Velas Escarlates
O Segredo escarlate
Era uma branca hora matutina; na enorme floresta, erguia-se
um fino vapor, cheio de estranhas visões. Um caçador
desconhecido, que acabou de abandonar sua fogueira, movia-se
ao longo do rio; por entre as árvores, brilhava o clarão de seus
vazios aéreos, mas o aplicado caçador não se aproximava deles,
enquanto examinava o rastro fresco de um urso que se dirigia às
montanhas.
Um som repentino irrompeu em meio às árvores com a
surpresa de uma perseguição alarmada; era um clarinete
entoando uma canção. O músico, ao sair para o convés, tocou
um trecho de uma melodia cheia de uma repetição triste e
prolongada. O som estremecia, como uma voz que tenta
esconder o pesar; fortaleceu-se, sorriu com uma modulação
melancólica e cessou. Um eco distante cantarolou vacilante a
mesma melodia.
O caçador, depois de marcar o vestígio de um galho quebrado,
penetrou na água. A bruma ainda não se dissipou; nela, feneciam
os contornos de um imenso navio, virando lentamente em
direção à foz do rio. Suas velas recolhidas tinham ganhado nova
vida, com festões pendurados, alisadas, cobrindo os mastros
com imponentes escudos de imensas dobras; ouviam-se vozes e
passos. O vento litorâneo, tentando soprar, sacudia preguiçosamente as velas; finalmente, o calor do sol produziu o
efeito necessário; a força do ar redobrou, dissipou a bruma e
derramou-se pelas vergas em leves formas escarlates, cheias de
rosas. Sombras rosadas deslizavam pela brancura dos mastros e
do cordame, tudo era branco, exceto pelas velas estendidas e
suavemente agitadas, da cor de uma alegria profunda.
O caçador que observava da orla esfregou os olhos por muito
tempo, até convencer-se de que estava vendo justamente aquilo,
e não outra coisa. O navio desapareceu atrás da curva, mas ele
continuou ali, olhando; depois, encolhendo os ombros em
silêncio, foi atrás de seu urso.
Enquanto o Segredo ia pelo curso do rio, Grey ficou junto ao
timão, sem confiar o leme ao marinheiro: temia os bancos de
areia. Panten ia sentado ao seu lado, com um traje novo, de lã,
um quepe novo e brilhante, a barba feita, ele estava
resignadamente sério. Como antes, ele não via nenhuma relação
entre o arranjo escarlate e o objetivo concreto de Grey.
– Agora – disse Grey – que as minhas velas se enrubesceram,
que o vento está bom e no meu coração há mais felicidade que
no elefante ao ver um pequeno pãozinho, tentarei dispô-lo com
meus pensamentos, como prometi em Lisse. Perceba, eu não o
considero estúpido ou teimoso, não; é um marinheiro exemplar, e
isso vale muito. Mas você, como a maioria, ouve as vozes de
todas as verdades descomplicadas através do grosso vidro da
vida; elas gritam, mas vocês não escutam. Estou fazendo algo
que existe como uma velha noção de algo que é belo e
irrealizável, mas que, em essência, é tão realizável e possível
como um passeio no campo. Logo vocês hão de ver uma moça
que não pode e não deve casar-se de outro modo que não por
esse método que estou usando diante de seus olhos.
Ele contou resumidamente ao marinheiro aquilo que já
sabemos bem, terminando a explicação assim:
– Está vendo como aqui estão fortemente entrelaçados o
destino, a vontade e o caráter? Eu vim buscar aquela que espera
e que poderia esperar somente por mim, pois eu não desejo
ninguém além dela, talvez justamente porque, graças a ela, eu
compreendi uma verdade descomplicada. Ela consiste em
realizar com as próprias mãos os assim chamados milagres.
Quando a coisa mais importante para uma pessoa é receber uma
valiosíssima pataca, é fácil entregar essa pataca, mas, quando a
alma guarda o germe de uma planta ardente, do milagre, realize
então esse milagre, se tiver condições. Essa pessoa terá uma
nova alma, e você também terá uma nova alma. Quando um
diretor de prisão solta um prisioneiro por conta própria, quando
um bilionário presenteia um escrivão com uma vila, uma cantora
de opereta e um cofre, e um jóquei refreia de leve seu cavalo em
favor de outro animal que não tem sorte, então todos entenderão
como é agradável, como é indescritivelmente milagroso. Mas há
milagres que não são menores: o sorriso, a alegria, o perdão e a
palavra dita na hora certa. Possuir isso significa possuir tudo.
