A Divorciada

José Augusto Vieira · Capítulo 10 de 16

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A Divorciada

Capítulo X

 

A modista trouxera-lhe o chapeu, um modelo de Pariz, d'uma plumagem finissima, poisando{120} maciamente na côr granada do velludo; collocara-se em frente do espelho, experimentando-o, vendo-o se lhe ficava bem, meneando-se, apanhando a maior porção da lamina.

—Era um primor, realmente, mas tinha que elevar um pouco mais o penteado, assentaria melhor—

e voltava-o de vagar, com uma admiração insaciada, tocando delicadamente nas petalas assetinadas da flor, antegosando a inveja que aquillo causaria ás suas amigas.

—É já de senhora cazada—dizia, n'uma distincção frivola de toilette, applaudindo-se por este conhecimento, por esta grande noção de differenciação de estados, baseada no vestido—que muitas não tinham, umas ignorantes, trazendo os myosotis por exemplo, que só são dados ás meninas solteiras, e outras cousas mais,—umas minuciosidades futeis, que a enchiam de vaidade,

—E depois dizia muito bem com o vestido, oh, muito bem!

Era um vestido de faille plumbagineo, a traine de velludo, umas rendas caras, que M.me Sellier's mandara de proposito vir de Pariz, um talhe elegante, que lhe devia realçar a formosura. Abriu o guarda-vestidos, admirando-o ainda uma vez em toda a extensão fluctuante das suas rugas, pendente do cabide, na macia suavidade da côr, no matiz nevado das preciosas rendas.

—E agora que já tinha o chapeu, não era possivel adiar mais tempo; iriam fazer as suas visitas de casamento.

Alugaram um trem, um coupé do Marques, de{121} molas doces, acolchoado, elegante, confortavel, d'um estofo assetinado.

—Ah, como seria bom ter um trem—pensava—reclinar-se languidamente nas suas almofadas, correr nas brancas fitas do mac-adam ao som estrepitoso dos grandes cavallos normandos, os lacaios flamantes, de compridos casacões, com largos botões chapeados.

—Como eram felizes os ricos—e revoltava-se contra essa desigualdade de fortunas, n'um impeto socialista, figurando-se-lhe uma injustiça a falta d'aquelles sumptuosos contactos do luxo.

Mas o trem havia parado á porta do Mendes. Era a primeira visita. O cocheiro desceu, tocando violentamente a campainha.

Uns beijos cantadinhos se trocaram,—muitos parabens, estava até mais bonita, um poucochinho gorda; ah, agora é que era gozar. —

—Certamente, D. Carola, em quanto a gente é moça.—

—Pois não, Snr. Alberto, depois se vem os filhos e isso é sempre o mais certo.—E voltando-se para Ermelinda:

—Onde mandaste fazer o vestido, menina?

—Na Sellier's; um poucochito caro...—regosijava-se por ter sido notada, quebrando-as de inveja.

—Eu bem digo á mamã, que se tire de costureiras baratas, é mesmo uma zanga, nunca as cousas ficam em termos; o que se ha-de dar ao rato...

—Devagar, menina, devagar, a economia...

—Ora, grandes economias!...—atalhava.{122}

O Alberto afastara-se um pouco; olhava o jardim, esperando, com um ar passivo, de marido obediente.

Palraram muito.

Fallaram das modistas, dos chapeus, do theatro. A conversação cahiu no baile que o Bernardo ia dar para festejar os annos do cazamento.

—Melhor, tivesse juizo, aqui para nós, olha agora a doida! Elle!... sempre ha homens que se varreram de juizo!—

A Ermelinda sentiu-se um pouco afogueada; sabia vagamente d'uma aventura com o Alberto, que a Amelinha Bastos lhe tinha narrado.

—Mas emfim, era ainda solteiro, adeus! a tola fôra ella— desculpava-o—e criticavam o Bernardo.

—Bom estomago! havia de ser o Mendes.

—E o Alberto, não lhe digo nada, ciumento ali chegou!

Mas o Alberto interveiu:

—que era tarde, ainda tinham de ir a outras partes; sentia ter de cortar tão deliciosos momentos.—

—Tão poucochinho tempo.—

—Para outra vez seria mais: era uma via-sacra a percorrer.—

—Então venham jantar um dia.

