À Espera de um Milagre
Parte Dois .........................................................................................
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
O Rato na milha
1
O lar para a terceira idade onde ponho os últimos pontos nos “is” e cruzo os últimos “tês” chama-se Georgia Pines. Situa-se a menos de cem quilômetros de Atlanta, e a duzentos anos-luz do dia-a-dia da maior parte das pessoas - estou a referir-me às pessoas com menos de oitenta anos de idade. O leitor que está a ler este livro deverá acautelar-se certificando-se duque não existe um lugar destes à sua espera num futuro próximo. Não é que seja um sítio cruel, pelo menos na maioria dos seus aspectos; temos televisão por cabo e a alimentação é boa (embora haja muito poucos alimentos que um homem possa mastigar), mas, de certa forma, tem tanto de antecâmara da morte, sem tirar nem pôr, como acontecia com o Bloco E, em Cold Mountain. ,
Até há aqui um fulano que me traz à recordação a imagem do Percy Wetmore; este conseguiu arranjar o emprego na Milha Verde porque era parente, por afinidade, do governador do estado. Duvido muito que o sujeito que trabalha no lar seja da família de alguém importante, embora isso não o impeça de se comportar como se o fosse. Chama-se Brad Dolan. Passa o tempo a pentear o cabelo, tal como o Percy costumava fazer, e tem sempre alguma coisa para ler dentro do bolso traseiro das calças. No caso do Percy eram revistas, como por exemplo Argosy e Men's Adventure; no que diz respeito ao Brad são estes pequenos livros de bolso com o nome de Piadas Porcas e Anedotas Nojentas. Anda sempre a perguntar às pessoas porque é que o francês atravessou a rua, ou quantos polacos é que são precisos para enroscar uma lâmpada, ou ainda quantos homens é que são necessários para carregar um caixão num funeral em Harlem. À semelhança do Percy, o Brad é um simplório que está convencido de que nada é engraçado, a menos que possua uma conotação maldosa.
No outro dia, o Brad disse algo que me surpreendeu pela sua sagacidade, embora ele não me mereça muito crédito por isso; até um relógio cujos ponteiros estejam parados está certo duas vezes por dia, tal como se costuma dizer.
- Tens muita sorte por não teres essa tal doença de Alzheimer, Paulie - foi o que ele me disse. Detesto que me tratem por esse nome, Paulie; porém, apesar do meu desagrado, ele continua a fazê-lo; já desisti de lhe pedir que não o fizesse. Existem outras coisas, não são bem provérbios, que se aplicam ao Brad Dolan: “Pode levar-se um cavalo até à água, mas não se pode obrigá-lo a beber”, é um desses dizeres “É mais fácil levar um boi ao mourão que um ignorante à razão” era outro. Também se adequa muito à personalidade do Percy, pelo fato de não entrar nada naquela cabeça.
Quando fez o comentário sobre a doença de Alzheimer, andava ele a lavar com um esfregão o chão do solário, onde eu me encontrava a rever as páginas que escrevera. Já reuni bastantes e estou em crer que irão existir muitas mais antes de eu dar a minha escrita por concluída.
- Essa tal... Alzheimer, sabes o que realmente é? - perguntou-me ele.
- Não - respondi -, mas tenho a certeza de que vais esclarecer-me, Brad.
- É a sida das pessoas de idade - disse ele, tendo desatado a rir-se, um riso seco e aos arranques, tal como costumava fazer depois de contar uma das suas piadas idiotas.
Não me ri; as palavras dele tinham-me tocado num nervo qualquer. Não que eu sofra de Alzheimer; embora por aqui, no maravilhoso Georgia Pines, se tenha a oportunidade de ver muitos casos desses, limito-me a sofrer da falta de memória proverbial que costuma atacar as pessoas de idade avançada. Os problemas que se prendem com esse estado parecem estar mais relacionados com o quando do que com o quê. Ao rever aquilo que escrevi até ao momento ocorre-me que me recordo de tudo o que aconteceu em 1932; é a ordem seqüencial dos acontecimentos que por vezes se confunde na minha cabeça. Contudo, se eu tiver cuidado, estou convencido de que sou capaz de remediar essas lacunas. Até certo ponto.
O John Coffey deu entrada no Bloco E e na Milha Verde em Outubro desse mesmo ano, tendo sido condenado pelo assassínio das gêmeas Detterick, que na altura tinham apenas nove anos de idade. Esse é o meu principal ponto de referência, e se o mantiver sempre presente, poderei organizar cronologicamente tudo o mais, sem problemas de maior. O William Wharton, o Bill Selvagem chegou depois do Coffey; o Delacroix tinha chegado anteriormente. O mesmo aconteceu com o rato, aquele a que o Brutus Howell - Brutal para os amigos - chamava Steamboat Willy, enquanto o Delacroix acabou por lhe dar o nome de Mister Jingles.
Fosse qual fosse o nome, o rato chegou primeiro, até mesmo primeiro que o Del - ainda era Verão quando ele fez a sua primeira aparição, numa altura em que tínhamos outros dois encarcerados na Milha Verde: o Chefe, Arlen Bitterbuck e o Presidente, Arthur Flanders.
Aquele rato. O raio do rato. O Delacroix tinha paixão pelo bicho, mas era inegável que o mesmo não se passava com o Percy Wetmore.
O Percy odiara a criatura desde o primeiro momento.
2
Decorridos apenas três dias após o Percy ter corrido com ele da Milha Verde, o rato voltou a aparecer. O Dean Stanton e o Bill Dodge falavam de política... o que nessa época significava que o tema da conversa era Roosevelt e Hoover - Herbert, não J. Edgar 4. Ambos comiam bolachas de água e sal Ritz de uma caixa que o Dean tinha comprado ao velho Pouca Terra havia mais ou menos uma hora. O Percy encontrava-se à porta do gabinete, enquanto praticava sacar rapidamente do bastão que ele tanto adorava e ouvindo a conversa dos outros. Tinha-o retirado daquela espécie de coldre ridículo feito por medida que arrumara não se sabia onde, fazendo-o rodopiar (ou a tentar fazê-lo; na maior parte das suas tentativas tê-lo-ia deixado cair, não fora a correia de couro que o prendia ao pulso) e voltando a metê-lo dentro do coldre. Nessa noite, eu estava de folga, o que não me impediu de receber um relatório completo elaborado pelo Dean no fim do dia seguinte.
O rato apareceu na Milha Verde, tal como anteriormente, numa corrida rápida e detendo-se de vez em quando para examinar as celas vazias. E lá ia prosseguindo desta maneira, sem se sentir desencorajado, como se sempre tivesse sabido que aquela seria uma procura longa e estivesse firmemente decidido a não desistir.
