Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)
Carta Primeira. Sumario.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Emfim a regra é geral, que todos os nomes de origem antiga &c. ou sejam Proprios, ou Apelativos, que estam naturalizados, e sam frequentemente uzurpados, ou por-todos os omens, como Ieronimo, Triumfo, &c. ou polo comum dos-doutos, como Filozofia, Teologia, Fizica, Metafizica, e mil outros; devem-se escrever como se-pronunciam. Os nomes ditos que nam sam geralmente uzados, v.g. Themistio, Theopompo &c. por-nam escandalizar os ouvintes, ou confundir os ignorantes, é melhor escrevelos com as letras originais. Os nomes, em que entra duvida se sam, ou nam uzados, podem-se escrever, com as letras da-sua derivasam; pois a duvida mostra, que nam é uzual. Isto digo dos-nomes, que sam puramente antigos, ou que se-derivam de linguas mortas, como a Latina, Grega, Ebraica, Caldaica &c. Quanto pois aos nomes de linguas vivas, principalmente das-linguas do-Norte, em que se-acham muitas consoantes seguidas &c. acho que é melhor, e às vezes preciza necesidade, escrevelos com todas as suas letras: porque sem isto, nam se-poderám distinguir e reconhecer, os Autores, as Cidades &c. e nacerá grande confuzam. Aquelas consoantes que a nós parecem superfluas, nam o-sam para eles, porque as-pronunciam, supondo-lhe vogais: onde tirando-as, nem os-intenderemos pronunciar, nem os-saberemos procurar nos-livros.
Esta doutrina que atè aqui establecemos, deve-se aplicar, a todos os outros cazos que ocorrerem, de quaisquer letras que se-nam-pronunciam: E asim nam é necesario repetila especialmente, em todas as palavras: pois qualquer por-simesmo pode aplicála. Onde, seguindo a ordem do-Alfabeto, deve-se desterrar o G. de Madalena &c. Polo contrario deve conservar-se em Significar, Magnifico &c. porque na pronuncia s’exprime.
A mesma razam persuade, que nenhum Portuguez deve servir-se do-H, senam quando tem diferente pronuncia. v.g. despois de c, como em Chave, despois de n, como em Minha &c., nunca porem quando se-diz, He, Hei &c. Desta opiniam foram alguns antigos Portuguezes, como Joam Franco Barreto na sua Ortografia; que quer se escrevam, sem h: e o P. Bento Pereira na sua Grammatica Linguæ Lusitanæ, que concede, que em algumas partes se-pode deixar. Muitos Portuguezes que atualmente vivem, e de mui boa doutrina, defendem fortemente, que se-exclua o h. e achei um, que somente o-admitia, quando distinguia uma disam da-outra. v.g. Ouve pode significar, teve, e também, está ouvindo: onde no-significado de teve, punha-lhe o h, para nam cauzar confuzam. Conheso, que o contexto mostra bem, em que sentido se-toma: e sei que no-Latim, á infinitas palavras, que tem terminasoens equivocas, cujo verdadeiro significado se-alcansa, polo contexto. E ainda no-Portuguez Amára, e Amará, se acazo nam tem acento, somente se-distinguem polo contexto. da-mesma sorte Cria verbo que significa, Tirar do-nada: cria verbo que significa, Produzir a terra: cria verbo que significa, Dar leite ás criansas: e cria, imperfeito do-verbo crer: nam se-distinguem senam polo contexto: o que tambem sucede em muitos outros. Digo somente, que nam condenaria, quem o-escrevese nestes cazos: aindaque eu pratique comumente o contrario. Fóra daqui, julgo que nam se-deve escrever, em nenhuma outra disam; porque todas se-distinguem mui bem, sem ese sinal de aspirasam. O Bluteau, que no-Dicionario diz, que em algumas partes se-podia deixar de pòr o h no-principio; em outros lugares porem defende, a introdusam do-h, querendose desculpar, com a lingua Italiana. Mas erra manifestamente no-que diz. porque nam só os omens mais doutos na lingua Italiana desterráram o h do-principio, e de muitas partes do-meio das-disoens, deixando-o somente despois de c, e g, como em Bianche, Vaghe; porque aqui é verdadeiramente aspirasam forte, e tem seu particular soido: mas tambem a mesma Academia da-Crusca no-seu Vocabulario Compendiado e Correto, declara, que somente uza do-h, para evitar algum equivoco. v.g. Hanno, Verbo que quer dizer, tem; de Anno, nome que significa, o ano. Como tambem em, Ho, Hai, Ha, inflexoens do-mesmo Verbo; para as-distinguir de algumas Particulas, que tem a mesma terminasam. aindaque neste cazo nam condenam, quem deixa o h. Quando muito admitem o h, em Hui, Hoi, exclamasam de quem se-queixa, ou outro semelhante monosilabo: declarando porem, que aqui, e em quatro vozes que apontam, s’introduzio por-erro antigo dos-impresores, e nam por-alguma fundada razam. O que é muito de notar: sendoque os Toscanos aspiram fortemente todos os monosilabos, semque por-iso escrevam h. Fóra destas circunstancias, nenhum Italiano douto escreve h: onde falsamente se-serve o Bluteau do-seu exemplo.
Mas, deixando o que fazem os outros, e pasando ao que devem fazer os Portuguezes, digo, que nam devem escrever h senam, quando cauza diferente pronuncia, como em Minha, Diz-lhe &c. O é quando é Verbo, muito bem se-distingue do-e Conjunsam, pondo-lhe emsima um acento. Nem eu poso intender porque razam é Verbo, deva escrever-se com h, e era, eram &c. que sam inflexoens do-mesmo Verbo, sem ele. Também o ás, á, Verbos que significam ter, mui bem se-distinguem de às, à Particulas, com a diversidade do-acento grave. Tudo isto asim distinguem os nosos Italianos, que participam mais que ninguem da-lingua Latina, e que sam mui advertidos nestas pronuncias. Onde é erro dizer, Huma, Humilde &c. mas deve-se escrever, Uma, Umilde &c. Nem é obscura a razam: basta olhar para à pronuncia, para saber, que é erro, pòr o h.
