A Companhia Negra
Capítulo Seis | Dama
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Então, eram mais ou menos 21 mil homens, contra mais de dez vezes essa quantidade. Números não são sempre determinantes. Os Anais registram vários momentos em que a Companhia foi contra as probabilidades. Mas não assim. Tudo era estático demais. Não havia espaço para retiradas ou manobras, e um avanço estava fora de questão.
Os rebeldes começaram a agir para valer. Os defensores da paliçada recuaram rapidamente, desmantelando as pontes de tábuas que cruzavam as três trincheiras. Os rebeldes não perseguiram. Em vez disso, começaram a demolir o muro de troncos.
— Eles parecem tão metódicos quanto a Dama — comentei com Elmo.
— É. Vão usar a madeira para cruzar as trincheiras.
Ele estava errado, mas não sabíamos disso naquele momento.
— Sete dias até a chegada dos exércitos orientais — murmurei ao pôr do sol, olhando de volta ao volume imenso e sombrio da Torre. A Dama não tinha saído para o início da batalha.
— Acho que uns nove ou dez — argumentou Elmo. — Eles querem chegar aqui todos juntos.
— É. Eu deveria ter pensado nisso.
Comemos comida fria e dormimos no chão. De manhã, acordamos com o zurro das trombetas rebeldes.
As formações inimigas se estendiam até onde a vista alcançava. Uma linha de manteletes começou a avançar, imensos escudos construídos com a madeira de nossa paliçada. Formavam uma muralha móvel que se estendia por toda a largura do triângulo. As balistas pesadas começaram a cantar. Grandes trabucos de contrapeso, um tipo imenso de catapulta, lançavam pedras e bolas de fogo. O dano que provocaram foi irrelevante.
Sapadores rebeldes começaram a fazer pontes na primeira trincheira, usando lenha trazida dos acampamentos. As fundações dessas pontes eram enormes vigas, com 15 metros de comprimento, imunes a projéteis. Era necessário usar guindastes para posicioná-las. Os sapadores precisavam se expor enquanto montavam e operavam os aparelhos. Engenhos de cerco da Guarda, bem-posicionados, faziam com que isso custasse caro.
No local da paliçada desmontada, os engenheiros rebeldes montavam torres com rodas de onde arqueiros poderiam atirar e rampas com rodas para serem empurradas até o primeiro nível. Carpinteiros faziam escadas. Não vi nenhuma artilharia. Acho que eles pretendiam nos inundar com soldados assim que tivessem cruzado as trincheiras.
O Tenente entendia bem de engenharia de cerco. Fui falar com ele.
— Como eles vão trazer aquelas rampas e torres até aqui?
— Vão preencher as trincheiras.
O Tenente acertou. Assim que conseguiram completar as pontes da primeira fossa e começaram a trazer os manteletes para o outro lado, carroças e carroções apareceram, transportando terra e pedras. Carregadores e bestas de carga foram massacrados. Os corpos ajudaram no aterramento.
Os sapadores avançaram à segunda trincheira e montaram os guindastes. O Círculo não forneceu suporte armado. O Arauto da Tormenta mandou arqueiros à beira da última trincheira. A Guarda manteve as balistas lançando fogo pesado. Os sapadores sofreram pesadas baixas. O comando inimigo simplesmente mandou mais homens.
Os rebeldes começaram a atravessar a segunda trincheira com os manteletes uma hora antes do meio-dia. Carroças e carroções a cruzaram também, levando enchimento.
Os sapadores se depararam com um fogo devastador ao avançar até a última trincheira. Os arqueiros no segundo nível lançavam as flechas bem alto, e elas caíam quase na vertical. Os trabucos ajustaram a pontaria, explodindo os manteletes em lenha de fogueira e palitos de dente. Os rebeldes, porém, continuaram avançando. No flanco do Devora-Lua, eles conseguiram baixar um conjunto de vigas até a margem oposta.
Devora-Lua atacou, cruzando com uma tropa escolhida a dedo. O assalto foi tão feroz que fez os sapadores recuarem de volta ao outro lado da segunda trincheira. Destruiu o equipamento deles e atacou novamente. Então o comando rebelde mandou uma coluna forte de infantaria pesada. Devora-Lua recuou, deixando as pontes da segunda trincheira arruinadas.
Inexoravelmente, os rebeldes refizeram as pontes e avançaram até a última trincheira sob a proteção de soldados. Os atiradores da Arauto recuaram.
As flechas do segundo nível caíram como flocos numa nevasca pesada de inverno, constantes e igualmente distribuídas. O massacre era espetacular. Tropas rebeldes eram despejadas no caldeirão da bruxa. Um rio de feridos fluía para fora. Na última trincheira, os sapadores decidiram se abrigar atrás dos manteletes, rezando para que não fossem despedaçados pela Guarda.
Esse era o cenário enquanto o sol se punha, lançando longas sombras no campo ensanguentado. Estimo que os rebeldes tenham perdido 10 mil homens sem nos levar ao combate.
Ao longo daquele dia, nem os Tomados nem o Círculo usaram seus poderes. A Dama não deixou a Torre.
Menos um dia de espera pelos exércitos do leste.
As hostilidades se encerraram com o crepúsculo. Comemos. Os rebeldes trouxeram outro turno para continuar o trabalho. Os recém-chegados se arriscaram com a empolgação que os predecessores tinham perdido. A estratégia era óbvia. Eles revezariam tropas descansadas e nos desgastariam.
As trevas eram a hora dos Tomados. A passividade deles acabou.
Pude ver pouco, no começo, então não tenho certeza de quem fez o quê. Metamorfo, suspeito, mudou de forma e se lançou contra o território inimigo.
As estrelas começaram a sumir com a chegada súbita de nuvens tempestuosas. Ar frio correu pela terra. O vento se ergueu, uivou. Cavalgando as correntes de ar, chegou uma horda de coisas com asas coriáceas, serpentes voadoras do tamanho do braço de um homem. O sibilar delas soava mais alto que o tumulto do vendaval. Trovões ribombavam e relâmpagos brotavam, cravando as obras inimigas com suas lanças. Os clarões revelavam o avanço ponderoso de gigantes das vastidões rochosas. Eles atiravam rochas como crianças jogando bolas. Um deles catou a viga de um ponto e a usou como clava, esmagando torres de cerco e rampas. À luz traiçoeira, eles pareciam ser feitos de pedra, destroços basálticos reunidos numa paródia grotesca e gigante da forma humana.
