Velas Escarlates
A profecia
Longren, marinheiro do Orion, um robusto brigue de trezentas
toneladas, no qual ele serviu por dez anos e pelo qual era mais
apegado que qualquer filho à própria mãe, deveria finalmente
deixar o serviço.
Aconteceu da seguinte maneira. Em um de seus raros retornos
para casa, ele não viu, como sempre via, ainda de longe, na
soleira de casa, a sua esposa Meri agitando os braços e depois
correndo ao seu encontro, até perder a respiração. No lugar dela,
ao lado de um bercinho de criança – um novo objeto na pequena
casa de Longren – estava sua vizinha, agitada.
– Passei três meses cuidando dela, velhinho – disse ela. – Olhe
para a sua filha.
Sem conseguir dizer ao menos uma palavra, Longren inclinou-
se e viu a criaturinha de oito meses, que contemplava
atentamente a sua longa barba; depois, sentou-se, abaixou a
cabeça e começou enrolar o bigode. O bigode estava molhado
de chuva.
– Quando Meri morreu? – perguntou ele.
A mulher contou uma triste história, interrompendo o relato com
gemidinhos carinhosos para a menina e com garantias de que
Meri estava no paraíso. Quando Longren soube dos detalhes, o
paraíso pareceu-lhe pouco mais luminoso que o galpão de lenha, e ele pensou que o brilho de uma simples lâmpada – se
estivessem todos juntos ali, os três – seria, para a mulher que
partiu em direção à terra desconhecida, um deleite insubstituível.
Uns três meses antes, a situação financeira da jovem mãe
estava muito ruim. Do dinheiro deixado por Longren, bem a
metade tinha ido embora com o tratamento, após um parto difícil,
e com os cuidados com a saúde da recém-nascida; finalmente, a
perda daquela quantia não muito grande, mas indispensável para
a vida, fez com que Meri pedisse dinheiro emprestado a
Menners. Menners era dono de uma taverna e era considerado
um homem abastado.
Meri foi até a casa dele às seis horas da tarde. Por volta das
sete, a narradora encontrou-a na estrada para Lisse. Em
lágrimas e abalada, Meri disse que estava indo até a cidade para
empenhar a aliança de casamento. Acrescentou que Menners
concordou em dar o dinheiro, mas exigiu em troca que fosse
amante dele. Meri não conseguiu nada.
– Na nossa casa não tem nem uma migalha de comida – disse
ela à vizinha. – Vou dar uma passada na cidade, e de algum jeito
eu e a menina vamos suportar até a volta do meu marido.
Naquela noite, o tempo estava frio, ventava; foi à toa que a
narradora tentou convencer a jovem mulher a não andar em
Lisse perto da madrugada. “Você vai ficar ensopada, Meri, está
chuviscando, e pode ser que o vento traga um aguaceiro.”
Do vilarejo litorâneo até a cidade, numa caminhada rápida, ida
e volta, dava pelo menos três horas, mas Meri não ouviu os
conselhos da narradora. “Chega de ser um peso para vocês”, ela
disse. “Já não há quase nenhuma família para quem eu não
tenha pedido emprestado pão, chá ou farinha. Vou empenhar o
anel e pronto.” Ela foi até lá, voltou e no outro dia ficou de cama,
ardendo e delirando; o mau tempo e a garoa da noite causaram-
lhe uma pneumonia dupla, como disse o médico da cidade que a bondosa narradora tinha chamado. Uma semana depois, na
cama de casal de Longren, restou um lugar vazio, e a vizinha
mudou-se para a casa dele, a fim de cuidar da menina e
alimentá-la. Para ela, uma viúva solitária, aquilo não era difícil.
Além disso – acrescentou ela –, sentia-se entediada sem aquele
pedacinho de gente.
Longren foi até a cidade, pediu as contas, despediu-se dos
companheiros e começou a criar a pequena Assol. Enquanto a
menina não conseguia andar com firmeza, a viúva viveu na casa
do marinheiro, fazendo as vezes de mãe para a órfã, mas, assim
que Assol parou de cair e colocou o pé para fora da soleira,
Longren declarou resoluto que agora ele mesmo faria tudo
sozinho para a menina, e, depois de agradecer à viúva por sua
atitude e compaixão, passou a viver a vida solitária de um viúvo,
concentrando todos os seus desígnios, esperanças, amor e
recordações na pequena criatura.
Dez anos de vida errante deixaram em suas mãos pouquíssimo
dinheiro. Ele começou a trabalhar. Logo seus brinquedos
apareceram nas lojas da cidade: pequenos modelos, feitos com
habilidade, de barcos, lanchas, veleiros de um só convés e de
dois conveses, cruzadores, vapores; resumindo, tudo aquilo que
ele conhecia muito bem e que, graças ao caráter do trabalho,
substituía em parte o estrépito da vida no porto e o pitoresco
trabalho da navegação. Desse modo, Longren obtinha o
suficiente para viver, dentro dos limites de um regime frugal.
