A Aventura do Pudim de Natal
O Reprimido
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Lily Margrave alisou a luva sobre o joelho, num gesto nervoso, e lançou um olhar para o ocupante da enorme cadeira, diante dela.
Já ouvira falar em M. Hercule Poirot, o famoso detetive, mas aquela era a primeira vez que o via em carne e osso.
O aspecto cômico, quase ridículo, que ele aparentava perturbou a concepção que fazia a seu respeito. Será que aquele homenzinho engraçado, de cabeça oval e enormes bigodes, era realmente capaz de fazer as maravilhas que lhe eram atribuídas? Naquele momento, sua ocupação espantou-a por parecer particularmente infantil. Empilhava pequenos blocos de madeira, coloridos, e dava a impressão de estar muito mais interessado no resultado do que na história que ela estava contando.
Quando ela se calou de repente, no entanto, olhou-a prontamente.
— Mademoiselle, continue, por favor. Não pense que não estou ouvindo; pelo contrário, ouço com muita atenção.
Começou novamente a empilhar os pequenos blocos de madeira, assim que a moça retomou sua história. Era uma história horrível, violenta e trágica, mas a voz era tão calma e tão destituída de emoção, a narração tão concisa, que parecia estar faltando um toque de humanidade.
Ela acabou finalmente.
— Espero — falou ansiosa — que tenha deixado tudo claro.
Poirot balançou a cabeça diversas vezes, em sinal de enfático assentimento. Depois passou a mão pelos blocos de madeira, espalhando-os sobre a mesa e, recostando-se em sua cadeira, as pontas dos dedos bem juntas e os olhos fixos no teto, começou a recapitular.
— Sir Reuben Astwell foi assassinado há dez dias atrás. Na quarta-feira, antes de ontem, o sobrinho dele, Charles Leverson, foi Preso pela polícia. Pelo que a senhorita sabe, os fatos contra ele são os seguintes — Corrija-me se estiver errado, Mademoiselle: Sir Reuben ficou acordado até tarde, escrevendo em seu gabinete privado, a sala da Torre. O Sr. Leverson chega em casa tarde, abrindo a Porta com sua própria chave. O mordomo, cujo quarto fica diretamente abaixo da sala da Torre, ouviu-o a discutir com o tio. A discussão terminou com um ruído surdo, repentino, como o de uma cadeira caindo no chão, e com um grito meio abafado. O mordomo ficou assustado e pensou em se levantar para ver o que tinha havido, mas segundos depois ouviu o Sr. Leverson sair do gabinete alegremente, assoviando uma música e não pensou mais no assunto. Na manhã seguinte, no entanto, uma empregada descobriu Sir Reuben morto ao lado da escrivaninha. Havia sido atingido por um instrumento pesado. O mordomo, suponho, não contou logo sua história à polícia. O que é natural, creio eu, hein, Mademoiselle?
A pergunta inesperada assustou Lily Margrave.
— O que foi que o senhor disse? — falou.
— Sempre procuramos o lado humano nestes casos, não é verdade? — perguntou o homenzinho. — Sua narração da história — tão admirável, tão concisa — transformou os personagens deste drama em máquinas — fantoches. Mas eu, eu sempre investigo a natureza humana. Digo para mim mesmo — este mordomo, este tal de... como é mesmo o nome dele?
— Chama-se Parsons.
— Este tal de Parsons, pois, deve ter as características de sua classe, deve se opor fortemente à polícia, deve contar o mínimo possível. Acima de tudo, não dirá nada que possa incriminar um dos membros da casa. Um assaltante, um ladrão, ele se prenderá a esta idéia com todas as forças de uma obstinação extrema. Sim, a lealdade dos empregados é um estudo interessante.
Recostou-se, radiante.
— Nesse ínterim — prosseguiu — todos os membros da casa contaram sua versão, dentre eles o Sr. Leverson, e a versão dele é que chegara em casa tarde e fora se deitar sem ver o tio.
— Foi isso o que disse.
— E ninguém tinha motivos para pôr a versão em dúvida — ponderou Poirot — exceto Parsons, é claro. Depois, eis que entra em cena um inspetor da Scotland Yard, Inspetor Miller, não foi esse o nome que a senhorita disse? Eu o conheço, já cruzei com ele uma ou duas vezes, tempos atrás. É o que costumam chamar de um homem decidido, o furão, o esperto. Sim, eu o conheço! E o decidido Ins-petor Miller percebe aquilo que havia escapado ao inspetor local, que Parsons está pouco à vontade, e que deixou de dizer alguma coisa. Eh bien, ele liquida Parsons rapidamente. Àquela altura, já havia sido claramente provado que ninguém entrara na casa para roubar, e que o assassino devia ser encontrado dentro e não fora da casa. Parsons sente-se infeliz e assustado, e com grande alívio deixa que lhe seja sabido o segredo. Fizera o possível para evitar um escândalo, mas há limites; e então o Inspetor Miller ouve a história de Parsons, faz uma ou duas perguntas, e parte para suas próprias investigações. O desenvolvimento do caso é evidente — muito evidente. Dedos manchados de sangue apoiaram-se na quina do móvel da sala da Torre, e as impressões digitais eram as de Charles Leverson. A empregada disse a ele que esvaziara uma bacia com água suja de sangue, no quarto do Sr. Leverson, na manhã seguinte ao crime. Ele explicou a ela que havia cortado o dedo, e realmente havia um pequenino corte, havia sim, mas era um cortezinho tão pequeno! O punho da camisa que usara à noite fora lavado, mas foram encontradas manchas de sangue na manga de seu paletó. Ele estava seriamente necessitado de dinheiro, e herdaria a fortuna de Sir Reuben quando este morresse. Ah, sim, um caso muito evidente, Mademoiselle.
