A Divorciada

José Augusto Vieira · Capítulo 11 de 16

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A Divorciada

Capítulo XI

 

 

O Jorge queixava-se, principiava a sentir um desequilibrio nas finanças da casa; Ermelinda e Alberto tinham exigencias imprudentes.

—Um luxo por ahi além—dizia a Joaquina—nem{143} que fossem uns principes—e depois cá estão as costas largas! que poupe, que poupe; d'aqui por diante nem carne se ha-de ver na panella, t'arrenego!—

Os noivos levavam uma vida ociosa, d'uma tranquilidade aerea. Ermelinda queria vestidos caros, luxuosos,

—que podessem apparecer diante da baroneza de Lindoso, da mulher do commendador Bernardo, das Castrinhos, das Cardosas, as suas novas amigas do hig-life, com quem se encontrava no Palacio, no S. João.—

E eram despezas superfluas de trem, de presentes generosos, de noites seguidas de theatro, de passeios, uma vertigem doce, um rodar inexperiente no plano inclinado da economia.

O Alberto secundava-a; tinha da sua individualidade uma ideia balofa, um desprezo das mediocridades, das coisas reles

—não podia realmente viver d'outra fórma, ali, onde todos o conheciam, onde elle tratava por tu toda a rapaziada elegante! não se tinha casado para ser um burguez amarrado á bisca sueca, ou ao loto com as senhoras visinhas! não faltava mais nada que agora o casamento o viesse privar da liberdade dos seus gozos.—

O Jorge começava a comprehender que fôra talvez um erro aquelle casamento; de dia para dia Alberto revelava-se irascivel, grosseiro, indelicado para com Ermelinda, quando lhe não satisfaziam exigencias de dinheiro.

Mandava a mulher ter com o pae{144}

—que se arranjasse, não haviam de ficar em casa a morrer de aborrecimento.

Ermelinda procurava ser o laço de conciliação entre os dous; animava o pae, nunca depois de casada tivera para com elle carícias tão meigas.—

—Pois sim, filha, mas é necessario deitar contas á nossa vida; os negocios vão mal, mesmo mal.—

—De hora em hora Deus melhora, papá.—

—Fia-te na virgem e não andes! Isto assim não tem geito, e olha, se queres que te diga, se tivesse tanto de santo como tenho de arrependido...

—Mas agora que se lhe ha-de fazer, papá; em verdade tambem, está mesmo um usurario, quer que a gente morra de tédio em casa! —

E convencia-o, subjugava-o com razões futeis, ditas graciosamente, a promessa d'um beijo e perguntando-lhe a sorrir com uma candura de ingenua—

—Se tambem havia de ser assim mau para o seu netinho.—

Este ultimo argumento quebrava-lhe todas as energias, cedia logo

—que remedio! não havia de contrarial-a n'aquelle estado, podia prejudicar a sua saude; não, coitadinha, ella não tinha culpa; mas depois havia de pôr cobro a isto, oh! se havia—

—mas a elle mesmo—considerava—não convinha cortar radicalmente por todo aquelle superfluo de exteriorisações; que diriam os outros, os seus collegas, a praça, o commercio que o julgava com boas garantias de capital... não, não se podia{145} fazer a cousa assim de vez, era preciso ir de vagar.—

e traçava combinações, adoptava um plano, um bom plano que o livrasse d'aquelles apertos sérios—tinha em vista uma grande especulação de fundos, a cousa era certa, o capital do Banco figuraria e se houvesse algum revez, soffresse quem soffresse.—

Estas ideias chamavam-o á realidade das suas occupações; fôra distribuido o relatorio, propunha-se um bom dividendo, mas

—francamente a coisa não estava muito sólida,—já até se rosnava um pouco, mas emfim os accionistas pertenciam áquella das bem-aventuranças, que premeia com o reino do ceu,—o que elles queriam era bons dividendos, e esses davam-se, a cousa havia de caminhar; a questão era resolver aquelles embaraços da crise e depois ficava mais desaffogado.—

