Velas Escarlates
Os preparativos para o combate
OS PREPARATIVOS PARA O
COMBATE
Quando Grey subiu ao convés do Segredo, ele ficou alguns
minutos de pé, imóvel, afagando a cabeça com a mão, da parte
de trás até a testa, o que significava extrema perturbação. A
distração – uma nebulosa movimentação de sentimentos –
refletia-se em seu rosto pelo sorriso impassível de um
sonâmbulo. Naquele momento, seu imediato, Panten, caminhava
pela tolda com um prato de peixe frito; ao ver Grey, ele percebeu
o estranho estado do capitão.
– O senhor por acaso se machucou? – perguntou ele, com
cautela. – Onde o senhor esteve? O que o senhor viu? Aliás, isso
é assunto seu, obviamente. Um corretor nos ofereceu um frete
lucrativo, com gratificação. Mas o que é que o senhor tem?…
– Obrigado – disse Grey, suspirando, como se o tivessem
desamarrado. – Eu estava sentindo falta justamente do som da
sua voz simples e inteligente. É como água fria. Panten, avise o
pessoal que hoje nós levantaremos âncora e avançaremos até a
foz do Liliana, a umas dez milhas daqui. O curso dele é repleto
de bancos de areia compactos. Só é possível alcançar a foz pelo
mar. Vá buscar o mapa. Não precisa trazer o prático. Por
enquanto é isso… Sim, esse frete lucrativo não vale meia pataca para mim. Pode dizer isso ao corretor. Vou à cidade, onde ficarei
até a noite.
– Mas o que aconteceu?
– Rigorosamente nada, Panten. Quero que leve em
consideração meu desejo de me esquivar de quaisquer
interrogações. Quando chegar o momento, eu contarei ao senhor
o que se passa. Diga aos marinheiros que temos um reparo a
fazer; que o estaleiro local está ocupado.
– Está bem – disse Panten, de modo disparatado, a Grey, que
já havia dado as costas e saído. – Será feito.
Embora as ordens do capitão fossem plenamente razoáveis, o
imediato arregalou os olhos e, inquieto, foi correndo com o prato
para sua cabine, resmungando: “Panten, ele deixou você
perplexo. Será que ele não quer experimentar contrabando? Será
que vamos sair com a bandeira negra dos piratas?”. Mas então
Panten enredou-se nas suposições mais selvagens. Enquanto
ele dava cabo do peixe, nervosamente, Grey desceu até a
cabine, pegou dinheiro e, atravessando a enseada, apareceu nos
bairros comerciais de Lisse.
Agora ele já agia de modo resoluto e tranquilo, sabendo todo
pormenor do que o esperava naquele maravilhoso caminho.
Cada movimento, pensamento, ação aqueciam-no com o
refinado deleite do trabalho artístico. Seu plano tomou forma de
maneira instantânea e expressiva. Suas ideias sobre a vida
submetiam-se àquela última incursão do cinzel, depois da qual o
mármore fica sereno em seu magnífico esplendor.
Grey esteve em três lojas, dando particular importância à
precisão da escolha, uma vez que, mentalmente, ele já
enxergava a cor e as nuances necessárias. Nas duas primeiras
lojas, mostraram-lhe sedas de cores berrantes, destinadas a
satisfazer uma vaidade despretensiosa; na terceira, ele
encontrou amostras de efeitos complexos. O dono da loja ficou alegremente azafamado ao exibir os tecidos encalhados, mas
Grey continuou sério, como um anatomista. Ele examinou
pacientemente os rolos, separou, moveu, desenrolou e observou
a cor de uma quantidade tão grande de tiras que o balcão,
coberto por elas, parecia incendiar-se. No bico da bota de Grey,
estendeu-se uma onda púrpura; em suas mãos e em seu rosto,
reluzia um reflexo rosado. Revirando-se em meio à leve
resistência da seda, ele distinguia as cores; vermelho, rosa
pálido, rosa-escuro; a densa ebulição dos tons de cereja, de
laranja, rubro-escuros; havia ali nuances de todas as forças e
significados, diversas em sua ilusória afinidade, de modo
semelhante às palavras “encantador”, “magnífico”, “esplêndido” e
“perfeito”; nos vincos, ocultavam-se indícios inacessíveis à língua
da visão, mas a verdadeira cor escarlate demorou muito tempo
para se revelar aos olhos de nosso capitão; o que o lojista trazia
era bom, mas não evocava aquele “sim” claro e firme.
