A Divorciada

José Augusto Vieira · Capítulo 13 de 16

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A Divorciada

Capítulo XIII

 

No quarto de Jorge a luz mortiça d'uma lampada derramava uns tons lividos em todos os objectos. A roupa da cama, um pouco em desalinho, enroscava-se em volta do corpo do doente, cuja cabeça esbatida n'uma côr macillenta, revellava soffrimentos graves, irremediaveis, o corpo levantando-se nas almofadas, arquejando em movimentos rapidos, d'uma dyspnea violenta. O braço descarnado, com a brancura da camisola a envolvel-o, procurava a pequena escarradeira de porcellana que Ermelinda lhe apresentava com um carinho muito affectuoso.

O commendador, sentado n'uma cadeira aos pés do leito, tinha uma attitude gravemente composta, d'uma embecilidade passiva em face d'um mal, que não podia remediar.

Pronunciava palavras de conforto, de espaço a espaço, uma grande oppressão d'aquelle meio taciturno, com volatilisações acres de mostarda e um cheiro de doença, que provinha da renovação incompleta do ar.{175}

A Joaquina entrava de quando em quando, com uma taça de caldo na mão, os olhos avermelhando-se na fricção de lagrimas absorvidas na ponta do avental, e sempre esquecendo um objecto necessario, a colhér para remecher o caldo, o guardanapo para limpar os labios, o copo d'agua que se lhe havia pedido, uma perturbação de sentidos que a alienava, fazendo-a entregar disparatadamente um objecto em logar d'outro.

Pedia a Deus:

—que lhe valesse—e sahia a cochichar umas resas, seduzindo a divindade e a patrocinação dos bem-aventurados com a promessa d'umas velas de cera, d'umas missas pedidas, d'umas voltas de joelhos em que flagellasse a propria carne em de redor da capella do santo invocado...

O Dr. Roberto dissera confidencialmente ao Alberto:

—que não havia esperança, e depois, aquelle espirito estava n'um abatimento grave, algum desgosto profundo o havia prostrado.—

Estas palavras queimavam-lhe a alma; tinha vontade de entrar no quarto do sogro, pedir-lhe perdão, prometter que d'ali para o futuro seria sempre o leal amigo d'Ermelinda, que podia morrer descansado e confiando n'elle.

Mas o Jorge entrava sempre n'um paroxismo violento, quando a sua figura assomava á porta do quarto, rosnava umas palavras entrecortadas, que mal se entendiam e depois pedia a neta,

—que lhe trouxessem a Rosina, porque não estava ali á beira do avô.—

Abraçava a pequena, beijando-a com soffreguidão,{176} os olhos avivando-se d'um brilho excitado,—

O commendador recommendava-lhe prudencia—

—que aquelles abalos lhe faziam até mal—e pedia a Ermelinda, que retirasse a creança, que era necessario presença d'espirito.

—e não chorasse, havia sempre esperança, emquanto havia vida. —

Ermelinda agradecia no seu intimo aquellas consolações, onde a sua fina perspicacia de mulher percebia um tremulo de amor e sinceridade!—Oh, quanto não seria mais feliz em ter desposado aquelle homem, que agora a ampararia, que a respeitaria sempre como um escravo, que teria por ella todas as attenções delicadas d'uma alma leal;—mas era irremediavel, estava unida ao outro!...

—Ao outro, que differença no confronto!... Sempre fôra bem creança em se apaixonar pelo que suppunha ser o romance da vida!... Oh, como estava arrependida.—

Vinham-lhe estas considerações, velando á cabeceira do leito, emquanto o Jorge, n'uma intermittencia calma, entregue a uma somnolencia de prostração, dormitava brandamente, o vigor alquebrando-se n'aquella madornice comatosa, como um fio de azeite que se escoa lentamente por um orificio aberto no fundo d'um vaso, e o Commendador e o Alberto, conversando baixo com o doutor, na saleta proxima, rumorejavam agouros funerarios.

O doente teve um momento de allivio; a respiração tornou-se-lhe calma, o rosto socegado deixou{177} de se contorcer em contrações paroxisticas, a palavra, posto que branda, sahia com uma fluencia doce.

—Melhorzinho, ein—disse o commendador consolando-o.—

—Melhor, realmente! Isto ha-de ir indo, ha-de ir indo.—

—Coragem é o que se quer.—

O Jorge permaneceu calado; um pensamento agitava-lhe a imaginação.