—Desde já agradeciam, e viriam, viriam, era-lhes muito agradavel a companhia da madrinha e da D. Adelaidinha.—

—E depois—recordou Ermelinda um pouco afogueada—a gente lembra-se com saudade d'esta sala...{123}

—Ai, é verdade, fôra ali que principiara o namoro; pois viessem, viessem, era mais uma razão...

Despediram-se; novos beijos, um shake-hands ceremonioso do Alberto, os seus respeitos ao amigo Mendes.

Mãe e filha acompanharam; ficaram-os olhando do alto da escada, umas mezuras com a cabeça, uns adeusinhos agitados.

—Que luxo ein, onde iria aquillo parar.

—Só o chapeu, mamã.

—Bem diz o teu papá; ai, banco, banco!

Sentia-se o coupé rodar na calçada.

Visitaram a Amelinha Bastos, a D. Gabriella. Chegou a vez á D. Clementina.

Encontraram-a a acariciar o seu Tótó, o seu amor felpudinho, que principiou a grunir, n'uma revolta sorna, por ver que os estranhos lhe vinham roubar as caricias da sua amiga. Chegou até a accommeter o Alberto, n'uma grande indignação ciumenta. Mas ella amansou-o explicando:

—que o Tótó tinha realmente ciumes, era um verdadeiro tigre.—

E batendo umas palmadinhas amigaveis em Ermelinda:

—Então como se dá a minha menina com o seu novo estado?

—Bem, D. Clementina, muito bem.—

—Podera não; elle ha lá melhor vidinha!—suspirava—e depois quando se tem um marido novo, elegante...

—Oh, D. Clementina, eu passo a ter ciumes...{124}

—Ai, filha, não, isso não...—riram ambas, um cascalhar timbrado, a brancura dos dentes a desfiar pelo carmezim dos labios.

—E muito linda, muito linda!...

O Alberto interveiu, uma graça de galanteria...

—Não m'a encha de vaidade; Vocencia deve saber por experiencia propria, que a formosura das mulheres é o inferno dos homens...—

—Ora, nem diga isso! é o paraizo, o paraizo d'elles! Os senhores são uns mal agradecidos.—

Mirava-lhe o chapeu, o vestido; calculava o preço da fazenda, das guarnições, da pluma, das flores.

—Um dinheirão—pensava—isto assim hão-de dal-as frescas—e regosijava-se já d'um mal futuro, elogiando-se as proprias qualidades economicas, n'uma ferocidade ciumenta de solteirona.

—Trazes um chapeu chic; é modelo, menina?

—que sim, que era—e não fôra caro.—

—Então?

—Quatro libras!...

—Ah, quatro libras, não era caro, não!—e pensava que por aquelle preço se podiam ter dous chapeus bons, uma desgovernada —não, não tinha duvida, por aquelle andar a herança da tal tia em breve se lhe havia de ver o fim.

Despediram-se.

—Ainda tinham de ir a casa do Dr. Roberto, morava longe, na Foz, em Carreiros, uma boa hora.—

—Isso decerto, menina; e depois só para aturarem aquelle carapau inglez—chacoteou.—{125}

—Oh, D. Clementina, é do meu parecer—acudiu Ermelinda—o Alberto que não, que não, mas eu embirro com aquella cara, um ar seraphico, de mestra de meninas.—

—Mas não tens razão, Lili—é uma boa creatura, um pouco excentrica talvez, ingleza, isso comprehendia-se.—

—Ai, deixe lá, Snr. Alberto, gente que se não entende, que falla uma algaravia...—

—É a sua lingua, o seu idioma.—

—Pois sim, não digo menos d'isso; mas estou com a D. Ermelinda, não engraço com a tal ingleza, que chama á gente senhorra... senhorra! ora que desconchavo!...

—Nem sei como o Dr. se namorou d'aquillo! Elle ha gostos!...—

—Pois vivem muito bem, um casal modelo...—

Ermelinda replicou:

—bem se fiava n'essas; haviam de ter as suas, todos as tinham—

E passavam-lhe pela mente as questinculas futeis, que tão frequentemente se levantavam agora entre os dous, enevoando-lhes o sol da harmonia, distanciando-os em espirito, desatando-lhes a alma n'um relaxamento indifferentista.

