Torto Arado
Fio de corte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Se ela não tivesse levado, talvez fosse eu a carregá-la comigo. Senti um aperto no peito; o trotar das patas invadia a parte baixa de meu quadril como um eco. Seguimos devagar, Tobias em silêncio, quando preferia que falasse algo para confortar minha aflição. Com uma mão eu segurava sua cintura, e com a outra, a trouxa.
“Aqui é sua casa, sinhá moça.” Olhei ao redor e havia uma sombra extensa vinda da copa que transbordava de um jatobá a uns vinte metros da casa. Um verde vivo que chamava a atenção. Ele apeou, guiando o cavalo para um cocho com capim verde e fresco, devia ter colhido ainda naquela manhã, antes de ir me buscar. Eu me sentia paralisada e já com vontade de voltar para a casa de meus pais. “Entre.” Fiquei em choque com a desordem que havia naquele casebre de três cômodos, com roupas sujas, mau cheiro e toda espécie de entulho espalhado pelos cantos. Sem contar no estado geral da casa, com paredes esburacadas e filetes de luz entrando pelo telhado, o que indicava que precisava de reparos ou de uma nova cobertura. Em poucos dias sentiria um enorme arrependimento de ter escrito “quero” no papel pardo que dei à minha mãe, porque percebi que minha vida dali em diante não seria nada fácil.
Ele abriu a porta de um armário velho que terminou por ficar em sua mão e que acrescentou aos restos de coisas sem nome que estavam espalhadas pela casa. Disse que poderia guardar o que era meu naquele vão.
Naquele momento, fui sendo tomada de pavor, mas fiz de tudo para não transparecer minha tristeza. Apesar de assustada e em dúvida, não queria lhe magoar. Era natural aquela repulsa, afinal nunca havia saído de casa.
Ali, na tapera de Tobias, tudo era novidade. Em breve se tornaria um lugar que poderia me trazer gosto. Nada que uma mulher não possa dar jeito, assim haviam me ensinado, tanto em casa quanto nas aulas da professora, na casa de dona Firmina.
Tobias parecia estar contente. Tomou a trouxa de minha mão e jogou na cama. Me pegou pelo braço e andou agitado pelos cômodos da casa me mostrando objetos, um monte de cacarecos, coisas estragadas e que jamais seriam recuperadas. Me conduziu alvoroçado pela porta dos fundos, havia um pequeno jirau, achas de madeira, um fogão de barro quase
desmoronando. Estava macambúzia, mas tentava prestar atenção nos cantos de terra que me mostrava. Guardei na memória as formas de um pé de araçá com frutos maduros no chão, bicados por pássaros. Quando ele chegou mais perto, disse que os pássaros não deixavam um fruto maduro no pé e, como ele não fazia questão, ficava por isso mesmo. Havia também um porco novo amarrado num tronco de árvore, e uma pequena plantação de palma.
Me levou de volta ao fogão velho e mostrou suas duas panelas negras das cinzas da lenha queimada. Repetia tudo como se estivesse ensinando uma criança vinda da cidade e que não sabia sobre nada daquilo. Na cozinha, embrulhos engordurados estavam dispostos em cima de um balcão carcomido, grãos de feijão e arroz como que semeados entre os pacotes desfeitos, além de restos de alimentos e uma nuvem de moscas. Disse que eu poderia fazer o almoço, que se faltasse algo ali poderia encontrar crescendo no meio da terra. Agradeci a Deus por estar muda porque não saberia o que falar diante daquela pocilga.
Cumprida a apresentação, Tobias voltou para fora de casa, colocou seu chapéu de couro e desamarrou o cavalo, dizendo que iria retornar para a roça. Voltaria para almoçar. Cavalgou para longe. Me vi sozinha. Não sabia a que distância estava a vizinha mais próxima, nem o que fazer se encontrasse algum perigo, como uma caninana ou uma cascavel dentro de casa. Num primeiro instante, caí dura numa cadeira com o assento de palha desfeito, e o zumbido das moscas durante um tempo foi a única coisa que consegui escutar. Pensei que ficar sozinha ali também não era tão ruim, porque não saberia o que fazer se Tobias quisesse me levar para a cama àquela hora da manhã. Retardaria meu medo até a noite, cada hora a sua agonia. Precisava pôr um pouco de ordem naquele chiqueiro que passaria a ser minha casa, caso aguentasse. Fui para a cozinha, porque decidi que deveria começar por ali. Procurei os grãos por cima da mesa, comecei a separar. Descobri que a nuvem de moscas cobria dois cumbás que deviam ter sido pescados naquela manhã, antes do nascer do sol. Cobri os peixes antes que os insetos os devorassem. Separei o feijão de pequenas pedrinhas e restos de casca e pus de molho. Mas não havia água, nem vasilhame de reserva, então a primeira
coisa a fazer era descobrir onde estava o rio. Retirei uma lata recendendo a ferrugem e levei para o fundo do quintal. Atravessei a mata, desci o terreno enladeirado para alcançar o vale do Santo Antônio. O rio estava cheio por aqueles tempos, logo o encontraria. Segui buscando em minha memória o padrão das casas dos moradores, quase todas construídas ao longo da margem dos rios, para que tivessem água ao alcance das mãos e da boca de forma rápida. Cheguei à margem do rio negro, com suas águas correndo sem obstáculos, carregando peixes e restos da mata para outro rio. Coloquei a lata na beira e quando ficou cheia tive dificuldades para carregar de novo até a casa. Mas já estava acostumada — dizia a mim mesma —, e logo meus pés conhecerão este pedaço de terra sem que meus olhos precisem ver o chão.
Larguei a lata aos pés do jirau, deixei o feijão de molho nos vasilhames que ia retirando da massa de entulho. Os imprestáveis, eu colocava de um lado, os que ainda poderiam ser utilizados, em outro. Trouxe os peixes para o jirau e aproveitei a faca que já estava ali. Retirei as tripas, salguei — o sal estava ao alcance de Tobias, na mesa — e deixei marinar no tempero verde e no limão fresco que tinha em seu quintal. Enquanto isso, enfiei as achas de madeira no fogão velho quase imprestável. Como acender aquele fogo?
Não achava nem fósforo nem querosene. Vasculhei perto do fogão, por cima da mesa, entre os entulhos. Nada. Não perdi tempo, estava decidida a dar um jeito em tudo enquanto separava os objetos bons dos avariados.
Tentava organizar, fazer daquela casa um lugar de morada. Afastava as teias de aranha dos cantos, enquanto pensava se deveria ir à próxima casa da vizinhança para pedir um pouco de querosene ou brasa para acender o fogo.
Deveria ser de alguém conhecido. Há tanto tempo morando ali, os trabalhadores viviam como uma grande família, preservando até as boas disputas e brigas que os verdadeiros parentes têm.
