A Aventura do Pudim de Natal
O Caso das Amoras Pretas
Hercule Poirot jantava com seu amigo Henry Bonnington no Gallant Endeavour, em King’s Road, Chelsea.
O Sr. Bonnington era admirador do Gallant Endeavour. Gostava da atmosfera descontraída, gostava da comida, que era “simples” e “inglesa” e “não um monte de gororobas fabricadas”. Gostava de dizer às pessoas que lá jantavam com ele onde exatamente Augustus John costumava sentar-se e de chamar-lhes a atenção para os nomes dos artistas famosos no livro dos visitantes. O Sr. Bonnington em si era o menos artístico dos homens — mas tinha um certo orgulho das atividades artísticas dos outros.
Molly, uma garçonete simpática, cumprimentou o Sr. Bonnington como a um velho amigo. Orgulhava-se por se lembrar das preferências e desagrados dos fregueses, em matéria de comida.
— Boa-noite, sir — disse ela, quando os dois haviam ocupado seus lugares numa mesa do canto. — O senhor está com sorte, hoje — peru recheado com castanhas — é o seu prato favorito, não é? E temos um maravilhoso Stilton! Prefere sopa ou peixe de entrada?
O Sr. Bonnington deliberou sobre o assunto. Falou a Poirot, em tom de aviso, enquanto este examinava o cardápio.
— Nada de quitutes franceses. Desta vez teremos comida inglesa boa e bem feita.
— Meu amigo, — Hercule Poirot acenou a mão — não peço nada melhor! Ponho-me em suas mãos, sem reservas.
— Ah... ruup... er... hum — respondeu o Sr. Bonnington, e examinou cuidadosamente o assunto.
Resolvidos estes assuntos delicados e a questão do vinho, o Sr. Bonnington se recostou com um suspiro e desdobrou o guardanapo, enquanto Molly afastava-se rapidamente.
— E uma boa moça! — disse ele, com ar de aprovação. — Já foi um bocado bonita... os artistas costumavam usá-la como modelo. E entende de cozinha, também — o que é muito mais importante. Via de regra, as mulheres não têm bom-senso em matéria de comida. Muitas mulheres, quando saem com um camarada, ficam sonhando — nem percebem o que comem. Pedem a primeira coisa que vêem.
Hercule Poirot abanou a cabeça.
— C’est terrible.
— Os homens não são assim, graças a Deus! — disse o Sr. Bonnington, complacentemente.
— Nunca? — Havia um certo brilho nos olhos de Hercule Poirot.
— Bem, talvez quando muito jovens — concedeu o Sr. Bonnington. — Garotões! Hoje em dia os rapazes são todos iguais... não têm firmeza... perseverança. Eu de nada sirvo para os jovens... e eles — acrescentou, com total imparcialidade — de nada servem para mim. Talvez estejam certos! Mas quando a gente ouve um desses moços falando, a impressão que se tem é que ninguém deveria ter o direito de viver depois dos sessenta! Do modo como eles falam, é de se imaginar se muitos deles não ajudaram os parentes idosos a deixar este mundo.
— É possível — disse Hercule Poirot — que o façam.
— Que bela mente você tem, Poirot. Esse trabalho na polícia corroeu seus ideais.
Hercule Poirot sorriu.
— Tout de même — falou. — Seria interessante fazer uma tabela de mortes acidentais das pessoas acima dos sessenta anos de idade. Eu lhe garanto que daria margens a algumas especulações curiosas.
— O seu problema é que você começou a perseguir o crime... ao invés de esperar que o crime venha até você.
— Desculpe-me — disse Poirot. — Estou falando de trabalho. Fale-me, meu amigo, de seus próprios afazeres. Como vão as coisas?
— Uma mixórdia! — disse o Sr. Bonnington. — Este é que é o problema do mundo hoje em dia. Muita mixórdia. E falação em excesso. A falação ajuda a esconder a mixórdia. Como um molho altamente condimentado ajuda a esconder o fato de que o peixe que está por baixo não é dos melhores! Épreferível um honesto filé de linguado, sem nenhum molho por cima.
Justamente naquele momento Molly lhe trouxe o filé e ele resmungou qualquer coisa em sinal de aprovação.
