A Divorciada
Capítulo XV
O commendador era d'uma actividade zelosa e multiplicada; conferenciava com a D. Clementina, consultava o advogado, fallava ao juiz, convidava o Mendes e o Dr. Roberto para membros do conselho de familia.
O Mendes ainda lembrava:
—a conciliação... seria bom concilial-os... aquillo ás vezes era o diabo.—
—Nada, nada, estava reconhecido que elle era um grande tratante; era preciso salvar a pobre senhora e a filha! que havia de ser da creança com aquelles exemplos! não lhe diria!—
—visse na que se mettia! por elle estava prompto a acompanhal-o.—{212}
O Doutor concordava tambem:
—era um triste remedio, mas era infelizmente o unico; ella ficaria n'uma posição falsa, evidentemente falsa, condemnada pela brutalidade da lei a um ostracismo perpetuo, inutil para a sociedade, como aquellas antigas martyres que morriam entaipadas, mas que se lhe havia de fazer? o indispensavel era poupal-a ao menos ás violencias d'um infame.—
Poucos dias depois ás onze horas da manhã uma carruagem parou á porta do Alberto...
Sahiram dous homens e uma senhora ficou ainda.
Eram o juiz e um escrivão.
N'aquella manhã o Alberto recolhera tarde de casa d'Annita; o seu espirito andava irritado com as contrariedades que de toda a parte o rodeavam, e cheio de um mau humor canalha tinha ainda pouco tempo antes espancado brutalmente sua mulher.
O juiz encontrou-a ainda com os olhos humidos de lagrimas, as palpebras inchadas.
O Alberto, quando o magistrado se fez annunciar, sentiu-se invadir d'um terror cobarde; foi todavia amavel, d'uma amabilidade ironica, quando teve de dirigir-se a Ermelinda,
—Se ella quer...
Ermelinda chorava, a Rosina chorava por ver chorar a mãe, e nos seus olhos limpidos, um espanto se desenhava como que adivinhando que alguma cousa de grave se estava passando.
Ermelinda hesitava; mas depois, como uma onda que se arremeça precipitadamente na praia:{213}
—Sim, senhor juiz, a fatalidade a isso me obriga; vou, acompanhal-o-hei, mas hei-de levar a minha filhinha!
—Prepare-se então, minha senhora, a sua filha irá com V. Ex.ª, a lei authorisa-me essa providencia; o seu deposito provisorio far-se-ha em casa da D. Clementina.—
O Alberto perdeu a serenidade.
—Eu logo vi que havia de ser esse bandalho.—
—Lembro ao cavalheiro que está diante d'um magistrado,— observou-lhe severamente o juiz.
Ermelinda sahiu para voltar logo; trajava de preto, um véo descido, as lagrimas a saltarem silenciosamente dos seus olhos, a filhinha pela mão,
—Então nós vamos embora?—perguntou a Rosina.
—vamos, filha, para nunca mais voltar.—
—quero levar então as minhas bonecas.
O juiz affagou-a:
—A mamã dará outras depois—
e voltando-se para Ermelinda:
—V. Ex.ª não quer mais nada d'esta casa?
—não, senhor juiz, estou prompta.
—n'esse caso partamos.—
A filha do Jorge sentia-se fraca, o espirito abatido diante d'aquelle momento, que ia cahir, como a louza d'um tumulo, sobre toda a sua existencia, apagando-a para a felicidade; a Rosina sentia tremer-lhe a mão e ao ver que a mamã continuava a chorar, os seus olhos d'uma candura d'anjo mareavam-se de lagrimas tambem.{214}
O juiz esperava, um ar sereno, de gravidade compungida.
Ermelinda fez um esforço; dirigiu-se ao marido, apertou-lhe a mão.
—Adeus, Alberto, sê feliz e perdoa-me!—
—adeus, senhora—respondeu seccamente.
A Rosina perguntou espantada:
—O papá não vem?
—não, filha, dá-lhe um beijo.—
O Alberto levantou a creança, beijou-a nervosamente, uma lagrima de emoção rolou precipitadamente sobre a sua face.
—Adeus, filhinha!...
O juiz interveio:
—Vamos, senhora, poupe-se a estas scenas dilacerantes.
Desceram a escada; o Alberto viu-os descer, a Ermelinda primeiro com a filha, depois o juiz, atraz o escrivão.