Pouco sociável por natureza, ele se tornou, depois da morte da
esposa, ainda mais fechado e misantropo. Nos dias festivos, às
vezes era visto na taverna, mas ele nunca se sentava, só bebia
apressado, junto ao balcão, um copo de vodca e saía, lançando
para os lados, com brevidade: “sim”, “não”, “olá”, “adeus”, “de
pouquinho” para todas as palavras e acenos dos vizinhos. Não
suportava visitas, livrando-se delas em silêncio, não pela força, mas com indiretas e situações inventadas, de maneira que não
restava nada ao visitante além de pensar qualquer motivo para
não permanecer mais ali.
Ele mesmo também não visitava ninguém; desse modo, entre
ele e seus conterrâneos criou-se um frio afastamento, e, se o
trabalho de Longren – os brinquedos – fosse menos
independente dos afazeres do vilarejo, ele sentiria de maneira
mais palpável as consequências dessas relações. Os produtos e
os víveres ele comprava na cidade – Menners não poderia se
gabar de uma caixa de fósforos sequer que Longren tivesse
comprado dele. Também fazia sozinho todo o trabalho doméstico
e enfrentava pacientemente a complicada arte de cuidar dos
cabelos de uma menina, algo nada habitual para um homem.
Assol já tinha cinco anos, e o pai começava a sorrir com cada
vez mais ternura ao olhar para seu rostinho bondoso e enervado,
quando ela, sentada em seu colo, tentava resolver o mistério do
colete abotoado ou cantarolava alegremente canções de
marinheiro – uns poeturros selvagens. Transmitidas por uma voz
de criança, e nem sempre com a letra “r”, essas canções
causavam a impressão de um urso dançando, enfeitado com
uma fitinha azul. Nessa época, ocorreu um fato cuja sombra,
tendo recaído sobre o pai, encobriu também a filha.
Era primavera, ainda em seu início, e severa, como o inverno,
mas de outro tipo. Por umas três semanas, descia sobre a terra
fria um vento litorâneo cortante, do norte.
Os barcos dos pescadores, arrastados para a margem,
formavam, sobre a areia branca, uma longa fila de quilhas
escuras, que lembravam espinhas de enormes peixes. Ninguém
se atrevia a ocupar-se de seu ofício com aquele tempo. Na única
rua do vilarejo, era raro ver alguém deixar sua casa; o frio
turbilhão que vinha das colinas litorâneas em direção ao vazio do
horizonte fazia do “ar livre” um duro tormento. Todas as chaminés de Caperna fumegavam, da manhã à noite, fazendo a fumaça
esvoaçar pelos tetos escarpados.
Mas esses dias de vento norte atraíam Longren para fora de
sua pequena e quente casa com mais frequência que o sol, que,
no tempo bom, cobria o mar e Caperna com véus de ouro aéreo.
Longren saía para o pavimento de madeira, estendido sobre
longas filas de estacas, e, bem na ponta desse quebra-mar feito
de tábuas, fumava durante muito tempo seu cachimbo avivado
pelo vento, observando como o fundo do mar, desnudo junto à
orla, fumegava com uma espuma pardacenta, mal conseguindo
vencer os vagalhões, cujo retumbante correr em direção ao
horizonte escuro e tempestuoso enchia o espaço com manadas
de fantásticos seres felpudos, voando, em desenfreado e furioso
desespero, rumo a seu distante consolo. Os gemidos e os ruídos,
os disparos uivantes dos enormes borrifos de água e uma
corrente de vento que açoitava os arredores e parecia visível, tão
forte era seu soprar uniforme, traziam à alma extenuada de
Longren aquele embotamento, aquele entorpecimento que, ao
reduzir o pesar a uma vaga tristeza, tinha a mesma ação de um
sono profundo.
Num desses dias, Khin, o filho de Menners de doze anos, ao
perceber que o barco do pai estava se chocando contra as
estacas, debaixo do pavimento de madeira, destruindo os
costados, foi até o pai para lhe contar a respeito disso. A
tempestade começou fazia pouco tempo; Menners se esqueceu
de arrastar o barco para a areia. Ele foi rapidamente até a água,
onde viu Longren, no fim do quebra-mar, de pé, de costas para
ele, fumando. Na orla, além dos dois, não havia mais ninguém.
Menners foi até o meio do pavimento, desceu até a água, que
marulhava enfurecida, e desatou a escota; de pé no barco, ele
começou a avançar em direção à orla, agarrando as estacas com
as mãos. Não tinha levado remos, e, no momento em que, cambaleando, ele se soltou para agarrar a estaca seguinte, um
forte golpe de vento lançou o nariz do barco para longe do
pavimento, em direção ao oceano. Agora, mesmo com todo o
comprimento do corpo, Menners não conseguiria alcançar a
estaca mais próxima. O vento e as ondas, balouçando-o, iam
levando o barco para a vastidão mortal. Ao dar-se conta da
situação, Menners pensou em jogar-se na água para nadar até a
orla, mas a decisão veio tarde, uma vez que o barco já ia
rodeando próximo à ponta do quebra-mar, onde a profundidade
considerável da água e a fúria dos vagalhões prometiam uma
morte certa. Entre Longren e Menners, arrastado em direção à
amplidão tempestuosa, não havia mais que dez sajenes1 de
distância salvadora, uma vez que, no pavimento, à mão de
Longren, estava pendurado um rolo de corda, com um peso
atado a uma de suas pontas. Essa corda ficava pendurada para
o caso de alguém precisar atracar durante uma tempestade,
quando era jogada do pavimento.