A terra estremeceu. Partes da planície brilharam com um verde biliar. Vermes alaranjados radiantes e ensanguentados de 3 metros serpenteavam por entre nossos inimigos. Os céus se abriram e despejaram chuva e enxofre ardente.
A noite vomitou mais horrores. Sapos assassinos. Insetos matadores. Um brilho iniciante de magma, como na Escada das Lágrimas. E tudo isso em apenas alguns minutos. Uma vez que o Círculo reagia, os terrores se desfaziam, embora alguns levassem horas para serem neutralizados. Eles nunca tomavam a ofensiva. Os Tomados eram fortes demais.
Por volta da meia-noite tudo estava calmo. Os rebeldes tinham desistido de tudo, exceto o aterramento da trincheira mais distante. A tempestade havia se tornado uma chuva constante. Deixava os rebeldes infelizes, mas não lhes feria. Eu me deitei junto a meus companheiros e adormeci pensando como era bom que nossa parte do mundo estivesse seca.
Alvorada. A primeira visão que tivemos do trabalho dos Tomados. Morte por todos os lados. Cadáveres horrivelmente mutilados. Os rebeldes trabalharam até meio-dia para limpar a área, depois reiniciaram o ataque contra as trincheiras.
O Capitão recebeu uma mensagem da Torre e nos reuniu.
— Fiquei sabendo que perdemos Metamorfo ontem à noite. — Ele me lançou um olhar carregado de significado. — A circunstâncias foram questionáveis. Recebemos ordens de ficar em alerta. Isso quer dizer você, Caolho. E vocês, Duende e Calado. Gritem à Torre se virem qualquer coisa suspeita. Entenderam? — Eles concordaram com a cabeça.
Metamorfo morto. Deve ter dado trabalho.
— Os rebeldes perderam alguém importante? — indaguei.
— Suíças. Cordoeiro. Tamarasque. Mas eles podem ser substituídos. Metamorfo, não.
Rumores se espalhavam. As mortes dos membros do Círculo tinham sido causadas por alguma fera felina tão rápida e forte que nem os poderes das vítimas haviam ajudado. Várias dezenas de altos oficiais rebeldes tombaram também.
Os homens se lembraram de uma besta similar em Berílio. Houve sussurros. O Apanhador tinha trazido o forvalaka no navio. Será que estaria empregando o monstro contra os rebeldes?
Achei que não. O ataque se encaixava no estilo do Metamorfo. Ele amava se infiltrar nos acampamentos inimigos...
Caolho vagueava com uma expressão pensativa, tão absorto que esbarrava nas coisas. Uma hora ele parou e socou um presunto pendurado numa das recém-erguidas barracas de cozinha.
Ele tinha entendido. Como o Apanhador mandara o forvalaka ao Bastião para massacrar a família inteira do Síndico e, como consequência, havia ganhado o controle da cidade por meio de uma marionete, sem gastar nenhum dos recursos da Dama. O Apanhador e o Metamorfo eram amigos naquela época, não eram?
Caolho tinha descoberto quem matara o irmão dele, mas tarde demais para se vingar.
Ele voltou e bateu no presunto várias vezes naquele dia.
Eu me juntei a Corvo e Lindinha mais tarde. Estavam observando a ação. Conferi as tropas de Metamorfo. O estandarte tinha sido substituído.
— Corvo, aquela ali não é a bandeira de Jalena?
— É. — Ele cuspiu.
— Metamorfo não era um cara mau. Para um Tomado.
— Nenhum deles é. Para um Tomado. Desde que você não se meta no caminho deles. — Corvo cuspiu de novo e olhou para a Torre. — O que está acontecendo lá dentro, Chagas?
— Hein? — Ele estava sendo tão polido quanto tinha sido desde nosso retorno do campo.
— Qual é o motivo de todo este espetáculo? Por que ela está fazendo as coisas assim?
Eu não entendia bem o que ele estava me perguntando.
— Não sei. Ela não me faz confidências.
Corvo fez uma cara feia.
— Não? — Como se não acreditasse em mim! E então deu de ombros. — Seria interessante descobrir.
— Sem dúvida.
Observei Lindinha. Ela estava extraordinariamente intrigada pelo ataque. Fazia uma torrente de perguntas a Corvo. Não eram questões simples, e sim algo que se esperaria de um general aprendiz, um príncipe, alguém que um dia assumirá o comando.
— Não seria melhor se ela estivesse num lugar mais seguro? — perguntei. — Quero dizer...
— Onde? — retrucou Corvo. — Que lugar pode ser mais seguro do que a meu lado? — A voz dele era agressiva, os olhos estreitados de desconfiança. Espantado, eu abandonei o assunto.
Será que ele estava com ciúmes de minha nova amizade com Lindinha? Eu não sei. Tudo em Corvo é estranho.
Pedaços da trincheira mais distante tinham sumido. Alguns pontos da trincheira do meio foram aterrados e socados. Os rebeldes haviam movido as torres e rampas restantes para o limite extremo de nossa artilharia. Novas torres eram erguidas. Novos manteletes surgiram por todos os lados. Homens se escondiam detrás de cada um deles.
Enfrentando barragens inclementes, sapadores rebeldes construíram pontes sobre a trincheira final. Contra-ataques os atrasavam repetidamente, mas eles continuavam vindo. Completaram a oitava ponte três horas após o meio-dia.
Vastas formações de infantaria avançaram. Enxamearam pelas pontes, desafiando as presas da tempestade de flechas. Chocaram-se contra nossa primeira linha aleatoriamente, saraivando nossas forças como granizo, morrendo contra uma parede de lanças, escudos e espadas. Cadáveres se empilhavam. Nossos arqueiros ameaçavam encher as fossas ao redor das pontes. E, ainda assim, eles vinham.