Disseram-se adeus; beijocaram-se, o Alberto um grave aperto de mão. O Tótó impacientava-se, um rosnar regougado, até que sentiu em baixo bater a porta da campainha, e viu a D. Clementina sentar-se no sophá, saltitando então, satisfeito, o nariz afilado, procurando o calor das saias, muito cadongueiro, uns latidos meigos.{126}

Ficava o mar em frente. Um sussurro monotono, cheio de casta poesia, a alma do gigante a segredar queixumes, beijando a praia com um amor voluptuoso, em beijos nevados, de espumosa prata; e abrindo sobre o largo as janellas da casa do Doutor, a namorarem a luz, a perfumarem-se das emanações iodadas das plantas marinhas, rasgadas ao alto, umas cortinas de cassa a toucarem-as pudicamente.

Appareceu-lhes Bertha,

—vinha da cosinha, tinha ido ella mesmo preparar o plum-pudding, o seu Roberto gostava muito, era doudo por aquillo.—

—E o Doutor, bom, de saude?...

—Ainda na cidade; olhe, vem ás quatro horas, trabalha muito, coitado; por ora vivemos aqui, é longe, mas é mais economico; e talvez vivamos sempre, é tão saudavel este ar...—

—Mas devia ser insipido n'aquella quadra,—ella, Ermelinda, só gostava da Foz no tempo de banhos, havia convivencia, bailes; as manhãs da praia, as tardes de musica no Passeio Alegre...

O Alberto apoiava:

—Sim, devia ser realmente insipido.—

—Pois, olhe, não nos aborrecemos; até gostamos mais d'esta quadra, vivemos mais um para o outro; á tarde o Roberto vem cançado, fatigado, janta bem, e vamos passeiar, duas creanças ás vezes, a liberdade solitaria da praia... era muito lindo, deveria gostar...—

—Não, não, Deus a livrasse de tal; e como passava as noites, aquellas noites longas de inverno, sem theatros, sem partidas...{127}

—Temos as nossas partidas—volveu sorrindo Bertha,—fazemos musica os dous; o meu Roberto é um artista, toca violino, eu acompanho-o ao piano, a musica é uma boa distracção, não deixa a gente aborrecer-se; são uns bons companheiros, Mendelssohn, Mozart, Meyerbeer,...

—Mas sempre musica, realmente!... eu tambem toco, mas, confesso-lhe, ás vezes aborreço-me; a gente nem sempre está com disposição.

—Tem razão, é verdade, mas olhe, então variamos; lemos juntos, eu gosto muito de Elliot, de Michelet, de Taine, e de Dickens, que é o romancista da minha patria; e ás vezes quando a leitura nos não distrahe, e que a nossa alma precisa como que receber um bocado d'essa onda de sociabilidade, vamos ao theatro tambem, não nos julgue mysantropos; o Roberto ás vezes não quer ir, diz-me que não; mas eu conheço-o, nós as mulheres lemos bem no pensamento d'estes senhores; não é depois que appareça o tédio que eu devo distrahil-o, é em antes, que eu devo fazer com que não haja tempo de formar-se; e não se fórma, assim, tenha a certeza!—

A physionomia de Bertha illuminava-se-lhe docemente espelhando a luz da sua consciencia limpida, crystalina, que fazia d'aquelle amor uma religião; era branca, da brancura nevada das filhas do Norte, o olhar azul meigo, como uma ambrozia; a face rosada, d'um colorido de saude; a gracil agilidade das miss, uma insinuação que attrahia, que fazia estar bem junto d'ella.

Tinha uma actividade de spinster, pondo em tudo um conforto macio, um aconchego carinhoso,{128} alegre, limpando ella mesmo a sua salinha, o seu gabinete, vigiando a sua casinha, confeccionando pelas suas proprias mãos o prato favorito de Roberto, que vinha ás tardes, do Porto, o espirito fatigado, um desgosto de clinica, um doente que lhe morrera, apesar de todos os esforços,—mas que ao vel-a toda branca no seu roupão claro, offerecendo-lhe a face e o jantar, esquecia tudo, espreguiçava-se na sua indolencia de senhor e até

—nem tinha vontade de sahir de casa—dizia,

Ermelinda sentia a seu pezar o influxo d'aquella honestidade sã e boa, e as palavras de Bertha, enchiam-a d'uma claridade intima, que ella procurava assombrear com a tinta escura do seu ideal corrompido. Amesquinhava-a, deprimia, pensava em que tudo aquillo podia muito bem ser uma mentira, uma falsidade..