Desta feita, o Presidente encontrava-se acordado, junto das grades da porta da sua cela. Aquele tipo era especial: conseguia ter um aspecto garboso até mesmo com as roupas azuis dos prisioneiros. Bastava olhar para o seu aspecto para ficarmos a saber que não fora feito para a Velha Faísca, e tínhamos razão - menos de uma semana depois de o Percy ter corrido com o rato dali pela segunda vez, a sentença do Presidente foi
4 (Herbert Clark Hoover, 1874-1964, trigésimo primeiro presidente norte-americano. John Edgar Hoover, 1895-1972, criminologista norte-americano e diretor do FBI. (N. da T.) comutada para prisão perpétua, tendo-se ele reunido à população prisional de delito comum.
- Olhem! - exclamou ele. - Está aqui um rato! Mas que diabo de espelunca é esta? - Perguntou aquilo meio a rir-se, mas o Dean comentou que não deixava de manifestar uma espécie de indignação, como se até uma acusação de homicídio não houvesse sido suficiente para lhe abalar a postura cheia de nove horas. Ele fora o diretor regional de uma empresa de imobiliário chamada Mid-South Realty Associates, e julgara-se suficientemente esperto para conseguir sair impune do fato de ter arremessado o pai, já meio senil, pela janela de um terceiro andar e recebido o seguro de vida. Nessa avaliação ele enganara-se, mas talvez por muito pouco.
- Cala a boca, meu mentecapto - invectivou o Percy, numa atitude que nele era quase automática. Estava de olho no rato. Tinha voltado a guardar o bastão no coldre e agarrara numa das suas revistas, mas atirara-a para cima da mesa do guarda de serviço, sacando de novo do bastão. Com gestos distraídos, começou a bater com ele contra o nó dos dedos da mão esquerda.
- Filho da puta! - exclamou o Bill Dodge. - É a primeira vez que vejo um rato por aqui.
- Eh, até que ele é engraçado - atalhou Dean. - Não parece ter medo nenhum de nós.
- Como é que sabes isso?
- Há umas noites ele esteve aqui. O Percy também o viu. O Brutal chama-lhe Steamboat Willy.
Ao ouvir aquilo, o Percy exibiu uma expressão desdenhosa, embora, pelo menos de momento, se tivesse abstido de fazer qualquer comentário. Recomeçara a bater mais rapidamente com o bastão nas costas da mão.
. Vejam isto - acrescentou o Dean. - Da outra vez, ele chegou até à mesa. Quero ver se consegue fazer isso agora. E conseguiu, afastando-se bastante do Presidente quando passou junto dele, como se não lhe agradasse o cheiro do nosso risonho parricida. Inspecionou duas das celas desocupadas, chegou mesmo a dar uma corrida até uma das tarimbas que nem sequer tinha colchão, farejou-a e regressou à Milha Verde. O Percy manteve-se no mesmo lugar durante todo aquele tempo, batendo continuamente com o bastão e sem falar, o que nele não era nada vulgar, desejando fazer com que o rato se arrependesse de ter voltado ali. Querendo ensinar-lhe uma lição.
- É uma sorte vocês não terem de o sentar na Velha Faísca - comentou o Bill com ironia, interessado nas andanças do rato contra a sua própria vontade. - Teriam uma grande trabalheira para conseguir prender as correias do capacete.
O Percy continuava sem proferir uma única palavra; contudo, em gestos muito lentos, firmou o bastão entre os dedos, da mesma maneira que um homem agarraria num bom charuto.
O rato deteve-se no mesmo lugar onde o fizera antes, a uma distância de não mais de um metro da mesa do corredor, soerguendo 0 olhar para o Dean, como se fosse um prisioneiro perante a barra de um tribunal. Durante breves instantes fitou o Bill, para logo voltar a concentrar a sua atenção no Dean. O Percy mal dava a impressão de se aperceber daquilo que acontecia em seu redor.
- É um animalzinho cheio de coragem, sou obrigado a admiti-lo - acrescentou o Bill. Ergueu um pouco a voz: - Ei! Ei! Steamboat Willy!
O rato retraiu-se ligeiramente enquanto as orelhas lhe fremiam, mas não fugiu nem sequer mostrou qualquer sinal de que o desejasse fazer.
- Agora, olhem bem para isto - continuou o Dean, recordando-se da forma como o Brutal lhe tinha dado um naco de carne em conserva da sua sanduíche. - Não sei se ele se comportará da mesma maneira, mas...
Quebrou ao meio uma das bolachas de água e sal Ritz, tendo deixado cair um pedaço em frente do rato. Durante um segundo ou dois o animal limitou-se a olhar para o bocado de bolacha de tom alaranjado, com os seus olhos vivazes de um negro cintilante, enquanto os bigodes filamentados fremiam ao cheirar o petisco. Chegou-se mais à frente, agarrou- com as patas da frente, sentou-se e começou a comer.
- Que eu seja descascado e cozinhado! - exclamou o; Bill, perplexo. - Come com tantas maneiras como uma pessoa durante a ceia da igreja num sábado à noite!
- Para mim parece-se mais com um negro a comer melancia - comentou o Percy com mordacidade, embora nenhum dos outros guardas lhe tivesse prestado a mínima atenção. O que também aconteceu com o Chefe e com o; Presidente. O rato terminou o pedaço de bolacha e continuo sentado, dando a impressão de se encontrar equilibrado sobre a cauda enrolada em espiral, observando os gigantes com uniformes azuis.
- Deixa-me experimentar - disse o Bill. Quebrou outro bocado de bolacha de água e sal, inclinou-se até à frente da mesa e deixou-o cair cuidadosamente. O rato cheirou-o mas não lhe tocou.
- Hum! - exclamou o Bill. - Já deve estar de estômago cheio.
- Não me parece - contrapôs o Dean. - Ele sabe que tu és temporário, é só isso.
- Temporário, ai é? Gosto disso! Estou aqui há quase; tanto tempo como o Harry Terwilliger! Talvez até há mais tempo do que ele!
- Acalma-te, meu veterano, acalma-te - aconselhou a Dean com um esgar sorridente. - Mas vê se eu tenho ou não razão. - Lançou outro pedaço de bolacha por cima da secretária. Sem qualquer hesitação, o rato agarrou na bolacha, tendo recomeçado a mastigar e continuando a ignorar por completo a contribuição alimentar oferecido pelo Bill Dodge Todavia, antes de ter podido dar uma ou duas trincadelas preliminares, o Percy lançou o bastão contra o animal, arremessando-o como se fosse uma lança.
