Velas Escarlates

Aleksandr Grin · Capítulo 5 de 7

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Velas Escarlates

Os preparativos para o combate

OS PREPARATIVOS PARA O

 

COMBATE

 

Quando Grey subiu ao convés do Segredo, ele ficou alguns

minutos de pé, imóvel, afagando a cabeça com a mão, da parte

de trás até a testa, o que significava extrema perturbação. A

distração – uma nebulosa movimentação de sentimentos –

refletia-se em seu rosto pelo sorriso impassível de um

sonâmbulo. Naquele momento, seu imediato, Panten, caminhava

pela tolda com um prato de peixe frito; ao ver Grey, ele percebeu

o estranho estado do capitão.

– O senhor por acaso se machucou? – perguntou ele, com

cautela. – Onde o senhor esteve? O que o senhor viu? Aliás, isso

é assunto seu, obviamente. Um corretor nos ofereceu um frete

lucrativo, com gratificação. Mas o que é que o senhor tem?…

– Obrigado – disse Grey, suspirando, como se o tivessem

desamarrado. – Eu estava sentindo falta justamente do som da

sua voz simples e inteligente. É como água fria. Panten, avise o

pessoal que hoje nós levantaremos âncora e avançaremos até a

foz do Liliana, a umas dez milhas daqui. O curso dele é repleto

de bancos de areia compactos. Só é possível alcançar a foz pelo

mar. Vá buscar o mapa. Não precisa trazer o prático. Por

enquanto é isso… Sim, esse frete lucrativo não vale meia pataca para mim. Pode dizer isso ao corretor. Vou à cidade, onde ficarei

até a noite.

– Mas o que aconteceu?

– Rigorosamente nada, Panten. Quero que leve em

consideração meu desejo de me esquivar de quaisquer

interrogações. Quando chegar o momento, eu contarei ao senhor

o que se passa. Diga aos marinheiros que temos um reparo a

fazer; que o estaleiro local está ocupado.

– Está bem – disse Panten, de modo disparatado, a Grey, que

já havia dado as costas e saído. – Será feito.

Embora as ordens do capitão fossem plenamente razoáveis, o

imediato arregalou os olhos e, inquieto, foi correndo com o prato

para sua cabine, resmungando: “Panten, ele deixou você

perplexo. Será que ele não quer experimentar contrabando? Será

que vamos sair com a bandeira negra dos piratas?”. Mas então

Panten enredou-se nas suposições mais selvagens. Enquanto

ele dava cabo do peixe, nervosamente, Grey desceu até a

cabine, pegou dinheiro e, atravessando a enseada, apareceu nos

bairros comerciais de Lisse.

Agora ele já agia de modo resoluto e tranquilo, sabendo todo

pormenor do que o esperava naquele maravilhoso caminho.

Cada movimento, pensamento, ação aqueciam-no com o

refinado deleite do trabalho artístico. Seu plano tomou forma de

maneira instantânea e expressiva. Suas ideias sobre a vida

submetiam-se àquela última incursão do cinzel, depois da qual o

mármore fica sereno em seu magnífico esplendor.

Grey esteve em três lojas, dando particular importância à

precisão da escolha, uma vez que, mentalmente, ele já

enxergava a cor e as nuances necessárias. Nas duas primeiras

lojas, mostraram-lhe sedas de cores berrantes, destinadas a

satisfazer uma vaidade despretensiosa; na terceira, ele

encontrou amostras de efeitos complexos. O dono da loja ficou alegremente azafamado ao exibir os tecidos encalhados, mas

Grey continuou sério, como um anatomista. Ele examinou

pacientemente os rolos, separou, moveu, desenrolou e observou

a cor de uma quantidade tão grande de tiras que o balcão,

coberto por elas, parecia incendiar-se. No bico da bota de Grey,

estendeu-se uma onda púrpura; em suas mãos e em seu rosto,

reluzia um reflexo rosado. Revirando-se em meio à leve

resistência da seda, ele distinguia as cores; vermelho, rosa

pálido, rosa-escuro; a densa ebulição dos tons de cereja, de

laranja, rubro-escuros; havia ali nuances de todas as forças e

significados, diversas em sua ilusória afinidade, de modo

semelhante às palavras “encantador”, “magnífico”, “esplêndido” e

“perfeito”; nos vincos, ocultavam-se indícios inacessíveis à língua

da visão, mas a verdadeira cor escarlate demorou muito tempo

para se revelar aos olhos de nosso capitão; o que o lojista trazia

era bom, mas não evocava aquele “sim” claro e firme.