Associava-se-lhe a este ultimo pensamento o encargo das despezas do genro,

—um vadio afinal, nem mesmo confio já na tal herança; uma mystificação!... mas agora é aguentar por honra da firma... podéra, —e lembrava-se de que seria talvez conveniente empregal-o, um lugar no banco não podendo ser n'outra parte, tinha boa lettra, ajudante do guarda-livros, uma pechincha; havia de lhe fallar.—

E quando estavam ao dessert insinuou a ideia:

—que era preciso entreter-se, aquella vida enfastiava, o trabalho era pouco, e depois murmurava-se, era mesmo conveniente...—

O Alberto ficou silencioso, partia a marmelada{146} aos pequeninos retalhos, uma distracção inconsciente de movimentos.

—A coisa não lhe desagradava realmente, chegava para charutos, o resto viria,—e acariciava a ideia de especulações estranhas, d'um arrojo funambulesco que o fizessem rapidamente rico, que lhe dessem um trem magnifico, cavallos de raça, um palacio luxuoso, de vastas escadarias de marmore; o Banco seria o meio, o caminho de lá chegar; sempre affagara o pensamento de se introduzir n'uma d'aquellas machinas de numerario, onde se rolam as cifras volumosas, como na roleta as moedas baratas; mas era estupido estar ali preso, amarrado como um macaco; o trabalho causava-lhe um tédio mortal.—E para o sogro:

—que havia de pensar n'isso, fallariam depois—e desceu para o seu quarto.

Ermelinda teve um bom impulso de o aconselhar,—

—faz-lhe a vontade, filho, faze; e depois é até mesmo bom, e tu distrahes, o trabalho tambem entretem; e é uma garantia de futuro... tu pensa...—disse-lhe baixo, o rosto affogueando-se n'um rubor honesto de confissão custosa.

—Ahi vens tu com a tua télha! ora adeus, d'aqui a lá não nos dôa a cabeça; n'este mundo todos se arranjam.

—Mas as cousas levam-se de longe, menino...

—Vae prégar moral a outra freguezia; que tem que vêr uma cousa com outra? o que vier veio, acabou-se, á fome não hade morrer e se morrer... era uma vez um anginho que voou ao ceu,{147} pedirei ao Luiz Serra que lhe faça um necrologio em verso.—

Ermelinda revoltava-se no seu sentimento de maternidade contra estas rajadas que a feriam no ser que ella ainda desconhecia, mas que amava já; achava pouco delicado o proceder d'Alberto para com ella, tinha mesmo uma certa dôr por vêr que elle se não enchia de jubiloso alvoroço, sabendo que ella em breve o faria pae; mas desculpava-o, tomava como gracejo as suas palavras, e abrigava-se, como uma creança, na aza do seu carinho, a imaginação a sonhar um futuro de delicias para o entesinho que ia dever-lhe a vida, tendo exquisitices incoherentes, uma grande volubilidade caprichosa.—

Alberto passeiava no quarto, passos largos, o pensamento concentrado na proposta do Jorge.

—Era o unico meio de se salvar, não via outro; o dinheiro do jogo ia dasapparecendo e depois... além d'isso o arranjo não era de todo mau; nem o deslustrava, lá estava o Visconde da Ribeira no Mercantil... e quem sabe; podia mesmo vir a ser o gerente do Banco; o sogro andava acabrunhado, aquillo não ia longe...—

e sentando-se junto d'Ermelinda, uma caricia affectada para a sua mulhersinha, batendo-lhe uma leve palmadinha nos joelhos:

—Acho que aceito, Lili; que dizes tu?

—Oh, filho, faze o que tu quizeres; mas eu digo-te que sim... olha, até depois o papá não nos receberá de tão mau humor, quando quizermos alguma cousa; vê lá tu, mas eu fazia-lhe a vontade, coitado, elle é tão nosso amigo...{148}

—Hum! hum!... ha a distinguir!—

—Não, Alberto, não, tu és injusto.—

—Bem, bem; fallemos n'outro assumpto; pois decido-me, faço-te a vontade; vá lá, é preciso sacrificar um poucochito ao futuro... tu tens razão, minha Lili...