Fez uma pausa.
— Mesmo assim, a senhorita me procura hoje.
Lily Margrave sacudiu seus ombros esguios.
— Como lhe disse, M. Poirot, Lady Astwell mandou-me.
— A senhorita não teria vindo por vontade própria, não é mesmo?
O homenzinho lançou-lhe um olhar manhoso. A moça não respondeu.
— A senhorita não respondeu minha pergunta.
Lily Margrave começou a alisar as luvas novamente.
— É um tanto difícil para mim, M. Poirot. Tenho que considerar minha lealdade a Lady Astwell. Estritamente falando, sou apenas sua dama de companhia, mas ela sempre me tratou como uma filha ou sobrinha. Tem sido extremamente boa e, quaisquer que sejam seus defeitos, não gostaria que pensasse que critico suas ações, ou... bem, não gostaria de induzi-lo a preconceito em relação ao caso.
— Impossível induzir Hercule Poirot a preconceito, cela ne ce fait pas — declarou o homenzinho alegremente. — Percebo que a senhorita acha que Lady Astwell está com alguma idéia fixa. É ou não é verdade?
— Já que o senhor me perguntou...
— Fale, Mademoiselle.
— Acho tudo isso uma grande tolice.
— É esta a impressão que lhe causa, não?
— Não gostaria de falar nada contra Lady Astwell...
— Compreendo — murmurou Poirot, gentilmente. — Compreendo perfeitamente. — Seus olhos induziam-na a prosseguir.
— Ela é, realmente, um tipo maravilhoso, e extremamente bondosa, mas não é — como direi? Não é uma mulher educada. O senhor sabe que ela era atriz quando se casou com Sir Reuben, de forma que tem tudo quanto é preconceito e superstição. Quando ela diz qualquer coisa, tem que ser aquilo, e simplesmente se recusa a ouvir quaisquer argumentos. O inspetor não teve muito tato com ela, e ela se enfureceu. Diz que é bobagem suspeitar do Sr. Leverson, que é o tipo do erro idiota e estúpido que a polícia costuma cometer e que, é claro, o querido Charles não fez nada daquilo.
— Mas ela não tem lá suas razões?
— De jeito nenhum.
— Ah! É mesmo? Ora essa!
— Eu disse a ela — prosseguiu Lily — que não adiantaria nada vir até aqui com essa simples frase, e nada além disso.
— A senhorita disse isso — falou Poirot, — disse mesmo? Interessante.
Olhou Lily Margrave de alto a baixo, num exame rápido e abrangente, percebendo os detalhes de sua roupa preta e arrumada, o toque de branco na garganta e o elegante chapeuzinho preto. Viu a elegância da moça, seu belo rosto com o queixo ligeiramente pontudo, os olhos azuis-escuros, com longos cílios. Insensivelmente, sua atitude mudou; naquele momento estava mais interessado na moça que se encontrava diante dele do que no caso propriamente.
— Lady Astwell, imagino eu,
Mademoiselle, é um pouco fútil, com ligeira tendência ao desequilíbrio e à histeria, não é mesmo?
Lily Margrave assentiu enfaticamente.
— Isto a descreve com exatidão. Ela é, como já lhe disse, muito boa, mas é impossível argumentar com ela, ou fazer com que ela veja as coisas com lógica.
— Talvez ela tenha suas próprias suspeitas — sugeriu Poirot. — Talvez suspeite de uma pessoa um tanto absurda.
— Exatamente — gritou Lily. — Está terrivelmente desconfiada do secretário de Sir Reuben, pobre coitado. Diz que sabe que foi ele. No entanto, já foi devidamente provado que não pode ter sido o pobre Owen Trefusis.
— E ela não tem motivo nenhum?
— Claro que não; é apenas intuição.
O tom de voz de Lily Margrave foi bastante sarcástico.
— Percebo Mademoiselle — disse Poirot, sorrindo — que a senhora não acredita em intuição.
— Acho que é bobagem — retrucou Lily.
Poirot recostou-se em sua cadeira.
— Les femmes — murmurou — elas acham que a intuição é uma arma especial que lhes foi dada por Deus, mas para cada simples acerto, pelo menos nove vezes são induzidas a erro.
— Eu sei — disse Lily — mas já lhe disse como é Lady Astwell. É simplesmente impossível discutir com ela.
— De forma que a senhorita, sendo sensata e discreta, veio me procurar como lhe foi pedido, e conseguiu pôr-me au courant da situação.
Alguma coisa em seu tom de voz fez com que a moça o olhasse subitamente.
— É claro que sei — disse Lily, desculpando-se — como seu tempo é valioso.
— A senhorita muito me lisonjeia, Mademoiselle, mas de fato — sim, é verdade, no presente momento tenho muitos casos em mãos.
— Era o que eu receava — disse Lily, levantando-se. — Direi a Lady Astwell...
Mas Poirot não se levantou. Pelo contrário, encostou-se em sua cadeira e olhou a moça fixamente.