Uma voz de mulher, que vinha da rua, repercutiu na escada.
—Coragem, menina, estás livre d'esse monstro!—
Era a voz da D. Clementina. A carruagem rodou, n'um murmurio fremente de calçada.
Passada a emoção de momento, o Alberto passeava phreneticamente no gabinete.
—Então, ein, não fui comido! Tudo se conspira contra mim com mil diabos!...
Pensamentos de vingança, d'uma desforra estrondosa, lampejavam no seu cerebro escandecido; acalmava porém, reflectia:
—E agora era tirar de tudo o melhor proveito!{215} que a levasse o demonio! lá á pequena tinha-lhe um bocado de amisade, mas adeus, isso passava.—
Ideias se encadeiavam n'uma associação tumultuosa, e a sua reminescencia avivava as lembranças do passado, o namoro com ella, o casamento, que—tinha sido afinal um logro porque tinha menos do que elle pensava—
a sua lua de mel, as primeiras questões, o seu emprego no Banco, a morte do Jorge, a reconciliação com a Annita.
—eu fui um bocado violento, devemos confessar,—mas com um raio, não era para me fazer isto!—comparava-a com a Annita, que o tinha aturado um anno, vivendo na penuria, levando a sua dose, de quando em quando, e afinal uma mulher de cunho, amando-o sempre, uma escrava dos seus caprichos,
—e vou-me até lá, trago-a para aqui... e viva a Gatinha parda, com mil diabos; muito se vae ella rir de toda esta trapalhada!... parece uma comedia, hei-de lembrar ao Luiz Serra que faça de mim um personagem...—
Fluctuava já indecisa a imagem d'Ermelinda; esbatia-se na sombra diante da figura arrebicada e travessa da Annita,—que riria muito, e pediria champagne para festejar a sua liberdade d'elle.—
—Vida airada, e nem se lembrava de tal! já devia ter sido ha mais tempo.—
Não o commovia o isolamento da casa; habituara-se desde muito ao seu egoismo n'aquelle meio que quasi lhe era estranho; não sentia a{216} falta dos carinhos da espoza, nem das tranquinadas da filha que o aborreciam! O que elle queria era dormir, descançar, quando vinha de fóra,—aquelles seres que se moviam em volta d'elle affiguravam-se-lhe sombras fluctuantes, como as visões de sonhos incompletos! E agora parecia-lhe que tudo se havia desfeito, evaporado, abrindo a janella da sua gelosia, vendo entrar o sol da liberdade n'uma poeira luminosa e embriagante.
Foi d'ali direito para casa d'Annita; encontrou-a ainda na cama, uns habitos preguiçosos de cocotte, deshonrando-se, se tinha de por-se a pé antes da uma hora.
Sentou-se na margem do leito.
—Sabes Annoca, estou sem mulher!...
—sem mulher, conta lá isso—e sentou-se, o corpo recostado na almofada, a camisa de rendas finissimas cahindo n'uma voluptuosidade preguiçosa por sobre a redondesa dos seios, as espaduas nuas, o collo levantando-se n'uma linha correcta d'uma côr leitosa e velludinea.—
Narrou-lhe tudo minuciosamente, com todos os incidentes; e no fim a Annita, muito galhofeira, o corpo rebolando-se no leito, descobrindo-se n'uma provocação concupiscente.
—Ah, ah, oh, deixa-me rir; com que cara não havias tu de ficar, e dou-te os meus sentimentos, menino, dou-te os meus sentimentos; eu tambem estou sem homem!—
Ria muito, umas gargalhadas limpidas, espadanando-se de encontro áquelle caso tão serio, comparando a situação dos dous,
—nem de proposito, só a nós!...{217}
—mas que graça lhe encontras tu!
—graça, pois não tem!... a modo que ficaste com pena... a Gatinha tem ciumes, ouviste!...
beijou-o no pescoço, mordendo-o sensualmente, uma provocação excitando-o, cheia d'umas caricias felinas.
—E estamos livres outra vez, é como d'antes!... agora sim que me agrada isto!.... Vamos ser um do outro para sempre... valeu?
—Valeu, com mil demonios—e enlaçou-a nos braços, queimando-se na quente languidez d'aquelle corpo, o olhar esvaecendo-se n'aquella nudez appetitosa, d'um trigueiro rosado, uma pennugem negra maculando-a.