—Se não fossem ellas, commendador!—bem me importava a mim a morte.

—Deixe essas ideias, ouviu, isso lhe prejudica.—

—Não posso, quer que lhe diga, não posso, levo-as aqui atravessadas—e apontava para a garganta, como se um obstaculo invencivel estivera lá collocado.—

—Mas então... se por fatalidade isso acontecesse, o que está muito longe de ser, ellas ficavam amparadas, ein!... quantas desejariam ficar assim.—

O Jorge quedou silencioso; dentro do seu espirito uma onda de verdade se agitava; mas o seu egoismo, a confissão do seu infortunio, um quebranto de cobardia sopesavam-o com toda a força. Depois, abruptamente, como quem atira de si um fardo pesado:

—Oiça, commendador; eu sei que é meu amigo; Ermelinda é infeliz, ella... coitada, digna de tão boa sorte... e depois sabe... o banco... ai, não posso, não posso... e uma dor sobre o coração fel-o contorcer n'uma agonia violenta, a{178} falta de ar reapparecia, a respiração agitava-se frequente.—

O commendador amparou-o, tinha palavras de consolação, d'uma sinceridade leal, n'aquelle momento em que presentia que um moribundo se debatia nos seus braços.

—Eu velarei por ellas, descance, não tenho familia, serão a minha, amigo Jorge, vamos... coragem, isso passa...—

Mas o doente abria desmedidamente a bocca n'uma ancia de ar, os olhos voltavam-se nas orbitas, no estrabismo da agonia, um apagar da scintillação da vida, as mãos avincando-se como que procurando alguem.

O commendador chamou para fóra.

Veio o Alberto, a Ermelinda, a Joaquina. O Jorge exhalava o ultimo suspiro.

—Meu pae, meu paesinho, olhe sou eu, é a sua filha, tem ali a sua netinha...

O Alberto teve uma phrase sonora.

—Já te não ouve, Ermelinda.—

Um deliquio sobreveio, o rosto impallideceu rapidamente, e cahiu nos braços do commendador, que a amparou n'uma grande atrapalhação carinhosa, o espirito desejoso de prestar todas as consolações de affecto áquella mulher, que pela primeira vez sustentava nos seus braços, na mais critica das occasiões, quando o corpo do pae ainda quente lhe parecia lembrar na baça fixidez do seu olhar cadaverico, que velasse por ella, por aquella desgraçada...

Encheu-se de gente a casa; veio a D. Gabriella, a D. Clementina, a familia do Mendes, a Amelinha{179} Bastos; todas porfiavam em prestar os seus serviços, installando-se provisoriamente, rodeando Ermelinda de consolações banaes, e murmurando entre si, calculando o estado de fortuna em que tinha ficado, commentando a morte do Jorge, muitos incidentes miudamente accumulados—

—que ainda ha pouco tempo andava tão bom.—

—um homem que parecia que vendia saude—dizia a apaixonada D. Gabriella—ai, se me lembro d'uma cousa assim.—

A D. Carola Mendes insinuava:

—que talvez algum desgosto,... os negocios iam tão maus; ella d'alguma cousa sabia, o seu marido dissera-l'ho confidencialmente. —

—pois desgosto houve e grande—confirmava a D. Gabriella— mas quanto a isso, D. Carola, talvez não, aqui era sempre do bom e do melhor...—

—Onde se tira e se não põe, minha cára amiga...

A D. Clementina aventurou outra hypothese:

—Não ia por alli o gato ás filhozes, a cousa era outra...—

Mas a D. Carola não se dava por vencida.