— Você sabe exatamente do que eu gosto, minha filha — disse ele.
— Bem, o senhor vem aqui com bastante regularidade, não é mesmo, sir? Já deveria mesmo conhecer suas preferências.
Hercule Poirot disse:
— As pessoas sempre pedem a mesma coisa? Elas não gostam de variar de vez em quando?
— Os cavalheiros, não, sir. As senhoras gostam de variar... os cavalheiros sempre pedem a mesma coisa.
— O que foi que eu lhe disse? — resmungou Bonnington. — As mulheres são fundamentalmente insensatas no que diz res-peito à comida!
Passou os olhos pelo restaurante.
— O mundo é um lugar engraçado. Está vendo aquele velhinho estranho de barba, lá no canto? Molly vai lhe dizer que ele sempre vem aqui às terças e quintas, à noite. Há quase dez anos, já — é uma espécie de ponto de referência do local. Mesmo assim, ninguém sabe o seu nome, ou onde mora, ou em que trabalha. É estranho quando a gente pensa nessas coisas.
Quando a garçonete trouxe as porções de peru, ele disse:
— Pelo que vejo, o Velho Pai do Tempo ainda vem aqui.
— É verdade, sir. Todas as terças e quintas. Imagine que na semana passada ele veio aqui na segunda! Fiquei um bocado espantada! Pensei que meus dias estavam trocados e que era terça-feira sem eu saber! Mas ele voltou na noite seguinte — então a segunda foi uma espécie de extraordinário, por assim dizer.
— Uma alteração interessante em seus hábitos — murmurou Poirot. — Qual terá sido a razão?
— Bem, sir, se o senhor me perguntar, acho que estava perturbado ou preocupado com alguma coisa.
— Por que achou isso? Por causa dos gestos?
— Não, sir... não dos gestos, exatamente. Estava muito quieto, como de hábito. Nunca diz muita coisa além do boa-noite quando chega e quando sai. Não, foi por causa do pedido.
— Pedido?
— Acho que os senhores vão rir de mim — Molly enrubesceu, — mas quando um cavalheiro vem aqui há dez anos, a gente passa a saber do que gosta e do que não gosta. Ele nunca suportou pudim feito com gordura de rins ou amoras pretas, e nunca o vi tomar sopa cremosa — mas naquela segunda, ele pediu creme de tomate, bife, de rins e torta de amoras pretas. Parecia que ele nem notava o que estava pedindo!
— Sabe de uma coisa? — disse Hercule Poirot. — Estou achando essa história extremamente interessante.
Molly pareceu ficar satisfeita e saiu.
— Bem, Poirot — disse Henry Bonnington com uma risadinha. — Vamos ouvir algumas de suas deduções. Na melhor forma.
— Prefiro ouvir as suas primeiro.
— Quer que eu banque o Watson, hein? Bem, o velhinho foi ao médico e o médico lhe alterou a dieta.
— Para creme de tomate, bife, pudim de rins e torta de amoras pretas? Não consigo imaginar um médico fazendo isso.
— Não acredita, meu velho? Os médicos são capazes de mandar a gente fazer qualquer coisa.
— É a única solução que lhe ocorre?
Henry Bonnington disse:
— Bem, falando sério, acho que só existe uma explicação possível. Nosso amigo desconhecido estava tomado de forte emoção mental. Eslava tão perturbado que, literalmente, nem notou o que estava pedindo ou comendo.
Fez uma pequena pausa, e depois prosseguiu:
— Agora você vai me dizer que sabe exatamente o que se passava na cabeça dele. Vai dizer, talvez, que ele estava se resolvendo a cometer um crime.
Riu da própria sugestão.
Hercule Poirot não riu.
Admitiu, naquele momento, estar seriamente preocupado. Disse que, na ocasião, ele deveria ter tido algum pressentimento do que estava para ocorrer.
Os amigos lhe garantiram que esta idéia era um tanto fantástica.
Somente umas três semanas depois Hercule Poirot e Bonnington encontraram-se de novo — desta vez o encontro se deu no metrô.
