À Espera de um Milagre

Stephen King · Capítulo 9 de 9

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À Espera de um Milagre

Posfácio do autor ..................................................................................

Não me parece que deseje escrever outro livro em fascículos (se não houvesse mais razão nenhuma, apenas porque assim os críticos têm oportunidade de nos desancar seis vezes, em vez de uma só); no entanto, não teria deixado passar esta experiência por nada deste mundo. Enquanto escrevo este posfácio no dia anterior à publicação da Parte Dois de À espera de Um Milagre - The Green Mile, a experiência da edição sob a forma de fascículos dá a impressão de ser um êxito, pelo menos em termos de vendas. Por esse motivo, Leitor Constante, desejo agradecer-lhe. E uma coisa um tudo-nada diferente consegue talvez despertar-nos um pouco - permite-nos ter uma nova perspectiva em relação à velha atividade que é a narração de histórias. Seja como for, foi isso o que se passou comigo.

Escrevi apressadamente porque o formato da publicação assim o exigia. Isso fez parte do sentimento de exaltação, mas, por outro lado, também é possível que tenha dado origem a um certo número de anacronismos. Os guardas e os prisioneiros ouvem o programa Allen's Alley no rádio existente no Bloco E, embora eu duvide muito que o Fred Allen tivesse esse programa no ar em 1932. O mesmo poderá ser dito em relação ao Kollege of Musical Knowledge de Kay Kyser. Isto não serve para me livrar das inconsistências, mas por vezes tenho a impressão de que a história, que ainda tão recentemente se limitava a pairar no horizonte, é mais difícil de pesquisar do que a Idade Média ou a época das cruzadas. Fui capaz de concluir que o Brutal pode efetivamente ter dado ao rato que apareceu na Milha o nome de Steamboat Wìlly - o desenho animado da Disney já existia há quase quatro anos por essa altura - mas tenho uma certa desconfiança de que o pequeno livro pornográfico aos quadradinhos com o Popeye e a Olívia Palito é um produto posterior. É possível que eu lime algumas destas arestas quando me decidir a corrigir À espera de Um Milagre - The Green Mile num só volume... mas talvez acabe por deixar ficar os disparates. Ao fim e ao cabo, não é verdade que o próprio Shakespeare incluiu em Júlio César o anacronismo de um relógio a bater as horas, muito antes de os relógios mecânicos terem sido inventados?

Compilar À espera de Um Milagre - The Green Mile num só volume apresentaria os seus desafios muito singulares, e já cheguei a essa conclusão em parte porque o livro não poderia ser publicado da mesma forma como foi editado em fascículos. Como me servi do Charles Dickens como modelo, perguntei a várias pessoas como é que o Dickens teria resolvido o problema de refrescar a memória dos seus leitores, no início de cada um dos novos episódios. Tinha esperado algo dentro dos moldes da sinopse que precedera cada um dos suplementos das séries do meu tão querido Saturday Evening Post, tendo vindo a descobrir que o Dickens não havia sido tão frontal: ele inseria a sinopse no contexto da própria narrativa.

Enquanto eu decidia como é que haveria de abordar este aspecto, a minha mulher começou a dizer-me (ela não é exatamente uma rezingona, mas por vezes é capaz de advogar de forma bastante implacável) que eu nunca tinha chegado a terminar a história do Mister Jingles, o rato do circo. Concluí que ela tinha razão e comecei por compreender que, ao fazer do Mister Jingles um segredo do Paul Edgecombe ao longo da sua velhice, poderia criar uma “história principal” bastante interessante. (O resultado é um pouco como a forma que foi assumida na versão do filme As Mulheres do Sul.) De fato, tudo o que existe na história principal do Paul - a história da sua vida no lar de Georgia Pines - veio a deixar-me satisfeito. Muito em particular, agradou-me a maneira como o Dolan, o auxiliar do lar, e o Percy Wetmore assumiram quase a mesma identidade na mente do Paul. E isso não foi algo que eu tivesse planeado ou que houvesse feito de propósito; à semelhança dos trabalhos de ficção mais bem conseguidos, a pouco e pouco os elementos foram-se enquadrando nos seus devidos lugares.

Quero agradecer ao Ralph Vicinanza por me ter dado em primeiro lugar a idéia da narrativa em fascículos, assim como a todos os meus amigos na Viking Penguin e Signet por me terem dado todo o seu apoio, embora de início se sentissem assustados de morte (todos os escritores são loucos e, como é evidente, eles tinham conhecimento disso). Também quero estender os meus agradecimentos à Marsha DeFilippo, a qual transcreveu todo um bloco de apontamentos cheio da minha arrevesada escrita à mão, sem nunca se ter queixado. Bem... só muito raramente é que se queixou.

Mas, acima de tudo, desejo agradecer à minha mulher, Tabitha, que leu esta história e disse que lhe agradava. Quase sempre, todos os escritores têm um qualquer leitor ideal em mente quando escrevem, penso eu, e a minha mulher é o meu. Nem sempre estamos inteiramente de acordo quando o assunto é o que cada um de nós escreve (que diabo, raramente estamos de acordo quando fazemos as nossas compras “em conjunto no supermercado), mas, quando ela diz que é bom, geralmente tem razão. Porque ela é uma pessoa inflexível sempre que eu tento fazer batota ou encurtar caminhos; isso nunca lhe escapa.

E o senhor, Leitor Constante. Também quero agradecer-lhe e, se tiver alguma idéia a respeito de À espera de Um Milagre - The Green Mile, na sua forma de volume único, por favor não hesite em informar-me.

STEPHEN KING

Nova Iorque , 28 de Abril de 1996

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