—Pois se o Mendes m'o disse, menina.—

—deixasse lá fallar os homens, elles ás vezes não eram dos primeiros que sabiam as cousas; que tambem—accrescentava— não dizia que não houvesse certos embaraços pecuniarios, porque luxo, louvado Deus, era o que se via, um desaforo...—

—Lá isso era verdade.—{180}

—Mas aqui para nós a Ermelinda deu-me outro dia certas queixas; creio que o Jorge não vivia muito bem com o genro...—

—Isso até o mais cego o percebia—

—Vejam lá os passetes que elle fez; aquillo era tudo impostura, mas olhe lá agora, lagrimas, viste-as, nem eu!...—

Seguiu-se por unanimidade esta ultima hypothese,

—que o Jorge morrera d'um grande desgosto motivado n'uma forte questão com o Alberto, que os dois se não podiam ver, que isso estava provado á evidencia—

—quem devia saber pormenores havia de ser o commendador— lembrou a D. Gabriella.—

—sim, o commendador, esse devia saber—concordou a D. Clementina affogueando-se d'um carminado serodio.—

—mas aquillo era caixa fechada, não se descosia com facilidade. —

—a questão era de saber tirar os nabos do pucaro sem a gente se escaldar.—

—e realmente o commendador tinha o feitio d'um pucaro; havia de chamar-se d'ora em deante o commendador Pucaro.—

Uma risadinha abafada acolheu o dito; a D. Clementina riu forçadamente para fazer côro, mas lá no seu intimo mordia com ferocidade o espirito d'aquellas pedantes,

—umas tolas, capazes de festejar o pucaro... se elle lhes acenasse com a sua riqueza.—

Dentro, na saleta armada em camara ardente, o cadaver estendia-se na sua immobilidade, o{181} rosto lividamente esbatido na reflexão dos lumes de cera, de casaca preta, o chapeu alto sobre o ventre, o braço esquerdo rigidamente estendido ao longo do corpo. Um criado do armador espevitava as velas, com uma grande indifferença de habitué, fumando o mais voluptuosamente que podia o seu cigarro, em companhia do Christo, que o contemplava da sua cruz branca de marfim.

Um carro funebre parou á porta, um ruido surdo, de molas pesadas e lentas; e logo os mercenarios subiram, um tropel tumultuoso, phrases grosseiras em dialecto gallego.

Mas a Ermelinda ouviu-os; protestou, debateu-se nos braços d'Alberto.—

—que o não levassem, queria despedir-se d'elle, era a ultima vez que o via—e arremessada pela impetuosidade da sua dôr, entrou na camara ardente; os homens tiravam o chapéo que servira apenas ceremoniosamente e ella pôde ver ainda o cadaver, na sua lividez mate, um fio vermelho ao canto do labio, o nariz afilado.

—Meu pae—e cahiu n'um deliquio, as senhoras vieram, affastaram-a presurosas, com um grande carinho affectado.—

A Joaquina veio tambem; quiz vel-o sahir, era a ultima vez...

—e desatou a chorar, n'um largo pranto carpido, a voz rouqueando-lhe em gritos abafados, uma vontade de se atirar animalmente áquelle caixão, cingir nos braços o cadaver que lhe fugia e aquecel-o com os beijos da sua febre, reanimal-o para as efflorescencias da vida.{182}

—Meu rico patrãosinho, ai, meu querido sr. Jorge, que nunca mais o torno a ver,—tão meu amiguinho era!—

E na dilatação expansiva da sua dor, a pobre mulher recordava inconveniente as scenas recolhidas do seu passado com elle, e a alma quebrada n'uma saudade dolorosa:

—Nunca mais, nunca mais, tudo acabou ali.—

O Alberto percebeu a violencia d'esta saudade; as palavras da Joaquina revelavam-lhe o que elle apenas desconfiara e com um cynismo revoltante:

—Vá lá para cima, Joaquina, era melhor que se lamentasse mais a sós; não lhe faltará quem o substitua.—

E com um desprezo para aquelle morto que sahia e por aquella mulher que ficava:—

—Que bonita sogra me não dava o sr. director!—realmente, oh moralidade dos bons paes de familia!

Accendeu um charuto; foi recostar-se n'uma poltrona da sala de visitas, onde alguns homens estavam para lhe fazer companhia.

Fóra ouvia-se o rodar abafado do carro funebre, e uma claridade luminosa, proveniente das tochas dos que o acompanhavam, penetrou atravez das janellas meio cerradas, derramando uns tons amarellados por sobre a sala.

Sugeitos batiam na escada entregando cartões de visita e o Alberto, com uma vaidade orgulhosa das suas relações, ia mostral-os a Ermelinda, um pouco com o fim de humilhar de inveja as suas amigas.—{183}

—Um bilhete da Viscondessa de Romualdo para ti, menina—

—E outro do conselheiro Silva Monteiro.—

Ermelinda recebia-os com ar contristado.