— A senhorita tem pressa, Mademoiselle? Sente-se mais um minuto, eu lhe peço.
Ele viu o rubor chegar e sair de seu rosto. Ela sentou-se de novo, vagarosamente e a contragosto.
— A senhorita é rápida e decidida — disse Poirot. — Deve fazer concessões a um velho como eu, que decide as coisas devagar. Fui mal interpretado, Mademoiselle. Não disse que não iria ver Lady Astwell.
— O senhor virá, então?
A voz da moça tornou-se apática. Ela não olhava para Poirot, e sim para o chão, totalmente inconsciente do olhar penetrante que lhe estava sendo dirigido.
— Diga a Lady Astwell, Mademoiselle, que estou a seu inteiro dispor. Estarei em — Mon Repos, não é? — hoje à tarde.
Levantou-se. A moça o seguiu.
— Eu... eu direi a ela. E muita bondade sua, M. Poirot. Receio, no entanto, que o senhor esteja sendo levado a uma investigação inútil.
— É bem provável, mas... quem sabe?
Levou-a até a porta e despediu-se com formalidade. Depois voltou para a sala de estar, a testa franzida, mergulhado em seus pensamentos. Balançou a cabeça uma ou duas vezes, depois abriu a porta e chamou seu secretário.
— Meu caro George, prepare-me uma maleta, por favor. Irei para o campo hoje à tarde.
— Está bem, sir.
Era uma pessoa de aparência extremamente inglesa: alto, cadavérico, e destituído de emoção.
— Uma jovem é um fenômeno muito interessante, George — disse Poirot, ao largar-se novamente em sua poltrona e acender um cigarro. — Principalmente, você entende, quando raciocina. Pedir a alguém para fazer uma coisa e, ao mesmo tempo, tentar evitar que a pessoa o faça, é uma operação delicada. Requer astúcia. Ela foi muito habilidosa — oh, muito habilidosa — mas Hercule Poirot, caro George, tem uma inteligência deveras excepcional.
— O senhor já disse isso antes, sir.
— Ela não está pensando no secretário — refletiu Poirot. — Ela trata a acusação de Lady Astwell com desprezo. Mesmo assim, está ansiosa para que não se mexa em casa de marimbondos. Eu, meu caro George, eu irei mexer, farei com que os marimbondos saiam! Existe um drama em Mon Repos. Um drama humano, e ele me atrai. Ela foi habilidosa, aquela pequena, mas não o suficiente. Fico imaginando... fico imaginando o que encontrarei lá.
A voz de George, desculpando-se, interrompeu a pausa dramática que se seguiu a estas palavras.
— Devo colocar outras roupas na mala, sir?
Poirot olhou-o com tristeza.
— Sempre a mesma concentração, a mesma atenção para com suas tarefas. Você é muito bom para mim, George.
Quando o trem das 4h55min chegou à estação de Abbots Cross, dele saiu Hercule Poirot, vestido elegante e afetadamente, os bi-godes engomados até o ponto de rigidez. Entregou seu bilhete, cruzou o portão, e foi abordado por um chofer alto.
— M. Poirot?
O homenzinho olhou-o sorridente.
— Sou eu mesmo.
— Por aqui, sir, por favor.
Abriu a porta de um grande Rolls Royce.
A casa ficava a uns três minutos da estação. O chofer saltou mais uma vez, abriu a porta do carro, e Poirot desceu. O mordomo já o aguardava com a porta da frente aberta.
Poirot deu uma olhadela breve e apreciativa no exterior da casa, antes de cruzar a porta. Era uma enorme mansão, solidamente construída com tijolos vermelhos, sem nenhuma pretensão à beleza, mas com um ar de conforto sólido.
Poirot entrou no vestíbulo. O mordomo ajudou-o destramente a tirar o chapéu e o sobretudo, e disse-lhe no murmúrio respeitoso, característico dos melhores empregados:
— A senhora está à sua espera, sir.
Poirot subiu a escada, coberta por um tapete macio, atrás dele. Este, sem dúvida, era Parsons, um mordomo muito bem treinado, cujas maneiras eram adequadamente destituídas de emoção. No topo da escada, tomou um corredor à direita. Passou por uma porta que dava para uma pequena ante-sala, onde havia mais duas portas. Abriu a da esquerda e anunciou:
— M. Poirot, senhora.
O aposento não era muito grande e estava abarrotado de móveis e bugigangas. Uma mulher, vestida de preto, levantou-se de um sofá e caminhou rapidamente em direção a Poirot.
— M. Poirot — disse ela, com a mão estendida. Em questão de segundos, seus olhos percorreram a figura ajanotada. Ela fez uma ligeira pausa, ignorando o homenzinho que se curvava sobre sua mão e o murmúrio “Madame”, e então, soltando a mão dela, depois de um súbito e vigoroso aperto, exclamou:
— Eu acredito nos baixinhos! Eles é que são inteligentes.
— O Inspetor Miller — murmurou Poirot — é um homem alto se não me engano.
— Ele é idiota e presunçoso — disse Lady Astwell. — Sente-se aqui ao meu lado, por favor, M. Poirot.
Ela mostrou o sofá e prosseguiu:
— Lily fez o possível para me convencer a não chamá-lo, mas ainda não chegou o momento de decidirem as coisas por mim.
— Uma coisa rara de se ver — disse Poirot, ao acompanhá-la até o sofá.
