beiju que matou a fome de seus ancestrais e mataria a fome de sua descendência. Mal dormia sob a palhoça que ergueu para abrigar os filhos do sereno, temerosa das histórias sobre a onça.
Numa das madrugadas de vigília, ouviu um sacudir de folhas não muito distante, indicando que o filho poderia estar à espreita. Donana se ergueu da esteira, chamou o maior dos meninos, todos dormiam, e deixou que o som a guiasse pelas trilhas da mata. Avistou barreiro e vaga-lumes em grande quantidade se movimentando em alvoroço próximo a um espelho d’água.
Um animal apoiado nas quatro patas bebia água, afundando a cabeça na lama. Mas à medida que a noite se dissipava, minha avó percebeu que aquele animal selvagem apoiado nos quatro membros era o filho desaparecido havia meses. Chamou por “José Alcino”, “Zeca”, mas ele desapareceu, se embrenhando pela parte mais fechada da caatinga, se arrastando entre espinhos e galhos secos. Donana, que aprendeu a andar devagarinho, sem assustar capataz e vizinho, que roçava com a força que muitos homens não teriam para roçar, adentrou na mata e encontrou Zeca de olhos arregalados, mostrando os dentes, acuado. Donana fez reza, pediu licença aos encantados da mata e laçou o filho, como se laçasse um bezerro para derrubá-lo. Seu corpo nu e sujo estava coberto de grandes feridas. Seu cheiro era mais forte que o cheiro de um caititu. Cobriu sua nudez com uma manta, amarrou suas mãos com força enquanto ele gritava, e chamou os meninos para rumarem juntos para Caxangá. Deixou a palhoça sem derrubar e sobras de beiju de jatobá.
No meio do caminho estava a casa do compadre João do Lajedo. “Ele que carrega o meu fardo”, disse quando o velho abriu a porta, “ele leva por mim porque fui desobediente, não me dobrei. Resisti. Os santos me castigaram.” Os vizinhos do velho João do Lajedo se aproximaram porque Zeca gritava, acuado, ganindo como um cão querendo fugir. “Cura meu filho, compadre. Cura meu filho. E se tiver de ser ele o curador que levará meu carrego, então que seja”, disse, dando as costas e seguindo com as crianças para casa.
19
Aquele foi o último enterro realizado na Viração por muito tempo. Não que não houvesse morrido mais gente, mas porque a fazenda foi vendida meses depois da morte de meu pai. Os herdeiros da família Peixoto envelheceram, e os seus filhos e netos não queriam continuar com a propriedade Água Negra. Os mais velhos nos conheciam, mas os mais novos nem sabiam quem éramos, embora não tivessem dúvida de que se tratava de um problema para seus negócios. Foi com as casas de barro e nossos corpos como mobília que venderam a terra a um casal com dois filhos.
Acostumados que estávamos à longa posse da família Peixoto, fomos surpreendidos pela mudança e ficamos sem saber o que aconteceria a partir de então. Os mais ingênuos achavam que tudo permaneceria da mesma maneira. Os mais desconfiados temiam o que estava por vir, quiçá o despejo. Sabíamos que a fazenda existia, pelo menos, desde a chegada de Damião, o pioneiro dos trabalhadores, durante a seca de 1932. A família Peixoto havia herdado terras das sesmarias. Essas coisas nem Deus sabe explicar como aconteceram, mas Severo diz de uma forma que o povo fica atento, indo de casa em casa, da escola aos caminhos para a roça. Depois o povo fica se perguntando, conversando entre si, e vão recuperando as histórias das famílias antes da chegada. Eu tentava me concentrar, para aprender sobre o que Severo contava. Que chegou um branco colonizador e recebeu a dádiva do reino. Chegou outro homem branco com nome e sobrenome e foram dividindo tudo entre eles. Os índios foram sendo afastados, mortos, ou obrigados a trabalhar para esses donos da terra.
Depois chegaram os negros, de muito longe, para trabalhar no lugar dos índios. Nosso povo, que não sabia o caminho de volta para sua terra, foi ficando. Quando as fazendas foram deixando de produzir porque os donos já estavam velhos e os filhos já não se interessavam pelo trabalho de roça, porque ganhavam muito mais dinheiro como doutores na cidade, e nos
procuravam cercando terras pelas extremidades da fazenda, dizíamos que éramos índios. Porque sabíamos que, mesmo que não fosse respeitada, havia lei que proibia tirar terra de índio. E também porque eles se misturaram conosco, indo e voltando de seu canto, perdidos de suas aldeias.
Muito antes de nós, é o que dizem, chegou para cá muita gente, vindo com a notícia de que haviam sido encontradas minas de diamantes. Dizem até que quem encontrou o diamante foi um de nossos antepassados. Contam que roubaram dele as pedras sob sua posse, que foram garimpadas no rio Serrano. Que para tirar as pedras de suas mãos chegaram mesmo a acusá-lo de matar um viajante das Minas Gerais. Para não ser morto, teve que contar onde havia encontrado as pedras. Outros contam que ele apenas carregava os diamantes para serem vendidos, e que as pedras tinham sido encontradas pelos escravos de um tal senhor do Prado. Outros dizem que o primeiro diamante foi encontrado por um homem das Gerais. O que sabemos é que essa notícia trouxe mais escravos, trabalhadores livres, consulado de país estrangeiro para o interior e companhia de mineradores, tudo para retirar o diamante das serras. Sabe-se também que muito sangue foi derramado, muitos homens sucumbiram ao chamamento, à loucura e ao feitiço da pedra. Muitos endoideceram na sanha de encontrar o brilho. Muitos pereceram encantados e outros tantos foram mortos. Esta terra viveu em guerra de coronéis por muitos e muitos anos. Para trabalhar no garimpo vieram muitos homens escravos das vizinhanças da capital, dos engenhos que já não tinham mais a importância de antes, e das minas de ouro das Gerais. Dizem que até mesmo nasceu por aqui, filho de um dos trabalhadores das minas de diamante, o neto de um rei de Oyó da África, o neto do último rei a manter o império unido, antes de cair em desgraça.
