Velas Escarlates

Aleksandr Grin · Capítulo 4 de 7

Páginas do PDF

Velas Escarlates

Na véspera

 

Na véspera daquele dia e sete anos depois de Egl, o

compilador de canções, ter contado à menina, à o conto do navio

de Velas Escarlates, Assol, numa de suas visitas semanais à loja

de brinquedo, voltou para casa desolada, com o rosto

entristecido. Ela trouxe de volta a sua mercadoria. Estava tão

amargurada que não conseguiu falar de uma vez e, apenas

depois de ver, pelo rosto alarmado de Longren, que ele esperava

algo consideravelmente pior que a realidade, começou a contar,

passando o dedo pelo vidro da janela ao lado da qual ela estava

em pé, observando, distraída, o mar.

Dessa vez, o dono da loja de brinquedos começou abrindo o

livro contábil e mostrando-lhe a dívida que eles tinham. Ela

estremeceu ao ver o vultoso número de três dígitos. “Isso é o que

vocês receberam desde dezembro”, disse o comerciante. “Agora

olhe aqui quanto foi vendido.” E ele pôs o dedo em outra cifra,

essa de dois dígitos.

– Foi lamentável e humilhante olhar aquilo. Pelo rosto dele, eu

vi que estava grosseiro e bravo. Eu sairia correndo com prazer,

mas juro que não tinha forças, de tanta vergonha. E ele começou

a falar: “Não compensa mais para mim, querida. Agora estão na

moda os artigos importados. Todas as lojas estão cheias deles.

Esse tipo de mercadoria ninguém compra mais”. Foi o que ele disse. Ele ainda falou muitas outras coisas, mas eu me atrapalhei

toda e esqueci. Deve ter ficado com pena de mim, porque ele me

sugeriu passar no Bazar Infantil e na Lâmpada de Aladim.

Depois de dizer o mais importante, a moça virou a cabeça,

olhando timidamente para o velho. Longren estava sentado

cabisbaixo, os dedos das mãos entrelaçados entre os joelhos,

nos quais ele se apoiava com os cotovelos. Sentindo o olhar, ele

ergueu a cabeça e suspirou. Vencendo o estado de espírito

lúgubre, a moça aproximou-se correndo dele, ajeitou-se para se

sentar ao lado dele e, enfiando sua leve mão por baixo da manga

de couro da jaqueta do pai, rindo e olhando para baixo, para o

rosto dele, continuou, com animação fingida:

– Tudo bem, está tudo bem, continue escutando, por favor.

Então eu fui. Bom, aí eu cheguei nessa loja enorme, muitíssimo

assustadora; havia um monte de gente lá. Fui empurrada; porém,

eu me livrei e fui até um homem negro de óculos. Eu não me

lembro de nada do que eu lhe disse; no fim, ele deu um sorriso,

revirou a minha cesta, olhou alguma coisa, depois embrulhou de

novo, como estava, num lenço, e devolveu.

Longren ouviu, com ar bravo. Era como se ele visse sua filha,

perplexa em meio a uma rica multidão, junto a um balcão coberto

por uma mercadoria valiosa. O asseado homem de óculos

explicou, com ar superior, que iria à falência se começasse a

vender os simplórios artigos de Longren. Com desdém e

agilidade, ele colocou diante dela, sobre o balcão, modelos

dobráveis de edifícios e pontes ferroviárias; precisos automóveis

em miniatura, jogos elétricos, aeroplanos e motores. Tudo aquilo

cheirava a tinta e escola. A julgar por todas as palavras dele, a

conclusão era que, agora, as crianças só imitavam, nos jogos, o

que os adultos fazem.

Assol esteve na Lâmpada de Aladim e em mais duas lojas, mas

não conseguiu nada.

Ao terminar o relato, eles foram jantar; depois de comer e de

beber um copo de café forte, Longren disse:

– Já que não tivemos sorte, precisamos procurar. Talvez eu

peça para voltar ao serviço, no Fitzroy ou no Palermo. Eles estão

certos, é claro – continuou ele, meditativo, pensando nos

brinquedos. – Agora, as crianças não brincam, elas estudam.