Lady Astwell arrumou-se confortavelmente entre as almofadas, de forma a ficar de frente para ele.
— Lily é uma moça muito querida — disse Lady Astwell — mas pensa que sabe tudo e, segundo minha experiência, pessoas assim quase sempre estão erradas. Não sou inteligente, M. Poirot, nunca fui, mas tenho razão em coisas que muitas pessoas mais estúpidas que eu não têm. Acredito em intuição. O senhor quer que eu lhe diga quem é o assassino, ou não? As mulheres sabem, M. Poirot.
— A Srta. Margrave sabe?
— O que foi que ela lhe disse? — perguntou Lady Astwell abruptamente.
— Ela narrou os fatos do caso.
— Os fatos? Oh, é claro que eles são definitivamente contra Charles, mas eu lhe digo, M. Poirot, não foi ele. Eu sei que não foi ele! — Ela se inclinou sobre ele com uma veemência quase desconcertante.
— A senhora tem certeza, Lady Astwell?
— Trefusis matou meu marido, M. Poirot. Disso eu tenho certeza.
— Por quê?
— O senhor quer saber por que ele matou meu marido, ou por que eu tenho certeza? Digo-lhe que sei disso! Sou engraçada nesse tipo de coisa. Chego a uma conclusão imediatamente, e apego-me a ela.
— O Sr. Trefusis teria algum benefício com a morte de Sir Reuben?
— Não lhe deixou nenhum centavo — respondeu Lady Astwell, prontamente. — O que apenas demonstra que o querido Reuben não gostava ou não confiava nele.
— E ele já estava há muito tempo com Sir Reuben?
— Quase nove anos.
— É um bocado de tempo — disse Poirot, delicadamente — muito tempo para se trabalhar para uma só pessoa. É, o Sr. Trefusis devia conhecer seu patrão muito bem.
Lady Astwell encarou-o.
— Aonde o senhor quer chegar? Não vejo o que uma coisa tem a ver com a outra.
— Estava desenvolvendo uma ideiazinha — disse Poirot. — Uma ideiazinha que talvez não seja interessante, mas que não deixa de ser original, sobre os efeitos do serviço.
Lady Astwell continuava com os olhos fixos nele.
— O senhor é muito inteligente, não é? — perguntou ela, em tom de dúvida. — É o que todos dizem.
Hercule Poirot deu uma gargalhada.
— Talvez a senhora também me faça este elogio, Madame, qualquer dia desses. Mas voltemos ao motivo. Fale-me, agora, sobre as pessoas da casa, sobre as pessoas que se encontravam aqui no dia da tragédia.
— Havia Charles, é claro.
— Pelo que eu saiba, ele era sobrinho de seu marido, e não seu.
— É, Charles era o único filho da irmã de Reuben. Ela se casou com um homem relativamente rico, mas aconteceu um desastre qualquer — como acontecem nas cidades — ele morreu, a mulher morreu também e Charles veio morar conosco. Estava com vinte e três anos na ocasião, quase formado em Direito. Mas quando surgiram os problemas, Reuben levou-o para o escritório.
— E M. Charles era trabalhador?
— Gosto de homens que pegam as coisas com rapidez — disse Lady Astwell, balançando a cabeça em aprovação. — Não, e aí é que está o problema, Charles não era trabalhador. Estava sempre entrando em atrito com o tio por causa de uma ou outra confusão que inventava. Não que o pobre Reuben fosse uma pessoa de fácil convivência. Muitas foram as vezes em que eu mesma lhe disse que ele se esquecera o que era ser jovem. Naquele tempo ele era muito diferente, M. Poirot.
Lady Astwell deu um suspiro de recordação.
— As mudanças são inevitáveis, Madame — disse Poirot. — E a vida.
— Mesmo assim — prosseguiu Lady Astwell — ele nunca foi realmente rude comigo. Pelo menos quando era, sempre ficava tristonho depois — meu querido Reuben.
— Era uma pessoa difícil, hein? — perguntou Poirot.
— Sempre consegui controlá-lo — respondeu Lady Astwell, com o ar de um domador de leões vitorioso. — Mas era um tanto desagradável, às vezes, quando ele perdia a paciência com os empregados. Existem meios de se fazer isso, e o de Reuben não era o mais correto.
— Como foi feita, exatamente, a divisão do dinheiro de Sir Reuben, Lady Astwell?
— Metade para mim e metade para Charles — respondeu Lady Astwell, prontamente. — Os advogados não apresentam os fatos com tanta simplicidade, mas na verdade é isso.
Poirot balançou a cabeça.
— Entendo... entendo — murmurou. — Agora, Lady Astwell, vou lhe pedir que descreva as pessoas da casa. Havia a senhora, e o sobrinho de Sir Reuben, o Sr. Charles Leverson, e o secretário, o Sr. Owen Trefusis, e a Srta. Lily Margrave. Talvez a senhora me fale um pouco sobre esta moça.
— O senhor quer que eu fale sobre Lily?
— Quero. Ela está com a senhora há muito tempo?
— Há cerca de um ano. Já tive muitas damas de companhia, o senhor sabe, mas, de uma forma ou de outra, todas acabavam me dando nos nervos. Ela tem muito tato e bom-senso e, além do mais, é tão simpática. Não gosto de aparentar o que não sou, M. Poirot. Sou uma pessoa engraçada; gosto ou não das pessoas logo à primeira vista. Assim que vi esta moça, disse a mim mesma: “Esta serve.”
