A Aventura do Pudim de Natal

Agatha Christie · Capítulo 19 de 22

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A Aventura do Pudim de Natal

Capítulo I

A EXTRAVAGÂNCIA DE

GREENSHAW

 

I

Os dois homens contornaram a sebe.

— Bem, chegamos — Raymond West disse. — É isto aí!

Horace Bindler inspirou profunda e apreciadoramente.

— Mas que maravilha, meu caro — ele exclamou. Sua voz elevou-se num grito estridente de prazer estético, depois baixou de tonalidade para expressar uma estupefação respeitosa.

— É inacreditável! Não existe! Uma das melhores peças da época.

— Achei que você gostaria — Raymond retrucou complacentemente.

— Gostar? Meu caro — Horace não conseguiu exprimir-se. Desafivelou a correia de sua câmera e dela se ocupou. — Esta será uma das preciosidades da minha coleção — falou alegremente. — Você não acha que é bastante divertido ter uma coleção de mons-truosidades? Tive esta idéia há sete anos atrás quando estava tomando banho. Encontrei minha última peça rara verdadeira no Campo Santo em Gênova, mas acredito sinceramente que esta lhe seja superior. Como se chama?

— Não tenho a mínima idéia — Raymond respondeu.

— Será que tem um nome?

— Deve ter. A verdade é que, por estas bandas, só nos referimos a ela como a Extravagância de Greenshaw.

— É o nome do homem que a construiu?

— É! Em 1860 ou 70, por aí. Na época só se falava nisso por aqui. Jovem paupérrimo que Obtivera enorme prosperidade. A opinião das pessoas da cidade divide-se quanto ao motivo que o levou a construir esta casa. Tanto pode ter sido simplesmente por possuir dinheiro em demasia, ou com o intuito de impressionar seus credores. Neste último caso, não surtiu efeito. Foi à falência ou andou por pouco. Daí o nome de a Extravagância de Greenshaw. A câmera de Horace deu um estalido.

— Pronto — disse com satisfação. — Lembre-me de mostrar-lhe o número 310 da minha coleção. Uma incrível moldura de lareira feita de mármore, no estilo italiano. E, olhando para a casa, continuou: — Não posso imaginar como o Sr. Greenshaw idealizou tudo isto.

— De certa maneira, é bastante óbvio — disse Raymond. — Depois, por azar, parece ter viajado pelo Oriente. A influência do Taj-Mahal é nítida. Gosto bastante da ala em estilo mourisco e dos vestígios de palácio veneziano.

— É de se admirar que ele tenha conseguido um arquiteto para executar estas idéias.

Raymond deu de ombros.

— Penso que não houve dificuldade quanto a isto — ele disse.

— Provavelmente o arquiteto se aposentou com uma boa renda enquanto o pobre Greenshaw faliu.

— Poderíamos dar uma olhadela do outro lado? — perguntou Horace — ou é proibido?

— Lógico que é proibido — disse Raymond — mas não acredito que isto tenha qualquer importância.

Virou-se em direção à esquina da casa e Horace saltitou atrás dele.

— Mas quem mora aqui? Órfãos ou turistas? Não pode ser uma escola, pois não há local para recreação — nem tampouco sinais daquela eficiência enérgica.

— Oh, um dos Greenshaw ainda mora aqui — disse Raymond por sobre os ombros. — A casa propriamente dita não se perdeu com a falência. O filho do velho Greenshaw a herdou. Ele era um tanto quanto pão-duro e morava aqui num cantinho da casa. Jamais gastou um centavo. Provavelmente nunca teve um níquel para gastar. Sua filha mora aqui agora. Uma velha dama — muito excêntrica.

À medida que falava, Raymond congratulava-se por ter se lembrado da Extravagância de Greenshaw, com o intuito de distrair seu hóspede. Estes críticos literários sempre declaravam ter muita vontade de passar um fim-de-semana no campo, e, comumente, achavam a vida Campestre extremamente monótona, quando dela desfrutavam. Amanhã haveria os jornais de domingo e, por hoje, Raymond West felicitava-se por ter sugerido uma visita à Extravagância de Greenshaw, o que enriqueceria a coleção de monstruosidades, bastante conhecida, de Horace Bindler.

Deram a volta na esquina da casa e depararam-se com um gramado abandonado.

