Velas Escarlates

Aleksandr Grin · Capítulo 3 de 7

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Velas Escarlates

O alvorecer

 

O jorro de espuma lançado pela popa do navio de Grey, o

Segredo, cruzava o oceano num traço branco e extinguia-se no

brilho das luzes noturnas de Lisse. O navio parou no

ancoradouro próximo ao farol.

O Segredo passou dez dias descarregando tussor, café e chá;

o décimo primeiro dia a tripulação passou na costa, em repouso

e nos vapores do vinho; no décimo segundo dia, Grey ficou

perdidamente melancólico, sem nenhum motivo, sem

compreender aquela melancolia.

Ainda de manhã, mal tendo acordado, ele já sentiu que aquele

dia começara com uma luz negra. Ele se vestiu macambúzio,

desjejuou sem vontade, esqueceu-se de ler o jornal e ficou muito

tempo fumando, mergulhado no mundo indizível de uma tensão

vã; em meio a palavras que surgiam vagamente, perambulavam

desejos não reconhecidos, que se aniquilavam mutuamente com

igual esforço. Então ele se pôs ao trabalho.

Acompanhado pelo mestre, Grey vistoriou o navio, deu ordem

de apertar a enxárcia, afrouxar o gualdrope, limpar os escovéns,

trocar a bujarrona, alcatroar o convés, limpar a bússola, abrir,

ventilar e varrer o porão. Mas o afazer não distraiu Grey. Pleno

de uma atenção alarmada quanto à tristeza do dia, ele o

atravessou irritadiço e aflito: era como se alguém o chamasse, mas ele se esqueceu de quem era e onde estava.

No fim da tarde, ele se acomodou na cabine, pegou um livro e

passou muito tempo debatendo com o autor, fazendo, nas

margens, observações de caráter paradoxal. Por um tempo,

divertiu-se com aquele jogo, com aquela conversa entre ele e os

mortos, que reinavam em seus túmulos. Depois, pegando o

cachimbo, ele afundou numa fumaça azulada, vivendo em meio

aos arabescos espectrais que surgiam naquelas camadas

movediças.

O tabaco é terrivelmente poderoso; como o óleo derramado na

galopante rebentação das ondas aquieta sua fúria, também

assim é o tabaco: atenuando a excitação dos sentimentos, ele

faz com que eles desçam alguns tons; passam a soar de modo

mais harmonioso e musical. Por isso, a melancolia de Grey,

perdendo, afinal, depois de três cachimbos, seu sentido ofensivo,

tornou-se um alheamento contemplativo. Aquele estado durou

ainda cerca de uma hora; quando a bruma espiritual

desapareceu, Grey voltou a si, quis mover-se e saiu para o

convés. Era plena madrugada; ao redor do navio, no sono da

água negra, dormitavam as estrelas e as luzes das lanternas dos

mastros. O ar, tépido como a face, cheirava a mar. Grey,

erguendo a cabeça, entrecerrou os olhos na direção das brasas

douradas das estrelas; instantaneamente, através das milhas

exorbitantes, a agulha ígnea de um distante planeta penetrou em

suas pupilas. O ruído surdo da cidade noturna alcançava o

ouvido, vindo das profundezas do golfo; às vezes, com o vento,

pela sensível água, vinha voando uma frase da costa, como se

tivesse sido dita no convés; ressoando com clareza, ela se

extinguia no ranger do cordame; no castelo de proa, irrompeu um

fósforo, iluminando dedos, olhos redondos e bigodes. Grey

assobiou; o fogo do cachimbo moveu-se e flutuou em sua

direção; logo o capitão viu, em meio às trevas, as mãos e o rosto do marinheiro de quarto.

– Avise Letika – disse Grey – que ele irá comigo. E que leve as

varas.

Ele desceu à chalupa, onde esperou por uns dez minutos.

Letika, um rapaz ligeiro e embusteiro, batendo estrondosamente

os remos contra o costado, entregou-os a Grey; depois, ele

mesmo desceu, ajeitou os toletes e meteu o saco com os

mantimentos na popa da chalupa. Grey sentou-se ao leme.

– Aonde deseja ir, capitão? – perguntou Letika, girando o barco

com o remo direito.

O capitão ficou em silêncio. O marinheiro sabia que, naquele

silêncio, não era permitido inserir palavras e, por isso, depois de

também ficar um pouco em silêncio, começou a remar com força.