Antigamente o [7] h era sinal de uma forte aspirasam. (intendo por esta palavra aspirasam, deitar para fóra o ar que se-recebeo, para refrescar o interior, e ajudar a circulasam do-sangue: o que advirto, porque me-parece, que entre muitos Portuguezes, nam é bem certa a significasam desta palavra, aspirasam) Deste final pois somente se-serviam, para suprir as letras aspiradas dos-Gregos. Onde somente s’escrevia antes das-vogais, cuja pronuncia era bem
aspirada, e gutural, como adverte Cicero[8]. e talvez antes desas nam se-punha. Mas no-tempo da-pureza da-lingua Latina, nunca os omens doutos escreveram h despois de consoante: mas somente no-principio da-disam, e antes de vogal: e nam escreviam Pulcher, mas Pulcer: nam Charitas, mas Caritas &c. o que ainda oje vemos, nos-melhores manuscritos, e inscrisoens lapidares. Mas se alguma vez a-punham despois de consoante, somente o-faziam nas palavras Gregas, ou que de lá traziam origem. De que fica claro, que na lingua Portugueza, em que nam á aspirasam alguma nem forte, nem branda; nam se-deve pòr aquele sinal, que só serve de avizar o Leitor, que aquela letra deve ser aspirada. Somente do-U duvidei por-algum tempo, se admitia antes de si h: porque, a falar verdade, parece-me ser aquela letra, que em Portugal se-pronuncia, com alguma aspirasam; porque a mesma natureza da-letra o-permite. mas dezenganáram-me os meus Italianos, que, sendo tam escrupulozos observadores da-pronuncia, nam poem h antes de disam alguma, que comece por-u: falo dos-que escrevem com a ultima perfeisam. Onde nem menos os Portuguezes devem ter escrupulo, de os-escrever sem h.
Sobre as diferentes especies de II. é incrivel a bulha que alguns fazem, especialmente para determinar, quando se-deve pòr j rasgado, ao principio das-disoens. Cuido que esta grande bulha, se-pode reduzir a duas palavras. Distinguir o i vogal do-consoante, é mui necesario, para saber quando fere, ou nam fere a vogal. chamamos rasgado, ao consoante; pequeno, ao vogal; e distinguem-se pola figura. Quanto ao escrevelos ao principio, pouca dificuldade pode nacer, em quem escreve em Portuguez; vistoque rarisima palavra Portugueza comesa por-i vogal, antes de outra vogal. Onde tirando, îa Verbo, ou alguma outra rarisima, que agora nam me-ocorre; em todas as palavras Portuguezas, que comesam por-i antes de vogal, a dita letra é consoante, e deve-se escrever rasgada; ou de forma pequena, ou maiuscula, segundo a necesidade. Alguma dificuldade pode nacer, no-principio das-palavras impresas. Neste cazo nam dezaprovo, que o i de Joannes v.g. e outros semelhantes seja rasgado, para evitar alguma confuzam. Mas isto intende-se nos-nomes de fórma pequena: porque nos-de fórma grande, que é a maiuscula Romana, pouca necesidade temos de escrever i rasgado no-principio: pois com o outro, igualmente se-pronuncia bem. Quem porem em ambas as partes quizese pòr i rasgado, nam o-condenaria: principalmente se comesasem por-alguma das-duas Portuguezas, que asima aponto.
A maior dificuldade consiste em determinar, quando se-poem G, quando I, antes de e, ou i, nas palavras Portuguezas. v.g. Gente escreve-se com g: Ereje uns o-escrevem com g, outros com i, Ieronimo com i: Giro escreve-se com g: E outras vezes antes do-e &c. poem-se um j consoante. Para dar razam destas variasoens, tem alguns escrito longas paginas: mas nenhuma Regra das-que li, deixa de ter suas excesoens. Dizem, que em Gente, Giro &c. a derivasam aponta o g. concedo: mas que derivasam aponta a letra, que devemos escrever em Ereje, e outros semelhantes, que nam tem analogia alguma, com as letras da-sua derivasam? O meu parecer é este: Que os doutos, sigam a derivasam Latina, especialmente no-principio; e tanto nos-Apelativos, como Proprios, que sempre comesam por-i: tirando quando despois se-segue outro i, que entam é melhor, converter o primeiro em g, como Ginja. Que no-meio, uzem mais do-g, que do-i: vistoque nisto tambem á diversidade, ainda nos-que derivam do-mesmo Latim. Mas, nam se-lembrando da-derivasam, &c. posam servir-se indiferentemente de ambas. Os ignorantes sigam o costume e a pràtica, dos-que melhor escrevem. Nem devemos admirar-nos, se em alguma letra nem todos concordem: nam sendo posivel, que convenham todos, em materia tam duvidoza e arbitraria.
Tambem sobre as terminasoens, am, e aõ, fazem alguns longuisimas disputas, e mui superfluamente. Confesa o Bluteau na sua Proza Apologetica, que ja saîram livros inteiros, para deitar fóra o aõ: e que outros lhe respondèram dizendo, que o til nam era letra, mas risco. O Bluteau protege a pose do-aõ. mas declara, que o til supre a letra n: e defende constantemente, que nam se-deve tirar o til, porque a terminasam aõ, segundo ele diz, é mais engrasada, que o am; e por-este motivo deve-se conservar: muito mais porque seria necesario tambem, desnaturalizar as palavras, Birimbao, Catimbao, Pao, &c. Mas o Bluteau nesta materia, deixou-se guiar por-alguns prejuizos. Dizer, que o til é risco, e nam letra, é o mesmo, que nam dizer nada. O certo é, que este risco faz, que eu pronuncie um n demais, que as letras que ali vejo: onde, chamem-lhe como quizerem, é um verdadeiro n. Dizer, que a terminasam am, é diferente na pronuncia, de aõ, é outro engano: pois em qualquer disam Portugueza, que se-ache a terminasam am, todos a-pronunciam como aõ: e Portuguezes mui doutos servem-se indiferentemente de ambas: e cuido que com muita razam; se è que a segunda se-deva tolerar.