Decidi sair para tentar encontrar fogo. O sol já se encontrava no alto e uma brisa morna chegava ao meu corpo molhado de suor. Levei um pedaço pequeno de lenha comigo para poder dizer a quem encontrasse pelo caminho que precisava de chama.
6
Quando Tobias retornou o sol já estava manso e começava a baixar no horizonte. Estava fraca de fome, enganei o estômago com os araçás bicados pelos pássaros e caídos no chão. Encontrei a casa de Maria Cabocla e foi de lá que trouxe a chama. Ela não se surpreendeu ao me ver, já nos conhecíamos de vista nas brincadeiras de jarê. Maria disse que não precisava de lenha. Depois percebeu que eu não respondia e estava parada diante dela como se aguardasse algo. Aí perguntou se era eu quem precisava de lenha. Por último, entendeu que eu queria fogo e me deu uma das achas que queimavam em seu fogão e que estavam com a ponta em brasa.
De imediato, Tobias abriu um sorriso quando entrou na casa. Temi por um momento que reclamasse por ter mexido em suas coisas, por ter tentado arrumar a bagunça, ainda que não tivesse conseguido fazer tudo naquelas horas que permaneci sozinha. Mas a diferença era clara. Ele olhava os cantos, a cama arrumada, o rasgo no colchão de palha de milho costurado
— com linha e agulha que trouxe em minha trouxa —, a mesa limpa, as moscas que voavam mais distantes, a comida que fumegava no fogão. Não agradeceu, era um homem, por que deveria agradecer, foi o que se passou em minha cabeça, mas conseguia ver em seus olhos a satisfação de quem tinha feito um excelente negócio ao trazer uma mulher para sua tapera. Fiz um prato farto para ele, postei-me de pé ao seu lado, esperei que comesse, queria ver em seu rosto o deleite por provar meu tempero. Comeu ávido, com as mãos, despejava largas porções de farinha de mandioca em seu prato, até esvaziá-lo. Joguei as espinhas no mato. Nem esperei que pedisse por mais e repus o feijão e o peixe. Esvaziou com o mesmo entusiasmo do primeiro. Deixei que se afastasse para o banho na lata cheia que tinha ido buscar no rio, ao terminar a minha tentativa de arrumar a casa. Estava exausta quando entrei para me banhar no Santo Antônio.
Quando a noite caiu, acendi o candeeiro com o querosene que havia achado misturado ao lixo. Postei-me perto da luz, sentada para costurar um dos dois lençóis puídos e com grandes rasgos que havia lavado pela manhã.
Estava tomada pela agonia e tentava me concentrar na agulha. Tobias me cercou, bebia a cachaça que havia deixado em cima da mesa. Passou a falar do dia, das reses, de Sutério, dos trabalhos na fazenda. Eu parava por uns minutos para olhar um pouco para seu rosto, para que não pensasse que era desfeita minha costurar àquela hora. Para que não desconfiasse que temia o que estava por acontecer a nós dois, na mesma cama em que havia batido com o cabo da vassoura para levantar o pó e que havia costurado. Mas bastava que encontrasse seus olhos para de imediato desviar para a agulha, que rompia a trama do tecido entrando de um lado a outro. E com o coração aos pulos dizia a mim mesma: “A cada hora, sua agonia”.
Depois que ele me deitou na cama, beijou meu pescoço e levantou minha roupa, não senti nada que justificasse meu temor. Era como cozinhar ou varrer o chão, ou seja, mais um trabalho. Só que esse eu ainda não tinha feito, desconhecia, mas agora sabia que, como mulher que vivia junto a um homem, tinha que fazer. Enquanto ele entrava e saía de mim num vaivém que me fez recordar os bichos do quintal, senti um desconforto no meu ventre, aquele mesmo que me invadiu pela manhã com o trotar do cavalo.
Virei minha cabeça para o lado da janela. Tentei olhar pelas frestas a luz da lua que tinha despontado no céu mais cedo. Senti algo se desprender de seu corpo para meu interior. Ele se levantou e foi se lavar com o resto de água.
Abaixei minha roupa e fiquei de costas, com os olhos no teto de palha, procurando filetes de luz. Procurando alguma estrela perdida que se apresentasse como uma velha conhecida, para dizer que não estava sozinha naquele quarto.
No dia seguinte, logo depois que Tobias saiu para a lida, minha mãe apareceu trazendo Domingas. Tinha um farnel de comida: um pouco de carne-seca, mel, ovos e feijão-verde debulhado. Queria ver como eu estava, saiu cedo de casa, vieram caminhando, aproveitando enquanto o sol ainda não estava a pino. Senti certo alívio ao ver as duas. Salu tinha a apreensão nos olhos. Se não fosse a vergonha, teria me perguntado se me fiz mulher
direito durante a noite, se ele tinha sido respeitoso comigo. Se espantaram com a quantidade de entulho que havia separado. Eu estava agitada, minhas mãos cortavam o ar, Domingas tentava acompanhar meu raciocínio e ria das minhas tarefas de nova dona de casa. Passamos horas felizes naquela manhã, mas senti um aperto no peito ao vê-las se afastarem, tomando o rumo para casa.
Tobias retornava ao fim da tarde e a primeira coisa que fazia era dar uma talagada na garrafa de cachaça que ficava em cima da mesa. Depois tomava banho ou ia direto se sentar à mesa para a refeição. Eu parava o que estivesse fazendo para servi-lo. No começo, parecia apreciar minha comida, sempre repetia. Depois passou a reclamar que tinha muito ou pouco sal.
Que o peixe estava cru, e me mostrava pedaços em que eu não conseguia enxergar a falta de cozimento, ou outros que se esbagaçavam com as espinhas, dizendo que tinham cozido demais. Nessas horas eu ficava aflita, o coração aos pulos, magoada comigo mesma, me sentindo uma tonta por ter sido desleixada com o preparo. Mas suas queixas não passavam disso, não alterava o tom da voz, não falava alto. Falava como se olhasse para o cultivo e constatasse alguma coisa que enfraquecia a plantação.
Com o passar do tempo, Tobias parecia não sentir satisfação pelo que eu fazia. Se queixava de algum objeto que procurava e não encontrava. Dizia que eu não podia mexer em tudo, que às vezes algo poderia parecer estar fora do lugar, mas estava no lugar certo, porque ele havia escolhido assim.
Concordava. Assentia com a cabeça, mas evitava olhar seus olhos. Nessas horas, crescia a vontade de deixar tudo para trás, de voltar para minha casa, mas o que os vizinhos não iam dizer? Continuávamos a frequentar a casa de meu pai nas noites de jarê, todos agora sabiam que eu não era mais
“Belonísia de Zeca Chapéu Grande”, e que agora vivia com Tobias, logo, eu era “Belonísia de Tobias”. Deixava aquela mágoa morrer no peito, mormente quando ele erguia a roupa antes de dormir para entrar em mim.