Durante muitos anos, nascemos e vivemos à sombra da corrida do garimpo. Seja nas brincadeiras de criança, quando éramos ensinados a identificar qualquer gema que pudesse se assemelhar à pedra da cobiça, seja nas histórias dos coronéis que dominavam a região e da guerra que embrenharam pelas serras onde estava o diamante. Contavam de como o trânsito de pessoas às vezes era interrompido de um lugar a outro para que não fossem mortos nas emboscadas. De como as fazendas em que
morávamos e nossas origens tinham a marca dessa trama de vida e morte que se instalou por décadas na Chapada Velha. Se fôssemos moradores da fazenda “tal”, estávamos livres para transitar de um lugar a outro. Se nosso senhor fosse desafeto de “tal” coronel, os que ali viviam também corriam risco de se tornarem vítimas da violência. Era o que nos contavam. O medo atravessou o tempo e fez parte de nossa história desde sempre.
Era o medo de quem foi arrancado do seu chão. Medo de não resistir à travessia por mar e terra. Medo dos castigos, dos trabalhos, do sol escaldante, dos espíritos daquela gente. Medo de andar, medo de desagradar, medo de existir. Medo de que não gostassem de você, do que fazia, que não gostassem do seu cheiro, do seu cabelo, de sua cor. Que não gostassem de seus filhos, das cantigas, da nossa irmandade. Aonde quer que fôssemos, encontrávamos um parente, nunca estávamos sós. Quando não éramos parentes, nos fazíamos parentes. Foi a nossa valência poder se adaptar, poder construir essa irmandade, mesmo sendo alvos da vigilância dos que queriam nos enfraquecer. Por isso espalhavam o medo. Eu fui apanhando cada palavra da fala de Severo, das muitas vezes que o vi contar, para guardar em meu pensamento.
Foi assim que ele nos disse, e o povo ajudava contando o que conhecia das histórias de vida também: que, em dado momento, o diamante já não atraía tanta gente e só restaram as terras de Água Negra, conhecidas pela grande quantidade de água e pela várzea, que tudo dá. Era uma porção de mundo entre dois rios que corriam à sua volta por quase todos os lados, formando uma ilha no coração da Chapada Velha. Para cá, em quase todos os anos de seca de que se tem notícia, peregrinaram muitos trabalhadores buscando morada. Eram trazidos pelo gerente da fazenda, ou pelos que ali já estavam, que pediam por irmãos e compadres. Outros chegaram sobre as forças das próprias pernas para se juntar aos demais, com a autorização dos donos da terra.
Durante muitos anos, a fazenda foi uma bênção de água e fartura no sertão. Agora o novo dono, que construiu uma casa bonita e vistosa para morar na beira dos marimbus, mandou um novo gerente, depois de Sutério se aposentar, dizer que não poderíamos mais sepultar ninguém na Viração.
Que era crime contra as matas. Contra a natureza. Que o cemitério estava próximo ao leito do rio. Que na cidade tinha cemitério e que a prefeitura garantia o transporte do morto para lá.
Os mais jovens não viram muita diferença em enterrar os mortos na cidade ou na Viração. Mas para os mais velhos aquela interdição era uma ofensa. A Viração existia havia mais de duzentos anos, era o que contavam.
As mulheres diziam em suas conversas que só saíam de suas casas, só se recolheriam de suas vidas, para a Viração. Que não haveria conversa nem interdito, que não abriam mão de serem sepultadas naquele chão. Não abdicariam do destino de serem enterradas ao lado de seus parentes e compadres. Queriam estar à volta de compadre Zeca, assentado bem no meio daquele quadrado de terra seca, com metade do terreno cercado por um muro de um metro, enquanto a outra metade estava cercada pela caatinga. “Daqui só saio para a Viração”, foi o que mais ouvimos naqueles dias que anunciaram o interdito.
Por sorte, ninguém morreu naquele primeiro ano. Mas também ninguém se tranquilizou com o que estava por vir. Aquela mensagem dizia muito mais sobre nossas vidas do que sobre a morte em si. Se não pudéssemos deitar nossos mortos na Viração era porque, em breve, também não poderíamos estar sobre a mesma terra.
20
Muitos meses se passaram até que Zeca fosse considerado curado da loucura. Donana voltava todos os dias à casa do compadre João do Lajedo para ajudar na administração das bebidas de raiz, nas preces e no asseio do filho. Com o tempo, ele foi retornando à vida de antes, embora estivesse claro que algo havia mudado em seu interior para sempre. Seus olhos já não guardavam inocência. Um peso havia desabado sobre seus ombros magros.
Participava com interesse e atenção das cerimônias da casa do curador,
aprendia de forma dedicada sobre os ritos e preceitos, auxiliava nas brincadeiras, nas cantigas para chamar os encantados. Identificava com facilidade as entidades que surgiam, mudava o ritmo da cantiga, sabia em que velocidade os atabaques deveriam ser tocados, dependendo se queria agitar ou amansar algum espírito. Nas festas, se inteirava da ordem em que deveriam se apresentar. Também não se surpreendia com as mudanças que por vezes surgiam.
Aos poucos, voltou ao roçado com a mãe, mas continuou a dormir na casa do curador. Voltou para a plantação de cana. Saía de casa com Donana e os dois irmãos maiores, antes de o sol nascer. Mas não se descuidava de suas preces, nem da vela que deveria acender, nem mesmo de voltar no começo da noite para a casa do compadre João do Lajedo.
Quando Zeca foi considerado pronto, quando já podia reconhecer os males que adentravam pela porta do velho curador, quando compreendeu a natureza do parto, da vida e da morte de animais e de cultivos, deixou a casa de João do Lajedo, ainda que continuasse a participar das cerimônias.
Retornou a Caxangá para trabalhar com a mãe na colheita e no reconhecimento das ervas da mata, e preparava unguentos e beberagens para as mais diversas aflições.
