A Divorciada
Capítulo XII
Ermelinda sentia-se agitada por uma forte impressionabilidade; amedrontava-a o receio d'uma maternidade dolorosa, consultava o medico amiudadas vezes, tomava conselhos com senhoras cazadas suas conhecidas.
—Quem lhe dera já ver-se livre d'aquelle perigo—dizia—e ia entretanto occupando o pensamento com o enxoval do seu bebé, um enxoval rico, umas rendas finas a enfeitarem as camisinhas, as pequeninas saias, os vestidinhos de passeio.{160} A Joaquina aconselhava com o bom senso pratico das filhas do povo—
—que era preciso tratar das envoltas, das flanellas, de cousas que agasalhassem e trouxessem a creança sempre fresca,—
—Tu sabes lá o que dizes!...
—Pois a senhora verá... para que lhe servem os bonitinhos.—
Mas os bonitinhos encantavam a imaginação da futura mãe; via a sua filhinha,—havia de ser uma menina—toda aceiada no collo da ama, uma capa branca de fustão cobrindo-a toda n'uma ondulação macia, a touca de rendas circumdando, como uma auréola, o seu pequenino rosto de cherubim, d'um côr de rosa pennugento;
—passearia com ella no Palacio á hora da musica, nos formosos dias de primavera que vinham a despontar, quando o sol, como um bohemio alegre, fatigado do ar soturno do inverno, se rebolasse a sorrir na limpida atmosphera azul.
—por-lhe-ia o nome de Rosina, um nome poetico, celebrado nos romances, uma heroina por quem se inflammara no capitoso aroma da paixão o coração do conde de Almaviva.
—E a sua Rosina, seria linda, não admittia a possibilidade d'ella ser feia... nem mesmo tinha a quem sahir—accrescentava n'um confronto vaidoso da sua e da plastica do Alberto.—
Via-a depois com a gracil formosura dos oito annos, vindo toda ladina do collegio, já uma senhora feita nos ditos espirituosos, uma precocidade nubil de namoros, e entrando mais tarde nos bailes, invejada como ella o fôra, requestada{161} pelos mais elegantes, chegando a causar delirio na impetuosidade das walsas.—
A despertal-a d'estes embevecimentos a natureza annunciava a approximação da crise por vagas dores contrativas, e toda ella se recolhia n'um receio pueril, com panico de morrer, a imaginação a figurar-lhe casos muito funestos.
—Não, que não era nenhuma brincadeira—e consultava a Joaquina, tornara-se até mais amoravel para com ella, exigia a presença do pae, do Alberto, do Doutor.—
Riam-se muito, consolando-a, esforçando-se por lhe communicar uma alegria desafogada.
—Nem que estivessem agora todos os perigos reservados para ti. —
—Pois sim, tambem não dizia isso, mas só Deus sabia.—
O Alberto não comprehendia aquellas flebeis impressionabilidades de espirito doente.
—Isso era nervoso—dizia n'uma formula generica, que para elle abrangia todos os casos—e recordava-se de que a Annita andara a pé quasi até ao fim, que nunca tivera aquellas exquisitices, a Magdalena viera na occasião e as duas, lá no quarto, tinham-se arranjado dentro de meia hora.—Aborreciam-lhe aquellas pieguices, aquellas puerilidades, um enfado por todas aquellas exigencias d'ella, dando-lhe mesmo vontade de romper abruptamente—
mas soffreava as suas manifestações de irritação, era preciso contemporisar,
—o diabo ás vezes tecia-as—o Doutor recommendara tranquilidade d'espirito, a coisa era por{162} pouco tempo, deixar correr, não queria responsabilidades.—
A crise dolorosa manifestou-se; foram chamar a parteira, a D. Anna Cardoso, uma loirita baixa, que tinha residencia no hospital e que o Dr. Roberto indicara como muito habil.
—que se não affligisse, o parto promettia ser bom,—e fallava baixinho á Joaquina, fazendo certas recommendações.
Ermelinda contorcia-se, uns gemidos entrecortados, o rosto a empallidecer.
—Então, um bocadinho d'animo, descançasse um poucochinho— e deslisava a mão por baixo da roupa, n'um auxilio de contracções provocadas.