Ele dormia, roncava, não reclamava da mulher deitada, então ficava quieta por dentro, como se estivesse tudo bem.
Me levantava logo quando o via se mexer na cama, antes de o sol nascer.
Mas era só acordar que vinha mais queixa: ou o café estava ralo como xixi de anjo, ou estava forte, uma borra de amargo. Procurava enxada, procurava foice, coisas que eu nem havia mexido. E se ele mesmo deixasse as coisas num lugar diferente, só por não lembrar, perguntava: “Mulher, onde está isso?”, “Onde está aquilo?”, e sentia aflição, parava o que estava fazendo para lhe ajudar a procurar. Se eu encontrasse, era como se ele tivesse feito, nem dizia palavra para agradecer. A coisa ficou tão ruim que eu me antecipava, nem esperava ele pedir, já dava tudo em suas mãos: cinto, sapato, chapéu, gibão, facão, só para não o ouvir chamando “mulher”. Me sentia uma coisa comprada, que diabo esse homem tem que me chamar de mulher, minha cabeça agitada gritava. Na casa de meu pai, quando íamos a cada quinze dias, ou nas visitas de minha mãe e Domingas, me chamava por meu nome e eu ignorava, não levantava nem a cabeça para concordar. Senti minha mãe um pouco cismada com minhas feições, com os desvios de meus olhos, com as coisas que minha presença queria reclamar, mas eu disfarçava, tentava nada expressar. O que mais me inquietava era que aquele não era meu jeito. Arisca, parei de ir para a escola mesmo sabendo qual a vontade de meu pai. Mesmo admitindo que aquilo fosse uma pequena frustração para ele, que labutou para que Água Negra tivesse uma escola para os filhos dos trabalhadores, enfrentando os sentimentos enviesados dos donos que só não foram contra a ideia porque o prefeito resolveu dar o nome do senhor pai deles à construção. Para eles era mais uma benfeitoria, não uma escola que daria estudo aos filhos da gente da fazenda. Os rapazes não se aproximavam de mim, ou porque me achavam feia, ou porque não poderiam conversar comigo, principalmente sem a interseção de Bibiana, ou porque me viam como um desafio, alguém que desafiava a força, o que achavam ser privilégio dos homens. Era assim que me sentia. Mas ali, na casa do homem com quem vivia, nos limites daquele casebre de paredes que ruíam, era uma intrusa. Não me sentia à vontade para reagir, nem que fosse de forma serena, sem rompantes de violência nos gestos.
7
Um dia, logo depois de Tobias sair a cavalo para a lida com Sutério, Maria Cabocla adentrou a casa num repente que me fez imaginar que era alguma maldade à espreita, algum homem a entrar pela porta para atacar a mulher que vivia sozinha. Ela estava com a roupa rasgada, chorando muito, o corpo tremia, carregava seu menino caçula também aos prantos. Não entendia muita coisa do que dizia, ouvia apenas algumas repetições: “Ele vai me matar”. Os olhos estavam arregalados, o cabelo liso grudado no rosto de suor e o muco viscoso deixava o nariz.
Ela se sentou. Fechei a porta de casa para ver se seu pavor diminuía, para abafar o som dos choros que ecoavam porta afora. Servi a ela um copo de água, tomei o menino em meus braços, mas nada do que fazia parecia amenizar o sofrimento dos dois. Só depois de algum tempo, Maria Cabocla me disse que fugia do marido, que estava louco, ensandecido, e que as outras crianças haviam se embrenhado na mata. Senti um arrepio só de pensar que aquele homem adentrasse a casa para buscar Maria Cabocla, além de me dar umas pancadas por ter violado a regra de que não se deve meter em briga de marido e mulher. Depois tentei me acalmar. Tobias era um homem valente e respeitado. Conhecia Aparecido, tinham boa relação, não eram compadres, mas eram bons vizinhos. Ele não invadiria a casa sem permissão. Catei umas folhas de capim-santo. Coloquei água no fogo. Servi Maria Cabocla, que não me olhava, soluçava como criança. Encostei o copo de chá na sua boca, estava morno, precisava beber. Foi então que vi seu olho roxo, um ferimento acima da pálpebra, e senti amargura.
Fiz um emplastro com o que tinha de mais fácil no quintal, lembrando os gestos da cura que me foram passados por meus pais e minha avó, sem que eu mesma soubesse que sabia tudo aquilo. Passei no seu machucado. Passei minhas mãos no seu cabelo, amarrei com um tira de tecido velho que guardava para as necessidades. Só naquele momento vi de forma mais clara o rosto de Maria Cabocla, com sua pele acobreada de índia. Nas vezes em que a encontrei para pedir fogo ou lavar roupa na beira do rio, me contava sua história, sua travessia, e não havia observado seus traços com a profundidade com que fazia naquele instante. De Maria guardava, sobretudo, as histórias das muitas fazendas por onde havia andado. Da avó
que havia sido pega no mato a dente de cachorro. Maria estava magra, parecia ter uma fome permanente. Seu corpo miúdo tinha manchas púrpuras, era possível ver à luz do dia. Mulher bonita, minha mãe diria, mas maltratada. Todas nós, mulheres do campo, éramos um tanto maltratadas pelo sol e pela seca. Pelo trabalho árduo, pelas necessidades que passávamos, pelas crianças que paríamos muito cedo, umas atrás das outras, que murchavam nossos peitos e alargavam nossas ancas. Em pé, olhando Maria sentada na cadeira, vi seus seios pequenos, subindo e descendo na inquietude de sua respiração desolada. Me senti compadecida de sua situação e com vontade de dividir o pouco almoço, mas me contive porque ainda dava importância à reação de Tobias.
Assim como adentrou, Maria Cabocla, depois de um tempo curto, saiu porta afora, agradecendo. O menino dormia encangado em seu corpo, esquecido do choro. Disse que iria procurar pelos outros filhos, que o marido deveria ter saído, que a raiva haveria de ter passado. Quase li em seus pensamentos que foi uma tolice ter deixado a casa, se assustar, que o lugar de uma mulher é ao lado do marido. Não se sai de casa em casa contando o que acontece na sua própria, fazendo de sua vida assunto de mexerico.
À porta vi seu corpo deslizar ágil pelo caminho, e pedi aos encantados que a protegessem com seus meninos.