O rato era um alvo pequeno e, por muito que custasse, a verdade tinha de ser dita - foi um lançamento traiçoeiramente certeiro, que poderia ter desfeito a cabeça do Willy, se os reflexos da criatura não tivessem sido tão apurados como o olfato de um cão. O rato esquivou-se - sim, tal e qual como um ser humano o teria feito - tendo deixado cair o bocado de bolacha. O pesado bastão de nogueira passou por cima da sua cabeça e espinha, suficientemente perto para os pêlos se terem agitado (pelo menos, foi o que o Dean afirmou, pelo que me Imponho a transcrever, embora não tenha a certeza de acreditar realmente nisso), e foi embater no chão de linóleo esverdeado, tendo feito ricochete contra as barras de uma cela vazia, O rato não se deixou ficar por ali, a fim de averiguar se se teria tratado de um simples engano; tendo-lhe ocorrido, aparentemente, um encontro muito importante noutro sítio qualquer, deu meia volta e afastou-se disparado pelo corredor fora, seguindo em direção à cela do isolamento.
O Percy rugiu de frustração - sabia o quão perto estivera de atingir o animal - e foi em sua perseguição. O Bill Dodge agarrou-o por um braço, muito provavelmente movido por um simples instinto, mas o Percy afastou-se dele com um gesto brusco. Ainda assim, o Dean afirmou que, possivelmente, foi a reação do Bill que salvou a vida do Steamboat Willy, apesar de ter sido por um triz. O Percy não só pretendia apanhar o rato, como também o queria esborrachar; pôs-se a correr, dando uns saltos enormes e cheios de comicidade, como um veado, pisando o chão com toda a força com os pesados sapatos pretos de trabalho. O rato conseguiu evitar os dois últimos saltos do Percy, correndo em ziguezague a toda a velocidade. Passou pela fresta inferior da porta, com um zurzir final da sua cauda cor-de-rosa, e... até mais ver, forasteiro - desapareceu.
- Foda-se! - vociferou o Percy, batendo violentamente com a palma da mão contra a superfície da porta. Em seguida, começou a procurar no seu molho de chaves aquela que lhe permitiria entrar na cela do isolamento, continuando assim a perseguir o rato.
O Dean foi no seu encalço, caminhando em passos deliberadamente lentos, a fim de adquirir o controlo das suas emoções. Parte do seu ser desejava rir-se do Percy, disse-me ele mais tarde, enquanto outra parte só queria agarrá-lo e sacudi-lo, encostá-lo e imobilizá-lo contra a porta da cela do isolamento, para lhe poder dar uma carga de porrada. Como é evidente, a maior parte daquilo que ele sentia traduzia-se numa grande perplexidade; as nossas funções no Bloco E, em grande parte, eram reduzir qualquer tumulto ao mínimo, e tumulto era praticamente o segundo nome do Percy Wetmore. Trabalhar com ele assemelhava-se muito à tarefa de tentar desativar bombas com alguém atrás de nós que, de vez em quando, batesse estridentemente com os dois pratos de um címbalo.
Numa palavra, era uma situação deveras enervante. O Dean disse que conseguiu detectar esse nervosismo nos olhos do Arlen Bitterbuck... até mesmo na expressão do Presidente, embora este cavalheiro, regra geral, se comportasse de uma maneira tão fria como um bloco de gelo. Mas havia algo mais. Em algum recanto da sua mente, o Dean já tinha começado a aceitar o rato como se este fosse - bem, talvez não um amigo, mas sim como parte da vida no bloco. Isso tornava o comportamento do Percy, bem como aquilo que ele tentava fazer, muito pouco correto. Levando mesmo em consideração que a sua raiva se dirigia contra um rato. O fato de o Percy jamais conseguir vir a compreender o motivo por que a sua ação era recriminável revelava mais que sobejamente que ele não era a pessoa adequada para as funções que desempenhava.
Na altura em que o Dean chegou ao fundo do corredor, já se tinha conseguido dominar, sabendo como é que deveria agir naquela situação. A única coisa que o Percy era incapaz; de suportar, era fazer figura de idiota, e todos sabíamos isso. - A merda do rato fugiu outra vez - comentou o Dean com um pequeno sorriso, tentando desanuviar o ambiente. O Percy lançou-lhe um olhar de poucos amigos, afastando o cabelo dos sobrolhos.
- Vê lá como é que falas, caixa-de-óculos. Estou chateado. Não tornes as coisas piores do que já estão.
- Com que então, hoje é outra vez dia de mudanças, não' é verdade? - perguntou o Dean sem mostrar uma expressão risonha... embora se risse com os olhos. - Pois bem, desta vez, quando puseres tudo cá fora, importas-te de passar o esfregão pelo chão?
O Percy olhou para a porta. Fitou as suas chaves. Pensou em mais uma incursão, longa, quente e vã por aquela cela de paredes acolchoadas, enquanto todos os outros se mantinham por perto a observá-lo... No que se incluía o Chefe e o Presidente.
- Raios me partam se eu compreendo o que é que tem tanta piada - disse ele. - Não necessitamos de ratos nas celas... Já temos vermes suficientes por aqui, sem que precisemos de lhes acrescentar a presença de ratos.
- Tens toda a razão, Percy - retorquiu o Dean, erguendo as mãos num gesto de apaziguamento. Por breves instantes, contou-me ele na noite seguinte, acreditou verdadeiramente que o Percy talvez se virasse contra ele.
Entretanto, o Bill Dodge aproximou-se numa atitude plácida e conseguiu acalmar as coisas.
- Parece-me que deixaste cair isto - disse ele, entregando ao Percy o seu bastão. - Uns dois centímetros mais abaixo e terias apanhado o mafarrico em cheio nos lombos.
Ao ouvir aquelas palavras, o tórax de Percy expandiu-se. - Sim, não foi um golpe muito mau - redarguiu ele e, com todo o cuidado, voltou a meter o estala-cabeças dentro do coldre de aspecto tão disparatado. - No liceu, eu costumava jogar ao ataque. Metia muitos golos.
- A sério? Não sabia - retrucou o Bill, e o som respeitoso do seu timbre de voz (embora tivesse piscado o olho ao Dean quando o Percy virou costas) foi o suficiente para desativar aquela situação acalorada.
- Sim - insistiu o Percy. - Uma vez em Knoxville fiz um golo em cheio. Aqueles rapazes da cidade não sabiam o que é que lhes acontecera. Passei por dois. Podia ter sido um jogo perfeito, se o idiota do árbitro não tivesse estragado tudo.
