A Companhia Negra

Glen Cook · Capítulo 6 de 7 · parte 3/3

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A Companhia Negra

Capítulo Seis | Dama

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Uma nuvem de trevas se lançou da noite, vinda de alguma imperfeição na lateral da pirâmide. Abriu-se como a vela de um navio, espalmada, e veio na minha direção. Reagi da única maneira que me restava. Com uma flecha.

Minha seta atravessou o lençol de escuridão. Um longo uivo me cercou, mais cheio de surpresa que de raiva, mais desespero que agonia. O lençol de trevas se despedaçou. Algo com forma de homem correu pela encosta. Eu observei a coisa fugindo, sem jamais pensar em disparar outra flecha, mesmo que tivesse preparado outra no arco. Perplexo, continuei minha subida.

— O que aconteceu? — inquiriu Elmo quando cheguei ao topo.

— Eu não sei — respondi. — Honestamente, não faço a menor ideia de que merda aconteceu esta noite.

Ele me deu um olhar de avaliação.

— Você parece bem exausto. Vá descansar.

— Estou precisando — admiti. — Passe a notícia ao Capitão. Ela disse que o dia é amanhã. Vitória ou derrota. — De grande ajuda as notícias seriam. Mas achei que ele iria querer saber.

— É. Eles fizeram alguma coisa com você lá dentro?

— Não sei. Acho que não.

Elmo queria conversar mais, apesar de ter me mandado descansar. Eu o afastei gentilmente, fui até uma das minhas barracas no hospital e me encolhi num canto como um animal ferido se escondendo na toca. Eu tinha sido tocado, de alguma forma, mesmo que não pudesse dar um nome ao que acontecera. Precisava de tempo para me recuperar. Provavelmente, mais tempo do que me concederiam.

Mandaram Duende me acordar. Eu estava com meu costumeiro charme matinal, ameaçando ódio eterno a qualquer imbecil que viesse interromper meus sonhos. Não que eles não merecessem ser interrompidos. Eram imundos. Eu fazia coisas indizíveis a duas garotas que não podiam ter mais de 12 anos, de um modo que elas gostavam. São repulsivas essas sombras que se esgueiram na mente.

Por mais revoltantes que meus sonhos fossem, eu não queria me levantar. Meu saco de dormir estava bem quentinho.

— Você quer que eu jogue pesado? — perguntou Duende. — Escute aqui, Chagas. Sua namorada está saindo. O Capitão quer você de pé para recebê-la.

— É. Certo. — Catei minhas botas com uma das mãos, abri a barraca com a outra. — Que horas são, merda? — grunhi. — Parece que o sol já nasceu há horas.

— Isso mesmo. Elmo achou que você precisava descansar. Disse que você passou por maus bocados ontem à noite.

Resmunguei e me recompus apressadamente. Considerei a ideia de me lavar, mas Duende me levou para outro lado.

— Prepare seu equipamento de batalha. Os rebeldes estão vindo para cá.

Ouvi tambores ao longe. Os rebeldes não tinham usado tambores antes. Perguntei sobre isso.

Duende deu de ombros. Estava pálido. Acho que ele ouviu minha mensagem ao Capitão. Vitória ou derrota. Hoje.

— Eles elegeram um novo conselho.

Duende começou a tagarelar, como os homens fazem quando estão assustados, me contando a história da briga entre os Tomados naquela noite, e de como os rebeldes sofreram. Não ouvi nada animador. Duende me ajudou a vestir as parcas peças de armadura que eu tinha. Eu não vestia nada além de uma camisa de cota de malha desde as lutas ao redor de Rosas. Recolhi as armas que a Dama me deu e saí para uma das manhãs mais gloriosas que já vi.

— Um dia incrível para se morrer — comentei.

— É.

— Quanto tempo até ela chegar aqui?

O Capitão ia querer que todos estivessem em suas devidas posições quando a Dama aparecesse. Ele gostava de apresentar uma imagem de ordem e eficiência.

— Ela vai chegar quando ela chegar. Temos apenas uma mensagem dizendo que a Dama vai sair.

— Hum. — Examinei o topo da pirâmide. Os homens cuidavam das tarefas, se preparando para o combate. Ninguém parecia com pressa. — Vou dar uma volta.

Duende não disse nada. Apenas me seguiu, com o rosto pálido, numa careta preocupada. Seus olhos se moviam constantemente, vigiando tudo. Pela tensão nos ombros do feiticeiro e pela forma como ele se movia, percebi que tinha um feitiço pronto para quando fosse necessário utilizá-lo. Foi só depois de ele me seguir por algum tempo que percebi que Duende era meu guarda-costas.

Fiquei tão feliz quanto irritado. Feliz porque as pessoas se importavam o bastante para cuidar de mim, irritado pela situação abominável em que eu estava metido. Olhei para minhas mãos. Inconscientemente, eu tinha encordoado o arco e segurava uma flecha. Parte de mim estava em alerta máximo também.

Todos olharam as armas, mas ninguém perguntou nada. Suspeito que as histórias já deviam estar correndo pela Companhia. Estranho que meus camaradas não tivessem me interrogado e conferido os rumores.

Os rebeldes organizaram as forças cuidadosamente, metodicamente, além do alcance de nossas armas. Seja lá quem tivesse assumido o comando, havia restaurado a disciplina. E construído uma nova armada completa de engenhos de guerra durante a noite.

Nossas forças abandonaram o nível inferior. Tudo que restava lá embaixo era um crucifixo com uma figura se contorcendo nele... Se contorcendo. Depois de tudo que sofrera, incluindo ser pregado naquela cruz, o forvalaka ainda vivia!

As tropas tinham sido reorganizadas. Os arqueiros estavam no terceiro nível agora, e Sussurro comandava o terraço inteiro. Os aliados, sobreviventes do primeiro nível, soldados do Apanhador e quem mais tivesse sobrado, estavam no segundo nível. O Apanhador cuidava do centro, Lorde Jalena, da direita, e o Uivador, da esquerda. Um esforço fora feito para restaurar a muralha de contenção, mas ela continuava em péssimo estado. Seria um obstáculo fácil.

