Torto Arado
Fio de corte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
2
Quando amanheceu, havia muitas nuvens e o céu era um algodoal espesso e morno. Vagava acima da terra, entre o milharal, acima do rio, sem que fosse possível ver o meu reflexo no espelho d’água. O ar estava pesado e foi ficando difícil me mover, até que, tomada pelo estupor, fiquei completamente imóvel ante o inesperado. Assim como chegou de repente, todo o peso se dissipou com o sopro da terra, como um rasgo afastando a vileza que havia deixado o ar dilatado e opressivo. Um grito atravessou o
espaço como um sabre afiado. Tudo foi se tingindo de vermelho e segui o rastro do rio de sangue que corria, não se sabia de onde.
A fonte do rio era Severo, o senhor que mobilizava os trabalhadores de Água Negra, caído na terra com oito furos feitos à bala. O grito era de Bibiana, prostrada no chão com a cabeça do marido no colo. O rio era sangue e lágrima, caudaloso e lento, como uma corrente de lama avançando pelas casas e chamando o povo para se unir ou fugir da fazenda. Nos momentos de forte emoção meu horizonte se embota, transbordo para os lados, não consigo reunir o que me compõe. Se ainda pudesse montar um cavalo... mas ninguém se recorda de Santa Rita Pescadeira. Não há curador nem casa de jarê. Aos poucos vão desaprendendo, porque há muita mudança na vida de todos.
Fui tomada por uma profunda tristeza ao ver aquelas duas vidas desamparadas diante do que lhes haviam feito. Vi tanta crueldade ao longo do tempo, e mesmo calejada me comovo ao ver os homens derramando sangue para destruir sonhos. Vi senhores enforcarem seus escravos como castigo. Cortarem suas mãos no garimpo por roubarem um diamante. Acudi uma mulher que incendiou o próprio corpo por não querer ser mais cativa de seu senhor. Mulheres que retiravam seus filhos ainda no ventre para que não nascessem escravos. Que davam a liberdade aos que seriam cativos, e muitas delas morreram também por isso. Mulheres que enlouqueceram porque as separaram dos filhos, que seriam vendidos. Vi um senhor cruel deitar com mulheres negras e abandonar seus corpos castigados à morte, como se quisesse expurgar o mal que o fazia cair. Outro fez do corpo de seu escravo um reparo para o barco imprestável em que navegava. Entrava água na embarcação. O barco chegou ao seu destino com o homem afogado. Vi homens e mulheres venderem seus pedaços de terra por uma saca de feijão ou uma arroba de carne, porque não suportavam mais a fome da seca.
Severo morreu porque pelejava pela terra de seu povo. Lutava pelo livramento da gente que passou a vida cativa. Queria apenas que reconhecessem o direito das famílias que estavam havia muito tempo naquele lugar, onde seus filhos e netos tinham nascido. Onde enterraram
seus umbigos, no largo de terra dos quintais das casas. Onde construíram casas e cercas.
Me desfiz numa fina chuva que aguou as vidas que pelejavam para salvar Severo, no meio do nada. Entrei por sua boca para lavar o sangue que esvaía. Me dividi nos ombros, cabeças e costas dos que rodeavam marido e mulher no chão. Vi uma carruagem de fogo correr pela estrada. Levaram Severo para a cidade, mas não houve tempo para salvá-lo. Em Água Negra correu um rio de sangue. Belonísia retirou o lenço da cabeça e abraçou as que choravam, chamando pelo pai e pela mãe. No desespero para salvar Severo, deixaram as crianças se aproximarem e verem o que havia acontecido. Foi Tonha que, num arroubo de proteção, reuniu as meninas e as levou para casa.
Salustiana acendeu velas, fez preces para os santos e encantados, pediu para que salvassem Severo. Tudo o que restou foi o silêncio. Do céu não se escutava nem chuva nem vento. Abraçou o neto Inácio com força e pediu que não perdesse a fé. Tudo havia escapado. Algumas pessoas correram para dar a notícia aos pais e irmãos de Severo. Vi Hermelina desabar no chão como uma galinha degolada. Nem meu sopro foi capaz de lhe devolver a consciência.
Quando Bibiana retornou com a roupa suja de sangue, a mãe percebeu que algo havia se rompido dentro da filha, para todo o sempre. Fez com que retirasse as vestes marcadas de violência e vestisse algo para o velório do genro. Nem tentou fazer com que comesse algo. Viu que seus olhos vagavam atravessando qualquer coisa ou pessoa que se colocasse em seu horizonte. Belonísia teve vontade de abraçar a irmã, mas parecia estar desaparecendo como a voz que ecoou algum dia. Não conseguia raciocinar.
Dava-se inteira aos sobrinhos, tentando compensar a dor que entrevia como uma luz fraca transbordando dos seus olhos.
Velaram Severo na casa que ele próprio ajudou a levantar. Bibiana permaneceu ao seu lado, sem arredar pé por um minuto, como um pau-d’arco sem vergar ao corte do machado. Fizeram discursos exaltando as qualidades de Severo. Louvaram a luta e a consciência que havia trazido ao povo da fazenda. Alguns juraram vingança. Naquele caminho, Severo havia
feito desafetos entre os moradores que não concordavam com suas manifestações. Mesmo esses compareceram para velar sua morte.
Fazia tempo que não enterravam ninguém na Viração. O portão estava fechado por determinação de Salomão, o dono que sucedeu a família Peixoto. Alguém se lembrou de perguntar a Bibiana para onde ela queria que o corpo fosse levado. Queria que o marido fosse para a Viração, para descer ao lado de Zeca Chapéu Grande. Os irmãos e Zezé carregaram o corpo pelo caminho de terra. Belonísia seguiu atrás unida aos sobrinhos.
Hermelina caminhava amparada por Servó e pelas filhas.
O pequeno portão estava cerrado com corrente e cadeado. Pararam a marcha para decidir o que fazer. Bibiana, que passou quase todo o velório sem falar, pediu que o cemitério da Viração fosse aberto, num tom de voz que muitos não conseguiram escutar. Seguiram o que julgavam ter ouvido.
Foram muitas mãos agitadas sacudindo o portão velho, como muitos antepassados haviam agitado o corpo para fugir dos castigos e grilhões do cativeiro. O portão tombou no chão como uma corrente se desfazendo no ar.
3
Os novos proprietários chegaram um ano após a morte de Zeca Chapéu Grande. O homem era alto e corpulento. Negociou com os herdeiros da família Peixoto e esteve, durante o período de negociação, algumas vezes na fazenda. Tinha cor de areia e ferrugem como a que se vê na beira do rio Santo Antônio. Usou essa cor de pele muitas vezes, nas discussões com Severo e com o povo, para dizer que não tinha nada contra ninguém, que ele mesmo tinha antepassados negros, dos quais se dizia orgulhoso. A mulher que o acompanhava, e depois veio a residir na fazenda, era branca e pequena, parecia não ter trinta anos. Tinham dois filhos que chegaram muito tempo depois, por breves períodos, porque estudavam na cidade. No começo, andavam para cima e para baixo, o homem tinha os olhos grandes
para as coisas que via na fazenda, e a mulher conseguia fingir interesse. Era atabalhoada, entrava nos lugares sem saber se poderia entrar, repetia as mesmas frases de espanto, sorria de forma quase discreta do que chamava de ignorância do povo, quando se dispunha a perguntar e obtinha uma resposta diferente da que presumia ser verdadeira.