Quanto a mim, o nosso começo, meu e de Assol, permanecerá
para sempre no reflexo escarlate das velas, criadas pelas
profundezas de um coração que sabe o que é o amor. Você me
entendeu?
– Sim, capitão – grasnou Panten, enxugando os bigodes com
um lencinho limpo e cuidadosamente dobrado. – Entendi tudo. O
senhor me comoveu. Vou descer e pedir desculpa ao Nicks; eu o
xinguei ontem por causa de um balde afundado. E vou dar a ele
um pouco de tabaco; ele perdeu o dele nas cartas.
Antes que Grey, um tanto surpreso pelo resultado prático tão
rápido de suas palavras, tivesse tempo de dizer qualquer coisa,
Panten já descia ruidosamente pelo alçapão e suspirava em
algum lugar distante. Grey espiou ao redor e olhou para o alto;
acima dele, enfunavam-se silenciosamente as velas escarlates; o sol reluzia em suas costuras com uma fumaça púrpura. O
Segredo ia em direção ao mar, afastando-se da costa. Não havia
nenhuma dúvida na estrepitosa alma de Grey – nem as batidas
surdas do alarme, nem o ruído das pequenas preocupações;
tranquilo, como as velas, ele se precipitava em direção a seu
maravilhoso objetivo, cheio de pensamentos que ultrapassam as
palavras.
Perto do meio-dia, apareceu no horizonte o fio da fumaça de
um cruzador; o cruzador mudou seu curso e, à distância de meia
milha, levantou o sinal “pôr-se à deriva!”.
– Amigos – disse Grey aos marinheiros. – Eles não vão abrir
fogo contra nós, não tenham medo; eles simplesmente não
acreditam no que estão vendo.
Ele deu ordem de derivar. Panten, gritando como se
acontecesse um incêndio, tirou o Segredo do vento; a
embarcação parou, enquanto do cruzador vinha a toda uma
lancha a vapor, com a tripulação e o tenente, de luvas brancas; o
tenente, ao chegar ao convés do navio, olhou ao redor,
assombrado, e foi com Grey à sua cabine, de onde saiu uma
hora depois, fazendo estranhos gestos com as mãos e sorrindo,
como se tivesse recebido uma promoção, e voltou ao cruzador
azul. Pelo visto, dessa vez Grey teve mais êxito do que com o
ingênuo Panten, já que o cruzador, tardando a partir, disparou
contra o horizonte uma poderosa salva de artilharia, cuja fumaça
impetuosa, perfurando o ar com enormes esferas cintilantes,
dissipou-se em farrapos sobre a água serena. No cruzador,
reinou o dia inteiro certa estupefação quase festiva; o estado de
espírito não era de trabalho, ele fora perturbado sob o signo do
amor, de que falavam em toda parte – do salão até a estiva de
máquinas –, e um guarda da seção de minas perguntou a um
marinheiro que passava: “Tom, como é que você se casou?”. “Eu
a agarrei pela saia quando ela tentava pular para fora da minha casa pela janela”, disse Tom e torceu os bigodes, orgulhoso.
Durante um tempo, o Segredo avançou pelo mar vazio, longe
da costa; perto do meio-dia, a costa abriu-se ao longe. Pegando
a luneta, Grey fixou-a em Caperna. Não fosse a fileira de
telhados, ele teria distinguido Assol na janela de uma das casas,
sentada com algum livro nas mãos. Ela estava lendo; pela
página, rastejou um besouro esverdeado, parando e soerguendo-
se nas patas dianteiras com ar familiar e à vontade. Por duas
vezes ele já foi soprado sem piedade para o peitoril, de onde
aparecia novamente, confiante e livre, como se quisesse dizer
algo. Dessa vez, tinha conseguido chegar quase até a mão da
moça, que segurava o canto da página; ali, ele se deteve na
palavra “olhe”, parou, em dúvida, esperando uma nova lufada; e,
de fato, mal pôde evitar o aborrecimento, pois Assol já exclamava
“De novo você, besourinho… Bobinho!…” e fez menção de
soprar definitivamente o hóspede para a grama, mas, de repente,
a passagem casual de seu olhar, de um telhado para outro,
revelou-lhe, na azulada fresta marinha do espaço da rua, um
navio branco de velas escarlates.