Grey tomou a direção do mar aberto, depois se pôs a seguir a

margem esquerda. Para ele, tanto fazia que rumo tomaria. O

leme murmurava de modo surdo; os remos retiniam e

marulhavam; todo o restante era mar e silêncio.

Ao longo do dia, uma pessoa deve atentar para uma

quantidade tão grande de pensamentos, impressões, falas e

palavras que tudo isso bastaria para compor mais de um livro

grosso. O rosto do dia adquire determinada expressão, mas,

naquele dia, foi em vão que Grey observou aquele rosto. Em

seus traços vagos, brilhou um daqueles sentimentos que são

muitos, mas aos quais não é dado um nome. Chame-os como

for, mas eles permanecem para sempre fora das palavras e até

dos conceitos, de maneira semelhante à inspiração de um

aroma. Grey estava agora sob o domínio de um desses

sentimentos; a bem da verdade é que ele poderia dizer: “Estou

esperando, estou vendo, logo saberei…”, mas mesmo essas

palavras não passariam de desenhos isolados em relação a um

projeto arquitetônico. Nesses sopros havia ainda a força de uma

luminosa incitação.

À esquerda de onde eles navegavam, como uma ondulada

condensação das trevas, delineava-se a costa. Sobre o vidro

vermelho das janelas, rodopiavam as centelhas das chaminés;

era Caperna. Grey ouviu uma discussão e latidos. As luzes do

vilarejo lembravam a portinhola de um fogão, ardendo pelos

buraquinhos, através dos quais se enxergavam os carvões em

brasa. À direita, estava o oceano, nítido como a presença de

alguém dormindo. Passando por Caperna, Grey virou em direção

à costa. Ali, a água ia levando o barco de mansinho; acendendo

a lanterna, ele viu os buracos de uma escarpa e suas saliências

superiores, que pendiam; gostou daquele lugar.

– É aqui que nós vamos pescar – disse Grey, batendo no ombro

do remador.

O marinheiro deu um resmungo indefinido.

– É a primeira vez que eu navego com um capitão assim – ele

murmurou. – É um capitão capaz, mas diferente. Um capitão

cheio dos embaraços. Pensando bem, eu gosto dele.

Cravando o remo no lodo, amarrou nele o barco, e ambos

foram para o alto, trepando pelas pedras que iam saltando por

baixo dos joelhos e dos cotovelos. A partir da escarpa, estendia-

se um matagal. Ouviu-se a batida de um machado, talhando um

tronco seco; depois de derrubar a árvore, Letika fez uma fogueira

na escarpa. Moveram-se as sombras e a chama refletida pela

água; na escuridão que recuava, iluminaram-se a grama e os

ramos; acima da fogueira, retorcido pela fumaça,

resplandecendo, o ar trepidava.

Grey sentou-se junto à fogueira.

– Tome – disse ele, estendendo a garrafa –, beba, meu amigo

Letika, à saúde de todos os abstêmios. Aliás, você pegou a de

gengibre, não a de quinino.

– Desculpe, capitão – respondeu o marinheiro, tomando fôlego.

– Deixe-me mordiscar isso aqui… – Ele roeu de uma só vez metade do frango e, puxando da boca a asinha, continuou: – Eu

sei que o senhor gosta da de quinino. Só que estava escuro, e eu

estava com pressa. É que o gengibre endurece a pessoa,

entende? Quando eu preciso brigar, bebo a de gengibre.

Enquanto o capitão comia e bebia, o marinheiro observou-o de

soslaio; depois, não conseguindo conter-se, disse:

– É verdade o que dizem, capitão, que o senhor de nascença é

de uma família nobre?

– Isso não interessa, Letika. Pegue a vara e pesque, se quiser.

– E o senhor?

– Eu? Não sei. Talvez. Mas… depois.

Letika desenrolou a vara, recitando seus versinhos, no que era

mestre, para grande admiração dos tripulantes:

– Uma vara bem comprida eu montei, com cordão, madeira e

fio; nela, um ganchinho eu botei, soltando um longo assobio. –

Depois ele chacoalhou com os dedos a caixa de minhocas. –

Pela terra, passeava a minhoquinha, contente, feliz com sua vida;

agora amarrada na ponta da linha, para o bagre vai virar comida.