Mas a protestar contra estas ideias de vileza os objectos mudos pareciam levantar-se na sua simplicidade de coordenação e bom gosto. Os moveis, os albuns, os quadros, as musicas, as cortinas de cassa das janellas, as begonias opulentas nos seus vasos de dez tostões, o chão encerado das escadas, os metaes das portas polidos como espelhos, tudo revelava um gosto de aceio, uma alegria de suaves expansões, uma intelligencia curiosa e activa,

—que ella não podia deixar de reconhecer a final—

—Mas não era ella, não, aquella magra loirinha, que fazia aquelle milagre; oh, é por que tinha um bom marido, isso sim!—e comparava-o {129} Alberto com o Doutor, fazendo-lhe a saliencia dos defeitos, dos vicios que todos os dias se iam revelando com um impudor cynico—

—oh, tivera ella um marido como o outro e veriamos—e o seu espirito divorciava-se lentamente do espirito do seu esposo, accusando-o de grosseiro e hypocrita, de menos cavalheiresco, de não ter a fina comprehensão dos sentimentos delicados do coração feminil.

Isto enchia-a d'uma certa inveja para com Bertha, amesquinhava-lhe a belleza physica, chamava-lhe uma

—cotovia magra, um carapau de Inglaterra.—

—Ai, a D. Clementina é que a definira bem.—

Bertha offereceu-lhes um calice do Porto, um pequeno lunch; estavam na praia, não fossem ceremoniosos.—

—Não, não acceitavam; tirava-lhes a vontade de jantar; e eram horas, desculpasse a massada.—

—Nenhuma, absolutamente nenhuma: gosto de os vêr felizes; tão felizes como ella o era com o seu Roberto—

Abria-lhe um sorriso jovial, d'uma cordealidade doce, e

—offerecia-lhe a sua casa, viessem uma vez ou outra, nos dias santos, quando a cidade os enfastiasse; seriam sempre bem vindos; o Roberto lamentaria não lhes ter fallado.—

Ermelinda sentiu um calor mordente, quando Bertha lhe poz um beijo na face, despedindo-se, e roçou ao de leve, muito ao de leve, os seus labios no rosto branco da ingleza.{130}

E já no carro, quando a Foz ia desapparecendo com o silencio das casas inhabitadas e o sussurro eterno do seu mar,

—Estará ali a felicidade realmente?—perguntava-se, a imaginação mergulhando como n'um crepusculo côr de rosa e ouro, e vendo-se querida do eleito do seu coração, uma existencia suave e tranquilla, a claridade intima no espirito, o sorriso bom nos labios, dous companheiros leaes caminhando na montanha da vida, um ao lado do outro, elle protegendo-a com a sua força, ella renovando-o com a sua graça, indifferentes para o mundo, para esse mundo egoista, que os envenenava com as suas seducções e os despresava com os seus escarneos.

Ia calada, a phantasia acariciada n'este bello sonho, os olhos acompanhando vagamente a corrente esverdeada do Douro, que descia, banhando as casarias brancas da Aforada, espelhando o cotovello saliente da montanha, as fabricas do Andersen, a verdura matizada de Santo Antonio de Val-Piedade, e depois toda Villa Nova cortando a luz com as irregularidades dos seus edificios, a linha escura dos pinheiraes ao longe, orlando o horisonte vasto.

O trem subia vagarosamente a Restauração; harmonias de banda regimental cahiam lentamente, ondas apagadas d'uma sonoridade distante.

—Musica na Cordoaria! E se fossemos para lá um bocadito, Lili!—

—Como quizeres!

—São duas e meia; é cedo ainda para o jantar!...{131}

—Vamos lá, sim, manda parar então.

