A Aventura do Pudim de Natal

Agatha Christie · Capítulo 5 de 22

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A Aventura do Pudim de Natal

Capítulo IV

A ceia de Natal começou às duas horas da tarde, e foi um verdadeiro banquete. Enormes toras de madeira crepitavam alegremente na grande lareira, e mais alto que o crepitar elevava-se a babel de muitas línguas falando ao mesmo tempo. A sopa de ostras havia sido consumida, dois enormes perus tinham chegado e saído, meras carcaças da forma anterior. E agora, o momento sublime, o pudim de Natal foi servido com toda pompa. O velho Peverell, as mãos e os joelhos trêmulos devido à fraqueza de seus oitenta anos, não permitia que ninguém além dele o trouxesse. Á Sra. Lacey permanecia sentada, pressionando as mãos em nervosa apreensão. Em algum Natal, tinha certeza, Peverell cairia morto. Tendo que escolher entre deixá-lo cair morto ou ferir seus sentimentos a tal ponto que ele talvez preferisse estar morto a vivo, até o momento preferira a primeira alternativa. Numa bandeja de prata, o pudim de Natal repousava em sua glória. Um pudim do tamanho de uma grande bola de futebol, com um ramo de azevinho espetado como uma bandeira triunfante e gloriosas chamas vermelhas e azuis ao seu redor. Ouviram-se aplausos e exclamações de “Oh!, Ah!”.

Uma coisa a Sra. Lacey fizera: convencera Peverell a colocar o pudim à sua frente para que ela pudesse servir, ao invés de ele ir passando ao redor da mesa para que cada um se servisse. Suspirou de alívio quando o pudim foi depositado em segurança à sua frente. Os pratos foram passando rapidamente, as chamas ainda lambendo os pedaços.

— Faça um desejo, M. Poirot — gritou Bridget. — Faça um desejo antes que a chama se apague. Depressa, vozinho, depressa.

A Sra. Lacey se recostou com um suspiro de satisfação. Em frente de cada um havia um pedaço com a chama ainda acesa. Houve um silêncio momentâneo em toda a mesa, todos desejando com fervor.

Ninguém pôde perceber a expressão um tanto curiosa do rosto de M. Poirot, enquanto ele examinava o pedaço de pudim em seu prato. “Não coma nenhum pedaço do pudim de passas.” Que significado poderia ter tão sinistra recomendação? Não podia haver nada de diferente entre o seu pedaço do pudim de passas e os dos demais! Suspirando ao se reconhecer desconcertado — e Hercule Poirot jamais gostou de se reconhecer desconcertado — apanhou a colher e o garfo.

— Calda de açúcar, M. Poirot?

Poirot serviu-se consideravelmente de calda de açúcar.

— Surrupiou meu melhor conhaque outra vez, hein, Em? — disse o Coronel, bem-humorado, da outra extremidade da mesa. A Sra. Lacey piscou para ele.

— A Sra. Ross insistia em usar o melhor conhaque, querido — falou. — Diz ela que tudo depende disso.

— Bem, bem — disse o Coronel Lacey, — Natal só temos uma vez por ano, e a Sra. Ross é uma excelente pessoa. Excelente pessoa e excelente cozinheira.

— E é mesmo — concordou Colin. — Este pudim de passas está divino. Mmmm. — Encheu a boca com deleite.

Gentilmente, quase com escrúpulos, Hercule Poirot atacou seu pedaço de pudim. Comeu uma enorme colherada. Estava delicioso! Investigou com o garfo. Bridget, à sua esquerda, veio em sua ajuda. Alguma coisa retiniu de leve em seu prato.

— O senhor ganhou alguma coisa, M. Poirot — disse ela. — Nem imagino o que seja,

Poirot destacou um pequenino objeto de prata das passas que se agarravam a ele.

— Ih! — disse Bridget — é o emblema de solteirão! M. Poirot ganhou o emblema de solteirão.

Hercule Poirot mergulhou o pequeno botão de prata no vaso-de-dedos colocado ao lado de seu prato, para tirar as migalhas do pudim.