Finalmente, uma cor atraiu a atenção desarmada do comprador;
ele se sentou na poltrona, virado para a janela, puxou a longa
ponta da ruidosa seda, jogou-a em seu colo e, desmoronando,
com o cachimbo nos dentes, ficou contemplativamente imóvel.
Aquela cor perfeitamente pura, como uma corrente escarlate
pela manhã, plena de nobre alegria e de majestade, era
precisamente a cor altiva que Grey procurava. Nela, não havia
nuances misturadas de fogo, pétalas de papoula, jogos de
matizes violeta ou lilás; também não havia azuis nem sombras –
nada que provocasse dúvida. Ela se ruborizava, como um
sorriso, pelo fascínio de um reflexo da alma. Grey ficou tão
pensativo que se esqueceu do dono da loja, que esperava atrás
dele com a tensão de um cão de caça a postos. Cansado de
esperar, o mercador se fez notar farfalhando um pedaço rasgado
de tecido.
– Basta de amostras – disse Grey, levantando-se. – Vou levar esta seda.
– A peça inteira? – perguntou o mercador, duvidando
respeitosamente. Mas Grey olhou para a testa dele, em silêncio,
o que deixou o dono da loja um pouco mais desenvolto. – Nesse
caso, quantos metros?
Grey fez um aceno, pedindo para que esperasse, e calculou a
lápis num papel a quantidade necessária.
– Dois mil metros. – Em dúvida, ele examinou as prateleiras. –
Sim, não mais que dois mil metros.
– Dois? – disse o dono da loja, saltitando convulsivamente,
como uma mola. – Mil? Metros? Peço que o senhor se sente,
capitão. Não deseja dar uma olhada em amostras de tecidos
novos, capitão? Como queira. Aqui estão os fósforos, aqui tem
um excelente tabaco; por gentileza. Dois mil… dois mil por… –
Ele disse o preço, que tinha a mesma relação com o que era
justo que um juramento tem com um simples “sim”, mas Grey
ficou satisfeito, de maneira que nem quis regatear. – É uma seda
extraordinária, a melhor – continuou o lojista –, uma mercadoria
sem comparação. Só aqui o senhor vai encontrá-la.
Quando ele finalmente conteve seu êxtase, Grey combinou com
ele a entrega, assumindo as despesas, pagou a conta e saiu
acompanhado pelo dono da loja com as honras de um imperador
chinês. Enquanto isso, na rua, do lado oposto à loja, um músico
ambulante, com seu tranquilo arco, afinava o violoncelo, fazendo-
o falar num tom triste e bonito; seu companheiro, um flautista,
recobria o canto das cordas com o murmúrio de um assobio
gutural; a simples canção com que eles preenchiam o espaço
aberto, que cochilava em meio ao calor, atingiu os ouvidos de
Grey, e ele imediatamente compreendeu o que deveria fazer a
seguir. No geral, durante todos aqueles dias, ele se encontrava
naquela ditosa elevação da visão da alma da qual podia
perceber, com clareza, todos os indícios e sugestões da realidade; ao ouvir os sons, abafados pelo andar das carruagens,
ele entrou no centro das impressões e pensamentos mais
importantes que, conforme seu caráter, aquela música
provocava, já sentindo por que e como daria certo aquilo que ele
imaginara. Passando pelas travessas, Grey atravessou os
portões da casa em que se realizava a apresentação musical.
Naquele momento, os músicos já se preparavam para ir embora;
o alto flautista, com ar de dignidade abatida, agitava com gratidão
o chapéu na direção das janelas de onde voavam as moedas. O
violoncelo já voltara para baixo do braço de seu dono; este,
enxugando a testa coberta de suor, esperava pelo flautista.