O Dean poderia ter deixado que a conversa morresse por ali, mas hierarquicamente ele era o superior do Percy e parte das suas funções era instruir; nessa época - antes do Coffey e antes do Delacroix - ele ainda pensava que o Percy poderia ser ensinado. Assim, estendeu a mão e agarrou no pulso do homem mais novo.
- Deves pensar no comportamento que tiveste há pouco - admoestou o Dean. A sua intenção, afirmou ele mais tarde, era mostrar uma expressão séria sem que fosse de reprovação. Pelo menos, que não fosse demasiado reprovadora.
Só que com o Percy aquela abordagem não resultava. Ele nunca chegaria a aprender... mas nós acabaríamos por ser forçados a fazê-lo.
- Ouve bem, caixa-de-óculos, eu sei muito bem o que é que estava a fazer... a tentar apanhar aquele rato! O que é que tu és? Cego ou quê?
- Também me pregaste um grande susto, assim como ao Bill e àqueles - retorquiu o Dean, apontando na direção do Bitterbuck e do Flanders.
- E então? - perguntou o Percy, provocador, endireitando as costas. - Eles não estão em nenhum berçário, caso ainda não tenhas reparado. Apesar de vocês os tratarem como se estivessem, grande parte do tempo.
- Pois bem, a mim não me agrada nada sentir-me assustado - adiantou o Bill entre dentes - além de que trabalho aqui, Wetmore, para o caso de ainda não teres reparado. Eu não sou um dos teus mentecaptos.
O Percy lançou-lhe um olhar por entre as pálpebras semicerradas, exibindo uma expressão onde se adivinhava uma certa insegurança.
- E não os assustamos mais do que aquilo que é necessário, porque eles já se encontram sob uma grande tensão - atalhou o Dean. Continuava a manter um tom de voz baixo. Os homens que estão sob uma grande tensão podem ir-se abaixo. Causar danos a si próprios. Fazer mal aos outros. Por vezes, fazem com que fulanos como nós fiquem metidos em problemas.
Ao ouvir aquilo, os lábios do Percy esboçaram um trejeito. “Em problemas” era uma idéia que exercia um certo poder sobre ele. Provocar problemas não fazia mal. Ver-se metido neles é que não era nada bom. - O nosso trabalho é falar e não gritar - continuou Dean: - Um homem que berre com os prisioneiros é um homem que perdeu o controlo sobre as emoções.
O Percy sabia quem é que tinha lavrado aquela escritura:; eu. O chefe. Entre o Percy Wetmore e o Paul Edgecombe não existia um grande amor, e não se esqueçam de que ainda estávamos em pleno Verão - muito antes do início das verdadeiras festividades.
- Seria preferível para ti - continuou o Dean num tom conciliatório - começares a encarar este lugar como uma espécie de unidade de cuidados intensivos de um hospital. É melhor não fazer muito barulho...
- Eu penso nisto como se fosse um balde cheio de mija que serve para se afogar ratos - retorquiu o Percy -, e é tudo. Agora, se não te importas, larga-me o pulso.
Soltou-se da mão do Dean, deslizou entre este e o Bill e começou a andar pelo corredor num passo pesado, mantendo a cabeça baixa. Passou um pouco rente de mais às grades da cela do Presidente - tão rente que o Flanders poderia ter estendido o braço, tê-lo agarrado e ter-lhe dado umas cacetadas na cabeça com o seu tão amado bastão, caso o Flanders fosse homem para isso. É claro que não era, mas talvez o Chefe fosse. O Chefe, se lhe dessem essa oportunidade, teria muito bem sido capaz de dar uma tarefa dessas ao Percy, apenas para lhe ensinar uma boa lição. Aquilo que o Dean me revelou acerca desse assunto, quando me contou a história na noite seguinte, ficou gravado em mim desde essa altura, uma vez que veio a verificar-se ser uma espécie de profecia.
- O Wetmore não compreende que não tem o mínimo poder sobre eles - dissera o Dean. - Que nada daquilo que faz contribui para piorar as coisas para eles, que eles só podem ser eletrocutados uma vez. Até ele meter isso na cabeça, constituirá um perigo não só para si próprio, como para todos os que se encontram aqui em baixo.
Entretanto, o Percy dirigiu-se ao meu gabinete e deixou a porta bater atrás de si.
- Olhem bem para isto! - exclamou o Bill Dodge. - Não é que ele se porta como se tivesse um testículo gravemente infectado?!
- E não sabes da missa nem a metade - retrucou o Dean.
- Pois bem, vejamos as coisas pelo lado mais animador - continuou o Bill. Ele passava a vida a dizer às pessoas que elas deveriam olhar para as coisas pelo lado mais animador; até dava vontade de lhe assentar um murro em cheio no nariz de cada vez que aquelas palavras lhe saíam da boca. - Do mal o menos; o teu rato que faz habilidades conseguiu fugir.
- Sim, mas nunca mais voltaremos a pôr-lhe a vista em cima - retorquiu o Dean. - Estou em crer que o estupor do Percy Wetmore conseguiu assustá-lo de uma vez por todas.
3
Aquela observação era lógica, mas errada. Logo no princípio da noite seguinte, o rato estava de volta, e por acaso isso coincidiu com a primeira noite das duas que o Percy Wetmore tinha de folga antes de passar para o turno da noite.
O Steamboat Willy apareceu por volta das oito horas. Eu encontrava-me presente, o que me permitiu assistir ao seu reaparecimento; o Dean também lá estava, o mesmo acontecendo com o Harry Terwilliger. O Harry encontrava-se sentado à secretária.
Tecnicamente, eu deveria trabalhar durante o dia, mas tinha-me deixado ficar por ali durante uma hora a mais, para poder falar com o Chefe, cuja execução se aproximava.
Exterior-mente, o Bitterbuck apresentava uma atitude de estoicismo, de acordo com a tradição da sua tribo; contudo, eu, adivinhava o medo que crescia dentro de si, como se fosso uma flor envenenada. Por conseguinte, conversamos. Podemos falar com eles durante o dia, embora não fosse tão agradável devido aos gritos e conversas (para não mencionar ocasionais cenas de pugilato) que vinham do pátio, à mistura com o chonque-chonque-chonque da maquinaria da serralharia, o grito ocasional de um dos guardas, ordenando a alguém que largasse uma picareta ou que agarrasse numa determinada enxada, ou então: “Arrasta esse couro até aqui, Harveyi”' Habitualmente, depois das quatro horas as coisas melhorava um pouco e depois das seis ainda era melhor. Das seis às oito horas era o melhor período do dia. Depois disso, podíamos ver os pensamentos profundos começarem a assenhorarem-se das suas mentes uma vez mais - viam-se nos seus olhos;, quais sombras da tarde - nessa altura era preferível parar. Eles continuavam a ouvir o que lhes dizíamos, mas as nossas palavras deixavam de fazer qualquer sentido. Depois das oito horas, eles preparavam-se para os quartos de ronda da noite, imaginando qual a sensação de terem o capacete bem preso na cabeça e qual seria o cheiro do ar no interior do saco negro que acabava de ser enfiado por cima das faces transpiradas.