Caolho se juntou a nós.

— Vocês ouviram as últimas?

Ergui uma sobrancelha.

— Estão dizendo que acharam a criança Rosa Branca.

— Questionável — respondi, depois de pensar um pouco.

— Com certeza. A Torre mandou dizer que ela é falsa. Apenas um truque para animar as tropas.

— Também acho. Estou surpreso por eles não terem pensado nisso antes.

— Falando no diabo — guinchou Duende, apontando.

Tive que procurar por um momento até achar o brilho suave que avançava por entre os espaços que separavam as divisões inimigas. Ele envolvia uma criança num enorme cavalo branco, levando um estandarte vermelho com o brasão com a rosa branca.

— Não estão sequer montando um espetáculo decente! — reclamou Caolho. — Aquele cara montado no baio está criando a luz.

Minhas tripas tinham dado um nó de medo que aquela fosse a criança verdadeira, afinal. Olhei minhas mãos, me perguntando se aquela criança seria o alvo determinado pela Dama. Mas não. Não tive nenhum impulso de lançar uma flecha naquela direção. Não que eu pudesse tê-la disparado a metade da distância.

Vi Corvo e Lindinha de relance, no lado oposto da pirâmide, com as mãos se movendo frenéticas. Fui até eles.

Corvo nos viu quando estávamos a 6 metros. Fitou minhas armas. Seu rosto se endureceu. Uma faca surgiu na mão dele, e Corvo começou a limpar as unhas.

Eu tropecei, de tão espantado que fiquei. Aquela coisa da faca era um tique. Só acontecia quando Corvo estava estressado. Por que comigo? Eu não era o inimigo.

Meti o arco e a flecha sob o braço esquerdo e cumprimentei Lindinha. Ela deu um grande sorriso, um abraço rápido. Ela não tinha nada contra mim. A menina perguntou se poderia ver o arco. Deixei que ela olhasse, mas não o soltei. Não conseguia.

Corvo estava tão inquieto quanto um homem sentado numa fogueira.

— Qual é o seu problema? — inquiri. — Você anda agindo como se o resto de nós fosse contagioso. — O comportamento dele me magoava. Nós passamos por algumas coisas sinistras juntos, Corvo e eu. Ele não tinha o direito de se voltar contra mim.

Corvo estreitou a boca até ela se tornar um ponto. Cavoucou sob as unhas até parecer estar se machucando.

— Então?

— Não me pressione, Chagas.

Cocei as costas de Lindinha com a mão direita enquanto ela se apoiava em mim. A mão esquerda segurava o arco. Meus nós dos dedos ficaram brancos como gelo velho. Eu estava pronto para bater no cara. Tirem aquele faca dele e eu teria uma chance. É um desgraçado durão, mas eu tive alguns anos para me endurecer também.

Lindinha parecia ignorar a tensão entre nós.

Duende se meteu. Ele encarou Corvo, com uma postura tão beligerante quanto a minha.

— Você está com problemas, Corvo. Acho que seria melhor termos uma reunião com o Capitão.

Corvo ficou espantado. Ele percebeu, por um momento ao menos, que estava fazendo inimigos. É difícil pra caramba deixar Duende furioso. Furioso de verdade, não como ele fica com Caolho.

Alguma coisa morreu detrás dos olhos de Corvo. Ele indicou meu arco.

— Ele é um servo da Dama — acusou.

Eu fiquei mais espantado do que bravo.

— Não é verdade — retruquei. — Mas e se fosse?

Ele ficou agitado. Lançava olhares de relance para Lindinha, encostada em mim. Ele queria afastá-la, mas não conseguia dar uma ordem em palavras aceitáveis.

— Primeiro puxou o saco do Apanhador de Almas o tempo todo. Agora, a Dama. O que você está fazendo, Chagas? Quem você está vendendo?

— O quê?

Só a presença de Lindinha me impediu de partir para cima dele.

— Já chega — ordenou Duende. A voz dele era dura, sem a menor nota de agudez. — Vou usar minha posição de oficial para acabar com isso. Com todo mundo. Aqui. Agora. Vamos até o Capitão discutir este assunto. Ou então vamos revogar sua entrada para a Companhia, Corvo. Chagas tem razão. Você tem sido um babaca completo ultimamente. Não precisamos disso. Já temos problemas suficientes lá fora. — Duende cravou o dedo na direção dos rebeldes.

Eles responderam com trombetas.

Não houve debate com o Capitão.

Era óbvio que alguém novo estava no comando. As divisões inimigas avançaram em fileiras cerradas, lentamente, com os escudos arrumados numa formação organizada de tartaruga, bloqueando a maior parte de nossas flechas. Sussurro ajustou a tática rapidamente, concentrando o fogo da Guarda em uma formação de cada vez, fazendo os arqueiros esperarem até que as armas pesadas rompessem a tartaruga. Eficaz, mas não o bastante.

As torres de cerco e as rampas se aproximaram tão rápido quanto os homens conseguiam puxá-las. A Guarda fez o melhor possível, mas só conseguiu destruir algumas. Sussurro estava num dilema. Tinha que escolher os alvos. Ela decidiu se concentrar em quebrar tartarugas.

As torres chegaram mais perto desta vez. Os arqueiros rebeldes conseguiam atirar em nossos homens. Isso significava que nossos arqueiros poderiam atirar neles, e eles tinham melhor pontaria.

Os inimigos cruzaram o fosso mais próximo, encontrando uma chuva quase impenetrável de projéteis lançados dos dois níveis. Só quando alcançaram a muralha de contenção eles deixaram a formação e se dirigiram aos pontos fracos, onde tiveram pouco sucesso.

Então eles atacaram em todos os lugares ao mesmo tempo. As rampas chegavam, lentamente. Homens com escadas acorriam à frente.

