Velas Escarlates
Grey
Se César achasse melhor ser o primeiro num vilarejo que o
segundo em Roma, então Arthur Grey poderia não invejar César
em relação a seu sábio desejo. Ele nasceu um capitão, desejou
ser um, e tornou-se um.
A enorme casa na qual Grey nasceu era sombria por dentro e
majestosa por fora. Adjacentes à fachada frontal, ficavam um
jardim e o pedaço de um parque. As melhores variedades de
tulipas – azuis- -prateadas, violetas, pretas com uma sombra
rosada – ondulavam pelo gramado em linhas de colares
caprichosamente espalhados. As velhas árvores do parque
dormitavam na difusa meia-luz, por sobre o espargânio de um
sinuoso riacho. A murada do castelo, pois, era um verdadeiro
castelo: consistia em colunas torcidas, de ferro fundido, unidas
por uma ramagem de ferro. Cada coluna terminava, na parte de
cima, com um suntuoso lírio de ferro fundido; essas taças, nos
dias festivos, eram preenchidas com óleo, ardendo em meio às
trevas da noite numa vasta linha de fogo.
O pai e a mãe de Grey eram desdenhosos cativos de sua
posição, da riqueza e das leis daquela sociedade em relação à
qual eles podiam dizer “nós”. Parte de sua alma, ocupada pelas
galerias dos ancestrais, é pouco digna de representação,
enquanto a outra parte – a continuação imaginária da galeria – começava pelo pequeno Grey, condenado, graças a um plano
conhecido e previamente organizado, a viver a vida e morrer de
maneira a ter seu retrato pendurado na parede sem prejuízo à
honra familiar. Nesse plano, haviam cometido um pequeno erro:
Arthur Grey nasceu com uma alma viva, que de forma alguma
era propensa a seguir a linha traçada por sua família.
Essa vivacidade, essa verdadeira perversão do menino
começou a manifestar-se no oitavo ano de sua vida; o tipo do
cavaleiro das impressões extravagantes, do aventureiro e do
taumaturgo, ou seja, da pessoa que, em meio à inumerável
diversidade de papéis da vida, escolhe o mais perigoso e
emocionante; o papel da providência, delineava-se em Grey já no
momento em que, apoiando uma cadeia na parede, para
alcançar o quadro que retratava a crucificação, ele arrancou os
pregos das mãos ensanguentadas de Cristo, ou seja,
simplesmente cobriu-os com tinta azul, roubada de um pintor.
Daquele jeito, ele achava que o quadro ficava mais tolerável.
Entusiasmado pelo peculiar passatempo, ele já começou a cobrir
também os pés do crucificado, mas foi pego pelo pai. O velho
tirou o menino da cadeira pelas orelhas e perguntou:
– Por que você estragou o quadro?
– Eu não estraguei.
– É uma obra de um artista famoso.
– Para mim tanto faz – disse Grey. – Não posso admitir que, na
minha presença, tenha gente com pregos saindo das mãos e
sangue escorrendo. Não quero isso.
Em resposta ao filho, Lionel Grey, ocultando o sorriso por trás
dos bigodes, reconheceu a si mesmo e não aplicou uma punição.
Grey estudava incansavelmente o castelo, fazendo descobertas
assombrosas. Assim, no sótão, ele encontrou uns cacarecos de
cavaleiro, de aço, livros encadernados com ferro e couro, roupas
apodrecidas e um enxame de pombas. Na adega, onde o vinho ficava guardado, ele recebeu interessantes informações
referentes ao Lafite, ao vinho madeira, ao xerez. Ali, na luz turva
das janelas pontiagudas, esmagadas pelos oblíquos triângulos
das abóbadas de pedra, ficavam barris pequenos e grandes; o
maior deles, na forma de um círculo plano, ocupava toda a
parede transversal da adega, o escuro carvalho centenário
luzindo, como que esmerilhado. Em meio aos barriletes, em
cestinhas de vime, havia garrafões abaulados, de vidro verde e
azul. Nas pedras e no chão de terra, cresciam cogumelos
cinzentos, com hastes finas: por toda parte, bolor, musgo,
umidade, um cheiro azedo e sufocante. Uma enorme teia de
aranha emitia um brilho dourado num canto distante, quando, no
fim da tarde, o sol espreitava-a com seu último raio. Em
determinado lugar, ficavam enterrados dois barris do melhor
alicante que existia no tempo de Cromwell, e o adegueiro,
mostrando a Grey um canto vazio, não perdia a oportunidade de
repetir a história do famoso túmulo em que jazia um morto mais
vivo que uma matilha de fox terriers. Ao iniciar o relato, o
narrador não se esquecia de verificar se estava funcionando a
torneira do barril grande e afastava-se dela, aparentemente com
o coração aliviado, de maneira que lágrimas involuntárias de uma
alegria grande em demasia brilhavam em seus olhos animados.
