A Divorciada

José Augusto Vieira · Capítulo 8 de 16

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A Divorciada

Capítulo VIII

 

Trens de praça, os cocheiros com librés de luxo, iam-se pouco a pouco enfileirando na rua onde morava o Jorge. O povinho ia parando, mulheres sobretudo, desejosas de ver sahir o cortejo. Os convidados ainda com os sobretudos e já de luva gris-perle, as senhoras de vestidos de sêda, entravam e logo o director do banco com um sorriso amavel, d'uma cortezia palaciana, sahia a recebel-os, um bello ar festivo, a barba escanhoada, a gravata branca sobre um peitilho folheado, todo grave na sua casaca preta.

Tinha sempre uma phrase nova para receber os cumprimentos.

—Meus parabens, sr. Jorge.{91}

—Obrigado, amigo Mendes, sei que são sinceros!

Rodava mais uma carruagem e logo outro, entoando:

—Parabens, parabens!

—Recebo-os, como a mais amavel das felicitações—e sorria.

As senhoras todas subiam, queriam ajudar a vestir a noiva. Tinham o fetichismo das grandes occasiões. A Adelaide Mendes dizia que havia de ser ella quem pregaria o ultimo alfinete!—e todas queriam fazer o mesmo, as solteironas afim de serem as primeiras a seguir na via lactea do matrimonio.

No seu quarto a Ermelinda estava já vestida, o rosto afogueado n'uma vermelhidão casta; um largo espelho a reflectia com o seu vestido de faille nevado, d'uma scintillação velludinea guarnecido a flores de larangeira; iam pôr-lhe o véo, um largo véo de fino tulle branco!—Mas em antes as amigas rodeando-a, notavam uma préga que era necessario desfazer, encobrir... com um ramo, e uma elevação no penteado, que urgia modificar.

Davam-lhe os parabens com sorrisinhos maliciosos e ditos agudos, d'uma levesa picante, capazes de crestar o avelludado d'aquellas flores virgineas, que a engrinaldavam,—e a corôa, que a repartisse pelas amigas, não se esquecesse, para o noivo bastava a... outra—

A Adelaide Mendes disse que preferia a sua parte do bouquet;—

—ah! tambem, tambem!—{92}

—vai mais chegadinho ao coração—

E uns dedos rosados vinham logo ageitar o bouquet, um pequeno ramo gracioso, de flores de larangeira, que fechava o decóte do vestido, poisando sobre a curva do seio, com uma castidade toda timida, narcisando com a sua fina essencia a carne assetinada, d'uma alvura de camelia, onde poisava um formoso signal escuro, cheio de pequeninas provocações.

Estava prompta em fim. Nunca o seu espelho lhe parecera tão lisongeiro, como n'aquelle momento;

—Ah, era assim que ella se tinha sonhado nos seus devaneios incoherentes de mulher nova e moça!

—mas sentia-se nervosa, muito agitada; tinha sobretudo uma grande sêde!—

A Amelinha, disse-lhe:

—que tambem ella estivera assim, mas passava, não tinha duvida —e preparou-lhe um copo d'agua com assucar, que a Ermelinda tomou, curvando-se para não deixar cahir alguma gotta sobre a sua toilette de noiva.

A D. Carola, a esposa do Mendes entrou, um sorriso largo, a pronuncia brazileira:

—Vamos, meninas, são horas de conduzir minha afilhada—

—E elogiou-a,—que estava muito bonita realmente, era o mais formoso dia da sua vida—

—Eu sei, D. Carola! talvez o mais infeliz!—e abriu as palpebras a umas lagrimasinhas brancas, d'uma humidade crystallina, que rolaram {93} como pequenas perolas sobre os olhos negros, avelludados.

—Ora já viram, a menina a chorar—rompeu a Amelinha Bastos!— eu cá até me ri, podera não! se eu ia por minha vontade—

Mas a D. Carola reflectiu:

—que poucas deixavam de chorar, realmente a cousa bem pensada, não era para menos! mas que não havia nada mais lindo, dando-se bem...

Em baixo os convidados cercavam o Jorge, perguntando pelo Alberto, o noivo. Elle explicava:

—O casamento effectuar-se-hia em Cedofeita, era um pouco do tom, e o Alberto iria dar á Egreja com os seus amigos.