Contudo, eu apanhei o Chefe numa boa altura. Começou a falar-me da sua primeira mulher e de como, em conjunto, os dois tinham construído uma cabana de madeira em Montam. Aqueles haviam sido os dias mais felizes de toda a sua vida, de acordo com o que ele dizia. A água era tão pura e fria que uma pessoa sentia a boca cortada de cada vez que a bebia.
- Eh, Mister Edgecombe - disse ele. - Acha que se , um homem se arrepende sinceramente daquilo que fez de mal ainda pode regressar ao tempo em que ele foi mais feliz, ficando a viver aí para sempre? Parece-lhe que talvez o paraíso seja assim?
- Tenho acreditado nisso - repliquei, sabendo que estava a dizer uma mentira e sem sentir o mínimo remorso por isso. Eu aprendera os assuntos da eternidade em cima do belo colo da minha mãe, e acredito naquilo que o Bom Livro diz a respeito dos assassinos: que para eles não existe vida eterna. Na minha opinião, vão direitinhos para o inferno, onde ficarão a arder no meio de um grande tormento, até que Deus, (malmente, faz sinal ao arcanjo Gabriel para que este sopre as Trombetas do Juízo Final. Quando isso acontece, eles apagam-se... e sentem-se provavelmente bastante satisfeitos com Isso. No entanto, eu nunca dei a entender ao Bitterbuck a mais ínfima destas crenças, nem tão-pouco a nenhum dos outros. Mas estou convencido que bem no seu coração eles o sabiam. “Onde está Abel, teu irmão? A voz do sangue dele clama da terra até Mim”, disse Deus a Caim, mais ou menos nestas palavras, e duvido muito que as palavras tenham sido uma grande surpresa para essa chança problemática em particular; aposto que Ele ouviu o sangue de Abel a gemer-Lhe da terra, com cada passo que dava.
Quando o deixei, o Chefe sorria; talvez estivesse a pensar na sua cabana de madeira em Montam, na companhia da mulher de seios nus, deitada à luz das chamas da fogueira. Dentro em pouco, ele caminharia por entre um fogo mais ardente, disso eu não duvidava.
Percorri o corredor, e o Dean pôs-me a par da desavença que tivera lugar entre ele e o Percy na noite anterior. Estou em crer que ele se deixou ficar por ali só para poder falar comigo, por isso ouvi-o com toda a tenção. Eu tinha por hábito ouvir com muita atenção sempre que o assunto se relacionava com o Percy, dado que estava cem por cento de acordo com o Dean - na minha opinião, o Percy era o gênero de homem que poderia vir a provocar graves complicações, tanto a todos nós como a si próprio.
Quando o Dean estava prestes a terminar a sua narrativa, o velho Pouca Terra aproximou-se com o seu carrinho vermelho, cheio de pequenas coisas para comer, o qual estava coberto por citações da Bíblia desenhadas à mão (“Pertencem-Me a vingança e as represálias...” Dt. 32:35, “... pedirei contas do vosso sangue a todos os animais...” Gn. 9:5, assim como demais pensamentos alegres, próprios para levantar o moral), e vendeu-nos algumas sanduíches e refrigerantes. O Dean procurava alguns trocadas nas algibeiras, enquanto dizia que nunca mais voltaríamos a ver o Steamboat Willy por ali, que o estuporado do Percy Wetmore tinha assustado o animal, obrigando-o a fugir para sempre, quando o velho Pouca Terra perguntou:
- O que é aquilo ali?
Ambos olhamos e lá estava o rato do momento, em carne e osso, saltitando pelo meio da Milha Verde. Andava um pouco, detinha-se, olhava em volta com os seus olhinhos brilhantes e recomeçava a sua corrida.
- Ei, rato! - chamou o Chefe, ao que a criatura parou. olhou para ele com os bigodes a fremir. Deixem-me que vos diga, era exatamente como se a maldita coisa soubesse que o tinham chamado. - Por acaso, és um desses guias espirituais? - perguntou o Bitterbuck, atirando um pequeno pedaço de queijo, que retirara do seu próprio jantar, na direção do rato. Foi cair mesmo em frente do animal, mas o Steamboat Willy mal lançou um olhar ao queijo, tendo retomado o seu caminho e continuado a percorrer a Milha Verde, enquanto ia espreitando para dentro das celas desocupadas.
- Chefe Edgecombe! - chamou o Presidente. - Acha que esse pequeno estupor sabe que o Wetmore não está cá? Por Deus, a mim parece-me que sim!
Eu sentia mais ou menos a mesma coisa... mas não estava disposto a admitir isso em voz alta.
Entretanto, o Harry apareceu no corredor, a coçar as calças da maneira que fazia sempre depois de ter passado alguns minutos refrescantes na privada, e parou, de olhos esbugalhados. O Pouca Terra também olhava fixamente, com uma careta descaída num trejeito que dava uma aparência desagradável à metade inferior do seu rosto, flácido e desdentado.
O rato parou naquele que se estava a tornar o seu lugar habitual, enrolou a cauda à volta das patas e ficou a olhar para nós. Uma vez mais, ocorreram-me as imagens que eu tinha visto de juízes a julgarem condenados desafortunados... e contudo, alguma vez teria existido um prisioneiro tão pequeno e tão destemido como aquele? Não que ele fosse um encarcerado na verdadeira acepção da palavra, como é evidente; tinha a liberdade de ir e vir como bem lhe apetecesse. E no entanto, aquela idéia recusava-se a abandonar-me a mente, e ocorreu-me de novo que quase todos nós nos sentiríamos assim tão pequenos, quando chegasse o dia de nos aproximar-{ mos do assento de onde Deus nos julgava, depois das nossas vidas terem chegado ao fim, mas que só um número muito restrito de pessoas poderia apresentar um ar tão destemido.
- Pois bem, nunca vi uma coisa destas - declarou o velho Pouca Terra. - Ali está ele sentado, tão importante como o Rei da Caca.