Os que contrareiam isto, nam intendem bem a materia; nem d’onde naceo, esta particular pronuncia em aõ. Quem bem considera o ponto, reconhece facilmente, que aquele til, é um rigorozo m final: e deveria escrever-se, Falaom: porque escrevendo-se desta sorte, e pronunciando-se depresa, faz o mesmo soido, que Falaõ. Daqui naceo, aquela particular terminasam em aõ dos-Portuguezes: porque com a presa de pronunciarem, tocam tam de pasagem o o; que nam se-ouve mais, que o m: o qual, em vez de o-pronunciarem com os beisos fechados, que é a sua propria pronuncia; pronunciam com um soido fanhozo do-nariz: que é o estilo prezente de pronunciar todo o m final, em Portugal: nam avendo aqui m, que se-pronuncie como deve ser. Alemdeque bastava alguma reflexam, para conhecer isto; acha-se manifesta razam, para o-persuadir. A plica ou til, deve significar alguma letra: de outra sorte seria superflua, e nam produziria algum efeito. Esta letra só pode ser m, ou n, e ambos finais: porque de outra sorte sería, Falamo, ou Falano: o-que nam pode ser. Onde fica claro, que Falam, é uma sincope de Falaom: e que tanto se-pode escrever um, como outro. Reconhece-se isto melhor nos-plurais. v.g. Maõ, faz maons: Varaõ, varoens: nos-quais declaradamente se-ve o m, ou n, segundo a pronuncia. E eu creio, que antigamente nestes plurais, em vez de n, punham m; e que a dificuldade de pronunciar o m junto com o s; ou o som do-nariz, que pouco a pouco se-foi introduzindo no-m, o-converteo em n nestas terminasoens: pois ainda oje escrevendo-se com um m final, a pronuncia o-faz parecer, como n. O que, como dise, é um idiotismo particular dos-Portuguezes.
E esta é a razam, porque os Estrangeiros, nam podem pronunciar bem estas dezinencias; que na verdade sam feias, e asperas terrivelmente: porque nam á quem lhe-explique, que o til de aõ, é um m, que os Portuguezes, por-corrusam, pronunciam como um n; nam só no-fim, mas ainda no-meio das-palavras. Reconheci isto por-experiencia: pois tantoque dei esta explicasam a alguns, e mostrei o vicio da-linguagem; pronunciáram melhor, que os outros. Daqui concluo, que as ditas terminasoens, aõ, e am, podem-se uzar indiferentemente; vistoque uma é sincope da-outra: tendo introduzido o uzo, nam pronunciar na segunda, o o. Onde dise um erro Inacio Garcez Ferreira, e alguns outros, quando quizeram defender, que estas dezinencias eram diferentes no-soido: e quando ele lhe-chamou, sincopes das-Castelhanas. E nam sei, se confirma tambem o que ate aqui dise, ver, que na Provincia de Entre Doiro, e Minho, ainda oje se-pronuncîa, em muitas destas palavras, o o; pois dizem, Tabaliom, Escrivom &c.
Mas eu digo mais, e asento, que aindaque uma seja abreviatura da-outra, emportava muito à lingua Portugueza, que se-deitase fóra o til, e a terminasam aõ, escrevendo-se tudo extensamente: e uma de duas, ou que se-escrevese Falaom; ou, abreviando, Falam. Introduzir a primeira escritura, serîa mais dificultozo; porque estes amigos nam querem reformas utis: e asim será melhor, preferir a segunda am, que ja está recebida em Portugal. Certo é, que quando os Portuguezes escrevem, a dita terminasam am, pronunciam aõ: e tambem é certo, que muitos omens doutos servem-se da-primeira terminasam. Este modo de escrever, encostava-se mais para a pronuncia: e com ele se-evitavam confuzoens. serîa também a lingua mais facil de ler, e pronunciar, aos Estrangeiros: pois bastava advertir-lhe, que entre, o a e m, deve-se pòr um o, e pronuncialo depresa. Advertimos porem, que aindaque os Portuguezes tenham, esta pesima pronuncia na sua lingua; quando porem pronunciam a dita terminasam am, no-Latim; devem pronunciala com os beisos fechados, como em seu lugar advertiremos: poisque a lingua Latina nam está sugeita, às suas leis.
Querem alguns, que em Tempo, e outras palavras, em lugar do-m, se-ponha n, porque asim soa. Cuido, que dizem mal: porque aindaque alguns pronunciem o dito m, como n, pronunciam muito mal; pois nesta voz muito bem se-ouve o m, e em outras tambem. E aindaque em outras partes, nam seja tam sensivel o m, deve conservar-se: pois se ouvesemos de tirar todos os mm, que nam se-explicam bem, poucos mm ficariam em Portugal. Em Contigo, Consigo &c. podem tiralo. Contudo quem o-quizese tirar em todas as outras, nem por-iso o-condenaria como erro.
A terminasam an, tambem cauza duvidas, a muitos Portuguezes: e eu julgo, que nam deve ter nenhuma. Acham-se omens que asentam, que nam á tal terminasam no-Portuguez, e defendem isto, com muita forsa. Se disesem, que a terminasam an, antigamente era am, nam diriam mal: mas querer defender, que oje nam á tal terminasam, é dizer um erro. Distinguem-se oje os nomes Femininos, dos-Masculinos, com esta terminasam. Vg. Vam, e Van: Irmam, e Irman. Nem me-digam, que o til é risco, e nam letra: pois ja asima mostrei, que o til é uma letra; e que a pronuncia ensina, que á-de ser n. Por-esta razam concluo, que será necesario, pòr o dito n expreso, deitando fóra o til. Muitos Portuguezes doutos seguem esta opiniam: os quais rim-se de Duarte Nunes, que queria se-dobrasem os aa, dizendo Vaã, Menhaã.