Alguns dias depois, no tribunal, em audiencia secreta, tinha logar o julgamento da acção, que separava definitivamente de pessoa e bens os conjugues Alberto de Sá e Ermelinda Jorge.
Estavam o Commendador, o Mendes, o Dr. Roberto, o Luiz Serra e o Guilherme, cazado com a Amelinha Bastos, e ainda o Juiz, o escrivão, o delegado do ministerio publico, os advogados.
Ermelinda estava com a filha a um lado, Alberto a outro, uns bellos ares contristados d'uma gravidade composta.
Recolhidas as testemunhas o juiz dirigiu aos dous palavras prudentes de conciliação, d'uma severidade amiga e triste.
Mas o Alberto protestou logo,—
—não, que pela parte d'elle não desejava tal{218} conciliação, seria uma indignidade, quando fôra ella que requerera o divorcio.—
Ermelinda por sua vez dizia:
—que bastava de martyrio, que esgotara o calix, não desejava de novo unir-se a elle; uma vez dado aquelle passo não voltaria atraz. —
As testemunhas então vieram depôr; a D. Clementina e a Joaquina especialmente foram eloquentes, d'uma convicção odiosa contra aquelle senhor, que era peior que um selvagem—dizia a ex-criada vingando-se d'aquelles bofetões, que a tinham despedido.
Os advogados fallaram, uma rhetorica eloquente, sobretudo o advogado d'Ermelinda, a quem o commendador promettera uma boa recompensa; e em seguida o juiz, os vogaes do conselho de familia, o ministerio publico, o escrivão recolheram-se a uma sala de conferencias, votaram a separação.
Depois, por um accordo reciproco, convencionou-se que a filha ficasse com a mãe, podendo ir visitar o pae todas as vezes que este o exigisse. A questão de bens tinha pouco litigio; o Alberto fôra desbaratando as pequenas economias do Jorge e alguma cousa que restava concordou-se, que ficasse como subsidio de alimentos e como dote para a pequena.
Vestida de preto, a Rosina pela mão, os olhos cubrindo-se de lagrimas, vexada no seu novo estado, cedendo ao peso da vergonha d'aquelle processo judicial, Ermelinda entrou em casa da D. Clementina, muito commovida, branca de marmore, a voz soluçante.{219}
—Tudo, tudo acabou!
—ou elle credo, nem que tivesse morrido alguem.—
—antes morrera eu, D. Clementina, teria sido mais feliz!...
—e a tua filha, sim, não me dirás? o egoismo não te deixa ver o que seria d'essa creança sem pae, nem mãe?...
—Tem razão, tem, é preciso viver para ella; ha-de ter mãe, já que não tem pae—protestou.
As lagrimas foram rareando; a commoção esbatia-se na vulgaridade dos accidentes chãos, como nuvem que se esfarrapa, aclareando-se, em pedaços do azul; o tempo ia derramando um balsamo doce sobre aquella ferida, cicatrisando-a, n'uma suavidade lenta.
O commendador visitava-a de quando em quando, sempre muito attencioso, um pequeno bijou para a Rosina.
—E porque não vinha mais vezes?—dizia a D. Clementina, entre suspirosa e affogueada.—
—seus negocios, seus negocios, mas não as esquecia, tudo que precisassem d'elle, era só dizer; não era homem de palavras, mas nas occasiões alli estava prompto.—
Ermelinda confirmava—
—que lhe era muito grata, se não fôra elle e a D. Clementina, quem sabe, talvez já não existisse.—
—e sabe noticias d'elle?—perguntou a D. Clementina.—
—mas seria melhor que não fallassem n'isso,—observava— fôra{220} viajar, segundo lhe tinham dito, creio que com uma mulher á tôa.—
O rosto d'Ermelinda rosou-se levemente; um rubor de ciume,—e os seus olhos quasi supplicaram ao commendador que a poupasse áquellas narrativas,—
—mas não fallemos n'isso, nem vale a pena,—obedeceu o brazileiro.—
Ia intrigado d'aquellas visitas, commovia-o o estado triste d'aquella mulher; uma onda de commiseração, que não estava longe do amor, principiava a enternecer-lhe fortemente a alma, com desejos impetuosos d'uma tyrannia cruel. Rareava por isso as visitas.