— Ela lhe foi mandada por alguma amiga, Lady Astwell?
— Acho que veio por um anúncio. É — foi isso.
— A senhora sabe de alguma coisa sobre a família dela, de onde ela veio?
— Os pais dela estão na Índia, creio eu. A bem da verdade, não sei muita coisa a respeito deles, mas percebe-se logo que Lily é uma dama, não é mesmo, M. Poirot?
— Oh, perfeitamente, perfeitamente.
— É claro — prosseguiu Lady Astwell — que eu mesma não sou uma dama. Sei disso, e os empregados sabem, mas também não sou nada mesquinha. Eu sei apreciar uma coisa verdadeira quando a vejo, e ninguém poderia ter sido mais bondosa para mim do que Lily. Considero esta moça quase como uma filha, M. Poirot, é verdade.
Poirot esticou a mão direita e arrumou um ou dois objetos que estavam sobre a mesa, perto dele.
— Sir Reuben compartilhava seus sentimentos? — perguntou.
Os olhos dele estavam ocupados com as bugigangas mas, sem duvida alguma, ele percebeu a pausa que antecedeu a resposta de Lady Astwell.
— Os homens são diferentes. É claro que eles... eles se davam muito bem.
— Obrigado, Madame — disse Poirot. Sorria para si mesmo. — E eram estas as únicas pessoas que se encontravam em casa, naquela noite? Excetuando-se os empregados, é claro.
— Oh, o Victor também estava.
— Victor?
— É, irmão do meu marido, sabe, e seu sócio.
— Ele morava aqui?
— Não, havia chegado recentemente para nos visitar. Ele mora na África Ocidental já há alguns anos.
— África Ocidental — murmurou Poirot.
Poirot havia percebido que Lady Astwell era capaz de desenvolver um assunto por si mesma, desde que lhe fosse dado algum tempo.
— Dizem que é um país maravilhoso, mas acho que é o tipo do lugar que pode ter um efeito negativo sobre os homens. Eles bebem demais e perdem o controle. Nenhum dos Astwell tem temperamento fácil, e Victor, desde que voltou da África, tem sido simplesmente chocante. Ele já assustou a mim uma ou duas vezes.
— Teria, por acaso, assustado a Srta. Margrave? — murmurou Poirot gentilmente.
— Lily? Oh, não creio que tenha estado muito com Lily.
Poirot fez umas anotações em seu minúsculo caderno; depois colocou o lápis de volta na presilha e pôs o caderno em seu bolso.
— Eu lhe agradeço, Lady Astwell. Agora, se me permite, entrevistarei Parsons.
— Quer que o chame?
A mão de Lady Astwell dirigiu-se para a campainha. Poirot impediu o gesto rapidamente.
— Não, não, mil vezes não. Falarei com ele lá embaixo.
— Já que o senhor prefere...
Lady Astwell ficou visivelmente desapontada por não poder participar da cena seguinte. Poirot assumiu um ar secreto.
— É essencial — disse misteriosamente, deixando Lady Astwell devidamente impressionada.
Encontrou Parsons na copa, polindo a prataria. Poirot deu início à conversa com uma de suas breves e engraçadas reverências.
— Devo explicar quem sou — disse. — Um detetive.
— Sim, sir — respondeu Parsons. — Já imaginávamos.
Seu tom era respeitoso, mas arredio.
— Lady Astwell mandou me chamar — prosseguiu Poirot. — Ela não está satisfeita, não, não está satisfeita mesmo.
— Já ouvi a patroa dizer isso em diversas ocasiões — replicou Parsons.
— Neste caso — falou Poirot, — estou lhe dizendo as coisas que você já sabe, hein? Não percamos tempo, então, com bobagens. Tenha a bondade de me levar ao seu quarto e de me dizer exatamente o que ouviu na noite do crime.
O quarto do mordomo ficava no andar térreo, ao lado do saguão dos empregados. Tinha janelas com grades e a casa-forte ficava em um dos cantos. Parsons mostrou sua cama estreita.
— Eu havia me recolhido, sir, às onze horas. A Srta. Margrave já fora se deitar, e Lady Astwell estava com Sir Reuben na sala da Torre.
— Lady Astwell estava com Sir Reuben? Ah, prossiga.
— A sala da Torre, sir, fica exatamente aqui em cima. Quando tem alguém conversando lá, podemos apenas ouvir o murmúrio das vozes, mas, naturalmente, nada do que está sendo dito. Devo ter adormecido por volta das onze e meia. À meia-noite fui acordado com o barulho da porta da frente e sabia que era o Sr. Leverson que havia chegado. Logo depois ouvi passos aqui em cima e, um ou dois minutos depois, ouvi a voz do Sr. Leverson conversando com Sir Reuben. Naquele momento, sir, tive a impressão de que o Sr. Leverson estava... não deveria dizer exatamente bêbado, mas ligeiramente indiscreto e barulhento. Gritava com o tio a plenos pulmões. Distingui uma ou outra palavra, mas não o suficiente para entender o que estava se passando, e depois ouvi um grito agudo e uma pancada pesada.
Houve uma pausa, e Parsons repetiu as últimas palavras.
— Uma pancada pesada, repetiu, impressionado.
— Se não me engano, na maioria dos romances diz-se uma pancada surda — murmurou Poirot.