Cumprimentaram-se com um gesto de cabeça, o corpo balançando com o movimento do trem, os dois viajando em pé. Depois, em Piccadilly Circus houve um êxodo geral e eles se sentaram na extremidade anterior do vagão — um lugar calmo, já que ninguém entrava ou saía por ali.
— Melhorou — disse o Sr. Bonnington. — Um bando de egoístas, a raça humana; eles não pegam outro vagão, não importa o quanto a gente peça!
Hercule Poirot deu de ombros.
— O que você queria? A vida é muito incerta.
— É isso mesmo. Hoje aqui, amanhã no outro mundo — disse o Sr. Bonnington, numa espécie de desabafo melancólico. — Por falar nisso, lembra-se daquele velhote que vimos no Gallant Endeavour? Eu não me espantarei se ele não tiver passado desta para melhor. Há uma semana que ele não vai lá. Molly está bas-tante preocupada com isso.
Hercule Poirot aprumou-se no assento. Seus olhos verdes brilharam.
— É mesmo? — disse ele. — É mesmo? Bonnington prosseguiu:
Lembra-se de que eu sugeri que ele tinha ido ao médico e que este lhe havia passado uma dieta? Dieta é bobagem, é claro — mas eu não me espantaria se ele tivesse consultado um médico para saber de sua saúde e o parecer do médico tenha sido um choque para ele. Isto explicaria os pedidos que fez sem se dar conta. Ê bem provável que o choque o tenha levado deste mundo mais depressa. Os médicos deveriam ter cuidado com o que dizem aos pacientes.
— E geralmente têm — retrucou Hercule Poirot.
— Esta é a minha estação — disse o Sr. Bonnington. — Até logo. Acho que nunca saberemos quem era o velhote, e nem mesmo o nome dele. Que mundo engraçado!
Deixou o trem apressadamente.
Hercule Poirot, de testa franzida, não parecia achar o mundo tão engraçado.
Foi para casa e deu algumas instruções a seu fiel mordomo, George.
Hercule Poirot correu o dedo por uma lista de nomes. Era a relação de mortes em uma determinada área.
O dedo de Poirot parou.
— Henry Gascoigne. Sessenta e nove. Vou tentar este primeiro.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Hercule Poirot encontrava-se no consultório do Dr. MacAndrew, perto de King’s Road. Mac-Andrew era um escocês alto, de cabelos vermelhos, e com uma expressão inteligente.
— Gascoigne? — disse ele. — Ê verdade. Um sujeito excêntrico. Morava sozinho, numa dessas casas velhas, abandonadas, que estão sendo desapropriadas para dar lugar a modernos edifícios de apartamentos. Nunca o atendera antes, mas já o tinha visto por aí e sabia quem ele era. Foi o pessoal da leiteria que começou a espalhar a notícia. As garrafas de leite estavam se acumulando do lado de fora. Finalmente, os vizinhos chamaram a polícia. A porta foi arrombada e encontraram-no lá dentro. Estava com um roupão velho, com o cadarço esfarrapado — possivelmente tropeçou nele.
— Entendo — disse Hercule Poirot. — Muito simples... um acidente.
— Exato.
— Ele tinha algum parente?
— Um sobrinho. Costumava visitar o tio mais ou menos uma vez por mês. Lorrimer é o nome dele, George Lorrimer. É médico também. Mora em Wimbledon.
— Ficou chateado com a morte do velho?
— Não sei dizer se ficou chateado. Quer dizer, ele tinha alguma afeição pelo velho, mas na verdade não o conhecia muito bem.
— Há quanto tempo o Sr. Gascoigne estava morto quando o senhor o viu?
— Ah! — disse o Dr. MacAndrew. — Agora sim, passamos aos dados concretos. Não menos de quarenta e oito horas, não mais de setenta e duas horas. Foi encontrado na manhã do dia seis. Na verdade, conseguimos ser mais precisos do que isso. Havia uma carta no bolso de seu roupão — escrita no dia três — remetida de Wimbledon naquela tarde — deve ter sido entregue por volta das nove e vinte da noite. O que significa que ele morreu depois das nove e vinte da noite do dia três. Coincide com o conteúdo de seu estômago e com o processo de digestão. Ele fizera uma refeição cerca de duas horas antes de morrer. Examinei-o na manhã do dia seis e sua condição mostrava que a morte ocorrera cerca de sessenta horas antes — por volta das dez da noite do dia três.