– Bom, é o seguinte – dizia Poldichok a Grey, sentando-se
numa caixa vazia e enchendo de tabaco o nariz pontudo –, está
vendo aquele lugar? Ali fica um vinho pelo qual qualquer bêbado
daria seu consentimento em cortar a própria língua se lhe fosse
permitido pegar um pequeno copinho. Cada barril tem cem litros
de uma substância que faz explodir a alma e que transforma o
corpo numa massa imóvel. Sua cor é mais escura que a da
cereja, e ela não escorre da garrafa. Ela é espessa como um
bom creme. Fica encerrada dentro de barris de ébano,
resistentes como ferro. Eles têm aros duplos de cobre vermelho. Nos aros, há uma inscrição latina: “Grey há de me beber quando
estiver no paraíso”. Essa inscrição foi interpretada de modo tão
amplo e contraditório que seu bisavô, o fidalgo Simeon Grey,
construiu uma casa de campo, batizou-a de “Paraíso” e pensou
que, dessa maneira, faria coincidir a misteriosa sentença com a
realidade por meio de um inocente gracejo. Mas o que você
acha? Ele morreu assim que começaram a retirar os aros, de
ataque do coração, tão agitado ficou o cobiçoso velhote. Desde
então, ninguém toca naquele barril. Surgiu a crença de que o
precioso vinho traz a desgraça. De fato, tal enigma não foi
proposto pela esfinge egípcia. É verdade que ela perguntou a um
sábio: “Devo devorá-lo, como devoro todos os outros? Diga a
verdade e ficará vivo”, mas mesmo assim, depois de madura
reflexão…
– Parece que está pingando da torneira outra vez – Poldichok
interrompia a si mesmo, precipitando-se, com passos tortuosos,
em direção ao canto, de onde, depois de apertar a torneira, ele
voltava com o rosto franco e radiante. – Sim. Depois de
raciocinar bem, e, sobretudo, sem se apressar, o sábio poderia
dizer à esfinge: “Vamos beber, minha amiga, e você vai se
esquecer dessas bobagens”. “Grey há de me beber quando
estiver no paraíso!” Como entender isso? Há de beber quando
morrer, será? É estranho. Por conseguinte, ele é um santo, por
conseguinte, não bebe nem vinho, nem uma simples aguardente.
Suponhamos que o “paraíso” signifique a felicidade. Mas, posta
assim a questão, qualquer felicidade perderá metade de suas
reluzentes peninhas quando o felizardo perguntar a si mesmo,
com sinceridade: será mesmo o paraíso? Aí é que está a coisa.
Para embebedar-se, com o coração leve, com o que há nesse
barril e rir, meu menino, rir muito, é preciso ficar com um pé na
terra e o outro no céu. Há ainda uma terceira hipótese: que, um
dia, um Grey beberá até alcançar um estado beatífico e paradisíaco e, com insolência, esvaziará o barrilete. Mas isso,
menino, não seria o cumprimento da profecia, e sim um
escândalo tabernal.
Depois de verificar mais uma vez o bom estado da torneira do
barril grande, Poldichok concluía, em tom concentrado e sombrio:
– Esses barris foram trazidos, em 1793, por seu antepassado
John Grey, de Lisboa, no navio Beagle; pelo vinho, foram pagas
duas mil piastras de ouro. A inscrição nos barris foi feita pelo
armeiro Benjamin Elian de Pondicherry. Os barris foram
enterrados no solo, a seis pés de profundidade, e cobertos com
as cinzas dos caules das videiras. Ninguém bebeu desse vinho
nem experimentou, e nem vai experimentar.
– Eu vou beber dele – disse uma vez Grey, batendo o pé.
– Aí está um jovem valente! – notou Poldichok. – Você vai
beber dele no paraíso?