—não queria que ella perdesse por sua causa, e depois, apesar de não ter marido, tambem não podia casar com ella, uma estupidez da lei—
mas enviava á Rosina lindas corbeilles de flôres, bouquets de violetas, umas prendasinhas graciosas, que pareciam levar intenções significativas.—
—O commendador, realmente,—disia a D. Clementina—muito amigo é da tua pequena; nunca lhe conheci este affecto pelas creanças.—
—é d'uma bondade grande, lá isso é, e delicado, tem uma alma generosa debaixo d'aquella apparencia—disia Ermelinda—e ficava calada, um pensamento volteando na sua imaginação ociosa, de romantismo desilludido, pensando n'aquelle baile em que pela primeira vez tinha conhecido os dous, o commendador baixo e desgracioso, como um tronco de velha arvore, o Alberto{221} elegante e esbelto como um jasmineiro perfumado,—
—como as apparencias enganavam—suspirou.—
Mas a D. Clementina principiou a desconfiar d'aquelles elogios apparentemente banaes; uma pontinha de ciume a mordicava, umas picadas ao arrepio no seu sentimentalismo serodio, e tinha ás vezes respostas enviesadas, um pouco acrimoniosas, de quem está na sua casa, fazendo um favor e recebendo uma ingratidão em troca, isolando-se um pouco nos seus aposentos, pretextando visitas para deixar Ermelinda sósinha, dando-lhe a entender que lhe estava sendo pesada, picando-a no seu orgulho, como entendia que ella a picava no seu amor.
Ermelinda tragava em silencio aquellas desconsiderações que a magoavam,
—sim, que havia ella de fazer n'uma casa sósinha com a filha?... e depois as despezas! ali não pagava aluguer de casa, nem criada, isto já não era pouco!—
Mas um dia a Joaquina veiu visital-a, encontrou-a a chorar, quiz saber o motivo e ella então contou-lhe:
—as affrontas que soffria, um sorriso quando estava alguem, mas um mau modo quando estavam as duas, tornara-se impertinente, tinha respostas bruscas que offendiam, parecia que lhe comiam o pão tambem,
—pois é arranjar uma casinha, olhe, eu já agora não a deixarei; não me dou muito bem com a Amelinha, ella não é má, mas aquillo é um desgoverno,{222} é uma casa de Orates, ninguem se entende ali, cada um pucha para seu lado.—
Convencionaram por fim, em que seria a Joaquina que arranjasse a casa,
—uma casinha barata, retirada podendo ser; haviam de levar a vida, não tivesse medo—confortava a boa da criada.—
D. Clementina viu-a sahir com certa satisfação mal disfarçada.
—que não sabia para que ella fasia aquillo, mas emfim não a impedia, estava mais á sua vontade; e se precisasse d'ella, bem sabia;—
—nunca esqueceria as finesas que lhe devia, tinha sido uma boa amiga, mas não deveria abusar, não;—
—bem conhecia que lhe estava sendo um pouco pesada.—
—se eu fosse muito rica, menina—
—mas não se despedia dos seus favores, ia trabalhar, precisava de o fazer, e a D. Clementina tinha relações, valer-lhe-ia de muito, uns bordados, obras de cabello.—
—lá isso, podendo ella, estivesse descançada.—
Abraçaram-se, uns beijos lacrimosos,
—que se visitariam a miudo:—
Mas as visitas da D. Clementina rarearam; quando lhe perguntavam por Ermelinda, disfarçava mal o seu ciume outomniço, uns desabafos contra a ingratidão,—que a via agora poucas vezes —, realmente sahira-lhe uma rôlha.—
E a filha do Jorge ia pouco a pouco cahindo no esquecimento; nem a Mendes, nem a Bastinhos, nem as Gomes, nem as amigas do hig-life a procuravam{223} já. Alguma que o fasia era por curiosidade, uma vontadesinha de a humilhar, encommendando-lhe uns trabalhos futeis,—
—realmente era pouco decoroso conservar relações com uma senhora n'aquelle estado; a sociedade não via bem essas relações, sempre era uma mulher sem posição! E depois, o escandalo d'um divorcio!—
Retesavam-se n'uma honestidade pruriginosa, muito meticulosas na escolha das pessoas amigas, um grande respeito pela moralidade da opinião,
—não dava honra em verdade conviver com uma mulher divorciada.—
Apagavam-lhe com desculpas banaes a aureola de martyr, que n'um momento lhes dera o syncretismo do sentimento por ella e achavam que:
—deveria ter tido mais paciencia, não fôra tão mimalho, não se apanhavam moscas com vinagre—
O commendador mesmo, obrigado a partir repentinamente para o Brazil a fim de obviar a uma crise commercial, que o ameaçara, teve de cortar as suas vizitas, em face d'esta força maior.