—Coitados, são verdadeiros amigos!—e atirava-os para cima da meza, gloriosa dos brazões estampados, em que as amigas faziam uns minuciosos reparos.

 

Foi-se pouco a pouco esvaecendo a nuvem sombria d'aquelle drama de familia; os dias de nojo tinham passado e Alberto retomava as suas occupações no Banco; mas percebia que um certo desdem dos directores o envolvia, uma atmosphera de desconfiança, em que se não encontrava á sua vontade.

—Pulhas—dizia do alto da sua prosapia de imbecil—acham o osso um pouco roido! tenham paciencia... ainda tem muito que devorar!... mas não hão-de ser os unicos, eu lhes protesto; não, que não faltava mais nada.

E meditava um lance de mestre, a riqueza fascinava-o, uma sêde de vida ociosa e facil lhe acenava á imaginação ambiciosa.

—Agora de mais a mais estava livre do Jorge, livre d'uma vez para todo o sempre, não teria quem o estorvasse na sua marcha, era senhor seu, completamente seu, sem aquella peia que lhe vedava os passos.—

—Em casa mesmo tudo havia de correr d'outra maneira; até ali em qualquer questãosinha a mulher tinha logo apoio no pae, e depois a criada vinha tambem, uns grandes ares dominativos,{184} d'uma familiaridade, que se respeitava; mas a cousa ia mudar de figura... a Joaquina ia pôl-a no andar da rua, o mais pequeno motivo, uma questão qualquer... desejava uma creada chic...—

Ia a si destruindo tudo o que podesse lembrar-lhe o dominio imperativo do Jorge; esta ideia desafogava-o, fazia-o dilatar d'uma grande satisfação intima, e um dia, que uma indisposição o azedou com Ermelinda, ao ver que a Joaquina vinha intervir, como de costume, levando-lhe o conforto das consolações.

—Quem lhe deu a Você liberdade de se metter onde não é chamada?—

—Oh, senhor Alberto.

—Já lhe disse, não quero em minha casa quem mande mais do que eu e se lhe não serve, procure, estou farto de a aturar.

—E eu ao senhor; é já, é fazer-me contas e a porta da rua é larga...

O Alberto cresceu para ella—

—Não me fanfe, ouviu.

—O senhor pensa que eu lhe tenho medo.—

Esbofeteou-a; o temperamento molle da Joaquina prorompeu n'um soluço comprimido, Ermelinda interveio, patrocinou a causa d'ella...

—Nem quero ouvir fallar de tal mulher, contas e rua, já...—e sahiu da sala, um ar embofado de D. Quixote—

—Cá a espero no escriptorio.

—Oh, minha rica senhora—e abraçaram-se as duas, uma effusão tumultuosa de lagrimas, um adeus á convivencia de dezoito annos, —

—Tem paciencia, Joaquina, eu hei-de fazer-te{185} tudo que puder, mas que queres, tu bem o conheces—

—Ah que se não fosse a senhora e a menina!

—Então, mulher; olha, talvez a mais infeliz de todas seja eu...—

—E é sim, já se vê, que é; ai agora, é que a senhora as vai penar com aquelle carrasco... mas olhe que para si eu sou sempre a mesma... casas não me hão-de faltar, ainda outro dia a D. Amelinha Bastos me fallou, quando ahi esteve por occasião da morte do Snr. Jorge... ai que grande falta elle fez n'esta casa...

—Mas então com isso nada se remedeia!...—

Foi arranjar a caixa, veio entregar-lhe a chave,—se a queria ver—

—Oh, Joaquina que até me offendes com isso.—

O Alberto pagou-lhe pontualmente, despediu-a com um ar secco,

—Que estimava que fosse feliz.—

E viu-a partir seguida d'um gallego, que levava a caixa, respirando emfim por se ter desfeito d'aquella testemunha das suas humilhações, d'aquella columna de apoio em que ainda se encostava affectuosamente a alma de sua mulher.

Mas a Joaquina fóra, o eixo sobre que girava a menagerie das cousas domesticas, havia-se partido: criadas inculcadas por adelas principiaram a succeder-se, uma indifferença por tudo quanto pertencia á casa, reclamando a sua liberdade dos Domingos, roubando escandalosamente nas compras, namorando ás tardes com os criados visinhos.