– É claro. Aqui está o paraíso!… Está aqui comigo, está vendo?
– Grey começou a rir baixinho, abrindo a mãozinha. Sua palma,
delicada, mas de contornos duros, iluminou-se com o sol, e o
menino cerrou os dedos em seu punho. – Aqui está ele!… Ora
aparece, ora some de novo…
Ao dizer isso, ele ora abria, ora apertava a mão e, finalmente,
satisfeito com sua brincadeira, saía correndo, ultrapassando
Poldichok, pela escada escura, em direção ao andar de baixo.
O ambiente da cozinha era terminantemente proibido a Grey,
mas, uma vez descoberto aquele maravilhoso mundo que ardia
com os fogos das fornalhas – o mundo do vapor, da fuligem, do
chiado, do borbulhar dos líquidos ferventes, do ruído das facas e
dos cheiros deliciosos –, o menino passou a visitar com
assiduidade o enorme ambiente. Em rigoroso silêncio, como
sacerdotes, moviam-se os cozinheiros; seus barretes brancos,
contra o fundo das paredes enegrecidas, conferiam ao trabalho
um caráter de serviço solene; as lavadoras de louça, alegres e gordas, lavavam a louça em barris com água, tilintando a
porcelana e a prata; meninos curvados com o peso traziam
cestos cheios de peixe, ostras, lagostins e frutas. Lá, em cima de
uma mesa comprida, ficavam faisões irisados, patos cinzentos,
galinhas coloridas; ali, um porco assado, com uma cauda
curtinha e os olhos ingenuamente fechados; acolá, nabos,
repolho, nozes, passas azuladas, pêssegos bronzeados.
Na cozinha, Grey ficava um pouco intimidado: parecia-lhe que
tudo ali era movido por forças sombrias, cujo poder era a
principal mola da vida do castelo; os gritos soavam como
comandos e encantamentos; os movimentos dos trabalhadores,
graças à longa experiência, tinham adquirido aquela precisão
nítida e contida que se assemelha à inspiração. Grey ainda não
era tão alto a ponto de espiar a panela maior, que borbulhava
como o Vesúvio, mas tinha por ela um respeito especial; com
tremor, ele observava como duas criadas mexiam o que havia
nela; sobre o fogão, derramava-se então uma espuma
fumacenta, e o vapor, erguendo-se do fogão rumorejante,
preenchia em ondas a cozinha. Uma vez, tanto líquido foi
derramado, que a mão de uma das moças foi escaldada. A pele
instantaneamente enrubesceu, até as unhas ficaram vermelhas
com o afluxo de sangue, e Betsy (esse era o nome da criada),
chorando, começou a esfregar manteiga nos locais afetados. As
lágrimas rolavam incontroláveis por seu rosto redondo e
assustado.
Grey ficou imóvel. Enquanto as outras mulheres cuidavam de
Betsy, ele experimentou a sensação do agudo sofrimento alheio,
pelo qual ele não podia passar.
– Está doendo muito? – ele perguntou.
– Tente você mesmo, aí vai saber – respondeu Betsy, cobrindo
a mão com o avental.
De cenho carregado, o menino trepou no banco, pegou o líquido quente com uma colher comprida (era uma sopa de carne
de carneiro, diga-se de passagem) e derramou no dorso da mão.
Revelou-se que a sensação não era fraca, mas a fraqueza
provocada pela forte dor fez com que ele cambaleasse. Pálido
como farinha, Grey aproximou-se de Betsy, enfiando a mão
queimada dentro do bolso das calças.
– Acho que você está com muita dor – disse ele, omitindo seu
experimento. – Vamos ao médico, Betsy. Vamos agora mesmo!
Ele a puxou zelosamente pela saia, enquanto os partidários das
curas domésticas davam à criada cada um a sua receita
salvadora. Mas a moça, sofrendo muito, foi com Grey. O médico
aliviou a dor aplicando um curativo. Só depois que Betsy saiu é
que o menino mostrou a sua mão.