E era assim que Ermelinda se via gradualmente rechaçada das suas relações, accommodando-se no seu isolamento humilhante, um desejo de ver as outras cahir tambem, azedando-se n'uma fermentação acre de vinganças miudinhas, uma aspiração malquerente para com a sociedade, que a repellia injustamente, a energia quebrantada, amollecendo n'uma lassidão vadia de temperamento, um grande desmazelo de si, a vida figurando-se-lhe{224} um fardo pesado, que tinha de arrastar no caminho ingreme da fatalidade.—
A filha sómente lograva purificar um pouco aquella alma que se corrompia; esquecia-se de si, como os pantanos se esquecem das suas aguas perniciosas, para alimentar a flôr luminosa de mocidade e candura, que se levantava como um lyrio, seivando-se no lodo d'um paul.
O trabalho rendia pouco, comia-se uma parte do pequeno capital, a Joaquina mesmo adoecera com a fadiga, e isto sobrecarregara o estado financeiro da casa; a miseria pairava, como um corvo, que se banqueteia n'um cadaver e Ermelinda sahia raras vezes, receiosa de encontrar uma antiga conhecida que lhe attentasse no vestido surrado, fóra da moda.
Emmagrecia, a sua formosura esvaecendo-se, como uma estrella que descora, o tom quente das faces substituido por um macillento doentio, de pobresa chlorotica de sangue, os bons alimentos que faltavam.
Perdia a energia para o trabalho e quedava-se ás vezes em longas contemplações scismaticas, um confronto do seu presente com o seu passado, a vida amargurada d'agora, com a vida facil e descuidosa d'então, maldisendo o seu destino, sem resignações corajosas para aquelle infortunio, que tinha de devorar ella só.
E apesar de que a imagem da filha vinha occupar, como um clarão amigo, quasi todo aquelle negror da sua alma, sentia que lá ficava ainda uma sombra, um vacuo que o amor de mãe não podia preencher, alguma cousa de desconsolador,{225} que deixava no seu coração um arrepio gelado, como a corrente d'uma noute fria que penetra n'uma sala quente, atravez d'um vidro partido. Uma aspiração se elevava d'uma precisão mal definida, fluctuante e incorporea, como que devendo encher aquelle vasio—
—Lembrava-se de que talvez a miseria lhe custaria menos se tivesse um companheiro que a comprehendesse e a alentasse, que tivesse para ella um sorriso amigo e carinhoso, que lhe incutisse força n'aquelle peregrinar atravez d'espinhos;—
—Via tantos pobres felizes!... justamente o seu bairro mostrava-lhe frequentemente d'estes exemplos; morava em frente de si um operario honesto, um ensamblador, que tinha pela mulher uma adoração fanatica; havia dous filhos, uma santa paz, o trabalho alegre como uma benção, e ás tardes, quando elle largava o serviço, via os dous no quintal, á sombra fresca d'uma ramada, bebendo tranquillamente pela mesma caneca de vinho, os pequenos a faserem hortinhas, uma bonhomia suave, que fasia lembrar um quadro hollandez, e depois o operario estender-se preguiçosamente sobre um banco de pinho, a cabeça no regaço da mulher, que o catava muito de manso, baixando-se a espaços para o beijar carinhosamente na testa.—
Não tirava os olhos d'elles e a agulha cahia-lhe da mão, a imaginação a pintar-lhe um quadro identico, em que ella tambem se baixaria para beijar a fronte pallida do seu marido, a Rosina{226} traquinando com as suas bonecas a um canto do jardim.