– Ora, mas é você, Zimmer! – disse-lhe Grey, reconhecendo o
violinista que, durante a noite, alegrava, com sua bela música, os
marinheiros que frequentavam a taverna Dinheiro para o Barril. –
Como é que você foi trair o violino?
– Prezadíssimo capitão – replicou Zimmer, com ar satisfeito –,
eu toco tudo que ressoa e range. Na juventude, fui palhaço
musical. Agora, pendo mais para a arte e vejo, com desgosto,
que arruinei um talento fora do comum. É por isso que, graças a
uma avidez tardia, amo os dois de uma só vez: a viola e o violino.
Toco o violoncelo de dia, e o violino, de noite, ou seja, eu meio
que choro, soluço pelo talento arruinado. Não me pagaria um
vinhozinho, hein? O violoncelo é a minha Carmen, e o violino…
– Assol – disse Grey.
Zimmer não ouviu.
– Sim – acenou ele –, um solo de pratos ou desses tubinhos de
cobre é outra coisa. Aliás, o que eu estou dizendo?! Que os
palhaços da arte façam as suas caretas – eu sei que é sempre
no violino e no violoncelo que as fadas descansam.
– E o que é que se esconde no meu “tur-lu-ru”? – perguntou o
flautista, que se aproximava, um rapagão alto com olhos azuis,
de carneiro, e uma barba loira. – Pois, então, diga.
– Depende do quanto você bebeu desde a manhã. Às vezes,
um pássaro, às vezes, os vapores do álcool. Capitão, esse é
Duss, meu associado; eu contei a ele como o senhor esbanja o
ouro quando bebe, e ele ficou apaixonado pelo senhor, a
distância.
– Sim – disse Duss –, eu amo o gesto e a generosidade. Mas
sou astuto, não acredite na minha infame lisonja.
– É o seguinte – disse Grey, rindo. – Tenho pouco tempo, e a
questão é premente. Proponho a vocês um bom dinheiro.
Reúnam uma orquestra, mas não de janotas com pomposas
caras de morto, que, em seu pedantismo musical ou, o que é
pior, na sua gastronomia sonora, esqueceram a alma da música
e calmamente amortecem os palcos com seus ruídos intrincados.
Não. Reúnam gente como vocês, que fazem chorar os corações
simples das cozinheiras e dos criados; reúnam os seus
vagabundos. O mar e o amor não toleram os pedantes. Eu teria
muito prazer em me sentar com vocês e tomaria até mais de uma
garrafa, mas preciso ir. Tenho muitos afazeres. Tomem isso e
bebam em honra à letra A. Se gostarem da minha proposta,
venham à noite até o Segredo; ele está perto do dique principal.
– De acordo! – exclamou Zimmer, sabendo que Grey pagava
como um rei. – Duss, dê os cumprimentos, diga “sim” e gire seu
chapéu, de tanta alegria! O capitão Grey quer se casar!
– Sim – disse simplesmente Grey. – Eu contarei a vocês todos
os detalhes no Segredo. E vocês…
– À letra A! – Duss, dando uma cotovelada em Zimmer, piscou
para Grey. – Mas… há muitas letras no alfabeto! Dê alguma
coisa também para o Z…
Grey deu mais dinheiro. Os músicos foram embora. Então ele
passou no escritório de comissão e deu uma missão secreta em
troca de um bom dinheiro – para ser cumprida com urgência,
dentro de seis dias. No momento em que Grey voltava a seu navio, o agente do escritório já embarcava no vapor. No fim do
dia, trouxeram a seda; cinco veleiros contratados por Grey já
estavam instalados com os marinheiros; Letika ainda não voltara,
e os músicos não haviam chegado; à espera dele, Grey foi
palestrar com Panten.