Salomão parecia se interessar por tudo. Se dispunha a escutar o que os moradores diziam, para refutar depois, dizendo que sabia mais, que viu sobre tal coisa em algum lugar que ninguém compreendia o nome.
Almoçaram na casa de Firmina numa das visitas à fazenda, enquanto escolhiam o lugar para construir a casa-grande. Firmina matou uma galinha para receber os novos donos de Água Negra, fez um pequeno banquete com abóbora e quiabo, picadinho de palma e arroz. Ela se sentia apenas uma inquilina, embora morasse ali havia mais de quarenta anos, e apesar de o dono estar ali fazia tão pouco tempo, sentia como se devesse favores por estar na terra alheia. Salomão comeu o que lhe serviram. A mulher não tocou na comida, dizia que tinha uma alimentação especial, agradeceu por tudo, mas ficou claro que sentia nojo. Das casas em condições ruins, das roupas, da precariedade de não se ter água encanada. Numa das vezes, teve dor de barriga e sentiu horror ao descobrir que não havia banheiro em nenhuma das casas, nem na escola. Depois de resistir, quando seu rosto foi mudando de cor, do corado de sol para o pálido, teve que se aliviar no mato.
Entregou um pedaço de papel, que haviam lhe dado, sujo, para que uma das mulheres o pegasse. “Não, a senhora pode deixar lá no mato mesmo”, foi o que as que a observavam de longe disseram, entre riso e ofensa. Voltou contrariada, considerando que teria dificuldades para se adaptar à vida naquele lugar.
Aquela fazenda parecia ser a menina dos olhos do novo senhor. Ele almejava se tornar um grande produtor de café, sem saber se era possível o cultivo naquela terra. Depois quis criar porcos. Por último, quis fazer de Água Negra um santuário ecológico, extasiado que estava com a abundância de água e mata preservada, que resistiam à depredação da Chapada. Em nenhum dos seus planos o povo de Água Negra tinha lugar.
Eram meros trabalhadores que deveriam ser deslocados para dormitórios.
Deveriam viver efetivamente longe da fazenda, porque eram intrusos em propriedade alheia.
Salomão contratou trabalhadores para ajudar no transporte dos materiais e eventuais serviços para a obra da casa. Ela se tornou uma paisagem estranha aos moradores. Derrubaram pés de buritis e dendês que frutificavam num terreno pantanoso, onde começavam os marimbus.
Drenaram parte da água, levantaram uma casa de madeira e vidro. Foi o suficiente para Severo lembrar que havia muito existia uma demanda por melhoria das casas de barro dos moradores, precárias, que poderiam ruir ou ser fonte de doenças. Era preciso construir com materiais mais duradouros.
Uns concordavam, outros não. Diziam que se a terra era do dono, ele é que poderia dizer o que poderia ser feito. Sempre havia sido assim. Não havia motivos para mudar agora. Outros estavam cientes de seus direitos. Há bastante tempo, muito antes da morte de Zeca Chapéu Grande, Severo e outros trabalhadores traziam informações sobre as permissões negadas aos moradores da fazenda. Muitos nunca estiveram conformados com os interditos, mas durante muito tempo foi necessário permanecer quieto e submisso para garantir a sobrevivência. Agora falam em direito dos pretos, dos descendentes de escravos que viveram errantes de um lugar para outro.
Falam muito sobre isso. Que agora tem lei. Tem formas de garantir a terra.
De não viverem à mercê de dono, correndo daqui pra acolá, como no passado.
Sou uma velha encantada, muito antiga, que acompanhou esse povo desde sua chegada das Minas, do Recôncavo, da África.
Talvez tenham esquecido Santa Rita Pescadeira, mas a minha memória não permite esquecer o que sofri com muita gente, fugindo de disputas de terra, da violência de homens armados, da seca. Atravessei o tempo como se caminhasse sobre as águas de um rio bravo. A luta era desigual e o preço foi carregar a derrota dos sonhos, muitas vezes.
Duas semanas antes da morte de Severo, Salomão e Estela deixaram a casa da fazenda. Partiram para uma viagem, era o que se dizia. Mas o desejo do povo, depois do enterro, foi queimar a casa de madeira e vidro.
Queriam vê-la reduzida a cinzas, moída feito poeira, consumida pelas chamas. Sentiam vontade de destruir tudo o que lhes foi negado.
4
Alguém lembrou que ainda poderia haver justiça. Que por mais doloroso que fosse o desaparecimento de um líder, a solução para os problemas permanecia no horizonte, a ser perseguida em sua homenagem. Não iriam ceder à violência do momento e agir de forma irresponsável para pôr em risco seus sonhos e perderem de vez a batalha. Uma voz se levantou para dizer que era preciso acalmar os ânimos, embora estivessem se sentindo em pedaços pelo que tinha acontecido. Outra exortou por temperança, para que não deixassem o ódio falar mais alto.
Aquela noite foi longa. Bibiana permaneceu acordada, primeiro com a luz da sala acesa. Depois deixou que a escuridão tomasse conta da casa quando todos foram dormir. Inácio cuidou das irmãs para que se acomodassem na cama. Ana perguntava sobre o pai. Onde ele estaria agora.
Perguntavam, se chovesse, se ele ficaria molhado e com frio debaixo da terra. Se no sol do meio-dia não ficaria muito quente. Inácio não tinha muitas respostas para as preocupações que vinham dos medos da irmã.
Tudo que sabia tinha origem nas crenças dos encantados das avós Salu e Hermelina. Vinha da fé de seus pais, não muito diferente da que as avós haviam lhe apresentado. Tudo que sabia tinha maior influência de sua avó materna, pelo convívio com o mundo dos encantados, por estar desde muito cedo ao lado de um curador. Por isso, Inácio contou qualquer coisa, sem sequer refletir se acreditava, até que ela dormisse vencida pelo cansaço.
Nesse momento, retornou à sala e perguntou à mãe se não iria descansar.
Ela disse que iria, sim, quando sentisse sono. Ele se aproximou e a abraçou, sentada na cadeira onde estava. Beijou o alto de sua cabeça. Bibiana sentiu as lágrimas de seu filho encontrarem as suas, quentes, minando havia muito
de seus olhos. Pediu que não ficasse triste porque cuidaria dela. Essas palavras demoliram o resto de domínio que Bibiana tentava ter. Inácio era um jovem pouco mais velho que o pai quando este deixou Água Negra.