Apeiaram-se; burguezes espanejavam ao sol a sua obesidade preguiçosa, dandys com camelias na botoeira, damas todas encolhidas no regalo quente das suas pelles, cocottes com vestidos mirabolantes, estudantes de medicina pondo uma vaidade espectaculosa nas suas pastas amarellas, de fitas vermelhas fluctuando, militares alisando as fardas com luvas de camurça, todo um publico pacato, passeiando com um methodo ordeiro na grande alea, acotovellando os mirones que paravam em frente do coreto, para não perderem o gesto largo da batuta do regente e as notas que se rebolavam com uma liberdade mal educada por sobre os ramos esguios do arvoredo, creanças saltando em redor do lago na admiração curiosa dos habitos dos cysnes, brazileiros aposentados que occupavam pachorrentamente as cadeiras do Asylo, um ou outro municipal em vadiagem destacando-se com o colorido escarlate dos vivos da farda e das chapas reluzentes do metal das agulhetas.

—Muita gente, hoje!

—Sim, muita gente.

Deram o braço, cadenceando o passo no rythmo da musica, cumprimentando pessoas conhecidas, umas cortezias elegantes, de affectação estudada.

A orchestra batia valentemente a grande marcha da Aida; a voz perdia-se na sonoridade dos instrumentos.

Caminhavam juntos, uma vaidade de se verem moços e admirados, Ermelinda arrojando aos olhos das outras, que passeavam, a sua toilette{132} formosa, o seu chapeu modelo de finissimas flores; e elle a luva correctamente calçada, a guia do bigode n'uma curva de artista, atirando ao publico com a formosura da sua Lili; toda elegante com o seu vestido de traine de velludo, invejada, seguida pelo olhar cubiçoso dos dandys que o cumprimentavam, dos estudantes que ao vel-a passar prorompiam n'um cortejo de gulosas interjeições admiraveis.

Iam e vinham na grande alea povoada, encarando sempre em frente com a massa granitica do hospital da Misericordia, d'uma architectura pesada e d'um sumptuoso imponente, o trem esperando-os á porta do jardim.

—Estava já cansada—dizia—a bota do pé esquerdo apertava-a um pouco.—

O jardim despovoava-se; a musica cessara; tres horas nos Clerigos lembrando as necessidades physiologicas do estomago.

Chegaram a casa moidos, um pouco fatigados. A toilette incommodava-os, um desejo violento de se despirem, de se pôrem á larga.

E Ermelinda depoz o vestido sobre a cama, o chapeu n'uma cadeira, despenteou-se, os cabellos cahindo n'um desleixo emmaranhado, o corpo mettido n'um penteador um pouco surrado, os pés n'uns sapatinhos commodos.

—Estava á sua vontade, emfim—e subiu á sala de jantar, um grande appetite, palradeira, comendo gulosamente azeitonas antes de principiar o jantar.

O Jorge interveio:

—que lhe faziam mal, que era uma creancice.{133}

—Antes isto do que o tal lunch de Carreiros, ein, Alberto— gargalhou.

—Sim, antes isso—e comia devoradoramente, pouco expansivo, o pescoço curvo sobre o prato de sopa, bebendo de espaço a espaço, o guardanapo limpando os cantos da bocca.

—Então foram tambem a Carreiros?

—Fomos, podéra!

—E o Doutor, o sympathico Doutor?—interrogava.—

—Não estava lá!—

Ficou muda, um pensamento fugitivo, associando-se áquella adjectivação, com que o pae mimoseava Roberto, a imaginação alvoroçada, uma comparação desfavoravel para o seu marido, que agora sem os atavios da elegancia, um casaco usado, com a gola voltada, encobrindo a auzencia dos collarinhos,—muito comilão.—

—E se nós fossemos hoje ao S. João?—

—Vai a Lucia, creio eu.—

—Ai, a Lucia, quero ir então; e se houver enchente!... o melhor era o papá ir já comprar o camarote...

—Pois sim, eu vou,—e saboreava de vagar a ultima sobremeza, muito guloso, o créme esfiando-se pelos bordos da pequena colher.

—A Joaquina fez hoje isto bem—elogiou.

—O que succede raras vezes—acudiu o Alberto.

—Não, vamos lá, não estamos mal servidos.