—Obrigada—e tomou-lhe a testa, um beijo longo, muito carinhoso, como um agradecimento evolado do intimo.

Sentia-se feliz n'aquelle instante; uma como fluctuação luminosa palpitava dentro da sua alma de mulher, dando-lhe uma ebriedade suave; tinha vontade de absorver dentro de si toda a personalidade do seu Alberto, integrando-a n'um mesmo amor, com a do pequenino ser mysterioso, que vivia no sanctuario das suas entranhas. Queria ella ser o fóco de irradiação fecunda para os dous, que se confundiam n'um só, ser o carinho affectuoso, a consolação, a ambrozia que os ungisse na mesma embrocação de felicidade.

—Porque não havia de ser sempre assim! para que se haviam de levantar espinhos no jardim da sua existencia? como era bom amar sendo amada!...—

Nem quiz sahir n'aquelle dia; foi para a varanda que deitava sobre o quintal, ver descer serenamente a tarde no ceu côr de rosa, deixando um sorriso de saudade ás franças das arvores, que matisavam, como grandes nodoas, o alvor das casarias da cidade; e á noute quando a meia luz do abat-jour lhe deixou ver o Alberto a seu lado, repoltreado n'uma cadeira de verga, pensou no seu tempo feliz de mulher solteira e lembrou-se{149} de Bertha, áquellas horas ouvindo o sussurro eterno do mar, ao lado do seu Roberto.

Communicaram ao Jorge a resolução tomada,

—ainda bem, ainda bem—e jantou n'aquelle dia com mais appetite, a satisfação de ver dissipar-se uma nuvem que pesava sobre o seu espirito.—E á noute nos seus colloquios entre amorosos e confidenciaes com a Joaquina:

—o rapaz indireitou-se, vamos lá—

—Deus queira que elle tome tento na bola, Snr. Jorge.

—Ha-de tomar, ha-de tomar, cá estou eu para o dirigir.—

Estava contente, uma claridade a illuminar-lhe a soturnidade do pensamento, como um raio de sol na atmosphera humida d'um armazem sombrio. Ha muito tempo já que a Joaquina o não vira d'aquella fórma; tornara-se mais rapaz, brincalhão, dando-lhe umas palmadinhas sonoras no quadril arredondado, tendo exigencias segredadas a que ella reagia,

—Ou elle, olha agora a lembrança.—

 

Dous dias depois tinha de reunir-se a Assembleia geral do Banco; o Jorge lá estava com os seus collegas, prompto para a defeza, varios papeis enrolados na mão, gravemente cintado na sua sobre-casaca preta.

Grupos de brazileiros e commerciantes questionavam; discutiam o relatorio, o parecer do conselho fiscal.

O commendador lá estava, os seus oculos d'ouro{150} em refracções caprichosas de luz, um pouco importante, conscio do seu peso monetario, e da sua sciencia algarithmica.

Os brazileiros tinham-o como um corypheo da arithmetica.

—Entende de cifras como poucos, dizia-se—e depois este tem que perder, não é para ahi nenhum barlavento; nome respeitado na praça,—

e rodeavam-o, procurando saber a sua opinião sobre o relatorio e contas da direcção, consultando-o como um oraculo,

—Que diz o commendador a esta embrulhada? eu por mim não sei o que quer dizer esta verba—e apontavam-lhe uma parcella a figurar no Passivo, que não harmonisava com o Activo—

—uma coisa inexplicavel, que ninguem era capaz de comprehender.—

O Mendes apostrophava—

—Macacos mi mordam si eu entendo isto.—

O commendador dizia prudentemente, com receio de raia:

—Elles explicarão logo isso, ein; é pedir a palavra e fallar... mas me não parece que o Banco vá mal; oito por cento de dividendo, ein; não póde dizer-se mau negocio.—

—Lá isso é verdade, vão elles dando e o diabo que os entenda— aventurou um bacalhoeiro da rua de S. João.

—Não é tanto assim, Snr. Araujo; se querem as cousas claras; no Rio se não vê um relatorio por esta fórma.—

—Isto as cousas cá mudam de figura, meu caro senhor.—{151}

—Qual figura, nem qual carapuça; não ha lá banco que não tenha sua escripturação em dia.—

—Isso tambem cá, meu rico senhor.