É preciso observar que Grey navegava com a mesma
composição de tripulantes havia alguns anos. No início, o capitão
surpreendia os marinheiros com caprichos e trajetos
inesperados, paradas – que às vezes duravam meses – nos
lugares menos comerciais e mais despovoados possíveis, mas
pouco a pouco eles se imbuíram dos “greísmos” de Grey. Ele
frequentemente navegava com um só lastro, recusando-se a
aceitar um frete lucrativo só porque não gostava da carga
oferecida. Ninguém conseguia convencê-lo a transportar óleo,
pregos, peças de máquinas e qualquer outra coisa que ficasse
em sombrio silêncio nos porões, evocando a inanimada ideia de
uma enfadonha necessidade. Mas ele levava com gosto frutas,
porcelana, animais, especiarias, chá, tabaco, café, seda,
espécies valiosas de árvores; ébano, sândalo, palmeira. Tudo
isso se devia ao aristocratismo de sua imaginação, que criava
uma atmosfera pitoresca; não era surpreendente que a tripulação
do Segredo, educada, desse modo, no espírito da singularidade,
olhasse com certa arrogância para todas as demais
embarcações, cobertas pela fumaça do lucro trivial. Ainda assim,
dessa vez Grey encontrou uma indagação nas fisionomias; o
mais obtuso dos marinheiros sabia muito bem que não havia
necessidade de fazer reparos no leito de um rio da floresta.
Panten evidentemente transmitiu-lhes a ordem de Grey; quando
ele entrou, seu imediato terminava de fumar o sexto charuto,
vagando pela cabine, tonto com a fumaça e tropeçando nas
cadeiras. A noite ia chegando; pela vigia aberta, assomava uma
trave dourada de luz, na qual se incendiava a aba envernizada do quepe do capitão.
– Está tudo pronto – disse Panten, sombrio. – Se o senhor
quiser, podemos levantar âncora.
– Panten, você deveria me conhecer um pouco melhor –
observou Grey, em tom brando. – Não há mistério algum no que
estou fazendo. Assim que lançarmos as âncoras no fundo do
Liliana, eu contarei tudo, e você não vai mais gastar tantos
fósforos com charutos ruins. Pode ir, levantar ferro.
Panten, sorrindo sem jeito, coçou a sobrancelha.
– É claro que é assim – disse ele. – Aliás, por mim tudo bem.
Quando ele saiu, Grey ficou mais um tempo sentado, imóvel,
olhando para a porta entreaberta, depois foi para seu quarto. Ali,
ele ora ficava sentado, ora deitado; ora prestava atenção ao
ruído do cabrestante, que rolava a ruidosa corrente, e fazia
menção de sair para o castelo de proa, mas de novo mudava de
ideia e voltava à mesa, traçando, com o dedo pelo oleado, uma
veloz linha reta. Uma batida de um punho na porta tirou-o
daquele estado maníaco; ele virou a chave, deixando Letika
entrar. O marinheiro, respirando pesadamente, parou, com o
aspecto de um mensageiro que prevenira a tempo uma
execução.
– “Voe, Letika”, eu disse comigo mesmo – ele começou a falar
velozmente – quando vi, do dique do cabo, o nosso pessoal
dançando ao redor dos cabrestantes, cuspindo nas palmas das
mãos. Eu tenho olhos de águia. E saí mesmo voando; bufei tanto
com o barqueiro que o homem ficou coberto de suor, com a
agitação. Capitão, o senhor queria me deixar na costa?
– Letika – disse Grey, olhando fixamente para seus olhos
vermelhos –, eu não esperava que você chegasse depois da
manhã. Já jogou água fria na nuca?
– Joguei. Não tanto quanto foi posto para dentro, mas joguei.
Tudo foi feito.
– Fale.
– Não vale a pena falar, capitão; eu escrevi tudo aqui. Pegue e
leia. Eu me esforcei muito. Vou-me embora.
– Para onde?
– Vejo pela reprovação em seus olhos que joguei pouca água
fria na nuca.
Ele se virou e saiu, com os estranhos movimentos de um cego.
