A Divorciada
Capítulo V
O commendador Faria vestia-se no seu gabinete do Hotel; tinha um grande apuro de si proprio, muito escanhoado, o cabello lusidio de pomada,{58} a risca ao lado, as barbas muito penteadas, a camisa d'uma brancura anilada com ricos botões de brilhantes. Tirou do bolso um chronometro inglez, de setenta libras—dez horas ein, e se esquecia de almoçar!—
e vestindo o casaco, dando o nó da gravata, ageitando os oculos em frente do espelho, foi abrir a janella do quarto; mas recuou, teve um movimento instinctivo de retirada,
—que caiporismo de mulher, não largava um homem, parecia Mineira, ella, que grande massada—
alto, porém, sorrindo, comprimentou a D. Clementina do Rosario, fez oscillar a sua grossa cabeça com um bello ar de amabilidade, teve mesmo uma phrase galante para com a visinha, que todos os dias, n'um rigor chronometrico de vinte e quatro horas, o asseteava com a sua carnação copiosa e fresca, o collo alvo da brancura lactea das camellias, e um sulco escuro, que descia, n'uma curva insinuante, attrahindo o brazileiro, cuja janella um pouco superior lhe offerecia as vantagens d'uma contemplação a vol d'oiseau.
—Uma manhã muito fresca—dizia—appetecia um passeio pelo campo—
—elle então que precisava tomar seus banhos em Vizella.
—e quem o impedia, ella talvez para lá fosse tambem aquelle anno—
—mas tinha seus negocios, que não havia outro motivo, não...
—na idade d'elle...{59}
—quarenta e cinco, D. Clementina, já cá estatavam quarenta e cinco—
—que era isso! e ninguem o dizia, tão bem conservado.—
Sorria-se.
Um trem passava levando as palavras no ruidoso estremecer dos seus movimentos; vendilhões apregoavam, e a D. Clementina, na impossibilidade de atirar amabilidades para a janella do commendador, enviava uns sorrisos pudicos, d'uma honestidade quarentona, como ainda sabiam fazel-os os seus labios de purpura desbotada. E depois, quando voltou uma intermittencia de silencio, que permittia a transmissão da voz, erguendo-se um pouco, n'uma flexão tetanica de collo, muito novedadeira:
—Então sabe que Ermelinda casa!
—não, não sabia, boatos talvez—
—qual historia; era verdade, podia ella affiançal-o; estivera lá em casa ainda hontem; o commendador é que apparecia poucas vezes agora..., e não fazia mau casamento... o Alberto herdara d'uma tia—
—pois não sabia, não sabia!...
e o commendador deixando cahir mollemente a sua affirmativa, sentia passar na sua memoria avivada, como n'um kaleidoscopo, em que as imagens se succedem, aquella soirée de casa do Mendes, a sua infelicidade ao sólo, e seu enleio a dansar os Lanceiros, quando a Ermelinda um tanto coquette, envolvendo-o na doçura quente do seu olhar, exhalando aromas subtis, que embriagavam, lhe sorria acariciadora, mostrando a{60} brancura dos seus dentes eguaes, e um collo decotado, suavemente trigueiro, onde poisava um formoso signal escuro.
E depois a noute de insomnia que elle passara, affagando aquella imagem que fugia, esvaindo-se na penumbra pallida das suas ideias desfallecentes.
O seu coração tivera então umas pulsações mais desordenadas, alguma cousa de estranho, como a onda d'uma vida nova, que elle nunca tinha experimentado. Lembrava-se que só uma vez sentira uma impressão quasi analoga, a bordo d'um paquete, por uma lady ingleza, de meigo olhar azul, que lia melancholicamente no tombadilho, á tarde, quando o sol cahia em irradiações douradas na linha do poente e se via a helice abrir um sulco nevado, de espumosa brancura, no dorso azul do grande mar dormente. Mas então, ao desembarcar no Lazareto, a ingleza seguira para Bordeaux e elle, na capital, fôra pouco e pouco esquecendo aquelle episodio romanesco da sua vida. Mas agora, lembrando-se que Ermelinda ia ser d'outro, que a veria todos os dias, sorrindo com a meiguice do seu olhar para o marido que lhe daria o braço, sentia um mal estar, um como desejo de ser mau, oppondo-se ao seu casamento, contrariando-lhe a felicidade,
—não por que aquillo lhe importasse... mas, não sabia explicar, sentia-se encommodado, a final de tudo.