- Ainda não viste nada, Pouca Terra - retorquiu o Harry. - Olha para isto. - Levou a mão ao bolso da camisa de onde retirou um biscoito de maçã polvilhado com canela, embrulhado em papel encerado. Partiu uma extremidade e atirou-a para o chão. Estava seca e endurecida e eu pensei que faria ricochete, passando pelo rato sem se deter, mas este estendeu uma pata num gesto tão desinteressado, como um homem que se preparasse para apanhar uma mosca que voasse perto dele, dando uma palmada no pedaço de biscoito, que se imobilizou. Todos nos rimos, de admiração e surpresa, numa explosão de gargalhadas que deveria ter tido o efeito de fazer com que o rato fugisse desarvorado, mas este mal piscou um olho. Agarrou no bocado de biscoito seco, deu-lhe umas duas lambidelas e deixou-o cair no chão, olhando para nós como se dissesse: “Nada mau, que mais é que têm?”
O Pouca Terra abriu o seu carrinho, tirou uma sanduíche, desembrulhou-a e cortou um bocado de um enchido.
- Não te incomodes - disse-lhe o Dean.
- O que é que queres dizer com isso? - perguntou o Pouca Terra. - Não há um único rato à face da Terra que desdenhe uma rodela de enchido se conseguir deitar-lhe a pata. Tu estás mas é maluco!
No entanto, eu sabia que o Dean tinha razão; via na expressão do Harry que este também sabia disso. Havia os temporários e os permanentes. Fosse de que maneira fosse, aquele rato parecia dar-se conta da diferença. Era de loucos, mas era a verdade.
O velho Pouca Terra arremessou-lhe a rodela de enchido e, a provar que tínhamos razão, o rato não quis ter nada a ver com aquilo; cheirou uma vez e retrocedeu um passo.
- Que eu seja o filho de uma grandessíssima cadela! - exclamou o velho Pouca Terra, dando a impressão de se sentir ofendido.
- Dá-me isso - disse-lhe eu, estendendo a mão. - O quê... a mesma coisa?
- A mesma sanduíche. Eu pago-ta.
O Pouca Terra entregou-me o que lhe pedi. Ergui a fatia de cima do pão, retirei outra rodela de enchido e deixei-a cair por cima da borda da frente da secretária do guarda de serviço. De imediato, o rato avançou, agarrou na carne com as patas e começou a comer. O enchido desapareceu antes de eu ter tempo de esfregar um olho.
- Que eu seja amaldiçoado! - vociferou o Pouca Terra. - Inferno maldito! Dá-me isso!
Arrancou-me a sanduíche da mão, tirou um bocado bastante maior de carne - desta vez não foi só um bocadinho, mas sim um bom naco - e deixou-a cair tão perto do Steamboat Willy que o rato esteve prestes a usá-la como chapéu. Uma vez mais, o animal retrocedeu, cheirou a carne (com toda a certeza que nenhum rato é assim tão tarado durante a Grande Depressão - pelo menos, não no nosso estado), e em seguida ergueu o olhar até nós.
- Vá lá, come! - incitou o Pouca Terra, dando a impressão de se sentir mais ofendido do que nunca. - O que é que se passa contigo?
O Dean agarrou na sanduíche e deixou cair um pedaço do enchido - naquela altura, a cena já tinha atingido o caráter de uma estranha comunhão. Sem hesitações, o rato apanhou a carne e comeu-a imediatamente. Depois de ter terminado” voltou-se e começou a percorrer o corredor até à cela do isolamento, parando a meio do caminho para espreitar para dentro de duas das celas desocupadas, e fez uma pequena digressão inquiridora a uma terceira. Uma vez mais, ocorreu-me a possibilidade de o animal andar à procura de alguém; desta feita, afastei o pensamento da minha mente com maior lentidão do que anteriormente.
- Não tenciono falar acerca deste assunto - disse o Harry Adivinhava-se que ele falava meio a sério meio a brincar. Em primeiro lugar, ninguém se interessaria. E em segundo, ainda que fosse esse o caso, ninguém acreditaria em mim.
- Ele só comeu o que vocês lhe deram - comentou o Pouca Terra. Abanou a cabeça num gesto de quem não conseguia acreditar naquilo, debruçou-se sobre o carrinho e agarrou no que o rato tinha desdenhado, começando a comer com a sua boca desdentada e a triturar o alimento com as gengivas até ao ponto de submissão. - Vamos lá a saber, porque é que ele terá agido assim?
- Tenho uma idéia melhor - interveio o Harry. - Como é que ele sabia que o Percy está de folga?
- Não sabia - repliquei. - O fato de esse rato ter aparecido hoje à noite não passa de uma mera coincidência. Só que, com o passar dos dias, cada vez se tornava mais difícil acreditar que um simples rato só desse a conhecer a sua presença quando o Percy se encontrava de folga, a trabalhar noutro turno, ou em funções numa outra zona da prisão. Nós - o Harry, o Dean, o Brutal e eu próprio - chegamos à conclusão de que o animal deveria conhecer a voz do Percy ou o seu cheiro. Cautelosamente, evitávamos discutir em demasia o próprio rato - o próprio. Decidimos tacitamente que isso poderia contribuir para arruinar uma coisa que era muito espectral... e maravilhosa, em virtude da estranheza e delicadeza que a envolviam. Ao fim e ao cabo, o Willy escolhera-nos de uma maneira que, até mesmo agora, eu nunca consegui compreender. É possível que o Harry tenha tido razão, quando disse que não valeria a pena partilhar aquilo com outras pessoas, não só porque elas não acreditariam, mas também porque não iriam demonstrar o mais pequeno interesse.
4
Foi então que chegou a data da execução do Arlen Bitterbuck, o qual, na realidade, não era o chefe da sua tribo mas sim o primeiro dos anciãos na Reserva de Washington, assim como membro do Conselho dos Cherokees. Sob o efeito do álcool ele tinha assassinado um homem - na verdade, ambos tinham estado embriagados. O Chefe esmagara a cabeça do homem com um bloco de cimento. O pomo da discórdia entre os dois fora um par de botas. Portanto, em 17 de Julho daquele Verão chuvoso, o meu conselho de anciãos determinou que a sua vida deveria ser extinta.
As horas de visita, para a maior parte da população prisional de Cold Mountain, eram tão rígidas como vigas de aço, mas essa norma não se aplicava aos nossos rapazes do Bloco E. Assim, no dia 16, o Bitterbuck teve autorização para se dirigir à espaçosa sala adjacente ao refeitório - a Arcada. Estava dividida exatamente a meio por uma rede de arame entrelaçada com arame farpado. Era ali que o Chefe recebia a visita da sua segunda mulher, assim como alguns dos seus filhos que ainda falavam com ele. Chegara o momento do adeus.