Então o dia da partida renasceu em sua mente, enquanto abraçava o filho num choro que liberava as dores que haviam se acumulado desde o atentado a Severo. Ela acompanhou o corpo sem vida até o hospital, carregou a cabeça em seu colo, o cheiro de sangue que parecia ter penetrado suas entranhas, por mais que tivesse lavado o corpo e trocado de roupa. O
arrombamento do portão da Viração onde estavam enterrados os antepassados dos moradores, e a decisão de não queimar a casa dos donos da fazenda. Em pouco mais de um dia, tudo havia mudado de forma tão abrupta que era impossível processar o que estava acontecendo. Quando o filho foi deitar, Bibiana permaneceu no escuro, na esperança de que algo se manifestasse para orientá-la sobre o que fazer. Amparou-se nas lembranças, nas dificuldades que passaram juntos quando partiram. Das tarefas que precisou fazer enquanto procuravam se firmar no mundo além da fazenda: ajudante de cozinha num restaurante de beira de estrada, diarista de serviços domésticos, cuidando de crianças. Durante esse tempo, nasceram seus filhos, e ela cursou o magistério, realizando em parte os propósitos que a fizeram deixar a fazenda por um tempo. Nessa jornada percebeu que a vida além da Água Negra não era muito diferente no que se referia à exploração.
Mas havia Severo, e os sonhos, e tudo que construíam juntos. Havia dificuldades e desentendimentos, mas havia, antes de qualquer coisa, afetos que ela mesma não poderia definir. Afetos que envolviam suas histórias e todas as coisas que apreendiam, sobre si e sobre sua gente. Como nessa jornada passaram a amar seu lugar! Sentiram vontade de retornar, à medida que foram acumulando informações sobre o que era pertencer a uma comunidade de moradores, talvez invisíveis para todo o resto, no coração de uma fazenda.
Antes que o sono viesse, Bibiana se levantou da cadeira. A luz do sol entrava pelas frestas da porta e da janela. Abriu a porta, sentiu o sereno fresco da manhã tocar sua pele. O que seria de tudo, agora, sem Severo? O
que seria dela com o vazio que tinha se apossado de seu corpo? Havia os
filhos para encaminhar na vida. E antes que pensasse nos dias por vir, chegaram as irmãs e a mãe. Salu foi para a cozinha preparar café. Belonísia e Domingas sentaram na sala ao seu lado. As três olharam por um tempo a terra além da porta, e o canto dos pássaros parecia ser o mesmo de toda uma vida. Parecia ser o mesmo de um passado tão perto e tão longe. O mesmo canto que as acompanhou na infância, enquanto seguiam o caminho da roça de madrugada, ao lado do pai, para espantar os chupins dos arrozais.
Mais tarde, a polícia chegou para fazer a perícia do local do crime.
Embora Inácio e Domingas tivessem pedido insistentemente que Bibiana ficasse em casa, ela não cedeu e acompanhou tudo, respondendo às perguntas que faziam. Alternava momentos de completa apatia, quando as perguntas precisavam ser repetidas mais de uma vez para que compreendesse, com momentos de ansiedade e revolta, visíveis nos gestos do corpo e no timbre da voz. Se esforçava tentando lembrar cada fração de tempo, cada passo, cada pensamento, gestos, até o que estava escrito, palavra por palavra, no bilhete da chegada do pai que havia voltado para buscar quando Severo foi alvejado. Nada, mais nada sabia. Só que um carro havia partido em alta velocidade em direção à estrada, foi o que alguns moradores disseram. Os agentes foram até as casas das pessoas que supostamente tinham visto o veículo em fuga. Anotaram a cor do carro. Os vidros escuros, disseram, eram um obstáculo para saber quantos e quem estava em seu interior. Perguntaram se notaram algo estranho nos dias que antecederam o crime e se Severo havia brigado com alguém. Quando os moradores responderam sobre os desentendimentos com o dono da fazenda, os policiais se deram por satisfeitos, não prosseguiram. Bibiana e algumas das pessoas presentes foram convidadas a prestar mais depoimentos na delegacia da cidade.
Pareceu, durante um breve período, que as coisas haviam mudado, talvez houvesse justiça para o que tinha ocorrido. Iriam investigar a morte de um homem simples como investigariam a morte de um fazendeiro ou de qualquer homem poderoso da cidade. Mas, algumas semanas depois, surgiu a notícia de que o inquérito havia sido concluído. Que haviam descoberto
um plantio de maconha numa área próxima aos marimbus. Que Severo havia sido morto numa disputa do tráfico de drogas na região.
5
Foi nesse dia que Bibiana resolveu reunir o povo de Água Negra para falar.
Mesmo enredada em seu luto, precisava expor o que pensava. Não poderia deixar as coisas se desenrolarem do jeito que estavam ocorrendo porque, do contrário, em breve todos estariam em perigo. Mesmo que o vazio permanecesse em seu corpo, não deixaria a memória de Severo ser violada por uma mentira. Logo essa mentira seria muitas mentiras a acompanharem sua história, sem que pudesse se defender. E seus filhos? Como viveriam com a imagem vilipendiada do pai? Não permitiria que seu legado fosse despedaçado pela história que as autoridades queriam contar. Muitos deixaram seus afazeres, em respeito, para ouvi-la. Salu seguiu pelo caminho apoiada no braço de Domingas e do genro. Belonísia acompanhou os sobrinhos, mancando, depois de hesitar e escutar da irmã se deveria ou não permitir que ouvissem o que tinha a dizer. “Não há o que esconder”, disse Bibiana, num momento de rara firmeza nas últimas semanas. “Por mais que doa a verdade, é melhor saber por nós mesmos do que por outros. E, sabendo por mim, poderão defendê-lo com os mesmos argumentos.”
Belonísia se sentiu uma sombra de Bibiana durante aqueles dias. Havia se esquivado a vida toda daquele papel, desde que, de forma quase instintiva, a irmã passou a falar por ela. Desde que permitiu que Bibiana conhecesse seus sentimentos mais íntimos. Da mesma forma, se apossava do que se movimentava feroz no pensamento da irmã. Se sentia, mais do que nunca, unida pelo que parecia ser um destino inevitável a se traçar nas trilhas de suas vidas. Passado tanto tempo, não era mais preciso nenhuma comunicação visível, seja pela troca de olhares ou pela leitura dos gestos. O
ar, sentia, poderia vibrar de forma involuntária, transmitindo o mal-estar
físico e mental que a outra emanava. Poderia transmitir suas agitações e suas vontades. Esses dias foram cruciais para que percebesse o quanto estavam ajustadas em suas compreensões. Belonísia havia desenvolvido essa percepção expandida em relação às pessoas, mais ainda quando se referia à irmã, a sua voz no mundo onde se movimentava em silêncio. O
mesmo silêncio da roça e da casa em que residiu por pouco tempo com Tobias foi o estado propício para desenvolver a fúria dos seus sentidos, para se comunicar com seu entorno. A vida, naquele instante, apenas confirmava o que continuava oculto aos olhos alheios, encoberto, talvez num primeiro momento para a própria irmã, mas que consolidou de forma vigorosa e sem retorno o elo entre as duas.