—Como fôra infeliz!... e era preciso tão pouco para se ter a felicidade—suspirava.—
Quasi tinha inveja áquella mulher honrada e áquelle operario honesto; affigurava-se-lhe uma injustiça aquelle contraste de paz em frente da sua vida de amarguras, e ás vezes, ao vêr que os dous sahiam do quintal, braços enlaçados, rindo muito, alegres do seu amor, uma bafagem quente lhe subia no peito, um desejo incoherente de se sentir beijada nos labios varonis, a reminiscencia avivando lembranças felizes d'outros tempos, a energia do seu temperamento despertando indomita, n'um esfusiar esteril e impotente.
Vinha-lhe porém adjunta a recordação do Alberto, e uma onda tumultuosa de odios represados a dilatava toda.—
—Nunca mais, odiava-o de morte; um pulha, um miseravel, um indigno que não quizera comprehendel-a, e que lhe tinha roubado para sempre a felicidade!—
—quando se lembrava que a sua filha era filha d'elle, quasi a olhava com desamor,!... mas não tinha culpa, a pobre creança.—
E ficava n'uma exaltação nervosa, um atropellamento de pensamentos chocando-se violentamente, frenetica, incoherente, passarinhando muito pela casa, respondendo asperamente á Joaquina, repellindo as meiguices da pequena, arremeçando com aborrecimento a costura, tomando um livro para logo o deixar, até que se ia quebrantando{227} este nervosismo, a excitação cahindo n'uma prostração apathica, que terminava sempre por um largo choro copioso, muito mansa e abatida, deitada de bruços sobre o leito, e fechada sósinha no seu quarto.
Foi n'uma occasião d'estas que o commendador, de volta do Rio de Janeiro, a veiu encontrar—
—tinha-lhe custado saber onde moravam agora, ein, mas afinal se tinha informado bem; e como iam, como iam, a Rosina estava uma senhora—
—coitada! tinha uma infancia bem desgraçada—
—n'aquellas idades o que se queria era brincar; mas ella, ella, que a achava muito transformada, se estava doente?—perguntava carinhoso—
—doente, não, iria morrendo lentamente, o mundo já para ella não tinha alegrias,—
—que deixasse lá, era nova! e depois a minina!—
Mas a Joaquina interveio.
—que não era verdade, não, que ella queria encobrir, que a D. Ermelindinha andava muito doente, nem comia, era mesmo um passarinho de magresa! e depois aquelle desgosto que a matava.—
—A gente se distrahe.—
—vão lá fallar-lhe nisso!...
—oh, Joaquina, cala-te por Deus,—
—eu cá não tenho papas na lingua; sabe Vossa senhoria, pois é como lhe digo, não que eu tenho-lhe amisade, isso é que ella não póde negar; não sou como essas visitas que alvoraram todas,{228} ninguem procura gente pobre!... E vai-se vivendo, Deus sabe como! —
—Joaquina... então...
—deixe ella dizer, deixe ella dizer.—
—e digo, sim senhor; se Vossa senhoria cá tivesse estado, veria como as cousas tem corrido!... Agora nem a D. Clementina por cá pisa, boa... tem medo que lhe peçam alguma cousa; pois se Deus quizer, emquanto eu tiver dous braços, não se ha-de occupar aquella sastrona!...
—Joaquina—interveiu n'um tom reprehensivo.
Mas o commendador pedia-lhe:
—que deixasse fallar, que deixasse fallar—a sua indole harmonisava-se com aquelles desabafos expansivos da Joaquina,— queria as cousas assim, não era homem do rodeios, pão pão, queijo queijo—e commovia-se d'uma compassividade altruista por aquelle infortunio, em que as via,
—Mas estava elle agora alli, não havia de ser assim—protestava —
—a Joaquina tinha-se sacrificado muito por ella, a unica pessoa que a não abandonara—dizia depois Ermelinda ao commendador.—
—boa criada, não as ha hoje assim! conserve-a, conserve-a sempre.
—sempre, só se ella quizesse deixal-a; era quasi sua mãe.—
O commendador resolveu desde logo modificar-lhe as condições do seu viver.
