A Aventura do Pudim de Natal

Agatha Christie · Capítulo 2 de 22

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A Aventura do Pudim de Natal

A Aventura

DO PUDIM DE NATAL

 

I

— Sinto muitissimamente — disse M. Hercule Poirot.

Foi interrompido. Não rudemente interrompido. A interrupção foi delicada, jeitosa, mais persuasiva do que contraditória.

— Por favor, não recuse

precipitadamente, M. Poirot. Trata-se de um grave problema de Estado. Sua cooperação será apreciada nos mais altos escalões.

— Muita bondade sua — Poirot fez um aceno com a mão — mas, realmente, não posso fazer o que o senhor me pede. Nesta época do ano...

Novamente o Sr. Jesmond o interrompeu.

— Natal — disse ele persuasivamente. — Um Natal como os de antigamente, no campo inglês.

Hercule Poirot estremeceu. A idéia do campo inglês nesta época do ano não o atraía.

— Um Natal bom como os de antigamente! — enfatizou o Sr. Jesmond.

— Quanto a mim, eu não sou inglês — disse Hercule Poirot. — No meu país, o Natal é das crianças. O Ano Novo, sim, este nós comemoramos.

— Ah — falou o Sr. Jesmond, — mas o Natal na Inglaterra é uma grande instituição, e eu lhe garanto que em Kings Lacey o senhor o verá em sua melhor forma. O senhor poderá conhecer um velho casarão maravilhoso. Basta dizer que uma das alas data do século quatorze.

Novamente Poirot estremeceu. A idéia de uma mansão inglesa do século quatorze encheu-o de apreensão. Ele já sofrera, com muita freqüência até, nas históricas casas de campo da Inglaterra. Passou os olhos, com satisfação, por seu apartamento moderno e confortável, com aparelhos de calefação e os mais recentes artifícios para eliminar quaisquer tipos de correntes de ar.

— No inverno — falou com firmeza, — eu não saio de Londres.

— Acho que o senhor não percebeu exatamente, M. Poirot, a gravidade do assunto. — O Sr. Jesmond deu uma rápida olhada para seu companheiro, e depois voltou-se novamente para Poirot.

Até aquele momento, o segundo visitante de Poirot limitara-se a dizer, apenas, um “Como vai o senhor” educado e formal. Ele estava sentado, os olhos perdidos em seus sapatos muito bem polidos, o rosto cor de café expressando a mais profunda melancolia. Era um jovem de vinte e três anos no máximo, e encontrava-se, visivelmente, num estado de completo abandono.

— Sei, sei — disse Hercule Poirot. — Ê claro que o assunto é grave. Já percebi, sim. Sua Alteza merece minhas sinceras condolências.

— A situação é extremamente delicada — replicou o Sr. Jesmond.

Poirot transferiu seu olhar do jovem para o seu companheiro mais velho. Se se quisesse resumir o Sr. Jesmond em uma única palavra, essa palavra seria discrição. Tudo no Sr. Jesmond era discreto. As roupas eram bem talhadas, mas sóbrias, a voz suave e educada, que raramente abandonava o tom agradavelmente monótono, o cabelo castanho-claro, começando a escassear junto das têm-poras, o rosto pálido e sério. A impressão de Hercule Poirot era que ele não conhecera apenas um Sr. Jesmond, mas uma dúzia de Srs. Jesmonds em toda a sua vida, sendo que todos eles, mais cedo ou mais tarde acabavam dizendo a mesma frase — “uma posição extremamente delicada”.

— A polícia — disse Hercule Poirot — também pode ser muito discreta, o senhor sabe.

O Sr. Jesmond abanou a cabeça com firmeza:

— A polícia, não. Para recuperar o... é... o que queremos recuperar, será preciso, quase que inevitavelmente, recorrer às cortes de justiça, e nós sabemos muito pouca coisa. Nós suspeitamos, mas não sabemos.

— O senhor merece minhas condolências — disse Hercule Poirot novamente.

Se ele imaginava que suas condolências teriam algum significado para os dois visitantes, enganava-se. Eles não queriam con-dolências, queriam ajuda prática. O Sr. Jesmond, mais uma vez, começou a falar sobre as delícias do Natal inglês.