– Longren! – gritou Menners, mortalmente amedrontado. – Por
que está aí parado como um paspalho? Não está vendo? Eu
estou sendo arrastado! Jogue a amarradura!
Longren permaneceu em silêncio, olhando calmamente para
Menners, que se agitava no barco; só seu cachimbo fumegou
com mais força, e ele, com vagar, tirou-o da boca para ver melhor
o que acontecia.
– Longren! – clamou Menners. – Você não está me ouvindo?
Eu estou morrendo, salve-me!
Mas Longren não lhe disse uma palavra sequer; era como se
ele não ouvisse os berros desesperados. Até o barco ser levado
para tão longe, que as palavras-gritos de Menners mal o
alcançavam, ele nem mesmo se moveu do lugar. Menners
soluçava de terror, suplicava ao marinheiro que fosse correndo
buscar os pescadores, que pedisse ajuda, prometeu dinheiro, ameaçou-o e cobriu-o de maldições, mas Longren só chegou
bem perto da beirada do quebra-mar para não perder logo de
vista os solavancos e saltos do barco. “Longren”, chegou até ele
um grito surdo, como alguém sentado dentro de casa que ouve
algo vindo do telhado, “me ajude!” Então, puxando o ar e
suspirando profundamente, para que nenhuma palavra se
perdesse no vento, Longren gritou:
– Ela pediu para você do mesmo jeito! Pense nisso enquanto
ainda está vivo, Menners, e não se esqueça!
Então, os gritos cessaram, e Longren foi para casa. Assol, ao
despertar, viu que o pai estava sentado em frente a uma
lamparina quase apagada, profundamente pensativo. Ao ouvir a
voz da menina chamando por ele, ele se aproximou dela, deu-lhe
um beijo vigoroso e cobriu-a com o cobertor que caiu.
– Durma, querida – disse ele –, falta muito para amanhecer.
– O que você está fazendo?
– Fiz um brinquedo negro, Assol. Durma!
No dia seguinte, entre os moradores de Caperna, só se falava
do desaparecido Menners, e, no sexto dia, ele próprio foi trazido
de volta, moribundo e raivoso. Seu relato rapidamente correu
pelos vilarejos vizinhos. Menners ficou à deriva até a noite;
destroçado pelos choques com os bordos e com o fundo do
barco durante a terrível luta contra o furor das ondas, que
ameaçavam, sem descanso, lançar ao mar o ensandecido
taberneiro, ele foi recolhido pelo vapor Lucretia, que ia em
direção a Casset. O resfriado e a comoção causada pelo terror
trouxeram um fim aos dias de Menners. Ele viveu um pouco
menos de quarenta e oito horas, invocando contra Longren todas
as desgraças possíveis e imagináveis na terra. O relato de
Menners de como o marinheiro tinha acompanhado sua perdição,
recusando-se a ajudar – ainda mais eloquente pelo fato de que o
moribundo respirava com dificuldade e gemia –, assombrou os habitantes de Caperna. Nem é preciso dizer que poucos deles
eram capazes de lembrar-se de uma ofensa mais grave que a
sofrida por Longren, e de chorar tanto por alguém como ele
chorou por Meri até o fim da vida – mas, para eles, era
abominável, incompreensível, assombroso que Longren tivesse
ficado calado. Calado até suas últimas palavras lançadas em
direção a Menners, Longren ficou parado, imóvel, de maneira
severa e tranquila, como um juiz, demonstrando profundo
desprezo por Menners – havia algo maior que o ódio em seu
silêncio, e todos podiam sentir isso. Se ele tivesse gritado,
expressando com gestos, com inquietação pelo infortúnio alheio
ou de algum outro modo o seu triunfo perante o desespero de
Menners, os pescadores poderiam tê-lo compreendido; mas ele
agiu de maneira diferente da que eles agiam – agiu de modo
imponente, incompreensível, e, com isso, colocou-se acima dos
demais; em resumo, fez aquilo que não podia ser perdoado.
Ninguém o cumprimentava mais, ninguém lhe estendia a mão,
ninguém lançava um olhar de reconhecimento e saudação. De
uma vez por todas ele foi posto de lado nos assuntos do vilarejo;
os menininhos, quando o avistavam, gritavam em direção a ele:
“Longren afogou Menners!”. Ele não dava atenção àquilo. Do
mesmo modo, ele também parecia não perceber que, na taverna
ou na orla, em meio aos barcos, os pescadores ficavam calados
em sua presença, afastando-se dele, como se estivesse com a
peste. O incidente com Menners consolidou o isolamento parcial
de antes. Ao tornar-se pleno, provocou um ódio mútuo e
duradouro, cuja sombra recaiu também sobre Assol.