Reconheci alguns estandartes vistos em Rosas e Lordes. As unidades de elite estavam chegando.
As tropas cruzaram as pontes e entraram em formação, avançando em boa ordem, pressionando intensamente nosso centro. Atrás deles, uma segunda linha se formou, mais forte, mais funda, mais larga. Quando esta se solidificou, os oficiais a moveram adiante alguns metros e mandaram os homens se ajoelharem detrás dos escudos.
Sapadores atravessaram com os manteletes, juntando-os em algo como uma paliçada. Nossa artilharia mais pesada se concentrou neles. Atrás do fosso, hordas corriam para ocupar pontos determinados.
Mesmo que nossos homens no nível inferior fossem os menos capazes (suspeito que o sorteio tivesse sido armado), eles repeliram a elite rebelde. O sucesso lhes concedeu apenas um descanso rápido. A turba seguinte atacou.
Nossa linha rachou. Poderia ter sido rompida se eles tivessem para onde fugir. Tinham o hábito de correr, mas estavam presos naquele momento, sem chance de escalar a parede de contenção.
Aquela onda recuou. Devora-Lua contra-atacou e afastou o inimigo diante de si. Destruiu a maior parte dos manteletes deles e ameaçou as pontes por um curto período. Fiquei impressionado com a agressividade do Tomado.
Era tarde. A Dama não havia aparecido. Imagino que ela não tivesse duvidado de que iríamos aguentar. O inimigo lançou um último assalto, uma onda humana que chegou com um sussurro que sobrepujou nossos homens. Em alguns pontos os rebeldes alcançaram a muralha de contenção e tentaram escalá-la ou desmantelá-la. Mas nossos homens não cederam. A chuva incessante de flechas quebrou a determinação rebelde.
Eles se retiraram. Unidades novas se juntaram atrás dos manteletes. Uma paz temporária se estabeleceu. O campo era dos sapadores inimigos.
— Seis dias — eu disse a ninguém em particular. — Não acho que vamos aguentar.
A primeira linha não deveria sobreviver ao dia seguinte. A horda assaltaria o segundo nível. Nossos arqueiros eram letais nessa função, mas eu duvidava que fossem muito bons em combate corpo a corpo. Além disso, uma vez engajados em curto alcance, eles não poderiam mais ferir os inimigos que se aproximavam. As torres rebeldes, então, fariam a eles o que nossos homens estiveram fazendo até então.
Cortamos uma trincheira estreita perto da retaguarda do topo da pirâmide. Nos servia de latrina. O Capitão me flagrou em meu momento mais deselegante.
— Eles precisam de você no primeiro nível, Chagas. Leve Caolho e sua equipe.
— O quê?
— Você é um médico, não é?
— Ah!
Que bobagem a minha. Eu deveria ter adivinhado que não continuaria sendo apenas um observador.
O resto da Companhia desceu também, para executar outras tarefas.
Descer não era problema, mesmo que o tráfego fosse pesado nas rampas temporárias. Homens do nível superior e do alto da pirâmide carregavam munição até os arqueiros (a Dama deve ter acumulado flechas por gerações), e traziam cadáveres e feridos para cima.
— Seria uma boa hora de nos surpreender — comentei com Caolho. — Aí seria só correr pelas rampas.
— Eles estão ocupados demais fazendo as mesmas coisas que nós.
Passamos a 3 metros do Apanhador de Almas. Ergui uma das mãos num cumprimento hesitante. Ele fez o mesmo após uma pausa, e tive a impressão de que ele estava espantado.
Nós descemos e descemos até o território da Arauto da Tormenta.
Aquilo lá era um inferno. Todos os campos de batalha são, mas eu nunca vira nada assim. Homens caídos por toda parte. Muitos eram rebeldes que nossos soldados não tiveram energia para finalizar. Até mesmo os soldados que vinham do alto apenas os chutavam para o lado para poder recolher nossos feridos. Dez metros adiante, soldados rebeldes recolhiam os próprios feridos enquanto ignoravam os nossos.
— É como algo saído dos velhos Anais — comentei com Caolho. — Talvez a batalha de Rasgante.
— Rasgante não foi tão sangrenta assim.
— Hum.
Ele estivera lá. Caolho estava na Companhia há muito tempo.
Encontrei um oficial e perguntei onde eu deveria trabalhar. Ele sugeriu que seríamos mais úteis ao Roedor de Ossos.
No caminho, passamos desconfortavelmente perto da Arauto da Tormenta, e o amuleto de Caolho ardeu em meu pulso.
— Amiga sua? — indagou Caolho com sarcasmo.
— O quê?
— A velha assombração te olhou muito esquisito.
Eu estremeci. Fios verdes. Vento controlado. Poderia ter sido a Arauto da Tormenta.
O Roedor de Ossos era grande, maior que Metamorfo, com 2 metros e meio de altura e 270 quilos de puro músculo férreo. O sujeito era tão forte que chegava a ser grotesco. Tinha uma boca de crocodilo, e dizem que ele comia os inimigos nos velhos tempos. Algumas das histórias antigas também o chamavam de Esmaga-Ossos, por conta da força física.
Enquanto eu olhava fixamente o Tomado, um de seus tenentes mandou que fôssemos ao extremo flanco direito, onde o combate tinha sido tão leve que nenhuma equipe médica fora designada.
Encontramos o comandante de batalhão apropriado.
— Montem tudo aqui — disse ele. — Mandarei trazer os homens até vocês. — Ele parecia amargurado.
— Ele era comandante de companhia esta manhã — explicou um dos assistentes dele. — O combate de hoje foi muito duro com os oficiais. — Quando você tem baixas pesadas no pessoal de comando, isso significa que eles estão liderando na linha de frente para impedir que os soldados cedam.
Caolho e eu começamos a tratar os feridos.
— Achei que a coisa aqui tinha sido fácil.
— Isso é um conceito relativo.
Ele nos encarou com dureza. Nós ousávamos falar em “fácil” depois de termos passado o dia de bobeira na pirâmide.