— Muito bonitinho — observou.

— Quer dizer que o senhor vai ficar solteiro, M. Poirot — explicou Colin prestativamente.

— Já era de se esperar — disse Poirot com gravidade. — Sou solteiro há muitos e muitos anos e é pouco provável que mude de status agora.

— Ah, jamais diga dessa água não beberei — disse Michael. — Eu li outro dia no jornal que um sujeito de noventa e cinco anos se casou com uma moça de vinte e dois.

— Você me estimula — disse Hercule Poirot.

O Coronel Lacey soltou uma exclamação súbita. Seu rosto tornou-se rubro e levou as mãos à boca.

— Raios a partam, Emmeline — urrou, — por que você deixou a cozinheira pôr vidro no pudim?

— Vidro?! — exclamou a Sra. Lacey, atônita.

O Coronel Lacey retirou o material cortante da boca.

— Poderia ter quebrado um dente — resmungou. — Ou ter engolido esta droga e ficado com apendicite.

Mergulhou o pedaço de vidro no vaso-de-dedos, lavou-o e depois levantou-o.

— Meu santo Deus! — exclamou. — É uma pedra vermelha caída de um daqueles broches de fantasia. — Segurou-a no alto.

— O senhor me permite?

Com muito cuidado, Poirot esticou-se na frente de seu vizinho, retirou a pedra dos dedos do Coronel Lacey e examinou-a atenta-mente. Conforme dissera o dono da casa, era uma enorme pedra vermelha, da cor de um rubi. Girando a pedra, Poirot percebeu que suas facetas brilhavam. Em algum lugar da mesa, uma cadeira foi empurrada abruptamente, e depois voltou a posição anterior.

— Fiu! — assoviou Michael. — Que estranho se ela fosse verdadeira.

— Talvez seja verdadeira — disse Bridget, esperançosamente.

— Ora, não seja idiota, Bridget. Puxa, um rubi deste tamanho valeria milhares e milhares e milhares de libras. Não é mesmo, M. Poirot?

— Valeria mesmo — respondeu Poirot.

— Mas o que eu não consigo entender — interrompeu a Sra. Lacey, — é como ele foi parar dentro do pudim.

— Uau! — exclamou Colin, entretido com a última colherada. — Eu ganhei o porco. Não é justo.

Bridget cantou imediatamente:

— Colin ganhou o porco! Colin ganhou o porco! Colin é o porco guloso e beberrão.

— Eu tirei o anel — disse Diana, em voz alta e clara.

— Sorte a sua, Diana. Você vai se casar antes de todos nós.

— Eu tirei o dedal — lamentou-se Bridget.

— Bridget vai ficar para tia — cantaram os dois meninos. — Bridget vai ficar para tia.

— Quem tirou o dinheiro? — perguntou David. — Tem uma moeda verdadeira de dez shillings, de ouro, no pudim. Eu sei. A Sra. Ross me contou.

— Acho que sou eu o felizardo — disse Desmond Lee-Wortley.

Os dois vizinhos do Coronel Lacey ouviram-no murmurar:

— É, tinha que ser.

— E eu também ganhei um anel — disse David. Olhou para Diana. — Que coincidência, não é?

As risadas prosseguiram. Ninguém percebeu que Poirot, assim como quem está pensando em outra coisa, havia displicentemente guardado a pedra em seu bolso.

As tortas de frutas e as sobremesas de Natal seguiram-se ao pudim. Depois, os mais velhos do grupo se retiraram para uma merecida sesta, antes da cerimônia do chá e do acender das luzes da árvore de Natal. Hercule Poirot, no entanto, não tirou sua soneca. Ao invés disso, encaminhou-se para a enorme e antiquada cozinha.

— Será que me permitem — perguntou, correndo os olhos e sorrindo, — que eu felicite a cozinheira pela esplêndida refeição que acabo de saborear?