Elas estudam, estudam, e nunca começam a viver. É assim

mesmo, mas na verdade é uma pena, é uma pena. Será que

você consegue viver sem mim pelo tempo de uma viagem? É

inconcebível deixar você sozinha.

– Eu também poderia servir, junto com você; no bufê, digamos.

– Não! – Longren ressaltou aquela palavra com um golpe da

palma de sua mão contra a mesa, que estremeceu. – Enquanto

eu estiver vivo, você não vai servir. Aliás, temos tempo para

pensar.

Ele se calou, carrancudo. Assol instalou-se ao seu lado, no

canto do banquinho; ele viu, de lado, sem virar a cabeça, que ela

se esforçava para consolá-lo, e por pouco não sorriu. Mas sorrir

significava espantar e desnortear a moça. Ela, dizendo algo

consigo mesma, afagou os cabelos dele, emaranhados e

grisalhos, beijou-o nos bigodes e, enfiando seus dedos pequenos

e fininhos nas hirsutas orelhas do pai, disse: “Bom, agora você

não ouve que eu amo você”. Enquanto ela o arrumava, Longren

ficou sentado, todo enrugado, como alguém que teme respirar

fumaça, mas, ao ouvir as palavras dela, ele deu uma volumosa

gargalhada.

– Minha querida – disse ele simplesmente e, dando uma

palmadinha na face da moça, foi para a orla olhar o barco.

Assol ficou algum tempo imersa em pensamentos, de pé no

meio da sala, oscilando entre o desejo de render-se a uma

tristeza silenciosa e a necessidade dos afazeres domésticos;

mais tarde, depois de lavar a louça, ela examinou no armário os restos dos mantimentos. Ela não pesou e não mediu nada, mas

viu que a farinha não chegaria até o fim da semana, que dava

para ver o fundo da lata de açúcar, que as embalagens de chá e

de café estavam quase vazias, que não havia manteiga e que a

única coisa em que o olho podia descansar, com certo desgosto

por aquela exceção, era um saco de batatas. Depois, ela lavou o

chão e sentou-se para costurar o babado de uma saia refeita a

partir de uns cacarecos, mas logo se lembrou de que os retalhos

do tecido estavam atrás do espelho, aproximou-se dele e pegou

o embrulho; depois, olhou para seu reflexo.

Além da moldura de nogueira, no luminoso vazio do quarto

refletido, erguia-se uma moça franzina e não muito alta, usando

uma barata musselina branca de florzinhas cor-de-rosa. Sobre

seus ombros, jazia um lenço cinzento de seda. O rosto semi-

infantil, com um luminoso bronzeado, era vivo e expressivo; os

olhos belos, um pouco sérios para sua idade, observavam com a

acanhada concentração das almas profundas. Seu rostinho

irregular podia comover pela delicada pureza dos contornos;

cada meandro, cada saliência daquele rosto certamente

encontraria lugar em muitas figuras femininas, mas seu conjunto,

seu estilo era totalmente original, originalmente encantador; aqui

nós nos deteremos. O restante não está sujeito às palavras,

exceto pela palavra “encanto”.

A moça refletida sorria do mesmo modo incontido com que

sorria Assol. O sorriso saía triste; ao perceber aquilo, ela se

alarmou como se estivesse olhando para uma estranha. Ela

apertou a face contra o vidro, fechou os olhos e calmamente

afagou o espelho no ponto em que ficava seu reflexo. Um

enxame de pensamentos confusos e ternos faiscou dentro dela;

ela se endireitou, deu risada e sentou-se, começando a costurar.

Enquanto ela costura, olhemos para ela mais de perto – em seu

interior. Dentro dela, há duas moças, Assols misturadas numa notável e bela assimetria. Uma era a filha do marinheiro, do

artesão que fabricava brinquedos; a outra era uma poesia viva,

com todas as maravilhas de suas consonâncias e imagens, com

a secreta proximidade das palavras, com toda a reciprocidade de

suas sombras e da luz que recai de umas sobre as outras. Ela

conhecia a vida nos limites colocados por sua experiência, mas,

por cima dos fenômenos comuns, ela via um sentido refletido, de

outra ordem. Assim, examinando os objetos, percebemos neles

algo não linear, mas, pela impressão, decididamente humano e,

assim como é humano, diverso. Algo semelhante ao que

dissemos com esse exemplo (se é que conseguimos) ela via

ainda acima do visível. Sem essas conquistas silenciosas, tudo

aquilo que é facilmente compreensível era estranho à sua alma.