A medicina à luz de tochas é muito divertida. Ao todo, nós tratamos várias centenas de soldados. Sempre que eu fazia uma pausa para aliviar a dor e rigidez das mãos e dos ombros, olhava para o céu, perplexo. Eu esperara que os Tomados dessem outro espetáculo nesta noite.
O Roedor de Ossos veio até nosso hospital improvisado, nu da cintura para cima, sem máscara, parecendo um lutador supercrescido. Não disse nada. Tentamos ignorá-lo. Seus olhinhos porcinos permaneceram apertados enquanto nos vigiavam.
Caolho e eu estávamos trabalhando no mesmo homem, em lados opostos. O feiticeiro parou subitamente, erguendo a cabeça como um cavalo espantado. Arregalou os olhos e olhou em volta com urgência.
— O que foi? — indaguei.
— Eu não... Estranho. Passou. Por um segundo... Deixa pra lá.
Fiquei de olho nele. Caolho estava assustado. Mais assustado do que seria de se esperar da presença de um dos Tomados. Olhei de soslaio para o Roedor de Ossos. Ele também vigiava Caolho.
O feiticeiro fez aquilo de novo mais tarde, enquanto atendíamos pacientes diferentes. Ergui o olhar. Atrás dele, ao nível da cintura, percebi o brilho de olhos. Um calafrio percorreu minha espinha.
Caolho observou as trevas, cada vez mais nervoso. Quando terminou de tratar o paciente, limpou as mãos e foi para perto do Roedor de Ossos.
Uma fera urrou. Uma silhueta negra se lançou ao círculo de luz, vindo em minha direção.
— Forvalaka! — exclamei, e me atirei para o lado. A besta passou por cima de mim, com uma das garras rasgando meu gibão.
O Roedor de Ossos alcançou o ponto de impacto da fera ao mesmo tempo que ela. Caolho lançou um feitiço que cegou o monstro, a mim e a todos os outros. Ouvi o forvalaka rugir. Fúria virou agonia. Minha visão voltou. O Roedor de Ossos estava com a fera presa num abraço mortal, o braço direito esmagando a traqueia dela e o esquerdo, as costelas. Ela arranhava o ar inutilmente. Diz-se que ela tem a força de 12 leopardos, mas, nos braços do Roedor de Ossos, estava indefesa. O Tomado riu e mordeu um pedaço do ombro esquerdo do animal.
Caolho cambaleou para mim.
— A gente deveria ter levado esse cara conosco lá em Berílio — comentei. Minha voz tremeu.
Caolho estava tão assustado que engasgou. Não riu. Eu também não tinha muito humor naquele momento, honestamente. Foi um sarcasmo de reflexo. Humor negro.
Trombetas encheram a noite com seus gritos. Homens acorreram às suas posições. O estardalhaço de armas abafou o estrangulamento do forvalaka.
Caolho pegou meu braço.
— Vamos sair daqui — rogou. — Venha.
Fiquei hipnotizado pela luta. O leopardo tentava se transformar. Tinha uma aparência vagamente feminina.
— Vamos! — Caolho praguejava impetuosamente. — Aquela coisa veio atrás de você, sabia? Foi enviada. Vamos sair antes que ela escape.
O forvalaka possuía uma energia infinita, apesar da imensa selvageria e força do Roedor de Ossos. O Tomado havia destruído o ombro esquerdo dele com os dentes.
Caolho tinha razão. Do outro lado os rebeldes estavam se animando. O combate poderia se reiniciar. Hora de sair dali, pelos dois motivos. Peguei minhas coisas e caí fora.
Passamos tanto pela Arauto da Tormenta quanto pelo Apanhador de Almas no caminho de volta, e bati uma continência zombeteira para cada um. Fui motivado não sei por que bravata ousada. Um deles, eu tinha certeza, iniciara o ataque. Nenhum dos dois reagiu.
Minha reação não aconteceu até eu estar em segurança no topo da pirâmide, com a Companhia, sem nada mais para fazer além de pensar no que poderia ter acontecido. Então comecei a tremer tanto que Caolho teve de me dar uma de minhas próprias misturas para dormir.
Alguma coisa visitou meus sonhos. Já era uma velha amiga. Brilho dourado e rosto bonito. Como antes: “Meus Fiéis não precisam temer.”
Havia uma nesga de luz no leste quando o efeito da bebida passou. Acordei menos assustado, mas nem um pouco confiante. Três vezes eles tentaram. Qualquer um tão determinado a me matar encontraria um jeito. Independentemente do que a Dama dissesse.
Caolho apareceu quase imediatamente.
— Tudo bem com você?
— É. Tudo.
— Você perdeu um baita espetáculo.
Ergui uma sobrancelha.
— O Círculo e os Tomados caíram na porrada depois que você apagou. Só pararam agora há pouco. As coisas foram bem feias desta vez. O Roedor de Ossos e a Arauto da Tormenta rodaram. Parece que um matou o outro. Venha cá, quero lhe mostrar uma coisa.
Resmungando, eu o segui.
— Os rebeldes apanharam muito?
— Tem várias versões por aí. Mas eles apanharam bastante. Pelo menos quatro deles empacotaram. — Caolho parou na beirada dianteira da pirâmide e fez um gesto dramático.
— O que foi?
— Você tá cego? Eu sou caolho e vejo melhor que você?
— Me dá uma dica.
— Procure uma crucificação.
— Ah! — Sabendo disso, não tive dificuldades em encontrar a cruz plantada perto do posto de comando da Arauto da Tormenta. — Muito bem, e daí?
— É seu amigo. O forvalaka.
— Meu?
— Nosso? — Uma expressão deliciosamente maligna surgiu no rosto de Caolho. — Fim de uma longa história, Chagas. Quem quer que tenha matado Tom-Tom, eu vivi para ver ele ou ela alcançar um fim horrível.
— É. — À nossa esquerda, Corvo e Lindinha observavam os rebeldes avançando. Os dedos deles moviam-se rápido demais. Estavam longe demais para que eu pudesse pescar muita coisa. Era como bisbilhotar uma conversa numa língua que você só tem uma familiaridade passageira. Um monte de blá-blá-blá. — O que está incomodando Corvo ultimamente?