Sobre o P, ja asima dise, que nam se deve escrever ph por-f: Agora digo, que nem menos se-pode sofrer, o que muitos fazem, pòr p, antes de t, em muitas disoens. vg. Prompto &c. Esta é uma afetasam pouco toleravel: vistoque a pronuncia Portugueza, tem ja desterrado este p. Onde nam é a mesma razam do-b, ou do-g, ou do-d, que se-conservam nas palavras, Obscuro, Significo, Adverte: porque este, ouve-se mui bem: e o p, nam se-ouve sem afetasam. E nam falta quem diga, que nas duas primeiras palavras tem ja introduzido o uzo, deixar aquelas letras na pronuncia: o que eu nam condeno: como nem menos condeno, quem as-pronuncîa. Pode ser que com o tempo, se-deixem totalmente.
Quimera por-Chimera, defende Bluteau, e alguns outros: eu julgo, que sem razam alguma; sendoque o qui, tem mui diferente pronuncia, doque a que se-ouve na palavra, Chimera. Ja asima dise, que a quem nam agrada, escrever estas palavras, por-ch, é melhor, uzar o k dos-Gregos, doque o qui; que tem em Portugal diferente pronuncia, na qual expresamente se-ouve o u.
Introduzio o uzo em Portugal, dobrar os rr, quando tem pronuncia forte: e parece-me que este uzo se-deve observar, nam fazendo cazo, do-que aconselham alguns, que um só r bastava.
Nam poso sofrer, que o Bluteau na sua Proza Gramatonomica, queira introduzir, no-principio das-palavras Portuguezas, o s antes de consoante: e escrever, Squeleto, Spasmo, Scena, Sciencia &c. Esta corresam é tam fora do-escolio, que nenhum Portuguez, que nam seja Latino, saberá pronunciar aquele s, no-tal lugar: e o que souber Latim, será necesario, que pronuncie um e mui redondo. A razam disto é, porque o s Portuguez, que nam é final, é um verdadeiro sibilo ou letra sibilante, que faz ouvir a vogal ou antecedente, ou consequente. e asim, querer escrevela sem vogal, é mudar a pronuncia da-letra, e é fazer uma ridicularia, fundada unicamente em querer mostrar, que sabe a derivasam daquelas palavras. Abrasáram algumas pesoas cegamente, a opiniam do-Bluteau: mas nem por-iso dam razam, ou fazem autoridade nesta materia. Onde, antes de consoante, nunca se-deve escrever s simplez.
Deve-se com cuidado distinguir o u vogal, do-consoante v, ou v, para nam originar duvidas. O que muitos nam fazem, ainda prezados de doutos: pois vejo escrituras deles, que merecem compaixam. Isto porem nam só no-Portuguez, mas ainda no-Latim é necesario: Pois aindaque antigamente, (que os Romanos escreviam com letras maiusculas) todos os vv tinham a mesma figura: oje que, com muita razam, se-introduzio esta necesidade, devemos, no-carater pequeno, distinguir na figura estas duas letras, asimcomo as-distinguimos na pronuncia. E fazem mui bem os Alemaens, que, ainda nas letras maiusculas, distinguem o vogal, do-consoante, nos-livros impresos.
Diz Alvaro Ferreira Vera, que nenhuma disam Portugueza, deve acabar em x. Muitos porem acabam em x algumas palavras, e entre elas, Felix, Simplex &c. O que eu sei é, que a pronuncia Portugueza acaba em x, todas as palavras que acabam em s: quero dizer, que todo o s final pronunciam como x. de que nam quero outra prova mais, que cada um observe, como pronuncia o s final; e que diferensa tem do-s, que pronunciam no-meio das-disoens. O que suposto, se seja mais util, acabar em x, o que se-pronuncia como x, ou pronunciar diferentemente os ss finais; eu o-deixo considerar a V. P. Mas deixemos o s, na sua pose: observo, que nam só o s final se-pronuncîa como x, mas também o z final: o que V. P. pode ver em, Diz, Luiz, Fiz &c. E daqui cuido que naceo a facilidade, de pòr o z, em lugar de s final, naquelas vozes de que se-formam outras: como, Diz, dizes; Faz, fazes; para por-este meio fazer os plurais, somente com acrecentar es. O que eu nam condeno, mas antes aprovo, e pratîco com o exemplo, e com a razam: e cuido asim se-deve fazer. Nesta letra é digno de atensam, o demaziado escrupulo de alguns, que magistralmente decidem, que o x tem diferente pronuncia do-ch, antes de e, ou i: e que é erro dizer, Xapeo; mas que se-deve pronunciar, Chapeo, carregando muito no-ch, para o-distinguir do x: e advertem, que é erro da-pronuncia da-Estremadura, pronunciar o ch, como x. Mas, sem fazer cazo da-decizam destes Senhores, julgo, que devemos continuar, na pronuncia da-Estremadura. Nam digo, que na escritura convertamos o ch, em x: deixo as coizas como se-acham: só digo, que na pronuncia, nam á diferensa entre uma, e outra letra. Em materia de pronuncia, sempre se-devem preferir, os que sam mais cultos e falam bem na Estremadura, que todos os das-outras Provincias juntas. Ora é certo, que os ditos pronunciam docemente como um x: e nem só eles, mas muitisimos de outras Provincias, tem a mesma pronuncia. Somente alguma diversidade achei nos-Beirenses, que batem mais o dito c, encostando-se à pronuncia Romana do-c. Mas seja como for, estas nam sam razoens, para persuadir um omem, a que pronuncie o dito ch, diferentemente do-x: quando a pronuncia comua está a seu favor: a qual por-iso mesmo que é mais suave, deve ser preferida à outra. E saiba V. P. que notei outra coiza, e vem aser, que os que querem pronunciar o ch, nam como x, esforsam-se desorte, que, na violencia comque pronunciam, mostram bem, que nam é esa a sua pronuncia. O dizer, que se-devem distinguir na pronuncia, nem menos persuade: porque eles mesmos admitem que s, e c, antes de e, e i, pronunciam-se da-mesma sorte: onde nam tem que se-escandalizar. E asim o dizerem eles, é erro, nam faz forsa: devemos responder-lhe, que eles sam os que erram. Advirto porem, que no-meio das-disoens introduzio o uzo, nam pronunciar o x, como no-principio; mas segundo o estilo Latino, como se fose um cs brando, tocando ligeiramente o c: v. g. em Reflexam, Conexam &c. porque asim é mais suave. mas Paixam, ainda se-conserva em toda a sua forsa; e nam sei qual outro.
