A Divorciada
Capítulo IV
Ainda n'aquella noute o Alberto deixára de apparecer. No dia immediato era Domingo.
Os moveis quietos, n'uma ordem respeitavel, com uma seriedade burocratica, esperavam as visitas; tudo arrumado, polido, com grandes vaidades de limpesa. Tinham-se renovado as flores das jarras, de vidro fosco, com uns ramos de rosas pintadas no seu ventre bojudo; nem uma cadeira fóra do seu logar, nem um jornal sobre a jardiniere, toda aceiada com o seu panno de largas bordaduras, nem uma musica aberta sobre{50} o piano, nem uma planta que se não houvesse regado, nem um album que não estivesse cuidadosamente fechado; uma falta emfim d'essa desordem adoravel, immensamente artistica, que prende o espirito ao ambiente salutar e alegre da sala de trabalho.
Dentro, nos quartos, a contrastar com essa monotonia aceiada para os que vem de fóra, sem descalçar as luvas, analysar os nossos albuns e criticar os nossos moveis, uma desordem perturbadora, preguiçosa, reles, cortada pelo cheiro ammoniacal de roupa suja, espalhada no chão, sobre as cadeiras, n'um monte desordenado. A commoda d'Ermelinda, com as suas gavetas abertas, ostentava brancuras de saias, de penteadores, de camisinhas, e umas pequenas caixas de cartão, com estampas lithografadas, d'onde sahiam perfumes e folhas seccas, aromaticas. O cofresinho das joias abria-se indiscreto patenteando objectos d'ouro com finas perolas, brilhantes miudos, como olhares luminosos que pareciam espreitar da mollesa macia do setim azul.
Ermelinda toda opprimida no seu vestido de foulard cinzento, a manga um pouco larga, tomou uma manilha estreita e com um vagar indolente, embevecendo-se na penugem negra do seu braço, enrolou-a, correndo-a por sobre a carne, ao arrepio, até onde pôde seguir o arco da pulseira. Depois, ao calçar as luvas, ais abafados lhe sahiam do peito, suspirosos, como se reflectissem ainda as vibrações d'aquella crise nervosa, porque a sua alma houvera passado nos dias ultimos.
Mas o Jorge, que passeava lentamente na sala,{51} ainda com o palito ao canto da boca, esquecido, com a meditação suspensa de calculos financeiros, de cotações da Bolsa, o fato endomingado, a camisa branca sobre que assentava a gravata preta de setim, um pouco impaciente já:
—Então vens d'ahi hoje, menina?
—Já vou, papá, já vou.—
E mais apressada, olhando-se ao espelho uma vez ainda, pregando um novo alfinete no collo do vestido, Ermelinda fechou a porta do quarto, e voltando-se para dentro:
—Prompta.
—Já não era sem tempo! isto de mulheres!—
No portal Ermelinda fazia o apanhado, que rangia n'um frou-frou de fazenda nova; emquanto a Joaquina de cima espreitava para os ver sahir, elles combinavam o passeio, consultavam-se sobre o caminho a seguir.
—Que era melhor ir primeiro á missa—dizia Ermelinda—e depois voltariam pelo jardim, ou iriam ao Palacio.
—Seria como ella dizia—concordava o Jorge.
E os dous, na plenitude vaidosa do luxo de Domingo, tomando apenas os passeios da rua, reverenciando as pessoas conhecidas, com um ar todo festival, de superioridade engrandecida, e de roupa lustrosa, seguiam para a Trindade, para a missa das onze. Homens á porta accumulavam-se vedando o caminho, e em frente, no atrio da Assembleia os dandys do Porto, fallando de cavallos e de jogo, ou contando anedoctas indecentes, estalavam grandes risadas que os faziam contorcer em posições ridiculas, funambulescas, dobrando-se,{52} dando palmadinhas sobre as coxas.
O Alberto estava entre elles, e ao ver passar Ermelinda, toda comprimida no seu vestido, o seu bello olhar profundamente negro, a epiderme morena um pouco empallidecida, exhalando frescura, sentiu um desejo mordente de entrevistas nocturnas, de têtes-à-têtes amorosos, chegados um do outro, a cintura enlaçada, as respirações confundindo-se.