A menina cresceu sem amigas. As vinte ou trinta crianças de
sua idade que viviam em Caperna – embebida, como uma
esponja cheia d’água, em rudes princípios familiares, cuja base
era a autoridade inabalável do pai e da mãe –, propensas a imitar
os pais, como todas as crianças do mundo, excluíram, de uma vez por todas, a pequena Assol de sua esfera de proteção e
atenção. Aquilo evidentemente se deu de modo gradual e foi
adquirindo, por meio das admoestações e reprimendas dos
adultos, um terrível caráter de proibição; depois, reforçado pelos
mexericos e pelo disse me disse, aquilo cresceu muito, na mente
das crianças, com o medo da casa do marinheiro.
Além do mais, o estilo de vida reservado de Longren tornava
agora livre a língua histérica da bisbilhotice; falavam que o
marinheiro tinha matado alguém em algum lugar, e por causa
disso, diziam, ele não era mais aceito para servir nos navios, e
que ele mesmo era sombrio e misantropo porque “o atormentava
o remorso pelo crime em sua consciência”. Ao brincar, as
crianças enxotavam Assol quando ela se aproximava, atiravam
lama e provocavam, dizendo que o pai tinha comido carne
humana e que agora fabricava dinheiro falso. Uma após a outra,
suas ingênuas tentativas de aproximação terminavam em choro
amargo, em hematomas, arranhões e outras manifestações da
opinião pública; ela finalmente parou de ofender-se, mas ainda
perguntava ao pai, de vez em quando:
– Me diga, por que é que eles não nos amam?
– Ah, Assol – dizia Longren –, por acaso eles sabem amar? É
preciso saber amar, mas isso eles não sabem.
– Saber como?
– Sabendo!
Ele pegava a menina no colo e beijava com vigor seus olhos
tristonhos, semicerrados de ternura e satisfação.
A diversão favorita de Assol – à noite ou num dia de folga,
quando o pai, afastando as latas de cola, os utensílios e o
trabalho inacabado, tirava o avental e sentava-se para
descansar, com o cachimbo nos lábios – era subir no colo dele e,
remexendo-se dentro do cuidadoso círculo dos braços paternos,
tocar as diferentes partes dos brinquedos, perguntando sua função. Assim começava a peculiar e fantástica lição acerca da
vida e das pessoas – uma lição na qual, graças ao antigo modo
de vida de Longren, era concedido um lugar privilegiado a
casualidades, ao acaso, em geral, e aos acontecimentos
singulares, assombrosos e incomuns. Longren, nomeando para a
menina os nomes dos aparelhos, das velas, dos objetos de uso
marítimo, aos poucos se entusiasmava, passando das
explicações a episódios diversos, protagonizados ora pelo
cabrestante, ora pela roda do leme, ora pelo mastro ou por algum
tipo de barco, e assim por diante, e, daquelas ilustrações
isoladas, passava a amplos retratos das aventuras marítimas,
entrelaçando superstições com a realidade e a realidade com
imagens de sua fantasia. Então surgia não só o gato tigrado –
prenúncio de naufrágio –, como também o peixe voador falante –
desobedecer a suas ordens significava perder o rumo –, e o
Holandês Voador, com sua tripulação enfurecida; agouros,
espectros, sereias, piratas – resumindo, todas as fábulas que
preenchiam as horas vagas do marinheiro durante uma calmaria
ou em sua taverna favorita. Longren também falava de pessoas
que naufragaram, que se asselvajaram e desaprenderam de
falar, de tesouros misteriosos, de motins de galés e muitas outras
coisas, que eram ouvidas pela menina talvez com mais atenção
de que o relato de Colombo sobre o novo continente, quando
narrado pela primeira vez. “Pois conte mais”, pedia Assol quando
Longren, pensativo, calava-se, e ela adormecia com a cabeça
apoiada em seu peito, cheia de sonhos maravilhosos.
Também lhe causava uma satisfação enorme, e sempre
essencial materialmente, o aparecimento do empregado da loja
de brinquedos da cidade, que de bom grado comprava o trabalho
de Longren. Para lisonjear o pai e conseguir mais desconto, o
empregado levava consigo, para a menina, umas duas maçãs,
uma torta doce, um punhado de nozes. Longren geralmente pedia o valor justo, por aversão ao regateio, mas o empregado
queria abaixar o preço. “Mas o senhor, hein?”, dizia Longren.
“Trabalhei uma semana nesse bote.” O bote tinha um
comprimento de um palmo. “Veja só a resistência – e o
assentamento, e a qualidade? Um bote desses aguentaria quinze
pessoas em qualquer tempo.” No fim das contas, a menina se
mexendo silenciosamente, ronronando com sua maçã, privava
Longren da firmeza e da vontade de discutir; ele cedia, e o
empregado, enchendo a cesta com os magníficos e resistentes
brinquedos, ia embora, rindo às escondidas.
Longren fazia sozinho todo o trabalho doméstico: rachava
lenha, levava água, acendia o fogão, cozinhava, lavava, passava
roupa e, além de tudo isso, achava tempo para trabalhar em
troca de dinheiro. Quando Assol completou oito anos, o pai
ensinou-lhe a ler e escrever. Ele começou a levá-la de quando
em quando até a cidade, e, depois, a mandá-la sozinha, se havia
necessidade de pegar dinheiro na loja ou de levar uma
mercadoria. Isso não acontecia com frequência, e, embora Lisse
ficasse a apenas quatro quilômetros de Caperna, a estrada
passava pela floresta, e na floresta muita coisa pode assustar
uma criança, além do perigo físico, que, numa distância tão
pequena da cidade, até seria difícil de encontrar, mas que, de
todo modo, não fazia mal considerar. Por isso, só nos dias bons,
de manhã, quando o matagal que rodeava a estrada ficava
recoberto por uma torrente de sol, flores e silêncio, de modo que
a impressionabilidade de Assol não era ameaçada pelos
fantasmas da imaginação, é que Longren deixava que ela fosse
até a cidade.