O Y tem tantos apaixonados, principalmente entre os modernos Portuguezes, que quazi abuzam dele: e acham-se livros, em que sam mais os yy, que os ii: especialmente o Curvo na sua Atalaia da-Vida, e alguns outros. O Bluteau, seguindo a Bento Pereira, diz, que se-deve admetir nas palavras, para mostrar a origem remota delas, principalmente do-Grego &c. Como se sem esta noticia, nam pudesemos saber Portuguez! Tomára porem que me-disese, se Meio, Cuidado, Saia &c. em que poem o tal y, tem alguma analogia com a origem. Outros dam outras razoens, que nam merecem reflexam, nem resposta: O certo é, que esta vogal antigamente valia o mesmo, que o u, ou tinha um soido mais semelhante a u, que a i. onde se a-quizer-mos tomar, no-seu antigo vigor, faremos uma voz desemelhante, à que queremos pronunciar: e se acazo deve valer um i simplez, tomára que me-disesem, por-qual razam a-poem, onde nam é necesaria. Daqui vem, que é erro escrever, Meyo, Ley, Hey, Rey &c. tudo isto se-deve escrever sem y, porque nam sam nomes Gregos, mas puros Portuguezes. Onde nam só os Portuguezes, mas os mesmos nomes Gregos, quando estam bem aportuguezados, como Idropezia, Ulizes &c. se-devem escrever sem y. Confeso, que nam pude sofrer o Bluteau, o qual, seguindo ao Pereira, quer, que a vogal i nam seja suficiente, para fazer ditongo com a, dizendo, Pai, Dai, &c. mas que seja de necesidade pòr o y, para o ditongo. Este parecer nam necesita de confutasam: pois quemquer conhece, que com ai, se-pronuncîa, da-mesma sorte que ay: onde o uzo serve de resposta; e nam temos necesidade do-y, para fazer o mesmo, que fazemos com o i.
Paso daqui ao Z, aquela letra desgrasada, que teve a infelicidade de dezagradar, à maior parte dos-escritores Portuguezes deste seculo: os quais nam só a-desprezáram, para introduzir em seu lugar o s; mas alguns deles com decreto asentáram, que se-devia desterrar do-meio das-disoens, e prover o seu lugar no-s. Estes Senhores escrevem quazi tudo com s. Achará V. P. em alguns dos-bem modernos * * * Cezar, Fazer, Quizeram, Miudeza, Reduzir, Fazenda &c. tudo escrito com s. Entre eles achei um, de mui boa fama, que em uma orasam * * escreve, Alteza, Solenizado com z: e pouco abaixo, Usurpáram, Lisonja com s. poem Riqueza, e logo Luminoso, Profusam. poem Fazem, e logo Religioso. Emfim a maior parte destes modernos doutisimos escrevem, Alteza, Luzes, e outras poucas palavras com z: e tudo o restante, em que devia entrar o z, vai com s. O Vieira, e outros, que nam admitem tantos ss, contudo em algumas disoens seguem o mesmo, e escrevem vg. Brazil, com z, e Reside, com s. Mas eu creio, que é necesaria mui pouca meditasam para conhecer, que todos estes erram. Os Portuguezes tem a pronuncia do-z asperisima: que creio lhe-ficou, da-comunicasam com os Moiros, e Arabios, que abundam muito diso: e eu acho em Portugual, muitos vocabulos destas Nasoens. Onde tendo o s, e z, diferentisimas pronuncias, é erro sem desculpa, pòr o s, em lugar do-z, quando este deve ter toda a sua forsa, como no-principio, ou meio das-disoens. Dezafio todos os Portuguezes, paraque pronunciem estas palavras diferentemente, vg. Luzes, e Lizonja; Abrazado, e Plauzivel; Riqueza e Religiozo. nam averá algum que se-atreva a dizer, que nas primeiras se-ouve z, e nas segundas s: mas em ambas as partes se-ouve um z mui grande, e gordo. Sendo pois esta pronuncia particular na lingua Portugueza, acha V. P. que se-pode sofrer, desterrar todos os zz, para introduzir uma letra, que soa diferentemente? a isto chamo eu destruir, nam emendar, a boa Ortografia. Alem diso, eu acho em Portugal motivo, para dizer o contrario. ponhamos exemplo nestas duas palavras, Azeite, e Aceite; ou tambem, Razam, e Raçam. Ninguem dirá, que estas duas palavras soam da-mesma sorte: porque em tal cazo nam averia motivo, para as-distinguir na pronuncia. todos tambem conhecem, que o c, com cedilha ç, antes de vogal, pronuncia-se como s; e que por esta razam muitisimos Portuguezes indiferentemente uzam delas. Daqui pois segue-se, que se z, se-deve pronunciar como s, os ditos pares de vocabulos devem pronunciar-se da-mesma sorte. Mas sem eu perguntar isto a omens doutos, mas somente ao leigo da-cozinha de V. P. sei que me-responderá, que Razam, e Raçam, sam coizas mui diferentes: Azeite, e Aceite, nam menos: E asim nam tenho lugar de duvidar, que, pronunciando-se diferentemente, devem tambem escrever-se, com letras diferentes. Se concedem, que o z se-deve conservar, em algumas vozes, como todos concedem; que razam á, para o-nam-conservar nas outras? Se dizem, que o dito s se-deve pronunciar como z, merecem rizo quando querem pòr aquele por-este. ou deitem fóra esta letra do-alfabeto; ou escrevam-na onde deve entrar. Fazer o contrario, é destruir a pronuncia da-lingua, ou batizar de novo as letras.
Somente porei z em lugar de s, no-fim de algumas disoens, de que se-formam outras, como asima dise: porque o uzo introduzio esta pronuncia do-z, semelhante ao s. o que suspeito que provèm de uma Apocope, que se-acha nas tais palavras: e que antigamente despois do-z se-punha uma vogal: como á exemplo em muitas linguas, e também na Portugueza.