Houve um momento de pausa, e então a Sra. Ross aproximou-se de maneira imponente. Era uma mulher graúda, de constituição nobre e dignidade teatral de uma duquesa. Duas mulheres magras e grisalhas estavam mais adiante, na copa, lavando os pratos, é uma moça de cabelos louro-pálido caminhava de lá para cá, entre a copa e a cozinha. Mas estas, nitidamente, apenas obedeciam ordens. A Sra. Ross era a rainha do setor de culinária.

— Alegra-me o senhor ter gostado, sir — disse graciosamente.

— Gostado! — gritou Hercule Poirot. Com um gesto extravagantemente estrangeiro, levou sua própria mãos aos lábios, beijou-a e jogou o beijo para o teto. — A senhora é um gênio, Sra. Ross! Um gênio! Jamais provara eu comida tão maravilhosa. A sopa de ostras — fez um barulho expressivo com os lábios — e o recheio. O recheio de nozes do peru, este foi para mim uma experiência única.

— Bem, e engraçado que o senhor diga isso, sir — falou a Sra. Ross, graciosamente. — É uma receita muito especial, a do recheio. Me foi dada por um mestre-cuca austríaco com quem trabalhei há muitos anos. Mas o resto — acrescentou — não passa da simples e boa cozinha inglesa.

— E existe algo melhor? — indagou Poirot.

— É muita bondade sua dizer isso, sir. É claro que, sendo o senhor estrangeiro, talvez preferisse o estilo do continente. Não que eu não saiba preparar pratos do continente também.

— Tenho certeza, Sra. Ross, que a senhora seria capaz de executar qualquer coisa! Mas a senhora deve saber que a cozinha inglesa — a boa cozinha inglesa, não a que se encontra em hotéis ou restaurantes de segunda classe — é muito apreciada pelos gourmets do continente, e, se não me engano, no início do século dezenove enviaram uma expedição especial a Londres, que mandou um relatório para a França falando das maravilhas dos pudins ingleses. “Não existe nada no gênero na França”, escreveram. “Vale a pena fazer a viagem até Londres nem que seja só para provar as variedades e delícias dos pudins ingleses”. E acima de todos os pudins — prosseguiu Poirot, já enlevado num tipo de rapsódia — está o pudim de passas de Natal, como o que saboreamos hoje. Foi feito em casa, não foi?

— Mas é claro, sir. Eu mesma o fiz, seguindo minha própria receita de muitos e muitos anos. Quando vim para cá, a Sra. Lacey disse que havia encomendado um pudim numa loja de Londres. Não, Madame, falei, foi muita bondade sua, mas nenhum pudim com-prado pronto se compara ao feito em casa. Veja bem — disse a Sra. Ross, entusiasmando-se com a arte do assunto — que ele não foi feito muito antes do dia de ser comido. Um bom pudim de Natal tem que ser feito semanas antes, para poder apurar o gosto. Quanto mais tempo antes, dentro de limites, melhor ele fica. Lembro-me agora que, quando eu era criança e íamos à igreja aos domingos, esperávamos pela coleta que começava assim: “Despertai, ó Senhor, nós Vos imploramos”, porque esta coleta era o sinal, por assim dizer, de que os pudins deveriam ser feitos naquela semana. E eram sempre feitos. Havia a coleta no domingo, e naquela semana, com toda certeza, minha mãe fazia os pudins de Natal. E assim é que deveria ter sido este ano. Mas, na verdade, o pudim foi feito há apenas três dias, um dia antes do senhor chegar. No entanto, mantive o velho costume. Todas as pessoas da casa vieram até a cozinha, deram uma mexida no pudim e fizeram um desejo. É um velho costume, sir, e não me desligo dele.

— Muito interessante — disse Hercule Poirot. — Muito interessante. Quer dizer que todos estiveram na cozinha?

— Sim, senhor. O jovem cavalheiro, a Srta. Bridget e o rapaz de Londres que está hospedado aqui, e a irmã dele, e o Sr. David e a Srta. Diana — Sra. Middleton, melhor dizendo. Todos deram uma mexida, sim.

— Quantos pudins a senhora fez? Só este?