— Tudo muito compatível. Diga-me, quando ele foi visto com vida pela última vez?
— Foi visto em King’s Road, por volta das sete horas daquela mesma noite, quinta-feira, dia três, e jantou no restaurante Gallant Endeavour às sete e meia. Parece que ele sempre jantava lá às quintas. Ele era meio artista, sabe. E um péssimo artista.
— Não tinha nenhum outro parente? Só este sobrinho?
— Tinha um irmão gêmeo. É uma história muito curiosa. Não se viam há anos. Parece que o outro irmão, Anthony Gascoigne, casou-se com uma mulher bastante rica e abandonou as artes — e os irmãos brigaram por causa disto. Não se viam desde essa época, acho eu. Mas, por estranho que pareça, morreram no mesmo dia. O gêmeo mais velho faleceu às três horas da tarde do dia três. Certa vez eu tive conhecimento de um caso de gêmeos que morreram no mesmo dia — em diferentes partes do mundo! Provavelmente apenas uma coincidência — mas é isto.
— A mulher do outro irmão está viva?
— Não; morreu há alguns anos atrás.
— Onde morava Anthony Gascoigne?
— Tinha uma casa em Kingston Hill. Pelo que o Dr. Lorrimer me disse, acho que ele era meio eremita.
Hercule Poirot balançou a cabeça, pensativamente.
O escocês lançou-lhe um olhar penetrante.
— O que, exatamente, se passa pela sua cabeça, M. Poirot? — perguntou bruscamente. — Respondi suas perguntas — como era meu dever, em vista das credenciais que me apresentou. Mas não estou entendendo nada.
Poirot respondeu, vagarosamente:
— Um simples caso de morte por acidente, foi o que o senhor disse. O que se passa na minha cabeça é igualmente simples — um simples empurrão.
O Dr. MacAndrew pareceu ficar surpreso.
— Em outras palavras, um assassinato! O senhor tem dados Para acreditar nesta hipótese?
— Não — disse Poirot. — É uma mera suposição.
— Deve haver alguma coisa... — insistiu o outro.
Poirot manteve-se calado. MacAndrew disse:
— Se é do sobrinho, Lorrimer, que suspeita, não me incomodo em lhe dizer que está trabalhando em vão. Lorrimer estava jogando bridge em Wimbledon, das oito e meia até meia-noite. Este ponto foi levantado no inquérito.
Poirot murmurou:
— E, presumivelmente, foi verificado. A polícia é cuidadosa.
O médico falou:
— Talvez o senhor saiba de alguma coisa que o desabone.
— Ignorava a existência de tal pessoa até o senhor mencioná-la.
— Então suspeita de uma outra pessoa?
— Não, não. Não é nada disso. Trata-se de um caso dos hábitos rotineiros do bicho homem. Isto é muito importante. E o falecido M. Gascoigne não se encaixa. Está tudo errado, entende?
— Para falar a verdade, não estou entendendo.
Hercule Poirot murmurou:
— O problema é o seguinte: há muito molho escondendo o peixe ruim.
— Mas o que é isso?
Hercule Poirot sorriu.
— Daqui a pouco o senhor estará me internando como lunático, Monsieur le Docteur. Mas, na verdade, não sou um caso mental — apenas um homem apaixonado pela ordem e pelo método, que se preocupa quando se depara com um fato que não se encaixa. Peço-lhe que me perdoe por lhe ter causado tantos problemas.
Levantou-se e o médico também.
— Sabe — disse MacAndrew — honestamente, não vejo nada que possa ser nem ligeiramente suspeito sobre a morte de Henry Gascoigne. Eu digo que ele caiu... o senhor diz que foi empurrado. Está tudo... bem... no ar.
Hercule Poirot suspirou.
— É — disse ele. — Primoroso. Alguém fez um belo serviço!
— O senhor ainda acha...?
O homenzinho abriu as mãos.
— Sou um homem obstinado — um homem com uma pequenina idéia — e nada que a sustente! A propósito, Henry Gascoigne usava dentaduras?