—Me diz aonde, se faz favor? tudo uma embrulhada; quer que lhe diga eu ao senhor aqui em particular, tudo isto é uma capiranga e ai de nossos capitaes! Se faz politica, aqui, em todos os estabelecimentos bancarios.—

—Isso me diga o senhor,—

e o bacalhoeiro lembrava-se, que elle já tinha recorrido ao credito n'uns embaraços sérios, fazendo pezar a sua influencia eleitoral.

A campainha da presidencia vibrou pela sala; homens irromperam dos corredores, descobrindo-se respeitosamente. Havia silencio.

O secretario procedeu á leitura da acta precedente, que uma inclinação de corpos sentados approvou por unanimidade. Dispensou-se a leitura do relatorio.

—Se algum accionista pedia a palavra sobre o relatorio e contas da direcção—perguntou a presidencia.

Um silencio geral, esperando todos que apparecesse o primeiro; mas ninguem, a larynge seccava-se-lhes n'um spasmo anti-rethorico; murmurios surdos se espalhavam.

—E ninguem, ora esta!—

Segredou-se ao commendador que fallasse, o Mendes apontava aquella parcella inexplicavel.

A presidencia repetiu a pergunta.

O commendador pediu a palavra.

Libertaram-se os peitos n'um ah de satisfação;

—até que emfim a cousa começava.—{152}

A direcção estava um pouco trémula, presagiando tempestade; mas o Jorge conhecia o commendador, era seu amigo, d'ali não podia vir grande batalha.—

O orador foi breve—

—que não tencionava pedir elle a palavra; mas que... no animo d'alguns senhores accionistas se apresentava uma duvida—

Muitos apoiados com vocalisação especial da Mendes—

—e essa duvida dizia respeito á parcella A que figurava no Passivo, sem a correspondente do Activo.

Muitos accionistas procuravam no relatorio a falta de harmonia notada pelo orador.

—que pois a digna direcção o esclarecesse a elle e á respeitavel assembleia, que se daria por satisfeito com essas explicações, e que no resto approvava o relatorio e contas e bem assim o parecer do digno conselho fiscal.—E sentou-se, a mão ageitando os oculos para encobrir o rubor congestivo das suas faces.

Apoiados resoaram.

O Jorge pediu a palavra por parte da direcção.

—Vamos a ver, o que elle responde; o commendador não é homem que se fique,—sempre quero saber a historia da tal verba.—

O Jorge narrou as circunstancias do Banco, a epocha da crise, a historia de transacções, as difficuldades monetarias, multiplicou cifras apontando para o relatorio, de que lia variados trechos, foi prolixo, d'uma claridade confusa, torcendo os espiritos n'um labyrintho de arithmetica, {153} e—concluia—tinha assim justificado aquella aliás justissima observação do seu amigo Commendador e da illustre Assembleia geral.—

Apoiados estalaram; o commendador declarou que se dava por satisfeito.

A presidencia perguntou se mais algum accionista tomava a palavra.

Então o Alberto levantou-se,

O Jorge olhou-o com sobresalto.

—que ia elle fazer, aquelle doido—e sentiu vontade de o fazer desapparecer, de o sumir pelo chão abaixo, como a um diabo das magicas. Os seus collegas interrogavam-o mudamente,

—que significava aquillo?—

mas elle encolhia os hombros

—estava absorto tambem, não podia dar a mais leve explicação.

Entretanto o Alberto principiara—

—que o não prendiam n'aquelle lugar considerações de parentesco ou amizade, mas visto que alguns snrs. accionistas punham em duvida a sensata elaboração do relatorio, elle como accionista que zelava acima de tudo os seus interesses, não hesitava em tomar parte nos debates.—

O Jorge estava cada vez mais enfiado; a direcção impacientava-se.

Mas o gesto largo de Alberto, a sua pose d'orador impunham-se á massa bruta dos accionistas.