Durante toda sua vida, Bibiana havia visto o pai organizando as empreitadas de trabalho ou conduzindo a assistência nas cerimônias de jarê.
Nunca imaginou, entretanto, que aquela incumbência de falar ao povo da fazenda recairia sobre seus ombros. Até mesmo porque Severo era quem vinha falando aos moradores, organizando a resistência ao cerco que Salomão e seus empregados vinham instituindo, embora ela se inteirasse e participasse de forma ativa da movimentação. Agora se percebia exposta à violência do atentado, à mentira que tentavam difundir para desmoralizar de vez o povo de Água Negra. Sentia como se os tiros continuassem a atravessar os corpos de sua família, mesmo depois de terem levado o marido.
Antes que pudesse começar a falar diante dos vizinhos e parentes, Bibiana sentiu seu corpo tremer de desconforto, ao ver que Salomão a observava de longe, de cima de um cavalo, acompanhado do atual gerente.
Logo depois ele apearia, postando-se à sombra de um jatobá. Queria intimidá-la. Sua presença tinha a clara intenção de silenciar aquela reunião, ou, no mínimo, fazer com que se medissem bem as palavras antes de lançá-las para fora da boca. Argumentaria que era sua terra, e que não iria mais tolerar aquela desordem de gente se reunindo para propagar ideias como as que Severo espalhava, ideias que tinham a intenção de prejudicá-lo. “Nunca houve quilombola nestas terras”, podia ouvi-lo repetir, antes mesmo de se pronunciar. Mas não havia volta: Bibiana estava tomada pela revolta.
Dirigiu seu olhar para os moradores que esperavam sua palavra, embora percebesse vez ou outra alguém olhar com indignação para a direção de Salomão.
Bibiana tremeu de forma visível quando pediu que silenciassem para que pudesse falar. Belonísia desviou o olhar, temendo ser tomada pelo mesmo medo que a irmã evolava. Mas sua segurança cresceu quando iniciou o discurso. Subitamente, o tremor deu lugar a uma voz forte, segura, que foi persuadindo os presentes.
“Chegamos à fazenda há muitos anos, cada um aqui sabe como foi. Essa história já foi repetida muitas vezes. Mil vezes. Muitos de nós, a maioria, posso dizer, nasceram nesta terra. Nasceram aqui, nesta terra que não tinha nada, só o nosso trabalho. Isto tudo aqui só existe porque trabalhamos esta terra. Eu nasci aqui. Meus irmãos nasceram aqui. Crispina, Crispiniana e a família também. E os que não nasceram, já estão a maior parte de suas vidas em Água Negra. Os donos pisavam os pés nesta terra só para receberem o dinheiro das coisas que plantávamos nas roças. Todo mundo sabe das histórias de seu Damião, seu Saturnino e Zeca, meu pai. E sabe das histórias do jarê e de tudo o que vivemos aqui. Sabe melhor que qualquer forasteiro quantas secas já vimos se abaterem sobre a fazenda e quantas enchentes comeram nossas roças na beira do Utinga e do Santo Antônio.”
Pausou sua fala para respirar, recuperando o fôlego consumido por suas lembranças. Consumido pela responsabilidade de se apresentar para defender o que restava da dignidade de seu povo. Olhou para os filhos, atentos, ao lado de Belonísia, que conservava o corpo muito próximo das meninas, como um animal defendendo suas crias. Nesse instante, foi tomada por recordações desordenadas que a levaram à imagem de Severo.
“Todos sabem o que Severo fez por Água Negra. Chegou aqui muito pequeno, fomos morar fora para arranjar a vida, porque aqui as coisas foram ficando difíceis. Mas tinha gosto e respeito por vocês. Tinha consciência de nossa história. Sabia o que nosso povo tinha sofrido desde antes de Água Negra. Desde muito tempo. Desde os dez mil escravos que o coronel Horácio de Matos usou para encontrar diamante e guerrear com seus inimigos. Quando deram a liberdade aos negros, nosso abandono continuou. O povo vagou de terra em terra pedindo abrigo, passando fome, se sujeitando a trabalhar por nada. Se sujeitando a trabalhar por morada. A mesma escravidão de antes fantasiada de liberdade. Mas que liberdade?
Não podíamos construir casa de alvenaria, não podíamos botar a roça que queríamos. Levavam o que podiam do nosso trabalho. Trabalhávamos de domingo a domingo sem receber um centavo. O tempo que sobrava era para cuidar de nossas roças, porque senão não comíamos. Era homem na roça do senhor e mulher e filhos na roça de casa, nos quintais, para não morrerem de fome. Os homens foram se esgotando, morrendo de exaustão, cheios de problemas de saúde quando ficaram velhos.”
As botas de Salomão pisavam a terra moendo torrões, e o som ressoava nos breves silêncios entre uma fala e outra. Por algumas vezes, Crispina, Crispiniana, Isidoro e Saturnino olharam para trás. Alguns moradores se voltavam para observá-lo e segredavam entre si as impressões daquela presença. Maria Cabocla estava de pé, olhando atenta para Bibiana, com a cabeça grisalha coberta por um lenço desbotado, ao lado de cinco dos seus dez filhos que ainda moravam na fazenda.
“Mas não vamos desistir. Essa semente que Severo plantou por nossa liberdade e por nossos direitos não irá morrer. Foi um que se foi. Meu companheiro e pai de meus filhos. Mas somos muitos ainda nesta fazenda.
Foi embora um fruto, mas a árvore ficou. E suas raízes são muito fundas para tentarem arrancar. A mentira de que ele cuidava de plantio de maconha não ficará de pé. Nós sabemos quem planta”, disse sem desviar o olhar do povo à sua frente. “Nós moramos na periferia da cidade, e lá os policiais usavam a mesma desculpa de drogas para entrar nas casas, matando o povo preto. Não precisa nem ser julgado nos tribunais, a polícia tem licença para matar e dizer que foi troca de tiro. Nós sabíamos que não era troca de tiros.
Que era extermínio.”
Logo outras vozes, que nunca se manifestavam na presença de Salomão, foram se somando ao discurso de Bibiana. Sua imagem alquebrada pelo turbilhão de emoções a que havia sido lançada consternava, ao mesmo tempo que inflamava as falas dos parentes e vizinhos, ou dos que tinham sido seus alunos. Os olhos de Salomão demonstravam receio. Ele observava
a reunião com a cautela necessária. Era uma aglomeração considerável, havia muitas famílias, todas mobilizadas pelo incidente. Qualquer gesto seu poderia ser entendido com suspeição. Poderia provocar uma turba, e naquele instante ele estava em desvantagem.