Mas o tempo trouxe a necessidade de seguir para outro lugar. Queria andar por outras terras, procurar trabalho. As roças da Fazenda Caxangá começavam a sofrer com uma nova estiagem. O mandacaru não havia florido no tempo esperado, a caatinga perdeu sua folhagem. Tinham que buscar água cada vez mais longe, e os barreiros também foram secando. As fazendas foram armando seus homens para que a água que restava armazenada não fosse levada pelos estranhos. Os rios estavam com níveis cada vez mais baixos e não era mais possível encontrar a abundância de peixe que havia no período das chuvas. Todo esse ambiente hostil, onde faltava água, mas sobrava violência, foi se tornando a paisagem dos primeiros anos de sua vida como homem. À mesma época, passavam viajantes a caminho de lugares onde houvesse água, e onde precisassem de trabalhadores, também.
Não sei dizer quando chegaram as notícias sobre Água. Deve ter sido entre um cigarro de palha e outro, entre a erva colhida no campo e a reza para mau-olhado e quebranto, entre janelas e cavalos que levantavam a terra seca de Caxangá. Anunciaram que existia uma fazenda onde corriam rios de água escura. Não sei quando se disse que havia abundância de peixe, se cultivava arroz, e havia fartura de dendê, buriti e um grande espelho d’água onde os rios Utinga e Santo Antônio se encontravam. Que os donos não se importavam de abrigar mais gente, queriam apenas que fosse de trabalho e não reclamasse da labuta. Gente que suasse de sol a sol, de domingo a domingo. Queriam gente que aguasse as hortas e transformasse a terra da fazenda em riqueza, e que não temesse ferir as mãos na colheita.
Em troca, poderia se construir uma tapera de barro e taboa, que se desfizesse com o tempo, com a chuva e com o sol forte. Que essa morada nunca fosse um bem durável que atraísse a cobiça dos herdeiros. Que essa casa fosse desfeita de forma fácil se necessário. Podem trabalhar —
contavam nas suas romarias pelo chão de Caxangá —, podem trabalhar, mas a terra é dessa família por direito. Os donos da terra eram conhecidos desde a lei de terras do Império, não havia o que contestar. Quem chegasse era forasteiro, poderia ocupar, plantar e fazer da terra sua morada. Poderia cercar seu quintal e fazer roça na várzea nas horas vagas. Poderia comer e viver da terra, mas deveria obediência e gratidão aos senhores.
Depois de muito sondar os viajantes em conversas, os compadres que traziam notícias de parentes que havia mudado para mais longe, Zeca Chapéu Grande resolveu partir. Quando chegou o dia, avisou a mãe que iria embora. Donana sentiu seus olhos cansados se encherem d’água. “Por favor, não chora, mãe.” Minha avó retirou o cordão com um crucifixo de seu pescoço e passou pela cabeça do filho. “O Velho Nagô me acompanha, mãe.” Disse que se saísse naquele instante estaria em Água Negra no dia seguinte. Vestiu-se com a roupa costurada pelas mulheres da casa, mãe e irmã. “Que os caboclos e os guias o acompanhem”, as palavras roçaram a boca de Donana. “Que o acompanhem Sete-Serra, Iansã, Mineiro, Marinheiro, Nadador, Cosme e Damião, Mãe d’Água, Tupinambá, Tomba-Morro, Oxóssi, Pombo Roxo, Nanã.”
Zeca partiria antes de o sol chegar. Os pássaros voavam de um lado a outro, em alvoroço, lançando boa sorte entre o voo e o pouso. Na sacola de palha que havia trançado nas horas vagas, Donana havia colocado um pedaço de charque, uma lata de farinha de mandioca e uma pequena garrafa de mel para o filho se alimentar na estrada. Talvez ele quisesse dar um beijo no rosto da mãe, na testa da irmã, um abraço nos irmãos. “Bênção, minha mãe. Mandarei notícias por quem voltar para este lado. Mandarei boas notícias. E voltarei para te buscar, minha mãe, para que viva perto de mim.”
Donana limpou os olhos. “Muito digo Deus o acompanhe.”
Ele carregou a sacola de palha com a comida e as poucas roupas que tinha. Papel pra fazer cigarro, um pente em que faltavam dentes. Um aparelho de barbear enferrujado. Trilhou pela estrada um dia e uma noite até chegar a Água Negra, o lugar onde passaria o resto de sua vida.
21
Um dia, meu irmão Zezé perguntou ao nosso pai o que era viver de morada.
Por que não éramos também donos daquela terra, se lá havíamos nascido e trabalhado desde sempre. Por que a família Peixoto, que não morava na fazenda, era dita dona. Por que não fazíamos daquela terra nossa, já que dela vivíamos, plantávamos as sementes, colhíamos o pão. Se dali retirávamos nosso sustento.
Esse dia vive em minha memória. Não se apaga nem se afasta ainda que envelheça. O sol era tão forte que quase tudo ao alcance de minha visão estava branco, refletindo a luz intensa do céu sem nuvens. Meu pai retirou o chapéu, o calor fazia minar de seu corpo um suor grosso que lhe lavava o rosto, escorrendo pela fronte e pelas têmporas. Escorria pelo lado anterior de seus braços, formando grandes manchas em sua camisa surrada. O barro cobria sua calça, sua enxada, seus braços, o chapéu largo em suas mãos. Eu atirava milho e restos de comida para as galinhas. “Pedir morada é quando
você não sabe para onde ir, porque não tem trabalho de onde vem. Não tem de onde tirar o sustento”, apertou os olhos, olhando para a cova diante de seus pés, “aí você pergunta pra quem tem e quem precisa de gente para trabalho: ‘Moço, o senhor me dá morada?’.” De pronto seu olho se ergueu para meu irmão: “Trabalhe mais e pense menos. Seu olho não deve crescer para o que não é seu”. Apoiou a enxada em pé no solo, segurando a ponta do seu cabo com um dos braços. “O documento da terra não vai lhe dar mais milho, nem feijão. Não vai botar comida na nossa mesa.” Retirou papel e fumo do bolso e começou a fazer um cigarro. “Está vendo este mundão de terra aí? O olho cresce. O homem quer mais. Mas suas mãos não dão conta de trabalhar ela toda, dão? Você sozinho consegue trabalhar essa tarefa que a gente trabalha. Esta terra que cresce mato, que cresce a caatinga, o buriti, o dendê, não é nada sem trabalho. Não vale nada. Pode valer até para essa gente que não trabalha. Que não abre uma cova, que não sabe semear e colher. Mas para gente como a gente a terra só tem valor se tem trabalho. Sem ele a terra é nada.”