—que estavam n'aquelles lugares—e apontava para a direcção,— homens d'uma probidade inconcussa, capitalistas respeitados, cujo nome nunca ninguem ousara macular com a mais leve suspeita,{154}

Muito apoiados—

—que melhor que ninguem elles tinham sabido atravessar com circumspecção e tacto financeiro a epocha da crise e a prova ali estava n'aquelle resultado final, os oito por cento de dividendo.—E tecia um largo elogio, palavrões sonoros, com uma grande fluencia de expressão.

Apoiados mais calorosos ainda de possuidores de acções.— Murmurava-se, como n'um applauso unanime—

—falla bem o rapaz, e entende da póda,—está dito—

Alberto continuava embriagado no seu triumpho—

—que não hesitava por isso em propor uma recompensa pecuniaria á direcção, e que se não dissesse que era o interesse de familia que o impulsionava, por isso que da sua proposta excluia o cavalheiro, com quem estava ligado por laços de parentesco.—

Mas o publico bradou

—que a proposta devia ser geral—

o commendador accrescentou até

—que todos eram dignos d'essa gratificação—e propoz ainda um voto de louvor ao conselho fiscal.—

O relogio batia quatro horas; a presidencia apresentou as propostas dos dous oradores e os accionistas approvaram

—queriam ir jantar, que os levasse o diabo a todos.—

O Mendes dizia cá fóra aos grupos que o rodeavam—{155}

—que a historia da parcella ninguem a esclarecêra.—

Grupos formavam-se de novo; um discutir incoherente e tumultuario contrastando com o silencio que tinham guardado lá dentro. Commentava-se o Alberto

—fallava bem, não havia que ver.

—estava mesmo a pintar para uma direcção,

—de vagar se ia ao longe—

E dispersavam-se na confluencia das ruas, contentes dos oito por cento,—que vinham agora mesmo ao cahir da faneca—dizia o merceeiro de S. João.

Trens rodavam subindo vagarosamente a rua de Ferreira Borges, um desfilar de população laboriosa que vai cuidar do estomago, burgueses pesados questionando aos bocados, caixeiros de escriptorio com rolos de papeis debaixo do braço.

O Jorge entretanto dava-se a si proprio os parabens por aquella revelação do genro—

—Isto bem aproveitadinho, não lhes conto nada—dizia para os collegas—

Se o rapaz quizesse entrar cá para o banco—aventurou um dos directores.

—Eu lhe fallarei, a cousa ha-de-se arranjar,—um papagaio de vez em quando convém.—E applaudia-se de ser elle o que lhe havia feito já a mesma proposta, mas que n'esta occasião occulta,

—era sempre conveniente; são elles os agradecidos.—

E em casa, quando Ermelinda veio recebel-o ao cimo da escada, contou-lhe a proeza do Alberto,{156} muito satisfeito, alegre com a desopilação d'aquelle peso do relatorio e contas, a gratificação a entre-sorrir-lhe no meio dos seus embaraços.

O Alberto deu-se uns ares de modestia recolhida

—que outro qualquer faria o que elle fez; nada de extranho a final; tinha ouvido uns zuns-zuns de vespas importunas, aquillo indignara-o e resolvera-se a fallar, eis ahi estava.—

Ermelinda olhava-o com uma admiração mais terna; parecia-lhe aquillo um feito de semi-deus, erguia-lhe o culto fetichista dos heroes; e julgava-se reflectida no esplendor d'aquella acção, uma emphase vaidosa de ser sua mulher, de lhe chamar seu, eternamente seu. E as nuvens que até ahi tinham assombreado o ceu da sua união pareciam-lhe agora desfazer-se, como as neblinas tenues da manhã, deixando clarear um horisonte aberto, d'uma grande pureza luminosa.

