Velas Escarlates

Aleksandr Grin · Capítulo 6 de 7

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Velas Escarlates

Assol fica sozinha

 

Longren passou a noite no mar; ele não dormiu, não pescou,

mas velejou sem direção definida, ouvindo o rumor da água,

olhando para as trevas, enfrentando o vento e pensando. Nos

momentos mais difíceis da vida, nada restaurava as forças de

sua alma como aquelas vagueações solitárias. O silêncio,

somente o silêncio e a solitude: era disso que ele precisava para

que todas as vozes mais fracas e confusas do mundo interior

passassem a soar de maneira compreensível. Naquela noite, ele

pensou no futuro, na pobreza, em Assol. Para ele, era muito

difícil deixá-la, mesmo que por pouco tempo; além disso, ele

temia ressuscitar uma dor que já amainou. Talvez, ingressando

no navio, ele novamente imaginaria que lá, em Caperna, estaria

à sua espera a amiga, que nunca morreu, e então, ao retornar,

ele se aproximaria da casa com o pesar de uma expectativa

morta. Meri nunca mais sairia pelas portas da casa. Mas ele

queria que Assol tivesse o que comer e por isso decidiu agir

como manda a dedicação.

Quando Longren voltou, a moça ainda não estava em casa.

Seus passeios matutinos não perturbavam o pai; dessa vez,

porém, em sua espera havia uma leve tensão. Caminhando de

um canto a outro, ao dar a volta, ele de repente viu Assol;

entrando com ímpeto e sem ruído, ela parou diante dele, calada, quase o assustando com o brilho do olhar, que refletia agitação.

Parecia ter-se aberto seu segundo rosto – aquele rosto

verdadeiro das pessoas, de que geralmente só os olhos falam.

Ela ficou em silêncio, olhando para o rosto de Longren de modo

tão incompreensível que ele logo perguntou:

– Você está doente?

Ela não respondeu de imediato. Quando o sentido da pergunta

finalmente tocou o ouvido de sua alma, Assol estremeceu, como

o ramo tocado pela mão, e deu uma longa e uniforme risada de

sereno triunfo. Ela tinha que dizer alguma coisa, mas, como

sempre, não conseguia inventar exatamente o quê; ela disse:

– Não, estou saudável… Por que está me olhando assim?

Estou alegre. É verdade, estou alegre, mas é porque o dia está

muito bonito. O que é que você inventou? Já estou vendo pela

sua cara que inventou alguma coisa.

– Não importa o que eu inventei – disse Longren, sentando a

moça em seu colo –, pois eu sei que você vai entender a

questão. Não temos com que viver. Eu não vou enfrentar longos

percursos de novo, mas vou trabalhar no vapor do correio, que

viaja entre Casset e Lisse.

– Sim – disse ela, distante, esforçando-se por adentrar nas

preocupações e nos assuntos dele, mas horrorizada pelo fato de

que era incapaz de conter a alegria. – Isso é muito ruim. Sentirei

saudades. Volte logo. – Assim falando, desabrochou nela um

sorriso incontrolável. – Sim, volte logo, meu querido; eu vou

esperar.

– Assol! – disse Longren, segurando o rosto dela com as mãos

e virando-o para si. – Fale logo o que aconteceu!

Ela sentiu que precisava desanuviá-lo de seu desassossego e,

dominando o júbilo, ficou séria e atenciosa, só em seus olhos

ainda brilhava a nova vida.

– Você está estranho – disse ela. – Rigorosamente nada. Eu estava colhendo nozes.

Longren não teria acreditado plenamente naquilo se não

estivesse tão ocupado com seus pensamentos. A conversa deles

tornou-se prática e detalhada. O marinheiro pediu à filha que

arrumasse sua bolsa; enumerou todas as coisas necessárias e

deu alguns conselhos.

– Voltarei para casa daqui a uns dez dias, e você deixe armada

a minha espingarda e fique em casa. Se alguém vier ofender

você, diga: “Longren volta logo”. Não pense em mim e não se

preocupe comigo; não vai acontecer nada de mau.