— Está em extinção, o senhor sabe — explicou ele —, o verdadeiro Natal de antigamente. Hoje em dia as pessoas passam-no em hotéis. Mas o Natal inglês com toda a família reunida, as crianças e suas meias penduradas, a árvore de Natal, o peru e o pudim de passas, os fogos de Natal. O boneco de neve visto pela janela...

Em nome da exatidão, Hercule Poirot interveio:

— Para se fazer um boneco de neve, é necessário que se tenha neve — observou com severidade. — E não é possível fazer um pedido de neve, nem mesmo para um Natal inglês.

— Hoje mesmo estive falando com um amigo meu que trabalha no serviço de meteorologia — explicou o Sr. Jesmond — e ele me disse que é muito provável que tenhamos neve neste Natal.

Não foi a coisa mais acertada para se dizer. Hercule Poirot estremeceu com mais violência do que todas as outras vezes.

— Neve no campo — falou. — Seria mais abominável ainda. Uma mansão de pedra, grande e fria.

— De maneira nenhuma — replicou o Sr. Jesmond. — As coisas mudaram muito nos últimos dez anos. Já tem aquecimento central.

— Eles têm aquecimento central em Kings Lacey? — perguntou Poirot. Pela primeira vez pareceu hesitar.

O Sr. Jesmond se agarrou à

oportunidade:

— Mas é claro! E um esplêndido sistema de água quente. Radiadores em todos os quartos. Posso lhe garantir, meu caro M. Poirot, que Kings Lacey é a personificação do conforto no inverno. Talvez o senhor até ache a casa quente demais.

— Isto é bastante improvável — disse Hercule Poirot.

Com grande habilidade, o Sr. Jesmond mudou um pouco de assunto.

— O senhor bem percebe o terrível dilema em que nos encontramos — disse em tom confidencial.

Hercule Poirot assentiu com a cabeça. Na verdade, o problema não era dos mais felizes. Um jovem futuro potentado, filho único do governante de uma Nação estrangeira, chegara a Londres há umas poucas semanas. Seu país passara por um período de agitação e descontentamento. Embora leal ao pai, cujo modo de vida permanecera estritamente oriental, a opinião popular era um tanto ambígua em relação ao jovem. Suas farras tinham sido tipicamente ocidentais e, por causa disto, vistas com desaprovação.

Recentemente, no entanto, seu noivado fora anunciado. Ele deveria se casar com uma prima do mesmo sangue. Uma jovem que, embora educada em Cambridge, tinha o cuidado de não demonstrar, em seu próprio país, as influências sofridas no ocidente. O dia do casamento fora anunciado e o jovem príncipe viajara para a Inglaterra, trazendo algumas das famosas jóias de sua casa para receberem engastes mais modernos por Cartier. Dentre elas, vinha um famoso rubi, que fora retirado de um colar antiquado e pesadão, e ganhara uma nova aparência nas mãos dos famosos joalheiros. Até aí, nada de mais, mas foi então que aconteceu a coisa. Não era de se esperar que um rapaz jovem, possuidor de grande fortuna, propensão festei-ra, não cometesse algumas tolices do tipo mais agradável. Quanto a isso, ninguém teria o direito de censurá-lo. Todos imaginavam que os jovens príncipes devessem se divertir dessa forma. Se um príncipe levasse a sua namorada do momento para um passeio a pé em Bond Street, e lhe desse uma pulseira de esmeraldas ou uma presilha de diamantes como recompensa pelo prazer que lhe proporcionara, o fato seria visto com bastante naturalidade, correspondendo, a bem da verdade, aos Cadillacs que seu pai, invariavelmente, dava de presente às suas dançarinas preferidas na ocasião.

Mas o príncipe fora bem mais indiscreto do que isso. Lisonjeado pelo interesse da moça, o príncipe lhe mostrara o famoso rubi em seu novo engaste e cometera, finalmente, a insensatez de permitir que ela o usasse — apenas por uma noite!

O resultado foi curto e triste. A moça se retirara da mesa de jantar para empoar o rosto. Passou-se o tempo. Ela não voltou. Saíra do restaurante por uma outra porta e, desde então, sumira no espaço. O fato mais importante e trágico é que o rubi em seu novo engaste desaparecera com ela.

Estes eram os fatos que não podiam ser tornados públicos sem as mais calamitosas conseqüências. O rubi era mais do que um rubi, era um objeto histórico de grande significado para seu possuidor, e as circunstâncias de seu desaparecimento eram tais, que qualquer publicidade indevida traria conseqüências políticas da maior gravidade.