Zezé voltou à lida, sem estender a conversa. Meu pai não falou o nome de Severo, mas sabia que ele andava de conversa com o povo da fazenda contando história de sindicato, de direitos, de lei. Estava levando essas conversas para os campos de trabalho. Sabia também que o assunto já devia estar no ouvido de Sutério. Zezé deixou de falar na frente do nosso pai, em respeito, mas voltou ao assunto vez ou outra, desconsiderando seu pensamento. Ele não comentava, mas continuou a indagar sobre as mesmas questões, continuava a expor suas ideias. Dos mais velhos ouviu os mesmos argumentos defendidos por Zeca. Dos mais novos ouviu que seus questionamentos faziam sentido, que seus pais, avós, morreram sem possuir nada. Que o único pedaço de terra a que tinham direito, de onde ninguém os tiraria, era a pequena cova da Viração. Que para aposentar era uma humilhação, pedir documento de imposto ou da terra para os donos da fazenda. Os homens se “amarravam” para entregar alguma coisa, além de explorar o trabalho sem pagamento dos que iam se aposentar. Às vezes chegava o dia de ir para a Previdência e o povo não havia conseguido reunir os documentos de que precisava.
Além da dívida de trabalho para com os senhores da fazenda, não havia nada para deixar para os filhos e netos. O que era transmitido de um para outro era a casa, quase sempre em estado ruim e que logo teria que ser refeita. Os pioneiros não pensavam assim, ou seus pensamentos eram abafados pela urgência de se manter a paz entre os trabalhadores e seus senhores. Ou porque havia uma gratidão pela acolhida que as gerações seguintes já não tinham, talvez por terem nascido e crescido neste lugar. Os mais jovens começavam a se considerar mais donos da terra do que qualquer um daqueles que tinham seus nomes transcritos no documento, que tinha sua cópia disputada e negociada pelos gerentes de forma desvantajosa para eles.
Meu irmão insistiu no assunto, apesar de evitar falar na frente de nosso pai. Vivia com Severo para cima e para baixo, entre um trabalho e outro, para ganhar a atenção dos moradores. “Não podemos mais viver assim.
Temos direito à terra. Somos quilombolas.” Era um desejo de liberdade que crescia e ocupava quase tudo o que fazíamos. Com o passar dos anos esse desejo começou a colocar em oposição pais e filhos numa mesma casa.
Alguns jovens já não queriam permanecer na fazenda. Desejavam a vida na cidade. Os deslocamentos se tornaram mais intensos que no passado, quando nos transportávamos em animais para outros lugares, cidade e os povoados vizinhos. A vida na cidade, entre viajantes e comerciantes, era atraente. Pesava na decisão justamente o trabalho para os fazendeiros, que foi mantido entre nós e atravessou gerações. Zezé queria dizer ao nosso pai que não nos interessava apenas a morada. Que não havia ingratidão. “Eles que não nos foram gratos, corre boato que querem vender a fazenda sem se preocupar com a gente”, dizia para mim e Domingas. “Queremos ser donos de nosso próprio trabalho, queremos decidir sobre o que plantar e colher além de nossos quintais. Queremos cuidar da terra onde nascemos, da terra que cresceu com o trabalho de nossas famílias”, completou Severo, numa roda de prosa debaixo da jaqueira na beira da estrada.
Mas o desejo de nos libertar terminou por envenenar nossas casas.
22
Caminhou um dia e uma noite, e antes de o sol nascer chegou a uma vila de casas assentadas em cima de um tabuleiro. Havia terra no horizonte de seus olhos, passava uma boiada e vaqueiros seguiam os animais em seus cavalos.
Daquele dia, se recorda do vento e da nuvem de poeira que não se desfazia.
Precisou caminhar através dela, enquanto um dos vaqueiros, solitário, desgarrado dos que seguiam à frente, o olhou com atenção. Andou devagar e segurou a cruz que carregava no pescoço. Pela posição do sol deveriam ser seis da manhã de um novo dia, e o começou com louvação.
Seus pés doíam, não havia repousado durante a noite. Teve medo de adentrar a mata que não conhecia. Caminhou com seus encantados. Mas os riscos rondavam. Quem sabe seus próprios guias lhe dessem o medo banhado na luz da noite para o deixar vigilante diante dos perigos? Quem sabe esse medo não o fizesse chegar com segurança ao seu destino? Eles iam à frente abrindo caminhos. Ele sentia que eles afastavam os perigos da estrada. Os perigos das cobras, dos caititus, das onças. Os perigos dos coronéis e seus bandos. Os perigos da cobiça por terra e diamante. Deus era o guia maior que olhava por ele e guiava os encantados.
O Velho Nagô, que seguia atrás, foi se aproximando quando ele chegava ao fim da jornada. De bengala, encurvado, de cachimbo na mão e chapéu branco. Desde Caxangá, desde que foi curado do que havia sofrido com as perturbações da mente, sentiu o Velho se aproximar, sentiu seu toque e conhecimento o cobrirem como um manto. Mas eles não estavam sozinhos.
Mineiro seguia à frente. Fidalgo, todo de branco. Mineiro chegou com o povo das Minas Gerais e por aqui ficou porque ele entendia de povo de garimpo. Não dispensava vinho branco. Não dispensava cigarro branco. Era dele que vinham os avisos de que alguém sofreria com a loucura.