Depois disso, ele comeu, deu um forte beijo na moça e,

jogando a bolsa por cima do ombro, saiu para a estrada da

cidade. Assol seguiu-o com os olhos, até que ele desapareceu

atrás da curva; depois, virou-se. Ela tinha muito trabalho

doméstico pela frente, mas tinha se esquecido disso. Com

interesse e uma leve surpresa, ela olhou ao redor, como se já

fosse estranha àquela casa, tão incorporada à sua consciência

desde a infância que parecia sempre a ter levado consigo, mas

que agora tinha aquela aparência de um local familiar visitado

anos depois, em outro momento da vida. Mas pareceu-lhe haver

algo indigno naquela reação, algo errado. Ela se sentou à mesa

em que Longren fabricava os brinquedos, e tentou colar o leme à

popa; ao olhar para aqueles objetos, ela involuntariamente os

enxergou grandes, verdadeiros; tudo que aconteceu de manhã

novamente ergueu-se nela com um tremor de inquietação, e o

anel dourado, do tamanho do sol, caiu a seus pés, vindo do mar.

Sem mesmo se sentar, ela saiu de casa e foi a Lisse. Ela não

tinha absolutamente nada a fazer lá; não sabia por que estava

indo, mas não conseguia não ir. Na estrada, topou com um

transeunte que precisava informar-se a respeito de certa direção;

ela lhe explicou muito bem o caminho e imediatamente

esqueceu-se daquilo.

Todo o longo caminho passou de maneira despercebida, como

se ela estivesse levando um passarinho que absorvia toda a sua

carinhosa atenção. Perto da cidade, ela se distraiu um pouco

com o barulho que voava de seu enorme círculo, mas a cidade

não tinha sobre ela o poder de antes, quando, provocando susto

e medo, ela fazia de Assol uma covardona calada. Ela estava

enfrentando-a. Atravessou lentamente a alameda circular que

cortava as sombras azuis das árvores, olhou com ar crédulo e

leve para os rostos dos pedestres, com passo uniforme, cheia de

confiança. Ao longo do dia, a raça das pessoas observadoras

notou, repetidas vezes, uma moça desconhecida, estranha ao

olhar, que passava em meio à vívida multidão com profundo ar

contemplativo. Na praça, ela encostou a mão na corrente do

chafariz, passando os dedos pelos respingos refletidos; depois,

sentou-se, descansou e voltou à estrada da floresta. Fez o

caminho de volta com a alma fresca, num estado de espírito

pacífico e sereno, semelhante a um riacho noturno, que

finalmente substituiu os espelhos multicoloridos do dia pelo brilho

uniforme das sombras. Aproximando-se do povoado, ela avistou

aquele mesmo carvoeiro que teve a impressão de ver a cesta

florescer; ele estava de pé ao lado de sua carroça, com duas

sombrias pessoas desconhecidas, cobertas de fuligem e sujeira.

Assol alegrou-se.

– Olá, Filipp – disse ela –, o que está fazendo aqui?

– Nada, mosquinha. Soltou a roda, mas eu já consertei. Agora

estou fumando um pouco e papeando com o pessoal. Está vindo

de onde?

Assol não respondeu.

– Sabe, Filipp – disse ela –, eu gosto muito de você, e por isso

vou contar só para você. Partirei em breve; partirei para sempre,

possivelmente. Não conte a ninguém.

– Você quer partir? Aonde pretende ir? – admirou-se o carvoeiro, escancarando a boca com ar de interrogação, o que

fazia com que sua barba ficasse mais comprida.

– Não sei. – Ela examinou lentamente a clareira debaixo do

olmo, onde estava a telega, a grama verde contra a luz rosada do

crepúsculo, os carvoeiros, negros e taciturnos, e, depois de

pensar um pouco, acrescentou: – Tudo isso é desconhecido para

mim. Não sei nem o dia, nem a hora, nem mesmo sei aonde. Não

direi mais nada. Então, por via das dúvidas, adeus; você me

levou muitas vezes.

Ela pegou a mão, enorme e negra, e levou-a a um estado de

relativo tremor. No rosto do trabalhador, abriu-se a fenda de um

sorriso imóvel. A moça fez um aceno, deu a volta e foi-se

embora. Ela desapareceu tão depressa que Filipp e seus amigos

nem tiveram tempo de virar a cabeça.

– Que prodígio – disse o carvoeiro –, vai entender essa aí. Tem

alguma coisa nela hoje… assim, sei lá.

– É verdade – apoiou o segundo –, não sei se está falando, se

está tentando convencer. Não é da nossa conta.

– Não é da nossa conta – disse também o terceiro, suspirando.

Depois, todos os três subiram na carroça e, estalando as rodas

pela estrada pedregosa, esconderam-se na poeira.