Uma vez, no meio de uma dessas viagens à cidade, a menina
sentou-se na beira da estrada, para comer um pedaço de pastel
que tinha sido colocado numa cestinha, para o café da manhã.
Ao comer, ela ia examinando os brinquedos; entre eles, dois ou três eram novidades para ela: Longren os tinha feito durante a
noite. Uma das novidades era um veleiro de corrida em
miniatura; o naviozinho branco tinha velas escarlates, feitas com
os retalhos de uma seda usada por Longren para forrar cabines
de vapores – brinquedos de um freguês rico. Ali, pelo visto, ao
fazer o veleiro, ele não encontrou o tecido adequado para as
velas e usou o que tinha – retalhos de seda escarlate. Assol ficou
encantada. A cor, alegre e ígnea, ardia em suas mãos com tanto
brilho que era como se ela estivesse segurando fogo. A estrada
era cortada por um riacho, com uma pinguela de galhos
estendida por cima dele; à direita e à esquerda, o riacho ia
floresta adentro. “Se eu o colocar na água para navegar um
pouquinho”, refletiu Assol, “ele não vai ficar muito molhado,
posso secar depois”. Adentrando a floresta para lá da pinguela,
ao longo da corrente do riacho, a menina cuidadosamente
colocou na água, bem perto da margem, o navio que tanto a
fascinava; as velas imediatamente reluziram com um reflexo
escarlate na água transparente: a luz, penetrando o tecido,
recaía com uma irradiação rosada sobre as pedras brancas do
fundo. “De onde você vem, capitão?”, perguntou Assol, com ar de
importância, para uma figura imaginária e, respondendo a si
mesma, disse: “Eu vim… vim… vim da China”. “E o que você
trouxe?” “O que eu trouxe não vou contar.” “Ah, mas é assim,
capitão?! Bom, então vou colocá-lo de volta na cesta.” O capitão
mal tinha se preparado para, humildemente, responder que era
brincadeira e que ele estava disposto a mostrar o elefante,
quando, de repente, junto à margem, o refluxo silencioso da
corrente virou o nariz do veleiro para o meio do riacho, e, como
se fosse de verdade, afastando-se da margem a toda a
velocidade, ele navegou em linha reta corrente abaixo.
Momentaneamente, transformou-se a escala do que era visível: o
riacho pareceu à menina um enorme rio, e o veleiro, um navio grande, distante, em direção ao qual ela, quase caindo na água,
assustada e perplexa, esticava os braços. “O capitão se
assustou”, pensou ela e correu atrás do brinquedo que flutuava
para longe, na esperança de que ele fosse lançado à margem em
algum ponto. Arrastando, apressada, a cestinha, que não era
pesada, mas atrapalhava, Assol repetia: “Ai, Senhor! Mas, se
acontecer alguma coisa…”. Ela tentava não perder de vista o
belo triângulo das velas, que suavemente navegava para longe,
então tropeçava, caía e de novo começava a correr.
Assol nunca esteve tão fundo na floresta como agora. Absorta
pelo desejo impaciente de apanhar o brinquedo, ela não olhava
para os lados; ao longo da margem em que ela ia alvoroçada,
havia muitos obstáculos que chamavam a atenção. Troncos
musgosos de árvores caídas, buracos, altas samambaias,
roseiras silvestres, jasmins e nogueiras atrapalhavam-na a cada
passo; ao superá-los, ela ia pouco a pouco perdendo as forças,
parando com mais e mais frequência, para tomar fôlego ou
arrancar do rosto uma pegajosa teia de aranha. Quando, nos
lugares mais amplos, esticavam-se moitas de espargânio ou de
cana, Assol quase perdia totalmente de vista o cintilar escarlate
das velas, mas, correndo ao redor dos meandros da corrente, ela
as via novamente, precipitando-se adiante com gravidade e sem
esmorecer. No momento em que ela olhou ao redor, a vastidão
da floresta, com sua mistura de cores, que passavam de colunas
fumacentas de luz sobre a folhagem a escuras fendas de densa
penumbra, espantou profundamente a menina. Por um instante
atemorizada, ela se lembrava novamente do brinquedo e,
soltando algumas vezes um profundo “u-u-uf-f”, saía correndo
com todas as forças.