“Querem desonrar Severo, porque desonrando seu nome enfraquecem nossa luta. Querem proteger os poderosos. Querem nos calar, nos retirar daqui a qualquer custo. Querem nos dobrar, mas não vergaremos. Querem que a gente levante, carregando nossas coisas, e deixe a fazenda. Para onde?
Não interessa. Queimaram nosso galinheiro, soltaram animais para destruir nossas roças. Quiseram impedir a pesca com a desculpa de que era para proteger os rios. Como se não fosse a gente que cuidasse das coisas. Como se não fôssemos parte de tudo isso. Estivesse tudo isso nas mãos de garimpeiro ou fazendeiro, estaria destruído. Até proibir de enterrar nossos mortos na Viração tentaram. Mas não irão nos dobrar. Não deixaremos Água Negra.”
Irromperam aplausos e coro para reafirmar o que Bibiana havia dito. De forma surpreendente, Salomão permaneceu calado, embora impaciente, mexendo os pés de maneira que chamava a atenção. Quem lá estava sabia o quanto as coisas haviam piorado desde a venda da fazenda. Viviam acuados. Impulsionados pela mobilização iniciada por Severo, viam em sua morte um pretexto para se fazerem ouvir. Seria agora ou nunca mais.
Salomão nem sequer esperou as pessoas se dispersarem para se aproximar de Bibiana. Embora, aparentemente, quisesse desfazer o mal-estar pela morte de Severo, sua presença era incômoda. Nem suas palavras conseguiram sinalizar uma trégua. “Sinto muito pela morte de seu marido.
Estava fora, mas os empregados me avisaram”, iniciou a conversa de forma amena para prosseguir com o recado, “mas a senhora não pode acusar ninguém. O inquérito, pelo que fui informado, foi concluído. A polícia já deu a resposta. Tem gente séria lá”, parou em frente a Bibiana, tentando apoiar a mão em seu ombro. Ela, de imediato, deu um passo para trás. “O
senhor não precisa dizer o que eu vou falar”, caminhou, se afastando de Salomão, quando então se voltou para trás, olhando diretamente nos seus
olhos, e disse: “Quem fez isso com Severo irá pagar. A justiça dos homens pode até falhar, mas da de Deus ninguém escapa”.
Belonísia encarou o fazendeiro, enquanto os sobrinhos seguiam, tentando alcançar a mãe. Seus olhos rutilavam um brilho vivo, encantado, e fez o homem sentir um arrepio aparente nos pelos dos braços, que se eriçaram. Somente Inácio desacelerou os passos para aguardar a madrinha.
Ela contornou a sombra de Salomão projetada no chão e escarrou sobre ela o veneno que guardava na boca.
6
Encontrei Miúda ainda muito nova. Fui me acostumando a me movimentar dentro das camadas de saias que vestia quando foi amadurecendo mulher.
Miúda e o povo daqui não diziam que eram pretos. Pretos não eram bem-vistos, tinham que deixar a terra. Então dizia que era índia. Os outros diziam que eram índios. Índio não deixava a terra. Índio era tolerado, ninguém gostava, mas as leis protegiam, era o que pensavam. Os outros torciam o bico, porque viam que eram pretos. Mas o povo começava a contar que foi pego a dente de cachorro. Geralmente uma mulher era pega a dente de cachorro, então ninguém poderia questionar que não era uma índia legítima ou misturada com um preto. Miúda, atenta, começou a contar que havia sido pega a dente de cachorro como sua mãe. Se contava, pronto, todos acreditavam. Talvez por isso tenha sobrevivido à caminhada.
Miúda era peregrina. Antes de repousar em Água Negra, andou de terra em terra. Andou tanto que quando contava riam, achando que ou era mentira ou a velha caducava. Ela erguia a barra da saia para interromper uma conversa, sacudindo os muitos panos e levantando poeira da terra.
Seguia para a beira do rio. Miúda era uma mulher-peixe, pescava, nadava, dormia de madrugada na beira d’água. Imitava o som dos peixes, mas também sabia imitar o canto de pássaros. Seus olhos acordavam alguns dias
feito sangues-de-boi e pareciam querer saltar e voar por entre as coisas. O
sangue-de-boi brincava com seu reflexo no espelho d’água dos rios e das lagoas. Miúda não tinha tempo, nem gosto, nem vontade de se mirar no rio, que era uma veia aberta do seu corpo no meio da mata. Chorava dia e noite porque haviam levado seus filhos para longe. Seus compadres da cidade viram a fome e a necessidade que se abatiam durante a seca na casa de Miúda. Disseram que levando os meninos iriam aliviar o sofrimento da mulher sozinha. Disseram que os meninos iriam estudar na cidade, iriam aprender uma profissão, poderiam ajudar a mãe depois. A mulher-peixe resistiu. Varou dia e noite na beira do rio para pescar. Acendia fogueira para se aquecer e iluminar a escuridão, enquanto esperava. Mas a mineração trouxe muita areia para o leito e afastou os peixes maiores. Pescava piaba, que se juntava na beira d’água para comer a pele grossa, quase uma casca de árvore, dos dedos dos seus pés. Mas eram peixes tão pequenos que não davam nem gosto ao angu de farinha. Botou roça, mulher sozinha, e colheu muita coisa. Mas na cheia dos rios ou na seca não havia remédio. Com a lavoura perdida ou levada pelos donos da terra, restava enganar a fome.
Veio um e levou um menino. Outro levou outro menino. Um terceiro levou dois de uma vez. Miúda ficou sozinha. A noite, na solidão, foi se tornando mais longa, e antes de o sol surgir, saía pela estrada, acompanhada dos sons dos insetos, para chegar à cidade e pedir que os filhos voltassem. Seus compadres diziam que era melhor para os meninos estudarem na escola da cidade, que era melhor viverem por ali, tinha comida, não faltava nada. E
Miúda era a mulher-peixe que voltava desolada para casa. Se aninhava na beira do rio, sem temer cobra ou caititu. Pescava as piabas, e quando chovia nas cabeceiras levava peixe grande para a mesa. As mãos da mulher-peixe eram encantadas, enfeitiçavam os peixes. Desciam lentas na água, sem provocar agitação. Quem via Miúda pescar percebia sua esperteza. Os peixes se rendiam em suas mãos, sem resistir.
Santa Rita Pescadeira vagava desacompanhada, vendo a história do povo que também vagava de um lugar para outro procurando morada. Desde muito. Viu a guerra do garimpo e depois a guerra pela terra. Viu muita gente morrendo de maldade. Santa Rita Pescadeira montou o corpo de Miúda para
dar um sentido às suas forças, que se esvaíam sem os filhos. As saias de Miúda giravam na casa do curador. Os braços de Miúda se agitavam como a correnteza do rio da alma. Ela lançava uma rede para apanhar as desgraças da vida dos presentes e levar para o fundo das águas. Nessas horas, éramos uma só. Sentia o conforto de estar abrigada num corpo de mulher forte.