Lendo eu a este intento o Bluteau nos-opusculos,[9] fiquei confirmado, que poucos omens pensam bem, ainda dos-que tem bom nome. Confesa, que muitos eram de parecer, que s’escrevese Filozofia, sem ph: e que sempre se-avia de seguir a pronuncia, pois era esta a maior excelencia do-Portuguez; no-qual as letras dobradas eram inutis. Que desta opiniam era Duarte Nules de Leam, & Joam de Barros, nas suas Ortografias; e outros muitos autores, que escrevèram da-lingua. Contudo diz, que na Academia do-Ericeira se-asentára, que nem sempre se-devia escrever como a pronuncia: Mas aqueles nomes que conhecidamente encerravam origens sem corrusam, s’escrevesem como na sua etimologia, quando as letras nam fosem como a pronuncia: e asim Coro, e nam Choro: Monarquia, e nam Monarchia: E que os zz s’evitasem muitas vezes, servindo-se do-s. Confeso a V.P. que nam pude ler isto sem rizo. Eu nunca li as obras do-Leam, ou Barros, nem me-cansei em buscalas: mas agora fico formando melhor conceito deles. Polo contrario nam sei, quais eram os votantes na dita conferencia: porem olhando para o que asentáram, formo mao conceito do-seu juizo: pois conhecendo a razam, e tendo bons autores, que os-apadrinhasem; ainda asim quizeram seguir os prejuizos e preocupasoens que mamáram, somente por-serem antigas. Isto certamente nam é emendar a Ortografia. O pior é, que o Bluteau conhecendo isto mesmo, como em algumas partes confesa, deixa-se guiar da-corrente. Asima mostrei, que Monarchia, deve-se escrever com ch, vistoque asim escrevem Archanjo os contrarios &c. e nam tem divesa razam, sem cairem em uma superfluidade. Devendo pois desterrar o ch, é melhor servir-se de k; mas nunca de q. O mais tambem ja fica advertido.
Certamente que o dizer o Bluteau, que nos-nomes se-deve observar, a Ortografia da-derivasam, como em Philosophia &c. porque de outra sorte nam se-saberám buscar nos-Dicionarios; é reflexam que merece rizo: porquanto as derivasoens, só as-procuram os doutos: e estes bem as-sabem. os ignorantes, nem asbuscam, nem necesitam de buscalas, aindaque queiram falar, e escrever puramente.
Até aqui tenho feito algumas reflexoens, principalmente sobre as coizas, que se-devem deixar: agora farei outras, sobre as que se-devem acrecentar. Nam cuide V. P. que estas sam de menor momento nesta materia: antes muitas vezes delas depende o aumento, a pureza, e elegancia da-lingua. Ponho em primeiro lugar os Acentos: que creio, sam indispensavelmente necesarios, para distinguir muitas palavras. Nam podemos sem eles saber, se Amara, é preterito, ou futuro: e damesma sorte em outras muitas palavras. Tambem para distinguir os Nomes, dos-Verbos, vg. Pronuncia nome, de Pronuncîa verbo. Asimque este deve ser todo o cuidado dos-mestres: que devem advertir aos discipulos, em que partes se-devem pòr, para bater com mais, ou menos forsa as vogais, e distinguir os tempos, e as vozes: vistoque os Portuguezes nam tem letras dobradas, que antigamente serviam a outros, para mostrar as diferentes pronuncias. Porque eles com as dobradas, pronunciavam diferentemente: e os Portuguezes, tirando em pouquisimas palavras, pronunciam como se estivese uma simplez letra.
Nam ignora V.P. que as virgulas, pontos, e dois pontos, foram inventados, para distinguir melhor o discurso. Este é um dos-defeitos da-antiga escritura, que tinha poucos sinais destes: e por-iso é às vezes bem embrulhada. Muitas vezes verá V.P. um ponto, despois de cada palavra: o que faz grandisima confuzam. Outras vezes, o lugar em que punham o ponto, mostrava a diversidade da-pontuasam: quero dizer, que o polo na cabesa, ou no-corpo, ou no-pé da-letra, mostrava que era virgola, dois pontos, e ponto. E como nam temos documentos bem claros, ainda oje vareiam muito os Gramaticos no-determinar, quando era ponto, e quando virgula &c. Com efeito eu vi uma lapide antiga, na qual os pontos todos estavam em um mesmo sitio, no-corpo das-letras: o que aumentava a confuzam. Os Modernos mais advertidos inventáram estes diversos sinais, para nam nos-enganar-mos nas pauzas, e no-sentido do-discurso. Mas ainda nisto procedèram devagar: e eu vi livros impresos nos-primeiros tempos, quero dizer, nos-fins do-seculo XV. e principios do-XVI. nos-quais nam avia mais que virgulas, e todas damesma figura: o que aumentava sensivelmente o embaraso: sendo necesario um grandisimo estudo, para distinguir os sentidos. E isto se-pratîca ainda oje nos-originais das-Bulas Romanas, escritos sem virgulas, nem pontos: os quais quem nam é pratico dos-estilos da-Dataria, nam pode ler; nam só polo carater Gotico, mas pola Pontuasam. Os Modernos evitáram isto, com a diferensa de figuras. Onde sendo os Acentos, os que tiram a confuzam à pronuncia, e ensinam, como se-devem distinguir as partes do-discurso; valem infinito preso, e devem praticar-se com cuidado. Nam digo, que escrupulozamente pratiquemos as trez sortes de acentos: pois nem os mesmos Romanos se-serviam muito do-circumflexo, que com o tempo perdèram. basta uzar do-agudo, que se-escreve asim (´) para bater mais as silabas: do-grave neste modo (`) para as particulas, que se-tocam menos: em algum cazo quem quizese podia pòr o circumflexo sobre o î, para dar lugar ao ponto desima. Ifto é o que basta.