Oxóssi era o caçador, o que lhe dizia por onde seguir em meio à mata. O
que o livrava dos perigos, das serpentes peçonhentas, e também enfeitiçava as caças que o alimentariam na nova morada. O pedaço de carne-do-sertão que sua mãe tinha dado era suficiente para se alimentar até a chegada. Mas nem por isso Oxóssi o deixou seguir só, e andou por céu e terra, no alvoroço dos pássaros, nas folhas e raízes que colhia para os remédios e que guardava em sua sacola de palha.
Mãe d’Água o guiava pela água doce, matava sua sede. Ela surgiu quando ele desceu o tabuleiro entre a plantação e a estrada de boiada, para entrar por uma vereda onde haviam dito que ficava a fazenda. Ela continuava surgindo entre as folhas verdes e os troncos das árvores, entre os espinhos e os galhos retorcidos. Ela corria, aparecia e sumia, e seus pés se desfaziam num rio negro e limpo que era o próprio caminho e promessa de vida no seu destino. O rio corria e era como se de sua distância lavasse os seus pés para abençoar a chegada. Ventania não deixava o horizonte e subia num redemoinho, lançando terra nos seus olhos. Era como se corresse o mesmo caminho com a Mãe d’Água para lhe dizer que teria terra e água para plantar e colher, para si e os que viriam. Ventania foi na frente, antes de todos, e se ergueu no horizonte enquanto ele estava na vila, cegando vaqueiros e gado. Ventania o fez cobrir os olhos. Arrastou as folhas secas do chão e as ergueu no ar, lançadas sobre seu corpo como um açoite, para que permanecesse desperto em sua caminhada.
Nesse dia, lhe vieram as coisas que lhe contavam e que não recordava.
Que dormiu semanas perto de uma onça que não dava por fé de seus movimentos na mata. Que comeu as frutas que caíram do pé e pequenas aves e peixes rasgados no dente, vivos e com o sangue escorrendo por sua boca. Veio a lembrança da roça, do trabalho para os donos das roças. A história da mãe, viúva, parindo no meio da plantação de cana. A resistência de não querer assumir as funções de curadora. Veio a lembrança da irmã Carmelita, chegando à mocidade, costurando camisa e trançando palha de buriti na mão. De seus irmãos ainda pequenos ajudando as duas na molhação do quintal.
Pensou em tudo, e pensou também que se tivesse terra em Água Negra, que se lhe dessem o direito de levantar casa e botar roça, se tivesse quintal de fartura e água para a molhação, que se tivesse rio perto e peixe para botar na mesa, ele iria buscar a mãe, iria buscar os irmãos, arranjaria homem direito e trabalhador para se juntar com Carmelita. E se tivesse moça direita ele também a levaria para casa. Teria filhos. Se os encantados chegassem, faria brincadeira para eles. Faria reza e remédio de raiz para os necessitados.
Foi assim que ele caminhou um dia e uma noite na companhia dos encantados, carregando o que tinha de lembrança e de história. Carregando carne-seca e mel selvagem. Assim, sujo da terra grudada ao seu suor e com o cansaço que o levou a um dos vaqueiros da fazenda.
“É aqui que é Água Negra?”
“Pois não. Veio a mando de quem?”
“Vim a mando de ninguém, não. Vim porque preciso de trabalho. Vim porque sou moço e tenho força pra trabalhar. Tenho mão boa para plantação. Tenho reza e remédio para praga de bicho comichão.”
“Então pode ficar. Tem gente que chega, tem gente que volta pra onde veio, precisamos de gente por aqui, sim. Vou te dar este bilhete para que leve a um senhor preto de nome Damião. Ele mora adentrando aquela estrada ali. Qual sua graça?”
“José Alcino da Silva, mas pode me chamar de Zeca Chapéu Grande.”
O homem pegou um lápis e um papel pardo amassado para anotar coisas que ele não pôde ler. Mas as palavras retiniam: “Procure Damião. Ele vai dizer o que fazer”. Dobrou o papel para não perder. Guardou como se documento fosse e rumou pela vereda para encontrá-lo.
23
“Você tem que tirar a mão de seu pai da cabeça, comadre. Precisa ir para outra casa de curador”, diziam as filhas de Tonha. Depois vieram Crispina e Crispiniana para falar o mesmo. E por último Maria Cabocla, ao passar pela porta da casa velha, onde eu havia me instalado desde que o pai adoeceu.
Não dava importância ao que me diziam. Era a crença que meu próprio pai havia ajudado a difundir durante toda sua vida na fazenda, mas que não fazia mais qualquer sentido para mim. Como poderia tirar a mão de meu pai de minha cabeça? Meu pai se foi e a mão dele também. Nem que quisesse seguir à risca as crenças, ainda assim não tiraria sua mão de mim. Zeca
Chapéu Grande era meu pai, guia pela terra e responsável pelo que sou.
Seus filhos e filhas de santo seguiram dia após dia procurando casas de jarê conhecidas dos arredores para retirar sua mão de suas cabeças. Temiam estar sentenciados ao passamento. Eu não conseguia temer nada, nem temi as grosserias de Tobias, muito menos Aparecido avançando sobre mim. Não temia os vivos, não temeria os mortos. Chegaram mesmo a chorar à nossa porta, dizendo que eu iria morrer. “Deixem Belonísia. Se ela não quer, ela não tira. Muito agradecida, mas vão cuidar da vida de vocês”, disse Salu mais de uma vez, até que o tempo passou e pareceram esquecer. “Se se descuidarem”, pensei, “é capaz de vocês irem antes de mim.” Como iria rir se fossem antes de mim.
Minha mãe, abatida, passou um longo período sem conseguir ir para a roça. Também começou a beber cachaça, antes mesmo do meio-dia. Era estranho, nunca havia visto minha mãe beber numa festa ou celebração.
Comecei a esconder as garrafas de aguardente, mas ela ia à feira e dava um jeito de trazer às escondidas, junto com os mantimentos. Entornava largos copos, como nunca havia feito, e dormia sentada na cadeira, até roncar.