Também era mulher-peixe. Era uma mulher-peixe dentro de outra mulher-peixe. Seus pés se movimentavam como nadadeiras e a raposa uivava na noite em que dançava. O povo a achincalhava, sem se lembrar da encantada. Sem recordar que fui o acalanto das noites de quem vagava fugindo da ruindade. Mas dançava, lançava a rede e os braços corriam soltos no ar, como o rio bravo das cheias. Minhas forças alcançavam os que necessitavam. O pai do pai do seu pai acendeu uma vela para que curasse a febre do filho do seu senhor, numa noite de lua minguante. A mãe da mãe de sua mãe cantou uma cantiga para Santa Rita Pescadeira, em dias de fuga e desespero. Me alegro e me entristeço nessa dança antiga.
Já não danço porque não recordam Santa Rita Pescadeira, porque o curador desta terra morreu, levaram suas forças e o tempo ruiu sua casa.
Pairo como o ar e desço como a chuva na terra. Desço lavando o sangue que derramaram sem piedade. O sangue do passado corre feito um rio.
Corre nos sonhos, primeiro. Depois chega galopando, como se andasse a cavalo.
7
Levaram um pastor de igreja, dias depois, para celebrar um culto. A intenção era reunir alguns poucos moradores que frequentavam eventualmente igrejas no dia de feira na cidade e já tinham seu rol de orações e pecados. Era costume de quase todos participar das cerimônias ou viajar para as romarias, mas era a primeira vez que se celebrava algo que não o jarê dentro da fazenda. Depois da morte de Zeca Chapéu Grande,
quem pôde foi para outra casa de jarê, procurar um novo curador para retirar a mão do velho e colocar a nova sobre a cabeça. Nos últimos anos, depois do fim das celebrações de jarê na fazenda, duas famílias haviam se convertido ao evangelismo, mas continuavam a conviver com as demais sem conflitos aparentes, ainda que renegassem, em privado, as práticas antigas.
Antes do culto, Estela seguiu com o pastor de casa em casa, para convidá-los para a celebração. Se deslocaram no veículo da família. Ela usava um vestido branco com flores e sua pele parecia avermelhada, não pelo excesso de sol, mas como se tivesse comido algo que a deixou com placas de irritação no pescoço e braços. O pastor era um homem conhecido, chegavam notícias de que seria candidato a vereador, e realizava visitas às fazendas e aos povoados da região com a intenção de pedir votos para a eleição de outubro.
“Eles agora querem posar de bons cristãos. Aliás, sempre fingiram que eram bons”, disse Bibiana, ao saber do culto por dona Tonha.
“Engraçado essa notícia de pastor hoje por aqui”, interveio Salustiana.
“Acordei pensando em Bom Jesus. Nas histórias que contavam e que já contei para vocês muitas vezes”, disse, apontando para Bibiana, enquanto Belonísia aguava o quintal, “mas acho que não contei para você, Inácio, nem sei se sua mãe contou.”
“O quê, minha mãe?”
“A história lá do Bom Jesus, em Lagoa Funda”, disse, abrindo uma vagem de feijão, enquanto o neto suspendia o reparo de uma malha de peixe pendurada entre a porta e uma estaca de cerca, no terreiro de casa. “Minha avó contava que os negros de Lagoa Funda chegaram num tempo que ninguém sabia dizer. Cada um tinha sua tapera, tinham suas roças, plantavam na vazante do rio São Francisco. Os filhos iam nascendo e iam fazendo suas casinhas e botando suas roças onde os pais já tinham. Durante muito tempo, não houve nada nem ninguém por aquelas bandas. Eram só o povo e Deus. Depois chegou a Igreja e disse que as terras da cidade lhe pertenciam. Não demorou muito e chegou até Lagoa Funda e tudo o que
estava em volta da cidade. Disse que nossa terra pertencia à igreja também.”
“O povo teve que sair de lá?”, Inácio parou por um tempo o trançado da malha para ouvir o resto da história.
“Não. A igreja marcou com ferro as árvores com um B e um J de Bom Jesus. Marcou tudo o que podia. Disse que as terras pertenciam à Igreja e nós éramos escravos do Bom Jesus. Bom, o povo estranhou, porque não se falava em escravidão em Lagoa Funda. Minha avó disse que sabiam de escravos em outros lugares, mas não ali. Nunca houve escravo naquela terra. Todos se consideravam livres, e hoje eu penso nas coisas que o finado Severo, seu pai, dizia: se os negros vieram para o Brasil para ser escravos, Lagoa Funda deve ter começado com o povo que fugiu de alguma fazenda ou ganhou liberdade de algum fazendeiro. Mas ali ninguém quis falar sobre isso. Todo mundo nascia livre, sem dono. Apagaram essa lembrança do cativeiro.”
“Talvez fosse difícil falar, minha mãe. Sofreram coisas ruins que não quiseram dizer”, disse Bibiana, enquanto arrumava a sacola que levaria para a cidade.
“Pode ser. Depois que marcaram tudo com o nome do Bom Jesus — eu vi muito pé de tudo, de jatobá a oitizeiro, com a marca de ferro do Bom Jesus — e disseram que eram escravos do Bom Jesus, o povo ainda viveu como antes por muitos anos. Mas depois os fazendeiros chegaram mostrando documento, e foram cercando as terras, o povo resistindo, gente morreu, e terminaram por ficar espremidos num cantinho. Minha mãe e meu pai foram para a Fazenda Caxangá, onde conheci seu avô, nessa época em que cercaram as terras”, limpou o suor que descia do rosto com um pano, “se vivêssemos naquele mundão de terra todo, que os mais velhos diziam que tínhamos antes de os fazendeiros cercarem, talvez nem eu nem vocês estivéssemos em Água Negra. Nem seus avós de pai também, Inácio.”
Salustiana e Belonísia permaneceram em casa depois que Bibiana e as filhas saíram para a cidade. Inácio havia descido para a vazante, não acompanhou a mãe. Quando Estela e o convidado chegaram à porta da casa
de Salustiana, primeiro convidaram para uma oração “para os que se foram”
no culto que seria realizado, o que de pronto ela recusou. “Obrigada, mas estou ocupada.” O pastor, um homem que falava alto como se estivesse sempre pregando para uma multidão, começou a falar sobre as imagens de santos depois de ver o pequeno altar da casa. Belonísia bateu os pés, impaciente, com o rosto transtornado pela presença dos dois. Estava com metade do corpo atrás da porta, alerta para fechá-la à primeira ofensa. O
homem falava enquanto Estela sorria sem graça, prevendo o fracasso de sua intervenção. Até que ela tomou a palavra. Falou que ali se praticou jarê por muito tempo. Que dona Salu tocava tambor, mas que agora todos precisavam ouvir a palavra de Deus.