—E os padrinhos, os padrinhos quem eram?

—Da sua Ermelinda era o Mendes e a D. Carola.

—E do Alberto?

—Do Alberto, ah, do Alberto, era o commendador Faria e a senhora do Dr. Roberto Jocy, um amigo d'elle, muito intimos, uma senhora de esmerada educação, pertencente a uma familia ingleza.

A noiva desceu emfim.

Os homens olhavam-a com uma grande sensualidade hypocrita; trocavam-se sorrisos velhacos e ditos apimentados, que Paulo de Kock não despresaria. Tomaram logar nos trens. A D. Carola foi com Ermelinda, o Jorge ia com o Mendes. O cortejo principiou a desfilar em direcção a Cedofeita.

Lá estava o Alberto, o commendador Faria, um pouco pallido talvez e o Dr. Roberto Jocy, um{94} rapaz moreno, de physionomia insinuante e sympatica, a senhora, um typo esguio, de ingleza magra, com uma pronuncia incorrecta; e o Juca Mendes, o Alfredo Costa, o Luiz Serra, o Carvalhinho e outros ainda, companheiros da pandega, uns crevés perfumados; de penteados divididos em dous hemispherios, muito luzentes, os pequenos bigodes retorcidos. Conversavam nos claustros.

—Um poucochito magra, ein,—rapazes.

—Havia de engordar com as delicias do matrimonio—

—Respeito á moral da burguezia, meus caros D. Juans.

—Que estupida asneira fez o Alberto!

Foram entrando no templo; alinhando-se; o sachristão, com a sua batinha vermelha, d'um tom sanguineo, de carrasco, ia distribuindo brandões accesos, aos homens, ás senhoras, como se os preparasse para um sacrificio murtuario, de festas funebres. O povo entrava, collocando-se ao fundo, na penumbra escura do guardavento. Um cheiro de cera derretida se espalhava no ar e vozes ciciavam em commentarios de má lingua, de sensualidade rutilante. Por fim os padrinhos e noivos sahiram da sachristia, e os dous proximos um do outro, com um sorriso promettedor de felicidades nubentes, caminharam entre as alas dos convidados, até ao arco-cruzeiro, onde o padre, paramentado, com um livro d'orações na mão, os esperava, com um latim já velho auctorisador de caricias para mysticamente os unir n'um laço{95} eterno, indissoluvel, que nunca mais podesse desatar-se.

O padre enlaçou-lhes as mãos e ao pronunciar o «Ego vos conjugo» Ermelinda sentiu a face orvalhada, as lagrimas convencionaes da noiva romantica, que o Alberto recebeu com um sorriso leve, finamente desenhado nos seus labios vermelhos. O commendador Faria, sentia-se mal; bagas de suor frio lhe porejavam a fronte e o seu lenço de fina bretanha roçava-se sobre a pelle humida, absorvente, como uma esponja; um pensamento importuno, que se não sacode facilmente, penetrava-o com grande desespero seu.

—Mas que me importa ella a mim?—perguntava a si proprio—e insensivelmente os seus olhos cravavam-se em Ermelinda, toda formosa no seu vestido branco, um bello ar de virgindade pudica, como as esposas do Senhor nos dias de noviciado.

—mas, que raiva esta!... Ora, ora!...

E desviava os olhos, terminando em fitar um S. Miguel doirado, domando bellicosamente o velho Lucifer, d'uma cara angulosa, que o olhava, o pescoço torto, com um grande ar sarcastico.

—Podia ser minha, mas não é, acabou-se!... E desviava o pensamento para objectos communs, negocios que o interessassem, passeios que tinha destinado fazer; mas como um pendulo que se move em volta do mesmo centro, a ideia voltava tenaz ao mesmo assumpto, suppliciando-o, amargurando-lhe aquelles momentos, em que desejaria ter a mais santa tranquillidade.

Só a D. Clementina adivinhava talvez, no seu{96} ciume de solteirona, o que se passava na alma do commendador.

—Ah, mas era bem feito, não estava ella ali que se morria por elle... e agora, que felicidade... ficaria só no campo... Ermelinda era d'outro.—

A ceremonia terminou finalmente. Todos tratavam de a abraçar, cumprimentando, com uma chuva de felicitações.