Os Tomados não pouparam forças. Atiraram tudo que podiam. Magos rebeldes os enfrentaram o tempo todo e, apesar do dano que tinham sofrido, conseguiram neutralizar os Tomados quase completamente. Sussurro não participou. Estava ocupada demais.

A Dama e seus companheiros chegaram. Fui chamado outra vez. Montei meu cavalo e me juntei a ela, com o arco no colo.

Eles vieram em ondas. Ocasionalmente, eu dava uma olhada na Dama. Ela continuava uma rainha gélida, completamente sem expressão.

Os rebeldes conquistaram pontos de acesso por toda parte. Arrancaram pedaços inteiros da muralha. Homens com pás deslocavam a terra, construindo ladeiras naturais. As rampas de madeira continuavam avançando, mas demorariam a chegar.

Havia uma única ilha de paz lá fora, ao redor do forvalaka crucificado. Os atacantes passavam bem longe dele.

As tropas do Lorde Jalena começaram a fraquejar. Dava para ver a ameaça de um colapso mesmo antes de os homens lançarem olhares para a muralha de contenção atrás deles.

A Dama fez um gesto. Jornada esporeou o cavalo, que cavalgou pirâmide abaixo. Ele passou pelos homens de Sussurro e se posicionou na beirada do terraço, atrás da divisão de Jalena. O Tomado ergueu a lança, que fulgurou. Não sei por quê, mas as tropas de Jalena se encorajaram, se solidificaram e começaram a rechaçar os rebeldes.

A Dama fez outro gesto, à esquerda. Pluma se lançou pela encosta como um demônio, soprando a trombeta. O chamado argênteo abafou o soar das cornetas rebeldes. Ela atravessou as tropas do terceiro nível e saltou com o cavalo da muralha. A queda teria matado qualquer montaria que eu já vira, mas esta aterrissou pesadamente, recuperou o equilíbrio, empinou e relinchou em triunfo enquanto Pluma tocava o instrumento. Assim como à direita, as tropas se entusiasmaram e começaram a forçar o inimigo para trás.

Uma pequena silhueta azulada escalou a muralha e disparou à retaguarda, contornando a base da pirâmide e correndo até a Torre. O Uivador. Franzi o cenho, intrigado. Teria ele sido substituído?

Nosso centro se tornou o foco da batalha, com o Apanhador lutando bravamente para manter a linha de tropas.

Ouvi barulhos e me virei, vendo que o Capitão tinha se aproximado pelo outro lado da Dama. Ele estava montado. Olhei para trás. Vários cavalos tinham sido trazidos. Fitei pela longa encosta íngreme até a estreiteza do terceiro nível e meu coração se apertou. Ela não estaria planejando uma carga de cavalaria, estaria?

Pluma e Jornada eram um excelente remédio, mas não o bastante. Eles endureceram a resistência apenas até as rampas rebeldes chegarem.

O segundo nível se foi. Mais lentamente do que eu esperava, mas se foi. Não mais do que mil homens escaparam. Olhei para a Dama. O rosto dela permanecia gelado, entretanto eu senti que ela não estava desagradada.

Sussurro despejou flechas na massa abaixo. Guardas dispararam balistas à queima-roupa.

Uma sombra passou sobre a pirâmide. Olhei para cima. O tapete do Uivador sobrevoou o inimigo. Homens ajoelhados na beira largavam bolas do tamanho de crânios. Os projéteis despencavam na massa rebelde sem efeito visível. O tapete foi lentamente na direção do acampamento inimigo, despejando os objetos inúteis.

Os rebeldes levaram uma hora para estabelecer cabeças de ponte sólidas no terceiro nível, e mais outra hora para trazer homens suficientes para pressionar o ataque. Sussurro, Pluma, Jornada e o Apanhador os massacraram sem piedade. As tropas recém-chegadas tinham que escalar montes de cadáveres dos companheiros para alcançar o topo.

O Uivador continuou com seu bombardeio de bolas até o acampamento rebelde. Duvidei que houvesse alguém por lá. Estavam todos no triângulo, esperando a vez de nos atacar.

A falsa Rosa Branca estava montada em seu cavalo, na segunda trincheira, brilhando, cercada pelo novo conselho rebelde. Eles permaneciam imóveis, agindo apenas quando um dos Tomados usava seus poderes. Contudo, não tinham feito nada com relação ao Uivador. Aparentemente, não havia nada que pudessem fazer.

Dei uma olhada no Capitão, que andara aprontando alguma coisa... Estava alinhando cavaleiros ao longo da frente da pirâmide. Nós iríamos atacar pela encosta abaixo! Que idiotice!

Uma voz interior me disse: “Meus fiéis não precisam temer.” Encarei a Dama. Ela me devolveu o olhar friamente, com realeza. Eu me voltei para a batalha.

Não demoraria muito tempo. Nossas tropas tinham posto os arcos de lado, abandonado as armas pesadas. Estavam se preparando para o pior. Na planície, a horda inteira estava em movimento, mas bem devagar, de maneira irresoluta, ao que parecia. Este era o momento em que eles deveriam estar correndo sem parar, nos atolando e irrompendo na Torre antes que o portão pudesse ser fechado...

O Uivador voltou como um meteoro do acampamento inimigo, movendo-se dez vezes mais rápido que qualquer cavalo. Observei o enorme tapete passar por nós, incapaz de conter meu espanto. Por um instante ele ocultou o cometa e seguiu em frente, até a Torre. Um uivo estranho desceu lentamente, diferente de qualquer grito do Uivador que eu já ouvira. O tapete mergulhou um pouco, tentou desacelerar, mas se chocou com a Torre alguns metros abaixo do topo.

— Meu Deus — murmurei, observando a coisa se desmantelar, assistindo aos homens despencando 150 metros até o chão. — Meu Deus. — Então o Uivador morreu, ou perdeu a consciência. O próprio tapete começou a se desfazer.

Eu me voltei para a Dama, que também estivera observando. A expressão dela não se alterou nem um pouco. Suavemente, com uma voz que só eu ouvi, ela disse:

— Você vai usar o arco.