Esse episódio de pouca importância transformou Betsy, de vinte
anos, e Grey, de dez anos, em verdadeiros amigos. Ela enchia os
bolsos dele com pasteizinhos e maçãs, e ele contava a ela
contos e outras histórias lidas em seus livros. Certa vez, ele ficou
sabendo que Betsy não podia se casar com Jim, o moço da
estrebaria, pois eles não tinham dinheiro para constituir
propriedade. Grey quebrou seu cofrinho de porcelana com o
atiçador da lareira e sacou tudo que havia ali, o que totalizava
cerca de cem libras. Ele se levantou cedo, quando a jovem sem
dote saía para a cozinha, penetrou no quarto dela e, metendo o
presente no baú da moça, cobriu-o com um bilhete curto: “Betsy,
isso é seu. O chefe da quadrilha dos salteadores, Robin Hood”. O
alvoroço provocado na cozinha por essa história ganhou
tamanha proporção que Grey precisou confessar a fraude. Ele
não pegou o dinheiro de volta e não quis mais falar naquilo.
Sua mãe tinha uma daquelas índoles que a vida molda numa
forma já pronta. Ela vivia numa modorra de abastança, que
previa qualquer desejo da alma medíocre, e por isso não lhe
restava nada a fazer além de aconselhar-se com as costureiras, com o médico e com o mordomo. Mas a afeição apaixonada,
quase religiosa, por seu estranho filho era, pelo que se podia
supor, a única válvula para aquelas suas vocações
cloroformizadas pela educação e pelo destino, e que já não
viviam, mas vagavam incertas, deixando inerte a vontade. A
nobre dama lembrava uma pavoa chocando um ovo de cisne. Ela
sentia dolorosamente o magnífico isolamento do filho; ela ficava
plena de tristeza, amor e embaraço quando abraçava o menino
junto ao peito, onde o coração falava algo diferente da língua,
que reflete, habitualmente, as formas convencionais de relações
e pensamentos. É assim que um efeito nebuloso,
caprichosamente formado pelos raios solares, infiltra-se no
simétrico ambiente de um edifício público, privando-o de suas
qualidades banais; o olho vê e não reconhece o local: misteriosos
matizes de luz em meio à mediocridade criam uma harmonia
ofuscante.
A nobre dama, cujo rosto e cuja figura, aparentemente, só
poderiam responder com um silêncio glacial às ardentes vozes
da vida, cuja beleza delicada mais repelia que atraía, já que nela
se sentia um arrogante esforço de vontade, privado da atração
feminina, aquela Lilian Grey, ao ficar sozinha com o menino,
tornava-se uma simples mãe, que falava, com um tom amoroso e
dócil, aquelas mesmas futilidades afetuosas que não podem ser
transmitidas no papel – sua força está no sentimento, não nelas
mesmas. Ela não conseguia negar absolutamente nada ao filho.
Perdoava-lhe tudo: a permanência na cozinha, a aversão pelas
lições, a desobediência e os inúmeros caprichos.
Se ele não quisesse que podassem as árvores, as árvores
ficavam intocadas; se ele pedisse para que alguém fosse
perdoado ou recompensado, a pessoa interessada já sabia que
aquilo aconteceria; ele podia andar em qualquer cavalo, levar
qualquer cachorro para dentro do castelo; podia revirar a biblioteca, correr descalço e comer o que lhe viesse à cabeça.
Durante um tempo, seu pai lutou contra aquilo, mas cedeu –
não ao príncipe, e sim ao desejo da esposa. Ele se limitou a
retirar do castelo todos os filhos dos criados, receando que,
graças às companhias mais baixas, os caprichos do menino se
tornassem tendências que dificilmente poderiam ser extirpadas.
No geral, ele estava inteiramente absorto por inúmeros
processos de família, cujo início perdia-se na época do
surgimento das fábricas de papel, e cujo fim estava na morte de
todos os mexeriqueiros. Além disso, os negócios de Estado, os
negócios das propriedades, o ditado das memórias, as caçadas
de gala, a leitura dos jornais e a complexa correspondência
mantinham-no em certo afastamento interno em relação à
família; era tão raro ver o filho, que às vezes esquecia quantos
anos ele tinha.
Assim, Grey vivia em seu próprio mundo. Ele brincava sozinho,
geralmente nos pátios dos fundos do castelo, que, antigamente,
tiveram uma importância militar. Esses amplos terrenos baldios,
com vestígios de fossos profundos, com armazéns de pedra
cobertos de musgo, eram repletos de ervas daninhas, urtigas,
bardanas, abrunheiros e flores silvestres modestamente
coloridas. Grey ficava horas ali, examinando buracos de
toupeiras, combatendo as ervas daninhas, espreitando
borboletas e construindo, com restos de tijolos, fortalezas que ele
mesmo bombardeava com paus e pedras.