Ela sabia e adorava ler, mas os livros ela lia preferencialmente

nas entrelinhas, assim como vivia. Inconscientemente, por meio

de uma singular inspiração, ela fazia, a cada passo, uma

infinidade de finas descobertas etéreas, inexprimíveis, mas

importantes, como a pureza e o calor. Às vezes – e isso durava

alguns dias –, ela até se transfigurava; a oposição física da vida

ruía, como o silêncio ao golpe do arco, e tudo aquilo que ela via,

por que vivia, que estava ao redor tornava-se uma renda de

segredos com a forma do cotidiano. Mais de uma vez, inquieta e

intimidada, ela saía de madrugada para a beira-mar, onde,

esperando pelo alvorecer, ficava espreitando, totalmente a sério,

o navio das Velas Escarlates. Eram momentos de felicidade para

ela; para nós, é difícil adentrar assim um conto maravilhoso; para

ela, não seria menos difícil sair de seu poder e de sua

fascinação.

Em outro momento, meditando sobre tudo aquilo, ela ficava

sinceramente admirada, sem acreditar que tinha acreditado,

despedindo-se do mar com um sorriso e voltando, com tristeza, à

realidade; agora, afastando o babado, a moça relembrava sua vida. Havia ali muito enfado e simplicidade. Acontecia de a

solidão a dois oprimi-la desmedidamente, mas nela já havia se

formado aquele franzido de acanhamento interior, aquela ruga

sofredora com que não se infunde e não se recebe ânimo. Riam

dela, dizendo: “Ela não bate bem, está fora de si”; com essa dor

ela também se acostumou; a moça teve que suportar até

humilhações, depois do que seu peito doeu, como se tivesse

sofrido um ataque. Como mulher, ela não era popular em

Caperna, embora muitos suspeitassem, ainda que de maneira

vaga e selvagem, que ela era mais dotada que as demais, só que

em outra língua. Os moradores de Caperna adoravam as

mulheres robustas e corpulentas, com a pele oleosa nas

carnudas panturrilhas e nos braços vigorosos; ali, galanteavam

dando palmadas nas costas e empurrando, como se estivessem

na feira. Esse tipo de sentimento lembrava a cândida

simplicidade de um rugido. Assol cabia naquele meio resoluto do

mesmo modo que a companhia de um fantasma caberia a

pessoas de vida refinada e nervosa, possuísse ele todo o

fascínio de Assunta ou de Aspásia: que fosse por amor era ali

algo inconcebível. Assim, em meio ao zunido uniforme do clarim

de um soldado, a encantadora tristeza de um violino é incapaz de

tirar um severo regimento da ação de suas linhas retas. A moça

dava as costas para tudo que foi dito nessas linhas.

Enquanto sua cabeça cantarolava uma canção de vida, as

pequenas mãos trabalhavam com aplicação e agilidade;

mordendo a linha, ela olhava para bem longe diante de si, mas

isso não a impedia de dobrar a costura e dar o ponto com a

precisão de uma máquina de costura. Embora Longren não

voltasse, ela não estava preocupada com o pai. Ultimamente, era

bem frequente que ele zarpasse de madrugada para pescar ou

simplesmente espairecer.

O medo não a incomodava; ela sabia que nenhum mal lhe aconteceria. Nesse sentido, Assol ainda era aquela mesma

menina pequena que rezava à sua maneira, murmurando

amigavelmente pela manhã “Olá, Deus!” e, de noite, “Até logo,

Deus!”.

Na visão dela, esse curto contato com Deus era plenamente

suficiente para que ele afastasse a infelicidade. Ela também se

colocava na posição dele: Deus estava eternamente ocupado

com os problemas de milhões de pessoas, e, por isso, na opinião

dela, era preciso ter, em relação às sombras corriqueiras da vida,

a delicada paciência de um convidado que, ao encontrar a casa

cheia de gente, espera pelo azafamado anfitrião, aconchegando-

se e alimentando-se de acordo com as circunstâncias.