Estremeci. E por um segundo imagens relampejaram em minha mente, centenas delas, rápido demais para que eu pudesse captar qualquer uma delas. Eu parecia puxar a corda do arco...

Ela estava furiosa. Furiosa, com tamanha ira, que me fez tremer só de contemplá-la, mesmo sabendo que não era direcionada a mim. O objeto daquela raiva não era difícil de determinar. A morte do Uivador não fora causada por uma ação do inimigo. Havia apenas um Tomado que poderia ser responsável. O Apanhador de Almas. Nosso antigo mentor. Aquele que nos usara em tantas outras tramas.

A Dama murmurou algo. Não sei se ouvi direito. Parecia algo como “Eu dei todas as chances a ela”.

— Não éramos parte disso — sussurrei.

— Venha.

A Dama esporeou o cavalo. Ele saltou da beirada. Eu lancei um olhar desesperado ao Capitão e a segui.

Ela desceu a encosta com a mesma velocidade de Pluma. Minha montaria parecia determinada a acompanhar o passo.

Atiramo-nos contra uma ilha de homens que berravam. Estava centralizada numa fonte de fios verdes que subiam em ebulição e se espalhavam com o vento, matando rebeldes e aliados sem distinção. A Dama não se desviou.

O Apanhador de Almas já estava em fuga. Amigos e inimigos se esforçavam para sair do caminho dele. A morte o cercava. O Tomado correu até Jornada, saltou, derrubou-o do cavalo, montou o animal, saltou para o segundo nível, passou pelos inimigos, desceu à planície e disparou.

A Dama seguiu a trilha que ele rasgara, com os cabelos negros esvoaçando. Eu permaneci em seu rastro, absolutamente assombrado, mas incapaz de interromper o que estava fazendo. Alcançamos a planície 300 metros atrás do Apanhador de Almas. A Dama esporeou a montaria. A minha acompanhou. Eu tinha certeza que um ou os dois animais iriam tropeçar nos equipamentos abandonados ou cadáveres. Porém os dois, e o do Apanhador também, pisavam tão firme quanto cavalos numa pista.

O Apanhador correu diretamente ao acampamento inimigo e o atravessou. Nós o seguimos. No campo aberto mais além, começamos a nos aproximar dele. Aquelas bestas, todas as três, eram incansáveis como máquinas. Os quilômetros ficaram para trás. Ganhávamos 50 metros a cada quilômetro e meio. Segurei o arco com força e me agarrei ao pesadelo. Nunca fora religioso, mas naquele momento me senti tentado a rezar.

Ela era implacável como a morte, minha Dama. Tive pena do Apanhador de Almas quando ela o alcançasse.

O Apanhador de Almas corria por uma estrada que rodeava um dos vales a oeste de Talismã. Estávamos perto do lugar onde tínhamos descansado no alto de uma colina e onde encontramos o fio verde. Pensei em como havíamos cavalgado em meio àquilo, no campo de batalha em Talismã. Uma fonte daquela coisa, e ela não nos tocara.

O que estava acontecendo lá atrás? Seria isso alguma trama para deixar nosso povo à mercê dos rebeldes? Tinha ficado claro, perto do fim, que a estratégia da Dama envolvia destruição máxima. Que ela queria que apenas uma pequena minoria dos dois lados sobrevivesse. Estava fazendo a faxina. Restava-lhe apenas um inimigo dentre os Tomados. O Apanhador de Almas. O Apanhador, que fora quase bom para mim. Que tinha salvado minha vida pelo menos uma vez, na Escada das Lágrimas, quando a Arauto da Tormenta queria matar Corvo e a mim. O Apanhador, o único Tomado a falar comigo como um homem, a me contar algumas coisas sobre os velhos tempos, a saciar minha curiosidade infinita...

O que diabos eu estaria fazendo, numa cavalgada infernal com a Dama, caçando uma coisa que poderia me engolir sem piscar?

O Apanhador contornou o flanco de um morro e então, quando vencemos o mesmo obstáculo segundos depois, ele tinha desaparecido. A Dama reduziu o passo por um momento, virando a cabeça lentamente, então puxou as rédeas, virando-se na direção das florestas que margeavam a estrada. Ela parou ao alcançar as primeiras árvores. Meu cavalo parou ao lado do dela.

A Dama se jogou de cima da montaria. Fiz o mesmo, sem pensar. Quando me levantei, o animal dela estava desabando e o meu estava morto, de pé em pernas rijas. Ambos tinham queimaduras negras do tamanho de punhos nas gargantas.

A Dama apontou e começou a andar. Agachado, com a flecha no arco, eu a segui. Avancei cuidadosamente, silenciosamente, deslizando pela mata como uma raposa.

Ela parou, se agachou, apontou. Olhei na direção de seu braço. Lampejo, lampejo, dois segundos de imagens rápidas. Elas pararam. Vi um vulto a talvez uns 15 metros, de costas para nós, ajoelhado, fazendo alguma coisa rapidamente. Não havia tempo para as questões morais que eu debatera na cavalgada até aqui. Aquela criatura tinha atentado várias vezes contra minha vida. Minha flecha estava no ar antes que eu percebesse o que estava fazendo.

Acertou a cabeça do vulto. A pessoa caiu para a frente. Fiquei boquiaberto por um segundo, e então expirei longamente. Tão fácil...

A Dama deu três passos rápidos, franzindo o cenho. Houve um ruído rápido à nossa direita. Alguma coisa farfalhou na mata. A Dama girou e correu para o campo aberto, dando um tapa em meu braço ao passar.

Em segundos estávamos na estrada. Outra flecha em meu arco. O braço da Dama erguido, apontando... Uma silhueta quadrada escapando da mata 15 metros adiante. Uma figura fez um gesto como se jogasse algo em nossa direção. Cambaleei sob o impacto de um golpe cuja origem não era visível. Teias de aranha pareciam se desenhar diante de meus olhos, borrando minha visão. Vagamente, senti que a Dama fez um gesto. As teias desapareceram. Eu me senti completo. Ela apontou para o tapete que começou a se mover e se afastar.