— Talvez, sir — retrucou Parsons seriamente. — Mas eu ouvi uma pancada pesada.
— Mil perdões — disse Poirot.
— Não tem de que, sir. Depois da pancada, no silêncio, ouvi o Sr. Leverson gritar com nitidez mais que total. “Meu Deus”, disse ele, “meu Deus”, assim mesmo, sir.
Parsons, que antes relutara em contar sua história, agora chegava a sentir um verdadeiro prazer. Imaginava-se um grande narrador. Poirot o incentivava.
— Mon Dieu — murmurou. — E que emoção não deve ter sentido!
— Mas é verdade mesmo, sir — disse Parsons, — como o senhor disse. Não que eu tenha pensado muito no assunto, naquela hora. Mas realmente me ocorreu a idéia de que alguma coisa estava errada, e pensei se não seria melhor eu me levantar para ir ver. Ia acender a luz mas, por azar, derrubei uma cadeira. Abri a porta, atravessei o saguão dos empregados, e abri a outra porta que dá Para um corredor. A escada dos fundos fica nesse corredor, e eu fiquei ao pé dela, hesitando. Ouvi o Sr. Leverson dizer lá de cima, animado e cordial: “Nada de mais, felizmente. Boa-noite.” E ouvi quando se afastou, pelo corredor, em direção ao seu quarto, asso-viando. É claro que voltei para a cama imediatamente. Deve ter caído alguma coisa, foi o que pensei. E eu lhe pergunto, sir, era de se imaginar que Sir Reuben tivesse sido assassinado, se o sobrinho dele lhe deu boa-noite e tudo o mais?
— Você tem certeza de que a voz que ouviu era a do Sr. Leverson?
Parsons olhou o pequeno belga com ar de dó, e Poirot percebeu claramente que, certo ou errado, Parsons não tinha a menor dúvida.
— Mais alguma coisa que o senhor queira me perguntar, sir?
— Só uma — disse Poirot, — você gosta do Sr. Leverson?
— Como... como disse, sir?
— É uma pergunta simples. Você gosta do Sr. Leverson?
Parsons, assustado a princípio, agora parecia embaraçado.
— A opinião geral dentre os empregados, sir — começou, e fez uma pausa.
— Não se acanhe — disse Poirot, — fale como achar melhor.
— A opinião, sir, é que o Sr. Leverson é um jovem generoso, sem ser particularmente inteligente, se me permite, sir.
— Ah! — disse Poirot. — Você sabe, Parsons, que mesmo sem conhecê-lo é exatamente esta a idéia que faço do Sr. Leverson?
— Não diga, sir.
— Qual sua opinião, ou melhor, a opinião dos empregados sobre o secretário?
— É um cavalheiro muito calmo e paciente, sir. Faz o possível para não causar problemas.
— Vraiment — disse Poirot.
O mordomo tossiu.
— A patroa, sir — murmurou ele, — tende a ser um pouco apressada em seu julgamento.
— Então, na opinião geral dos empregados, o Sr. Leverson cometeu o crime?
— Nenhum de nós deseja achar que tenha sido o Sr. Leverson — respondeu Parsons. — Nós... bem, para ser claro, não pensávamos que ele fosse capaz de tal coisa, sir.
— Mas o temperamento dele é um tanto violento, não é mesmo?
Parsons aproximou-se de Poirot.
— Se o senhor deseja saber quem tinha o temperamento mais violento desta casa...
Poirot levantou uma das mãos.
— Ah! Mas eu não faria tal pergunta — disse calmamente. — Minha pergunta seria: quem tem o melhor temperamento?
Parsons encarou-o, boquiaberto.
Poirot não perdeu mais tempo com ele. Com um amável cumprimento — ele era sempre amável — saiu do quarto e perambulou pelo vestíbulo, grande e quadrado, de Mon Repos. Ali deixou-se ficar pensando durante um ou dois minutos e depois, ao ouvir um ligeiro ruído, inclinou a cabeça para o lado, como um tordo saltitante e, finalmente, encaminhou-se para uma das portas, silenciosamente.
Ficou parado na porta, olhando para a sala; uma pequena sala com aspecto de biblioteca. Numa enorme escrivaninha, na outra extremidade, um jovem magro e pálido escrevia qualquer coisa. Tinha o queixo para dentro e usava pince-nez.
Poirot observou-o durante alguns minutos e depois quebrou o silêncio com um pigarro completamente artificial e teatral.
— Aham! — pigarreou Hercule Poirot.
O jovem na escrivaninha parou de escrever e virou a cabeça. Não parecia estar muito assustado, mas seu rosto assumiu um ar de perplexidade ao avistar Poirot.
Este aproximou-se com um breve cumprimento de cabeça.
— Tenho a honra de falar com M. Trefusis, não é? Ah! Meu nome é Poirot, Hercule Poirot. Talvez já tenha ouvido falar a meu respeito.
— Oh... é... sim, sem dúvida — respondeu o jovem.
Poirot observou-o atentamente.
Owen Trefusis tinha cerca de trinta e três anos, e o detetive percebeu imediatamente por que ninguém conseguia levar a sério a acusação de Lady Astwell. O Sr. Owen Trefusis era um jovem formal, correto, desconcertantemente humilde, o tipo de pessoa que pode ser, e é, sistematicamente intimidada. Podia-se ter quase certeza de que ele jamais demonstraria qualquer ressentimento.