—mas que diria o mundo? não, não acceitava, em tudo se lançava veneno—
—mas não podia consentir, o seu amigo tinha-lhe recommendado a filha na hora da morte,{229} e depois, elle não tinha familia, dotaria a Rosina, já ella não tinha de que ter escrupulos.—
E principiou a enviar copiosos presentes, mobilia e comestiveis, um rodeio de confortos, sollicito em adivinhar-lhe os pensamentos, conta aberta na modista, uma submissão de escravo em todas as suas acções, alegrando-se de ver como Ermelinda se refasia, um pouco mais rosada já, engordando até, a nutrição sadia agradecendo os bons alimentos delicados, como a flor estiolada agradece o raio do sol que lhe faltava.
—E não tinha que agradecer-lhe, pelo contrario, elle é que se considerava feliz em poder-lhe fazer algum bem; cumpria religiosamente um dever, andava contente, não precisava de mais. —
Ermelinda porém enchia-se por elle d'uma suave gratidão; o sangue novo que a revigorava, entumescia-a de incongruentes desejos; adivinhava a alma do commendador e sentia-se feliz em ser assim amada, submissamente, como uma rainha, com a adoração respeitosa e fervente d'um fanatico.
—Como teria sido feliz, se o houvera desposado—pensava—que desgraça a sua, em ter conhecido o outro!—
—e elle afinal, a que podia aspirar coitado?!... que falsa posição a sua—como se lhe affigurava uma indignidade revoltante aquelle voto que a sociedade lhe houvera imposto com o processo de separação!—
—porque não havia ella de ser livre, poder amal-o, poder dedicar-lhe o seu coração tão cheio de boa gratidão, principiar com elle uma vida {230} nova, toda cheia de paz e de carinho, formando uma familia honesta e honrada!—
—que era ella afinal? nem solteira, nem casada, nem viuva! que lei infame!... e não havia justiça na terra!—
Um circulo de ferro a envolvia de todos os lados, estreitando, diminuindo de raio, esmagando-a dentro d'aquellas interrogativas sem resposta.
E ao commendador, por seu lado, uma nostalgia da vida, tenue como um nevoeiro, o ia invadindo;
—aquella mulher era o seu desejo, a sua felicidade, o seu bem! mas não abusaria, seria uma infamia! e entretanto a lei quasi o incitava, em face d'aquelle despotismo cruel, que tinha tyrannicamente roubado a liberdade áquella mulher... e porquê, não lhe diriam?... porque ella se tinha revoltado contra um bebado, um jogador, um patife que a espancava,—era um absurdo, realmente.—
—e entretanto, conhecia-o, não bastavam á sua natureza forte, aquelles idealismos cavalheirescos de Magriço, que o faziam sacrificar por ella; um grande tedio o aborrecia, aquella pura devoção não satisfazia a anciedade exigente do seu espirito.—
—E talvez que ella o não repudiasse, presentia-o, o seu olhar fazia-lhe agora mais mal do que nunca, quando o surprehendia a pousar sobre si n'uma quietação contemplativa e muda—
—era preciso affastar-se, vel-a menos vezes,{231} fazer-lhe todo o bem que pudesse, mas fugir, fugir a final de contas.—
Ermelinda vendo que o commendador distanceava as suas vizitas, sentia-se intrigada, descontente de si, accusava-se de não ter sido mais accessivel, o ar um pouco severo de quem obstinadamente se recusa.—
—E não, não era por isso—uma gratidão por elle a envolvia, como uma nuvem de perfumes, e sentia-se bem, quando pensava que d'ella dependia a sua felicidade.—
A sua saude revigorando-se, energias de temperamento se despertavam; habitos adquiridos se reaccendiam em desejos brutaes, instigando a carne, n'uma provocação petulante. E na incoherencia d'estas ideias, que ainda não se vasavam n'uma fórma nitida, a imagem d'Alberto extinguia-se, esvaecendo-se n'uma penumbra indistincta, sacrificando-se á imagem do commendador, que se destacava luminosa, em toda a pujança d'uma vehemencia indomita,—
E Ermelinda, costurando silenciosamente, o espirito a divagar em sonhos incoerciveis, via no quintal visinho a mulher do ensamblador, debaixo da ramada, a beijar carinhosamente o marido, e depois, quando vinham de dentro, ella a cantar, como um passaro alegre, umas trovas cheias de fogosa paixão peninsular, muito satisfeita de si, a voz crystalina revoando, como um trinado sonoro, no azul d'aquelle ar, onde volitavam as andorinhas que regressavam a saudar a primavera.{232}