Puxei e soltei, sem esperanças de acertar um alvo em movimento àquela distância.

Não acertei, mas apenas porque o tapete guinou violentamente para baixo e para o lado enquanto a flecha voava. Meu projétil rasgou o ar a centímetros da cabeça do condutor.

A Dama fez algo. O ar zumbiu. De algum lugar indefinido veio uma libélula gigante, como aquela que eu vira na Floresta da Nuvem. O animal disparou contra o tapete, acertando. O tapete girou, virou, se debateu. O condutor caiu livre, despencando com um grito desesperado. Lancei outra flecha no instante que o homem acertou o chão. Ele estremeceu por um momento, ficou parado. E então estávamos junto a ele.

A Dama arrancou o morrião negro de nossa vítima. E praguejou. Baixinho, com firmeza, ela praguejou como um sargento sênior.

— O que foi? — perguntei finalmente. O homem morto era o bastante para me satisfazer.

— Não é ela. — A Dama girou, olhou a floresta. Seu rosto permaneceu imóvel por vários segundos. Então ela se virou para o tapete à deriva. Finalmente se voltou para a floresta. — Vá ver se aquele outro era uma mulher. Veja se o cavalo está lá. — A Dama começou a fazer gestos de “venha cá” para o tapete do Apanhador.

Fiz o que me mandaram, com a cabeça em ebulição. O Apanhador era uma mulher, então? Astuta, ainda por cima. Toda preparada para ser perseguida até aqui, pela própria Dama.

O medo aumentou enquanto eu me esgueirava pela floresta, lento, silencioso. O Apanhador tinha jogado com todos, e de uma forma muito mais eficaz do que a própria Dama antecipara. O que viria em seguida, então? Houve tantos atentados contra minha vida... Não seria este o momento de encerrar qualquer que fosse a ameaça que eu representava?

Entretanto, nada aconteceu. Exceto que eu alcancei o cadáver na floresta, arranquei um morrião negro e me deparei com um rapaz bonito dentro. Medo, raiva e frustração me dominaram. Chutei o garoto. Muito útil, ferir carne morta.

O chilique não durou. Comecei a olhar em volta, procurando o acampamento no qual os substitutos esperaram. Eles já estavam ali há algum tempo, e planejavam ficar mais. Tinham suprimentos para um mês.

Um grande pacote chamou minha atenção. Cortei os barbantes que amarravam a embalagem e espiei o conteúdo. Papéis. Uma resma que deveria pesar uns 40 quilos. A curiosidade me venceu.

Dei uma olhada apressada, mas como não vi nada ameaçador fucei um pouco mais fundo. E imediatamente percebi o que tinha em mãos. Aquilo era parte da papelada que havíamos encontrado na Floresta da Nuvem.

O que os documentos estariam fazendo aqui? Eu pensava que Apanhador tinha entregado tudo à Dama. Ah! Trama e contratrama. Talvez ele tivesse entregado parte deles, mas ficou com alguns que poderiam ser úteis mais tarde. Talvez estivéssemos tão colados no Apanhador que ele não teve tempo de recolher...

Talvez ele voltasse. Olhei em volta, assustado outra vez.

Nada se mexeu.

Onde estava ele?

Ela, eu lembrei a mim mesmo. O Apanhador era uma “delas”.

Olhei em volta, atrás de pistas da partida da Tomada, e logo descobri marcas de ferradura que rumavam para as profundezas da mata. Alguns passos além do acampamento, as pegadas alcançavam uma trilha estreita. Eu me agachei, espiando por um corredor de floresta decorado com partículas douradas que flutuavam nas colunas de sol. Tentei me animar a seguir em frente.

Venha, disse uma voz em minha mente. Venha.

A Dama. Aliviado em não ter mais que seguir a trilha, dei meia-volta.

— Era um homem — anunciei ao me aproximar da Dama.

— Foi o que pensei. — A Dama trouxe o tapete sob uma das mãos, estendido e flutuando a 60 centímetros do solo. — Suba a bordo.

Engoli em seco e fiz o que me foi ordenado. Era como entrar num bote quando se está em água profunda. Quase caí duas vezes.

— Ele... digo, ela... continuou montada e seguiu a trilha floresta adentro — relatei enquanto ela subia a bordo.

— Em qual direção?

— Sul.

O tapete subiu velozmente. Os cavalos mortos sumiram abaixo. Começamos a pairar sobre a floresta. Meu estômago se comportava como se eu tivesse bebido vários galões de vinho na noite anterior.

A Dama praguejou em voz baixa.

— A vaca. Ela enganou todos nós. Incluindo meu marido — declarou ela em voz alta.

Eu não disse nada. Estava me perguntando se mencionaria os papéis ou não. A Dama ficaria interessada. Mas eu também estava curioso, e se os mencionasse agora jamais teria uma chance de espiá-los.

— Aposto que era isso que ela estava fazendo. Se livrando dos outros Tomados, fingindo ser tudo uma parte da trama deles. Então teria sido minha vez. Por fim, ela simplesmente deixaria o Dominador enterrado. Ela ficaria com tudo, e seria capaz de mantê-lo aprisionado. O Dominador não pode escapar sem ajuda. — A Dama estava mais pensando alto do que conversando comigo. — E eu não percebi os sinais. Ou os ignorei. Estava tudo ali, o tempo todo. Vaca astuta. Vai queimar por isso.

Começamos a cair. Eu quase botei para fora o pouco que restava em meu estômago. Descemos até um vale mais fundo que o resto da área, mesmo que as colinas dos dois lados não tivessem mais que 60 metros de altura. Reduzimos a velocidade.

— Flecha — comandou a Dama. Eu tinha esquecido de preparar mais uma.