Ele ainda tinha onze anos quando todos os indícios de sua
alma, todos os traços isolados de seu espírito e as nuances de
impulsos ocultos uniram-se em um único e forte elemento e,
adquirindo assim uma expressão harmoniosa, tornaram-se
desejos indomáveis. Antes disso, era como se ele encontrasse
partes separadas de seu jardim – uma faixa de luz, uma sombra,
uma flor, um tronco espesso e exuberante – em muitos outros jardins, e, de repente, viu todas claramente, todas, numa
conformidade magnífica e espantosa.
Isso aconteceu na biblioteca. Sua porta alta, com um vidro
opaco na parte de cima, ficava habitualmente trancada, mas a
lingueta da fechadura estava mal fixada no assento do batente;
no momento de apertar com a mão, a porta se soltava e, com
alguma força, se abria. Quando o espírito explorador impeliu
Grey a penetrar na biblioteca, o que o surpreendeu foi a luz
poeirenta, cuja força inteira e cuja peculiaridade consistiam na
ramagem colorida da parte de cima dos vidros das janelas. Havia
ali um silêncio abandonado, como a água de um açude. As
fileiras sombrias das estantes de livros confinavam, em alguns
pontos, com as janelas, encobrindo-as pela metade; entre as
estantes, havia passagens, abarrotadas com montões de livros.
Aqui, um álbum aberto, com as folhas escapando de dentro para
fora; ali, pergaminhos amarrados com cordões de ouro; pilhas de
livros de aspecto lúgubre; grossas camadas de manuscritos, um
aterro de volumes em miniatura, que estalavam como uma crosta
se fossem abertos; acolá, desenhos e tabelas, fileiras de
publicações novas, mapas; a diversidade das capas, grosseiras,
delicadas, pretas, coloridas, azuis, cinzentas, grossas, finas,
ásperas e lisas. As estantes estavam totalmente repletas de
livros. Elas se pareciam com paredes, que encerravam a vida em
sua própria espessura. Nos reflexos dos vidros das estantes,
viam-se as outras estantes, cobertas por manchas de um brilho
pálido. Um enorme globo, encerrado na cruz esférica do equador
e do meridiano, ficava sobre uma mesa redonda.
Virando-se em direção à saída, Grey viu, em cima da porta, um
enorme quadro, que logo preencheu, com seu conteúdo, o torpor
sufocante da biblioteca. O quadro retratava um navio, elevando-
se na crista de um vagalhão do mar. Esguichos de espuma
escorriam por sua encosta. Ele estava retratado no último momento de seu voo. O navio avançava diretamente na direção
do observador. O gurupés, erguido bem alto, encobria a base dos
mastros. A crista do vagalhão, sulcada pela quilha do navio,
lembrava as asas de um pássaro gigante. A espuma voava pelo
ar. As velas, nebulosamente visíveis por detrás do bombordo e
por cima do gurupés, cheias com a força desenfreada da
tormenta, tombavam para trás com toda a sua imensidão, para
aprumar-se depois de atravessar o vagalhão e, depois,
inclinando-se sobre o abismo, arrastar a embarcação para novas
avalanches. As nuvens rasgadas tremeluziam baixas sobre o
oceano. A tênue luz travava sua luta desesperançada contra a
escuridão da noite que se aproximava. Mas a coisa mais
admirável desse quadro era a figura de um homem, de pé no
castelo de proa, de costas para o observador. Ela expressava
toda a situação, até mesmo o caráter do momento. A pose do
homem (ele estava de pernas abertas, agitando os braços) não
dizia nada em particular a respeito do que ele estava fazendo,
mas levava a presumir uma concentração extrema, direcionada a
algo no convés, que não era visível ao observador. As abas
dobradas de seu cafetã tremulavam ao vento; uma trança branca
e uma espada negra assomavam no ar, esticadas; a
suntuosidade do traje indicava nele um capitão, a posição
dançante do corpo, o movimento do vagalhão; sem chapéu, ele
visivelmente foi ocupado pelo momento de perigo e gritava – mas
o quê? Teria ele visto alguém cair ao mar? Estaria dando ordem
para virar de bordo? Ou, abafando o vento, ele chamava o
mestre? Não foram os pensamentos, mas a sombra desses
pensamentos que cresceu na alma de Grey enquanto ele
observava o quadro. De repente, pareceu-lhe que, do lado
esquerdo, um desconhecido invisível tinha chegado perto,
parando ao seu lado; bastava virar a cabeça, a extravagante
sensação desapareceria sem deixar rastro. Grey sabia disso. Mas ele não extinguiu sua imaginação, e sim se pôs a ouvir. A
voz surda gritou algumas frases entrecortadas, incompreensíveis,
como se fosse malaio; ouviu-se um longo som, como de um
desmoronamento; um eco e um vento sombrio preencheram a
biblioteca. Grey ouviu tudo isso dentro de si. Ele olhou ao redor:
instantaneamente, o silêncio que se ergueu dissipou a teia
sonora da fantasia; a ligação com a tempestade desapareceu.