Em um canto deste havia um grande jardim pedregoso artificial e, inclinando-se sobre ele, uma figura cuja visão fez com que Horace excitadamente agarrasse o braço de Raymond.

— Meu caro! — exclamou. — Você está vendo o que ela está usando? Um vestido estampado, de ramos de flores. Exatamente como uma empregada doméstica — quando as havia. Uma das minhas mais gratas recordações de menino é a de ter passado uns tempos numa casa de campo onde uma empregada de verdade acordava-me, de manhãzinha, usando um vestido estampado, que fazia um barulhinho característico, e uma touca. Sim, meu jovem, uma touca de verdade. Musselina com fitas. Não, talvez fosse a copeira que usasse as fitas. Bem, de qualquer maneira, era uma empregada de verdade e entrava no quarto carregando uma enorme vasilha de latão cheia de água quente. Que dia extraordinário estamos tendo hoje!

A figura de vestido estampado endireitou-se e virou-se para eles, uma colher de pedreiro na mão. Era uma figura bastante surpreendente. Mechas despenteadas de um cinza-ferroso caíam-lhe por sobre os ombros e um chapéu de palha, muito parecido com os usados pelos cavalos na Itália, enterrado em sua cabeça. O vestido estampado que usava ia até quase os tornozelos. Olhos argutos, num rosto não muito limpo e de pele ressecada, examinaram os dois avaliadoramente.

— Peço-lhe desculpas pela invasão, Srta. Greenshaw — Raymond West disse, enquanto encaminhava-se em sua direção — mas o Sr. Bindler, que está passando uns dias comigo...

Horace fez uma mesura e tirou o chapéu.

— ... Tem grande interesse em — bem — história antiga e — bem — construções requintadas.

Raymond West expressou-se com a facilidade de um escritor famoso que sabe que é uma celebridade e que pode se atrever a fazer coisas que outras pessoas não se atreveriam.

A Srta. Greenshaw ergueu os olhos às suas costas para a exuberante casa espalhada pelo terreno.

— É realmente uma bela casa — disse com admiração. — Meu avô a construiu, antes de eu ter nascido, é claro. Dizem que o desejo dele era espantar os moradores daqui.

— Acredito piamente que ele os surpreendeu bastante, senhora — Horace Bindler comentou.

— O Sr. Bindler é o crítico literário de renome — disse Raymond West.

Evidentemente a Srta. Greenshaw não sentia o menor respeito pelos críticos literários, pois não teve nenhuma reação.

— Considero-a — disse a Srta. Greenshaw, referindo-se à casa — como um monumento à genialidade de meu avô. Uns bobalhões vêm aqui e me perguntam por que não a vendo e vou morar num apartamento. O que eu faria num apartamento? Aqui é o meu lar e é aqui que eu moro — disse a Srta. Greenshaw. — Éramos três. Laura casou-se com um cura. Papai negou-se a lhe dar di-nheiro alegando que os curas não eram mundanos. Ela morreu ao dar à luz. O bebê morreu também. Nettie fugiu com o professor de equitação. Papai, naturalmente, deserdou-a. Sujeito bonito, o Harry Fletcher, mas não prestava. Não pense que Nettie foi feliz com ele. De qualquer modo, ela viveu pouco. Tiveram um filho. De vez em quando ele me escreve, mas é lógico que ele não é um Greenshaw. Sou a última dos Greenshaws. — Endireitou os ombros com um certo orgulho e ajustou outra vez a posição de seu chapéu de palha. Depois, virando-se, disse rispidamente:

— Sim, Sra. Cresswell, o que deseja?

Perto deles, vinda da casa, via-se uma mulher que, se comparada à Srta. Greenshaw, era ridiculamente diferente. Sra. Cresswell tinha os cabelos azulados maravilhosamente penteados para cima formando cachos e rolos meticulosos. Era como se ela tivesse se penteado para ir a um baile de carnaval fantasiada de marquesa francesa. O resto desta mulher de meia idade vestia o que deveria ter sido um vestido de seda farfalhante, mas que na realidade era feito de raion preto dos mais brilhantes. Embora não fosse corpu-lenta, tinha seios grandes e espetaculares. Quando falava, sua voz era inesperadamente grave. Sua dicção era apurada — uma pequena hesitação na pronúncia de palavras começadas por “h”, e a enunciação destas dotadas de aspiração exagerada levava-nos a suspeitar que há muito tempo, quando ainda jovem, tivera tendência a não pronunciá-la.