Mais tarde, Tobias chegou suado e com os olhos vermelhos. De longe senti que havia bebido. Amarrou o cavalo com dificuldade e entrou em casa trocando as pernas. Coloquei as panelas no fogão para aquecer, antes de sentar ele já reclamava da demora, que tinha fome, que trabalhava desde cedo. Fiquei apreensiva, aliás, essa apreensão havia se tornado uma rotina em minha vida naquele pouco tempo em que morávamos juntos. Pensava na grande besteira que foi ter saído de casa, mas ele nem queria me dar o direito ao pensamento naquele dia, berrava palavras violentas contra todos: desde os vizinhos até Sutério e a família Peixoto. Me angustiei ao imaginar que poderiam ter contado pelo caminho que havia abrigado a mulher de Aparecido, Maria Cabocla. Quando botei o prato na mesa, ele meteu as mãos sujas e levou à boca. Falou palavra que não entendi, parecia ter
queimado os dedos na comida quente. Continuei ao seu lado. Depois que levou a mão à boca de novo, gritou que estava sem sal. Babava.
Era a primeira vez que o via completamente embriagado, nas festas bebia um tanto, mas se conservava de pé. Ficava com a boca vermelha e os olhos apertados pelas pálpebras caídas, mas não embolava a língua como fazia ali à mesa. Tentava entender o que ele dizia, e sem chance de me proteger, o prato veio na minha direção. Olhei para o chão e vi a comida espalhada. Aquele chão onde havia curvado meu corpo para varrer e assear com zelo. Senti raiva naquele instante, perguntei a mim mesma quem aquele vaqueiro ordinário pensava que era. No início, encarava com inquietação os acessos de fúria que passou a apresentar. Antes eram mais contidos. Agora tinha perdido as estribeiras. Dali a pouco esse cavalo iria me bater igual ao marido de Maria Cabocla. Mas eu já me sentia diferente, não tinha medo de homem, era neta de Donana e filha de Salu, que fizeram homens dobrar a língua para se dirigirem a elas.
Ele se recostou na parede, o banco pendia para trás. Olhei para o chão, imaginei que esperasse que fosse limpar tudo naquela mesma hora, mas passei saltando o prato de esmalte de andu e galinha esparramados. Limpei minhas mãos na roupa, saí pela porta do quintal, e me pus a cavoucar o canteiro de tomate e cebolinha. Esperava que viesse atrás de mim, valente, que quisesse levantar a mão para me bater. Ouvi gritar de casa que eu era burra. Que não falava. Que era aleijada da língua. Engoli cada insulto que ouvia de sua boca. Dava um golpe mais forte fazendo desprender da terra grandes torrões. Que se atrevesse a vir me agredir que faria o mesmo com sua carne: a faria se soltar da face com um golpe apenas. Antes que qualquer homem resolvesse me bater, lhe arrancaria as mãos ou cabeça, que não duvidassem de minha zanga.
Ele continuou com os insultos, mas deixei meu coração aquietar.
Trabalhar a terra tinha desses sentimentos bons de amansar o peito, de serenar os pensamentos ruins que me cercavam. Pensava em tudo que estava distante, menos em Tobias descontrolado a poucos metros, na tapera que chamava de casa. Quando dei por mim já era noite, o sol se pôs, e o canteiro estava bonito, tinha crescido de trabalho. Voltei para casa para
limpar a cozinha. Guardei a comida atirada sem respeito ao chão num embrulho para Fusco. Iria à casa de minha mãe na manhã seguinte, ele quisesse ou não. Estava com o peito apertado de saudade daquele pedaço de chão que eu conhecia como a palma de minha mão. Não faria comida para ele. Tinha meu orgulho, não era humilde, e muito menos sabia perdoar. Se a comida não estava boa, que fizesse melhor. Como poderia dizer isso? Não adiantava escrever, ele não iria entender. Tobias só sabia assinar o nome, como a maioria dos trabalhadores. Então, para demonstrar minha insatisfação com seus destemperos, não iria fazer. Quando me aproximei do quarto, percebi que roncava. Não havia se banhado no rio, havia deitado sujo do trabalho. Paciência, pensei, não vou acordar a fera para se banhar, é capaz de se voltar contra mim.
No dia seguinte, saiu antes da hora de costume. Não me levantei. Ouvi quando fechou a porta. Ouvi também o trotar do cavalo tomando distância.
Só depois me levantei e cuidei de tudo; aguei o quintal. Cozinhei fruta-pão.
Senti prazer com o cheiro que fumegava na cozinha. Pensei em Maria Cabocla, que tinha ocupado meus pensamentos e minhas rezas antes de dormir. Pedia que ela e as crianças estivessem bem, que tivesse se entendido com o marido. Que Deus amansasse aquele coração, iria pedir para Maria Cabocla que falasse com meu pai, que muitos já haviam se curado da bebida com suas garrafadas e rezas. Que havia encantado para tudo na vida, então havia encantado para tirar aquele vício do homem.
Maria parecia ser mais velha que eu e Bibiana. Não tinha tanta idade quanto minha mãe, mas seu filho maior tinha onze anos, foi o que me disse. Talvez, se nos colocassem juntas, a tomassem por minha mãe, dada a aparência desgastada de sofrimento.
Tranquei a casa e saí. Segui pelo caminho como se voltasse para casa.
Uma sensação boa se apossou de mim, sentia leves arrepios, era como se fosse receber um presente que esperava havia muito tempo. Segui reencontrando o que conhecia, as veredas, as casas, o rio, os buritizeiros, um sentimento bom de que, se não desse certo com Tobias, poderia me dispor a caminhar para regressar à beira do rio Utinga. Sempre restaria a possibilidade de encontrar um lugar conhecido. Ou um novo.
Quando avistei a casa ao longe quase sorri. Torci para que minha mãe não chegasse à porta, queria apanhá-la de surpresa, riríamos juntas, sentaria à mesa para tratar das coisas conhecidas. Iria ouvi-la falando por mim e por ela. Fazendo perguntas e respondendo a si mesma, como se fossem minhas as respostas. Até que eu interviesse, negando. Ia refluindo todos aqueles sentimentos vivos como uma coisa boa que se repete sempre. Bati com os pés devagar na soleira da porta. Ouvi um rumor de vozes, dona Tonha deveria estar por lá, pensei. Quando ultrapassei a porta vi uma mulher sentada, de perfil, com um bebê no colo. Bibiana havia regressado.
8
Faz tantos anos, mas recordo aquele dia, o dia do acidente que fez minha mãe e meu pai se desesperarem e correrem na companhia de Sutério, na Rural em que eu sonhava passear, não em meio ao choro e ao sangue, pela estrada até o hospital. Fiz a viagem acompanhada da recordação do desespero que tomou conta de Donana ao nos ver colocando sangue pela boca, chocada ao ver sua mala fora do lugar de sempre, talvez esquecida da faca de cabo de marfim embrulhada e recolhida depois. Só quando minha mãe, avisada por dona Tonha, chegou apressada e se desesperou ao ver nosso estado, perguntando de forma incessante o que havíamos feito, sacudindo a mim e a Bibiana com tamanha violência que desconhecíamos em seus gestos, foi que minha irmã, aos prantos e cuspindo sangue, disse que tínhamos retirado o objeto da mala de nossa avó. Não pude ver o que se passava depois com Donana, ao descobrir que guardava um perigo, um objeto que nós, crianças, julgávamos não ter a menor importância, a não ser a curiosidade de tê-lo nas mãos, e depois enfeitiçadas por qual encanto, na boca. Um brilho que se revelou de agouro, que se apossou de nossos olhos e nos fez esquecer o mundo e os perigos que todos diziam ter os objetos
afiados, “cuidado com o fio de corte”, nos levando por fim ao evento que atingiria nossa inocência para sempre.