— Lady Astwell mandou chamá-lo, é claro — disse o secretário. — Ela mencionou que iria fazê-lo. Há alguma coisa em que eu possa ajudá-lo?
Seus modos eram educados, mas não efusivos. Poirot aceitou uma cadeira e murmurou gentilmente:
— Por acaso Lady Astwell lhe disse alguma coisa sobre suas crenças e suspeitas?
Owen Trefusis deu um breve sorriso.
— Quanto a isso — disse ele — acho que ela desconfia de mim. E um absurdo, mas é verdade. Ela mal me dirige a palavra desde a morte de Sir Reuben, encolhe-se na parede toda vez que passa por mim.
Seu jeito era perfeitamente natural, e o tom de voz aparentava ser mais divertido do que ressentido. Poirot assentiu, com ar de cumplicidade.
— Cá entre nós — explicou ele, — ela me disse a mesma coisa. Não discuti com ela — tenho por regra nunca discutir com mulheres muito dogmáticas. Você entende, é uma perda de tempo.
— Ah, se é.
— Digo sempre: sim, Madame — oh, perfeitamente, Madame — précisément, Madame. Estas palavras não significam nada, mas acalmam do mesmo jeito. Faço minhas próprias investigações, porque embora pareça quase impossível que outra pessoa além do Sr. Leverson tenha cometido o crime, ainda assim... bem, o impossível acontece.
— Compreendo perfeitamente sua posição — disse o secretário. — Por favor, considere-me ao seu inteiro dispor.
— Bon — replicou Poirot. — Nós nos entendemos. Agora fale-me dos acontecimentos daquela noite. É melhor começar pelo jantar.
— Leverson não jantou aqui, como o senhor sem dúvida já deve saber — começou o secretário. — Teve uma discussão séria com o tio e foi jantar no clube de golfe. Em conseqüência, Sir Reuben ficou com um péssimo humor.
— Não era muito amável, ce Monsieur, hein? — insinuou Poirot, delicadamente.
Trefusis deu uma risada.
— Oh! Era uma pessoa intratável! Durante estes nove anos que trabalhei com ele, fiquei conhecendo seus menores hábitos. Era um homem extraordinariamente difícil, M. Poirot. Costumava ter acessos infantis de raiva e destratar qualquer pessoa que se aproximasse dele. Àquela altura, já estava acostumado a tudo isso Tinha por hábito não dar a mínima importância ao que ele dizia A bem da verdade, ele não era uma má pessoa, mas às vezes seus modos eram extremamente tolos e irritados. A melhor coisa era não retrucar.
— As outras pessoas eram tão sensatas quanto você neste aspecto?
Trefusis deu de ombros.
— Lady Astwell gostava de uma boa briga. Não tinha o mínimo medo de Sir Reuben, e sempre o enfrentava, respondendo a tudo que lhe era dito. Sempre faziam as pazes depois, e Sir Reuben era realmente dedicado a ela.
— Eles discutiram aquela noite?
O secretário olhou-o de lado, hesitou um pouco, e depois disse:
— Creio que sim; por que fez esta pergunta?
— Uma idéia, apenas.
— Não tenho certeza, é claro — explicou o secretário, — mas tudo indica que as coisas estavam se encaminhando para isso.
Poirot não insistiu no assunto.
— Quem mais estava no jantar?
— A Srta. Margrave, o Sr. Victor Astwell e eu.
— E depois?
— Fomos para a sala de estar. Sir Reuben não nos acompanhou. Uns dez minutos depois ele chegou e me chamou a atenção com severidade por causa de uma bobagem de uma carta. Subi com ele para a sala da Torre e acertamos tudo; depois entrou o Sr. Victor Astwell, dizendo que queria conversar com o irmão, de forma que voltei para baixo e juntei-me às duas senhoras. Cerca de quinze minutos depois, ouvi a campainha de Sir Reuben tocar violentamente, e Parsons veio me dizer que Sir Reuben queria que eu fosse vê-lo naquele mesmo instante. Quando entrei na sala, o Sr. Victor Astwell estava saindo. Quase me derrubou. Era evidente que ficara perturbado com alguma coisa. Tinha um temperamento muito violento. Acredito mesmo que não tenha me visto.
— Sir Reuben fez algum comentário sobre o assunto?
— Ele disse: “Victor é maluco; qualquer dia desses vai dar cabo de alguém num desses acessos de raiva.”
— Ah! — disse Poirot. — Você tem alguma idéia do que pode ter sido?
— Não, nem imagino.
Poirot virou a cabeça muito lentamente e olhou o secretário. As últimas palavras tinham saído depressa demais. Ficou convencido de que Trefusis poderia ter dito mais alguma coisa, caso desejasse. Mais uma vez, no entanto, Poirot não insistiu.
— E depois? Prossiga, por favor.
— Trabalhei com Sir Reuben durante uma hora e meia, mais ou menos. Às onze horas Lady Astwell apareceu, e Sir Reuben disse que eu podia ir me deitar.
— E você foi?
— Fui.
— Você tem idéia de quanto tempo ela ficou lá com ele?
— Nenhuma. O quarto dela fica no primeiro andar e o meu no segundo, de forma que não ouvi quando ela foi se deitar.
— Entendo.
Poirot balançou a cabeça uma ou duas vezes e pôs-se de pé.