Belonísia fez um gesto para empurrar a porta, mas a mãe a segurou antes que ela fosse fechada. Embora estivessem falando de religião, Salu estava amargurada pela disputa pela terra que havia tirado a vida de Severo. Pelas ameaças e proibições que tinham a intenção de fazê-los deixar a fazenda.
Aquela visita era parte da tormenta que sofriam havia tempos, para constrangê-los, até não sobrar mais nada. Se pôs com autoridade diante dos dois para dizer o que a estava sufocando fazia muito tempo.
“Olha, dona”, interrompeu Salu antes que a mulher continuasse sua pregação, “eu não tenho muita letra nem estudo, mas quero que a senhora entenda uma coisa. Eu não sou a única a morar nesta terra. Muitos desses moradores que vocês querem mandar embora chegaram muito antes de vocês. Vocês não eram nem nascidos. Muitos nasceram aqui. Tenho filhos e netos, todos nasceram em Água Negra. Também não posso dizer o que cada um pensa dela, tim-tim por tim-tim, porque não estou nos pensamentos de ninguém. Mas falo por mim: eu nasci em Bom Jesus, mas também nasci de alguma forma nesta terra. Cheguei aqui moça e jovem. Aqui vivi, criei meus filhos, labutei com meu marido, vi meus vizinhos e compadres serem enterrados, lá no cemitério que vocês fecharam. Fui parida, mas também pari esta terra. Sabe o que é parir? A senhora teve filhos. Mas sabe o que é parir? Alimentar e tirar uma vida de dentro de você? Uma vida que irá continuar mesmo quando você já não estiver mais nesta terra de Deus? Não sei se a senhora sabe, mas eu peguei em minhas mãos a maioria desses
meninos, homens e mulheres que a senhora vê por aí. Sou mãe de pegação deles. Assim como apanhei cada um com minhas mãos, eu pari esta terra.
Deixa ver se a senhora entendeu: esta terra mora em mim”, bateu com força em seu peito, “brotou em mim e enraizou.” “Aqui”, bateu novamente no peito, “é a morada da terra. Mora aqui em meu peito porque dela se fez minha vida, com meu povo todinho. No meu peito mora Água Negra, não no documento da fazenda da senhora e de seu marido. Vocês podem até me arrancar dela como uma erva ruim, mas nunca irão arrancar a terra de mim.”
Estela ficou mais pálida do que se apresentava geralmente e tentou interromper Salu, sem sucesso.
“E tem mais”, completou, “posso não ser curadora, mas ainda sei mexer com feitiço. Posso muito bem dar de comer e beber aos meus guias e pedir pra darem um jeito em muita coisa errada por aqui”, disse, dando as costas e fechando a porta.
8
A faca ressurgiu, rutilante, entre as coisas que Belonísia levava em sua sacola de palha. Por um instante, Bibiana não acreditou se tratar da mesma peça que havia desaparecido da casa antiga, provavelmente pelas mãos de Donana. Caminhou até a frente da casa da mãe, as filhas chamavam do lado de fora para que visse o batizado de bonecas que Ana estava preparando. Se aproximou, muda, e retornou para a cadeira velha onde pendia a lâmina.
Estendeu os dedos e sentiu que estava quente ao seu toque, quase candente, quando confirmou do que se tratava. Sentiu vergonha por estar espiando a sacola da irmã, mas não conseguiu disfarçar a surpresa ao ver o que julgava soterrado em sua memória. A cicatriz de sua língua se ressentiu da recordação, formigou, e lançou Bibiana de novo ao dia do acidente. A mão da avó, por um instante, desabou sobre sua cabeça, que se tornou pesada
com as interrogações que surgiram com a imagem. Puxou o objeto pela ponta até que se revelasse por inteiro: a empunhadura de marfim bem-acabada; pomos e guarda de um metal mais embaçado; lâmina brilhante, sem envelhecer. E um fio de corte que parecia vibrar, prestes a rasgar o pequeno campo de atmosfera em seu entorno, como se dividisse com um talhar um pequeno lenço de seda.
Belonísia entrou no cômodo e parou, como se retornasse trinta anos no tempo e visse, de novo, Bibiana retirar o objeto do tecido encardido de sangue. Há muito não havia mais o tecido. Mas o silêncio com que viu a irmã devolver seu olhar a deixou suspensa no tempo, como se nada mais pudesse avançar antes que se esclarecesse o que aquela presença significava.
Tão habituada que estava a se locomover com a faca, agora se contrapunha de forma inevitável à perplexidade que os olhos de Bibiana lhe devolviam. O rútilo se tornou mais intenso no objeto, e ao redor das irmãs surgiu uma sombra fria, projetada por uma nuvem que encobriu o sol.
Belonísia deu duas pancadas leves no queixo e desceu com o polegar pela face para dizer que sim, era da avó. Cruzou os dedos das duas mãos, deslizando uns sobre os outros para comunicar, sim, é a faca. Repetiu o gesto com as pancadas no queixo e o polegar descendo à face. Não precisava confirmar, Bibiana já havia entendido. Perguntou se Salu sabia.
Negação foi a resposta. Para quê? Se preocuparia de forma desnecessária.
Ela apenas continuaria a ser tratada como a criança irrequieta que havia se mutilado. E por que a carregava consigo? Para trabalhar, claro, para se proteger — veja o que aconteceu a Severo, seus indicadores deslizaram no ar em direção à irmã — e porque havia perdido a língua. O objeto tinha chegado às suas mãos de novo, havia um sinal naquele assombro. Guardava sentimentos que, por mais que vivesse, não saberia explicar. E onde estava esse tempo todo, perguntou. Você não acreditaria, disse, negando com a cabeça e colocando uma mão sobre a outra com as palmas voltadas para cima.
Ao se mudar para a casa de Tobias, naquela manhã em que saiu com a trouxa de coisas e seguiu para a margem do Santo Antônio no mesmo
cavalo, naquela manhã em que sentiu seu ventre vibrar na caminhada do animal até a casa onde moraria, não imaginou que seria surpreendida com uma montanha de entulho que o marido guardava em casa. Àquela visão inicial se seguiu o desânimo, ao pensar o que teria que fazer para tornar a casa habitável, que teria muito trabalho, já que havia trocado a casa dos pais por uma morada árida de tudo. Não conseguiu arrumar tudo no mesmo dia, após a primeira organização se seguiram muitos dias de trabalho, separando lixo, garrafas vazias e tudo que se amontoava pelo casebre.
Um pote de cerâmica — como as panelas antigas — com pequenos torrões de terra ao redor estava esquecido, como quase tudo, num canto da cozinha. Belonísia resistiu a abri-lo com receio de encontrar um rato, uma aranha ou ossada de gente, como já havia ouvido em relatos do povo da região. Faltava um pedaço da boca do pote. Ela adiou essa abertura até esbarrar nele de forma acidental e terminar por quebrar mais um pedaço grande da boca. Ao levantar o objeto sentiu que algo balançava com o movimento. Deixou o pote no chão e se afastou. Mas o raio do sol da manhã alcançou o pote e refletiu no que quer que fosse que estivesse guardado. O brilho chegou aos seus olhos. Um diamante. Era a primeira coisa que alguém pensaria, considerando as histórias da Chapada. Todo mundo espera, um dia, encontrar ou ser encontrado pelo brilho da pedra.