Ela estremeceu, desmoronou, paralisou-se; depois, saltou
bruscamente, com o coração desabando vertiginosamente,
irrompendo em lágrimas incontroláveis de comoção inspirada.
Nesse momento, o Segredo contornava o pequeno cabo,
mantendo o canto do bombordo na direção da costa; em meio ao
dia azul, a suave música ressoava do convés branco, sob o fogo
da seda escarlate; uma música de modulações rítmicas,
transmitidas, de modo não totalmente bem-sucedido, por suas
famosas palavras: “Encham, encham os copos, e bebamos,
amigos, ao amor…” – em sua simplicidade, em júbilo, a agitação
revirava-se e rumorejava.
Sem se lembrar de como tinha deixado a casa, Assol já corria
em direção ao mar, capturada pelo vento irresistível do acontecimento; na primeira esquina, ela parou, quase sem
forças; suas pernas fraquejavam, a respiração falhava e
extinguia-se, os sentidos mantinham-se por um fio. Fora de si
pelo medo de perder a vontade, ela bateu o pé e se recompôs.
De tempos em tempos, ora um telhado, ora uma cerca ocultavam
dela as velas escarlates; então, com medo de que elas tivessem
desaparecido, como uma simples visão, ela se apressou para
vencer aqueles torturantes obstáculos e, vendo novamente o
navio, parou para respirar, aliviada.
Enquanto isso, em Caperna, acontecia tamanha confusão,
tamanha agitação, uma desordem tão generalizada que não
ficava atrás, em seu efeito, de qualquer terremoto famoso. Um
navio grande nunca tinha se aproximado daquela costa; o navio
tinha aquelas mesmas velas cujo nome soava como chacota;
agora, elas ardiam de forma clara e irrefutável, com a inocência
de um fato que refutava todas as leis da existência e do bom
senso. Homens, mulheres e crianças corriam a toda em direção à
orla, cada um como podia; os moradores chamavam um ao outro
de casa em casa, topavam uns nos outros, berravam e caíam;
logo formou-se uma multidão junto à água, e Assol entrou
correndo, com ímpeto, no meio dessa multidão.
Enquanto ela não estava ali, seu nome voou em meio à gente
com um alarme nervoso e lúgubre, com um sobressalto raivoso.
Os que mais falavam eram os homens; as mulheres, estupefatas,
soluçavam de maneira sufocada, com um silvo viperino, mas, se
alguma começava a matraquear, metia o veneno na cabeça.
Assim que Assol apareceu, todos se calaram, todos se afastaram
dela, com medo, e ela ficou sozinha em meio ao vazio da areia
escaldante, desnorteada, envergonhada, feliz, com o rosto tão
escarlate quanto seu milagre, estendendo, desamparada, os
braços em direção ao elevado navio.
Dele, destacou-se um barco, cheio de remadores bronzeados; no meio deles, estava aquele que, como agora lhe parecia, ela já
conhecia, de quem tinha uma vaga lembrança, da infância. Ele
olhava para ela com um sorriso que aquecia e apressava. Mas
Assol foi dominada, no final, por milhares de ridículos receios;
com um medo mortal de tudo – erros, equívocos, empecilhos
secretos e nocivos – ela entrou correndo, até a cintura, no cálido
balançar das ondas, gritando: “Estou aqui! Estou aqui! Sou eu!”.
Então Zimmer brandiu o arco, e aquela mesma melodia
ribombou pelos nervos da multidão, mas, dessa vez, num coro
pleno e triunfante. Com a agitação, o movimento das nuvens e
das ondas, o brilho das águas e da vastidão, a moça quase não
conseguia mais distinguir o que se movia: ela, o navio ou o barco
– tudo se movia, girava e caía.
Mas o remo marulhou ao lado dela; ela ergueu a cabeça. Grey
encurvou-se, as mãos dela agarraram-lhe o cinto. Assol
semicerrou os olhos; depois, abrindo-os rapidamente, sorriu, sem
hesitar, para o rosto radiante dele, e, arquejando, disse:
– Você é exatamente como eu pensei.