A Joaquina tinha perdido a sua placidez apathica, andava aparvalhada, nunca imaginara que a Ermelinda podesse assim soffrer. Curvava-se sobre o leito, um carinho de mãe,
—Não ha-de ter perigo, Nossa Senhora do Bom-successo lhe valha, já lhe prometti duas velinhas de quarta.—
Ermelinda continuava a gemer, um contrahir doloroso, as mãos segurando-se na cabeceira do leito, retesando-se, com grande violencia muscular.
A parteira annunciou o termo, curvou-se mais sobre o leito, e um vagido de creança, d'um timbre inimitavel, fez-se ouvir.
Ermelinda tinha ficado n'uma prostração apathica, syncopal.
O Doutor entrou, recommendou socego, fez-lhe engulir uma colher de vinho generoso. Despertou lentamente,{163}
—Então!?—perguntou—mas vendo o medico junto de si, sentiu-se confusa, um pejo do seu estado.
A Joaquina disse logo
—Uma menina, D. Ermelindinha, uma menina.—
—Oh, uma menina, tragam-m'a, quero vel-a.—
O Doutor sahiu.
Fóra o Alberto passeava lentamente; o Jorge sentara-se, os cotovellos fincados sobre uma meza.
—Não ha perigo; está a cousa prompta; foi muito feliz até, vamos lá, por ser a primeira vez... parabens—e o medico accendeu um charuto.—
Vou ainda para o escriptorio, ate ás quatro, se fôr necessario mandem dizer; a parteira é de confiança...
O Jorge alvoroçou d'uma alegria intima; parecia-lhe até que não sentira tanta, quando ha vinte e seis annos, lhe annunciaram a existencia d'aquella que agora o fazia avô.
—Um baptisado de pompa, ein!—
—Está dito—concordou Alberto.
Elle, por si, não sentira accelerar-se muito a sua emotividade, confrontava o caso um pouco analogo com o da Annita,
—era até um encargo que a gente tomava—e de mais a mais uma menina;—não via demasiado motivo para os parabens do Roberto.—
Mas apesar d'isto aquelle corpo pequenino, brando como uma gelatina, d'uma leveza de passaro, impressionava-o d'alguma fórma, parecia-lhe{164} uma como integração do seu ser, de que só agora conhecia a falta, e alguma cousa o agitava extraordinariamente, fazendo-lhe borbulhar dentro da alma uma sensação nova de carinho, como o rebentar inesperado d'um jacto d'aguas gazozas, que rompe a crusta da terra n'um determinado ponto. A emoção affectiva abria brecha na sua sensibilidade gasta pelos prazeres e pelo cynismo; dominava-se comtudo.
—Não lhe faltava mais nada que tornar-se piegas á ultima hora—
e accendia um charuto para distrahir de sobre si aquella ideia nova, que o envolvia como uma nuvem perfumada, de subtis aromas.
Ermelinda foi-se pouco a pouco restabelecendo. Procurou-se uma ama
—achava estupido estar agora a alimentar a creança—dizia Alberto—isso era bom para a gente do povo.
Ermelinda concordava—
—era realmente assim; fanava-se a belleza d'uma senhora, e depois uma creança tinha tantas impertinencias, seria sempre um empecilho, um estorvo a qualquer distracção.—
O Dr. Roberto contestou-lhe
—que era o melhor o leite da mãe, que muitas vezes se deterioravam aquelles organismos debeis com a alimentação d'uma mulher mercenaria.—
—Não, isso não, doutor; eu mesmo sou fraca,{165} escolhe-se uma ama robusta, o papá escreve para a Maia, assim não tem duvida.—
—Como V. Ex.ª quizer...—
A ama veio, uma aldeã vigorosa, muito palradeira,
—que tivera até de passar o filho d'ella pela roda só para servir o Snr. Jorge,—e então a menina, benzesse-a Deus, havia de ser uma latagona; nem a senhora a podia crear; o que ella precisava era leite, leite de sustancia—
e offerecia aos beiços da pequerrucha um seio farto, d'uma dilatação espapada de multipara.
Ermelinda deleitava-se em ver a sua pequenina a babujar n'aquelle peito que não tinha a brancura assetinada do seu,
—mas deixal-o, o que ella quer é leitinho—
e beijava-a depois, os seus finos dedos, com aneis de cobra, acariciando a face vermelha e enrugada da creança.