Ao terminar de costurar, Assol colocou seu trabalho sobre a

mesa de canto, despiu-se e deitou-se. O fogo estava apagado.

Ela logo percebeu que não havia sonolência; a consciência

estava clara como no auge do dia, até a escuridão pareceu

artificial, ela sentia o corpo, assim como a consciência, leve,

diurno. O coração tamborilava com a rapidez de um relógio de

bolso; ele batia como que entre o travesseiro e o ouvido. Irritada,

Assol se revirava, ora empurrando o cobertor, ora embrulhando-

se nele até a cabeça. Finalmente, ela conseguiu evocar uma

habitual imagem que ajuda a pegar no sono: mentalmente, ela

jogava pedras na água luminosa, observando a difusão daqueles

levíssimos círculos. O sono, de fato, como que apenas esperava

por aquela dádiva; ele chegou, cochichou com Meri, que estava

de pé junto à cabeceira, e, acatando seu sorriso, disse ao redor:

“Ch-h-h-h”. Assol imediatamente adormeceu. Teve seu sonho

favorito: árvores floridas, melancolia, fascínio, canções e

fenômenos misteriosos, dos quais, ao acordar, ela só se

lembrava do resplendor da água azul, que subia dos pés ao

coração com frio e enlevo. Depois de ver tudo aquilo, ela

permaneceu ainda algum tempo no país impossível, depois acordou e se sentou.

Não havia sono, como se ela não tivesse dormido em absoluto.

Ela era acalentada por uma sensação de novidade, de alegria e

de desejo de fazer algo. Olhou ao redor, com o olhar com que se

observa uma nova residência. O alvorecer penetrou – não com

toda a clareza de sua irradiação, mas com aquele esforço incerto

no qual é possível compreender o que está ao redor. A parte de

baixo da janela estava escura; a de cima, toda iluminada. Na

parte de fora da casa, quase na borda da armação, reluzia a

estrela da manhã. Sabendo que agora não pegaria mais no

sonho, Assol vestiu-se, aproximou-se da janela e, tirando o

fecho, empurrou a armação. Para lá da janela, havia um silêncio

atencioso e sensível; era como se ele tivesse acabado de surgir.

No crepúsculo azul, cintilavam os arbustos, ao longe dormiam as

árvores; recendia a mormaço e terra.

Segurando-se na parte de cima da armação, a moça observava

e sorria. De repente, algo semelhante a um longínquo apelo

sobressaltou-a por dentro e por fora, e ela como que despertou

outra vez, da realidade evidente para aquilo que é mais evidente

e indubitável. A partir daquele instante, a jubilosa riqueza da

consciência não a abandonou mais. É assim que ouvimos a fala

das pessoas e compreendemos, mas, se repetimos o que foi dito,

compreendemos outra vez, com um novo significado, diverso. Foi

o mesmo com ela.

Pegando o lenço de seda, velhinho, mas em sua cabeça

sempre jovem, ela o atou com a mão debaixo do queixo, trancou

a porta e saiu descalça pela estrada, a passo ligeiro. Embora

estivesse tudo vazio e quieto, pareceu-lhe que ela ressoava

como uma orquestra, e que podiam ouvi-la. Tudo era adorável

para ela, tudo a alegrava. A poeira cálida fazia cócegas nos pés

descalços; o ar estava sereno e prazeroso de respirar. No clarão

crepuscular do céu, delineavam-se, escuros, os tetos e as nuvens; cochilavam as sebes, as roseiras, as hortas, os jardins e

a estrada, ternamente visível. Em tudo se percebia uma ordem

diversa daquela do fim do dia – a mesma, mas numa

concordância que, mais cedo, esquivava-se. Tudo dormia de

olhos abertos, fitando em segredo a moça que passava.

