A Aventura do Pudim de Natal

Agatha Christie · Capítulo 20 de 22

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A Aventura do Pudim de Natal

Capítulo II

Horace Bindler voltou para Londres sem acrescentar nada à sua coleção, e Raymond West escreveu para a Srta. Greenshaw comunicando-lhe que conhecia uma Sra. Louise Oxley que teria competência para escrever o livro baseado nos diários de seu avô. Dias após, chega uma carta manuscrita com caligrafia antiga e traços tão finos que pareciam ter sido feitos por uma aranha. A Srta. Greenshaw declarava-se ansiosa em assegurar os serviços da Sra. Oxley e marcava uma data para que esta fosse vê-la.

Lou compareceu pontualmente e chegaram ambas a um acordo bastante generoso. Louise começou a trabalhar no dia seguinte.

— Estou muitíssimo grata — disse ela a Raymond. — Vai dar tudo maravilhosamente certo. Levo as crianças para a escola, vou para a Extravagância de Greenshaw e, ao voltar para casa, apanho as crianças. Tudo aquilo é extraordinário. É preciso ver aquela mulher para se acreditar que ela realmente existe.

Quando seu primeiro dia de trabalho terminou, Lou foi à casa de Raymond para lhe contar tudo o que acontecera.

— Praticamente não vi a governanta — ela contou. — Apareceu às 11:30 para me trazer café e biscoitos. Seus lábios contraídos de maneira afetada mal se abriram para falar comigo. Acho que ela é totalmente contrária à minha presença. — E prosseguiu: — Parece existir uma rixa entre ela e o jardineiro, Alfred. Ele é um jovem das vizinhanças e bastante preguiçoso, pelo menos esta é a minha im-pressão. Ele e a governanta não se falam. A Srta. Greenshaw explicou-me com muita dignidade: “Sempre houve inimizade entre o pessoal do jardim e o da casa. Isto já acontecia quando meu avô era vivo. Naquela ocasião tínhamos três homens e um menino trabalhando no jardim, e oito empregadas domésticas, e os atritos eram constantes”.

No dia seguinte, Lou voltou com notícias frescas.

— Imagine só — ela disse. — Hoje me pediram para telefonar para o sobrinho.

— O sobrinho da Srta. Greenshaw?

— Ele mesmo. Parece que ele é um ator que trabalha numa companhia que está fazendo uma temporada de verão em Boreham-on-Sea. Telefonei para o teatro e deixei um recado convidando-o para vir almoçar amanhã. É realmente engraçado. A velhinha não queria que a governanta soubesse. Acho que a Srta. Cresswell fez alguma coisa que a aborreceu.

— Não perca, amanhã, o próximo capítulo desta novela emocionante — murmurou Raymond.

— É exatamente iguaizinhos uma novela, não é? Reconciliação com o sobrinho. Os laços de família são mais fortes. Vai fazer outro testamento e destruir o anterior.

— Tia Jane, a senhora está com uma cara muito séria!

— Verdade, meu querido? Você ouviu alguma outra coisa sobre o policial?

Louise ficou perplexa.

— Não sei de policial nenhum.

— Aquela observação dela, minha querida — disse Miss Marple — deve ter algum significado.

No dia seguinte, Lou chegou ao trabalho toda animada. Entrou pela porta da frente que, como todas as portas e janelas da casa, estava sempre aberta. A Srta. Greenshaw dava a impressão de não temer ladrões, e provavelmente tinha razão em não temê-los, pois a maioria das coisas pesava toneladas e não renderia nada. Lou passara por Alfred quando se dirigia à casa. Quando o viu, ele estava encostado a uma árvore, fumando um cigarro; mas assim que ele a percebeu, pegou de uma vassoura e começou diligentemente a varrer as folhas. Um jovem preguiçoso mas de boa aparência, ela pensou. Ao atravessar o vestíbulo em direção às escadas que levavam à biblioteca, deu uma espiada no quadro de Nathaniel Greenshaw que, por cima da lareira, dava a impressão de tudo controlar. O quadro o retratava no auge de uma prosperidade vitoriana, sentado numa cadeira de braços, mãos pousadas na corrente de ouro tipo príncipe Alberto, que passava por cima de seu amplo estômago. Ao levantar os olhos para seu rosto de mandíbulas fortes, sobrancelhas cerradas e basto bigode, ocorreu-lhe a idéia que Nathaniel Greenshaw deveria ter sido muito bonito quando jovem. Talvez um pouco parecido com Alfred...

Encaminhou-se para a biblioteca no segundo andar, fechou a porta atrás de si, abriu a máquina de escrever, e retirou os diários da gaveta lateral da escrivaninha. Olhando pela janela, vislumbrou a Srta. Greenshaw lá embaixo, usando um vestido estampado, cor de burro quando foge, curvada sobre seu canteiro, removendo laboriosamente todas as ervas daninhas. Havia chovido durante dois dias e elas haviam crescido rapidamente.

Lou, jovem criada na cidade, resolveu que se algum dia ela tivesse um jardim, este nunca seria do tipo que exigisse que as ervas daninhas fossem tiradas manualmente. Só então começou a trabalhar.

Quando a Sra. Cresswell entrou na biblioteca, às 11:30, trazendo o café, percebia-se facilmente que estava de muito mau humor. Pousou, com violência, a bandeja na mesa e comentou para quem quisesse ouvir:

— Temos um convidado para o almoço e não temos nada em casa. Gostaria de saber o que eu posso fazer? E nem sequer sinal de Alfred.

— Ele estava varrendo a entrada quando eu cheguei — Lou falou, tentando ajudar.

— Provavelmente, pois é um trabalho fácil.

A Sra. Cresswell saiu da sala, como um vendaval, batendo a porta. Lou sorriu maliciosamente. Estava imaginando como seria o “sobrinho”.

