À Espera de um Milagre

Stephen King · Capítulo 2 de 9

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À Espera de um Milagre

Prefácio ...........................................................................................

 

Uma carta

 

27 de Outubro de 1995

 

Caro Leitor Constante,

A vida é um negócio deveras caprichoso. A história que tem início neste pequeno livro existe nos moldes presentes por causa de uma observação ocasional feita por um agente de bens imobiliários que nunca conheci. Isso aconteceu há um ano em Long Island. Ralph Vicinanza, um amigo de há muito e meu associado de negócios (em essência, a sua atividade é comercializar no estrangeiro os direitos relativos a livros e histórias), tinha acabado de alugar uma casa nessa localidade. O agente da imobiliária comentou que a propriedade “parecia ter sido tirada de uma história de Charles Dickens”.

Aquela observação continuava gravada nos pensamentos de Ralph quando deu as boas-vindas ao primeiro convidado que recebeu, o editor britânico Malcolm Edwards. Repetiu o comentário a Edwards e ambos encetaram uma conversa trivial acerca de Dickens. Edwards mencionou que este escritor tinha publicado muitos dos seus romances em fascículos, quer inseridos em suplementos de revistas, quer por si próprios sob a forma de pequenos livros populares (publicações de dimensões mais pequenas do que o livro habitual, os quais sempre me mereceram grande apreço pela intimidade e cordialidade que inspiram). Alguns desses romances, acrescentou Edwards, eram escritos e revistos quase na data da publicação; ao que tudo indica, Charles Dickens era um romancista a quem os prazos estipulados não assustavam por aí além.

Os contos de Dickens em fascículos eram imensamente populares; de fato, eram tão populares que um deles desencadeou uma tragédia em Baltimore. Um vasto número de admiradores de Dickens apinhou-se numa doca, bem junto à linha de água; em antecipação à chegada do navio inglês que transportava a bordo o fascículo final de A Loja de Antiguidades. De acordo com o que a história nos diz, vários dos potenciais leitores foram empurrados para a água, tendo-se afogado.

Não me parece que tanto Ralph como Malcolm desejassem que qualquer pessoa se afogasse, mas tal não os impediu de sentirem uma certa curiosidade quanto ao que poderia vir a acontecer, caso se experimentasse a publicação de obras em fascículos nos nossos dias. Na ocasião, nenhum deles se apercebeu de imediato que isso já fora feito (na realidade, não existe nada de novo sob o Sol), pelo menos em duas circunstâncias. Tom Wolfe publicou a primeira edição do seu romance A Fogueira das vaidades na revista Rolling Stone, e Michael McDowell (The Amulet, Gilded Needles, The Elementals e o argumento cinematográfico Beetlejuice - Os Fantasmas Divertem-se) publicou um romance com o título Blackwater em fascículos de capa mole. Esse romance - uma história de horror sobre uma família do Sul com a desagradável característica familiar de se transformarem em aligatores - não foi o melhor da safra de McDowell, o que em qualquer dos casos não impediu que a Avon Books tivesse obtido um grande êxito.

Mais ainda, os dois homens começaram a especular sobre o que poderia acontecer se um escritor de ficção popular tentasse publicar na nossa época um romance em fascículos, sob a forma de pequenos livros de bolso - livros de capa mole de dimensões reduzidas ao preço de uma libra ou duas na Grã-Bretanha, ou talvez por quatro dólares nos Estados Unidos (onde a maior parte dos livros de bolso, presentemente, é comercializada ao preço de seis dólares e noventa e nove cêntimos ou sete e noventa e nove). Alguém como Stephen King poderia embarcar numa experiência interessante como essa, disse Malcolm e, a partir daí, a conversa enveredou por tópicos diferentes.

Ralph, até certo ponto, esqueceu-se daquela idéia, embora esta tivesse voltado a ocorrer-lhe no Outono de 1995, quando do seu regresso da Feira do Livro de Frankfurt, um certame internacional onde todos os dias surgem oportunidades de negócio para agentes literários estrangeiros como Ralph. Juntamente com outros assuntos, a maior parte dos quais mereceu automaticamente a minha recusa, abordou a idéia da edição desses pequenos fascículos.