Finalmente, ele partiu, cantando:

– A noite é calma, a água é esplendorosa, tremei, ó esturjões,

os arenques estão em polvorosa, Letika vai pescar aos montões!

Grey deitou-se junto à fogueira, olhando para o fogo refletido na

água. Ele pensava, mas sem a participação da vontade; nesse

estado, o pensamento, retendo distraidamente o ambiente,

enxerga-o de maneira confusa; o pensamento passa a galope,

como um cavalo em meio a uma cerrada multidão, esmagando,

empurrando e parando; o vazio, a confusão e a demora revezam-

se em sua companhia. Ele vaga pela alma das coisas; da forte

inquietação, ele se apressa em direção às alusões dissimuladas;

rodopia pela terra e pelo céu, conversa vivaz, com figuras

imaginárias, abafa e enfeita as recordações. Nesse movimento

nebuloso, tudo é vivo e expressivo e tudo é desconexo, como um delírio. E com frequência sorriu uma consciência que descansa,

ao ver, por exemplo, que, em meio à reflexão sobre o destino,

uma imagem completamente imprópria rende uma visita: um

raminho que se quebrou dois anos atrás. Assim pensava Grey

junto à fogueira, mas estava “em algum lugar”, não ali.

O cotovelo com que ele se apoiava, segurando a cabeça com a

mão, ficou úmido e adormecido. As estrelas reluziram pálidas; as

trevas se fortaleceram com a tensão que antecede o alvorecer. O

capitão começou a pegar no sono, mas não percebeu. Ficou com

vontade de beber e esticou-se em direção ao saco, desatando-o

já em sonho. Depois, ele parou de sonhar; as duas horas

seguintes, para Grey, não foram mais longas que aqueles

segundos ao longo dos quais ele ficou com a cabeça inclinada

sobre a mão. Durante esse tempo, Letika apareceu junto à

fogueira duas vezes, fumou e, por curiosidade, espiou dentro da

boca do peixe que ele tinha pescado, para ver o que havia ali.

Mas ali, evidentemente, não havia nada.

Ao despertar, Grey se esqueceu, por um instante, de como

tinha parado naquele lugar. Com assombro, ele viu o alegre

brilho da manhã, a encosta em meio aos vistosos ramos e a

ardente imensidão azul; acima do horizonte, mas, ao mesmo

tempo, também acima dos seus pés, pendiam as folhas de uma

aveleira. Na parte de baixo da encosta, dando a impressão de

estar bem debaixo das costas de Grey, a ressaca murmurava

baixinho. Brotando de uma folha, uma gota de orvalho derramou-

se em seu rosto sonolento com uma fria palmada. Ele se

levantou. Por toda a parte, triunfava a luz. Os tições resfriados da

fogueira agarravam-se à vida num delicado fio de fumaça. Seu

cheiro conferia um selvagem encanto ao prazer de respirar o ar

da vegetação da floresta.

Letika não estava lá; tinha se entusiasmado; depois de

transpirar, ele pescava com a empolgação de um jogador inveterado. Grey saiu do matagal para o arbusto que se

espalhava pelo declive da colina. A relva fumegava e ardia; as

úmidas flores tinham o aspecto de crianças banhadas à força

com água fria. O mundo verde respirava com uma infinidade de

minúsculas bocas, estorvando Grey enquanto ele passava em

meio à sua jubilosa estreiteza. O capitão abriu caminho até um

local aberto, coberto por uma grama colorida, e viu ali uma jovem

moça adormecida.

Lentamente, ele afastou com a mão um galho e parou, com a

sensação de ter feito um perigoso achado. A menos de cinco

passos, enrodilhada, com uma perninha encolhida e a outra

esticada, estava deitada Assol, extenuada, com a cabeça

apoiada nos braços confortavelmente dobrados. Seus cabelos

estavam postos em desordem; junto ao pescoço, um botão tinha

se soltado, abrindo uma cavidade branca; a saia estendida

deixava à mostra os joelhos; os cílios dormiam sobre as faces, à

sombra da delicada e saliente têmpora, semicerrada por uma

mecha escura; o mindinho da mão direita, que jazia debaixo da

cabeça, estava curvado em direção à nuca. Grey ficou de

cócoras, espiando o rosto da moça debaixo e sem suspeitar que,

assim, lembrava um fauno de um quadro de Arnold Böcklin.