Esquecia a comida no fogo e parecia não sentir mais vontade de interagir com os netos. Nos poucos momentos em que ficava sóbria, pegava algo que havia pertencido ao nosso pai para dizer: “Olha o que deixou”, ou então:
“Ele não conseguiu terminar de fazer isso”. As recordações tomavam conta de seu dia quando alguém aparecia pedindo ajuda para algum problema, acostumados que estavam a tratar suas mazelas com Zeca. Ela dizia que não podia ajudar, que não era curadora. “Não vou mexer com coisas que não sei”, disse a Domingas enquanto abanava a lenha do fogão, “não nasci com o dom.”
A obra da casa que meu pai havia começado a levantar estava parada e passou meses assim, sem que ninguém se dispusesse a continuar. Não se sentiam autorizados. Minha mãe bateu o pé, olhando para o mato que começava a crescer em volta da casa: “Vou desmanchar aquela casa, não quero mais sair daqui”. “Esta casa está se desmanchando”, Bibiana relembrou, “talvez fosse melhor terminar a outra para mudar o quanto
antes.” Minha mãe, que havia perdido qualquer vontade de mudança, fez valer sua vontade: “Ninguém mexe, deixe o tempo tomar conta dela”.
Quando o sol se prolongou no horizonte trazendo de novo a estiagem, Salu passou um dia enferma na cama, ardendo de febre. Dona Tonha veio visitá-la. Ficaram as duas no quarto, conversando baixo. No dia seguinte, me disse que iria para Cachoeira, que estava entregue à bebida por obrigação que não cumpria dos encantados, que meu pai havia deixado.
Dona Tonha a acompanharia. Considerou que naquele momento precisava retirar a mão do marido da cabeça. Partiu para encontrar o curador, e fiquei sozinha em casa. Retomei o movimento do roçado porque queria tentar fazer as coisas voltarem a parecer como antes. Pensava que continuar trabalhando era a única maneira de recordar meu pai de uma forma que não fosse mais tão doída. Me coloquei nas trilhas com meu irmão, e, de fato, arar a terra, plantar, colher, consertar cerca, foram me curando de sua ausência, da mesma maneira que haviam me curado da tristeza que senti ao deixar a casa para viver com Tobias. Da mesma forma de quando fiquei viúva: foi o que me sustentou nas terras da beira do Santo Antônio. Foi das coisas que nasceram de novo em minhas mãos que pensei sobre o rumo que tomaríamos sem a liderança de nosso pai. Como seria tudo sem as forças dos encantados, que por tanto tempo haviam estado entre nós.
Por último, Salu retornou à fazenda depois da viagem a Cachoeira e disse que iria terminar de construir a casa. Disse também que não triscaria mais em bebida. A decisão trouxe alívio. Em pouco tempo, a casa que meu pai havia deixado com a construção encaminhada ficou pronta. Limpamos o terreno do mato que havia crescido. Preparamos tudo para a mudança. O
mesmo pai de santo que havia cuidado de minha mãe em Cachoeira veio até Água Negra para orientar a transferência de uma casa para outra. Na casa velha havia vivido um homem poderoso que movimentava energias entre o mundo dos vivos e dos mortos. Moveu sentimentos bons e ruins, curou a terra, curou pessoas, evocou espíritos da natureza. Então tudo que havia vivido, todo o movimento de seu mundo de fé estava pairando naquele espaço, e deveria ser encaminhado a um destino. Ela seria desmanchada.
Retiraram portas, janelas e o junco que recobria o teto. O pai de santo bateu
com ervas nas paredes e entoou cantigas que nunca havia escutado nas brincadeiras de jarê.
“Se tiver alguma força nesta casa, a senhora vai querer, dona Salustiana?
Para seguir a sina de seu marido?”, perguntou o velho. “Não”, respondeu sem hesitar, com olhos firmes no que o benzedor fazia. “Então, posso tomar para mim?”, parou com as folhas no ar ao lado de minha mãe. “Pode”, foi o que respondeu.
O velho não tocou em nenhuma parede. Não retirou nenhuma forquilha.
O tempo se incumbiu de desmanchar a casa antiga. Sem abrigar mais nossas vidas, parecia se deteriorar numa urgência própria da natureza que a envolvia. A cada chuva forte uma parede desmoronava e, por fim, o vento completou sua luta. A parede de terra, do barro que era o chão de Água Negra, voltou a ser terra de novo. Nasceram ervas e flores minúsculas em meio à umidade que surgia com o orvalho e com a chuva que caía quando era da vontade dos santos. Fiquei atenta a tudo o que acontecia, sabia que nada retornaria. Olhei com certo encantamento o tempo caminhando, indomável como um cavalo bravio.
24
Indomável, Severo caminhou por estradas, elevou sua voz em discursos, enfrentou os novos donos e o chefe dos trabalhadores. Mudando ele mesmo, em meio ao movimento que parecia crescer em nossas vidas, foi moldando Água Negra, fazendo-a se transformar num lugar diferente. Enquanto Zeca Chapéu Grande viveu, respeitou o seu desejo de não confrontar os que lhe haviam dado abrigo. Questionar o domínio das terras da fazenda seria um gesto de ingratidão. Por isso mesmo, Severo percebeu que não poderia discutir com meu pai, seu tio e sogro, seria um desrespeito por tudo o que ele significava para o nosso povo. Zeca Chapéu Grande havia mantido os moradores da fazenda unidos, foi liderança do povo por anos, e sem
permitir que infligissem maus-tratos a nenhum trabalhador da fazenda, muitas vezes interveio, sem afrontar Sutério, para impedir injustiças maiores que as que já existiam. Graças às suas crenças, havia vigorado uma ordem própria, o que nos ajudou a atravessar o tempo até o presente.