— Como assim?
— Ele não faz ou fala nada com ninguém além de Lindinha. Nem fica mais de conversa com o Capitão. Não participou de nenhum jogo de Tonk desde que trouxemos Pluma e Jornada. Fica todo irritado quando alguém tenta ser legal com Lindinha. Alguma coisa aconteceu enquanto estávamos fora?
Caolho deu de ombros.
— Eu estava com você, Chagas, lembra? Ninguém disse nada. Mas agora que você mencionou, sim, ele está esquisito. — O homenzinho riu. — Esquisito para o Corvo.
Esquadrinhei os preparativos rebeldes. Pareciam desanimados e desorganizados. Mesmo assim, apesar da fúria da noite passada, eles tinham terminado de aterrar as duas trincheiras mais distantes. Os esforços inimigos no fosso mais próximo havia lhes rendido meia dúzia de pontos de cruzamento.
Nossas forças do segundo e terceiro níveis pareciam mais frágeis. Perguntei por quê.
— A Dama mandou um pessoal descer ao primeiro nível. Especialmente vindos do topo.
A maioria era das divisões do Apanhador de Almas, percebi. As forças dele pareciam ridículas.
— Acha que vão romper nossa linha hoje?
Caolho deu de ombros.
— Se continuarem teimosos como estavam. Mas veja bem. Eles não estão mais empolgados. Descobriram que não vai ser fácil. Fizemos com que eles começassem a questionar. A lembrar da velha assombração na Torre. Ela ainda nem saiu. Talvez eles estejam ficando preocupados.
Suspeitei que era mais por conta das baixas no Círculo do que por uma trepidação crescente entre os soldados. A estrutura de comando rebelde devia estar um caos. Qualquer exército fraqueja quando ninguém sabe quem está no comando.
Mesmo assim, quatro horas após a alvorada, eles começaram a morrer pela causa. Nossa linha de frente se preparou. O Uivador e o Sem-Rosto tinham substituído a Arauto da Tormenta e o Roedor de Ossos, deixando o segundo nível para o Rastejante.
A luta tinha passado a acontecer de acordo com uma fórmula. A horda avançava como uma onda para dentro da bocarra da avalanche de flechas, cruzava as pontes, se escondia detrás de manteletes, escorria em volta destes para golpear nossa primeira linha. Eles continuavam vindo, uma torrente sem fim. Milhares caíram antes de alcançar o inimigo. Muitos que conseguiram chegar lutavam por apenas alguns instantes e então se afastavam, às vezes ajudando camaradas feridos, mais frequentemente apenas fugindo da zona de perigo. Os oficiais não tinham qualquer controle.
A linha reforçada, portanto, se aguentou por mais tempo, e com mais força de vontade do que eu antecipara. Mesmo assim, o peso da quantidade de inimigos e da fadiga acumulada acabou cobrando seu preço. Buracos surgiram. Tropas inimigas alcançaram a muralha de contenção. Os Tomados organizaram contra-ataques, e a maioria não conseguiu o impulso necessário para seguir adiante. Aqui e ali, soldados de vontade mais fraca tentavam fugir para o nível mais alto. O Rastejante distribuiu esquadrões ao longo da borda. Eles jogavam os fugitivos de volta. A resistência se fortaleceu.
Porém, agora os rebeldes sentiam cheiro de vitória. Ficaram mais entusiasmados.
As rampas e torres distantes começaram a avançar. Moviam-se lentamente, alguns metros por minuto. Uma das torres tombou ao bater num aterro malnivelado, esmagando uma rampa e várias dezenas de homens. As máquinas restantes continuaram. A Guarda redirecionou as armas mais pesadas, lançando bolas de fogo.
Uma das torres se incendiou. E então outra. Uma rampa parou, em chamas, mas os outros engenhos seguiram em frente, alcançando a segunda trincheira.
As balistas mais leves mudaram de alvo também, destroçando os milhares de homens que puxavam os engenhos.
Na trincheira mais próxima os sapadores continuavam aterrando e nivelando. E caindo vítimas de nossos arqueiros. Eram os mais corajosos dentre nossos inimigos.
A estrela dos rebeldes se erguia. Eles superaram o começo fraco e se tornaram tão ferozes quanto antes. Nosso primeiro nível se fraturou em grupos cada vez menores, girando e rodopiando. Os homens que Rastejante espalhara para evitar que nossos soldados fugissem agora batalhavam com rebeldes temerários que escalavam a muralha de contenção. Em um ponto, tropas rebeldes arrancaram alguns dos troncos e tentaram escavar uma ladeira de acesso.
Era o meio da tarde. Os rebeldes ainda tinham horas de luz do sol. Comecei a tremer.
Caolho, que eu não via desde o começo da batalha, apareceu de novo.
— Notícias da Torre — anunciou ele. — O Círculo perdeu mais seis membros ontem à noite. Ou seja, eles têm apenas uns oito sobrando. Provavelmente, nenhum deles já fazia parte do Círculo quando viemos para o norte.
— Não é estranho que tenham começado devagar hoje.
Caolho espiou a luta.
— Não parece estar indo muito bem, parece?
— Nem um pouco.
— Acho que é por isso que ela está saindo — disse ele. Eu me virei. — É. Ela está a caminho. Pessoalmente.
Frio. Frio-frio-frio. Eu não sei por quê. Então ouvi o Capitão gritando, o Tenente, Manso, Elmo, Corvo e sei lá mais quem, todo mundo gritando para que entrássemos em formação. O tempo de ficar de bobeira tinha acabado. Eu me retirei para meu hospital, que era um grupo de barracas nos fundos, infelizmente recebendo os ventos aromáticos que vinham da latrina.
— Inspeção rápida — eu disse a Caolho. — Vou ver se está tudo nos conformes.