—Réles, simplesmente; o ram-ram sabido, nem um prato novo; não ha como a cosinha franceza!{134}

—Eu cá por mim detesto-a,—obtemperou o Jorge—uns nomes pomposos, uma homard à la russe, uma timbale d'ecrevisses, um foie aux champignons, etc., etc., tudo uns bonitinhos e a final a barriga vasia.—

Alberto encolheu os hombros, um ar de superioridade, achando pulha aquella critica da cosinha franceza, feita pelo sogro.

Veio o café. Ermelinda bebia aos pequeninos sorvos, o corpo recostado na cadeira, a manga do penteador descia mostrando uma redondeza pennugenta de braço.

—Levantaram-se.

—Ia comprar o camarote; elle não voltaria, lá os esperava no átrio, ás oito e meia, não fossem tarde.—

—Para o anno havemos de ter assignatura, sim, Alberto?

—Certamente; não se póde viver no hig-life sem isso; é mesmo indispensavel, chamar-nos-iam pelintras, uns sovinas.—

—Oh, havemos de ter, fica já combinado...

E passou-lhe o braço no hombro, amorosamente, um agradecimento áquella acquiescencia de bom tom, esquecendo as desharmonias que se tinham manifestado, os seus aborrecimentos, a comprehensão do ideal que o separava d'elle.

Entraram no quarto, estendeu-se languidamente na poltrona, a circulação quente do jantar, a imaginação antegosando o prazer da noite de theatro, as plateias curiosas assestando os binoculos para os camarotes, os penteados, as toilettes do hig-life e tudo aquillo n'um ambiente callido,{135} de luzes scintillantes, a musica e o canto espreguiçando-se na atmosphera quente.

—Então, menina, não tratas de te pentear, vão sendo horas...

—Já!... ainda tão cedo!... estou com uma preguiça... Vou mandar chamar a penteadeira.—Se eu soubesse, antes iamos ámanhã...

—Ora... que creancice...

Fazia esforços para se levantar, o corpo quebrado, n'uma mollesa flacida, a nudez dos braços retesando-se sobre a cadeira.

—Só se tu me tirares d'aqui...—

Elle veio, tomou-a pelas mãos, fez um esforço, pôl-a rapidamente de pé; o penteador desabotoou-se, deixando ver uma renda de camisa poisando sobre o assetinado do seio,

—Oh, que desastrado!—sorriu-se—e se eu cahir outra vez!—E atirou-se sobre a poltrona, o corpo n'uma curva provocante, contente da sua semi-nudez.

 

Muita gente no theatro. A illuminação ainda a meio gaz, um poucochinho cedo, mas logo os violinos principiaram em afinação, uns gemidos rapidos esfiando-se delgadamente no ambito livre, e a luz scintillou, como um leque aberto, avivando as cores mirabolantes dos vestidos, o polido dos penteados, a seda lustrada dos chapeus altos. Senhoras entravam para os camarotes, accomodando-se na frente, uma grande ostentação de toilette para recompensar a incomprehensão da opera:

—Pouca gente conhecida;—e assestava o binoculo{136} movendo-o em differentes direcções, a manga do vestido descobrindo o canhão da luva gris-perle de sete botões.

—Ai o commendador, o padrinho!—

—Aonde?

—Ali, na superior, olha...

Lá estava realmente, recostado, uma grande abstracção do meio, a suissa recortando a brancura do collarinho, os oculos d'ouro reflectindo scintillações irisadas de luz.—

—Não entendia nada do lyrico, antes os cavallinhos, as operetas; mas era moda; precisava a gente impor o seu bocado, chamar-lhe-iam urso.—

Ermelinda inclinava o corpo, uma agitação inquieta, um desejo de ser notada, cumprimentada. O Carvalhinho ao vel-a fizera descrever ao seu chapeu uma curva graciosa, muito reverenciadora; e logo o Luiz Serra e o Juca Mendes, e os amigos do Alberto, os dandys que estacionavam pela superior.

O commendador voltara-se tambem por sua vez; um sorriso amavel, luminosas facetações de brilhantes no peitilho da camisa.

Regosijava-se. O Alberto mesmo sentia-se jubiloso em reflectir sobre ella as saudações dos seus conhecidos, dando-se um ar de importancia, de popularidade, no seio do hig-life.