Grey abriu o papelzinho; o lápis deve ter ficado admirado quando
traçou ali aquelas linhas, que lembravam uma cerca
desengonçada. Letika escreveu o seguinte: “Conforme as
instruções. Depois das cinco horas andei pela rua. Uma casa
com teto cinza, duas janelas de cada lado; ao lado dela, uma
horta. A figura mencionada apareceu duas vezes: um, para
buscar água; dois, para buscar lascas de madeira para o fogão.
Com a chegada da escuridão, penetrei a janela com o olhar, mas
não vi nada, por causa das cortinas”.
Depois, vinham algumas indicações de caráter familiar,
aparentemente obtidas por Letika por meio de uma conversa à
mesa, já que a anotação terminava, de modo um tanto
inesperado, com as palavras: “No cálculo das despesas incluí um
pouco da minha parte”.
Mas, em essência, o relatório falava apenas daquilo que já
sabíamos do primeiro capítulo. Grey colocou o papelzinho sobre
a mesa, assobiou para o marinheiro de quarto e mandou buscar
Panten, mas, em vez do imediato, apareceu o mestre Atwood,
puxando as mangas arregaçadas.
– Estamos atracados no dique – disse ele. – Panten me
mandou para saber o que o senhor deseja. Ele está ocupado: foi
surpreendido por umas pessoas com cornetas, tambores e outros
violinos. O senhor os chamou aqui para o Segredo? Panten está
pedindo para o senhor ir até lá. Ele está com a cabeça confusa.
– Sim, Atwood – disse Grey –, eu chamei os músicos, mesmo; pode ir, diga para eles ficarem no alojamento da tripulação, por
enquanto. Depois veremos como acomodá-los. Atwood, diga a
eles e à tripulação que eu irei ao convés daqui a um quarto de
hora. Que se reúnam; você e Panten também devem me escutar,
é claro.
Atwood levantou a sobrancelha esquerda, como um gatilho,
ficou um pouco junto à porta, de lado, e saiu. Grey passou
aqueles dez minutos com o rosto coberto pelas mãos; ele não
estava se preparando para nada nem calculando nada, só queria
ficar mentalmente calado. Enquanto isso, todos já o esperavam,
com impaciência e uma curiosidade cheia de conjecturas. Ele
saiu e viu, naqueles rostos, a expectativa de coisas incríveis,
mas, como ele mesmo achava plenamente natural o que estava
sendo realizado, a tensão das outras almas refletiu-se nele com
uma leve irritação.
– Não é nada de mais – disse Grey, sentando-se no alçapão da
ponte. – Permaneceremos na foz do rio até termos trocado todo
o cordame. Vocês viram que foi trazida uma seda vermelha; com
ela, sob a direção do mestre veleiro Blent, serão confeccionadas
novas velas para o Segredo. Depois partiremos, mas não direi
para onde; de todo modo, não é longe daqui. Vou buscar a
esposa. Ela ainda não é minha esposa, mas será. Preciso de
velas escarlates, para que, de longe, como foi combinado com
ela, ela nos perceba. É só isso. Como podem ver, não há nada
de misterioso aqui. E basta com isso.
– Sim – disse Atwood, vendo, pelos rostos sorridentes dos
marinheiros, que eles estavam agradavelmente desconcertados
e não se atreviam a falar. – Então é isso, capitão… É claro que
não cabe a nós julgar a esse respeito. Será como o senhor
desejar. Eu o felicito.
– Obrigado! – Grey apertou com força a mão do mestre, mas
este, fazendo um esforço extraordinário, respondeu com um aperto tal que o capitão cedeu. Depois disso, todos se
aproximaram, trocando uns com os outros olhares de carinho
acanhado e resmungando felicitações. Ninguém gritou nem fez
barulho – os marinheiros sentiam algo não totalmente simples
nas palavras entrecortadas do capitão. Panten suspirou, aliviado,
e animou-se – o peso de sua alma se esvaíra. Um carpinteiro
naval ficou insatisfeito com alguma coisa; depois de segurar, com
indolência, a mão do capitão por um instante, ele perguntou, em
tom sombrio:
– Como é que o senhor enfiou isso na cabeça, capitão?