Ermelinda enfastiava-se d'estas pequenas minudencias{186} de casa, confiara sempre na Joaquina e nunca se importara em dirigir a sua actividade n'esse sentido; e depois, agora que o tentava, que o seu instincto de menagerie se despertava, que tinha de pensar na educação da sua Rosina, um grande desgosto a minava surdamente, enchendo de tedio todos os seus actos.

O pae e a criada que quasi lhe fôra mãe, tinham-n'a abandonado, ficara entregue ao poder d'um marido, que principiava a detestar, a reconhecer como um tyranno insupportavel, a desmascarar d'aquella falsa douradura, com que até ahi encobrira todos os egoismos e todas as infamias; o caracter d'elle ia-se desenhando com uma nitidez de contornos assustadora e a cada revelação d'aquella alma tão vil o seu espirito recolhia-se como que dentro d'uma armadura crystallina, onde apenas se queria ver isolada com o sentimento da maternidade, o unico já agora que lhe restava.

Mas faltava-lhe a base d'uma educação solida; não sabia ter a tenacidade da lucta, um grande sentimento doentio a quebrantava, chorava como uma suppliciada diante das mais pequenas difficuldades que surgiam, orvalhava com lagrimas constantes o rosto assetinado da sua Rosina. O instincto da mulher levantava-se ás vezes como uma boa flôr que nasce por entre a aridez das urzes, mas o Alberto tinha sarcasmos crueis para aquelle rejuvenescer d'uma alma nova, murchava com o sopro das suas grosserias aquellas subtilezas perfumadas, em que o seu coração se desentranhava,{187} todo cheio de esperanças e de risos limpidos.

Vivia por isso desgostosa, um aborrecimento por tudo o que a cercava, repoltreada na sua chaise-longue, entregue á leitura d'um romance, deixando quasi sempre a direcção da casa confiada a uma creada que a illudia.

Gastava-se demasiado, o Alberto principiava a ter injurias insultantes,

—que não queria litteratas em casa, que era preciso uma California para sustentar aquelles esbanjamentos, que olhasse pela sua vida,—o dinheiro não se roubava.—

Ella replicava logo

—que o não estragasse elle lá por fóra,—para que tinha despedido a Joaquina, uma criada em quem se podia confiar!... só se queria que fosse ella varrer e cosinhar, não lhe faltava mais nada. —

Uma saraivada de insultos se trocava entre os dous; o Alberto sahia de casa para só voltar altas horas da noite, ella estancava-se em chorar, desgostosa por não ter um coração amigo, onde podesse entornar aquellas lagrimas que escaldavam o seu.

Foi n'uma situação d'estas que a D. Clementina a veio encontrar, n'uma visita á tarde,

—tinha ido ao Palacio, mas estava tanto vento, lembrara-se de vir passar com ella um bocadinho.

—agradecia-lh'o, estava tão só ultimamente.—

—e teu marido, menina, e teu marido?

Encolheu os hombros, as lagrimas a pullularem irrequietas por entre as palpebras.{188}

A possuidora do Tótó farejava um escandalo, um segredo de familia, um drama intimo de que ella ia ser a unica espectadora talvez.

—E até estás mais magra, menina, crédo! parece que não vives muito feliz.—

—As felicidades, D. Clementina, são boas para quem as merece a Deus.—

—Oh, filha! desabafa, tu bem sabes que isto aqui é um poço—e apontava para o coração—as amigas não se fizeram para outro fim! Não sei se te lembras da Vicenciasinha, que morreu envenenada, pois olha que tudo me contou e eu... bôa... calada como um pêto... isso assim é de te matar lentamente; desafoga, menina, não ha mal que não tenha remedio.—

Insinuava-se, offerecia a sua alma como um consolo anodino e bom, um balsamo que se entorna sobre feridas irritadas.—

—Não, não a deixaria sem que ella se tivesse aberto para com ella, fôra sempre muito sua amiga, desejava dar-lhe uma prova verdadeira d'isso.—

Ermelinda foi desfiando lentamente os espinhos do seu martyrio obscuro; sentia-se alliviada, uma oppressão que lhe deixava desafogado o peito, mais forte com as consolações affectuosas d'um carinho, que desde muito ninguem tinha para com ella.—

—Narrou as groserias do Alberto, a despedida da Joaquina, uma criada de dezoito annos, que a trouxera ao collo tanta vez, o inferno do seu viver atormentado, as altas horas da noite a que elle recolhia, a sua indifferença por ella e até pela{189} pequena, as revelações em que se patenteava a vilesa d'aquelle caracter;—

A D. Clementina benzia-se, interrogava minuciosamente, indagava com muita curiosidade.