A Dama veio a cavalo, pela rampa que subia de perto da entrada da Torre. Ela cavalgava uma besta criada para essa função. Era enorme e espirituosa, um ruão lustroso que parecia uma concepção artística da perfeição equina. Ela estava muito elegante, vestindo vermelho com brocado dourado, lenços brancos, joias de ouro e prata e alguns detalhes em preto. Parecia uma mulher rica como as que se via nas ruas de Opala. Os cabelos da Dama eram mais negros que a meia-noite e escorriam de debaixo de um elegante chapéu tricorne branco de renda, enfeitado com plumas brancas de avestruz. Uma rede de pérolas mantinham as madeixas presas. Ela parecia não ter mais de 20 anos. O silêncio marcava sua passagem. Homens ficavam boquiabertos. Não vi sinal de medo em lugar algum.
Os companheiros da Dama eram mais adequados à imagem dela. De altura média, todos trajando preto, com rostos ocultos por tule preto, montados em cavalos negros com arreios e selas negras, eram parecidos com a figura popular dos Tomados. Um deles levava uma longa lança negra com ponta de aço negro, o outro, uma enorme trombeta prateada. Eles cavalgavam um de cada lado, exatamente 1 metro atrás da Dama.
Ela me honrou com um doce sorriso ao passar. Seus olhos cintilavam com humor e convite.
— Ela ainda ama você — zombou Caolho.
Eu estremeci.
— É disso que tenho medo.
A Dama atravessou a Companhia, direto até o Capitão, e falou com ele por meio minuto. Ele não demonstrou emoção, cara a cara com aquele velho demônio. Nada abala o Capitão quando ele assume a máscara de comandante de ferro.
Elmo veio correndo.
— E aí, amigo, como vai você? — perguntei. Eu já não o via há alguns dias.
— Ela quer você.
Eu disse algo como “glug”. Muito inteligente.
— Eu sei o que você quer dizer. Já tivemos o bastante. Mas o que se pode fazer? Arranje um cavalo.
— Um cavalo? Por quê? Onde?
— Só estou lhe passando a mensagem, Chagas. Não me pergunte. Falando no diabo.
Um jovem soldado, vestindo as cores do Uivador, apareceu sobre a beirada do fundo da pirâmide. Ele conduzia alguns cavalos. Elmo trotou até o rapaz. Depois de uma breve conversa, o sargento me chamou. Relutante, me juntei a ele.
— Pode escolher, Chagas.
Peguei uma égua castanha com belas linhas e docilidade aparente e montei. Era bom estar numa sela. Já fazia algum tempo.
— Deseje-me sorte, Elmo. — Eu queria soar tranquilo, mas o que saiu foi um guincho.
— Com certeza. — E assim que comecei a me afastar: — Quem mandou escrever aquelas historinhas?
— Dá um tempo, hein? — Eu me perguntei, por um momento, o quanto a arte afeta a vida. Será que eu tinha provocado aquilo a mim mesmo?
A Dama não olhou para trás quando me aproximei. Porém, fez um pequeno gesto. O cavaleiro à sua direita se afastou, me dando espaço. Eu entendi o recado, parei e me concentrei no panorama em vez de olhar para ela. Percebi que a Dama tinha achado isso divertido.
A situação piorara nos minutos em que estive afastado. Soldados rebeldes tinham conquistado vários pontos de acesso ao segundo nível. No primeiro, nossas formações foram estilhaçadas. O Uivador havia cedido e estava deixando os soldados ajudarem os aliados que tentassem subir a muralha de contenção. As tropas de Sussurro, no terceiro nível, começaram a usar os arcos pela primeira vez.
As rampas de assalto estavam quase no fosso mais próximo. As grandes torres tinham parado. Mais da metade estava fora de ação. As restantes foram ocupadas, mas se encontravam tão longe que os arqueiros nelas não causavam qualquer dano. Agradeça aos céus pelas pequenas graças.
Os Tomados no primeiro nível estavam usando seus poderes, mas corriam tanto perigo que tinham pouca chance de empregá-los de forma eficaz.
— Quero que você veja isto, Analista — disse a Dama.
— Hã? — Outra pérola de sagacidade da Companhia.
— O que está para acontecer. Para que seja corretamente registrado em pelo menos um lugar.
Espiei a Dama de soslaio. Ela exibia um sorrisinho provocador. Voltei minha atenção ao combate. O que ela fazia comigo, apenas sentada ali, em meio à fúria do fim do mundo, era mais assustador que a perspectiva de morrer em batalha. Estou velho demais para ferver como um adolescente tarado.
A Dama estalou os dedos.
O cavaleiro à esquerda dela ergueu a trombeta de prata e afastou o véu do rosto para poder soprar o instrumento. Era Pluma! Meu olhar voltou a Dama. Ela piscou.
Tomados. Pluma e Jornada tinham sido Tomados, como acontecera com Sussurro. Todo o poder e potência deles estavam à disposição da Dama... Minha mente corria pelo fato. Implicações, implicações. Velhos Tomados tombando, novos Tomados avançando para substituí-los.
A trombeta soou, uma nota doce como um anjo convocando as hostes celestiais. Não era alta, mas reverberou por toda parte, como se viesse do próprio céu. A luta cessou completamente. Todos os olhares se voltaram à pirâmide.
A Dama estalou os dedos. O outro cavaleiro — Jornada, eu presumo — ergueu a lança bem alto e deixou a ponta cair.
A muralha de contenção mais distante explodiu em 12 pontos diferentes. Um trombetear bestial preencheu o silêncio. Mesmo antes de vê-los irromper, eu entendi e ri.
— Elefantes! — Eu não via elefantes de guerra desde meu primeiro ano com a Companhia. — Onde você conseguiu elefantes?
Os olhos da Dama cintilaram. Ela não respondeu.
A resposta era óbvia. No além-mar. Com os aliados dela nas Cidades Preciosas. Como ela havia conseguido trazê-los até aqui sem que fossem percebidos, e então mantê-los escondidos, ah, esse era o mistério.
Era uma surpresa deliciosa para jogar na cara dos Rebeldes no momento de seu triunfo aparente. Ninguém naquelas regiões jamais vira elefantes de guerra, muito menos sabia como enfrentá-los.