Sentia-se mais alegre, mais gracil no seu novo papel de mãe; a febre do leite dando-lhe uma ternura entre voluptuosa e morbida, que lhe aquecia o sangue ainda depauperado. Exigia muito o Alberto junto de si, rodeava-o com caricias, impunha-se e offerecia-se, uma doudice de creança, as vibrações nervosas d'uma impressionabilidade doentia.
—Elle porém não estava para a aturar,—até ali contemporisara; mas era de mais!... enfadavam-o já aquellas momices!... E depois a nostalgia da reclusão, do banco para casa, de casa para o banco e isto por causa d'ella, para a{166} não perturbar no seu estado grave! Mas isso acabara—
e repulsava-a com desabrimento, a sobrancelha sempre enrugada, um tédio por aquelle regimen de prisão cellular, um aborrecimento de ser cazado, a imaginação dourando-lhe os quadros da sua vida livre e licenciosa de rapaz.
Ermelinda pesava-lhe como um despotismo absoluto, um obstaculo invencivel ás suas aspirações de liberdade, á sua independencia pessoal; e d'ahi as revoltas repetidas contra aquelle jugo, questiunculas que os separavam, uma acrimonia em todos os actos que exigiam convergencia de reciprocidades.
Supportavam-se apenas; disputas incessantes se levantavam e aquella paz octaviana que durara pelo espaço do período grave d'Ermelinda, rompia-se agora a cada momento, em discordias muito tempo soffreadas, com uma effervescencia azeda, que depositava uma bilis odiosa no coração de cada um—
—mas era um viver infernal—dizia ella a cada momento,—
—É ir tendo paciencia, filha, nem tudo são rosas na vida de cazados—aconselhava o Jorge.
Porém aquelles queixumes d'Ermelinda amarguravam-o, ralavam-o d'uma mortificação cruciante; sentia-se cada vez mais adoentado, os embaraços pecuniarios cercavam-o, o vigor physico fallecia, e ainda por cima a filha, o seu idolo de fetiche, soffria d'um soffrimento irremediavel—
Lembrou-lhe o divorcio, chegou mesmo a fallar-lhe n'isso{167}
—mas era um escandalo, uma vergonha, fosse vendo se o levava por bons modos.—
Ermelinda tentou reconciliar-se; chegou mesmo a dar-se uns ares de martyr resignada, mas o Alberto
—achava estupido que lhe distribuissem o papel de tyranno de comedia—tinha phrases irritantes, d'uma grosseria mal educada, que a pungiam na sua delicadeza.—
Concordavam apenas n'uma tregua de harmonia, quando tinham de sahir juntos, alguma visita, um ou outro passeio, qualquer pequena soirée familiar... Ahi mesmo porém Ermelinda lacrimava-se com as suas intimas, aconselhava as solteiras a que não cazassem, —havia muitos espinhos que só a experiencia revelava.
E deposta a mascara com que se tinham afivellado para apparecer ao publico, a tregua rompia-se, um motivo futil os irritava, cada um querendo a superioridade da sua opinião, distanciando-se n'uma separação odiosa, enojados de se verem, de terem de se corresponder a cada momento.
Ermelinda principiou assim a ter uma aversão da toilette, do aceio; deixava-se ficar todo o dia com o penteador encardido da gordura dos cabellos, um desleixo de si, uma preguiça sentimental occupada em se lastimar.
—Não que valia a pena, realmente, estar a enfeitar-se para o senhor seu marido! nunca ella o tivera conhecido—
—e tambem era só para lhe fazer a raiva; só{168} porque elle gostava de luxo, é que ella se não vestiria.—
O Alberto ás vezes sentia ainda desejos de reconciliação; a natureza impulsionava-o, uns fermentos da paixão, que o tinha attrahido para a formosura de Ermelinda, levedavam no seu coração d'homem, tornando-o bom, momentaneamente acaroavel. Vinha de fóra com tenções conciliativas,
—dar-lhe-ia um beijo, recordaria com ella as venturas formosas do passado—combinaria planos sobre o futuro da pequena—
mas via-a desleixada, ainda com a roupa da manhã, bocejando de tédio, desabafando n'um mau humor de contrariada com a sua presença.