E quando o Jorge passou, cortejando palacianamente os seus amigos, elle notou que Ermelinda, ao havel-o reconhecido, voltara o rosto desdenhosamente, sem que denotasse no olhar sequer uma interrogação, uma queixa, um desespero.
Os outros, que sabiam do namoro, perguntaram curiosamente:
—O que tinha havido, se as relações estavam cortadas?—e ao verem que o Alberto balbuciava, riram estrondosamente, beliscando-lhe o amor proprio.
Um mais intimo acercou-se d'elle:
—Se tinha cahido—perguntou.
—Deixa-me—respondeu bruscamente e partiu na direcção da Egreja, a badine agitada, n'uma convulsão de phrenesi.
—Bravissimo! Romeu feito Tartufo!...—e batiam as palmas, rindo da pilheria, muito contentes da sua imbecilidade enfatuada.
O padre sahia n'este momento da sachristia; um murmurio rumoroso se levantava entre a multidão que ajoelhava; as damas abriam os livros de missa, fazendo rugir estrepitosamente as saias engommadas, os failles novos, emquanto{53} os homens, na seriedade dos seus casacos pretos, amontoando-se a um lado, estendiam lenços brancos, como genuflexorios. Uma luz suave cahia das janellas do côro derramando tons sanguineos, de damascos vermelhos, sobre as senhoras que ficavam n'aquella direcção, emquanto uma penumbra doce envolvia todo o resto. Destacavam dos corredores familias retardatarias; as meninas estouvadinhas, adiante, acommodando-se em passos miudos, como as aves que poisam, fitavam os homens com uma curiosidade muito feminil e cochichavam, reconhecendo alguem.
Houve um prurido devoto quando principiou a missa; os labios moveram-se silenciosamente; os olhos cravaram-se nos livros; as beatas faziam deslisar com avidez as contas untuosas; mas pouco a pouco o narcotismo das coisas monotonas ia-se derramando, causando tedios; bocejos disfarçados escondiam-se por detraz dos lenços brancos e os homens, com uma obstinação sensual, de namoradores vadios, apreciavam os melhores bocados, faziam vistas. Crevés de risca ao meio, muito aromatisados de patchouli, as luvas a estalar, cofiavam os pequeninos bigodes, fazendo signaes; e no fundo escuro das copas dos chapeus, cartas de namoro destacavam, impondo-se ás burguesinhas sentimentaes, que esperavam o aperto da sahida, no portico.
A Ermelinda estava proxima da Adelaide Mendes; o Alberto ficou em frente com o Juca, o sobrinho do brazileiro. Confidenciavam.
—E então a mulher do commendador, conta-me essa historia, menino?—{54}
—Nem lhe falasse em tal! Ridiculo... simplesmente!
—Ah, ah! E o marido?
—Que era o mais santo dos maridos! Uma pomba!... tinha ido com ella para o Bussaco esconder as maguas na verdura dos cedros!...
—Mas apanhou-te!...
—Shoking!... respondeu encolhendo os hombros.
E em quanto o Juca o asseteava de perguntas, muito minucioso, querendo saber tudo, o Alberto olhava devoradoramente Ermelinda, torcendo o bigode, mordendo-o, franzindo o sobre-olho, n'uma attitude de irritação concentrada. Mas ella, muito seria, muito devota, poisando os bellos olhos no livro de missa, fingia não vel-o, entregando-se toda ao amor divino, e gosando com uma beatitude recompensada, a impaciencia que percebia manifestar-se n'elle.
A Adelaide Mendes segredou-lhe ao ouvido:
—Que o Alberto estava com o Juca, se já o tinha visto...
—Que sim, era-lhe indifferente.
—Então andaes arrufados?
—Não, mas... tinham-lhe passado os enthusiasmos.
—E está de luto! quem lhe morreu? sabes?
—Não, que não sabia!—e vesgamente, no estrabismo de quem quer ver sem que os outros dêem por isso, a filha do Jorge observava o Alberto, pondo-se a si mesma o ponto de interrogação d'aquelle vestir lutuoso.