– Como um golpe do seu machado – disse Grey. – Zimmer!
Mostre sua criançada.
O violinista, batendo nas costas dos músicos, empurrou para a
frente sete pessoas vestidas de maneira extremamente
desleixada.
– Aqui estão – disse Zimmer. – Esse é o trombone; ele não
toca, mas dispara, como um canhão. Esses dois rapazes
imberbes são as trombetas; quando começam a tocar, logo dá
vontade de guerrear. Depois, o clarinete, o cornetim de pistões e
o segundo violino. Todos eles são mestres em abraçar o ligeiro
primeiro violino, ou seja, a mim. E ali está o grande senhor de
nosso alegre ofício: Fritz, o baterista. Os bateristas geralmente
têm um ar desiludido, sabe, mas esse toca com dignidade, com
entusiasmo. No tocar dele há algo franco e direto, como suas
baquetas. Então está tudo feito, capitão Grey?
– Magnífico – disse Grey. – Todos vocês receberão um lugar no
porão, que dessa vez, portanto, estará carregado com diversos
scherzi, adágios e fortíssimos. Podem ir. Panten, tirem as
amarras, zarpem. Vou rendê-lo daqui a duas horas.
Ele não percebeu aquelas duas horas, já que elas se passaram
com aquela mesma música interior que não deixava sua
consciência, como o pulso não deixa as artérias. Ele pensava em uma só coisa, queria uma só coisa, aspirava a uma só coisa.
Homem de ação, ele se adiantava mentalmente ao curso dos
acontecimentos, lamentando apenas não poder movê-los de
maneira tão simples e ligeira como num jogo de damas. Nada em
sua aparência tranquila manifestava a tensão de seus
sentimentos, cujo ressoar, semelhante ao ressoar de um enorme
sino que bate acima da cabeça, voava por todo o seu ser num
estrondoso gemido nervoso. Isso finalmente levou-o ao ponto de
começar a contar mentalmente: “Um… dois… trinta…”, e assim
por diante, até ele dizer “mil”. Esse exercício surtiu efeito: ele
finalmente foi capaz de olhar de fora todos os empreendimentos.
Nesse ponto, ele ficou um pouco surpreso com o fato de que não
podia imaginar a Assol interior, já que nem conversou com ela.
Tinha lido em algum lugar que era possível, ainda que de
maneira vaga, compreender uma pessoa se, imaginando-se
como essa pessoa, copiasse a expressão de seu rosto. Os olhos
de Grey já tinham começado a assumir uma expressão estranha,
que não lhe era peculiar, e os lábios sob os bigodes, a formar um
sorriso fraco e dócil, quando, voltando a si, ele caiu na
gargalhada e saiu para render Panten.
Estava escuro. Panten, levantando a gola da jaqueta,
caminhava junto à bússola, dizendo ao timoneiro: “Bombordo, um
quarto do rumo; bombordo. Pare: mais um quarto”. O Segredo
avançava com metade das velas, com vento favorável.
– Sabe? – disse Panten a Grey. – Estou contente.
– Com o quê?
– Com o mesmo que o senhor. Entendi tudo. Aqui, na ponte. –
Ele deu uma piscadela astuta, dando luz ao sorriso com o fogo
do cachimbo.
– Pois então – disse Grey, subitamente adivinhando o que se
passava. – O que é que você entendeu?
– O melhor método de fazer contrabando – sussurrou Panten. – Qualquer um pode ter as velas que quiser. O senhor tem uma
cabeça genial, Grey!
– Pobre Panten! – disse o capitão, sem saber se se irritava ou
se ria. – A sua conjectura é sagaz, mas desprovida de qualquer
fundamento. Vá dormir. Dou minha palavra que você está
equivocado. Estou fazendo o que eu disse.
Ele mandou-o dormir, verificou o curso e sentou-se. Agora nós
o deixaremos, pois ele precisa ficar sozinho.