— Não, sir, fiz quatro pudins. Dois grandes e dois pequenos. O outro pudim grande eu pretendia servir no dia de Ano Novo, e os pequenos eram para o Coronel e a Sra. Lacey, quando estiverem sozinhos, sem o resto da família.

— Entendo, entendo — disse Poirot.

— A bem da verdade, sir — disse a Sra. Ross — os senhores comeram o pudim errado no almoço.

— O pudim errado? — Poirot franziu a testa. — Como assim?

— Bem, sir, nós temos uma fôrma grande de Natal. Uma fôrma de louça com o desenho de azevinhos e viscos na base e sempre cozinhamos nela o pudim do dia de Natal. Mas houve um acidente muito desagradável. Hoje de manhã, quando Annie estava tirando a fôrma da prateleira da despensa, ela escorregou, a fôrma caiu e se quebrou. Bem, sir, é claro que eu não poderia servi-lo, não é mesmo? Podia ter alguns cacos. Então tivemos que servir o outro — o do dia de Ano Novo, que estava numa vasilha lisa. Tem um formato bonito, mas não é tão decorativa quanto a fôrma de Natal. Na verdade não sei aonde vamos conseguir outra fôrma daquela. Nin-guém faz mais nada daquele tamanho. É tudo muito miudinho. Ora, basta dizer que não se consegue mais comprar um prato para café da manhã onde caibam de oito a dez ovos e o bacon. Ah, as coisas não são mais como antigamente.

— Não mesmo — disse Poirot. — Mas hoje foi diferente. Este Natal foi igualzinho aos Natais de antigamente, não é verdade?

A Sra. Ross suspirou.

— Bem, alegra-me que o senhor diga isso, sir, mas é claro que não tive a mesma ajuda que costumava ter. Ajuda especializada, entende? Essas meninas de hoje — ela baixou ligeiramente a voz — elas se esforçam e têm boa vontade, mas não foram treinadas, sir, se o senhor me entende.

— É, os tempos mudam — disse Hercule Poirot. — Eu também fico um pouco triste, às vezes.

— Esta casa, sir — prosseguiu a Sra. Ross — é muito grande para a patroa e o Coronel, o senhor sabe. A patroa sabe disso. Viver apenas num canto, como eles fazem, não é a mesma coisa. A casa só ganha vida no Natal, quando a família se reúne.

— É a primeira vez, creio eu, que o Sr. Lee-Wortley e a irmã vêm aqui?

— E sim, sir. — Uma nota de ligeira reserva se insinuou na voz da Sra. Ross. — Ele é muito gentil, mas, bem... é um amigo um pouco estranho para a Srta. Sarah, de acordo com nossas idéias. Mas, que fazer? Em Londres tudo é diferente! É uma pena que a irmã dele esteja tão mal. Fez uma operação. Ela parecia estar bem no dia em que chegou, mas naquele mesmo dia, depois que todos mexeram o pudim, ela teve uma recaída e está de cama até agora. Acho que se levantou logo depois da operação. Ah, esses médicos de hoje, eles mandam a gente para fora do hospital antes mesmo da gente conseguir se firmar sobre as pernas. Ora, a esposa do meu próprio sobrinho...

E a Sra. Ross iniciou uma longa e espirituosa fábula sobre tratamento hospitalar, segundo seus parentes, comparando-a desfavoravelmente com a consideração que costumava ser dispensada aos doentes em outras épocas.

Como era seu dever, Poirot se compadeceu dela.

— Resta ainda — falou — agradecer-lhe pela refeição suntuosa e requintada. A senhora permite um pequeno reconhecimento de minha apreciação?

Uma nota novinha de cinco libras foi empurrada da mão de Poirot para a da Sra. Ross, que disse negligentemente:

— O senhor não precisava fazer isto, sir.

— Eu insisto. Eu insisto.

— Bem, é muita bondade sua, sir. — A Sra. Ross aceitou o tributo, como era sua obrigação. — E eu lhe desejo, sir, um Natal muito feliz e um Próspero Ano Novo.