Foi o Bill Dodge quem o levou àquela sala, juntamente com dois dos outros temporários. Nós tínhamos trabalho a fazer - uma hora para, pelo menos, dois ensaios. Três, se conseguíssemos.
O Percy não levantou muitos protestos por ter sido destacado para o compartimento do quadro elétrico com o Jack Van Hay, para a eletrocussão de Bitterbuck; ainda estava demasiado verde para perceber se lhe tinha sido dado um bom lugar ou não. Aquilo que ele sabia era que dispunha de uma pequena janela retangular com rede de arame, através da qual poderia ver tudo, e, embora provavelmente ele não se importasse de estar a olhar para as costas da cadeira em vez de para a frente, continuaria a estar suficientemente próximo; para poder avistar as faíscas a saltarem para todos os lados:
Do lado de fora da janela, mesmo junto desta, havia um telefone negro sem manivela nem mostrador de números. Esse telefone só servia para receber chamadas, as quais poderiam ser feitas somente de um lugar: do gabinete do governador. Ao longo dos anos, vi uma série de filmes sobre a vida prisional em que o telefone oficial começa a tocar no momento exato em que se preparam para acionar a alavanca que; terminará com a vida de um desgraçado qualquer inocente; contudo, o nosso nunca tocou durante todos os anos em que trabalhei no Bloco E. Nos filmes, a salvação é barata. Assim como a inocência. Pagam-se vinte e cinco cêntimos e obtém-se exatamente aquilo que esse montante pode proporcionar-nos. A vida real custa mais e a maioria das respostas é bem diferente.
Lá em baixo, no túnel, tínhamos um manequim de alfaiate que ocupava o lugar na ambulância, enquanto o velho Pouca? Terra fazia o resto. Ao longo dos anos, não se sabia bem como, o Pouca Terra tinha vindo a ocupar o lugar do tradicional substituto do condenado, um lugar tão respeitado à sua maneira como o do peru que fará as honras da mesa da ceia: de Natal, quer se goste de peru ou não. A maior parte dos outros guardas da prisão gostava dele, o homem falava com um sotaque engraçado, o que os divertia - também era de origem francesa, embora fosse canadense e não cajun, e possuía uma maneira de falar muito peculiar que era suavizada pelos muitos anos de encarceramento no Sul. Até mesmo o Brutal se divertia com o velho Pouca Terra. Mas eu não me incluía nesse número. Estava convencido que ele era, muito à sua maneira, uma versão mais envelhecida e diluída do Percy Wetmore, a espécie de homem que sentia grandes melindres em matar e cozinhar a sua própria carne, mas que, ainda assim, adorava sentir o cheiro do churrasco.
Estávamos todos presentes para o ensaio, tal como estaríamos ali durante o acontecimento principal. O Brutos Hwell tinha sido o “designado”, como costumávamos dizer, o que significava que lhe caberia a tarefa de colocar o capacete, vigiar a linha telefônica do governador, chamar o médico que estaria no seu lugar junto à parede, no caso de os serviços deste virem a ser necessários, e dar a ordem para o desenrolar dos eventos quando chegasse a hora. Se tudo corresse bem, não haveria elogios para ninguém. Caso contrário, o Brutal seria recriminado pelas testemunhas enquanto eu seria responsabilizado pelo diretor. Nenhum de nós reclamava desta situação; os protestos não nos teriam servido de nada. Muito simplesmente, o mundo continua a girar. Podemos agüentar-nos e girar com ele, ou tentar fazer valer os nossos protestos, sendo imediatamente cuspidos desse .mundo.
O Dean, o Harry Terwilliger e eu encaminhamo-nos para a cela do Chefe, a fim de dar início ao primeiro ensaio; ainda não haviam passado três minutos desde que o Bill e as suas tropas tinham escoltado o Bitterbuck do bloco até à Arcada. A porta da cela encontrava-se aberta e o velho Pouca Terra estava sentado na tarimba do Chefe, com os seus cabelos ralos e encanecidos espetados em todas as direções.
- O lençol está todo manchado com nódoas de se ter vindo - comentou o Pouca Terra. - Deve estar a tentar livrar-se disso tudo antes de vocês o estorricarem - acrescentou com um riso cacarejado.
- Cala a boca, Pouca Terra - ripostou o Dean. - Vamos lá a fazer isto de uma forma séria.
- De acordo - anuiu o Pouca Terra, compondo imediatamente as suas feições e adquirindo uma expressão de solenidade grandiosa. Todavia, os seus olhos mantinham-se brincalhões. O velho Pouca Terra nunca dava a impressão de estar tão vivo como quando desempenhava o papel do morto.
- Arlen Bitterbuck - comecei a dizer, dando alguns passos em frente -, na minha qualidade de funcionário de justiça e do estado, e por aí adiante... venho munido de uma sentença, e blá-blá... execução essa que terá lugar às vinte e Quatro horas do dia blá-blá... pelo que lhe peço que se levante. O Pouca Terra levantou-se da tarimba.
- Estou a levantar-me, estou a levantar-me, estou a levantar-me - declarou ele repetidamente.
- Dê meia volta - interveio o Dean e, quando o Pouca Terra se virou, começou a examinar o topo da sua cabeça coberta de caspa. No dia seguinte à noite, a região superior da cabeça do Chefe seria escanhoada, e a verificação do Dean na altura teria a finalidade de ver se ele não precisaria de alguns retoques. Os cabelos mal rapados impediriam uma boa condutibilidade de energia, dificultando todo o processo. Tudo aquilo que fazíamos naquele momento pretendia facilitar as coisas.
- Muito bem, Arlen, vamos embora - disse eu ao Pouca Terra, e todos saímos da cela.
- Estou a caminhar pelo corredor, estou a caminhar pelo corredor, estou a caminhar pelo corredor - repetiu o Pouca Terra. Pus-me à sua esquerda, e o Dean à sua direita. O Harry seguia diretamente atrás dele. Chegados ao fim do corredor viramos à direita, afastando-nos da vida como ela era vivida no pátio do recreio, seguindo em direção à morte como era sofrida na sala da arrecadação. Prosseguimos para o meu gabinete, onde o Pouca Terra caiu de joelhos sem que fosse necessário pedir-lhe que o fizesse. Ele conhecia bem o argumento daquela peça, extremamente bem, provavelmente melhor do que qualquer de nós. Deus era testemunha de que ele vivia naquele lugar há mais tempo do que nós.