Seguimos o vale por um quilômetro e meio, mais ou menos, e então encosta acima até flutuarmos ao lado de um rochedo sedimentar. Ali pairamos, encostados à pedra. Havia um forte vento frio. Estávamos longe da Torre, numa região onde o domínio do inverno era completo. Eu tremia sem parar.

— Segure-se — foi o único e suave aviso que tive.

O tapete disparou. Quatrocentos metros mais adiante havia uma silhueta abraçada ao pescoço de um cavalo que cavalgava. O tapete desceu mais ainda, e então estávamos voando loucamente a menos de 1 metro de altura.

A Apanhadora nos viu. Ela estendeu uma das mãos num gesto de proteção. Estávamos quase em cima dela. Disparei a flecha.

O tapete bateu em mim quando a Dama tentou fazê-lo subir, esforçando-se para desviar do cavalo e do cavaleiro. Não subimos o bastante. O choque estremeceu o tapete. Partes da armação racharam, se partiram. Giramos. Eu me agarrei desesperadamente enquanto céu e terra redemoinhavam a meu redor. Houve mais um impacto quando acertamos o solo, e giramos mais e mais ao capotar. Eu me lancei para longe.

Levantei-me num instante, desequilibrado, e botei outra flecha no arco. A égua da Tomada estava caída, com a perna quebrada. A Apanhadora estava ao lado dela, de quatro, atordoada. Uma ponta de flecha prateada emergia da cintura dela, me incriminando.

Lancei minha flecha. E outra. E mais outra, lembrando-me da terrível vitalidade do Manco na Floresta da Nuvem, depois que Corvo o abatera com uma seta que portava o verdadeiro nome do Tomado. Ainda com medo, saquei minha espada depois de usar a última flecha. Investi. Não sei como ainda estava com a arma, depois de tudo que tinha acontecido. Alcancei a Apanhadora, ergui a lâmina bem alto, ataquei brutalmente com as duas mãos. Foi o golpe mais violento e pavoroso que dei na minha vida. A cabeça da Apanhadora de Almas rolou para longe. O protetor facial do morrião negro se abriu. Um rosto de mulher me encarava com olhos acusadores. Era quase idêntica em aparência àquela que me trouxera até ali.

Os olhos da Apanhadora se focalizaram em mim. Os lábios tentaram formar palavras. Fiquei ali, paralisado, me perguntando o que diabos tudo aquilo significava. E a vida se esvaiu da Apanhadora antes que eu pudesse captar a mensagem que ela tentava me transmitir.

Eu voltaria àquele momento 10 mil vezes, tentando ler aqueles lábios moribundos.

A Dama veio até o meu lado, arrastando uma perna. A força do hábito fez que eu me virasse e me abaixasse para dar uma olhada.

— Está quebrada — afirmou a Dama. — Deixe para lá, isso pode esperar.

A respiração dela era rápida e superficial. Por um momento achei que fosse por causa da dor, porém percebi que a Dama olhava a cabeça. Ela começou a rir.

Fitei o rosto no chão, tão parecido com o daquela mulher, e então olhei para a Dama. Ela pousou a mão em meu ombro, apoiando parte do próprio peso em mim. Eu me levantei cuidadosamente, passando o braço por trás dela.

— Eu jamais gostei dessa vaca — afirmou a Dama. — Mesmo quando éramos crianças... — Ela me lançou um olhar cauteloso e se calou. A vivacidade deixou-lhe o rosto. Tornou-se a senhora gélida novamente.

Se algum dia houve alguma fagulha de amor por ela em mim, como acusavam meus irmãos, ela se apagou de vez. Vi claramente o que os rebeldes queriam destruir; aquela parte do movimento que era partidário da Rosa Branca de verdade, e não apenas marionetes do Dominador, o monstro que tinha criado esta mulher e que agora queria vê-la destruída para implementar sua própria forma de terror no mundo outra vez. Naquele momento, eu teria depositado a cabeça dela ao lado da irmã com alegria.

Segunda vez, se é que eu poderia acreditar na Apanhadora. Segunda irmã. Aquilo não merecia lealdade.

Há limites para a sorte, para o poder de um indivíduo, para o quanto alguém ousa resistir. Não tive coragem de seguir meu próprio impulso. Mais tarde, talvez. O Capitão tinha cometido um erro aceitando trabalhar para a Apanhadora de Almas. Seria minha posição privilegiada adequada para convencê-lo de que deveríamos deixar aquele serviço, com base no argumento de que nosso contrato havia se encerrado com a morte da Apanhadora?

Eu duvidava. Seria necessário uma batalha, no mínimo. Especialmente se, como eu suspeitava, ele tivesse ajudado o Síndico em Berílio. A existência da Companhia não parecia estar ameaçada, presumindo que sobrevivêssemos à batalha. Ele não consideraria outra traição. No conflito moral, o Capitão consideraria esse o mal maior.

Ainda havia uma Companhia? A batalha de Talismã não teria se encerrado apenas porque a Dama e eu havíamos nos ausentado. O que teria acontecido enquanto estávamos perseguindo a Tomada renegada?

Olhei para o sol, surpreso em perceber que pouco mais de uma hora tinha se passado.

A Dama se lembrou de Talismã também.

— O tapete, médico — disse ela. — É melhor voltarmos.

Ajudei a Dama a mancar até os restos do tapete da Apanhadora. Estava arruinado, mas a Dama acreditava que iria funcionar. Coloquei-a no transporte, recolhi o arco que ela me dera e me sentei diante dela. A Dama sussurrou. Rangendo, o tapete subiu. Era uma plataforma bem instável.

Fiquei sentado, de olhos fechados, debatendo comigo mesmo, enquanto ela circundava o local da queda da Apanhadora. Eu não conseguia organizar meus pensamentos. Não acreditava que o mal era uma força ativa, mas sim apenas uma questão de ponto de vista. Porém, eu vira o bastante para começar a questionar minha filosofia. Se a Dama não era o mal encarnado, ela chegava suficientemente perto para que não houvesse diferença.