Terminou o café e recomeçou a trabalhar. O que estava fazendo era tão absorvente que as horas passaram rapidamente. Quando começara a escrever seu diário, Nathaniel Greenshaw tinha se deixado levar pelas delícias da franqueza. Ao datilografar um trecho relativo aos encantos pessoais de uma empregada de um botequim na cidade mais próxima, Lou refletia sobre o fato de que seria necessário reescrever quase tudo.

Foi quando se entretinha com este pensamento que se assustou com um grito vindo do jardim. Logo abaixo de sua janela viu a Srta. Greenshaw cambalear em direção à casa. Suas mãos apertavam-lhe o peito e por entre elas via-se uma haste emplumada que Lou, estupefata, reconheceu ser a haste de uma flecha.

A cabeça da Srta. Greenshaw, com seu velho chapéu de palha, tombou por sobre seu peito. Chamou por Lou com voz enfraquecida:

— ... atirou... ele me acertou... com uma flecha... peça socorro...

Lou correu para a porta. Virou a maçaneta, porém a porta não se abriu. Lou levou alguns momentos forçando a porta antes que percebesse que haviam-na trancado. Correu de volta para a janela e gritou:

— Estou trancada!

A Srta. Greenshaw, oscilando de costas para Lou, apelava para a governanta que se encontrava numa janela um pouco mais dis-tante.

— Telefone polícia... telefone...

Então, cambaleando de um lado para outro, como um bêbado, a Srta. Greenshaw desapareceu do campo de visão de Lou, ao penetrar na sala de visitas no andar térreo. Pouco depois Lou ouviu o estrondo de porcelana quebrada, uma queda violenta e, em seguida, silêncio. Sua imaginação reconstituiu a cena. A Srta. Greenshaw devia ter cegamente ido de encontro a uma mesinha, onde estava colocado um serviço de chá de Sèvres.

Desesperadamente, Lou esmurrou a porta da biblioteca, chamando, berrando. Não havia trepadeira ou cano de escoamento do lado de fora, que ela pudesse usar para descer.

Exausta de tanto esmurrar a porta, Lou voltou à janela. A cabeça da governanta, lá de longe, da janela da sala de estar, podia ser vista.

— Venha me soltar, Sra. Oxley. Estou trancada.

— Eu também.

— Oh meu Deus, isto é horrível, não? Já telefonei para a polícia. Há uma extensão nesta sala, mas, Sra. Oxley, não posso entender por que estamos trancadas. Nem sequer ouvi barulho de chaves. A senhora ouviu?

— Não. Nadinha. Oh, Deus, o que vamos fazer? Talvez Alfred pudesse nos ouvir. — Lou gritou o mais alto possível: — Alfred, Alfred.

— Vai ver que ele foi almoçar. Que horas são?

Lou olhou para o seu relógio de pulso.

— Doze e vinte e cinco.

— Ele tem ordens para ir às 12:30, mas sai de mansinho, antes da hora, sempre que pode.

— A senhora acha... acha...

Lou queria perguntar “Acha que está morta?” mas as palavras não lhe saíam.

Não havia nada a fazer a não ser esperar. Sentou-se no parapeito da janela. Pareceu-lhe que uma eternidade havia se passado quando viu o feio capacete de um policial aproximar-se da casa. Debruçou-se para fora da janela e ele olhou para cima, protegendo os olhos com a mão.

— O que está se passando?— ele perguntou.

De suas respectivas janelas, Lou e a Sra. Cresswell despejaram nervosamente uma torrente de informações.

O policial tirou lápis e bloco de um bolso.

— As senhoras correram para cima e se trancaram? Como se chama, por favor?

— Alguém nos trancou. Venha nos tirar daqui.

O policial respondeu desaprovadoramente:

— Tudo a seu tempo — e desapareceu pela porta envidraçada do andar de baixo.

Mais uma vez o tempo parecia não passar. Lou ouviu o barulho de um carro chegando, e, depois do que lhe pareceu uma hora, mas na realidade haviam se passado somente três minutos, primeiro a Sra. Cresswell e depois Lou foram soltas por um sargento de polícia mais ativo que o outro policial.

— Srta. Greenshaw? — A voz de Louise vacilou. — O que... o que aconteceu?

O sargento pigarreou.

— Sinto ter de lhe informar, madame — disse ele. — o que já contei à Sra. Cresswell. A Srta. Greenshaw está morta.

— Assassinada — disse a Sra. Cresswell. — É isto aí — assassinato.

Em dúvida, o sargento disse:

— Poderia ter sido um acidente — algum menino da redondeza brincando com seu arco e flecha.

Ouviu-se, outra vez, o barulho de um carro chegando.

O sargento explicou:

— Deve ser o médico-legista — e dirigiu-se às escadas.

Contudo, não era o médico. Quando Lou e a Sra. Cresswell estavam descendo as escadas, um jovem entrou hesitantemente e parou, olhando a seu redor com um ar perplexo.

Em seguida, falando com uma voz agradável, que de algum modo soou familiar a Lou, talvez por lembrar a voz da Srta. Greenshaw, perguntou:

— Com licença, bem, é aqui que mora a Srta. Greenshaw?

— Por favor, pode me dizer seu nome? — disse o sargento encaminhando-se em sua direção.

— Fletcher — respondeu o jovem. — Nat Fletcher. Aliás, sou sobrinho da Srta. Greenshaw.

— Verdade, senhor? Bem, sinto muito mas...

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Nat Fletcher.

— Houve um... acidente. Sua tia foi atingida por uma flecha... que penetrou em sua jugular...

A Sra. Cresswell interveio histericamente e sem sua afetação normal:

— Sua tia foi assassinada, foi isto que aconteceu. Sua tia foi assassinada!