Naquela malograda e inquieta perseguição, passou-se cerca de
uma hora, quando, com surpresa, mas também com alívio, Assol
viu que as árvores adiante abriam-se livremente, deixando passar a vertente azul do mar, as nuvens e a borda da amarelada
encosta da areia, para a qual ela correu, quase caindo de
cansaço. Ali ficava a desembocadura do riacho; seu desaguar
era estreito e miúdo, de modo que se podia ver o fluente azul das
pedras, e, nas ondas do mar que vinham ao seu encontro, ele
desaparecia. Da encosta, pouco elevada, sulcada por raízes,
Assol viu que, junto ao riacho, sobre uma pedra grande e plana,
de costas para ela, estava sentado um homem, segurando em
suas mãos o veleiro que escapou e observando-o por todos os
lados, com a curiosidade de um elefante que apanhou uma
borboleta. Em parte tranquilizada pelo fato de que o brinquedo
estava inteiro, Assol deslizou pela encosta e, chegando perto do
desconhecido, fitou-o com um olhar perscrutador, esperando que
ele levantasse a cabeça. Mas o estranho estava tão imerso na
contemplação daquela surpresa da floresta que a menina teve
tempo de examiná-lo da cabeça aos pés, constatando que, até
então, ela jamais teve a oportunidade de ver alguém semelhante
àquele desconhecido.
Mas, diante dela, estava ninguém menos que Egl, o famoso
compilador de canções, lendas, tradições populares e histórias,
que viajava a pé. As madeixas grisalhas recaíam em dobras por
baixo de seu chapéu de palha; o blusão cinzento, enfiado dentro
das calças azuis, e as botas altas conferiam-lhe o aspecto de um
caçador; o colarinho branco, a gravata, o cinto, a chapa revestida
de prata, a bengala e a bolsa com um cadeado novinho de níquel
indicavam um morador da cidade. Seu rosto – se é que se podia
chamar de rosto um nariz, lábios e olhos que espiavam através
de uma barba raiada e impetuosamente crescida e bastos
bigodes ferozmente “enchifrados” para cima – pareceria indolente
e diáfano, não fossem os olhos, cinzentos como a areia e
brilhantes como aço puro, com um olhar valente e forte.
– Agora me devolva – disse a menina, hesitante. – Você já brincou. Como é que você conseguiu pegar?
Egl ergueu a cabeça e derrubou o veleiro, tão inesperado foi o
ressoar da vozinha nervosa de Assol. O velho examinou-a por
um instante, sorrindo e passando lentamente pela barba a
grande e nodosa manzorra. O vestido de chita, muitas vezes
lavado, mal chegava aos joelhos da menina, com suas pernas
magrinhas e bronzeadas. Seus espessos cabelos escuros,
presos com um lenço de renda, estavam desarrumados, tocando
os ombros. Cada traço de Assol era expressivamente leve e
puro, como o voo das andorinhas. Seus olhos, com laivos de
uma triste indagação, pareciam um pouco mais velhos que o
rosto, cujo contorno, assimétrico e impreciso, era arejado por
aquele tipo encantador de bronzeado, próprio da alvura saudável
da pele. Na pequena boca entreaberta, faiscava um sorriso dócil.
– Juro pelos Grimm, por Esopo e por Andersen – disse Egl,
olhando ora para a menina, ora para o veleiro. – Isso é uma coisa
especial. Escute aqui, plantinha! Isso aqui é seu?
– Sim, eu corri o riacho inteiro atrás dele; pensei que ia morrer.
Ele estava aqui?
– Veio bem perto dos meus pés. O naufrágio é o motivo pelo
qual eu, na condição de pirata litorâneo, posso lhe entregar esse
butim. O veleiro, abandonado pela tripulação, foi lançado à areia
por um vagalhão de meio palmo, entre meu calcanhar esquerdo
e a extremidade do bastão. – Ele bateu com a bengala. – Como
você se chama, pequerrucha?
– Assol – disse a menina, guardando na cesta o brinquedo
entregue por Egl.
– Que bom – o velho continuou sua fala incompreensível, sem
tirar dela os olhos, no fundo dos quais reluzia um sorriso, de um
estado de espírito amigável. – Eu, em suma, não precisava
perguntar o seu nome. Que bom que ele é tão estranho, tão
monótono, musical, como o silvo de uma flecha ou o barulho de uma concha do mar: o que é que eu faria se você tivesse um
daqueles nomes melodiosos, mas insuportavelmente comuns e
que são estranhos à Bela Incerteza? Ademais, eu não desejo
saber quem é você, quem são seus pais e como é sua vida. Por
que destruir o encanto? Eu estava sentado nesta pedra, fazendo
um estudo comparativo de temas finlandeses e japoneses…
quando, de repente, o riacho lançou esse veleiro, e depois
apareceu você… Do jeito que você é. Eu tenho alma de poeta,
querida, embora eu mesmo nunca tenha escrito nada. O que
você tem na cestinha?
– Barquinhos – disse Assol, sacudindo a cestinha. – E também
um vapor e ainda três daquelas casinhas com bandeiras.
Soldados moram ali.
– Perfeito. Mandaram você para vendê-los. No caminho, você
se distraiu brincando. Pôs o veleiro para boiar, e ele escapou,
não foi?
– Por acaso você viu? – perguntou Assol, em dúvida, tentando
lembrar-se se ela mesma tinha contado tudo aquilo. – Alguém
contou para você? Ou você adivinhou?
– Eu sabia.
– Mas como?
– Porque eu sou o grande chefe dos feiticeiros.