Finalmente, uma cor atraiu a atenção desarmada do comprador;

ele se sentou na poltrona, virado para a janela, puxou a longa

ponta da ruidosa seda, jogou-a em seu colo e, desmoronando,

com o cachimbo nos dentes, ficou contemplativamente imóvel.

Aquela cor perfeitamente pura, como uma corrente escarlate

pela manhã, plena de nobre alegria e de majestade, era

precisamente a cor altiva que Grey procurava. Nela, não havia

nuances misturadas de fogo, pétalas de papoula, jogos de

matizes violeta ou lilás; também não havia azuis nem sombras –

nada que provocasse dúvida. Ela se ruborizava, como um

sorriso, pelo fascínio de um reflexo da alma. Grey ficou tão

pensativo que se esqueceu do dono da loja, que esperava atrás

dele com a tensão de um cão de caça a postos. Cansado de

esperar, o mercador se fez notar farfalhando um pedaço rasgado

de tecido.

– Basta de amostras – disse Grey, levantando-se. – Vou levar esta seda.

– A peça inteira? – perguntou o mercador, duvidando

respeitosamente. Mas Grey olhou para a testa dele, em silêncio,

o que deixou o dono da loja um pouco mais desenvolto. – Nesse

caso, quantos metros?

Grey fez um aceno, pedindo para que esperasse, e calculou a

lápis num papel a quantidade necessária.

– Dois mil metros. – Em dúvida, ele examinou as prateleiras. –

Sim, não mais que dois mil metros.

– Dois? – disse o dono da loja, saltitando convulsivamente,

como uma mola. – Mil? Metros? Peço que o senhor se sente,

capitão. Não deseja dar uma olhada em amostras de tecidos

novos, capitão? Como queira. Aqui estão os fósforos, aqui tem

um excelente tabaco; por gentileza. Dois mil… dois mil por… –

Ele disse o preço, que tinha a mesma relação com o que era

justo que um juramento tem com um simples “sim”, mas Grey

ficou satisfeito, de maneira que nem quis regatear. – É uma seda

extraordinária, a melhor – continuou o lojista –, uma mercadoria

sem comparação. Só aqui o senhor vai encontrá-la.

Quando ele finalmente conteve seu êxtase, Grey combinou com

ele a entrega, assumindo as despesas, pagou a conta e saiu

acompanhado pelo dono da loja com as honras de um imperador

chinês. Enquanto isso, na rua, do lado oposto à loja, um músico

ambulante, com seu tranquilo arco, afinava o violoncelo, fazendo-

o falar num tom triste e bonito; seu companheiro, um flautista,

recobria o canto das cordas com o murmúrio de um assobio

gutural; a simples canção com que eles preenchiam o espaço

aberto, que cochilava em meio ao calor, atingiu os ouvidos de

Grey, e ele imediatamente compreendeu o que deveria fazer a

seguir. No geral, durante todos aqueles dias, ele se encontrava

naquela ditosa elevação da visão da alma da qual podia

perceber, com clareza, todos os indícios e sugestões da realidade; ao ouvir os sons, abafados pelo andar das carruagens,

ele entrou no centro das impressões e pensamentos mais

importantes que, conforme seu caráter, aquela música

provocava, já sentindo por que e como daria certo aquilo que ele

imaginara. Passando pelas travessas, Grey atravessou os

portões da casa em que se realizava a apresentação musical.