Aos acentos seguem-se as linhas, que se-escrevem entre as disoens, para as-juntar, ou dividir na pronuncia. Os Ebreos tambem tinham estas linhas, e alguns Povos Europeos. Algum Portuguez a-uza. mas serîa justo que a-uzasem mais, e com regras determinadas: pois ajuda muito a pronuncia, e distingue muito as disoens, principalmente as compostas. Julgo, que se-deve uzar naquelas, que compoem duas palavras perfeitas, que costumam estar às vezes separadas. v.g. Fazemos-lhe, lhes-fazem, nos-dizem, dizem-no &c. Com isto se-mostra, quando os Pronomes unem com os Verbos, nam só no-sentido, mas na pronuncia: e finalmente, quando muitas disoens na pronuncia compoem uma. Deve-se tambem pòr entre a Particula se, quando é Pronome, e o Verbo. v.g. Se se-fizer. o primeiro se, é Conjunsam condicional: o segundo, é Pronome, e une com o Verbo. Onde a dita linha é de grande utilidade, para mostrar as palavras, que devem pronunciar-se unidas. v.g. o Nos, algumas vezes é Nominativo, Nós fazemos; e pronuncia-se separado, e com acento forte: outras vezes é Cazo, v.g. nos-fazem: o que se-distingue mui bem com a dita linha. Tambem às vezes serve, para distinguir os tempos. v.g. Amáse preterito, e Ama-se prezente, com esta linha se-distinguem: porque esta separasam de vozes mostra, que, quando chegamos ao a, deve correr a pronuncia, para apanhar o se: que é o mesmo que dizer, deve nam parar no-a, nem carregalo: no-que se-distingue o tempo. Sei, que com os acentos se-podem distinguir estas coizas, digo, este ultimo cazo; e por iso digo, que ou uma, ou outra coiza se-deve praticar: aindaque eu, por-intender que sam necesarias, pratîco ambas.
Quanto ao se, nam só deve ter linha, quando se-une imediatamente ao Verbo, mas tambem quando s’interrompe com a Particula negativa. v. g. se-nam-faz, quando vale o mesmo que, nam se-faz. porque aindaque a Particula paresa que separa; contudo no-dito cazo a negasam é unida ao Verbo, e faz com ele um só corpo, e sentido: damesma sorte que entre os Latinos, a particula in unida aos Verbos. Onde a separasam, é somente quanto à vista: e as duas linhas ensinam, que se-deve pronunciar tudo, como uma só palavra. Serve às vezes a dita linha nam só para unir as palavras, que ese é o seu principal fim; mas para evitar os equivocos. E asim poem-se na Particula Por, quando significa cauza &c. para distinguila do-Verbo Pôr. tambem nas Particulas no, do, da, para as-distinguir dos-Sustantivos nó, e dó, e do-Verbo dá, ou dás. Em todas estas, e outras semelhantes, milita a mesma razam. nas quais porem será justo pòr acento, quando deve ser.
Em outras partes tenho visto uzar estas linhas, que nam me-parecem de tanta necesidade. v.g. Fazemos: que algum douto escreve: Faze-mos: ou tambem quando uma consoante se-converte n’outra, para evitar o concurso de muitas vogais: v.g. Fazé-la, Amá-la, que vale o mesmo que, Fazer-a, Amar-a. Mas nestas primeiras pesoas do-plural parece escuzada, porque se-intendem muito bem, e estam muito em uzo. E o mesmo julgo, dos-segundos exemplos: muito mais porque nestas em que vai La, muitas nam se-acham separadas às vezes, v.g. Quere-la &c. Mas quem nestes segundos exemplos ateimáse a praticala, nam faria erro. O que porem me-parece afetasam é, querer separar esta voz Mente, dos-nomes com que faz Adverbio: Pia-mente, Antiga-mente &c. Na pronuncia destas disoens, nam pode aver engano: e quem as-separa, intende mal as coizas.
Podem opor-me uma dificuldade, vem aser, quando se-dividem as palavras no-fim das-regras, como á-de conhecer quem copeia, se na seguinte regra deve pòr a palavra inteira, ou com a dita linha. Mas a isto respondo, que se-conhece muito bem deste modo: se as palavras se-dividem por-necesidade da-regra, poem-se no-fim duas linhas asim =: quando se-dividem na divizam da-linha, basta pòr uma só linha. Primeiro exemplo asim: Fa=zia: segundo exemplo: Faz-me. Se no-fim da-regra se-acha o Fa= com duas linhas, é sinal que na imprensa, ou copia deve ser inteira a disam: se tem só uma linha, sucedendo ficar toda a disam na seguinte regra, deve ter tambem a linha: e isto é facil de praticar.
Creio que será mui justo, introduzir na lingua Portugueza, os Apostrofes: que sam umas virgulas, que se-escrevem no-alto de uma consoante antes da-vogal seguinte; para mostrar, que falta uma vogal, e que a consoante se-deve unir na pronuncia, com a vogal da-seguinte disam. Digo na proza, porque no-verso o Camoens, e outros ja os-introduzîram. Os nosos Italianos introduzîram os Apostrofes, para abreviarem as disoens: vistoque, comendo-se as ditas vogais na-pronuncia, é superfluo escrevelas: bastando ali pòr o sinal, de que deveriam estar. O mesmo fazem os Francezes: e cuido que, sem alguma censura, o-podem introduzir os Portuguezes. Onde será permetido escrever, Amor d’ Antonio: Cam d’agua &c. A razam disto é, porque ou na proza, ou no-verso nam se-faz cazo daquela primeira vogal: e asim podemo-nos dispensar de a-escrever. Em 2. lugar, porque nam se-perde com isto o sentido, nem se-faz equivoco. Em 3. porque faz a pronuncia mais doce. o que principalmente se-conhece, quando as vogais sam semelhantes: no-qual cazo pronunciar dois ee, ou dois aa, é aspero, e cansa. Asim cuido, que neste cazo, é necesario; nos-outros, mui agradavel o Apostrofe. Nem isto é tam novo em Portugal, que nam se-achem vestigios desta uniam na pronuncia: antes nam á coiza mais frequente. Considere V.P. estas palavras, Deste, Daquele, Damesma, e outras semelhantes; e verá nelas o que digo. Antigamente escrevia-se, De este, De aquela, De a mesma &c. o que facilmente alcansa quem considera, o que vale aquele d, e com que motivo se-introduzio. Mostrou a esperiencia, que, pronunciando estas particulas separadas, ficava aspera a pronuncia: e asim deitaram-nas fóra até da escritura. O que suposto, o que eu aconselho é, que pratiquem com as outras disoens, que se-unem na pronuncia, o mesmo que tem praticado com estas: e que em ambas as partes ponham o Apostrofe, para mostrar a vogal que falta; e com isto ensinar melhor a compozisam das-disoens, sabelas conhecer, e buscar. Apostarei eu, que de dezmil omens Portuguezes, a um só nam veio nunca à imaginasam, que Deste &c. é composta de De, e Este. Proguntei isto a alguns, e nam me-souberam responder: e contudo serviam-se indiferentemente destes termos. Eu teria uzado mais amiudo dos-Apostrofes: mas como ainda nam estam bem introduzidos, temo que me-nam-intendam. pouco a pouco devemos acostumalos a isto.