— O peixe, madame — disse a Sra. Cresswell, — o bacalhau. Ainda não foi entregue. Pedi a Alfred para ir buscá-lo e ele se nega.

De repente Srta. Greenshaw deu uma gargalhada semelhante a um cacarejo.

— Ele se recusa, é?

— Alfred, madame, não tem sido muito prestativo.

A Srta. Greenshaw levou dois dedos sujos de terra à boca e, repentinamente, deu um assobio agudo. Em seguida berrou: — Alfred, venha aqui.

Em resposta a seu chamado um jovem contornou a esquina da casa, uma pá na mão. Seu rosto era bonito e atrevido e, enquanto se aproximava, sem sombra de dúvidas, lançava à Srta. Greenshaw olhares rancorosos.

— Chamou-me, madame? — ele disse.

— Sim, Alfred. Disseram-me que você se recusou a ir buscar o peixe. O que você me diz, hein?

Alfred respondeu rudemente.

— Irei se a senhora quer, madame. Ê só dizer.

— Realmente, eu quero. Preciso dele para o jantar.

— Tá bem. Já vou.

Deu uma rápida olhada insolente em direção à Sra. Cresswell, que corou e resmungou.

— Pensando bem — disse a Srta. Greenshaw, — estamos exatamente precisando de alguns desconhecidos, não é Sra. Cresswell?

A Sra. Cresswell não entendeu.

— Desculpe, madame...

— Para aquilo que você já sabe muito bem o que é — disse a Srta. Greenshaw, balançando a cabeça. — O beneficiário de um testamento não pode testemunhá-lo. Não é? — perguntou a Raymond West.

— Cem por cento certo — disse Raymond.

— Conheço as leis suficientemente bem para saber isto — disse a Srta. Greenshaw; — e os senhores são homens de prestígio.

Jogou a pá de pedreiro dentro da cesta de jardinagem.

— Importar-se-iam de vir comigo até minha biblioteca?

— Com prazer — Horace respondeu prontamente.

Mostrou-lhes o caminho através de portas envidraçadas e de uma sala de estar dourada, cujas paredes estavam recobertas por um brocado desbotado, e cujos móveis estavam protegidos da poeira por capas. Depois atravessou um grande vestíbulo sombrio, subiu a escada e entrou num quarto no segundo andar.

— A biblioteca de meu avô — ela explicou.

Horace examinou a sala com grande prazer. De seu ponto de vista, era um aposento repleto de monstruosidades. Cabeças de esfinges podiam ser vistas nos mais esdrúxulos móveis, havia um bronze imenso representando, assim ele acreditava, Paulo e Virgínia, e um relógio de bronze enorme com motivos clássicos. Sentiu uma vontade tremenda de fotografá-los.

— Uma bela coleção de livros — disse a Srta. Greenshaw.

Raymond já os estava examinando. Uma rápida olhada convenceu-o de que não somente os livros eram de pouco valor, como também do fato de que jamais tinham sido lidos. Eram coleções de clássicos, lindamente encadernados, comumente vendidas há noventa anos atrás para compor bibliotecas de cavalheiros. Alguns romances de um período mais antigo tinham sido incluídos. Todavia demonstravam poucos sinais de terem sido lidos.

A Srta. Greenshaw estava mexendo nas gavetas de uma grande escrivaninha. Finalmente tirou de uma das gavetas um documento apergaminhado.

— Meu testamento — explicou. — Tenho que deixar meu dinheiro para alguém — foi o que me disseram. Se eu morrer sem fazer um, creio que aquele filho do vendedor de cavalos fica com tudo. Sujeito bonito, Harry Fletcher, mas um bom velhaco. Não vejo porque seu filho deveria herdar. Não — continuou como se estivesse respondendo a alguma inaudível objeção — já me decidi. Vou deixar tudo para Cresswell.

— Sua governanta?

— É. Já expliquei tudo para ela. Faço um testamento deixando tudo que tenho para ela e não preciso, então, lhe pagar ordenado algum. Com isso, economizo um bocado agora e a mantenho em rédea curta. Não pode se despedir e ir embora de um momento para o outro. Muito metida a besta e tudo o mais, não é? Seu pai, porém, era apenas um bombeiro hidráulico de segunda categoria. Não vejo por que ela se tem em tão alta conta.