Voamos lentamente em direção à Torre. Quando abri os olhos, pude ver o grande bloco negro no horizonte, inchando gradualmente. Eu não queria voltar.

Passamos pelo terreno rochoso a oeste de Talismã, a 30 metros de altura, com a velocidade de uma lesma. A Dama tinha que se concentrar completamente para manter o tapete no ar. Eu estava aterrorizado com a possibilidade daquilo desmoronar ali, ou que ela desabasse sobre o exército rebelde. Inclinei-me para a frente, estudando os pedregulhos, tentando escolher um lugar para cair.

Foi então que vi a garota.

Tínhamos atravessado três quartos da área rochosa. Vi algo se movendo. Lindinha olhou para nós, do solo, protegendo os olhos do sol. Uma mão surgiu das sombras, arrastando-a para um esconderijo.

Olhei a Dama de soslaio. Ela não percebera nada. Estava ocupada demais se mantendo no ar.

O que estava acontecendo? Teriam os rebeldes forçado a Companhia a se refugiar nas pedras? Por que eu não conseguia ver mais ninguém?

Com muito esforço a Dama gradualmente ganhou altitude. O triângulo da planície se expandiu diante de mim.

Terra de pesadelo. Dezenas de milhares de rebeldes mortos acarpetavam o solo. A maioria tinha tombado em formação. Os três níveis estavam inundados com cadáveres dos dois lados. Um estandarte da Rosa Branca, num mastro inclinado, esvoaçava no topo da pirâmide. Não vi ninguém se movendo em parte alguma. O silêncio dominava a terra, exceto pelo murmúrio do gélido vento norte.

A Dama perdeu a concentração por um instante. Mergulhamos. Ela conseguiu nos segurar a poucos metros do solo.

Nada se movia além das bandeiras e estandartes ao vento. O campo de batalha lembrava algo saído da imaginação de um artista louco. A camada superior de corpos rebeldes parecia ter morrido em uma agonia horrenda. Os números eram incalculáveis.

Sobrevoamos a pirâmide. A morte a tinha contornado, avançando contra a Torre. Os portões permaneciam abertos. Cadáveres rebeldes jaziam na sua sombra.

Eles tinham entrado.

Havia apenas um punhado de mortos no topo da pirâmide, todos rebeldes. Meus camaradas devem ter conseguido entrar.

Eles provavelmente ainda estavam lutando naqueles corredores labirínticos. O lugar era vasto demais para ser dominado rapidamente. Escutei, mas não ouvi nada.

O topo da Torre estava 90 metros acima de nós. Não conseguíamos subir mais... Um vulto apareceu no alto, chamando-nos com acenos. Era baixo e vestia marrom. Meu queixo caiu. Lembrava-me de apenas um Tomado que vestia marrom. Ele foi até um ponto melhor, mancando, ainda nos chamando. O tapete subiu. Faltavam 60 metros. Trinta. Olhei para trás, para o panorama de morte. Um quarto de milhão de homens? Assustador. Um número grande demais para ter significado. Nem mesmo as batalhas do ápice da Dominação se aproximaram alguma vez daquela escala...

Dei uma olhada na Dama. Ela tinha maquinado aquilo tudo. Seria senhora absoluta do mundo agora, se a Torre sobrevivesse à batalha que acontecia lá dentro. Quem poderia se opor a ela? Os homens de um continente inteiro jaziam mortos...

Meia dúzia de rebeldes saiu pelo portão. Dispararam flechas contra nós. Apenas algumas traçaram um arco tão alto quanto o tapete. Os soldados pararam de atirar e esperaram. Sabiam que nós estávamos em apuros.

Quinze metros. Sete. A Dama lutava para subir, e estava difícil, mesmo com a ajuda do Manco. Tremi com o vento que ameaçava nos jogar para longe da Torre. Recordei a longa queda do Uivador. Estávamos tão alto quanto ele estivera.

Uma espiada na planície me mostrou o forvalaka. Pendia frouxo da cruz, mas eu sabia que estava vivo.

Uns poucos homens se juntaram ao Manco. Alguns traziam cordas, outros, lanças ou varas longas. Nós subíamos cada vez mais devagar. Tornou-se um jogo ridiculamente tenso, a segurança quase próxima, mas nunca ao nosso alcance.

Uma corda caiu em meu colo.

— Amarre-a — gritou um sargento da Guarda.

— E quanto a mim, seu babaca?

Eu me movi tão rápido quanto uma pedra crescendo, com medo de acabar com a estabilidade do tapete. Senti a tentação de amarrar um nó falso que cederia ao ser forçado. Não gostava realmente mais da Dama. O mundo ficaria melhor sem ela. A Apanhadora fora uma trapaceira assassina, cujas ambições tinham lançado centenas à morte. Ela merecera seu destino. E essa irmã, que lançara milhares à estrada sombria, o quanto mais ela não merecia?

Uma segunda corda foi lançada. Amarrei a mim mesmo. Estávamos a um metro e meio do topo, incapazes de subir mais. Os homens tensionaram as cordas. O tapete deslizou contra a Torre. Baixaram varas, e agarrei uma delas.

O tapete caiu.

Por um segundo achei que era o fim. Então me puxaram para cima.

Disseram que o combate nos andares inferiores era feroz. O Manco me ignorou completamente, saindo apressado para entrar em ação. Eu simplesmente fiquei esparramado no topo da Torre, feliz por estar vivo. Até cochilei. Acordei sozinho, com o vento norte e um cometa enfraquecido no horizonte. Então desci para verificar o final do grande plano da Dama.

Ela venceu. Menos de um centésimo dos rebeldes sobrevivera, e a maioria dos sobreviventes tinha desertado bem cedo.

O Uivador espalhou a peste com os globos que atirou. A praga alcançou o estágio crítico logo após eu e a Dama termos partido atrás da Apanhadora de Almas. Os magos rebeldes não conseguiram conter a doença numa escala significativa, daí as montanhas de mortos.