Um camarote abriu-se; uma mulher entrou, uma grande frescura de mocidade, o assetinado do poudre de riz, amaciando a côr trigueira das faces. Vinha só; um vestido elegante, de faille preto, guarnições de setim, o decote aberto n'um{137} impudor provocante, o cabello negro frisado, uma risca rosada separando dous bandós reluzentes. Brilhantes nas orelhas, irisando a luz, e um olhar quebrado, na doçura amortecida d'uns cilios negros, tendo ás vezes umas ironias relampejantes, d'um cynismo deshonesto.

Poisou o binoculo no rebordo do camarote, a luva branca de canhão comprido, a enroscar-se n'uma pulseira d'ouro, o leque n'uma agitação lenta.

—Quem é aquella, Alberto?

Olhou na direcção indicada; fez-se vermelho, um rubor de collegial apanhado em flagrante, e para disfarçar:

—Não sei, não conheço! Ora deixa ver o binoculo.—

O pano subia, a attenção de Ermelinda desviou-se para a scena; appareciam umas arvores seculares, o baixo cantando uma canção monotona, e logo depois o tenor, um typo gordo, umas notas desafinadas que a plateia recebeu com murmurios de censura.

Mas elle, não desfitando o binoculo, o espirito preso a uma corrente de ideias bem diversas d'aquelle meio, absorvendo aquella mulher atravez das lentes, fazendo uma analyse demorada de todos os seus encantos e de toda a sua toillette, um prazer voluptuoso em sentir-se attrahido:

—Mas é a Annita, não tem que ver!... que luxo!... onde iria ella apanhar o pato! E mais bonita, sim, mais bonita! Até mais gorda; eu bem o previa, que a gordura havia de a aformosear!—

E recordava as suas convivencias passadas, a{138} atmosphera quente de bordel onde a conhecera, a sua inclinação, aquellas ceias em que bebiam champagne e adormeciam ébrios nos braços um do outro, os requintes de lubricidade, em que se juravam amor

—e a pequena, que faria ella da pequena?—

Esquecia-se de que tinha Ermelinda junto de si, a imaginação engolphinhando-se nas anfractuosidades do seu passado, a scena ultima, sobretudo—aquella scena que os tornara talvez irreconciliaveis para sempre.—

—Mas o pato, o pato, quem seria!—havia de sabel-o e d'ahi quem adivinhara, talvez que ella ainda lhe tivesse alguma dedicação.—

O pano cahiu. Uma pateada á ultima area do tenor.—

—Ia fumar um pouco, vinha já, se ella queria tomar alguma cousa —

—não, não, pódes ir,—e vendo ainda aquella mulher no camarote fronteiro

—Então conheceste-a?

—Nada, não—e sahiu rapidamente, o espirito alvoroçado, intrigado por colher informações exactas, que o illucidassem, muitos pormenores.

Fumava-se nos corredores, apertos de mão, criticas á empreza, á opera, aos artistas.

—Uma pepineira—dizia o Luiz Serra no seu calão de botequim.—

—É para a frente, rapazes, pateada a valer, ha-de ficar a noite memoranda.

—Não vale tudo os quatro contos do subsidio.—{139}

—E querem publico as senhoras emprezas, pois não! para apresentarem esta chinfrinada.

O Alberto entrou no grupo.

—Então, rapazes!

—Homem, caes da lua...

—Mas já não é da lua de mel, que elle cae, aposto!

—Explica-te.

—Vejo a Annita n'um luxo asiatico, aquillo é teu, ein, Alberto?

—Não, jurava que não, e até gostava de saber quem era o pato. —

—Pois pensavamos que fosses tu.—

—Eu sim, descartei-me a tempo d'aquillo—respondeu com um certo desdem.

—Pois está magnifica e de mais a mais pouco accessivel.—

—Conta lá, menino!

—Um tigre, um monstro; passou outro dia no Suisso e voltou-nos as costas como quem despreza os antigos conhecimentos.—

Grande risada.

—tinha graça, a final.—

A campainha tocava dentro; a orchestra principiava a desenrolar harmonias.

—Ao chinfrim, rapazes, ao chinfrim.—

Os espectadores entravam retardatariamente, n'uma linha obliqua, caminhando de lado.