O Sr. Jesmond não era do tipo de expor estes fatos em linguagem simples. Ele os embrulhava, por assim dizer, num monte de verbosidade. Quem era exatamente o Sr. Jesmond, Hercule Poirot não sabia. Conhecera outros Srs. Jesmonds ao longo de sua carreira. Se ele pertencia ao Ministério do Interior, ao Ministério de Relações Exteriores, ou a algum outro ramo do serviço público, isto não estava explícito. Ele agia no interesse do país. O rubi tinha que ser recuperado.

M. Poirot, de acordo com a delicada insistência do Sr. Jesmond, era o homem capaz de recuperá-lo.

— Talvez... sim — admitiu Poirot — mas as informações são tão poucas. Sugestão... suspeita... não é muito para se começar.

— Ora, Monsieur Poirot, tenho certeza de que o caso não está além de sua capacidade. Ah, deixe disso.

— Nem sempre eu resolvo tudo.

Mas isso era falsa modéstia. O tom de voz de Poirot indicava claramente que, quando ele assumia uma missão, era quase sinônimo de ser bem sucedido.

— Sua Alteza é muito jovem — acrescentou o Sr. Jesmond. — Seria triste se toda a sua vida fosse arruinada por uma simples tolice cometida na juventude.

Poirot olhou com bondade para o abatido rapaz.

— A juventude é que é o tempo certo de se fazer pequenas loucuras — disse para encorajá-lo — e, em se tratando de um jovem comum, não tem muita importância. O bondoso papai, este paga; advogado da família, este o ajuda a se desembaraçar dos inconvenientes; quanto ao jovem, este aprende por experiência própria, e tudo acaba bem. Já na sua posição, aí sim, fica verdadeiramente difícil. Seu casamento se aproxima...

— É isso. É exatamente isso. — Pela primeira vez, as palavras jorravam da boca do rapaz. — Ela é muito, muito séria, o senhor entende? Ela leva a vida a sério. Em Cambridge, ela adquiriu muitas idéias bastante sérias. É preciso que haja educação em meu país. É preciso que haja escolas. É preciso que haja diversas coisas. Tudo em nome do progresso, entende, da democracia. Nada vai ser, diz ela, como no tempo de meu pai. Naturalmente ela imaginava que eu iria me divertir em Londres, mas não me meter em escândalos. Não! O escândalo é que me preocupa. Veja o senhor que este rubi é muito, muito famoso. Há toda uma história por detrás dele. Muito derramamento de sangue — muitas mortes!

— Mortes — disse Hercule Poirot, pensativo. Olhou para o Sr. Jesmond. — Espero que não chegue a tanto.

O Sr. Jesmond fez um barulho estranho, como o de uma galinha que havia decidido pôr um ovo e depois mudou de idéia.

— Não, não, realmente — falou, parecendo um tanto afetado. — Não existe a menor hipótese, tenho certeza, de nada deste tipo.

— O senhor não pode ter certeza — replicou Hercule Poirot. — Alguém está de posse do rubi no momento, mas pode haver outras pessoas desejando possuí-lo, e que não se prenderiam a detalhes, meu amigo.

— Realmente não creio — voltou o Sr. Jesmond, parecendo mais afetado do que nunca — que devamos entrar em especulações deste tipo. Seria bastante inócuo.

— Quanto a mim — disse Hercule Poirot, subitamente se tornando deveras estrangeiro —, eu examino todas as possibilidades, como os políticos.

O Sr. Jesmond olhou para ele com ar de dúvida. Readquirindo o domínio de si, falou:

— Bem, então está combinado, M. Poirot? O senhor irá a Kings Lacey?

— E como explicarei minha presença lá? — perguntou Hercule Poirot.

O Sr. Jesmond sorriu confiantemente.

— Isto, creio eu, pode ser arranjado com facilidade — falou. — Posso lhe garantir que tudo parecerá bastante natural. O senhor achará os Laceys encantadores. Gente deliciosa.

— E o senhor não está me enganando quanto ao aquecimento central?

— Não, não, de maneira nenhuma — o Sr. Jesmond parecia deveras ofendido. — Tenho certeza que o senhor terá todo o con-forto.

— Tout confort moderne — murmurou Poirot para si mesmo, como quem se recorda de alguma coisa. — Eh bien, eu aceito.