Naquela manhã, cansada de brincar com as bonecas de sabugo de milho, olhei para Bibiana e sugeri que poderíamos ir para o quintal, no jirau, pegar um pedaço de brasa, talvez um lagarto no mato e fazer as maldades que víamos outras crianças da vizinhança cometerem aos bichos. Ela disse que não queria. “E se fôssemos ver a mala de vó Donana?” “Ela está cozinhando batatas.” “Espere”, me disse. Donana se perde na sua imaginação. Donana vive no passado, logo estará perdida em seus pensamentos avançando na mata depois do pomar e do galinheiro velho.
Sentamos na soleira da porta, vislumbrando a sombra de nossa avó se afastar pela porta dos fundos. É provável que Bibiana não soubesse o que iria encontrar, mas eu me considerava mais esperta que minha irmã, mesmo sendo mais nova. Já havia visto Donana arrumar e desarrumar aquela mala muitas vezes, apesar da grossa camada de terra que os ventos de setembro e outubro traziam todos os anos e que ficava depositada sobre ela, como se há muito tempo não revolvesse seus pertences. Havia visto, certa manhã, o desenrolar da faca de cabo de marfim. Vi Donana polir sua prata com um pano sujo, enquanto falava sozinha de Carmelita, a tia desaparecida.
Poderíamos pegar a faca para cortar os matos do lado de fora, cavoucar a terra, tratar as caças da nossa imaginação. Poderíamos pegar a faca para apontar os restos de lápis que tínhamos.
Mas a faca reluzia mais que tudo. Nela nos víamos melhor que no caco de espelho que Donana guardava na mesma mala. Soprei para minha irmã, no silêncio do quarto, sem a agitação dos pássaros lá fora, uma pergunta:
“Que gosto tem?”. “Deve ter gosto de colher”, Bibiana falou. Me deixa ver, pedi agitada, pulando em cima da pele de caititu que cobria as ondulações da terra no chão. “Não, eu primeiro”, Bibiana queria impor a autoridade de irmã mais velha, que gostava de exibir. E se Donana chegar e a encontrar com a faca na boca? Ela perde a pose e ganha uma boa surra. Arrastei a cama empurrando meu corpo para trás, para que Donana ouvisse ao longe a movimentação e voltasse depressa. Ela iria nos surpreender e acabaria a brincadeira; afinal, a ideia de pegar a faca foi minha. Mas o aviso que lancei
pelo ar não vingou, então pensei em gritar. Minha irmã seria mais rápida ao lançar a culpa sobre mim. Vou pegar a faca mesmo contra sua vontade.
“Tem gosto de colher?”
Retirei rápido de sua boca. Tive que lutar por um instante com a força de sua mão. Achei que ela resistiria mais, como resistia ao retirar algo seu, ou como eu mesma resistia se tentasse retirar coisa minha. Não dei importância aos seus olhos que cresceram. Coloquei a faca em minha boca, encantada com o brilho. E minha avó Donana se distanciava do mundo com seus pensamentos. Em minha mão aquele objeto pesou como uma rocha. Retirei-a de forma violenta quando percebi que o feitiço se voltaria contra mim, eu que seria surpreendida por nossa avó. Bibiana estaria livre para negar até o fim. Quando retirei a faca e vi Bibiana sangrando, senti que algo na minha boca também havia se rompido. Mas a emoção, a respiração acelerada pela proximidade de ser surpreendida, não me permitiram sentir naquele instante a dor que sentiria depois. Guardei nas mãos a fração de minha língua, como se por magia meu pai e minha avó pudessem colocá-la de novo no lugar. O
curador Zeca Chapéu Grande tudo podia. Se transformava em muitos encantados nas noites de jarê. Mudava a voz, cantava, rodopiava ágil pela sala, investido dos poderes dos espíritos das matas, das águas, das serras e do ar. Meu pai curava loucos e bêbados, devolveria meu pedaço de língua à minha boca. Enquanto pensava estouvada numa solução para minha desgraça, Donana nos surpreendeu, antes mesmo de Bibiana pôr a mala de novo no lugar. Ainda vi sua mão desabar na cabeça de minha irmã, como imaginei minutos antes. Com a mesma força desabou na minha. Mas eu comecei a fraquejar porque perdia muito sangue.
Me lembro de ter ouvido os médicos falarem que teria dificuldade para falar e me alimentar. Que teria que voltar sempre à cidade para ser acompanhada, fazer exercícios de fala. Mas não seria possível, não havia como deixar Água Negra, morávamos distante, não haveria maneira de nos deslocarmos por tantas léguas com tanta frequência. No hospital da cidade mais próxima não havia médico que soubesse fazer o tratamento.
Por isso me calei.
Passado muito tempo, resolvi tentar falar, porque estava sozinha me embrenhando na mesma vereda que Donana costumava entrar. Ainda recordo da palavra que escolhi: arado. Me deleitava vendo meu pai conduzindo o arado velho da fazenda carregado pelo boi, rasgando a terra para depois lançar grãos de arroz em torrões marrons e vermelhos revolvidos. Gostava do som redondo, fácil e ruidoso que tinha ao ser enunciado. “Vou trabalhar no arado.” “Vou arar a terra.” “Seria bom ter um arado novo, esse arado está troncho e velho.” O som que deixou minha boca era uma aberração, uma desordem, como se no lugar do pedaço perdido da língua tivesse um ovo quente. Era um arado torto, deformado, que penetrava a terra de tal forma a deixá-la infértil, destruída, dilacerada.
Tentei outras vezes, sozinha, dizer a mesma palavra, e depois outras, tentar restituir a fala ao meu corpo para ser a Belonísia de antes, mas logo me vi impelida a desistir. Nem mesmo quando o edema se desfez consegui reproduzir uma palavra que pudesse ser entendida por mim mesma. Não iria reproduzir os sons que me provocavam desgosto e repulsa e ser alvo de zombaria para as crianças na casa de Firmina, ou para as filhas de Tonha.