- Estou a rezar, estou a rezar, estou a rezar - acrescentou o Pouca Terra, erguendo as mãos enodadas num gesto de oração. Assemelhavam-se àquela famosa gravura que vocês provavelmente conhecem, aquela que quer dizer: “O Senhor é . o meu pastor...” e assim por diante.
- Quem é que o Bitterbuck arranjou? - perguntou o Harry. - Não vamos permitir aqui a presença de um curandeiro cherokee que lhe agarre na picha, pois não?
- Na verdade...
- Continuo a rezar, continuo a rezar, continuo na companhia de Jesus - acrescentou o Pouca Terra, interrompendo-me. - Cala a boca, velho idiota - ripostou o Dean.
- Estou a rezar! - insistiu o Pouca Terra. - Nesse caso, reza para ti próprio.
- O que é que está a atrasar-vos? - gritou a voz do Brutal vinda da sala da arrecadação. Também havia sido esvaziada para nosso uso. Encontravamo-nos de novo na zona da matança; isso era algo que quase se conseguia cheirar.
- Agüenta os cavalos! - gritou-lhe o Harry. - Que raio, não sejas tão impaciente!
- A rezar - continuou o Pouca Terra, brindando-nos com o seu esgar sorridente, desagradável e encovado. - A rezar para que me seja concedida paciência, porra, apenas um pouco de paciência.
- Na verdade, o Bitterbuck é cristão... de acordo com o que ele diz - continuei dirigindo-me aos outros. - Vai sentir-se satisfeito com aquele tipo batista que aqui esteve por ocasião do Tillman Clark. Acho que o nome dele é Schuster. Eu também gosto dele. É rápido e não faz com que eles fiquem todos enervados. Põe-te de pé, Pouca Terra. Já rezaste que chegue para um dia.
- Estou a andar - disse ele. - Estou a andar outra vez, estou a andar outra vez, sim senhor, a caminhar pela Milha Verde.
Baixo como ele era, ainda assim tinha de se encolher um pouco para conseguir transpor a porta, situada na parede mais afastada do meu gabinete. Nós tivemos de nos baixar ainda mais. Sempre que em presença de um verdadeiro condenado, este momento era deveras vulnerável; quando olhei para a plataforma onde se encontrava a Velha Faísca, tendo avistado o Brutal com a arma empunhada, acenei com uma expressão de satisfação. Estava tudo exatamente como devia estar.
O Pouca Terra começou a descer os degraus e parou. As cadeiras desdobráveis de madeira, cerca de quarenta, já se encontravam a postos nos seus lugares. O Bitterbuck atravessaria aquele espaço até à plataforma, num ângulo que o manteria afastado dos espectadores, havendo mais seis guardas que reforçariam a segurança para o que desse e viesse. O Bill Dodge é que seria o responsável por esses. Nunca uma testemunha fora ameaçada por um prisioneiro, apesar da situação de grande tensão... e era assim que eu tencionava manter as coisas.
- Estão prontos, rapazes? - perguntou o Pouca Terra depois de termos reassumido a nossa formação original, ao fundo dos degraus que saíam do meu gabinete. Acenei num gesto afirmativo e encaminhamo-nos para a plataforma. Acima de tudo, aquilo a que mais nos assemelhávamos, pensava eu muitas vezes era a um corpo de guarda de honra que se tinha esquecido da bandeira.
- O que é que eu devo fazer? - perguntou o Percy por detrás da pequena janela com rede de arame, entre a sala da arrecadação e o compartimento do quadro elétrico.
- Observa e aprende - respondi-lhe em voz alta.
- E mantém as mãos afastadas da tua salsicha - acrescentou o Harry num resmungo. No entanto, o Pouca Terra ouviu-o e soltou uma risada cacarejada.
Escoltamo-lo até à plataforma, onde o Pouca Terra se voltou sem que ninguém lhe dissesse para o fazer: o velho veterano em ação.
- A sentar-me - anunciou ele -, a sentar-me, a sentar-me, a ocupar o assento no colo da Velha Faísca. Ajoelhei-me sobre o joelho direito em frente da sua perna direita, enquanto o Dean se ajoelhou sobre o joelho esquerdo em frente da sua perna esquerda. Era nesta altura que nós próprios estaríamos na posição mais vulnerável, sujeitos a um ataque físico, no caso de o homem condenado se passar dos carretos... o que, de quando em quando, acontecia. Ambos posicionamos o joelho dobrado ligeiramente para dentro, a fim de proteger a região das virilhas. Deixamos descair o queixo para poder salvaguardar a zona da garganta. E, como é evidente, avançamos para prender os tornozelos do condenado, neutralizando desta forma e o mais depressa possível qualquer situação de perigo. O Chefe usaria pantufas quando desse o seu derradeiro passeio, mas a frase “poderia ser muito pior, não serve de grande conforto a um homem com a laringe dilacerada. Ou já agora, a contorcer-se no chão com os tomates inchados do tamanho de um grande boião de vidro Mason, enquanto cerca de quarenta espectadores - muitos deles cavalheiros da imprensa - sentados naquelas cadeiras das granjas, observavam tudo com muita atenção.
Prendemos os artelhos do velho Pouca Terra. A grilheta do lado do Dean era ligeiramente maior, uma vez que era aquela por onde passava a corrente. Quando, no dia seguinte à noite, o Bitterbuck se sentasse na cadeira, teria a barriga da perna esquerda rapada. Os Índios têm muito poucos pêlos no corpo, mas nós não queríamos correr o mínimo risco.
Enquanto prendíamos os tornozelos do Pouca Terra, o Brutal manietou-lhe o pulso direito. Por seu lado, o Harry' avançou em passadas mansas, prendendo o esquerdo. Depois de terem terminado, este último acenou ao Brutal que se dirigiu a Van Hay em voz alta.
- Prossegue com a fase um!
Ouvi o Percy a perguntar ao Jack Van Hay qual o significado daquilo (era difícil acreditar na escassez de conhecimentos que ele tinha, no pouco que apreendera desde que começara a trabalhar no Bloco E), ao que se seguiu uma explicação sussurrada do Van Hay. Naquele momento, a expressão Prosseguir com a fase um não teria qualquer significado, mas, quando no dia seguinte a ouvisse da boca do Brutal, o Van Hay rodaria o puxador que acionava o gerador da prisão situado atrás do Bloco B. As testemunhas ouviriam o ruído ensurdecido do mecanismo em funcionamento, enquanto as luzes por toda a prisão seriam mais intensas. Nos outros blocos, os prisioneiros observariam as luzes que emitiriam uma luminosidade invulgar, deduzindo que a execução fora concluída, quando de fato aquilo indicava que estava apenas no início.