Enojava-o aquillo;—
—fizera-se porca de mais a mais—e a creança andava mal limpa, a ama só tratava de comer bem e de dormir, deixando-a n'uma immundicie revoltante, os olhos remelados, o babeirito sujo.
—Era impossivel! não estava para se encommodar,—a mãe que olhasse por ella, se quizesse—
E comia, n'um mutismo obstinado, uma ou outra palavra rapidamente proferida, levantava-se ao dessert sahia logo, ia tomar o seu café no Suisso.—
—Vê, papai, é isto e eu que o ature! não... tambem já é de mais... agora só lá para as duas da noite.
e vinha para o quarto lastimar-se, arremeçava-se sobre o leito, a cabeça occulta no travesseiro, lagrimas a desfiarem n'uma torrente impetuosa,{169} levantando-se com os olhos injectados, muito abatida e quebrada.
O Jorge, o cotovello sobre a meza, com um ar de compassividade, via-a sahir abruptamente.
—Quem o havia de dizer, Joaquina.
—Eu sempre o prophetisei; aquella cara nunca me enganou; e sabe que mais? o remedio é cada um para seu lado; olha agora o pandilha! a menina assim cae ahi doente e depois o verás...
—Mas que vergonha, que vergonha!
Todas estas sensações desagradaveis se infiltravam no seu espirito, desmoronando-lhe a firmeza e claridade, como as aguas salitrosas que arruinam um bello edificio. Fallava pouco, um esquecimento de si mesmo em meditações prolongadas, a fixação d'uma ideia a absorver-lhe toda a actividade do pensamento. Os seus padecimentos aggravaram-se, tomava muitos remedios depauperando-se com dietas obrigadas; apparecia um achaque pelo mais ligeiro motivo, a cabeça que tinha dores nevralgicas, o estomago que depunha os alimentos quando a Joaquina apresentava um prato novo, o figado que se opilava á mais leve indisposição.
Andava hypocondriaco, tinha distracções imperdoaveis, os empregados do banco chegavam a ter por elle um sorriso de commiseração, quando o viam errar a mais simples conta de sommar.
O commendador chegou mesmo a provocal-o a uma confidencia,
—Anda tão abatido o amigo Jorge!
—Vai-se andando, vai-se andando.{170}
—Trate de si, homem.
—Um pouco adoentado, realmente um pouco adoentado.
—Vão-se os anneis e fiquem os dedos, você me entende, hein... quem cá ficar que se arranje...
No espirito do Jorge esta phrase cahiu como uma gotta de metal em fusão.
—Quem cá ficar... ah, sim, ficava ella, se elle lhe faltasse de um momento para o outro... e sem amparo a pobre da rapariga, de mais a mais com a pequerrucha... n'elle nem queria pensar... estavam servidas as pobresinhas... ainda se lhes podesse deixar muito... mas as cousas estavam tão mal, os primeiros passos errados haviam sido como um meandro, que o envolvera... agora sim, era ver se lhe podia salvar algum bocadito... mas para isso só a separação de pessoa e bens... uma vergonha, Jesus, o que lhe estava reservado para o fim da vida.
Alheava-se n'estas considerações, um olhar espantado, d'uma tranquilidade triste, quando via a Ermelinda curvando-se sobre o berço da filha, fazendo umas festasinhas chilreadas á creança.
E a verdade é, que aquella familia se não desagregara talvez desde muito, porque tinha em Jorge um laço de cohesão, uma como columna a sustentar a estabilidade do edificio. Elle conheci-o; o Alberto respeitava-o um pouco, o seu interesse egoista a isso o obrigava,
—Mas se eu falto, se eu falto, que ha de ser de tudo isto?—
Esta ideia atravessava-o com uma tenacidade{171} impertinente de verruma; impunha-se-lhe a todos os pensamentos, pesava sobre elle como uma grande avalanche precipitando-se no declive d'uma serra.