Durante todos esses anos, somente quando estava só, e mesmo assim muito raramente, ousava dizer algo. Era um tipo de tortura que me impunha de forma consciente, como se a faca de Donana pudesse me percorrer por dentro, rasgando toda a força que tentei cultivar desde então. Como se o arado velho e retorcido percorresse minhas entranhas, lacerando minha carne. Se esvaía toda a coragem de que tentei me investir para viver naquela terra hostil de sol perene e chuva eventual, de maus-tratos, onde gente morria sem assistência, onde vivíamos como gado, trabalhando sem ter nada em troca, nem mesmo o descanso, e as únicas coisas a que tínhamos direito era morar lá até quando os senhores quisessem e a cova que nos esperava fosse cavada na Viração, caso não deixássemos Água Negra.
Mas eu persistia e repetia as palavras mais duras, as que não gostamos de ouvir, para mim mesma, nos caminhos que percorria sozinha e que com o passar do tempo foram se tornando mais frequentes. Não me furtava a dizer o que faria muitos correrem, temendo a virulência de uma língua.
Eram palavras repetidas por minha voz deformada, estranha, carregada de rancor por muitas coisas, e que só fez crescer ao longo dos anos. Agora, com os maus-tratos de Tobias, elas se tornaram mais vis, eram gritadas por minhas ancestrais, por Donana, por minha mãe, pelas avós que não conheci, e que chegavam a mim para que as repetisse com o horror de meus sons, e assim ganhassem os contornos tristes e inesquecíveis que me manteriam viva.
9
Como minha irmã, naquele breve período de quase dois anos em minhas contas, havia envelhecido! Estava com os quadris largos, não tinha mais o viço da mocidade. A única coisa que ainda a fazia parecer jovem eram as espinhas brilhantes que despontavam como pontos amarelos em seu rosto.
Por todo o resto, parecia ter mais dez anos. Aquele tempo parecia ter passado com violência para ela, agora mãe de um menino. Pude ver seus seios despontarem da roupa que vestia, cheios, caídos de amamentar Inácio.
Mas isso nada significava para nós mulheres da roça. Éramos preparadas desde cedo para gerar novos trabalhadores para os senhores, fosse para as nossas terras de morada ou qualquer outro lugar onde precisassem. A constatação que fazia era apenas em respeito à passagem de minha irmã da infância para a maturidade.
Seu rosto guardava uma delicada apreensão entre o contentamento de me encontrar, saber que estava bem, e o abandono a que sujeitou a família para viver com o primo, uma aventura de criança como as de outras moças que haviam feito o mesmo. Histórias relatando casos como este era o que não faltavam entre nós. Seus movimentos revelavam os instintos maternos, os que observamos com muita familiaridade nos animais que nos cercam.
Pude perceber isso ao lhe ver se levantar, pesada, ao passar a criança para o colo de Salu, para me abraçar. Como quis abraçar com força e verdade, porque eu estava surpresa com a bênção que era poder olhar de novo seu rosto e ver minha irmã com seu filho. Como a mágoa que sentia aflorava com uma intensidade embotada, misturada a tudo o mais que vivenciava, e por mais que quisesse sufocar, ainda persistia. Por isso, nossos cumprimentos foram desanimados, sem o viço que permeava nossa relação de irmãs antes de sua partida.
O motivo de minha saída de casa naquela manhã ficou em segundo plano. Não esperava, depois de tanto tempo, de repente, encontrar Bibiana.
Me sentei ao seu lado para escutar sua conversa com Domingas e minha mãe, contando sobre sua vida fora da fazenda. Tentei romper o meu espanto e articular algumas intervenções com os mesmos gestos que durante muito tempo foram compreendidos e transmitidos por Bibiana aos demais. Como tentei, naquele instante, recuperar o elo que nos fazia quase uma! Mas os gestos não eram entendidos de pronto, minha irmã precisava tentar uma, duas ou muito mais vezes, até que cansássemos. Domingas parecia me compreender muito mais. Já havia perdido, em parte, a habilidade de transmitir meus sentimentos, minha incessante capacidade de me comunicar que dormia por longo tempo, desde a sua partida.
Bibiana contou que ela tinha feito um supletivo, e no próximo ano ingressaria numa escola pública de magistério. Que trabalhava cuidando das crianças das vizinhas para que pudessem trabalhar. Ganhava muito pouco com isso, mas era o que podia fazer com um filho de colo. Contou também que Severo trabalhava na roça e frequentava atividades no sindicato dos trabalhadores rurais. Estava aprendendo muitas coisas. Batalhava, apesar do medo e das adversidades, para melhorar a vida dos trabalhadores com quem compartilhava o fardo. Era admirado e respeitado até pelos mais velhos.
Severo entrou pela porta dos fundos acompanhado de meu pai e Zezé.
Me cumprimentou tirando o chapéu. Me chamou por prima Belonísia. Me senti feliz de vê-lo. Ele também havia mudado, parecia mais homem, adulto, havia deixado para trás a adolescência. Parecia preservar apenas a inquietude de sempre. Ao vê-lo, percebi que as mágoas pela partida infantil dos dois, superficialmente, haviam ficado no passado. Durante algum tempo, pensei que pudesse haver uma ruptura entre nossas famílias, mas o perdão aflorava da bênção que poderia ser o retorno de alguém de qual
somos parte. Não foi possível evitar, da mesma forma, recordar as bobagens que Bibiana pensou a respeito de nós dois alguns anos antes. A figura de meu primo exercia de fato um encanto sobre mim. Mas nada que pudesse ser chamado de paixão. Havia uma admiração por ser mais velho, pela energia e pelo frescor que emanavam de seus gestos, de suas histórias e principalmente de seus atos. Severo tinha uma sedução natural, como os animais da mata que não nos cansavam de surpreender com sua astúcia.
Nem sempre era o conjunto de atributos que o corpo mostrava, mas estava entranhado no seu movimento pelo mundo. A minha admiração nascia da vontade de ter a mesma força, liderança e sabedoria, como se fosse o filho mais velho de Zeca Chapéu Grande, porque tudo o que admirava em Severo era a mesma capacidade que meu pai tinha de conduzir pessoas por caminhos tortuosos.
Com sua presença via reforçadas as impressões que ele havia me deixado desde sempre. Falava com dureza sobre nossas condições de vida na fazenda, a ponto de deixar meu pai embaraçado. Zeca nos fez saber, em muitas oportunidades, que falar mal de quem havia nos acolhido e permitido que morássemos e dali vivêssemos era ingratidão. Mas se poupou em não rebater os argumentos de Severo, talvez pela ocasião, pelo ressentimento a caminho de ser superado. Aquele foi um sinal dos tempos que viveríamos se algum dia eles retornassem à fazenda. Percebi que havia algo vigoroso e decisivo nas suas enunciações sobre o trabalho, sobre a relação de servidão em que nos encontrávamos. Guardei o que pude de suas palavras para tentar decifrar as mensagens novas que trazia, transferindo sua vivência em outras terras para a nossa própria história, para que algo passasse a fazer sentido para nós.