Grey foi observar aquele quadro várias vezes. Aquilo se tornou,
para ele, a palavra necessária na conversa entre a alma e a vida,
sem a qual é difícil compreender a si mesmo. No pequeno
menino, o enorme mar foi pouco a pouco se instalando. Ele se
familiarizou com ele, revirando a biblioteca, procurando e lendo
com avidez os livros atrás de cujas portas douradas revelava-se
o brilho azulado do oceano. Lá, semeando espuma por detrás da
popa, avançavam os navios. Parte deles perdia as velas, os
mastros, e, engasgando com uma onda, desciam em direção às
trevas das voragens, onde cintilam os olhos fosfóricos dos
peixes. Outros, apanhados pela ressaca, chocavam-se contra os
recifes; o tranquilizante marulho sacudia ameaçadoramente o
casco; o despovoado navio de cordames rasgados sofria uma
longa agonia, até que uma nova tormenta o reduzia a estilhaços.
Outros ainda eram prosperamente carregados em um porto e
descarregados em outro; a tripulação, sentada junto à mesa de
uma taverna, celebrava a navegação e, com amor, bebia
aguardente. Havia ali também uns navios de piratas, com
bandeiras negras e terríveis tripulantes que brandiam facas;
navios espectrais, que emitiam uma luz lívida de brilho azulado;
navios de guerra com soldados, canhões e música; navios de
expedições científicas, que examinavam vulcões, plantas e
animais; navios com segredos sombrios e motins; navios de
descobertas e navios de aventuras.
Naquele mundo, naturalmente, a figura do capitão erguia-se sobre as demais. Ele era o destino, a alma e a mente do navio.
Seu caráter definia o lazer e o trabalho dos tripulantes. A própria
tripulação era formada por ele pessoalmente e em grande parte
correspondia às suas inclinações. Ele conhecia os costumes e as
questões de família de cada um deles. Possuía, aos olhos dos
subordinados, um conhecimento mágico, graças ao qual ia com
confiança, digamos, de Lisboa a Xangai, por espaços infinitos.
Ele rechaçava a tempestade com a resistência de um sistema de
complexos esforços, aniquilando o pânico com ordens curtas;
navegava e parava onde queria; ordenava a partida e a carga, o
arranjo e o descanso; era difícil imaginar poder maior e mais
razoável naquele ofício vivo, cheio de movimento ininterrupto.
Esse poder, em limitação e plenitude, era equiparável ao poder
de Orfeu.
Essa representação do capitão, essa imagem e essa realidade
verdadeira de sua posição ocuparam, por direito dos
acontecimentos espirituais, o lugar principal na brilhante
consciência de Grey. Nenhuma profissão além daquela poderia
fundir e reunir, com tanto êxito, todos os tesouros da vida,
mantendo inviolável o delicadíssimo traçado de cada alegria
isolada. O perigo, o risco, o poder da natureza, a luz de um país
distante, o maravilhoso desconhecido, o amor efêmero, que
floresce com o encontro e a despedida; a fascinante
efervescência de reencontros, rostos, acontecimentos; a
desmesurada diversidade da vida, enquanto, bem alto lá no céu,
vão ora o Cruzeiro do Sul, ora a Ursa, e nos olhos penetrantes
estão todos os continentes, embora a cabine esteja repleta da
pátria, não abandonada, com seus livros, quadros, cartas e flores
secas enlaçadas, em sedoso cacho, no amuleto de camurça
sobre o duro peito.