Outra coiza tenho que repreender, na maior parte dos-Portuguezes, e vem aser, que dividem muitas disoens, que deviam estar juntas. Vg. escrevem, Ainda que, Para que, Com que, Por que, e outras conjunsoens semelhantes. Mas erram, porque aquelas palavras quando se-seguem umas a outras, devem estar unidas, e fazem uma só palavra: e até isto pode ser necesario, para fugir de equivocasoens. Se eu diser: Para que omem me-manda! Com que razam me-persuade! neste cazo o que, é Relativo. e deve estar separado. Mas quando significa o mesmo, que etsi, ut, igitur, quia, como nas quatro asima apontadas; deve estar junto: o que servirá muito, para os-distinguir ambos. Isto mesmo praticáram os Romanos. Attamen, Etenim, sam compostos de At, tamen; Et, enim. Quamobrem é composto de trez disoens, nenhuma das-quais é Adverbio: e contudo juntas fazem de muitos nomes um. E isto mesmo devem fazer os Portuguezes nestas disoens indeclinaveis: e ainda algumas vezes nas declinaveis, que se-unem com o Articulo &c. o que o uzo ensinará; e a pratica dos-omens doutos confirmará.
Tambem sobre os Plurais serîa necesario, establecer um uzo constante. O P. Bento Pereira diz, que o plural de al, é ais, e nam aes. e parece que tem razam; porque a pronuncia mostra um i, e nam um e. Mas nisto á tanta variedade, que uns escrevem ais, outros aes: e o pior é, que o mesmo escritor serve-se às vezes, d’ambas as terminasoens. Um destes é o Bluteau: que, tendo aprovado na Proza Gramatonomica a opiniam do-Pereira, contudo escreve Misaes, e outros plurais semelhantes. Mas ja adverti, que o Bluteau é inconstante na Ortografia. Mais controversos sam, os que acabam em er, como Chanceler, cujo plural querem muitos que seja Chancereis: e nisto tropesa muita gente boa. Cuido, que é mais proprio, e mais chegado à analogia, Chanceleres: e asim todos os mais. Damesma sorte Almiscar, deve fazer, Almiscares. Tambem é mui duvidozo o plural de Simplez, como tambem Feliz. Muitos escrevem o primeiro com x, em ambos os numeros: o que aumenta a confuzam. Outros escrevem no-singular, Simplice: que parece afetasam vergonhoza. Ou acabe em s, ou z no-singular, o plural deve acrecentar somente um es: v.g. Simpleses, ou Simplezes. O mesmo digo, dos-que afetam dizer no-singular, Felice, e plural Felices. Digo, que no-singular deve-se dizer Feliz, ou com s, ou z; e no-plural Felizes: e asim dos-mais. as palavras Indice, e Index, ja oje se-recebem indiferentemente em Portugal. Que Brazil, fasa Brazis, está muito bem: mas que Malsim, Beleguim, fasam Malsis, Beleguis, como querem alguns; é contra a pronuncia boa, que mostra um n mui claro. E asim estes em im, devem acabar em ins, Malsins. Os outros plurais em aons, aens, e oens, é facil determinalos; advertindo as anomalias que se-acham nas tais regras, que nam sam poucas.
Mas nam pára a qui a reforma: deve-se dar um paso mais adiante, e acrecentar muita coiza, em que é defeitoza a lingua Portugueza. Consiste a primeira, em adotar algumas palavras Estrangeiras, para explicar melhor o que queremos. Nam acho em Portugal palavra, que explique a idea que formam os nosos Italianos, (e ainda os Francezes) quando proferem esta palavra, Penso: dizendo, Um omem que pensa bem: Que pensa mal &c. Dizer, Ajuizar, nam explica: porque ajuizar é uma especie de Pensar; mas nam compreende tudo quanto diz, Pensar. Nem menos serve, Considerar: porque considerar é o mesmo que Meditar, Examinar uma materia; e Pensar diz mais. Um meu amigo, para dezatar este nó, servio-se de Pensamentear: mas parece afetado. É mais proprio e natural, servir-se do-Verbo Pensar, que compreende todas as operasoens do-intendimento. Onde, diremos que um omem Pensa bem, quando se-serve de todas as qualidades da-mente ou intendimento, como deve ser.
A mesma dificuldade pode nacer em outras palavras. Aqui confundem Iuizo, e Intendimento: sendo coizas muito diferentes. porque cada nome destes distingue uma particular faculdade da-alma, esta de intender, aquela de julgar. A estas duas unem outras duas, Ingenho, e Talento: as quais nam só sam diferentes das-ditas, mas entre si. Ingenho, somente explica a facilidade que temos, para unir diferentes ideias, de um modo que eleve. Talento, significa a capacidade tanto de intender, como de julgar, e discorrer. Serîa bom, que se-distinguisem estes significados, e se-explicasem aos rapazes, para nam confundir as palavras. Parece-me, que para explicar aquilo, a que os Latinos chamam, Mens, Intelligentia, e algumas vezes Intellectus, se-podia adotar em Portugal a palavra Mente, como fazem os nosos: a qual explica melhor tudo. O uzo tem introduzido, que Intendimento seja sinonimo de Mente.