—Se seria algum parente da provincia—pensava—e{55} que elle tivesse de partir sem a poder avisar!... ah, sempre era então desculpavel—e enternecia, amollecendo a asperesa do olhar, quebrando-a no vago fluido dos olhos d'elle, que sentia poisar sobre todo o seu corpo, absorvendo-a.
Mas a campainha do coadjutor principiava a vibrar; corpos se curvaram n'um mysticismo reverente e ouviam-se os peitos echoar no tympanismo das contricções. O padre elevava serenamente a hostia, devagar com uma grande lentidão ceremoniosa! E depois, um silencio demorado, até que a campainha vibrou de novo mais forte, com sonoridade, como que dispensando as attenções; lenços se recolhiam no escuro das algibeiras e os homens tomavam uma pose mais elegante, o tronco direito. A benção desceu e todos, recurvando-se um pouco, se persignaram rapidamente, com desdem, voltando-se, comprimentando ceremoniosos, com a cabeça. O povo começava a evacuar a egreja, n'um ruido de tropel, confusamente, de quem quer sahir primeiro. E as senhoras mais atraz, sorrindo, beijavam-se, fechando os livros. Os conhecidos vinham, comprimentavam.
—Suffocava-se um pouco,—
e lá fóra um sol alegre, primaveral, que brincava atravez do reposteiro, penetrando no templo, na instantaneidade da luz, quando alguem sahia. Grupos se formavam. A Adelaide Mendes, a Ermelinda, a D. Carola, e envolvendo-as como n'uma circumferencia de respeito, o Juca de chapeu na mão abanando-se, com a desenvoltura{56} d'um frequentador do Circo, o Jorge todo grave, um sorriso a escoar-se dos labios escanhoados para as suissas grisalhas, nitidamente penteadas, e o Alberto, n'uma pose melancholica, o chapeu sobre o quadril, todo de preto, com uns grandes ares romanticos e tristes.
O Jorge por uma polidez excessiva perguntou:
—Se fôra alguem de sua familia, que havia fallecido?—
—sua tia, D. Joanna de Atayde, lá na provincia, uma boa velha que quasi lhe fôra mãe e que até na morte o considera filho!
—deixando-te herdeiro, ein?—interveio o Juca:—
—que sim, que deixara, mas que sobre tudo lhe sentia a falta, um coração de santa!...
—os meus sentimentos—comprimentou gravemente o Jorge.
—pois olha menino, eu dou-te os meus parabens; e de mais a mais sendo ella velha!...—
Poz nos labios um sorriso amargurado como unica resposta. As senhoras tinham ouvido, e ellas tambem davam os seus pezames, tomavam parte na sua dôr;
—que eram consolações amigas, suaves como um balsamo— respondeu.
E quando Ermelinda lhe apertou a mão, foi já com uma compassividade meiga no olhar,—perdoando, sabendo em fim o motivo.—
Foram sahindo. Iam todos para a Cordoaria ouvir musica,—era a banda do dezoito que tocava, tinha visto isso no «Commercio»— dizia o Jorge— {57}
—e o snr. Alberto se recolhia á provincia,—perguntava.—
—que não, ou talvez o fizesse temporariamente!... Venderia as propriedades e metteria o dinheiro em qualquer banco; além d'isso era preciso pagar as dividas de rapaz, tornar-se em fim homem sério!
—Tu!—desatou a rir o Juca.
—E porque não—observou o Jorge n'um tom amigavel de reprehensão—ainda está verde este diabrete—indicou sorrindo, apontando-o ao Alberto, com o grosso pollegar da sua luva escura— que fazia muito bem, denotava muito nobres sentimentos, todos tinham tido as suas rapaziadas, mas lá vinha um dia... em que se tomava juizo—aconselhava.—
—faria por tomal-o elle tambem!—respondeu sério, n'um tom accentuado, de novas resoluções emprehendidas.
E emquanto o Jorge se enchia por elle d'uma sympathia calculada, vendo-o, regenerado, vivendo na boa sociedade, elegante e fidalgo, e de resto, namorando a sua Ermelinda, que poderia vir a ser sua esposa, o Alberto, num sorriso intimo, de bom comediante, acariciando o bigode:
—Estás cahido—meditava.