Naquele momento, os músicos já se preparavam para ir embora;

o alto flautista, com ar de dignidade abatida, agitava com gratidão

o chapéu na direção das janelas de onde voavam as moedas. O

violoncelo já voltara para baixo do braço de seu dono; este,

enxugando a testa coberta de suor, esperava pelo flautista.

– Ora, mas é você, Zimmer! – disse-lhe Grey, reconhecendo o

violinista que, durante a noite, alegrava, com sua bela música, os

marinheiros que frequentavam a taverna Dinheiro para o Barril. –

Como é que você foi trair o violino?

– Prezadíssimo capitão – replicou Zimmer, com ar satisfeito –,

eu toco tudo que ressoa e range. Na juventude, fui palhaço

musical. Agora, pendo mais para a arte e vejo, com desgosto,

que arruinei um talento fora do comum. É por isso que, graças a

uma avidez tardia, amo os dois de uma só vez: a viola e o violino.

Toco o violoncelo de dia, e o violino, de noite, ou seja, eu meio

que choro, soluço pelo talento arruinado. Não me pagaria um

vinhozinho, hein? O violoncelo é a minha Carmen, e o violino…

– Assol – disse Grey.

Zimmer não ouviu.

– Sim – acenou ele –, um solo de pratos ou desses tubinhos de

cobre é outra coisa. Aliás, o que eu estou dizendo?! Que os

palhaços da arte façam as suas caretas – eu sei que é sempre

no violino e no violoncelo que as fadas descansam.

– E o que é que se esconde no meu “tur-lu-ru”? – perguntou o

flautista, que se aproximava, um rapagão alto com olhos azuis,

de carneiro, e uma barba loira. – Pois, então, diga.

– Depende do quanto você bebeu desde a manhã. Às vezes,

um pássaro, às vezes, os vapores do álcool. Capitão, esse é

Duss, meu associado; eu contei a ele como o senhor esbanja o

ouro quando bebe, e ele ficou apaixonado pelo senhor, a

distância.

– Sim – disse Duss –, eu amo o gesto e a generosidade. Mas

sou astuto, não acredite na minha infame lisonja.

– É o seguinte – disse Grey, rindo. – Tenho pouco tempo, e a

questão é premente. Proponho a vocês um bom dinheiro.

Reúnam uma orquestra, mas não de janotas com pomposas

caras de morto, que, em seu pedantismo musical ou, o que é

pior, na sua gastronomia sonora, esqueceram a alma da música

e calmamente amortecem os palcos com seus ruídos intrincados.

Não. Reúnam gente como vocês, que fazem chorar os corações

simples das cozinheiras e dos criados; reúnam os seus

vagabundos. O mar e o amor não toleram os pedantes. Eu teria

muito prazer em me sentar com vocês e tomaria até mais de uma

garrafa, mas preciso ir. Tenho muitos afazeres. Tomem isso e

bebam em honra à letra A. Se gostarem da minha proposta,

venham à noite até o Segredo; ele está perto do dique principal.

– De acordo! – exclamou Zimmer, sabendo que Grey pagava

como um rei. – Duss, dê os cumprimentos, diga “sim” e gire seu

chapéu, de tanta alegria! O capitão Grey quer se casar!

– Sim – disse simplesmente Grey. – Eu contarei a vocês todos

os detalhes no Segredo. E vocês…

– À letra A! – Duss, dando uma cotovelada em Zimmer, piscou

para Grey. – Mas… há muitas letras no alfabeto! Dê alguma

coisa também para o Z…

Grey deu mais dinheiro. Os músicos foram embora. Então ele

passou no escritório de comissão e deu uma missão secreta em

troca de um bom dinheiro – para ser cumprida com urgência,

dentro de seis dias. No momento em que Grey voltava a seu navio, o agente do escritório já embarcava no vapor. No fim do

dia, trouxeram a seda; cinco veleiros contratados por Grey já

estavam instalados com os marinheiros; Letika ainda não voltara,

e os músicos não haviam chegado; à espera dele, Grey foi

palestrar com Panten.