Assol ficou confusa: com aquelas palavras de Egl, sua tensão
ultrapassou o limite do pavor. A praia deserta, o silêncio, a
penosa aventura com o veleiro, a fala incompreensível do velho
de olhos cintilantes e a majestade de sua barba e cabelos
começaram a parecer, para a menina, a mistura de algo
sobrenatural com a realidade. Fizesse Egl então uma careta ou
gritasse alguma coisa, a menina teria fugido correndo, chorando
e morrendo de medo. Mas Egl, percebendo quão esbugalhados
estavam os olhos dela, deu um súbito rodopio.
– Você não precisa ter medo de mim – disse ele, em tom sério.
– Ao contrário, quero falar com você de coração. – Só então ficou
claro que, no rosto da menina, ele deixara de maneira bem fixa a
sua impressão. “A espera involuntária pelo belo, pelo ditoso
destino”, decidiu ele. “Ah, por que é que eu não nasci escritor?
Que tema glorioso.” – Pois bem – prosseguiu Egl, tentando
arrematar a posição original (a tendência a criar mitos,
consequência de seu trabalho costumeiro, era mais forte que o
receio de lançar em solo desconhecido as sementes de um
grande sonho) –, pois bem, Assol, escute-me atentamente. Eu
estive no vilarejo de onde você deve ter vindo; resumindo, em
Caperna. Eu adoro contos e canções e passei um dia inteiro
naquele vilarejo, tentando ouvir algo que ninguém tinha ouvido.
Mas, na terra de vocês, eles não contam contos. Não cantam
canções. E, se contam e cantam, são histórias de astutos
camponeses e soldados, sabe, com um eterno louvor à trapaça,
são quadrinhas curtinhas, sujas como pés não lavados, ásperas
como um ronco na barriga, com uma melodia horrível… Espere,
eu me perdi. Vou começar de novo.
Depois de pensar um pouco, ele continuou assim:
– Não sei quantos anos hão de se passar, mas em Caperna
florescerá um conto, que por muito tempo será relembrado. Você
será grande, Assol. Um dia, de manhã, na vastidão do mar,
debaixo do sol, resplandecerá uma vela escarlate. A imensidão
radiante das velas escarlates de um navio branco avançará,
cortando as ondas, bem na sua direção. Esse navio maravilhoso
navegará silencioso, sem clamores ou disparos; na costa, muita
gente estará reunida, admirada e estupefata; e você também
estará lá. O navio chegará bem perto da costa, majestoso, sob os
sons de uma bela música; dele virá navegando um barquinho
veloz, elegante, coberto de tapetes, de ouro e de flores. “Por que
vieram aqui? Por quem estão procurando?”, perguntarão as
pessoas na orla. Então, você verá um belo e corajoso príncipe; ele se levantará e estenderá a mão a você. “Olá, Assol!”, dirá ele.
“Muito, muito longe daqui, eu sonhei com você e vim levá-la para
meu reino, para sempre. Lá, você viverá comigo num profundo
vale de rosas. Você terá tudo que desejar; você e eu passaremos
a viver com tanta harmonia e felicidade que sua alma nunca
conhecerá lágrimas ou tristeza.” Ele colocará você no barco,
levará até o navio, e você partirá para sempre em direção ao
esplêndido país onde nasce o sol e onde as estrelas descem do
céu para lhe dar as boas-vindas.
– Isso tudo para mim? – perguntou a menina em voz baixa.
Seus olhos sérios, animando-se, irradiaram confiança. Era lógico
que um perigoso feiticeiro não falaria daquela maneira; ela se
aproximou. – Talvez ele já tenha chegado… esse navio.
– Não tão depressa – replicou Egl. – Como eu disse, primeiro
você vai crescer. Depois… O que posso dizer? Acontecerá, e
acabou. O que você faria então?
– Eu? – Ela olhou para a cesta, mas aparentemente não
encontrou ali nada que fosse digno de servir como uma
recompensa convincente. – Eu o amaria – ela disse apressada, e
acrescentou, sem muita firmeza: – se ele não brigar comigo.
– Não, não vai brigar – disse o feiticeiro, dando uma piscadela
enigmática –, não vai, isso eu garanto. Pode ir, menina, e não se
esqueça do que eu lhe disse entre dois goles de aguardente
aromática e reflexões sobre as canções dos galés. Pode ir. E que
haja paz em sua cabeça fofa!
Longren trabalhava em sua pequena horta, escavando umas
plantas de batata. Ao erguer a cabeça, viu Assol correndo em
sua direção a toda velocidade, com um rosto alegre e impaciente.
– Pois então… – disse ela, esforçando-se para conter a
respiração, e agarrou o avental do pai com ambas as mãos. –
Escute o que eu vou lhe contar… Lá longe, na margem, tem um
feiticeiro…
Ela começou pelo feiticeiro e sua interessante profecia. A
agitação dos pensamentos impedia que ela relatasse o ocorrido
de maneira fluida. Depois, veio a descrição da aparência do
feiticeiro e – na ordem inversa – a perseguição pelo veleiro solto
por ela.