Retirou o tampo. A ponta de uma faca reluziu de forma mais intensa exposta à luz. Belonísia a retirou do pote para fazer como havia feito com tudo até aquele momento: jogar o que não prestava fora e dar novo destino ao que tinha utilidade.
O cabo de marfim tocou sua mão. Estava morno como o pote exposto ao sol em que se abrigava. Mas a boca formigou como no dia em que encontrou a faca da avó. O brilho intenso, as intrigas, o desejo de descobrir seu gosto e a disputa nas brincadeiras com a irmã a levaram ao desfecho que a silenciou para o mundo. A lembrança de Donana depois do evento surgiu viva em seu pensamento. A velha vagando pelo quintal, chamando a filha de quem não tinha notícias, pedindo que tomassem cuidado com a onça, dona Tonha dizendo quando chegaram do hospital que ela havia saído para a beira do rio levando um embrulho. O embrulho, a faca, o pote de
cerâmica que desconhecia. Era a lâmina aquecida por estar no sol, fria quando estava na mala debaixo da cama. Era o fio de corte preservado que rasgava o véu do passado e chegava ao seu presente para fazê-la recordar aquele dia.
Tobias entrou e encontrou seu semblante de espanto e distante no tempo.
Belonísia colocou um pano de prato sobre a faca em cima da mesa. Ele havia esquecido a vara de pesca, traria peixe para os dois quando terminasse as tarefas.
“Não devolverei a Tobias”, foi o que passou por seus pensamentos,
“pertence à minha família.” Encontrou um lugar seguro para guardar a faca, entre o armário empenado e a parede, onde apenas sua mão e o objeto cabiam. Depois que ficou viúva, retirou-a do lugar em que a havia escondido. Passou a andar com ela para a roça, para o rio, levou para defender Maria Cabocla, dobrou o homem da vizinha, que se acovardou diante da lâmina e dos seus olhos de fúria. Mas nada disso Bibiana saberia.
Ela colocou um ponto-final na história antes que a memória lhe retornasse desordenada. Ouviu da irmã apenas que, olhando para a faca tantos anos depois, ela parecia ter sido retirada naquele mesmo instante da mala velha de Donana. A mala que havia levado consigo e com a qual havia regressado, também. E alertou: “Cuidado com Ana, não a deixe à toa”, devolveu a faca a Belonísia, “ela é curiosa como nós éramos”.
Saiu em direção ao terreiro, mas, antes de chegar à porta, retornou.
“Belô”, disse para a irmã, “o que será que fez minha avó guardar essa faca como um tesouro?” Belonísia fez a linha de sua boca ganhar a forma de um arco. “Sabe, não sei se você lembra, mas uma coisa me intrigou, não naquele tempo, éramos muito meninas, mas anos depois, quando me lembrava disso tudo”, disse, enquanto a irmã terminava de guardar a faca na sacola. O dedo indicador arqueado voltou ao corpo de Belonísia. “Por que a faca estava envolta naquele tecido sujo de sangue? Aquela mancha escura era sangue”, suspirou. “E por que minha avó guardava essa faca com tanto medo? Ela não temia outras coisas que podiam nos machucar da mesma forma, como um caco de espelho ou qualquer outra coisa.”
“Medo?”, o polegar e o dedo do meio tocaram o lugar do coração.
Belonísia queria entender aonde a irmã queria chegar.
“Minha avó tinha mais medo do que essa faca significava. Temia mais o segredo que ela guardava do que que pudesse nos ferir.”
9
Donana roubou a faca do coldre esquecido no alpendre da casa sede da Fazenda Caxangá no começo da tarde. Havia viajantes em visita naquele dia. Aproveitou a breve confusão e o desleixo depois da cavalgada para surrupiar o objeto. Aproveitou que os vaqueiros que acompanhavam os senhores haviam baixado a guarda. Aproveitou seu caminho desviado pela estrada que dava na casa de seus senhores. Ao parar para se abrigar do sol que comia seu juízo, deu com o coldre pendurado no gradil. Retirou seu chapéu grande e o encolheu entre as mãos. Pensou que era uma faca bonita, feito uma relíquia da casa-grande, onde nunca pôde pôr os pés. Tinha um cabo com um material feito mármore, não sabia do que se tratava. Mas a lâmina era brilhosa como as coisas finas que os senhores carregavam.
Parecia ser de prata. Devia valer um bom dinheiro. Foi quando se lembrou dos filhos que precisavam de calçados e roupas novas, porque não havia mais como cerzir os trapos esgarçados. “Eles tiram da gente e nós tiramos deles”, foi o que passou por seu pensamento. Pediria perdão a Deus e aos seus guias. Enfiou o objeto no seu cesto de palha, em meio aos aipins colhidos naquela manhã, entre cansaço e desalento. No exato momento disse apenas “Deus me perdoe” e deixou a sombra que lhe serenou o corpo, levando consigo talvez um tesouro, sem ser notada.
E no caminho a certeza de que Deus a perdoaria foi crescendo. Afinal, aquela gente lhe devia muita coisa. O trabalho que não era remunerado, o sol que ardia impiedoso sobre sua cabeça na lavoura queimava inclemente, e seu chapéu, não poderia ser ingrata a esse ponto, de fato, era um refúgio,
mas ainda assim incapaz de defendê-la da exposição pela longa jornada.
Naquele inferno chamado Caxangá, o inferno de escravidão a que se acostumou como se fosse sua terra, não teve autorização para parir seu filho em casa. Zeca nasceu no meio da roça, dentro de um charco, com a ajuda das trabalhadoras da fazenda, debaixo deste mesmo sol que agora fervilhava seu juízo. Era sua por merecimento. Certamente, Deus a perdoaria.
Mas os propósitos iniciais de seu pequeno crime não se concretizaram.
Donana se afeiçoou de tal forma ao objeto que o enterrou debaixo da própria cama. Temeu quando correu conversa entre os trabalhadores, procuravam pela faca de um visitante, convidado do senhor da Caxangá.
Mas guardou aquele temor para si, sem comentar com ninguém. Qualquer passo em falso poderia significar a vergonha da exposição pública. Esses homens, que ameaçavam mandar seus capatazes entrar de casa em casa à procura da faca, poderiam castigar de forma exemplar quem fosse pego, despejando-o da fazenda sem as mãos. Depois, a notícia era de que o homem a tinha perdido na cavalgada que culminou naquela tarde, bem viva na lembrança de Donana. O povo foi convocado a procurar pelos milharais, pelas roças de aipim, cana e mamona. Mas nada foi encontrado e o tempo tratou de fazê-los esquecer do desaparecimento.