É preciso observar que Grey navegava com a mesma

composição de tripulantes havia alguns anos. No início, o capitão

surpreendia os marinheiros com caprichos e trajetos

inesperados, paradas – que às vezes duravam meses – nos

lugares menos comerciais e mais despovoados possíveis, mas

pouco a pouco eles se imbuíram dos “greísmos” de Grey. Ele

frequentemente navegava com um só lastro, recusando-se a

aceitar um frete lucrativo só porque não gostava da carga

oferecida. Ninguém conseguia convencê-lo a transportar óleo,

pregos, peças de máquinas e qualquer outra coisa que ficasse

em sombrio silêncio nos porões, evocando a inanimada ideia de

uma enfadonha necessidade. Mas ele levava com gosto frutas,

porcelana, animais, especiarias, chá, tabaco, café, seda,

espécies valiosas de árvores; ébano, sândalo, palmeira. Tudo

isso se devia ao aristocratismo de sua imaginação, que criava

uma atmosfera pitoresca; não era surpreendente que a tripulação

do Segredo, educada, desse modo, no espírito da singularidade,

olhasse com certa arrogância para todas as demais

embarcações, cobertas pela fumaça do lucro trivial. Ainda assim,

dessa vez Grey encontrou uma indagação nas fisionomias; o

mais obtuso dos marinheiros sabia muito bem que não havia

necessidade de fazer reparos no leito de um rio da floresta.

Panten evidentemente transmitiu-lhes a ordem de Grey; quando

ele entrou, seu imediato terminava de fumar o sexto charuto,

vagando pela cabine, tonto com a fumaça e tropeçando nas

cadeiras. A noite ia chegando; pela vigia aberta, assomava uma

trave dourada de luz, na qual se incendiava a aba envernizada do quepe do capitão.

– Está tudo pronto – disse Panten, sombrio. – Se o senhor

quiser, podemos levantar âncora.

– Panten, você deveria me conhecer um pouco melhor –

observou Grey, em tom brando. – Não há mistério algum no que

estou fazendo. Assim que lançarmos as âncoras no fundo do

Liliana, eu contarei tudo, e você não vai mais gastar tantos

fósforos com charutos ruins. Pode ir, levantar ferro.

Panten, sorrindo sem jeito, coçou a sobrancelha.

– É claro que é assim – disse ele. – Aliás, por mim tudo bem.

Quando ele saiu, Grey ficou mais um tempo sentado, imóvel,

olhando para a porta entreaberta, depois foi para seu quarto. Ali,

ele ora ficava sentado, ora deitado; ora prestava atenção ao

ruído do cabrestante, que rolava a ruidosa corrente, e fazia

menção de sair para o castelo de proa, mas de novo mudava de

ideia e voltava à mesa, traçando, com o dedo pelo oleado, uma

veloz linha reta. Uma batida de um punho na porta tirou-o

daquele estado maníaco; ele virou a chave, deixando Letika

entrar. O marinheiro, respirando pesadamente, parou, com o

aspecto de um mensageiro que prevenira a tempo uma

execução.

– “Voe, Letika”, eu disse comigo mesmo – ele começou a falar

velozmente – quando vi, do dique do cabo, o nosso pessoal

dançando ao redor dos cabrestantes, cuspindo nas palmas das

mãos. Eu tenho olhos de águia. E saí mesmo voando; bufei tanto

com o barqueiro que o homem ficou coberto de suor, com a

agitação. Capitão, o senhor queria me deixar na costa?

– Letika – disse Grey, olhando fixamente para seus olhos

vermelhos –, eu não esperava que você chegasse depois da

manhã. Já jogou água fria na nuca?

– Joguei. Não tanto quanto foi posto para dentro, mas joguei.

Tudo foi feito.

– Fale.

– Não vale a pena falar, capitão; eu escrevi tudo aqui. Pegue e

leia. Eu me esforcei muito. Vou-me embora.

– Para onde?

– Vejo pela reprovação em seus olhos que joguei pouca água

fria na nuca.

Ele se virou e saiu, com os estranhos movimentos de um cego.