No entanto, esta última questão não teve uma recusa automática; ao contrário da sugestão de uma entrevista na Playboy japonesa ou uma digressão com todas as despesas pagas pelas repúblicas do Báltico, esta acendeu uma centelha na minha imaginação. Não me tenho na conta de um Dickens da era moderna - se tal pessoa existe, provavelmente ela será John Irving ou Salman Rushdie - contudo, sempre gostei de histórias narradas em episódios. É uma .forma literária com que deparei pela primeira vez no Saturday Evening Post e que me agradou, porque o final de cada episódio tinha o efeito de quase tornar o leitor num participante, em paralelo com o escritor: tinha-se pela frente toda uma semana em que se poderia tentar imaginar o desenrolar da ação. Além disso, uma pessoa lia e experimentava essas histórias com maior intensidade, pelo menos era essa a impressão que eu tinha, porque eram racionadas. Era impossível ler sofregamente, ainda que fosse isso o que se pretendesse (e se o enredo fosse bom, era o que se faria).

No entanto, melhor do que tudo, em minha casa elas eram freqüentemente lidas em voz alta - numa determinada noite seria o meu irmão David, no dia seguinte a leitura caberia a mim próprio, a minha mãe lia na terceira noite, após o que a leitura seria retomada pelo meu irmão. Era uma ocasião rara em que podíamos desfrutar em conjunto de uma obra literária, tal como desfrutávamos dos filmes a que assistíamos e dos programas de televisão (Rawhide, Bonanza, Route 6, que costumávamos ver; era um acontecimento que tinha lugar em família. Só anos mais tarde é que vim a descobrir que os romances de Dickens haviam constituído acontecimentos partilhados pelas famílias da sua época, quase da mesma maneira, com a diferença de que essas pessoas agonizavam à beira das lareiras pela sorte de Pip, Oliver e David Copperfield ao longo de vários anos em vez de um par de meses (nem as séries mais alongadas do Post ultrapassavam muito mais do que oito fascículos).

Havia ainda um outro aspecto que me agradava bastante relativamente a esta idéia; um incentivo que eu desconfiava que só os escritores de romances de suspense, ou de histórias fantasmagóricas, é que poderiam apreciar em toda a sua amplitude: numa história publicada em fascículos, o escritor consegue ter uma ascendência sobre o leitor que não tem em nenhuma outra forma literária: colocando o assunto de uma forma bastante simples, Leitor Constante, é-lhe impossível folhear umas páginas para a frente, a fim de ver como é que a história acaba. Ainda me recordo de uma ocasião em que entrei na nossa sala de estar, teria eu uns doze anos, e vi a minha mãe sentada na sua cadeira de balanço preferida, a espreitar as páginas finais de um livro de bolso da Agatha Christie, enquanto o dedo marcava a página onde ela ia, e que seria à volta da número cinqüenta. Fiquei estarrecido e disse-lho (não se esqueçam que nessa altura eu tinha doze anos, uma fase da vida em que os rapazes começam a compreender vagamente que sabem tudo), dando-lhe a entender que o fato de se ler o final de um romance de mistério antes de se chegar lá era a mesma coisa que comer o recheio dos bolos com creme e depois deitar fora o resto do bolo. A minha mãe soltou aquela sua maravilhosa gargalhada em que não se detectava o mínimo constrangimento, dizendo-me que talvez fosse assim, mas que, por vezes, não era capaz de resistir a essa tentação. A cedência perante as tentações era um conceito que eu podia compreender facilmente; apesar de só ter doze anos, já o fizera muitas vezes. Ora, aqui está finalmente uma cura divertida para essa tentação. Até o último fascículo chegar às livrarias, ninguém saberá como é que o enredo de À espera de Um Milagre - The Green Mile terminará... e, muito possivelmente, eu também não.

Embora não houvesse maneira de ele o ter sabido antecipadamente, Ralph Vicinanza abordou o assunto de um romance em fascículos numa altura em que, para mim, era o momento perfeito em termos psicológicos. Já há algum tempo que eu andava a acalentar uma idéia para uma história relativa a um assunto que sempre desconfiara que acabaria por abordar: a cadeira elétrica. A Velha Faísca fascinava-me desde que vira o meu primeiro filme com James Cagney, e as primeiras narrativas que li sobre o corredor da morte (num livro cujo título era Twenty Thousand Years in Sing Sing, escrito por Lewis E. Lawes) excitaram a faceta mais sombria da minha imaginação. Qual seria a sensação, perguntava eu a mim mesmo, de percorrer aqueles últimos quarenta metros até à cadeira elétrica, sabendo antecipadamente que a morte nos esperava? O que se sentiria ao desempenhar o papel do homem cuja missão era prender o condenado com correias à cadeira... ou acionar a alavanca do quadro elétrico? O que é que aquela espécie de tarefa exigiria de um indivíduo? Ainda mais sinistro, o que é que poderia acrescentar a uma pessoa?