Talvez, em outras circunstâncias, essa moça fosse percebida

por ele somente com os olhos, mas, naquele momento, ele a viu

de outra maneira. Tudo se pôs em movimento, tudo sorriu dentro

dele. É claro que ele não sabia quem ela era, nem o nome dela,

muito menos o motivo pelo qual ela tinha pegado no sono na

orla, mas aquilo o deixava muito satisfeito. Ele adorava os

quadros sem explicações e sem assinaturas. A impressão

causada por um quadro como esse é incomparavelmente mais

forte; seu conteúdo, não unido por palavras, torna-se ilimitado,

consolidando todas as conjecturas e todos os pensamentos.

A sombra da folhagem aproximava-se cada vez mais dos troncos, e Grey continuava agachado na mesma pose pouco

confortável. Tudo na moça dormia: dormiam seus cabelos

escuros, o vestido e as dobras do vestido; até a grama ao redor

de seu corpo parecia ter cochilado, por compaixão. Quando a

impressão se tornou plena, Grey entrou em sua cálida onda, que

o lavou, e flutuou com ela. Por muito tempo Letika gritava:

“Capitão, onde está o senhor”, mas o capitão não o ouvia.

Quando ele finalmente se levantou, a propensão ao

extraordinário apanhou-o de surpresa, com a firmeza e a

inspiração de uma mulher irritada. Contemplativamente cedendo

a ela, ele tirou do dedo um anel antigo e caro, refletindo, não sem

motivo, que, com aquilo, talvez estivesse sugerindo à vida algo

essencial, semelhante à ortografia. Ele cuidadosamente deitou o

anel no pequeno mindinho, que branquejava por baixo da nuca.

O mindinho moveu-se com impaciência e deixou-o cair. Depois

de olhar mais uma vez para aquele rosto em descanso, Grey

virou-se e viu, em meio aos arbustos, as sobrancelhas do

marinheiro, erguidas bem no alto. Letika, com a boca

escancarada, olhava para o passatempo de Grey com o mesmo

espanto com que, certamente, Jonas olhou para a goela de sua

mobiliada baleia.

– Ah, é você, Letika! – disse Grey. – Olhe para ela. É bonita ou

não é?

– Uma magnífica obra de arte! – gritou num sussurro o

marinheiro, que adorava expressões livrescas. – Considerando

as circunstâncias, há algo auspicioso. Eu peguei quatro moreias

e mais outro, gordo como uma bola.

– Silêncio, Letika. Vamos embora daqui.

Eles foram em direção aos arbustos. Deviam agora seguir até o

barco, mas Grey demorou-se, observando a amplidão da orla

baixa, de onde, acima da vegetação e da areia, manava a

fumaça matutina das chaminés de Caperna. Naquela fumaça, ele novamente viu a moça.

Então, ele deu a volta, resoluto, descendo ao longo do declive;

o marinheiro, sem perguntar o que acontecera, foi atrás; ele

sentia que outra vez veio aquele silêncio obrigatório. Já próximo

às primeiras construções, Grey de repente disse:

– Consegue precisar, Letika, com o seu olho treinado, onde fica

a taverna por aqui?

– Deve ser aquele telhado preto ali – ponderou Letika –, mas,

pensando bem, também pode não ser ele.

– O que é que tem de diferente nesse telhado?

– Eu mesmo não sei, capitão. É nada mais que a voz do

coração.

Eles se aproximaram da casa; era de fato a taverna de

Menners. Pela janela aberta, via-se, em cima da mesa, uma

garrafa; ao lado dela, a mão suja de alguém ordenhava uns

bigodes agrisalhados.

Embora fosse cedo, no salão comum da pequena taverna

estavam alojadas três pessoas. Perto da janela, estava sentado

um carvoeiro, o proprietário dos ébrios bigodes que já

mencionamos antes; entre o bufê e a porta interna do salão,

numa mesa com ovos fritos e cerveja, estavam instalados dois

pescadores. Menners, um rapaz jovem e comprido, com um rosto

sardento e enfadonho e aquela particular expressão de astuta

desenvoltura nos olhos míopes que é própria dos vendilhões em

geral, enxugava a louça atrás do balcão. No chão sujo, jazia a

moldura ensolarada da janela.

Grey mal tinha entrado naquela faixa de luz fumarenta e

Menners, saudando-o com reverência, saiu de seu abrigo. Ele

logo adivinhou que Grey era um verdadeiro capitão, uma

categoria de hóspede raramente vista por ele. Grey pediu rum.