Sua morte deixou um vazio entre os moradores da fazenda e, por fim, a venda das terras transformou tudo de maneira repentina. As notícias que nos chegavam eram de que a fazenda havia sido vendida a um preço minguado, porque nossa presença a havia desvalorizado. O novo dono fazia uma movimentação contrária à nossa morada, talvez porque soubesse que, pelo tempo que tínhamos ali, a justiça nos reservava algum direito. Aos poucos, foi chegando, primeiro como um benfeitor, dizendo que nada iria mudar. Se mostrava solidário, levando um ou outro para a cidade em seu carro se precisava de médico, propagando aos quatro ventos como era bom com seus trabalhadores. Depois montou um barracão de mantimentos, resolveu criar porcos, e quem estivesse disposto a trabalhar teria direito a salário, que as pessoas nunca receberam de fato. Os dias de trabalho eram pagos com a retirada de mercadorias e, ao sair de lá, os moradores terminavam deixando uma dívida maior do que o pagamento que tinham a receber.
Nesse campo desigual, Severo levantou sua voz contra as determinações com que não concordávamos. Virou um desafeto declarado do fazendeiro.
Fez discursos sobre os direitos que tínhamos. Que nossos antepassados migraram para as terras de Água Negra porque só restou aquela peregrinação permanente a muitos negros depois da abolição. Que havíamos trabalhado para os antigos fazendeiros sem nunca termos recebido nada, sem direito a uma casa decente, que não fosse de barro, e precisasse ser refeita a cada chuva. Que se não nos uníssemos, se não levantássemos nossa voz, em breve estaríamos sem ter onde morar. A cada movimento de Severo e dos irmãos contra as exigências impostas pelo proprietário, as tiranias surgiam com mais força. No começo, o dono quis nos dividir, dizendo que aquele “bando de vagabundos” queria a fazenda dele, comprada com o seu trabalho. Aquele sentimento de desamparo que o povo havia sentido com a morte de meu pai foi sendo substituído pela liderança de Severo, para alguns. Outros não viam com bons olhos o movimento e se opuseram abertamente a meu primo, divergindo, entrando no jogo do novo fazendeiro para fazer minar nossas forças. Guiavam seus animais na calada da noite para destruir nossas roças na vazante.
Derrubavam cercas, e meses de trabalho viraram pasto na boca do gado.
Certo dia, fomos acordados no meio da madrugada por um incêndio em nosso galinheiro. Os ovos explodiam como bombas das festas de junho.
Apagamos o fogo com as tinas de água e atirando terra seca. Outros galinheiros também foram incendiados, o que deixou claro que era uma ação organizada do fazendeiro com alguns trabalhadores. Com receio de deixar minha mãe e minhas irmãs, fechei a casa do rio Santo Antônio de vez e voltei a morar na beira do Utinga.
Severo colheu assinatura para fundar uma associação de trabalhadores.
Disse que precisávamos nos organizar ou, do contrário, acabaríamos sendo expulsos. Para muitos era impossível se imaginar longe de Água Negra.
Escutei dona Tonha, em uma conversa com minha mãe, perguntar sobre o que faria na cidade: “Vou alisar calçada? Pra viver na cidade precisa de dinheiro pra tudo. Uma cebola, dinheiro. Um tempero, dinheiro”. Bibiana esteve mais ativa ao lado do marido. Em meio à mobilização, eu ficava de bom grado com as crianças para que ela pudesse escrever, trabalhar, andar com Severo procurando ajuda na garupa da motocicleta que ele havia adquirido. Iam a sindicato, a reuniões. Voltavam, faziam mais reuniões, escondidos ora na casa de um, ora na casa de outro. Na nossa casa ocorreram muitas. Temi que minha mãe tivesse a mesma postura de nosso pai, que achasse ingratidão aquela movimentação. Mas não, ela parecia entusiasmada, desandou a contar muitas histórias, era um livro vivo.
Contava as histórias dos bisavós, dos avós, da Fazenda Caxangá, onde também morou, das terras do Bom Jesus, de onde veio. Intervinha ativa, ciente da importância das coisas que sabia. A essa altura, já haviam percebido que se não fizéssemos barulho para garantir nossa permanência na fazenda, não teríamos para onde ir.
Com frequência, também passou a aparecer um carro de polícia, de onde desciam para fazer perguntas, entrando nas casas, constrangendo os
moradores. O medo era grande, uma casa avisava a outra quando surgiam, ou se alguém demorasse a retornar para casa ou se fosse para lugar distante.
Compartilhávamos cada passo, porque entendíamos que só assim conseguiríamos nos proteger.
Bibiana e Severo se arrumaram para mais uma jornada em busca de um registro da associação de trabalhadores e pescadores de Água Negra. De posse das assinaturas, iriam ao cartório. Numa manhã nublada, de calor abafado, o céu quase branco, Salu lembrou que guardava o pedaço do bilhete que Sutério tinha dado a meu pai havia mais de setenta anos. Seria bom juntar uma cópia aos documentos, haviam decidido na última reunião.
Era um bilhete num papel manchado que Zeca guardou junto com outros documentos, num envelope pardo, quase desfeito pelo tempo. Me lembro do dia em que Bibiana o abriu com cuidado, quando nosso pai pediu que lesse, para que todos tomássemos conhecimento sobre qual era nossa situação na fazenda. Quando Bibiana terminou de ler, eu mesma fiz questão de conferir: “Esteve aqui o sr. José Alcino pedindo uma morada eu dei a ele lá na beira do rio Utinga e disse a ele que tem que trabalhar nas roças da fazenda e pode levantar casa de barro, proibido casa de tijolo”. Bibiana já tinha subido na garupa da motocicleta quando recordou do que havia esquecido. Devolveu o capacete a Severo e foi buscar o bilhete.
Maria e Flora ajudavam com os pratos no quintal enquanto eu tentava acender o fogo, com a roupa molhada de suor do esforço de abanar a brasa.
Ouvi vários estampidos, como na madrugada do incêndio do galinheiro.
Os ovos estouraram naquela noite, as aves ficaram esturricadas. Meu peito doía de ver os bichos da casa mortos por pura maldade. Não refizemos o galinheiro, não havia ovos para estourar e produzir aquele som, que, de novo, enfraquecia meu corpo. Corri em direção ao terreiro. Eu e Bibiana chegamos à porta ao mesmo tempo.