Ao mesmo tempo em que falava, a Srta. Greenshaw desdobrava o documento. Pegou uma pena, molhou-a no tinteiro e assinou, Katherine Dorothy Greenshaw.

— Pronto — ela disse. — Os senhores viram-me assiná-lo, agora os dois o assinam e, com isto, o documento é legal.

Entregou a pena a Raymond West. Este hesitou um momento, sentindo uma inexplicável repulsa em relação ao que lhe era pedido. Então, rapidamente, escreveu seu tão conhecido autógrafo, que lhe havia sido solicitado por carta, naquela manhã, por nada menos que seis diferentes pessoas.

Entregou a caneta a Horace que acrescentou sua própria assinatura miúda.

— Acabou-se — disse a Srta. Greenshaw.

Moveu-se por entre as estantes de livros, parou, ficou a olhá-las de maneira insegura, e então abriu uma porta de vidro, apanhou um livro, enfiando o documento por entre as suas folhas.

— Tenho os meus próprios lugares para guardar as coisas — ela disse.

— O Segredo de Lady Audley — observou Raymond West, lendo o título do livro enquanto ela o repunha no lugar.

A Srta. Greenshaw deu outra de suas risadas cacarejantes.

— Foi um best-seller na época — ela comentou. — Bem diferente dos seus livros, não?

Deu uma repentina cotovelada amigável nas costelas de Raymond.

Este ficou bastante surpreso ao perceber que ela tinha conhecimento de que ele escrevesse livros. Embora o seu fosse um nome dos “bons” em literatura, ele dificilmente poderia ser considerado um autor de um best-seller. Apesar de ter suavizado sua maneira de escrever à medida que ficava mais velho, seus livros tratavam avidamente dos aspectos mais sórdidos da vida.

— Será — Horace perguntou esbaforidamente — que eu posso, pelo menos, tirar uma fotografia do relógio?

— Lógico — disse a Srta. Greenshaw. — Acredito que tenha vindo da Exposição de Paris.

— Com toda certeza — disse Horace. Bateu a chapa.

— Este quarto não tem sido muito usado desde que meu avô morreu — disse a Srta. Greenshaw. Esta escrivaninha está cheia de seus velhos diários. Creio que são interessantes. Meus olhos cansados não me permitem lê-los. Gostaria de vê-los publicados, mas penso que isso daria muito trabalho.

— A senhorita poderia empregar alguém para se desincumbir de tal tarefa — disse Raymond West.

— Verdade? Acho que é uma boa idéia. Vou pensar nisto.

Raymond West espiou seu relógio.

— Não devemos abusar mais de sua bondade — disse ele.

— Foi um prazer — disse a Srta. Greenshaw graciosamente.

— Pensei que o senhor fosse um policial quando o pressenti virando a esquina da casa.

— Por que um policial? — quis saber Horace, que nunca tinha vergonha de fazer perguntas.

A Srta. Greenshaw reagiu estranhamente.

— Se você quiser saber as horas, pergunte a um policial — ela cantarolou, e com este exemplo de humor vitoriano ela cutucou Horace nas costelas e riu às gargalhadas.

— Foi uma tarde maravilhosa — suspirou Horace, quando voltaram para casa. — Não resta dúvida que aquela casa tem de tudo. A única coisa que está faltando naquela biblioteca é um corpo. Aquelas velhas histórias de detetive sobre um crime na biblioteca... exatamente o tipo de biblioteca que os escritores têm em mente, tenho certeza!

— Se você quiser falar sobre assassinato — disse Raymond — deve conversar com a tia Jane.

— Tia Jane? Você quer dizer Miss Marple? Horace sentiu-se um tanto perplexo.

Aquela velhinha encantadora, que tão bem representava uma época já passada e a quem tinha sido apresentado na noite anterior, seria a última pessoa do mundo a ser lembrada quando se pensava em assassinatos.

— Ela mesma — disse Raymond. — É uma de suas especialidades.

— Mas meu caro, que coisa esquisita! O que você quer dizer com isso?

— Exatamente isto — disse Raymond. — Vou explicar melhor. Alguns cometem assassinatos, outros nele se envolvem, en-quanto que outros os têm literalmente atirados em seus braços. Minha tia Jane pertence a este terceiro grupo.

— Você está brincando.