Cobrindo a mesa com uma toalha, amarelada pelo rebuliço

humano, Menners trouxe uma garrafa, depois de dar uma lambida preventiva na pontinha do rótulo que se descolava.

Depois, voltou para detrás do balcão, olhando atentamente ora

para Grey, ora para o prato do qual ele desprendia, com a unha,

algo que tinha grudado ali.

Enquanto Letika, pegando o copo com ambas as mãos,

cochichava discretamente com ele, olhando para a janela, Grey

chamou Menners. Khin, todo satisfeito, sentou-se na pontinha da

cadeira, lisonjeado com aquele tratamento e lisonjeado

justamente porque ele fora expresso com um simples aceno do

dedo de Grey.

– É claro que o senhor conhece todos os moradores daqui –

falou calmamente Grey. – Tenho interesse pelo nome de uma

jovem moça de tranças, do vestido com florzinhas cor-de-rosa,

cabelos castanho-escuros e baixa estatura, entre dezessete e

vinte anos. Eu a encontrei não muito longe daqui. Qual é o nome

dela?

Ele disse aquilo com a dura simplicidade de uma força que não

permitia esquivar-se do tom estabelecido. Internamente, Khin

Menners revirou-se e deu até um leve risinho, mas,

externamente, submeteu-se àquele tipo de tratamento. Aliás,

antes de responder, ele ficou um tempo em silêncio, unicamente

pelo vão desejo de adivinhar do que aquilo se tratava.

– Hum! – disse ele, erguendo os olhos para o teto. – Deve ser a

“Assol do Navio”, não pode ser outra pessoa. Ela é amalucada.

– É mesmo? – disse Grey em tom indiferente, dando um grande

gole. – Como é que isso aconteceu?

– Se quer saber, peço que escute. – E Khin contou a Grey de

como, sete anos antes, a menina conversou na praia com um

compilador de canções. É claro que aquela história, a partir do

momento em que um mendigo confirmou sua existência naquela

mesma taverna, ganhou contornos de um mexerico grosseiro e

banal, mas a essência permaneceu intocada. – Desde então ela é chamada assim – disse Menners –, de “Assol do Navio”.

Grey olhou maquinalmente para Letika, que continuava

silencioso e discreto, depois seus olhos dirigiram-se para a

estrada poeirenta que passava junto à taverna, e ele sentiu como

que um golpe – um golpe simultâneo no coração e na cabeça.

Pela estrada, com o rosto virado para ele, ia aquela mesma Assol

do Navio a que Menners acabara de referir-se de modo clínico.

Os traços admiráveis de seu rosto, que lembravam o mistério de

palavras indeléveis e emocionantes, ainda que simples, surgiam

agora diante dele à luz de seu olhar. O marinheiro e Menners

estavam sentados de costas para a janela, mas, para que eles

não se virassem acidentalmente, Grey teve a coragem de desviar

seu olhar na direção dos olhos rubros de Khin. Depois de ver os

olhos de Assol, dissipou-se toda a estagnação do relato de

Menners. Enquanto isso, sem suspeitar de nada, Khin continuou:

– Devo ainda informar ao senhor que o pai dela é um

verdadeiro canalha. Ele afogou o meu papai como se fosse um

gato qualquer, o Senhor que o perdoe. Ele…

Foi interrompido por um berro inesperado e selvagem, vindo de

trás. Revirando terrivelmente os olhos, o carvoeiro, sacudindo o

torpor da embriaguez, de repente rugiu com uma cantoria, e de

modo tão feroz, que todos estremeceram:

– Cesteiro, cesteiro,

Esfole-nos por umas cestinhas!…

– De novo encheu o bote, seu maldito! – gritou Menners. – Fora

daqui!

– … Mas tenha medo de parar

Nas nossas Palestinas!… – uivou o carvoeiro, como se não

houvesse nada, afogando os bigodes no copo que ia entornando.

Khin Menners encolheu os ombros, indignado.

– É um rebotalho, e não um homem – disse ele com a horrenda

dignidade de um sovina. – Toda vez é essa história!

– O senhor não pode contar mais nada? – perguntou Grey.

– Eu? Pois eu estou dizendo ao senhor que o pai é um canalha.