E distrahido, cofiando com um automatismo inconsciente a suissa grisalha, esquecendo que estava á janella a conversar com a D. Clementina,{61} que o requestava toda vaidosa da sua redondesa de formas, retirou-se bruscamente, sem se despedir. Mas lembrando-se da sua descortesia, voltou:
—que o chamavam de dentro, se era servida de seu almoço.—
Ouviu-se no ar um
—obrigado—e o descer d'uma vidraça que cahia chronometricamente no caixilho, para só se erguer no dia immediato.
—ainda era aproveitavel esta D. Clementina, mas uma mulher que elle aborrecia, lhe causava nojo... e então não era para comparar com a outra... e ahi estava elle a pensar n'ella, se encommodava com aquillo.—
—que era uma tolice—pensava—já não era creança e a Ermelinda era uma rapariga nova... o pae havia de querer dinheiro... o banco não estava muito seguro, elle sabia d'umas transações pouco felizes—e não faltavam mulheres—concluia alto.
Affrouxava-lhe a genese do novo ideal perante o conhecimento prático da vida
—ora, que se não ralaria.—
E sahindo do quarto encaminhou-se para a sala de jantar, onde o esperava a costelleta que elle humedeceu com suas pimentinhas, o escaldado de farinha de Serohy, os ovos quentes, e simultaneamente a conversação dos companheiros, muito animada, recordando os affanosos dias do Rio de Janeiro, as distracções das Xacaras de Bota-fogo, das Larangeiras.
A conversação estabelecia-se, de companheiro{62} a companheiro. Reminiscencias se avivavam, cortando-se mutuamente, como bolhas de champagne, que effervescem n'uma confusão tumultuaria. O Lourenço Pereira á direita do commendador, tinha acabado de almoçar, recostava-se, accendendo um charuto, reclamando o dessert do cavaco.
Fallou-se nas companhias de Bonds, que faziam percurso para o Bota-fogo.
—E a proposito, se recorda você, commendador, a partida que aconteceu lá ao Mendes, com aquella Francezita da rua do Ouvidor?—
—Pintou a manta aquelle estroina!
—Mas que o Juca Silveira não lhe ficava a dever nada, ein!—
—O Juca, é verdade!... e onde está elle agora, sabe você, Lourenço?
—Não é socio do Chico do Barbadinho?
—não, que não era! desmanchara de ha muito a sociedade
—elle, já me recorda elle! Pois esse rapaz tem agora commandita com o Pinto, aquelle que morava lá adiante na rua do Gonçalves Dias, á esquina.—
O commendador não se recordava; veio outra explicação do Lourenço subsidiar-lhe a memoria.
—O Pinto, que tem casa de molhados á rua da Alfandega, com o José Casimiro, que morreu da febre em 74.
—Já, já! Ora com quem foi parar o Juca! estava admirado!...
—E ia bem! A casa tinha muito credito do tempo de Cunha Almeida & C.ª
—Bom moço, o Juca!{63}
Successivas recordações se evocavam, generalisando-se. O almoço tinha concluido; os estomagos digeriam na tranquillidade feliz d'um bem estar ocioso, e os charutos ardendo deixavam cahir a cinza esbranquiçada sobre a toalha da meza, d'onde o criado retirava os serviços n'uma attitude diligente e curva.
A luz suavemente cortada pelos stores, estendia um rastro alegre por sobre as aparadeiras, dando um brilho metallico ás louças que pousavam sobre o marmore, ás fructeiras, ao centro da mesa coberto de flores, aos crystaes dispersos ainda com restos de vinho, que não tinham sido levantados; em quanto as moscas n'um zumbir monotono, volteando em redor do grande candelabro de dous ramos, cahiam sobre as chavenas aproveitando os restos d'assucar.