De uma maneira que se resumia sempre a algumas tentativas explora-tórias, eu tinha experimentado estas noções básicas numa série de trabalhos ao longo dos últimos vinte ou trinta anos. Já escrevera um romance de êxito cuja ação de tinha mais corria na prisão (Os Condenados de Shawshank), ou menos chegado à conclusão de que, provavelmente, aquela seria a minha única incursão nesse tema quando esta idéia começou a tomar corpo na minha mente. Havia vários aspectos neste assunto que me agradavam, mas nada mais que a voz essencialmente decente do narrador, honesto, discreto talvez um pouco assombrado, ele é o narrador ao estilo de Stephen King, se é que tal coisa alguma vez existiu. Nesta conformidade, lancei-me ao trabalho, começando e parando. A maior parte do segundo capítulo foi escrito durante uma espera forçada, devido à chuva, no Parque Fenway!

Quando Ralph me telefonou, eu já tinha preenchido um bloco de apontamentos com páginas manuscritas de À espera de Um Milagre - The Green Mile, e compreendi que estivera a estruturar um romance, quando deveria ter gasto o meu tempo a arrumar a minha mesa de trabalho, para poder trabalhar na revisão de um livro que já tinha escrito, Desperation. No ponto em que já me encontrava em relação à Mile, habitualmente só existem duas escolhas: pôr a obra de lado (para muito provavelmente nunca mais lhe pegar) ou remeter tudo o mais para segundo plano e prosseguir, dando forma ao enredo.

Foi então que Ralph sugeriu uma terceira alternativa possível: uma narrativa que poderia ser escrita da mesma maneira que viria a ser lida - em fascículos. Também me agradava o aspecto deveras arriscado que envolvia aquela tarefa: não cumpras os compromissos assumidos, e de repente terás um milhão de leitores que clamarão em simultâneo, e aos uivos, pelo teu sangue. Ninguém tem melhor conhecimento desta particularidade do que eu próprio, a não ser o meu secretário, Juliann Eugley; todas as semanas recebemos dezenas de cartas encolerizadas que exigem o novo livro do ciclo de Dark Tower (paciência, seguidores de Roland; mais ou menos outro ano e a vossa espera chegará ao fim, prometo-vos). Uma dessas cartas vinha acompanhada por uma Polaroid que mostrava um ursinho de pelúcia acorrentado, com uma mensagem escrita em letras recortadas de cabeçalhos de jornais, assim como de capas de revistas: PUBLIQUE O PRÓXIMO LIVRO DA DARK TOWER IMEDIATA-MENTE OU O URSO MORRE, dizia essa mensagem. Pendurei-a no meu gabinete para recordar a mim mesmo tanto a responsabilidade que assumira, como o fato maravilhoso de ter pessoas que efetivamente se interessavam - um pouco - pelas criaturas que eram fruto da imaginação do escritor.

Seja como for, decidi publicar À espera de Um Milagre - The Green Mile numa série de pequenos fascículos de capa mole, ao estilo do século xix, e só espero que me escrevam e me digam: (a) se gostaram da história e (b) se vos agradou o sistema de publicação, pouco utilizado mas bastante divertido. Não há dúvida que deu energia à passagem a papel da narrativa, embora de momento (um fim de dia chuvoso de Outubro de 1995) ela esteja longe de estar concluída, apesar de já se encontrar na forma de rascunho e o fim do enredo continua um pouco em dúvida. Mas isso faz parte do empolgamento de toda a história. Nesta fase, é como se me encontrasse a conduzir por entre um manto espesso de nevoeiro, com o acelerador a fundo.

Acima de tudo, gostaria de vos dizer que, embora possam obter desta leitura apenas metade do prazer que eu senti ao escrevê-la, não nos teremos saído nada mal. Apreciem esta história... e porque não lê-la em voz alta na companhia de um amigo? Ainda que não haja outro motivo, encurtará o período de espera até que o próximo fascículo seja posto à venda na vossa banca de jornais ou livraria.

Entretanto, espero que vivam com cuidado e que sejam generosos uns para com os outros.

 

STEPHEN KING