No outono, aos catorze anos, Arthur Grey, em segredo,
abandonou sua casa e penetrou nos portões dourados do mar. Logo, do porto de Dubelt, partiu, em direção a Marselha, a
escuna Anselm, levando um grumete de mãos pequenas e a
aparência de uma menina disfarçada. Esse grumete era Grey,
possuidor de uma elegante maleta de viagem, botinhas de verniz
delicadas como uma luva e roupas de baixo de cambraia com
coroas bordadas.
Ao longo do ano, enquanto o Anselm visitava a França, a
América e a Espanha, Grey dissipou parte dos seus bens em
doces, rendendo assim tributo ao passado, e o restante – para o
presente e o futuro – ele perdeu nas cartas. Ele queria ser um
marinheiro “infernal”. Bebia aguardente, ofegando, e, na hora do
banho, com o coração apertado, pulava na água, de cabeça para
baixo, de uma altura de duas braças. Pouco a pouco, ele perdeu
tudo, exceto pelo mais importante – sua alma, estranha e
voadora; ele perdeu a fraqueza, ficando largo de ossos e forte de
músculos, trocou a palidez por um escuro bronzeado, ofereceu o
refinado descuido com os movimentos pela precisão convicta dos
braços trabalhadores, e, em seus olhos, refletiu-se o brilho de
quem olha para o fogo. Também sua fala, perdendo a fluidez
irregular e soberbamente acanhada, tornou-se curta e precisa
como a estocada da gaivota na corrente, em busca da prata
tremeluzente dos peixes.
O capitão do Anselm era um homem bondoso, mas um
marinheiro severo, que levara o menino por certa alegria
maldosa. No desejo desesperado de Grey, ele via apenas um
capricho excêntrico e já celebrava de antemão, imaginando que,
depois de uns dois meses, Grey lhe diria, evitando olhar em seus
olhos: “Capitão Hop, eu esfolei os cotovelos me arrastando pelo
cordame; tenho dor nos flancos e nas costas, não consigo dobrar
os dedos, sinto estalos na cabeça, as pernas tremem ao ficar
segurando com as mãos todos esses cabos molhados, que
pesam duas arrobas; todas essas vergas, enxárcias, cabrestantes, cabos, mastaréus e brandais foram criados para
atormentar o meu delicado corpo. Quero a minha mãe”. Depois
de ouvir mentalmente aquela declaração, o capitão Hop, também
mentalmente, fez o seguinte discurso: “Pode partir para onde
quiser, meu frangote. Se o breu grudou as suas asinhas
sensíveis, você pode lavá-las em casa com a água-de-colônia
Rosa Mimosa”. Essa água-de-colônia inventada por Hop era o
que mais divertia o capitão, e, concluindo seu sermão imaginário,
ele repetia em voz alta: “Pois é. Volte para a Rosa Mimosa”.
Entretanto, o inspirado diálogo vinha à mente do capitão com
cada vez menos frequência, uma vez que Grey avançava em
direção a seus objetivos com os dentes cerrados e o rosto
empalidecido. Ele suportava o atribulado labor com uma resoluta
força de vontade, sentindo que aquilo ficaria cada vez mais fácil
para ele, à medida que o severo navio irrompia em seu
organismo e a inabilidade era substituída pelo costume.
Acontecia de os nós da amarra o derrubarem no chão, fazendo-o
chocar-se contra o convés; de um cabo não fixado no cabeço
escapar das mãos, esfolando a pele nas palmas; de o vento
bater em seu rosto com a ponta molhada da vela, com uma
argola de ferro pregada nela; para resumir, todo o trabalho era
uma tortura, que exigia grande atenção, mas, por mais que ele
respirasse pesadamente, endireitando com esforço as costas, o
sorriso de desdém não saía de seu rosto. Ele aguentava calado a
zombaria, o escárnio e os inevitáveis xingamentos, até virar “de
casa” em sua nova esfera, mas, a partir de então,
invariavelmente respondia a qualquer ofensa com pugilato.
Uma vez, o capitão Hop, ao ver a maestria com que ele
amarrava a vela na verga, disse consigo mesmo: “A vitória está
do seu lado, velhaco”. Quando Grey desceu para o convés, Hop
chamou-o à cabine e, abrindo um livro surrado, disse:
– Escute com atenção! Pare de fumar! Vamos começar a tornar o fedelho em capitão.