Depois do casamento os noivos iriam para Braga, passar a lua de mel no Bom-Jesus.

—Era moda—dizia-se—havia tom n'este voejar de pombos livres para a solidão tranquilla das florestas.

Ermelinda foi a casa mudar de vestido e o sequito esperando-a, acompanhou-os até Campanhã, enchendo a gare.

Muitos abraços trocados, mas a machina silvou, um grande silvo agudo, vibrante como um gemido soluçado. Ermelinda teve até um pequenino susto.

—Credo, não esperava agora por aquillo.—

Mas era tempo; entraram no wagon, a locomotiva arrastava-se lenta, com um vagar preguiçoso, de quem sabe ser uma boa locomotiva portugueza. Os adeuses cruzavam-se no ar, frementes de saudade, gloriosos, muito alegres. Os convidados retiraram-se.

O Luiz Serra, um poetastro noviço, dizia para o Dr. Roberto, em cujo trem regressava para a cidade:

—Gosto d'isto, tem poesia, Dr.—{97}

—Escreva-lhe uns versos—respondeu ironicamente o joven medico.

—E vou escrever, a inspiração está ainda muito recente, muito viva! Um casal de pombos, que se unem, n'uma união mystica, recamada de perfumes, acompanhada dos canticos religiosos, e depois o esvoaçar livre, no grande espaço, até irem poisar na floresta densa, onde ensaiam a tentativa do primeiro ninho,—n'um idylio palpitante d'amor.

—Melhor o ensaiassem em casa.—

—Oh! Dr., isso é fossil!

—É por isso mesmo que na epocha de hoje deve ter um grande valor!

—Deve confessar que uma lua de mel passada dentro de casa é a maior sensaboria, que os nossos bons burguezes podiam inventar; falta o amor, o idylio, a ventura, a felicidade dos primeiros dias de noivado! Eu cá por mim protesto contra esse erro de chronologia, de lesa-elegancia, de lesa-poesia.—

—Que de lesões ahi não vão, santo Deus,—ora oiça-me, Luiz Serra.—Tudo o que o Sr. pensa a proposito d'esse primeiro periodo de noivado, não passa d'um bolo coberto de assucar lyrico, deixe-me exprimir assim. Que vantagem póde ter essa iniciação mentirosa na felicidade do casal, não me dirá? E depois attenda; a lua de mel é um cyclo que devia deixar de existir no casamento; o bom senso e a boa educação protestam contra ella! Ou a lua de mel deve exprimir a synthese da felicidade e essa deve durar sempre, não póde limitar-se a uns bons dias apenas,{98} ou ella exprime sómente uma convenção idylica entre os noivos e é isto o germen de futuras questões, de dissidencias graves, que terminam muitas vezes no adulterio, no divorcio.—Que faz o Alberto em ir com a Ermelinda pipillar idylios nas carvalheiras do Bom-Jesus?

—Mas amam-se, asseguram a sua felicidade.

—É exactamente o contrario do que o meu amigo pensa; por que não iriam antes sensatamente para sua casa perfumar com as primeiras alegrias de noivos o quarto, onde teem sempre de dormir, a saleta do trabalho, onde viverão juntos, o jardimsinho que os distrahirá nas horas de aborrecimento?

—Florian dentro de casa, Dr.—

—Ou Florian nos bosques do Bom-Jesus! Ora diga-me; que recordação podem ligar os dous a esse leito de hospedaria, onde se tem deitado um casal de noivos por semana, convencionalmente e só para obedecer a uma imposição do chic? Com que alegrias podem elles revestir depois o seu quarto, a sua casa, quando se recolherem quebrados já da vertigem voluptuosa, com os primeiros defeitos mutuamente reconhecidos, murchas as flores santas da illusão? Pois não lhe parece que a lua de mel deve ser uma iniciação augusta, com que se cimente o bem estar do lar, longe de ser uma iniciação mentirosa, com que se encobrem os primeiros defeitos e se envenenam os pacificos dias do futuro?

N'este momento o trem parava em frente do escriptorio do medico. Luiz Serra despediu-se:

—Discutiremos ainda, doutor, a sua doutrina{99} tem um realismo, capaz de estancar a mais copiosa fonte de lyrismo.—

—Se ella foi secante, deve confessar.