— E agora, Monsieur, leve-me à sala da Torre.
Subiu a larga escada que dava para o primeiro pavimento, atrás do secretário. Depois Trefusis conduziu-o por um corredor e atravessou uma porta de baeta que havia no final, que dava para a escada dos empregados e terminava numa porta. Passaram por esta porta e chegaram à cena do crime.
O teto era pelo menos duas vezes mais alto do que o dos outros aposentos. e a sala tinha, aproximadamente, dez metros quadrados. Espadas e azagaias adornavam as paredes, e diversas raridades indígenas estavam arrumadas sobre as mesas. Na outra extremidade, no vão da janela, havia uma imensa escrivaninha. Poirot encaminhou-se diretamente para lá.
— Foi este o lugar onde Sir Reuben foi encontrado?
Trefusis assentiu.
— Ele foi atingido pelas costas, se não me engano.
Novamente o secretário assentiu.
— O crime foi cometido com um destes porretes indígenas — explicou ele. — Um objeto tremendamente pesado. A morte deve ter sido quase instantânea.
— Isto reforça a hipótese de que o crime não foi premeditado. Uma discussão violenta, e uma arma apanhada quase inconscientemente.
— É, o que deixa o pobre Leverson em má situação.
— E o corpo foi encontrado caído sobre a mesa?
— Não, escorregou para o lado e caiu no chão.
— Ah — disse Poirot, — interessante.
— Por que interessante? — perguntou o secretário.
— Por causa disto.
Poirot apontou para uma mancha redonda e irregular que havia na superfície polida da escrivaninha.
— Isto é uma mancha de sangue, mon ami.
— Talvez tenha respingado ali — sugeriu Trefusis — ou talvez tenha sido feita depois, quando removeram o corpo.
— É possível, é possível — disse o homenzinho. — Só existe uma porta que dê entrada para esta sala?
— Há uma escada aqui.
Trefusis abriu uma cortina de veludo no canto da sala mais próximo da porta, de onde subia uma pequena escada em espiral.
— Este aposento foi originalmente construído por um astrônomo. A escada sobe até a torre, onde ficava o telescópio. Sir Reuben transformou-a em quarto, e às vezes dormia lá quando trabalhava até tarde.
Poirot subiu a escada lepidamente. O quarto circular lá em cima tinha mobília simples: uma cama de armar, uma cadeira e uma penteadeira. Poirot verificou se não havia uma outra saída, e voltou para o local onde Trefusis o aguardava.
— Você ouviu o Sr. Leverson chegar? — perguntou.
Trefusis abanou a cabeça.
— Já estava dormindo a sono solto.
Poirot assentiu. Passou os olhos vagarosamente pela sala.
— Eh bien!— disse finalmente. — Acho que não há mais nada aqui, a não ser... você poderia fechar as cortinas para mim?
Obedientemente, Trefusis puxou as cortinas pretas, pesadas, que cobriam a janela, na outra extremidade da sala. Poirot acendeu a luz — escondida por trás de um grande globo de alabastro, pendurado no teto.
— Havia algum abajur na escrivaninha? — perguntou.
Como resposta, o secretário acendeu uma forte luz esverdeada, que havia sobre a escrivaninha. Poirot apagou a outra luz, depois acendeu, depois apagou de novo.
— C’est bien!Já terminei.
— O jantar é às sete e meia — murmurou o secretário.
— Obrigado, Sr. Trefusis, por sua gentileza.
— Não há de quê.
Poirot seguiu pensativo pelo corredor, em direção ao quarto que lhe fora reservado. O inescrutável George estava arrumando as coi-sas do patrão.
— Meu caro George — disse logo depois, — espero encontrar no jantar um certo cavalheiro que começa a me intrigar demais. Um homem que veio dos trópicos, George. Com um temperamento tropical — pelo menos é o que dizem. O homem sobre quem Parsons tenta me dizer qualquer coisa, e que a Srta. Margrave sequer menciona. O falecido Sir Reuben tinha lá o seu temperamento, George. Suponhamos que um homem assim entrasse em contato com um outro, cujo temperamento fosse pior do que o seu — como é que vocês dizem? Ia ser uma briga dos demônios, hein?
— “Dos diabos” é a expressão correta, sir, e nem sempre acontece isso, sir, nem sempre.
— Não?
— Não, sir. Lembro-me de minha tia Jemima, sir, que tinha uma língua de cobra e vivia humilhando a pobre da irmã que morava com ela. Era chocante o que fazia. Quase a matava de aborrecimentos. Mas se aparecesse alguém que lhe enfrentasse, bem, aí a coisa ficava diferente. O que ela não conseguia tolerar era a submissão.
— Ah! — disse Poirot. — Bastante sugestivo.
George pigarreou como que se desculpando.
— Há alguma coisa que possa fazer — perguntou delicadamente — para... é... ajudá-lo, sir?
— Certamente — respondeu Poirot, de imediato. — Você pode descobrir para mim de que cor era o vestido da Srta. Margrave na noite do crime, e qual a empregada que a atende.
George recebeu estas ordens com a costumeira impassibilidade.
— Está bem, sir, o senhor terá estas informações amanhã de manhã.
Poirot levantou-se, os olhos fixos no fogo.
— Você me é de grande utilidade, George — murmurou. — Sabe de uma coisa? Não me esquecerei de sua tia Jemima.