— Não, os dentes dele encontravam-se em ótimo estado. Muito louvável, na idade dele.
— Ele cuidava bem deles — eram brancos e bem escovados?
— Eram, foi um detalhe que reparei bem. Os dentes tendem a ficar amarelados com a idade, mas os dele estavam em ótimas condições.
— Não tinham perdido nenhum brilho?
— Não. Não creio que ele fumasse, se é isso o que quer saber.
— Não, não era isso exatamente — apenas uma conjectura — que, provavelmente, não se concretizará! Até logo, Dr. MacAndrew, e obrigado pela atenção.
Apertou a mão do médico e saiu.
— E agora — disse ele — à conjectura.
No Gallant Endeavour, sentou-se à mesma mesa que compartilhara com Bonnington. A moça que o atendeu não foi Molly. Molly, a moça lhe disse, estava de férias.
Eram apenas sete horas e Hercule Poirot não encontrou dificuldades para puxar conversa com a moça sobre o assunto do velho Sr. Gascoigne.
— É — disse ela. — Ele vinha aqui há anos. Mas nenhuma de nós sabia o seu nome. Lemos nos jornais sobre o inquérito, e havia uma foto dele. “Veja se não é o nosso ‘Velho Pai do Tempo’”, como costumávamos chamá-lo.
— Ele jantou aqui na noite em que morreu, não é?
— Exato. Quinta-feira, dia três. As quintas, ele estava sempre aqui. Terças e quintas — pontual como um relógio.
— Você por acaso se lembra o que ele comeu?
— Deixe-me ver, foi sopa hindu com caril, é, isso mesmo, pudim de carne, ou foi de carneiro? — não, pudim mesmo; amoras pretas, torta de maçã e queijo. E aí, pensar que ele foi para casa e caiu da escada naquela mesma noite. A causa, segundo dizem, foi o cadarço esfarrapado do roupão. É claro que as roupas dele eram algo de horrível — fora de moda e vestidas de qualquer maneira, aos farrapos; mesmo assim, ele tinha um quê, como se fosse alguém! Oh, temos tantos tipos interessantes de fregueses aqui.
Ela se afastou.
Hercule Poirot comeu seu filé de linguado. Dos olhos transparecia uma luz verde.
— Estranho — disse para si mesmo — como mesmo as pessoas mais inteligentes são traídas pelos detalhes. Bonnington achará muito interessante.
Mas ainda não chegara o momento para uma conversa despreocupada com Bonnington.
De posse das apresentações de um certo setor influente, Hercule Poirot não teve dificuldade alguma para entrar em contato com o magistrado encarregado de investigar as mortes suspeitas do distrito.
— Uma figura curiosa, o falecido Gascoigne — observou ele. — Um velhote solitário, excêntrico. Mas a morte dele parece despertar uma atenção extremamente grande.
Olhou o visitante com alguma curiosidade enquanto falava.
Hercule Poirot escolheu as palavras com cuidado.
— Existem algumas circunstâncias ligadas a ela, Monsieur, que tornam a investigação desejável.
— Bem, em que lhe posso ser útil?
— Se não me engano, está em seu poder mandar destruir ou guardar os documentos apresentados em sua corte, dependendo do caso. Foi encontrada uma certa carta no bolso do roupão de Henry Gascoigne, não é mesmo?
— Exato.
— Uma carta do seu sobrinho, o Dr. Lorrimer.
— Correto. A carta foi apresentada no inquérito para ajudar a determinar a hora da morte.
— Que foi corroborada pela evidência médica.
— Exatamente.
— Esta carta ainda está disponível?
Hercule Poirot aguardou a resposta com ansiedade.
Ao ouvir que a carta ainda estava disponível para exame, deu um suspiro de alívio.
Quando finalmente lhe foi entregue, examinou-a com algum cuidado. Fora escrita com caneta-tinteiro, numa caligrafia ligeira-mente rígida.