– E você também, minha pequena! – disse Grey, tirando da
água aquela joia molhada. – Estou aqui, cheguei. Você me
reconheceu?
Ela acenou, segurando no cinto dele, com uma nova alma e
olhos palpitantes e semicerrados. A felicidade aconchegou-se
nela como um gatinho felpudo. Quando Assol atreveu-se a abrir
os olhos, o balanço do escaler, o brilho das ondas, o costado do
Segredo, que se aproximava, revirando-se vigorosamente – tudo
era um sonho, onde a luz e a água balouçavam, rodopiando, de
maneira semelhante ao jogo dos reflexos do sol sobre uma
parede recoberta por seus raios. Sem perceber como, ela subiu
pela prancha, nos fortes braços de Grey. O convés, coberto e
ornado com tapetes, em meio aos refluxos escarlates das velas,
era como um jardim celestial. E logo Assol viu que estava na cabine – um quarto que não poderia ser melhor.
Então, lá de cima, abalando e envolvendo o coração em seu
clamor triunfante, precipitou-se novamente a grandiosa música.
De novo Assol fechou os olhos, temendo que tudo aquilo
desaparecesse se ela olhasse. Grey segurou-lhe as mãos, e ela,
agora já sabendo que poderia ir em segurança, escondeu seu
rosto molhado de lágrimas no peito do amigo, que tinha vindo de
maneira tão mágica. Com cuidado, mas rindo – ele mesmo
comovido e surpreso pelo fato de que havia chegado aquele
momento precioso, indescritível e inacessível –, Grey levantou
pelo queixo aquele rosto há tanto tempo sonhado, e os olhos da
moça afinal abriram-se plenamente. Neles, havia tudo que há de
melhor no ser humano.
– Você vai levar conosco o meu Longren? – disse ela.
– Sim. – E deu-lhe um beijo tão forte após seu férreo “sim”, que
ela começou a rir.
Agora, vamos nos afastar deles, sabendo que precisam ficar
sozinhos juntos. Há no mundo muitas palavras em diferentes
línguas e diferentes dialetos, mas com todas elas não é possível
transmitir, nem mesmo de longe, aquilo que eles disseram um ao
outro naquele dia.
Enquanto isso, no convés, junto ao mastro grande, ao lado do
barrilete carcomido por vermes, com o fundo aberto revelando a
escura e centenária bem-aventurança, toda a tripulação já estava
à espera. Atwood estava de pé; Panten, sentado, com ar solene,
cintilando como um recém-nascido. Grey veio para cima, deu o
sinal para a orquestra e, tirando o quepe, foi o primeiro a colher,
com um copo lapidado, em meio à canção das trombetas
douradas, o vinho sagrado.
– Pois bem… – disse ele ao terminar de beber, largando depois
o copo. – Agora bebam, bebam todos; quem não beber é meu
inimigo.
Não precisou repetir aquelas palavras. No momento em que, a
toda força, com todas as velas, o Segredo afastava-se da
eternamente horrorizada Caperna, a aglomeração ao redor do
barrilete superou tudo que acontece de semelhante nas grandes
festividades.
– Que achou dele? – perguntou Grey a Letika.
– Capitão! – disse o marinheiro, procurando as palavras. – Não
sei se gostei dele, mas preciso pensar bem as minhas
impressões. Uma colmeia e um jardim!
– O quê?!
– Quero dizer que enfiaram uma colmeia e um jardim na minha
boca. Sejam felizes, capitão. E que seja feliz aquela que eu
chamarei de “melhor carga”, melhor prêmio do Segredo!
Quando, no outro dia, começou a clarear, o navio estava longe
de Caperna. Parte da tripulação permaneceu deitada sobre o
convés do mesmo jeito que pegou no sono, vencida pelo vinho
de Grey; mantinham-se de pé somente o timoneiro e o
marinheiro de quarto, e também Zimmer, sentado na popa, com o
braço do violoncelo no queixo, pensativo e embriagado. Sentado,
ele movia calmamente o arco, fazendo as cordas falar com uma
voz mágica e etérea, e pensava na felicidade…
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