Olhei a criança de volta aos braços de Bibiana, com profundidade. Ela percebeu e se dirigiu a mim para dizer como ele se chamava. Achei bonito o nome e, para mostrar que tinha gostado, sorri. Tentei tomá-lo em meus braços, mas ele se esquivou, deitando a cabeça no ombro da mãe. Era meu sobrinho, meu sangue, que continuaria a semear a terra, mesmo se não vivesse em Água Negra, se não fosse abatido pelas doenças que às vezes levavam nossas crianças muito cedo. Ele tinha olhos que não era possível
definir, se pareciam com os do pai ou os da mãe. Estendi minha mão para acariciá-lo. Minha mãe repetia, incontrolável em seu contentamento, que era a vovó. O calor de Inácio encontrou minha mão, que o reconhecia, sua pele viva e morna, cor de mel das flores, me preencheu de força e me fez bem-querer.
Bibiana disse que traria o menino em breve para batizar na Igreja de Senhor dos Passos. Você será a madrinha, escutei. Seu arranjo indicava a importância que eu tinha para sua vida, mesmo estando distante, mesmo percebendo que havia diferenças e estranhamentos entre nós. E dessa forma poderíamos reforçar nossos laços.
Durante aqueles dias, voltei quase que diariamente para a casa de meus pais ou de tio Servó e tia Hermelina, onde Bibiana e Severo se revezaram em atenção. Queria escutar cada vez mais as histórias que traziam de suas passagens por outros lugares. Queria ouvir de Severo as explicações para o que vivíamos em Água Negra. Eram histórias que se comunicavam com meus rancores, com a voz deformada que me afligia e por vezes me despedaçava, com todo o sofrimento que nos unia nos lugares mais distantes. Que juntos, talvez, pudéssemos romper com o destino que nos haviam designado. Nem o mau humor e destemperos de Tobias me desanimaram a sair, até que partissem de novo, com a promessa de que logo voltariam.
Quando se foram, pressenti que iriam regressar. Que os bons ventos os trariam com chuva e com mudanças. E só por isso fiz uma prece para que fosse muito em breve.
10
A agressividade de Tobias cresceu nos meses que se seguiram, a ponto de minha mãe fazer chegar a mim um recado de meu pai: estava preocupado comigo e queria que voltasse para casa. Não seria vergonha alguma para a
família meu retorno. Apenas queria zelar por sua filha, para que nada de ruim acontecesse.
Tobias reclamava por pouca coisa, e quase sempre a culpa de tudo estava em mim. Bebia grande quantidade de cachaça, seus olhos ficavam vermelhos e pousavam no meu corpo quase sempre para acompanhar os insultos que me dirigia: lembrar que eu era muda, que passado tanto tempo não havia gerado filho como minha irmã, que não cozinhava bem, que perdia muito tempo arando o quintal, que não queria me ver na companhia de Maria Cabocla. Ela, por sua vez, me dizia que era certo que o problema de não criar menino na barriga não era meu, porque Tobias deitava antes com uma e com outra mulher, mas não se tinha notícia de filho algum.
“Decerto”, me disse, “ele é que deve ter a gala rala.”
Não foram poucos os dias em que pensei em retornar à casa de meu pai.
Mas algo me dizia que poderia dobrar o homem. Não deveria deixar a casa, acovardada. Se havia coisa que aprendi era que não deveria aceitar a proteção de ninguém. Se eu mesma não o fizesse, ninguém mais poderia. O
cuidado que Bibiana direcionava a mim, no passado, nada mais era que o desejo que ela mesma alimentou desde muito cedo de que poderia salvar a todos, talvez influenciada pela experiência da crença de nosso pai. Mas, no fundo, era eu quem a protegia quando demonstrava medo nas atividades mais corriqueiras, quando precisávamos avançar na mata ou nos rios ou marimbus, me fazendo seguir na frente para, caso avistasse uma cobra ou um animal selvagem, espantar com o que dizia ser minha valentia.
Durante um tempo, Tobias ainda temeu meu pai enquanto frequentava as noites de jarê. Bebia, falava alto, chamava a atenção dos presentes. Mas não era o único a exagerar, por isso ninguém dava muita importância. Era um momento de descontração da faina levada ao extremo dia a dia. Mas eu, que já o via falar alto quase todo dia por conta da bebida, não suportava nem olhar ou escutar sua voz, nem mesmo ficar ao seu lado quando saíamos.
Preferia procurar outras companhias, ajudar minha mãe nos afazeres, ficar com Domingas ou com as filhas de Tonha.
Foi mais ou menos naquele período que me veio um forte sentimento de culpa por ter aceitado viver com Tobias. Ele nunca havia feito perversidade
como o marido de Maria Cabocla e de tantas outras, que faziam das mulheres saco de pancada. Somente uma vez tinha ameaçado me bater, quando me fez procurar uma calça puída que tinha costurado dias antes para que vestisse. Gritou com seu jeito grosseiro, e eu, me sentindo ofendida, não arredei o pé da cadeira onde costurava uma toalha. Ele levantou a mão como se fosse dar um tapa, mas a susteve no ar quando interrompi a costura para mirar com olhos ferozes os seus olhos. Como se o desafiasse a fazer o que ele queria, para ver se sua bravura ultrapassaria minha determinação.
Senti um bicho ruim me roendo por dentro naquele instante e talvez ele tenha visto a fúria que guardava. Tobias abaixou a mão e parou de falar, envergonhado, e saiu para beber mais. Quando retornou, cambaleando, deitou na cama ainda sujo e dormiu.
Pensava que seria melhor se tivesse morrido no dia em que saí de casa.
Que poderia ter despencado do cavalo e me estrebuchado no chão sem forças, porque àquela altura minha lamentação não servia de nada. Sabia que, mesmo depois de muitos anos, carregaria aquela vergonha por ter sido ingênua, por ter me deixado encantar por suas cortesias, lábia que não era diferente da de muitos homens que levavam mulheres da casa de seus pais para lhes servirem de escravas. Para depois infernizarem seus dias, baterem até tirar sangue ou a vida, deixando rastro de ódio em seus corpos. Para reclamarem da comida, da limpeza, dos filhos mal criados, do tempo, da casa de paredes que se desfaziam. Para nos apresentarem ao inferno que pode ser a vida de uma mulher.
A vida bem-sucedida de meu pai e minha mãe, ou até o momento de Bibiana e Severo, parecia ser uma exceção. Sofriam algumas penitências, nenhuma mulher estava livre delas, mas eram respeitadas, tinham voz dentro de casa. Nunca havia visto meu pai dirigir qualquer insulto à minha mãe. Se não eram calorosos e afetuosos entre si, também não eram indiferentes. Cada um sabia da necessidade do outro e concordava em ceder para avançar. Apesar de pouco tempo, conseguia ver que comigo não seria do mesmo jeito. Poderia até piorar, a ponto de Tobias me destinar os mesmos maus-tratos que Aparecido infligia a Maria Cabocla.
