A Aventura do Pudim de Natal
Capítulo IV
Poirot não pretendia ver Charles Rich antes de conhecer todos os outros.
Começou pelo Comandante McLaren.
McLaren era alto, moreno e pouco comunicativo. Tinha feições duras, mas agradáveis. Era tímido e de conversa difícil. Mas Poirot insistiu.
Segurando o bilhete de Margharita, McLaren falou, quase relutante:
— Bem, se Margharita quer que eu lhe diga o que sei, é claro que farei isso. Embora não saiba o que dizer. O senhor já ouviu tudo. Mas qualquer coisa que Margharita queira — sempre fiz todas as suas vontades — desde que ela tinha dezesseis anos. É o jeitinho dela, o senhor sabe.
— Sei, sim — respondeu Poirot, e prosseguiu: — Em primeiro lugar, gostaria que me respondesse uma pergunta com toda honestidade. O senhor acha que o Major Rich é o culpado?
— Acho, sim. Não diria isso a Margharita, já que ela quer que ele seja inocente, mas simplesmente não consigo ver outra saída. É o diabo, mas só pode ser ele o culpado.
— Havia alguma animosidade entre ele e o Sr. Clayton?
— Nem sombra. Arnold e Charles eram grandes amigos. E é isto que torna o caso tão extraordinário.
— Talvez a amizade entre o Major Rich e a Sra. Clayton...
Foi interrompido.
— Bah! Isso é balela. Todos os jornais fazem esta maldosa insinuação... Malditas indiretas! A Sra. Clayton e Rich eram bons amigos, e só! Margharita tem muitos amigos. EU sou seu amigo. Há anos. E não há nada que não possa ser dito a todo o mundo. A mesma coisa entre Charles e Margharita.
— Então o senhor acha que eles não estavam tendo um caso?
— Claro que NÃO!— McLaren estava irado. — Não dê ouvidos àquela víbora que é a Sra. Spence. Ela é capaz de dizer qualquer coisa.
— Mas talvez o senhor Clayton suspeitasse da existência de algo entre a mulher dele e o Major Rich.
— Pode ir por mim — ele não suspeitava de nada no gênero! Caso contrário, eu saberia. Arnold e eu éramos muito ligados.
— Que tipo de pessoa era ele? O senhor, mais do que qualquer um, deve saber.
— Bem, Arnold era um camarada tranqüilo. Mas era inteligente — brilhante, eu acho. O que eles chamam de cérebro financeiro de primeira classe. Ocupava um alto cargo no Ministério da Fazenda, o senhor sabe.
— Foi o que me disseram.
— Lia um bocado. E colecionava selos. E gostava extremamente de música. Não dançava, e nem fazia muita questão de sair.
— O senhor acha que o casamento era feliz?
A resposta do Comandante McLaren não veio logo. Parecia estar se decidindo.
— Este tipo de coisa é difícil de dizer... Sim, acho que eram . Ele era devotado a ela, no seu modo tranqüilo. Tenho certeza de que ela gostava muito dele. Não pareciam estar prestes a se separar, se é isto que o senhor está imaginando. Talvez não tivessem muita coisa em comum.
Poirot assentiu. Era o máximo que conseguiria saber. Falou:
— Agora me fale sobre a última noite. O Sr. Clayton jantou com o senhor no clube. O que disse ele?
— Disse-me que tinha que ir à Escócia. Parecia estar aborrecido com o fato. A propósito, não jantamos. Não dava tempo. Comeu sanduíches e tomou uns drinques. Só ele. Eu tomei apenas o drinque. Lembre-se que eu ia a um jantar.
— O Sr. Clayton mencionou um telegrama?
— Mencionou.
— Ele chegou a lhe mostrar o telegrama?
— Não.
— Ele lhe disse que ia passar na casa de Rich?
— Não com certeza. Na verdade disse que tinha dúvidas se daria tempo. Falou: “Margharita pode explicar, ou então você.” E acrescentou: “Leve-a direitinho para casa, está bem?” Depois saiu. Foi tudo muito simples e natural.
— E ele nem desconfiava que o telegrama não era verdadeiro?
— Não era? — O Comandante McLaren ficou espantado.
— Aparentemente, não.
— Que estranho... — O Comandante McLaren entrou numa espécie de coma, saindo subitamente para dizer: — Mas é muito estranho. Quer dizer, qual o objetivo? Por que alguém quereria que ele fosse à Escócia?
— Esta é uma pergunta que, certamente, necessita de uma resposta.
Hercule Poirot saiu, deixando o comandante aparentemente elaborando o assunto.