Riram-se; a esposa do medico apertou-lhe docemente a mão.

—Não auguro bem d'este casamento Roberto.

—Nem eu—concordou, encolhendo os hombros—deixal-os lá— educação, educação—e o Dr. aspirou tranquillamente o seu charuto, expellindo um fumo claro, que subiu em pequeninos rolos.

Mas o Luiz Serra precisava affirmar em publico a sua sympathia pelos noivos e as incorrecções do seu estylo, e por isso nos jornaes do dia immediato as iniciaes L. S. declaravam ao mundo:

—que se tinham unido pelos sagrados laços do matrimonio os Ex.mos Srs. Alberto de Sá, um dos cavalheiros mais distinctos da nossa sociedade elegante e D. Ermelinda Jorge a formosa filha do director do Banco Commercial,—que os noivos tinham sido acompanhados á gare do Caminho de ferro por um numeroso sequito e arrastado na aza vertiginosa do comboyo, iriam passar a lua de mel na floresta do Bom-Jesus—

que elle lhes desejava o mais auspicioso futuro, uma lua de mel perenne, de que seriam fiadoras as qualidades distinctas dos nubentes—e terminava por

um parabem enthusiasta.—{100}

 

A payzagem tinha as macias tintas melancholicas do Outono, arvores que se desfolhavam saudosas da sua côr esmeralda, olivaes escuros, enfileirados ao longe como soldados obedientes d'um batalhão em marcha; as casarias das aldeias, docemente esbatidas por uma luz crepuscular, desappareciam, deixando no espirito, sensações ternas de idylios perfumados. Os regatos, como cobras azuladas, enroscavam-se no verde das campinas, em beijos limpidos de fecundidade luminosa; os montes escalvados desfilavam ao longe n'uma fluctuação duvidosa de luz e os pinheiraes, como pelotões de gigantes, formados á beira da estrada, animavam-se, movendo-se n'uma illusão d'optica que se impõe quando marchamos n'um movimento rapido. O comboyo tinha umas oscillações cortantes, barulhosas, de ruidos de molas abafadas, e os rails, duas fitas indefinidas que se desenrolavam diante d'elle, desappareciam n'um recolher rapido, apressado, de trou-trou, incansavel.

Alberto e Ermelinda iam n'uma mesma janella, hombros chegados, mãos enlaçadas na cintura, embevecidos no pantheismo bucolico d'aquelle diorama que lhes fugia diante dos olhos.

—Como isto é lindo—dizia ella—eu gosto muito do campo.—

—É poetico...

—Olha aquella casinha, não vês... toda enfofada em verduras.—

—Havemos de arranjar uma assim; é bonito é chic vir passar um mez na nossa casinha de campo.—{101}

—Ah, como tu és bom!...—e recolhia-se um pouco para dentro, a imaginação debruada de phantasias coloristas, cofiando-lhe o queixo, muito de leve, mansa e insinuante, offerecendo-lhe o rosto, em que elle depunha um beijo amoravel, muito demorado. Sentaram-se um ao lado do outro, começaram a brincar, umas pancadinhas furtivas, d'uma graça infantil a que ella fazia uma moue de ingenua, muito adoravel, de pequenina gata.

E depois enroscando-lhe o pescoço com um grande impeto d'amor agradecido:

—Ainda me parece um sonho, Alberto.—

—É verdade, ainda me parece um sonho.—

E estreitava-a, arqueando-lhe a cintura na curva dos seus braços, beijando-a doidamente, voluptuosamente, fustigando-a de excitações nervosas. Ermelinda deixava-se amollentar no avelludado quente d'aquellas caricias, que nunca conhecera.

—Ah, como era bom ser assim amada—dizia, toda offegante, a respiração curta; muito quebrada por sensações incoherentes, d'uma delicia indefinida; e ameigando-o, muito carinhosa:

—Tu és o meu maridinho, ora não és?—

—Se sou!—e segurava-a com vigor, apertando-a muito contra o peito, n'uma sollicitação sedenta de namorado, communicando-lhe um tremor convulso, entre voluptuoso e dolorido, que a perturbava de fortes commoções.