— Nem um pouquinho. Pode perguntar ao último Comissário da Scotland Yard, vários chefes de polícia, e um par de dedicados detetives do “Departamento de Investigação Criminal”.

Horace comentou com prazer que coisas surpreendentes estavam sempre acontecendo.

À mesa, enquanto tomavam chá com Joan West, a esposa de Raymond, Louise Oxley, a sobrinha de Joan, e a idosa Miss Marple, os dois fizeram um relato dos últimos aconte-cimentos, contando, em detalhes, tudo o que a Srta. Greenshaw lhes dissera.

— Sinceramente acredito — disse Horace — que há alguma coisa um tanto ou quanto sinistra nesta história toda. Aquela criatura que nos lembra uma duquesa, a governanta — quem sabe uma pitada de arsênico no chá, agora que ela já sabe que sua patroa fez um testamento em seu favor?

— O que a senhora acha, Tia Jane? — disse Raymond. — Será que vai haver um assassinato ou não? O que a senhora acha?

— Penso — disse Miss Marple, enrolando um novelo de lã, com um ar bastante severo — que você não deveria brincar tanto quanto você brinca com estas coisas, Raymond. Realmente, arsênico é uma possibilidade bem viável. É tão fácil de se comprar. Provavelmente neste momento deve haver um pouco no galpão de ferramentas e utensílios, em forma de fungicida.

— Ora, francamente, minha querida — disse Joan West, carinhosamente. — Isto não seria excessivamente óbvio?

— Fazer um testamento, isto eu compreendo — disse Raymond, — contudo não creio que a pobre mulher tenha algo a deixar a não ser aquela casa, um verdadeiro elefante branco! E quem é que iria querer comprar aquilo?

— Talvez uma companhia

cinematográfica, um hotel ou uma instituição, — aparteou Horace.

— Comprá-la-iam por uma bagatela — disse Raymond; contudo Miss Marple discordou.

— Sabe, meu caro Raymond, não posso de modo algum concordar com esta sua opinião. Quero dizer, a respeito do dinheiro. O avô era, evidentemente, uma dessas pessoas que gastam dinheiro a rodo por terem facilidade em ganhá-lo, mas que não consegue economizar. Pode ter ficado em situação financeira precária, como você nos contou, mas dificilmente deve ter ido à falência. Caso isto tivesse acontecido, seu filho não teria herdado a casa. Bem, como sempre acontece, o filho tinha uma personalidade totalmente dife-rente da do pai. Era um unha de fome. Um homem que economizava cada centavo. Arrisco-me a dizer que durante a sua vida ele provavelmente juntou uma boa quantia. Neste aspecto parece que a Srta. Greenshaw saiu a ele — isto é, ela não gosta de gastar dinheiro. É, acho muito possível que ela tenha escondido uma quantia bem substancial.

— Neste caso — disse Joan West, — eu me pergunto... que tal Lou?

Olharam para Lou, que estava silenciosamente sentada ao pé da lareira.

Lou era sobrinha de Joan. Como ela própria dizia, seu casamento tinha degringolado, deixando-a com dois filhinhos e dinheiro que mal dava para sustentá-los.

— Isto é — disse Joan, — se esta tal de Srta. Greenshaw realmente deseja alguém que examine os diários e prepare um livro para ser publicado...

— É uma idéia — disse Raymond.

Lou falou em voz baixa:

— É o tipo de trabalho que eu poderia fazer... e penso que teria prazer em fazê-lo.

— Vou escrever para ela — Raymond disse.

— Gostaria de saber — retrucou Miss Marple pensativamente — o que a velha senhora quis dizer ao se referir a um policial.

— Ora, foi somente uma piada.

— Lembra-me — disse Miss Marple, sacudindo a cabeça vigorosamente — sim, lembra-me muito o Sr. Naysmith.

— Quem foi o Sr. Naysmith? — perguntou Raymond, cheio de curiosidade.

— Dedicava-se à apicultura — disse Miss Marple — e era bamba em resolver os acrósticos dos jornais dominicais. Gostava de dar impressões erradas às pessoas. Só de farra. Mas algumas vezes esta sua atitude criou problemas.

Todos ficaram quietos por uns instantes, pensando no Sr. Naysmith, mas como não parecia haver qualquer semelhança entre ele e a Srta. Greenshaw, chegaram à conclusão de que a querida tia Jane talvez estivesse um pouco desligada por causa de sua idade.