Por causa dele, senhor, eu fiquei órfão e, ainda criança, precisei

ganhar por conta própria o meu frágil sustento…

– Está mentindo – disse inesperadamente o carvoeiro. – Está

mentindo de um jeito tão torpe e afetado que eu até fiquei sóbrio.

– Khin nem teve tempo de abrir a boca, e o carvoeiro já se dirigia

a Grey: – Ele mente. O pai dele também mentia; até a mãe

mentia. A raça deles é assim. O senhor pode ficar tranquilo, que

ela é tão saudável quanto nós dois. Eu conversava com ela. Ela

andou na minha carroça umas oitenta e quatro vezes, talvez um

pouco menos. Quando a moça voltava a pé da cidade e eu ia

vendendo o meu carvão, eu sempre deixava a moça subir.

Deixava que subisse. Eu estou dizendo que ela tem uma cabeça

boa. Isso logo se vê. É compreensível que ela não troque nem

duas palavrinhas com você, Khin Menners. Mas eu, meu senhor,

no meu livre ofício de carvoeiro, desprezo os julgamentos e os

boatos. Ela fala como se fosse grande, mas a conversa dela é

extravagante. Você fica ouvindo, e parece que é tudo igual ao

que nós dois falaríamos; com ela até que é o mesmo, só que não

é exatamente igual. Por exemplo, uma vez começou uma

discussão sobre o ofício dela. “Eu vou lhe dizer o seguinte…”, ela

disse, segurando o meu ombro como uma mosca segura um

campanário. “O meu trabalho não é enfadonho, só que eu

sempre quero inventar alguma coisa especial”, ela diz. “Eu queria

dar um jeito de fazer com que, no meu tabuleiro, o barco

navegasse sozinho, e os remadores remassem de verdade;

depois eles atracariam na costa, largariam as amarras e iriam até

a costa para comer, direitinho, como se estivessem vivos.” Eu dei

risada daquilo, pois eu achei mesmo aquilo engraçado. Eu disse:

“Bom, Assol, é que o seu trabalho é assim, e é por isso que o seu

pensamento é desse jeito, mas olhe ao seu redor: todo mundo trabalha como se estivesse numa briga”. “Não”, ela disse, “eu sei

o que eu sei. Quando um pescador pega um peixe, ele pensa

que pegou um peixe enorme, que ninguém nunca pegou”. “Bom,

mas e eu?” “Você?”, ela riu. “Quando você enche a cesta de

carvão, com certeza pensa que ela vai florescer.” Veja só que

palavras ela me disse! Naquele momento, confesso que tive uma

comichão de olhar dentro da cesta vazia, e alguma coisa entrou

no meu olho, como se fossem os brotos de um galho; esses

brotos rebentaram, a cestinha ficou salpicada de flores e depois

tudo sumiu. Até fiquei um tiquinho sóbrio! Mas Khin Menners

mente e não aceita dinheiro; eu o conheço bem!

Considerando que a conversa tinha se tornado uma flagrante

ofensa, Menners lançou um olhar penetrante ao carvoeiro e

escondeu-se atrás do balcão, de onde indagou em tom amargo:

– O senhor deseja mais alguma coisa?

– Não – disse Grey, pegando o dinheiro –, nós já estamos indo

embora. Letika, você vai ficar aqui, vai voltar à noite e ficar

quieto. Vai descobrir tudo que puder e depois vai me informar.

Entendeu?

– Boníssimo capitão – disse Letika com certa intimidade,

provocada pelo rum –, só um surdo não entenderia isso.

– Excelente. Lembre-se também de que, em qualquer situação

que possa surgir, você não pode falar de mim, nem mesmo citar

meu nome. Adeus!

Grey saiu. A partir daquele momento, ele não foi mais

abandonado pela sensação de uma descoberta assombrosa,

semelhante ao almofariz de pólvora de Berthold Schwarz2 – um

daqueles desmoronamentos da alma debaixo dos quais o fogo

emerge, fulgurando. O espírito da ação imediata tomou conta

dele. Ele só voltou a si e organizou os pensamentos quando

estava dentro do barco. Rindo, ele pôs a mão com a palma para

cima, em direção ao sol escaldante, como tinha feito certa vez quando era menino, na adega de vinhos; depois, ele zarpou e

começou a remar depressa em direção ao porto.

 

2 Lendário monge franciscano que teria descoberto a pólvora no século XIV. (N.T.)