Dizia o seguinte:
“Querido tio Henry:
Lamento dizer-lhe que não obtive êxito junto ao tio Anthony. Não demonstrou entusiasmo pela sua provável visita, e não res-pondeu ao seu pedido de esquecer as águas passadas. É claro que ele está bastante doente, e sua mente tende a devaneios. Imagino que o fim lhe esteja muito próximo. Aparentemente, foi-lhe difícil lembrar-se quem era o senhor.
Lamento ter lhe desapontado, mas posso lhe garantir que fiz o possível.
Toda a afeição de seu sobrinho,
George Lorrimer.”
A carta estava datada do dia 3 de novembro. Poirot deu uma olhadela no carimbo do envelope: 16:30/Nov. 3.
Murmurou:
— Tudo belamente organizado.
Kingston Hill era o seu próximo objetivo. Depois de algum trabalho, em que exercitou sua pertinácia bem-humorada, conseguiu entrevistar-se com Amelia Hill, cozinheira e governanta do falecido Anthony Gascoigne.
A princípio a Sra. Hill mostrou-se esquiva e desconfiada, mas a ingenuidade encantadora daquele estrangeiro de aparência estranha amoleceria até mesmo uma pedra. A Sra. Hill começou a amolecer.
Encontrou-se, como já acontecera com muitas outras mulheres antes dela, despejando seus problemas em cima de um ouvinte realmente solidário.
Durante quatorze anos fora encarregada dos serviços domésticos do Sr. Gascoigne — e não era nada fácil! Não, mesmo! Muitas mulheres teriam fraquejado diante da carga que ela tivera que suportar! O pobre homem era excêntrico, não havia como negá-lo. Extremamente afeiçoado ao seu dinheiro — era uma espécie de mania dele — logo ele, um homem tão rico. Mas a Sra. Hill o servira fielmente, agüentara seus modos e, naturalmente, esperava dele uma lembrança qualquer. Mas não — absolutamente nada! Apenas um velho testamento que deixava todo o dinheiro para a mulher e, se ela falecesse antes dele, iria tudo para o irmão, Henry. Um testamento feito há anos. Não parecia justo!
Pouco a pouco, Hercule Poirot afastou-a de seu tema principal, cupidez insatisfeita. Era, sem dúvida, uma injustiça cruel! A Sra. Hill não poderia ser culpada por sentir-se magoada e surpresa. Era um fato sabido que o Sr. Gascoigne era pão-duro em matéria de di-nheiro. Comentava-se mesmo que o falecido recusara a assistência de seu único irmão. A Sra. Hill provavelmente sabia de tudo aquilo.
— Foi por isso que o Dr. Lorrimer veio aqui visitá-la? — perguntou a Sra. Hill. — Eu sabia que tinha alguma coisa a ver com o irmão, mas pensei que ele só quisesse se reconciliar. Brigaram há anos atrás.
— Pelo que eu saiba — disse Poirot — o Sr. Gascoigne recusou completamente.
— Foi mesmo — disse a Sra. Hill, com um gesto afirmativo de cabeça. — “Henry?” disse ele, já bem fraco. “O que é que tem Henry? Não o vejo há anos e nem pretendo vê-lo. Um criador de casos, o Henry.”E foi só.
A conversação, então, reverteu para as queixas próprias da Sra. Hill, e para a atitude insensível do advogado do falecido Sr. Gascoigne.
Com alguma dificuldade, Hercule Poirot despediu-se sem interromper a conversa muito rudemente.
E assim, logo depois da hora do jantar, ele chegou em Elmcrest, Dorset Road, Wimbledon, à residência do Dr. George Lorrimer.
O médico estava em casa. Hercule Poirot foi levado para o consultório onde, logo depois, encontrava-se o Dr. George Lorrimer, que obviamente acabara de se levantar da mesa de jantar.
— Não sou um cliente, doutor — disse Hercule Poirot. — E minha vinda aqui talvez seja um tanto impertinente — mas eu sou um homem velho e acredito num contato simples e direto. Não ligo para os advogados e nem para seus métodos prolixos e cheios de rodeios.
Sem dúvida alguma, ele despertara o interesse de Lorrimer. O médico era um homem bem barbeado, de estatura mediana. O cabelo era castanho, mas os cílios eram quase brancos, o que lhe emprestava aos olhos um aspecto pálido, sem sal. Seus modos eram sagazes, e não destituídos de humor.