E ele começou a ler de um livro – ou melhor, a falar e gritar – as
antigas palavras do mar. Foi a primeira lição de Grey. Ao longo
do ano, ele aprendeu sobre náutica, prática, construção naval,
direito marítimo, roteiro e contabilidade. O capitão Hop apertou-
lhe a mão e disse: “Nós”.
Em Vancouver, Grey foi alcançado por uma carta da mãe, cheia
de lágrimas e medo. Ele respondeu: “Eu sei. Mas, se você
enxergasse como eu… Olhe com os meus olhos. Se ouvisse
como eu… Coloque uma concha perto do ouvido: nela, está o
ruído eterno da onda. Se amasse como eu amo tudo, em sua
carta, além de amor e um cheque, eu encontraria um sorriso…”.
E ele continuou a navegar, até que o Anselm chegou carregado a
Dubelt, de onde, aproveitando a parada, Grey, com vinte anos, foi
visitar o castelo.
Tudo estava igual ao redor; tudo tão indefectível nos detalhes e
na impressão geral como cinco anos antes, só a folhagem dos
jovens olmos tinha ficado mais densa; sua ramagem na fachada
do edifício tinha avançado e crescido.
Os criados que correram ao seu encontro alegraram-se,
animaram-se e pasmaram, com a mesma deferência com que,
como se fora no dia anterior, tinham recebido Grey. Disseram-lhe
onde estava a mãe; ele adentrou no elevado recinto e,
encostando de leve a porta, parou sem nenhum ruído, olhando
para a agrisalhada mulher de vestido negro. Ela estava em pé,
diante do crucifixo: seu sussurro ardente era retumbante, como
um forte batimento do coração. “Pelos navegantes, viajantes,
enfermos, sofredores e cativos”, ouviu Grey, com a respiração
curta. Depois, foi dito: “E ao meu menino…”. Então, ele disse:
“Eu…”. Mas não conseguiu articular mais nada. A mãe virou-se.
Tinha emagrecido: na soberba de seu delicado rosto, reluzia uma
nova expressão, semelhante à juventude restituída. Ela se aproximou do filho, com ímpeto; um riso curto vindo do peito,
uma exclamação contida e lágrimas nos olhos – só isso. Mas,
naquele momento, ela viveu melhor e com mais força do que em
toda a sua vida. “Eu logo reconheci você, ah, meu querido, meu
pequeno!” E Grey realmente deixou de ser grande. Ele ouviu
sobre a morte do pai, depois contou de si. Ela ouviu com
atenção, sem recriminações ou objeções, mas, consigo mesma,
enxergava tudo aquilo que ele garantia ser a verdade de sua vida
apenas como brinquedos, com os quais seu menino se divertia.
Esses brinquedos eram continentes, oceanos e navios.
Grey passou sete dias no castelo; no oitavo dia, recebendo um
grande montante de dinheiro, ele voltou a Dubelt e disse ao
capitão Hop: “Obrigado. O senhor foi um bom companheiro.
Adeus, meu superior e meu companheiro”, aqui ele reforçou o
verdadeiro significado dessa palavra com um aperto de mão,
ferrenho como um torno. “Agora hei de navegar sozinho, no meu
próprio navio.” Hop inflamou-se, cuspiu, tirou a mão e afastou-se,
mas Grey, depois de alcançá-lo, deu-lhe um abraço. E eles se
reuniram na estalagem, todos juntos, vinte e quatro homens da
tripulação, e beberam, e gritaram, e cantaram, e beberam e
comeram tudo que havia no bufê e na cozinha.
Mais algum tempo se passou, e, no porto de Dubelt, a estrela
vespertina cintilou sobre a linha negra de um novo mastro. Era o
Segredo, comprado por Grey, um galeote de três mastros e
duzentas e sessenta toneladas. Assim, como capitão e
proprietário de um navio, Arthur Grey navegou por mais quatro
anos, até que o destino o levou a Lisse. Mas ele já tinha
guardado para sempre na memória aquele riso curto vindo do
peito, cheio de música do coração, com que ele tinha sido
recebido em casa, e umas duas vezes ao ano ele visitava o
castelo, deixando a mulher de cabelos prateados com a certeza
pouco firme de que aquele menino tão grande talvez pudesse dar conta de seus brinquedos.