Os grandes paquidermes cinzentos se lançaram contra a horda rebelde. Seus condutores se divertiram muito, investindo com as bestas de um lado ao outro, pisoteando Rebeldes às centenas, destroçando completamente o moral. Eles arrancaram os manteletes. Atravessaram as pontes e foram atrás dos engenhos de cerco, derrubando-os, um de cada vez.
Havia 24 das feras, duas para cada esconderijo. Tinham sido equipadas com armadura, e os condutores estavam engaiolados em metal, porém aqui e ali uma lança ou flecha aleatória encontrava uma brecha, matando um condutor ou irritando a fera o suficiente para enfurecê-la. Elefantes sem dono perdiam o interesse pela luta. Os animais feridos enlouqueciam, causando mais dano que os elefantes controlados.
A Dama fez outro gesto. Jornada sinalizou de novo. As tropas baixaram as rampas que haviam sido usadas para levar munição para baixo e feridos para cima. As tropas do terceiro nível, com exceção da Guarda, desceram marchando, entraram em formação e lançaram um ataque contra o caos. Considerando os números, aquilo parecia loucura. Mas, levando em conta a virada violenta da maré, o moral era mais importante.
Sussurro na ala esquerda, Apanhador no centro, o velho e gordo Lorde Jalena à direita. Tambores martelando. Eles avançaram, detidos apenas pela tarefa de massacrar os milhares em pânico. Os rebeldes tinham medo de não fugir, porém também tinham medo de correr em direção aos elefantes em fúria que estavam entre eles e o acampamento. Não fizeram quase nada para se defender.
Tudo limpo até o primeiro fosso. Devora-Lua, o Uivador e o Sem-Rosto organizaram os sobreviventes das próprias tropas, xingando e os incitando pelo medo a avançar, a incendiar todos os engenhos e construções inimigas.
Os atacantes alcançaram o segundo fosso, contornando e passando por cima das torres e rampas abandonadas, seguindo em frente pela trilha sangrenta dos elefantes. Agora havia chamas nas máquinas, enquanto os homens do primeiro nível chegavam. Os atacantes avançaram contra a trincheira mais distante. O campo inteiro estava acarpetado de cadáveres inimigos. Mortos em números como eu jamais vira antes.
O Círculo, ou o que restava dele, finalmente se recuperou o suficiente para tentar usar seus poderes contra as feras. Conquistaram alguns sucessos, antes de serem neutralizados pelos Tomados. Daí em diante, passaram a depender dos homens em campo.
Como sempre, os rebeldes tinham os números. Um a um, os elefantes caíram. Os inimigos se acumularam diante da linha de ataque. Não tínhamos tropas de reserva. Soldados novos vinham em socorro dos acampamentos rebeldes, sem entusiasmo, mas fortes o suficiente para interromperem nosso avanço. Uma retirada se fez necessária.
A Dama comandou o recuo por meio de Jornada.
— Muito bom — murmurei. — Muito bom, de fato. — Nossos homens retornavam às suas posições, afundando em cansaço. A noite não estava longe. Tínhamos sobrevivido mais um dia. — Mas e agora? Aqueles idiotas não vão desistir enquanto o cometa estiver no céu. E disparamos nossa última seta.
A Dama sorriu.
— Registre tudo da maneira que viu, Analista. — A Dama e seus companheiros se retiraram.
— O que faço com este cavalo? — resmunguei.
Houve outra batalha de poderes naquela noite, mas eu a perdi. Não sei para qual lado o desastre foi maior. Perdemos Devora-Lua, o Sem-Rosto e o Rastejador. Apenas o Rastejador caiu perante ação inimiga. Os outros foram vítimas da vendeta dentre os Tomados.
Um mensageiro veio não mais que uma hora após o crepúsculo. Eu estava preparando minha equipe para descer, depois de alimentá-los. Elmo veio me transmitir a mensagem novamente.
— Torre, Chagas. Sua namorada quer você. Leve o arco.
Existe um limite para o quanto você pode temer alguém, até mesmo a Dama. Resignado, perguntei:
— Por que um arco?
Ele deu de ombros.
— Flechas também?
— Não mencionaram nada quanto a isso. Não parece inteligente.
— Você provavelmente tem razão. Caolho, o hospital é seu.
Hora de ver o lado bom. Pelo menos eu não passaria a noite amputando membros, suturando cortes e tranquilizando rapazes que não viveriam mais uma semana. Servir com os Tomados proporciona aos soldados uma melhor chance de sobrevivência aos ferimentos, mas a gangrena e a peritonite ainda cobravam seu preço.
Desci a longa rampa e fui até o portão negro. A Torre se erguia sobre mim como algo saído de um mito, lavada na luz prateada do cometa. Teria o Círculo estragado tudo? Esperado demais? Será que o cometa deixaria de ser um auspício favorável depois que começasse a se afastar?
Quão perto estavam os exércitos do oriente? Não o suficiente. Mas nossa estratégia não parecia ser baseada em ganhar tempo. Se fosse esse o plano, teríamos marchado para a Torre e fechado a porta. Ou não?
Eu hesitei. Relutância natural. Toquei o amuleto que Duende me dera há tanto tempo, o amuleto que Caolho tinha me dado mais recentemente. Não me reconfortaram muito. Olhei para a pirâmide e achei ter visto uma silhueta parruda no alto. O Capitão? Ergui uma mão. A silhueta fez o mesmo. Animado, eu me virei.
O portão parecia ser a boca da noite, mas um passo adiante me levou a um corredor largo e iluminado. Fedia aos cavalos e gado que tinham sido levados para dentro há tanto tempo.
Um soldado me esperava.
— Você é o Chagas? — Confirmei com a cabeça. — Siga-me.
Ele não era da Guarda, mas um jovem soldado raso do exército do Uivador. Parecia perplexo. Aqui e ali, vi mais deles. Entendi. O Uivador tinha passado noites transportando tropas enquanto o resto dos Tomados lutava contra o Círculo e entre eles mesmos. Nenhum daqueles homens estivera no campo de batalha.
Quantos deles haveria ali? Que outras surpresas escondia a Torre?