— Advogados? — disse ele, levantando as sobrancelhas. — Detesto esta espécie! O senhor desperta minha curiosidade, meu caro. Sente-se, por favor.
Poirot o fez e então pegou um de seus cartões profissionais, entregando-o ao médico.
Os cílios brancos de George Lorrimer piscaram.
Poirot curvou-se para frente, com ar confidencial:
— Muitos de meus clientes são mulheres — disse ele.
— Naturalmente — disse o Dr. George Lorrimer, com um ligeiro piscar de olhos.
— Como o senhor diz, naturalmente — concordou Poirot. — As mulheres não confiam na polícia. Preferem as investigações particulares. Não querem que seus problemas sejam tornados públicos. Uma senhora idosa veio me consultar há alguns dias. Estava com problemas a respeito de um marido com quem brigara há muitos anos. O marido dela era seu tio, o falecido Sr. Gascoigne.
O rosto de George Lorrimer ficou escarlate.
— Meu tio? Que bobagem! A mulher dele morreu há muitos anos.
— Não o seu tio Anthony Gascoigne. Refiro-me ao outro tio, Henry Gascoigne.
— Tio Henry? Mas ele não era casado!
— Ah, era, sim — disse Hercule Poirot, mentindo sem enrubescer. — Não há a menor dúvida. A senhora até mesmo levou a certidão de casamento.
— É mentira! — gritou George Lorrimer. Seu rosto agora estava vermelho como um morango. — Não acredito nisso. O senhor é um cínico e mentiroso.
— Que coisa desagradável, não? — disse Poirot. — O senhor cometeu um crime para nada.
— Crime? — A voz de Lorrimer ficara trêmula. Seus olhos pálidos quase lhe saltaram das órbitas de terror.
— A propósito — disse Poirot, — percebo que estava comendo torta de amoras pretas de novo. Um péssimo hábito. Dizem que a amora preta é rica em vitaminas, mas pode ser fatal de outras formas. Nesta ocasião, imagino que as amoras tenham ajudado a pôr uma corda no pescoço de um homem — de seu pescoço, Dr. Lorrimer.
— Como vê, mon ami, você se enganou na suposição fundamental. — Hercule Poirot, sorrindo placidamente para o amigo, do outro lado da mesa, acenou a mão retoricamente. — Um homem que está passando sob forte tensão mental não escolhe este exato momento para fazer uma coisa que nunca fez. Seus reflexos o levam ao caminho que oferece a menor resistência. Um homem perturbado com alguma coisa pode, até mesmo, sair de pijamas para jantar — mas o pijama será dele — e não de outra pessoa. Um homem que não gosta de sopa cremosa, de pudim feito com gordura de rins e nem de amoras pretas, subitamente pede os três numa só noite. Você diz que é por ele estar pensando em outra coisa. Mas eu digo que quando um homem está preocupado com alguma coisa, pedirá, automaticamente, o prato que está acostumado a pedir na maioria das vezes. Eh bien, que outra explicação poderia haver, então? Eu simplesmente não conseguia achar uma explicação razoável. E fiquei preocupado! O incidente estava todo errado. Não se encaixava! Eu tenho uma mente organizada e gosto que as coisas se encaixem. O pedido que o Sr. Gascoigne fez no jantar preocupava-me. Depois você me disse que o homem desaparecera. Pela primeira vez em anos, faltara numa terça e numa quinta. Gostei menos ainda. Uma hipótese estranha surgiu em minha cabeça. Caso fosse verdadeira, o homem estava morto. Investiguei. O homem estava morto. E morrera de forma muito arrumada e organizada. Em outras palavras: o peixe ruim estava escondido pelo molho! Fora visto em King’s Road às sete horas. Jantara aqui às sete e meia — duas horas antes de morrer. Tudo se encaixava — a evidência do conteúdo do estômago, a carta. Molho demais, demais! Não dava para ver o peixe de jeito nenhum! O sobrinho dedicado escrevera a carta, o sobrinho dedicado tinha um belo álibi na hora da morte. Uma morte muito simples — uma queda da escada. Simples acidente? Um crime simples? Todos achavam o primeiro. O sobrinho dedicado era o único parente vivo. O sobrinho dedicado será o herdeiro — mas há alguma coisa a ser herdada? O tio é sabidamente pobre. Mas há um irmão. E o irmão, quando jovem, casara-se com uma moça rica. E o irmão mora numa casa grande e luxuosa em Kingston Hill, de forma que o esperado é que a esposa rica tenha lhe deixado todo o seu dinheiro. Veja a seqüência — esposa rica deixa o dinheiro para Anthony, Anthony deixa o dinheiro para Henry, o dinheiro de Henry vai para George — uma corrente completa.