E o Alberto, contente de si, applaudindo-se na execução da sua inspiração:

—Boa ideia, com os diabos, a cousa ha-de seguir naturalmente, fui feliz, a questão é de aproveitar a maré, isto é melhor do que a roleta; os pontos teem a mais um pouco de dinheiro e uma dose de parvoice.—

Sonhava especulações estrondosas, que o enriquecessem em pouco tempo, um el-dorado onde podesse ser invejado, dar as leis no mundo financeiro, no mundo argentario. Atirava com a imaginação para um vasto horisonte d'ambições, fazendo-a descrever uma curva vertiginosa e{157} brilhante, vendo-se respeitado com um grande poder, rodeado de todos os voluptuosos contactos do luxo; viagens ao estrangeiro, prazeres d'uma variedade infinita.

Estas ideias que elle communicava a Ermelinda inflammavam-os a ambos n'uma ambição mentirosa, o espirito desviando-se da realidade espinhosa das cousas praticas, e gastando por isso largamente, agora mais desaffrontados porque o Banco lhe dava um bom ordenado, atirando-se a uma extravagancia de despezas, uma loucura que os estonteava.

O Jorge inquietava-se, receiava uma derrocada fatal; a especulação que bafejara tinha-se gorado; iam cada vez mais em peior estado os negocios do Banco—

—E ao Alberto não havia quem lhe dissesse uma palavra, um orgulhoso.—Demais a Ermelinda sentia-se no ultimo periodo da gestação, adoentada, umas syncopes frequentes, que a prostravam muito—o Dr. Roberto dissera que só melhoraria depois—era por isso necessario esperar.—

Mas todas estas difficuldades torturavam-lhe o espirito; possuia-se d'uma tristeza grande, agitado, pouco communicativo até mesmo para com a Joaquina,—que o aconselhava,—uma partidaria do Laisser faire, laisser passer.

—Coma e beba e leve o diabo paixões, senhor Jorge—

—fallas bem, fallas bem, se te visses n'ellas como eu—e o pensamento engolphinhava-se n'aquelle labyrintho de embaraços, que o iam{158} apertando como as malhas d'uma rede, uma accumulação consecutiva de difficuldades, que renasciam multiplicadas como uma fecunda geração de polypos, ao passo que ia cortando algumas.

Era menos frequente á noite no Club e quando apparecia, distracções imperdoaveis no wist faziam-o perder quasi sempre.

Comia menos, o seu vigor physico ia gradualmente diminuindo; appareciam uns achaquesitos, umas dores de cabeça que duravam dous a tres dias, a face cahindo n'uma pallidez doente; uma fraqueira no estomago.

—Uns caldinhos de substancia, é o que isso precisa—dizia-lhe a criada.—

Principiou a consultar o medico; o Dr. Roberto aconselhou-lhe tonicos, distracções, ares lavados do campo.—E ao jantar com uma grande fé meticulosa tomava uns confeitosinhos brancos, de ferro, que andavam muito annunciados nos jornaes do dia.—

—E talvez fosse flato—aventurava a Joaquina—

—Sim, tambem padecia!—e tomava á noite umas quatro pilulas catharticas de Ayer, lendo sempre com minuciosa attenção o folheto que trasia as explicações sobre o seu modo de emprego, affiançando o seu effeito salutar, tonico e natural, tendo a rara propriedade de serem innocentes e ao mesmo tempo efficazes.

Isto tranquilisava-o bastante.

—Se não fizessem bem, tambem não fariam mal.

Mas a saude, apesar das promessas do folheto,{159} ia entrando n'uma decadencia gradual. A D. Gabriella já fazia promessas ao Senhor de Mathosinhos e a Joaquina essa tinha mais fé com o Senhor da Pedra.

—Cacos velhos, cacos velhos, D. Gabriella.—

—Nem diga isso, credo, velhos são os farrapos—e lamentava aquelle derruir precoce de saude, onde iam as suas esperanças, como as heras que vivem radicadas nos velhos edificios e se destroem com a sua derrocada.

Alberto assistia áquelle esphacelar com uma secreta alegria intima, de quem se vê livre d'um fardo importuno.

—Seria mais senhor das suas acções, não teria aquelle Argus constantemente a vigiar-lhe os passos, e agora... bem se importava... tinha uma posição segura no Banco; os collegas do Jorge respeitavam-o... os seus planos realisar-se-iam em breve; e o velho não ia longe, não, bem se conhecia.—