Anoitecia; tinha-se passado Nine; principiava a lucillação do luar, n'um tremulo vago, a palpitar amorosamente por sobre as cumieiras da{102} serra, que escureciam na grande paz dormente; as arvores tornavam-se indistinctas massas confusas, fluctuantes, n'aquelle arfar constante do comboyo; umas bafagens quentes penetrando pelas janellas, passavam de quando em quando indo affagal-os n'um enlanguescimento morno.

Os beijos d'Alberto tinham um calor penetrante e Ermelinda, entre os seus joelhos, o cerebro atordoado, deixando-se cahir n'um affrouxamento languido, a voz ciciando um queixume:

—Alberto!...—

A locomotiva silvou; avistava-se Braga, com as suas luzes encravadas como pequenos pyrilampos na massa vultuosa da cidade.

Um quarto de hora depois estavam no hotel.

—Ainda n'aquella noite iriam para o Bom-Jesus; que lindo! subir a montanha á luz candida da lua, elles, agora tão felizes, tão amiguinhos um do outro—dizia Ermelinda.

—E se nós fossemos ámanhã?—ponderou Alberto.

—Ámanhã, ora, que tolice!—replicou enfastiada.

—Tolice, não; ia-se mais descançado.—

—Olha a grande fadiga,—respondeu com uma nevoasinha de colera—que semsaboria ficar em Braga!...—e amimando-o, a mãosinha no rosto,

—Havemos de ir hoje, sim?—

—Vamos la, és uma feiticeira!...

—E depois, que lindeza ámanhã, quando acordarmos, ouvirmos o gorgear dos rouxinoes na sombra fresca das carvalheiras!

—Romantica!{103}

—E tu não o és tambem! Não amas como eu esses espectaculos da natureza!... e depois quando se é noivo!...

—Tens razão; seria uma tolice ficar em Braga.—

Mas no fundo, bem no fundo do pensamento de cada um, a desillusão entre-abria-se, como uma flor venenosa que tem nas finas particulas aromaticas a corrupção futura do ar que embalsama. Na imaginação d'Ermelinda, Alberto cahira no prosaismo das commodidades triviaes,—um materialão, ora vejam lá, e eu que o julgava uma alma apaixonada, radiosa de luz, de poesia d'amor... e fiava que o futuro lhe descobriria ainda mais em relevo esses defeitos,—que elle não saberia ter as delicadezas subtis, de que toda a mulher se quer vêr rodeada, como n'uma onda de finissimo arminho,—que seria talvez grosseiro, conhecera-o na ruga animada da sobrancelha, quando lhe contrariou o seu desejo de irem n'aquella mesma noite para o Bom-Jesus.—

Mas olhava para elle, era o seu Alberto, o seu maridinho;—ora, que lhe importava tudo isso agora, era noiva, estava na sua lua de mel... e rodeava-o d'uma caricia longa, na ebriedade do seu novo estado.

A seu turno o Alberto pensava:

—Uma romantica, ein!... gostava da mulher que não fosse prosaica, mas parecia-lhe que a sua tinha essas qualidades exageradas, e depois um vidrinho de cheiro, tinha genio, conhecia-se; mas havia de amansar, que remedio!... mas, com os demonios, não era agora occasião de pensar n'isso.—{104}

E beijava-a, no aquecimento febril da sua paixão sensual, ébrio de gozo, como um rapaz estroina que saboreia uma garrafa de champagne, sem se lembrar que tem de pagar depois.

Alugaram um carro, e partiram. A cidade perseguiu-os durante algum tempo com a illuminação dos seus candieiros, as suas casas interiormente illuminadas, as suas tascas, as suas egrejas succedendo-se a curtos espaços, os seus ruidos; mas para logo uma aragem fresca de campo lhes beijou as faces, e o luar, na silenciosa tranquillidade da noite, escorrendo como um banho de neve por sobre a fluctuação indistincta da payzagem, envolvia-os suavemente, como n'um manto opalino, tecido por mãos feericas.

O carro ia devagar, subindo sempre, n'um zig-zag monotono; as grandes arvores velavam-lhe por vezes a lua, que logo reapparecia n'um vacillar tremulo, d'uma limpidez crystallina. Chegaram ao hotel. O criado appareceu, e logo o cocheiro, um poucochinho confidencial:

—Trata-me bem d'esses dous pombinhos.—