Lá fóra, nas cruas irradiações do sol que batia n'um predio fronteiro, presentia-se um dia de calor, das fortes temperaturas tropicaes; mas os brazileiros, oppunham-lhe a sua calça branca, rija de gomma, e os seus Chilis, leves d'uma frescura hygienica. Iam-se pouco a pouco levantando, sahindo da sala, aos grupos, como os mansos animaes emigradores, trauteando pequenas canções, chacaras Brazileiras,—a Mulatinha do caroço, o Nhonhó, e já na rua dirigiam-se aos estabelecimentos conhecidos, aos Bancos, á Associação commercial, ou vinham parar na Praça Nova,
—o palheiro—como elles o denominam—em casa do Pimenta, do Guimarães, do Prata.
Um ruido de cidade, como um latejo palpitante{64} de vida, se concentrava na praça. A intervallos os americanos passavam, pachydermes gigantes, de movimentos vagarosos, n'um trote miudo de muares; o povo esfervilhava, trajes variegados das lavradeiras dos arrabaldes, d'uma vivesa crua de colorido, os da cidade com seus fatos claros, caminhando depressa, na sombra dos edificios, evitando aquelle dardejar de irradiação que batia cruamente na calçada. Os trens infileiravam-se a um dos lados, os cavallos pacificos, de cabeça baixa, quebrados pela ardencia do calor, em quanto ao centro o Rei-Soldado, golpeado pelo sol, com uma grande intrepidez de estatua, empoado, mostrava do alto do seu cavallo a carta constitucional ao Rainha, cuja taboleta annunciava tripas aos sabbados e ás quintas-feiras.
Na Baviera, no Camanho, no Suisso, homens entravam, pedindo gelo, refrescos, sorvetes de morango; quem passava via o loiro da cerveja nos copos estreitos, e individuos recostados, abanando-se com os chapeus; na Moré os janotas, estoirando as luvas, cumprimentavam, bocejando, na grande nostalgia de cerebros vasios e quando succedia que alguma senhora ao subir dos passeios mostrava a levesa elegante do pé, olhares esgaseados, d'uma sensualidade sorna as procuravam, mordendo-as com o desejo surdo de calcinações febris; e logo os brazileiros em casa do Guimarães, sentados nos mochos do estabelecimento, bamboleando-se, se acotovellavam cochichando:
—Bom bocado! ein!... se não tinham reparado.—{65}
—Viu-se o Jorge passar com Ermelinda; o commendador estava lá no seu mocho, lendo o «Commercio do Porto» com uma grande attenção minuciosa; mas os outros noticiaram logo:
—que lá ia o Jorge com a filha.
—sempre se casava ella, ein?
—Levava boa rez, não tinha duvida—disse de dentro o negociante—
—e a rapariga estava de appetecer—accrescentaram—mas ao verem que os dous tomavam um trem,
—Ora para onde irão elles a esta hora! sempre o desejava saber —observou o Juca, curiosamente, batendo com a badine no balcão. —E sahiu rapido, borboletando como um colibri, desejoso de saber.
O commendador desviara os olhos do jornal; parecia-lhe que d'aquella mulher, que estava uns vinte passos distante, irradiava alguma cousa de subtil e quente, como um veneno oriental que lhe corresse nas veias; fitava-a insistentemente, atravez dos seus oculos d'ouro, como desejando attrahil-a para si, n'aquelle mutismo de obediencia passiva, com que os magnetisadores recebiam as suas allucinadas. E ao ver Ermelinda saltar para o trem, descubrindo brancuras de vestidos n'um movimento rapido, sentiu-se como que estonteado, uma aura que lhe ennevoava a visão, alguma cousa de terrivel e doce, que escachoava confusamente no seu cerebro, e pondo-se a pé, um pouco pallido, disse para o caixeiro do estabelecimento
—Me dás um copo d'agua, Manoel?—{66}
E bebeu-a d'uma assentada, um pouco apressadamente, como se confiasse em que a acção fresca do liquido lhe acalmaria aquella agitação intima, que bem a seu pesar, lhe sacudia os nervos tão pacificos.
Mas n'este momento o Juca, entrava todo offegante, vaidoso de si, dando um giro mais largo á sua badine.
—Já sabia...—
Rodearam-n'o; uma grande curiosidade patenteada em todas as physionomias.
—Então, dize lá, menino?...
—Ao tabellião, meus lyrios, ao tabellião; vão assignar as escripturas.—
Os commentarios choveram; o commendador tinha-se retirado, apenas soubera da informação do Juca.
—Me incommoda, isto, ein, não sei porquê—ia elle a rumurejar quando passava á esquina de S. Bento.