—Oh, filha, eras digna de melhor sorte.

—então, que lhe havia de fazer... mas que dizia ella a tudo aquillo?

—Eu sei cá, menina, vai tendo resignação, vai tendo paciencia; os homens ás vezes teem d'estes rompantes, mas passa, passa, quem sabe até se andará por ahi mal encaminhado.—

—Oh, D. Clementina nem me diga...

—Pois olha que não é outra cousa, e hei-de-o saber com certesa; tu verás como sae certo, isso são favas contadas...

Entornava-lhe na alma o veneno do ciume, com um grande desamor cruel, fazendo alarde da sua experiencia em casos d'aquella ordem.

—Não era o primeiro, e depois olha quem!... se não se recordava d'aquella historia com a mulher do commendador Bernardo...; mas havia de o saber—protestava com empenho—e conversariam depois, viria agora visital-a mais a miudo, até lhe levava a mal que a não tivesse chamado ha mais tempo, as amigas conheciam-se nas occasiões.—

Ermelinda ficou como um doente a quem se acalma a dor com a ministração d'um veneno... aquellas palavras da sua amiga corriam-lhe na alma ao arrepio, como uma bafagem quente de verão, que respiramos mas que reconhecemos nociva; parecia-lhe que uma sensação extranha germinava dentro de si, crescendo com um grande{190} vigor luxuriante, assombreando com as suas folhas envenenadas o pouco sol que ainda sorria e lhe cantava.

Tudo lhe perdoaria menos isso—

A sua vaidade de mulher formosa crispava-se em revoltas instinctivas, e a lembrança de que uma outra possuia aquelle homem, que ella rodeara dos perfumes calcinantes da sua paixão, batia-lhe a alma como uma onda tempestuosa de ciume, pungia-lhe o orgulho em humilhações amarguradas.—

—Era talvez até a essa infame que ella devia o seu infortunio,— agora estava explicado tudo.—

As palavras da D. Clementina tinham sido uma revelação,—fizera-se a luz diante d'aquelle desvendar d'illusões—

—oh não havia que duvidar—

E relacionava todos os seus dissabores, todas as irascibilidades, todas as suas questões com Alberto n'aquelle principio de causalidade, attribuindo-lhe a origem dos seus males, do seu viver infortunado e amargo.

—mas vingar-se-hia! seria generosa e sublime, teria d'ora em diante para com elle todos os carinhos, todas as delicadezas, todas as submissões; seria uma lucta travada no desconhecido, sem que elle podesse penetrar a causa d'aquelle seu redobrar d'affectos; roubal-o-ia a essa mulher funesta, conquistando-o ainda com a sua belleza, com a força do seu ciume, com a energia de todos os seus direitos de esposa e de amante.—

E sentia-se agitada d'uma vida nova, o coração{191} alvoroçado, a alma fortalecida para aquella peleja, elevando-se aos proprios olhos pelo seu papel de heroina e de martyr, o orgulho de se não deixar vencer, a vaidade propria espicaçada.—

A D. Clementina voltou alguns dias depois.

—Altas novidades, menina, altas novidades.—

—então, dissesse, estava anciosa por saber—

—que lhe dizia ella?... era verdade, doia-lhe dar aquelle golpe, as cousas porém só se remedeiavam depois de sabidas,—

—já estava resignada, era a sua sorte—

—mas não valia a pena affligir; era a Annita, uma creatura á toa, aquella que ás vezes apparecia no S. João, sósinha n'uma frisa...

—São as peiores, D. Clementina, são funestas essas mulheres.

—e demais tinham-lhe dito que estava por conta d'um brazileiro, ainda lhe não sabia o nome, mas não descançaria em quanto o não soubesse.—

Expunha com muita verbosidade casos identicos, aconselhando pequeninos tramas, muito contente do seu papel confidencial, creando uns fóros de indispensabilidade no decorrer d'aquelle drama domestico.

—Fosse com ella o caso e veria.—