Severo estava caído. A terra seca aos seus pés havia se tornado uma fenda aberta e nela corria um rio de sangue.
Rio de sangue
1
Meu cavalo morreu e não tenho mais montaria para caminhar como devo, da forma que um encantado deve se apresentar entre os homens, como deve aparecer por esse mundo. Desde então, passei a vagar sem rumo, arrodeando aqui, arrodeando acolá, procurando um corpo que pudesse me acolher. Meu cavalo era uma mulher chamada Miúda, mas quando me apossava de sua carne seu nome era Santa Rita Pescadeira. Foi nela que cavalguei por um tempo, não conto o tempo, mas montei o corpo de Miúda, solitária. Sou muito mais antiga que os cem anos de Miúda. Antes dela, me abriguei em muitos corpos, desde que a gente adentrou matas e rios, adentrou serras e lagoas, desde que a cobiça cavou buracos profundos e o povo se embrenhou no chão como tatus, buscando a pedra brilhante. O
diamante se tornou um enorme feitiço, maldito, porque tudo que é bonito carrega em si a maldição. Vi homens fazerem tratos de sangue, cortando sua carne com os punhais afiados, marcando suas mãos, suas frontes, suas casas, seus objetos de trabalho, suas peneiras de cascalhos e bateias. Vi homens enlouquecerem sem dormir, varando noite e dia no rio Serrano, nas serras, nos garimpos, entocados na escuridão para ver o brilho mudar de lugar. O diamante tem feitiço e no breu podemos ver seu reflexo, de fazer cegar uma coruja, quando anda de um lugar para outro, como um espírito saindo de uma serra, cruzando o céu e descendo num monte ou num rio, na forma de uma luz que chamava a atenção mesmo distante. Os homens enlouqueciam assim, esperando o amanhecer e abrindo fendas no chão onde achavam ter visto a luz entrar, para não encontrar nada. Enlouqueciam sem comer ou tomar banho. Morriam dentro dos buracos ou de tentar apanhar as pedras das mãos dos que haviam encontrado. Morriam de fome, porque toda a energia de seus corpos e mentes era para apanhar o diamante.
Carregavam as famílias para os mesmos caminhos de loucura e muitos endoidavam, do dia para a noite, sem sinal ou aviso. Vinham dar suas obrigações aos encantados nas casas de jarê, a Mineiro e Sete-Serra, matavam bichos, derramavam sangue para poder encontrar o brilho. Não queriam guardar as pedras, não queriam admirar sua luz, queriam encher seus picuás para poder ter uma casa ou a liberdade. Às vezes, um ou outro encontrava seu bambúrrio, comprava sua liberdade, montava seu negócio.
Alguns viravam donos de escravos, e davam adeus à servidão e à busca que lacerava suas mãos e suas almas. Mas a maioria só encontrava a quimera e a loucura, o assombro, o desassossego, a dor e a violência. Vergava sob a própria ilusão, derrotado, acocorado num amontoado de cascalhos.
Meu povo seguiu rumando de um canto para outro, procurando trabalho.
Buscando terra e morada. Um lugar onde pudesse plantar e colher. Onde tivesse uma tapera para chamar de casa. Os donos já não podiam ter mais escravos, por causa da lei, mas precisavam deles. Então, foi assim que passaram a chamar os escravos de trabalhadores e moradores. Não poderiam arriscar, fingindo que nada mudou, porque os homens da lei poderiam criar caso. Passaram a lembrar para seus trabalhadores como eram bons, porque davam abrigo aos pretos sem casa, que andavam de terra em terra procurando onde morar. Como eram bons, porque não havia mais chicote para castigar o povo. Como eram bons, por permitirem que plantassem seu próprio arroz e feijão, o quiabo e a abóbora. A batata-doce do café da manhã. “Mas vocês precisam pagar esse pedaço de chão onde plantam seu sustento, o prato que comem, porque saco vazio não fica em pé. Então, vocês trabalham nas minhas roças e, com o tempo que sobrar, cuidam do que é de vocês. Ah, mas não pode construir casa de tijolo, nem colocar telha de cerâmica. Vocês são trabalhadores, não podem ter casa igual a dono. Podem ir embora quando quiserem, mas pensem bem, está difícil morada em outro canto.”
Me embrenhei entre o povo que os donos da terra chamavam de trabalhador e morador. Era o mesmo povo que me carregou nas costas quando eram escravos das minas, das lavouras de cana, ou apenas os escravos de Nosso Senhor Bom Jesus. Me acolhia num corpo, acolhia em
outro, quando tinha abundância de água nessas terras. Mas o diamante não nos trouxe sorte nem bambúrrio. O diamante trouxe a ilusão, porque, quando instalaram as dragas, os rios foram se enchendo da areia que jorrava das grutas. Os rios foram ficando sujos e rasos. Sem abastança de água para pescar já não tinham porque pedir nada a Santa Rita Pescadeira. Ah, chegou a luz elétrica, e quem pôde comprou sua geladeira. Esses peixes miúdos que restaram por aqui não matam mais a fome de ninguém. Envergonham até quem pesca.
Então, ninguém atinava a aprender as cantigas da encantada. Até ficaram surpresos quando apareci, certa vez. Me olharam e riram como se eu fosse uma assombração. Miúda roçava, mas sua paixão era pescar. Era acordar de madrugada e seguir sozinha para a beira do rio. Levava os filhos, mas quando eles foram embora, Miúda pescou sem eles. Dormia na beira do rio sem medo de onça nem de cobra. Eu era a sua encantada, que domava seu corpo sem assombro. Protegia meu cavalo. Meu cavalo que dançava atirando a rede, no meio da casa do curador Zeca Chapéu Grande. Meu cavalo não usava sapatos porque seus pés eram as minhas raízes e me firmavam na terra. Seus braços eram minhas nadadeiras e me moviam na água. Montei o meu cavalo por anos, que nem posso contar. Mas agora, sem corpo para me apossar, vago pela terra.