Sem justificativas, Tobias passou a ficar mais tempo fora de casa.
Deixou de ir ao jarê de meu pai e começou a frequentar outro, a léguas de distância. Quando não era o jarê, eram as festas de santo, ou os aniversários e batizados de gente que conhecia. Continuava a chegar bêbado, com as roupas sujas, com todos os tipos de mancha, de barro a pintura de mulher.
Foram muitos os dias que dormiu fora de casa. No início, me preocupava com seu jeito explosivo e com as possíveis brigas e juras de vingança que poderiam recair sobre ele. Me preocupava também que Sutério, vendo correr sua fama, o convidasse a se retirar da fazenda. Já havia decidido que, caso isso ocorresse, não iria embora do lugar em que nasci.
Senti meu corpo esfriar muitas vezes e, a cada ausência de Tobias, rezava por mim mesma, para que tivesse forças para suportar aquela vida.
Continuei a trabalhar no quintal, cuidando da roça e das coisas que ele não fazia mais. Só não montava animal como um vaqueiro porque isso não sabia.
Passadas semanas, depois de uma noite maldormida, sem eu saber por onde andava Tobias, Genivaldo, vaqueiro da fazenda, chegou à porta de nossa casa com o chapéu na mão. Silencioso, o mau presságio a ponto de arrebentar em seu rosto. Parecia uma ave de mau agouro, e senti meu corpo se arrepiar por inteiro. Me convidou a acompanhá-lo pela estrada para o lugar onde encontrou o homem que havia me tirado de casa, caído.
11
Me ajoelhei e fechei os olhos de Tobias. Levantei sem sobressalto, caminhei para o canto da estrada onde o cavalo comia com a cabeça baixa e abanando as orelhas para espantar as varejeiras. Alisei sua barriga, como se fosse o ser mais importante do mundo. Dei dois tapinhas no lombo, indicando que queria partir. Tomei as rédeas em minhas mãos e segui caminhando com os moradores, que carregaram o corpo até nossa casa.
Certa vez, me fizeram chegar uma notícia, por Maria Cabocla, de que Tobias havia se indisposto com uma curadora de nome Valmira, que vivia na cidade. Muitos filhos da casa o haviam colocado para fora depois de uma bebedeira. O motivo era a encantada de dona Miúda, a tal Santa Rita Pescadeira, a mesma que de vez em quando surgia no jarê de meu pai.
Depois de chegar à casa de Valmira, a encantada passou a ouvir ofensas de Tobias, duvidando de sua existência, incitando que mostrasse seus poderes, dizendo que a própria Valmira era uma farsa, que nada daquilo existia. Por várias vezes a curadora havia intervindo para fazer com que cessasse de dizer as asneiras. Sem recuar ou se desculpar, Tobias recebeu uma única sentença, proferida pela própria encantada montada no corpo de dona Miúda. Palavras que ninguém escutou, nem mesmo Valmira, somente ele.
“Mas ele continuou a desfazer da encantada”, disse Maria Cabocla, “e agora não se espante se alguma desgraça se abater sobre sua casa.”
“Como tua avó, Belonísia. Como tua avó”, ouvi minha mãe dizer, segurando meus ombros, enquanto eu amarrava um lenço negro em minha cabeça. Ela quis lembrar as viuvezes de minha avó Donana, que havia enterrado seus maridos. Meus olhos estavam secos, tamanha era a duração da estiagem. Estiou alguma coisa em mim desde o dia em que permiti aquela união, desde quando entrei na casa repleta de entulhos e deixei que Tobias levantasse minha roupa. Desde quando me permiti ouvir insultos sem devolver da maneira que gostaria. Me postei de pé um pouco afastada do caixão, mas próxima à porta, recebendo os vizinhos que chegavam em grande número. Via entrar e sair gente de casa, estava dispersa, mas não aflita, e Domingas e minha mãe tentavam providenciar o necessário. Por vezes, afastava as pessoas de mim sem mudar a expressão de meu rosto.
Esperavam que me comportasse como uma viúva inconsolável. Cuidavam para que meu luto estivesse evidente, em respeito ao homem que vivia comigo. Tive que me conter algumas vezes para não deixar escapar um sorriso traiçoeiro, um gesto que fosse considerado desrespeitoso pelos presentes, por meu pai e minha mãe, principalmente. Mas também que não esperassem que me fechasse em nojo, repetia a mim, ao perceber os gestos exagerados de contrição e luto por parte dos vizinhos e compadres.
Durante todo o velório, só olhei para o rosto de Tobias uma única vez, mesmo assim guardando certa distância de seu corpo. Tinha um ferimento pequeno na testa, e mesmo depois de limpo, continuava a minar um líquido transparente como sangue desbotado. Mas não estendi minha mão sequer para ajeitar o filó que adornava a urna. Queria encerrar de vez aquele momento de minha vida. Tentei apressar o fim do funeral, apertando minha irmã para que conduzisse a saída do cortejo. Foram prestadas todas as homenagens que poderiam ser feitas, as comadres haviam rezado o rosário e recomendado sua alma. Eu também rezaria por ele. Bastava. Não precisavam esperar que de meus olhos saíssem lágrimas. Foi assim que vi seu corpo deixar a casa que levantou, onde guardou tudo que achava como se fosse um tesouro, para descer à terra, com a serenidade que não havia naquela tapera, onde vivemos por pouco mais de um ano.
Minha mãe quis que seguisse com ela para sua casa, que fechasse tudo e voltasse a morar em sua companhia. Também não quis. Queria estar só, experimentar a vida no silêncio que havia encontrado longe de todos.
Compreendi a preocupação de Salu, afinal eu estava sozinha e ela me considerava exposta aos perigos de uma mulher sem homem para a acompanhar. Não acreditariam se contasse que talvez fosse eu quem protegesse Tobias, que nos últimos tempos se largava bêbado na cama, inútil nessas horas para qualquer vigilância. Só por isso permiti que Domingas me fizesse companhia nos primeiros dias. Mas minha irmã percebeu que eu estava bem, tão entretida nas atividades do dia a dia desde que fui morar às margens do rio Santo Antônio. Me perguntou se não tinha medo de ficar só. Acenei com a cabeça para dizer muitas vezes que não, conseguiria um cachorro para me fazer companhia como o velho Fusco, que já havia morrido. De Tobias ficou uma espingarda guardada debaixo da cama. E eu não estava disposta a deixar aquele pedaço de chão para que outra pessoa usufruísse do cuidado que tive para fazer daquele quintal um canto vistoso de terra. Havia me afeiçoado às plantas, a cada coisa que crescia com a força do meu trabalho e do de Tobias. Mas a casa está em mau estado, me disse Domingas. Sim, em mau estado, mas já vi casas serem levantadas muitas vezes. Sei bem o que se necessita para fazer desse