Grey abriu o papelzinho; o lápis deve ter ficado admirado quando

traçou ali aquelas linhas, que lembravam uma cerca

desengonçada. Letika escreveu o seguinte: “Conforme as

instruções. Depois das cinco horas andei pela rua. Uma casa

com teto cinza, duas janelas de cada lado; ao lado dela, uma

horta. A figura mencionada apareceu duas vezes: um, para

buscar água; dois, para buscar lascas de madeira para o fogão.

Com a chegada da escuridão, penetrei a janela com o olhar, mas

não vi nada, por causa das cortinas”.

Depois, vinham algumas indicações de caráter familiar,

aparentemente obtidas por Letika por meio de uma conversa à

mesa, já que a anotação terminava, de modo um tanto

inesperado, com as palavras: “No cálculo das despesas incluí um

pouco da minha parte”.

Mas, em essência, o relatório falava apenas daquilo que já

sabíamos do primeiro capítulo. Grey colocou o papelzinho sobre

a mesa, assobiou para o marinheiro de quarto e mandou buscar

Panten, mas, em vez do imediato, apareceu o mestre Atwood,

puxando as mangas arregaçadas.

– Estamos atracados no dique – disse ele. – Panten me

mandou para saber o que o senhor deseja. Ele está ocupado: foi

surpreendido por umas pessoas com cornetas, tambores e outros

violinos. O senhor os chamou aqui para o Segredo? Panten está

pedindo para o senhor ir até lá. Ele está com a cabeça confusa.

– Sim, Atwood – disse Grey –, eu chamei os músicos, mesmo; pode ir, diga para eles ficarem no alojamento da tripulação, por

enquanto. Depois veremos como acomodá-los. Atwood, diga a

eles e à tripulação que eu irei ao convés daqui a um quarto de

hora. Que se reúnam; você e Panten também devem me escutar,

é claro.

Atwood levantou a sobrancelha esquerda, como um gatilho,

ficou um pouco junto à porta, de lado, e saiu. Grey passou

aqueles dez minutos com o rosto coberto pelas mãos; ele não

estava se preparando para nada nem calculando nada, só queria

ficar mentalmente calado. Enquanto isso, todos já o esperavam,

com impaciência e uma curiosidade cheia de conjecturas. Ele

saiu e viu, naqueles rostos, a expectativa de coisas incríveis,

mas, como ele mesmo achava plenamente natural o que estava

sendo realizado, a tensão das outras almas refletiu-se nele com

uma leve irritação.

– Não é nada de mais – disse Grey, sentando-se no alçapão da

ponte. – Permaneceremos na foz do rio até termos trocado todo

o cordame. Vocês viram que foi trazida uma seda vermelha; com

ela, sob a direção do mestre veleiro Blent, serão confeccionadas

novas velas para o Segredo. Depois partiremos, mas não direi

para onde; de todo modo, não é longe daqui. Vou buscar a

esposa. Ela ainda não é minha esposa, mas será. Preciso de

velas escarlates, para que, de longe, como foi combinado com

ela, ela nos perceba. É só isso. Como podem ver, não há nada

de misterioso aqui. E basta com isso.

– Sim – disse Atwood, vendo, pelos rostos sorridentes dos

marinheiros, que eles estavam agradavelmente desconcertados

e não se atreviam a falar. – Então é isso, capitão… É claro que

não cabe a nós julgar a esse respeito. Será como o senhor

desejar. Eu o felicito.

– Obrigado! – Grey apertou com força a mão do mestre, mas

este, fazendo um esforço extraordinário, respondeu com um aperto tal que o capitão cedeu. Depois disso, todos se

aproximaram, trocando uns com os outros olhares de carinho

acanhado e resmungando felicitações. Ninguém gritou nem fez

barulho – os marinheiros sentiam algo não totalmente simples

nas palavras entrecortadas do capitão. Panten suspirou, aliviado,

e animou-se – o peso de sua alma se esvaíra. Um carpinteiro

naval ficou insatisfeito com alguma coisa; depois de segurar, com

indolência, a mão do capitão por um instante, ele perguntou, em

tom sombrio:

– Como é que o senhor enfiou isso na cabeça, capitão?