Era necessario tomar uma resolução definitiva:—não, assim aquillo não tinha geito.—
O Alberto não se emendava; sacudia com hypocrisia o jugo despotico da casa, ia conquistando pouco a pouco a sua liberdade sacrificada. Uma noute por outra não apparecia; e depois, quando no dia seguinte Ermelinda, com uma ejaculação represada de bilis, abria o capitulo das recriminações, elle ao sentir-se culpado, tomava uma attitude acriminosa, abafava com a sua voz trovejante as queixas d'ella, revestia-se d'uma pose sarcastica, a palavra secca de ironias,—se tinha medo a menina havia de comprar um cãosinho. —
E não conseguiam reconciliar-se, obstinadamente mudos um para com o outro, olhando-se odiosamente durante dous ou tres dias até que uma futilidade qualquer os ia abonançando, supportando-se então, a paz calma dos vulcões suspensos.—
Mas as hostilidades abriam-se por um motivo ligeiro; questinculas pequenas surgiam, contradicções oppondo-se teimosas, mutuamente.
—É o cão e o gato—dizia a Joaquina ao vel-os de novo n'uma discussão quasi sempre futil.—
Havia já despedido a ama. A creança principiava já a balbuciar as primeiras palavras, as suas pernitas roliças tinham as hesitações dos primeiros movimentos; o Jorge sentia dilatar-se d'um{172} amor paternal ao ver a pequerrucha trepando-lhe pelas pernas, n'uma tenacidade em vencer aquellas columnas que se lhe afiguravam collossaes.
—Olha o diabrete, não chegas cá, ainda tens muito pão para comer.
A Rosina não desanimava porém, estendia o bracinho curto, queria apanhar-lhe a Suissa que voejava por sobre o collarinho, balbuciando a palavra—Avô,—chamando-o com imperio, querendo subjugal-o ao capricho da sua pequenina vontade.
Entrava n'esse periodo gracil da infancia, em que os mais indifferentes abrem um sorriso ás suas irriquietas travessuras, aos lampejos vibrantes das suas phantasias de baby.
Ermelinda approximava-se d'ella mais; exhultava porque tivesse passado esse longo estadio de trabalhos e canceiras obscuras, e habituava-se agora a vel-a como um pequeno figurino trajando o costume da sua phantasia, uma boneca que ella tinha de enfeitar pondo n'isso toda a sua vaidade de mulher e de mãe. O Alberto mesmo demorava-se um pouco mais depois do jantar, a carne feliz d'uma boa digestão, alegrando-se de ouvir chilrear aquelle passarinho as notas phantasiosas d'umas mentiras imaginaveis.
—Diabo da pequerrucha era mesmo um encanto—e como ella inventava umas historias sem pés nem cabeça.—
A Rosina parecia pois pouco a pouco ir estabelecendo a harmonia entre os dous; esqueciam-se de si, a attenção convergindo para a filha, surprehendendo-se até de se verem agora tão amaveis,{173} admirados de que houvessem adormecido aquellas disputas incessantes que até ahi os divorciavam em recriminações asperas e molestas.
Mas este periodo não se prolongou muito. O Alberto uma noite entrou tarde; por acaso o Jorge tinha-se encontrado mal. Ermelinda estava ainda a pé; e quando o viu chegar, uma esfusiada de ironias a atacou.
—Bonito, não tinha duvida! Tres horas da manhã!... em casa tudo tinha andado em afflições, e o estroina lá por fóra... nas orgias... um bello comportamento de homem casado... o pae doente, tão mal, sem haver quem fosse chamar um medico... realmente...
Encolheu os hombros, friamente, resistindo na armadura d'uma indifferença fingida áquelle assalto de palavras irritantes.
Mas ella continuou, um phrenesi insaciado:
—Isto só no inferno, só a minha paciencia! Mas é de mais, todas as cousas teem um termo.—
—Pois é procural-o—respondeu bruscamente.
—Olé se hei-de, pois que pensava o meu menino!...—
E cantava ironicamente o diminutivo, o corpo saracoteando n'um movimento de rotação, uma attitude de escarneo provocante.
O Alberto avançou para ella, apertou-lhe os pulsos violentamente, os olhos injectados d'uma colera animal.
—Tu não penses que brincas comigo! e sacudiu-a fortemente, com uma rudesa aspera.—
Ermelinda encarou n'elle com um olhar profundo de desprezo e de colera por se sentir fraca;{174} e depois o corpo enteiriçando-se, muito pallida, a voz com um timbre imperativo:
—Deixe-me, senhor.—
O Alberto largou-a, sahiu do quarto impetuosamente, os seus passos ouviam-se sonoramente no corredor emquanto ella atirando-se sobre o pequeno leito de Rosina.
—Oh, minha filha, como ambas fomos infelizes.—