— Tudo muito bonito em teoria — disse Bonnington. — Mas o que você fez?
— Uma vez sabido — geralmente se obtém aquilo que se deseja. Henry morrera duas horas depois de uma refeição — e o inquérito só se preocupou com isso. Mas suponhamos que a refeição não tenha sido jantar, e sim almoço. Ponha-se no lugar de George. George está necessitado de dinheiro — e muito. Anthony Gascoigne está à morte — mas a morte dele de nada adianta a George. O dinheiro dele irá para Henry e Henry Gascoigne pode viver durante muitos anos. De forma que Henry precisa morrer — e quanto mais cedo melhor — e a morte dele deve ser posterior à de Anthony e, ao mesmo tempo, George precisa de um álibi. O hábito de Henry jantar regularmente num restaurante duas vezes por semana sugeriu-lhe um álibi. Sendo um sujeito cauteloso, experimenta o plano antes. Ele representa o tio na noite de segunda-feira, no restaurante em questão. Tudo sai às mil maravilhas. Todos o tomam pelo tio. Ele fica satisfeito. Resta-lhe apenas esperar que o tio Anthony apresente os sinais definitivos de que já está nas últimas. A ocasião se apresenta. Escreve uma carta para o tio na tarde do dia dois de novembro, mas data-a de três. Vem à cidade na tarde do dia três, visita o tio e executa seu plano. Um empurrão rápido, e lá se vai o tio Henry escada abaixo. George procura em todos os cantos a carta que escrevera e enfia-a no bolso do roupão do tio. Às sete e meia ele se encontra no Gallant Endeavour, de barba, sobrancelhas espessas, todos os detalhes. Sem dúvida alguma, o Sr. Henry Gascoigne está vivo às sete e meia. A rápida metamorfose num banheiro, de volta a Wimbledon em seu carro, a toda velocidade, e uma noitada de bridge. O álibi perfeito.
O Sr. Bonnington olhou-o:
— Mas e o carimbo do correio na carta?
— Ora; muito simples. O carimbo estava borrado. Por quê? Fora alterado com tinta preta, de dois de novembro para três de novembro. Não dava para perceber, a não ser que se olhasse com atenção. É, finalmente, havia as amoras pretas.
— Amoras pretas?
— George, você sabe, não foi um ator tão bom no final das contas. Você se lembra do sujeito que se pintou todo de preto para representar Otelo? Este é o tipo de ator que se precisa ser para um crime. George parecia com o tio e andava como o tio e falava como o tio, e tinha a barba e sobrancelha do tio, mas esqueceu-se de comer como o tio. Pediu pratos que eram do seu agrado. Amoras pretas tiram o brilho dos dentes — os dentes do cadáver não tinham perdido o brilho e, mesmo assim, Henry Gascoigne comeu amoras pretas no Gallant Endeavour, naquela noite. Mas não havia amoras pretas em seu estômago. Perguntei hoje de manhã. E George cometeu a tolice de guardar a barba e o resto da maquilagem. Oh! evidência em excesso, quando alguém se dá ao trabalho de procurar. Fiz uma visita a George e desconcertei-o. Foi o que o liquidou! Por falar nisso, estava comendo amoras pretas de novo. Um sujeito guloso — preocupava-se demais com a sua própria comida. Eh bien, a gula o levará à forca, a não ser que eu esteja redondamente enganado.
Uma garçonete trouxe-lhes duas porções de amoras pretas e torta de maçã.
— Leve isso daqui — disse o Sr. Bonnington. — Não se deve ser tão guloso. Traga-me um pouco de pudim de sagu.