Longren ouviu a menina, sem interromper, sem um sorriso, e,
quando ela terminou, a imaginação rapidamente desenhou-lhe o
velho desconhecido com a aguardente aromática em uma e o
brinquedo na outra. Ele se virou, mas, lembrando que, nas
situações grandiosas da vida das crianças, convém que a pessoa
fique séria e surpresa, meneou a cabeça solenemente, dizendo:
– Pois é, pois é; a julgar por todos os indícios, não pode ser
outra coisa que não um feiticeiro. Gostaria de dar uma olhada
nele… Mas você, quando for de novo, não saia do caminho; não
é difícil perder-se na floresta.
Depois de largar a pá, ele se sentou junto à baixa cerca de
ramos e colocou a menina em seu colo. Terrivelmente cansada,
ela ainda tentava acrescentar alguns detalhes, mas o calor, a
inquietação e a fraqueza a deixaram com sono. Seus olhos foram
se fechando, a cabeça desceu até o duro ombro do pai – mais
um instante, e ela teria sido levada para o país dos sonhos, mas,
de repente, perturbada por uma dúvida repentina, Assol
endireitou-se, com os olhos fechados, e, apoiando-se com os
punhozinhos no colete de Longren, disse em voz alta:
– O que você acha, o navio do feiticeiro vem me buscar ou não
vem?
– Vem – respondeu tranquilamente o marinheiro. – Se falaram
isso para você, então é verdade.
“Quando ela crescer, vai se esquecer”, pensou ele, “mas, por
enquanto… não vale a pena tirar de você esse brinquedo. Você
ainda vai ter que ver muitas velas no futuro, e não escarlates,
mas sujas, de rapina: de longe, elegantes e brancas, de perto, rasgadas e deslavadas. Um viajante fez uma brincadeira com a
minha filha. E o que tem?! Uma brincadeira bondosa! Não tem
problema a brincadeira! Veja só como você ficou extenuada –
metade do dia na floresta, no matagal. E, quanto às velas
escarlates, pense como eu: você terá as velas escarlates”.
Assol dormiu. Longren, alcançando o cachimbo com a mão
livre, pôs-se a fumar, e o vento carregou a fumaça, através da
sebe, até o arbusto que crescia do lado de fora da horta. Junto
ao arbusto, de costas para a cerca, mastigando uma torta, estava
sentado um jovem mendigo. A conversa do pai com a filha
deixou-o de bom humor, e o cheiro de tabaco bom incentivou-o a
tirar algum proveito.
– Patrão, dê um pouco de fumo a um pobre – disse ele por
entre os galhos. – O meu tabaco, comparado ao seu, nem tabaco
é, dá para dizer que é um veneno.
– Eu daria – respondeu Longren a meia-voz –, mas meu tabaco
está no outro bolso. É que eu não quero acordar minha filhinha,
entende?
– Que pena! Ela acorda, depois dorme de novo, mas pelo
menos o transeunte pegou e fumou.
– Bom – replicou Longren –, de qualquer maneira você não
está sem tabaco, e a criança está cansada. Se quiser, volte mais
tarde.
O mendigo deu uma cusparada desdenhosa, atou o saco a seu
bastão e disse, maldosamente:
– Está na cara que é uma princesa. Você enfiou na cabeça dela
esses navios dos mares! Seu maluco amalucado, e ainda por
cima é patrão!
– Escute aqui – sussurrou Longren –, eu posso até acordá-la,
mas só se for para sentar um tabefe nesse seu pescoção. Fora
daqui!
Meia hora depois, o mendigo estava sentado à mesa na taverna com uma dúzia de pescadores. Atrás deles, ora puxando
os maridos pela manga, ora tirando, por cima do ombro deles,
um copo de aguardente – para si mesmas, obviamente –,
estavam sentadas umas mulheres grandalhonas, com espessas
sobrancelhas e mãos grossas como pedregulhos. O mendigo,
encolerizado com a ofensa, narrava:
– E não me deu o tabaco. “Você vai virar maior de idade”, ele
falou, “e aí”, ele falou, “vai chegar um navio especial, vermelho…
Para buscar você. Então, o seu destino é se casar com um
príncipe. E pode acreditar no feiticeiro”, ele falou. Aí eu falei:
“Acorde, acorde”, eu falei, “arranje um pouco de tabaco”. Aí ele
correu atrás de mim metade do caminho.
– Quem? O quê? Do que estão conversando? – ouviram-se as
vozes curiosas das mulheres. Os pescadores, mal virando a
cabeça, explicaram, com um risinho:
– Longren e a filha estão parecendo selvagens, talvez tenham
perdido o juízo; é o que esse homem está contando. Foram
visitados por um bruxo, pelo que deu para entender. Estão
esperando, essa vocês não perdem por esperar, mulherada!, um
príncipe dos mares, e ainda por cima com velas vermelhas!
Três dias depois, voltando da loja da cidade, Assol ouviu pela
primeira vez:
– Ei, patife! Assol! Olhe aqui! Um navio com velas vermelhas!
A menina, estremecendo, involuntariamente olhou de fininho
para a vertente do mar. Depois, virou-se na direção das
exclamações; lá, a vinte passos dela, estava um grupinho de
crianças; elas faziam caretas, mostrando a língua. Suspirando, a
menina correu para casa.
1 Medida russa de comprimento equivalente a dois metros e treze centímetros. (N.R.)