– Como um golpe do seu machado – disse Grey. – Zimmer!

Mostre sua criançada.

O violinista, batendo nas costas dos músicos, empurrou para a

frente sete pessoas vestidas de maneira extremamente

desleixada.

– Aqui estão – disse Zimmer. – Esse é o trombone; ele não

toca, mas dispara, como um canhão. Esses dois rapazes

imberbes são as trombetas; quando começam a tocar, logo dá

vontade de guerrear. Depois, o clarinete, o cornetim de pistões e

o segundo violino. Todos eles são mestres em abraçar o ligeiro

primeiro violino, ou seja, a mim. E ali está o grande senhor de

nosso alegre ofício: Fritz, o baterista. Os bateristas geralmente

têm um ar desiludido, sabe, mas esse toca com dignidade, com

entusiasmo. No tocar dele há algo franco e direto, como suas

baquetas. Então está tudo feito, capitão Grey?

– Magnífico – disse Grey. – Todos vocês receberão um lugar no

porão, que dessa vez, portanto, estará carregado com diversos

scherzi, adágios e fortíssimos. Podem ir. Panten, tirem as

amarras, zarpem. Vou rendê-lo daqui a duas horas.

Ele não percebeu aquelas duas horas, já que elas se passaram

com aquela mesma música interior que não deixava sua

consciência, como o pulso não deixa as artérias. Ele pensava em uma só coisa, queria uma só coisa, aspirava a uma só coisa.

Homem de ação, ele se adiantava mentalmente ao curso dos

acontecimentos, lamentando apenas não poder movê-los de

maneira tão simples e ligeira como num jogo de damas. Nada em

sua aparência tranquila manifestava a tensão de seus

sentimentos, cujo ressoar, semelhante ao ressoar de um enorme

sino que bate acima da cabeça, voava por todo o seu ser num

estrondoso gemido nervoso. Isso finalmente levou-o ao ponto de

começar a contar mentalmente: “Um… dois… trinta…”, e assim

por diante, até ele dizer “mil”. Esse exercício surtiu efeito: ele

finalmente foi capaz de olhar de fora todos os empreendimentos.

Nesse ponto, ele ficou um pouco surpreso com o fato de que não

podia imaginar a Assol interior, já que nem conversou com ela.

Tinha lido em algum lugar que era possível, ainda que de

maneira vaga, compreender uma pessoa se, imaginando-se

como essa pessoa, copiasse a expressão de seu rosto. Os olhos

de Grey já tinham começado a assumir uma expressão estranha,

que não lhe era peculiar, e os lábios sob os bigodes, a formar um

sorriso fraco e dócil, quando, voltando a si, ele caiu na

gargalhada e saiu para render Panten.

Estava escuro. Panten, levantando a gola da jaqueta,

caminhava junto à bússola, dizendo ao timoneiro: “Bombordo, um

quarto do rumo; bombordo. Pare: mais um quarto”. O Segredo

avançava com metade das velas, com vento favorável.

– Sabe? – disse Panten a Grey. – Estou contente.

– Com o quê?

– Com o mesmo que o senhor. Entendi tudo. Aqui, na ponte. –

Ele deu uma piscadela astuta, dando luz ao sorriso com o fogo

do cachimbo.

– Pois então – disse Grey, subitamente adivinhando o que se

passava. – O que é que você entendeu?

– O melhor método de fazer contrabando – sussurrou Panten. – Qualquer um pode ter as velas que quiser. O senhor tem uma

cabeça genial, Grey!

– Pobre Panten! – disse o capitão, sem saber se se irritava ou

se ria. – A sua conjectura é sagaz, mas desprovida de qualquer

fundamento. Vá dormir. Dou minha palavra que você está

equivocado. Estou fazendo o que eu disse.

Ele mandou-o dormir, verificou o curso e sentou-se. Agora nós

o deixaremos, pois ele precisa ficar sozinho.