Quanto mais ela andava, mais rápido ia, com pressa de deixar

o povoado. Além de Caperna, estendiam-se prados; além dos

prados, nas encostas das colinas litorâneas, cresciam aveleiras,

choupos e castanheiras. No lugar em que a estrada terminava,

transformando-se numa cerrada vereda, um felpudo cachorro

preto, de peito branco e uma tensão falante nos olhos, roçou-se

suavemente nas pernas de Assol. O cachorro, tendo reconhecido

Assol, ganindo e sacudindo dengosamente o tronco, seguiu ao

lado dela, concordando em silêncio com a moça no que lhe era

compreensível, como “eu” e “você”. Assol, olhando para seus

olhos comunicativos, tinha plena certeza de que o cachorro

poderia falar, não fossem seus motivos secretos para ficar

calado. Percebendo o sorriso da companheira de viagem, o

cachorro fez uma careta contente, sacudiu a cauda e saiu

correndo adiante, de maneira uniforme, mas de repente sentou-

se, indiferente, escavou competentemente com a pata a orelha,

mordida por sua eterna inimiga, e correu de volta.

Assol penetrou na alta grama do prado, que respingava

orvalho; segurando a mão com a palma para baixo, ela

caminhava sobre as inflorescências, sorrindo com seu toque

fluido. Olhando para os singulares rostos das flores, para a

confusão de caules, ela distinguia ali indícios quase humanos –

poses, esforços, movimentos, traços e olhares; naquele

momento, ela não ficaria surpresa com uma procissão de ratos

do campo, um baile de esquilos ou a rude festança de um ouriço

que, com suas bufadelas, assustou um gnomo adormecido. E, de

fato, um ouriço passou correndo, cinzento, pela vereda, diante dela. “Puf-puf”, disse ele de modo entrecortado, com irritação,

como um cocheiro a um pedestre. Assol falava com aqueles que

ela entendia e via. “Olá, doentinha”, disse ela a uma íris lilás, na

qual um verme abrira um buraco. “Tem que ficar em casa.” Isso

ela disse a um arbusto fincado no meio da vereda e que por isso

puxava a roupa dos transeuntes. Um grande besouro aferrava-se

a uma campânula, curvando a planta e desabando, mas

empurrando com as patinhas, obstinado. “Sacuda esse

passageiro gordo”, aconselhou Assol. O besouro, de fato, não

aguentou e, com um estalido, saiu voando para outro lado.

Assim, alvoroçada, palpitante e reluzindo, ela se aproximou da

encosta da colina, escondendo-se, em suas moitas, das

extensões dos prados, mas agora cercada por seus verdadeiros

amigos, que, como ela sabia, falavam com voz de baixo.

Ou então eram árvores volumosas e velhas em meio às

madressilvas e aveleiras. Seus ramos pendiam, tocando as

folhas superiores dos arbustos. Na volumosa folhagem das

castanheiras, que descaíam tranquilamente, havia cones brancos

de flores, cujo aroma se misturava ao cheiro de orvalho e resina.

A vereda, recoberta de saliências de raízes escorregadias, ora

caía, ora subia encosta acima. Assol sentia-se em casa;

cumprimentava as árvores como se fossem pessoas, ou seja,

apertando suas largas folhas. Ela caminhava sussurrando, ora

mentalmente, ora com palavras: “Aí está você, aí está você

também; vocês são muitos, meus irmãozinhos! Estou indo,

irmãozinhos, tenho pressa, deixem-me ir. Reconheço todos

vocês, eu me lembro de todos e reverencio todos vocês”. Os

“irmãozinhos” majestosamente afagavam-na como podiam – com

folhas – e rangiam cordialmente em resposta. Sujando os pés de

terra, ela alcançou o despenhadeiro junto ao mar e ficou de pé na

borda do despenhadeiro, ofegante pela caminhada apressada.

Uma fé profunda e invencível, em júbilo, borbulhava e rumorejava dentro dela. Ela a esparramava com o olhar para além do

horizonte, de onde, com o leve rumor das ondas litorâneas, ela

retornava orgulhosa com a pureza do voo. Enquanto isso, o mar,

rodeado no horizonte por um fio dourado, ainda dormia; somente

no fundo do despenhadeiro, nas poças dos buracos litorâneos,

erguia-se e caía a água. Junto à costa, a cor de aço do oceano

adormecido ia se transformando em azul e preto. Além do fio

dourado, o céu, incendiando-se, resplandecia com um enorme

leque de luz; nuvens brancas deslocavam-se com uma fraca

vermelhidão. Cores delicadas e divinas brilhavam nelas. Ao

longe, na vastidão negra, já se estendia uma palpitante brancura

nevada; a espuma cintilava, e uma rubra explosão, incendiando-

se em meio ao fio dourado, lançou pelo oceano, até os pés de

Assol, uma ondulação escarlate.