Os córos desafinavam o mais possivel, n'um compromisso funesto de enterrar a partitura. Via-se o regente gesticular, n'uma agitação febril, a batuta n'um voltear vertiginoso; um rumor surdo{140} sahia das torrinhas, prenuncios de tempestade na plateia.

—Vai ahi haver um chinfrim medonho—disse o Alberto no camarote.

—Se nós nos retirassemos!...

—Ora deixa-te de tolices, tinha graça perder o melhor do espectaculo!—e voltou-lhe as costas, a vista medindo a força numerica dos pateantes, e a sua força qualitativa.

Depois os olhos volviam-se-lhe obstinadamente para o camarote d'Annita; tomava do binoculo observando-a ainda uma vez, approximando-a de si por meio d'aquella illusão d'optica, o pensamento revolvendo-se no leito de Procusta do seu passado.

—Só... mas hei-de sabel-o,—murmurava—o Juca sabe tudo, elle ha-de saber isto; é impossivel que o não saiba.—

Annita tinha-o visto logo ao chegar; um escandecimento de sangue subira-lhe nas faces, um desejo instinctivo de o descompor, de lhe chamar pulha, ali, naquelle mundo que o conhecia, em frente d'aquella mulher que era d'elle, um escandalo enorme, de que todo o Porto falasse.

—Mas não, estava vingada; dava-o ao desprezo—e amollecia as suas iras na comparação do seu bem estar actual, a vida facil correndo como um rio de leite, os seus caprichos satisfeitos, um luxo que nunca conhecera, brilhantes, toilettes caras.

E olhava de soslaio a mulher de Alberto, n'uma analyse curiosa e miuda, averiguando da riqueza{141} do seu vestido, comparando, desdenhando da sua inferioridade em joias.

—E o Alberto seria feliz?—interrogava-se, sentindo a piedade dos afortunados, um ar compassivo para desditas phantasiadas.

—Sempre era o pae de sua filha!... felizmente que a pequenita tinha morrido—e uma nuvem de tristeza poisava sobre a sua imaginação, escurecendo-lhe a claridade, como um cirrhus a um raio de luar. A recordação porém era fugitiva, cedia á efflorescencia de novos pensamentos que a occupavam.

—Parece que se não dão lá muito bem—observava—quasi sempre de costas para ella!...

E quando via o binoculo de Alberto assestado para o seu camarote.

—Pois não meu lindo amor, ha-de ganhar muito com isso—e voltava-se mais, o rosto desviado para o palco, a attenção obrigada a prender-se na scena que se estava representando, o tenor pedindo perdão, com as suas notas desafinadas, á prima-dona que tinha offendido com as suas infedelidades.

—Ora, tanto entendo eu d'aquillo como de lagar d'azeite—e meneou o corpo n'um coquetismo estudado, um sorriso levemente franzido nos seus labios vermelhos, fazendo-o voar imperceptivelmente, como uma fina essencia, para a plateia, a encontrar o commendador, que lhe correspondia n'uma irradiação d'olhar entre satisfeita e ciumenta.

A pateada rebentou furiosa, uma grande tempestade; cadeiras rangiam e viam-se dandys{142} n'uma tarefa ingloria, tentando quebrar os bancos, assobiando, gesticulando com vehemencia. Fallava-se alto, disputas, questões com os visinhos, uma balburdia, panno descido.

A claque aventurou algumas palmas, mas logo a pateada recomeçou e gritos tumultuosos de

—Fóra, fóra—a policia interveio, desmaios nos camarotes, as familias burguezas retiraram-se.

—Um grande horror áquelles malcreados, que não deixavam gosar,—apesar de que era bem cabida uma manifestação de desagrado—nunca se vira no Porto uma companhia tão réles.—

O Alberto tivera de ceder ás instancias de Ermelinda; sahira, ia para casa contra vontade,

—uma imbecil aquella sua mulher—mas emfim era preciso contemporisar um pouco! o pae parecia já não andar muito satisfeito!—

—Que miseria, com os diabos! Antes a Annita, mil vezes a Annita —

e affagava o desejo de a encontrar, volver com ella áquella vida aventureira do passado, gosar, saciar-se brutalmente n'um desmando de jejunalidade imposta e depennar, n'uma boa camaradagem, o pato que ella só depennava agora, despojando-o das suas pennas para se cobrir de velludos e brilhantes.—