Entrei na parte interna pelo portal que tinha usado antes. O soldado parou no mesmo lugar que o capitão da Guarda se posicionara da última vez. Ele me desejou sorte numa voz pálida e trêmula. Eu agradeci com um guincho desafinado.
A Dama não fez joguinhos. Pelo menos, nada espalhafatoso. E eu não caí em meu papel de garoto obcecado por sexo. Estávamos ali para negócios.
Ela me fez sentar a uma mesa de madeira escura, com meu arco diante de mim.
— Eu tenho um problema.
Eu apenas a encarei. A Dama continuou.
— Os rumores já correm soltos lá fora, não correm? Sobre o que está acontecendo entre os Tomados?
Eu confirmei com a cabeça e respondi:
— Desta vez não é como quando o Manco virou a casaca. Eles estão se massacrando. Os homens não querem ser pegos no fogo cruzado.
— Meu marido não está morto. Você sabe disso. Ele está por trás de tudo. Já está acordando há algum tempo. Muito lentamente, mas o suficiente para alcançar alguns membros do Círculo. O bastante para tocar as mulheres dentre os Tomados. Elas farão qualquer coisa por ele. Vadias. Eu as vigio tão de perto quanto posso, mas não sou infalível. Elas conseguem se safar. Esta batalha... não é o que parece. O exército rebelde foi trazido aqui por membros do Círculo sob a influência de meu marido. Os idiotas. Eles acharam que poderiam usá-lo para me derrotar e conquistar o poder para si mesmos. Estão todos mortos, agora, mas aquilo que eles iniciaram persiste. Não estou enfrentando a Rosa Branca, Analista, embora uma vitória por causa dessas bobagens poderia surgir disto tudo no fim das contas. Estou enfrentando o velho escravagista, o Dominador. E, se eu perder, perderei o mundo.
Mulher astuta. Ela não assumiu o papel de donzela em perigo. Jogou de igual para igual, e isso conquistou muito mais minha simpatia. Ela sabia que eu conhecia o Dominador tão bem quanto qualquer pessoa comum viva. Sabia que eu provavelmente o temia mais do que a ela, pois quem tem mais medo de uma mulher do que de um homem?
— Eu conheço você, Analista. Abri sua alma e espiei dentro dela. Você luta por mim porque sua Companhia aceitou um contrato que cumprirá até o amargo fim, porque os personagens principais dela acreditam que a Companhia teve sua honra manchada em Berílio. E isso apesar de a maioria de vocês achar que serve o Mal.
“O Mal é relativo, Analista. Não se pode pendurar uma placa nele. Não se pode tocá-lo ou cortá-lo com uma espada. O Mal depende de como você se posiciona, apontando o dedo. E você, agora, graças a seu juramento, está do lado oposto ao Dominador. Para você, ele é o Mal.”
A Dama perambulou por um momento, talvez antecipando uma resposta. Eu não lhe dei nenhuma. Ela tinha resumido minha própria filosofia.
— Esse mal tentou matá-lo três vezes, médico. Duas por medo de seu conhecimento, uma por medo de seu futuro.
Isso me despertou.
— Meu futuro?
— Os Tomados às vezes têm lampejo do futuro. Talvez esta conversa tenha sido profetizada.
Com isso a Dama me deixou espantado. Fiquei ali, sentado, com cara de idiota.
A Dama deixou a sala por um instante e voltou trazendo uma aljava de flechas, derramando-as na mesa. Eram negras e pesadas, com pontas de prata, com letras inscritas quase ilegíveis. Enquanto eu as examinava, a Dama tomou meu arco, e o trocou por outro, com peso e contração idênticos. Formava um lindo conjunto com as flechas. Lindo demais para ser usado como arma.
— Leve isto consigo, sempre — disse ela.
— Eu terei de usá-los?
— É possível. Amanhã o assunto será encerrado, de um jeito ou de outro. Os rebeldes foram massacrados, porém ainda possuem grandes reservas de soldados. Minha estratégia poderá não funcionar. Se eu falhar, meu marido vencerá. Não os rebeldes, não a Rosa Branca, mas o Dominador, aquela besta horrenda que jaz inquieta no próprio túmulo...
Eu evitei o olhar dela e fitei as armas, me perguntando o que deveria dizer, e não ouvir, o que deveria fazer com aquelas ferramentas de morte, e se eu seria capaz de fazê-lo quando a hora chegasse.
Ela sabia o que eu pensava.
— Você saberá o momento. E fará o que achar que for certo.
Ergui o olhar, franzindo o cenho, desejando... Mesmo sabendo o que ela era, desejando. Talvez meus irmãos idiotas estivessem certos.
Ela sorriu, estendeu uma daquelas mãos perfeitas demais, tomou meus dedos...
Perdi a noção do tempo. Acho. Não me lembro de nada ter acontecido. Porém minha mente ficou embaçada por um momento, e quando se desembaçou, a Dama segurava minha mão ainda, sorrindo.
— Hora de ir, soldado. Descanse bem.
Levantei-me como um zumbi e cambaleei até a porta, com a distinta impressão de que tinha perdido alguma coisa. Não olhei para trás. Não era capaz.
Saí para a noite além da Torre e imediatamente percebi que havia me separado do tempo outra vez. As estrelas tinham se movido no céu. O cometa estava baixo. Descanse bem? As horas de descanso estavam quase no fim.
Era calmo ali fora, fresco, com grilos cantando. Grilos, quem poderia acreditar? Fitei as armas que ela me dera. Quando eu tinha encordoado o arco? Por que levava uma flecha preparada? Não me lembrava de tê-las apanhado da mesa... Por um instante de pavor achei que estava enlouquecendo. A canção dos grilos me trouxe de volta.
Olhei para a pirâmide. Alguém estava no topo, vigiando. Ergui a mão. Ele respondeu. Elmo, pelo jeito de se mover. O bom e velho Elmo.
Duas horas até o amanhecer. Eu poderia cochilar um pouco, se não me demorasse.
Depois de subir um quarto da rampa, tive uma sensação estranha. Na metade do caminho eu percebi o que era. O amuleto de Caolho! Meu pulso estava ardendo! Um Tomado! Perigo!