Ela se sentou com as pernas encolhidas, os braços em volta

dos joelhos. Inclinando-se atentamente em direção ao mar, ela

olhou para o horizonte com seus olhos grandes, nos quais já não

restava nada de adulto – eram os olhos de uma criança. Tudo

que ela esperara durante tanto tempo e com tanto ardor

acontecia ali, na borda do mundo. Ela viu, no país das distantes

voragens, uma colina subaquática; de sua superfície, para cima,

brotavam trepadeiras; em meio a suas folhas redondas,

atravessadas na borda pelos caules, reluziam flores

extravagantes. As folhas de cima cintilavam na superfície do

oceano; quem não soubesse de nada, como Assol sabia, via

apenas o tremor e o brilho.

Por detrás das moitas, ergueu-se um navio; ele emergiu e

parou bem no meio da alvorada. Naquela vastidão, podia-se vê-

lo claramente, como as nuvens. Espalhando alegria, ele ardia,

como o vinho, a rosa, o sangue, os lábios, o veludo escarlate e o

fogo encarnado. O navio vinha bem na direção de Assol. As asas

da espuma tremeluziam sob o poderoso peso de sua quilha; já de pé, a moça apertou a mão contra o peito, quando o

maravilhoso jogo de luz tornou-se uma leve tremulação; o sol

nasceu, e a viva plenitude da manhã arrancou o manto de tudo

que ainda se entregava à lassidão, refestelando-se sobre a terra

sonolenta.

A moça suspirou e olhou ao redor. A música silenciou, mas

Assol ainda estava sob o poder de seu sonoro coro. Aquela

impressão pouco a pouco enfraqueceu, depois virou uma

lembrança e, finalmente, um simples cansaço. Ela se deitou

sobre a grama, bocejou e, fechando afortunadamente os olhos,

adormeceu – um sono de verdade, forte como uma jovem noz,

sem preocupações ou sonhos.

Foi acordada por uma mosca, que vagava por seu pé desnudo.

Girando calmamente a perninha, Assol despertou; ao sentar-se,

pôs-se a domar os cabelos desgrenhados, por isso o anel de

Grey se fez lembrar, mas, achando que não passava de um

galhinho preso entre os dedos, ela os endireitou; como o

embaraço não desapareceu, ela levou a mão aos olhos,

impaciente, e aprumou-se, instantaneamente saltando com a

força de um chafariz que esguicha.

Em seu dedo, brilhava o anel radiante de Grey, como se o dedo

fosse de outra pessoa – naquele momento, ela não podia

reconhecê-lo como seu, não sentia que aquele dedo era seu. “De

quem é isso? De quem é?”, exclamou ela, com ímpeto. “Será que

eu estou dormindo? Talvez tenha encontrado e esqueci.”

Pegando com a mão esquerda a mão direita, na qual estava o

anel, ela olhou ao redor, com assombro, esquadrinhando com o

olhar o mar e as moitas verdes; mas ninguém se movia, ninguém

se escondia em meio aos arbustos, e, no mar azul, iluminado até

longe, não havia nenhum sinal, e um rubor cobriu Assol, mas as

vozes do coração diziam um pressagioso “sim”. Não havia uma

explicação para o que acontecera, mas, sem palavras e pensamentos, ela a encontrava em seu estranho sentimento, e o

anel já se tornara caro a ela. Tremendo inteira, ela o tirou do

dedo; segurando dentro da mão em concha, como água, ela o

examinou – com toda a alma, com todo o coração, com todo o

júbilo e a serena superstição da juventude; depois, escondendo-o

no corpete, Assol cobriu o rosto com as mãos, por trás das quais

irrompeu um sorriso incontrolável, e, de cabeça baixa, ela pegou

o caminho de volta.

Assim, fortuitamente, como dizem as pessoas que sabem ler e

escrever, Grey e Assol encontraram um ao outro, na manhã de

um dia de verão pleno de inevitabilidade.