Mesmo assim, muitos dos inimigos acabaram sendo parcial ou totalmente imunes, e nem todos do nosso lado escaparam da infecção. Os rebeldes tomaram o nível superior.

O plano tinha sido, naquele estágio, convocar um contra-ataque da Companhia Negra. O Manco, reabilitado, os ajudaria com alguns soldados de dentro da Torre. Mas a Dama não estava lá para ordenar a investida. Na ausência dela, Sussurro ordenou uma retirada para a Torre.

O interior da Torre consistia numa série de armadilhas mortais manejadas não só pelos soldados orientais do Uivador, mas pelos feridos que tinham sido levados para dentro em noites anteriores e curados pelos poderes da Dama.

A coisa toda estava encerrada antes que eu pudesse atravessar o labirinto e encontrar meus companheiros. Quando finalmente cruzei com a trilha deles, descobri que estava horas atrasado. Eles tinham deixado a Torre, com ordens de estabelecer uma linha de controle onde a paliçada ficara.

Alcancei o nível mais baixo bem depois do crepúsculo. Estava cansado. Só queria paz, quietude, talvez ser postado na guarnição de uma cidade pequena... Minha mente não funcionava direito. Eu tinha coisas a fazer, discussões a iniciar, uma batalha a travar com o Capitão. Ele não iria querer trair outro contrato. Há os fisicamente mortos e há os moralmente mortos. Meus camaradas estavam dentre os últimos. Eles não iriam me entender. Elmo, Corvo, Manso, Caolho, Duende, todos agiriam como se eu estivesse falando uma língua estrangeira. Por outro lado, como eu poderia condená-

los? Eram meus irmãos, meus amigos, minha família, e agiam de forma moral dentro desse contexto. O peso daquela missão recaia sobre mim. Eu teria de convencê-los de que havia uma obrigação maior.

Pisoteei sangue seco, passei por cima de cadáveres, puxando cavalos que eu tinha liberado dos estábulos da Dama. O motivo pelo qual eu levara vários deles era um mistério, exceto por uma vaga noção de que eles poderiam ser úteis. Peguei aquele que Pluma havia cavalgado, porque não estava com vontade de andar.

Parei para contemplar o cometa. Parecia menor.

— Não foi desta vez, não é? — perguntei a ele. — Não posso dizer que estou chateado com isso.

Uma risada falsa. Por que eu estaria? Se essa tivesse sido a hora dos rebeldes, como eles acreditaram, eu estaria morto.

Parei mais duas vezes antes de alcançar o acampamento. Na primeira vez ouvi um praguejar baixinho ao descer dos restos da muralha de contenção. Aproximei-me do som, e encontrei Caolho sentado debaixo do forvalaka crucificado. Ele falava de forma regular, em voz baixa, numa língua que eu não entendia. O feiticeiro estava tão concentrado que não me ouviu chegar. Também não me ouviu partir, um minuto depois, completamente enojado.

Caolho estava cobrando o preço pela morte do irmão dele, Tom-Tom. Conhecendo o sujeito, ele estenderia aquilo por dias.

Parei de novo onde a falsa Rosa Branca tinha assistido a batalha. Ela ainda estava lá, bastante morta numa idade bastante jovem. Os amigos magos dela tornaram a morte mais difícil, ao tentar salvá-la da doença do Uivador.

— Outro plano que deu errado. — Virei-me para olhar a Torre, o cometa. Ela havia vencido...

Tinha mesmo? O que a Dama conquistara, afinal? A destruição dos rebeldes? Mas eles haviam se tornado um instrumento do marido dela, um mal ainda maior. O Dominador fora o grande derrotado aqui, mesmo que apenas ele, ela e eu soubéssemos disso. O mal maior tinha sido evitado. Além disso, o ideal dos rebeldes havia atravessado uma chama purificadora, que lhe deu consistência. Quem sabe numa próxima geração...

Não sou religioso. Não consigo conceber deuses que dariam a mínima aos frívolos atos da humanidade. Quero dizer, obviamente, que seres de tal ordem simplesmente não se importariam. Porém, talvez exista uma força atuando pelo bem maior, criada por nossas mentes inconscientes unidas, uma força que se torna um poder independente, maior que a soma das partes. Talvez, sendo uma coisa mental, não seja limitada pelo tempo. Talvez ela possa ver todos os lugares e momentos e mover os peões, de forma que o que parece ser a vitória de hoje não passa da pedra fundamental da derrota de amanhã.

Talvez o cansaço estivesse mexendo com minha cabeça. Por alguns segundos acreditei estar vendo a paisagem do amanhã, vendo o triunfo da Dama se virando como uma serpente e iniciando a destruição dela durante a próxima passagem do cometa. Pensei estar vendo a verdadeira Rosa Branca levando o estandarte até a Torre, vendo a Rosa e seus campeões com tanta clareza como se estivesse presente naquele dia pessoalmente...

Balancei, montado na besta de Pluma, assombrado e aterrorizado. Pois, se aquela fosse uma visão verdadeira, eu estaria lá. Se fosse uma visão verdadeira, eu conhecia a Rosa Branca. Já a conhecia há um ano. Ela era minha amiga. E eu a desconsiderara por conta de sua deficiência...

Urgi os cavalos em direção ao acampamento. Quando uma sentinela me interpelou, eu já tinha recuperado cinismo suficiente para desconsiderar a visão. Havia passado por coisas demais num só dia. Gente como eu simplesmente não vira profeta. Especialmente, não quando estamos do lado errado.

Elmo foi o primeiro rosto familiar que vi.

— Deus, você está com uma cara horrível — afirmou ele. — Está ferido?

Não consegui fazer nada além de balançar a cabeça. Ele me arrastou do cavalo, me botou num canto qualquer e eu não vi mais nada por horas. Lembro apenas que meus sonhos foram tão desconexos e temporalmente frouxos quanto a visão, e não gostei nada deles. Eu não conseguia escapar.

Porém, a mente é forte. Fui capaz de esquecer os sonhos momentos após acordar.