À Espera de um Milagre

Stephen King · Capítulo 3 de 9 · parte 1/3

Páginas do PDF

À Espera de um Milagre

Parte Um ...........................................................................................

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

As duas raparigas mortas

 

1

Isto aconteceu em 1932, quando a penitenciária estadual ainda se situava em Cold Mountain... Bem como, é claro, a cadeira elétrica.

Os reclusos costumavam dizer piadas acerca da cadeira, da forma que as pessoas têm por hábito troçar sempre daquilo que lhes incute medo, sem que consigam afastar-se dessas mesmas coisas. Chamavam-lhe “Velha Faísca” ou “Grande Fritadeira”. Diziam piadas relativas à conta da eletricidade, e como o diretor Moores iria cozinhar o seu peru do jantar do Dia de Ação de Graças desse Outono, uma vez que a mulher, Melinda, se encontrava demasiado doente para poder cozinhar.

No entanto, para os que eram realmente obrigados a sentar-se nessa cadeira, o humor desaparecia rapidamente da situação. Durante o período de tempo que passei em Cold Mountain, tive oportunidade de assistir a setenta e oito execuções (este é um número em relação ao qual nunca me senti confundido; recordar-me-ei dele até mesmo no meu leito de morte) e tenho a impressão de que; para a maioria desses homens, a verdade do que estava a acontecer-lhes penetrava finalmente nas suas mentes no momento em que sentiam os tornozelos a serem presos ao carvalho sólido das pernas da Velha Faísca. Era nessa altura que se instalava a percepção (que se podia ler nos seus olhos e que se traduzia numa expressão de frio desalento) de que as próprias pernas haviam chegado ao termo da sua carreira. O fluxo sanguíneo continuava a deslizar pelos seus organismos, os músculos continuavam fortes; no entanto, estavam acabados, jamais voltariam a percorrer outro quilômetro pelo campo, tão-pouco voltariam a ter a oportunidade de dançar com uma rapariga num baile no celeiro. Os clientes da Velha Faísca tomavam conhecimento das suas mortes dos artelhos para cima. Havia um saco de seda negra que lhes cobria a cabeça, depois de terem concluído os seus derradeiros comentários incoerentes e em grande parte desarticulados. Em princípio, aquilo era em seu beneficio; eu sempre estive convencido de que na realidade se destinava a nós, para nos impedir de presenciar a pavorosa vaga de terror que se espelhava nos seus olhos quando percebiam que estavam prestes a morrer com os joelhos dobrados.

Em Cold Mountain não existia um corredor da morte, apenas o Bloco E, distanciado dos outros quatro e tendo mais ou menos um quarto do seu tamanho, construído em tijolo em vez de madeira, com um telhado horrível de metal na sua cor natural, que durante o sol do Verão cintilava como se fosse um globo ocular em delírio. No interior, havia seis celas, três de cada lado de um amplo corredor central; cada uma delas tinha quase o dobro do tamanho das celas existentes nos outros quatro blocos. Também eram ocupadas por um único recluso. Umas acomodações fantásticas, levando em consideração que se tratava de uma prisão (especialmente durante a década de 30); todavia, os prisioneiros tê-las-iam trocado de bom grado por qualquer cela nos outros quatro blocos. Acreditem em mim, eles não teriam mostrado a mínima hesitação.

Nunca houve um único período durante todos os anos que ocupei o lugar de superintendente de bloco celular em que essas seis celas estivessem ocupadas ao mesmo tempo - graças a Deus pelos pequenos favores. Quatro era o número máximo, negros e brancos à mistura (em Cold Mountain não se verificava qualquer tipo de segregação racial entre os mortos-vivos); aquele lugar era um pequeno pedaço do inferno. Um destes reclusos era uma mulher, a Beverly McCall. Era tão negra como o ás de espadas e de uma beleza tão grande como o pecado que nunca temos a coragem de cometer. Suportara seis anos de espancamentos por parte do marido, embora não estivesse disposta a agüentar a sua traição por um só dia que fosse. Na noite em que descobriu que ele a enganava, fez uma espera ao infeliz Lester McCall, conhecido pelos amigos (e, presumivelmente, pela sua amante de duração extremamente curta) pelo nome de Cutter, tendo-se colocado ao cimo das escadas que davam acesso ao apartamento por cima da barbearia do marido. Esperou até ele ter o sobretudo meio despido e deixou cair as suas entranhas infiéis nos sapatos de duas tonalidades que ele usava. Serviu-se de uma das navalhas do próprio Cutter para o esquartejar. Duas noites antes do seu encontro marcado com a Velha Faísca, chamou-me à sua cela para me dizer que fora visitada em sonhos pelo seu pai espiritual africano. Este dera-lhe instruções para que se libertasse do seu nome de escrava, a fim de morrer com o seu apelido de mulher livre, Matuomi. Foi esse o seu pedido, que a sua sentença de morte fosse lida com o nome de Beverly Matuomi. Imagino que o seu pai espiritual não lhe tenha atribuído um nome próprio, ou pelo menos um que ela pudesse identificar. Eu disse-lhe que sim, que não haveria qualquer problema em satisfazer o seu pedido. Uma das coisas que aqueles anos em que trabalhei como mandão-chefe me ensinaram foi nunca recusar o pedido de um condenado, a menos que a isso fosse absolutamente forçado. No caso de Beverly Matuomi, tal não fez a mínima diferença, fosse de que maneira fosse. O governador do estado telefonou no dia seguinte, por volta das três da tarde, comunicando que a pena havia sido comutada para prisão perpétua, a ser cumprida nas instalações penais para mulheres de Grassy Valley - todas penais e sem pênis, como costumávamos dizer nessa época. Deixem-me que vos confesse que fiquei bastante satisfeito por ver o traseiro arredondado da Bex seguir para a esquerda, em vez de para a direita, quando ela se apresentou junto da minha mesa de trabalho.

Mais ou menos trinta e cinco anos mais tarde - tinham de ser pelo menos três décadas e meia - li esse nome na página do jornal onde eram publicados os anúncios de óbito, por baixo da fotografia de uma senhora de raça negra, de faces magras e com uma nuvem de cabelo encanecido, que usava uns óculos com armações de osso. Era a Beverly. Tinha passado os últimos dez anos da sua vida em liberdade, de acordo com o que o óbito dizia, e conseguira salvar a biblioteca da pequena cidade de Raines Falls quase sem ajuda. Também ensinara catequese aos domingos, tendo sido muito acarinhada naquela cidade dos confins do mundo. BIBLIOTECÁRIA MORRE DE ATAQUE CARDÍACO, rezava o cabeçalho, e abaixo deste, num tipo mais pequeno, como se tivesse sido um pensamento que ocorrera no último minuto: Cumpriu pena durante mais de vinte anos por homicídio. Só os olhos, grandes e cintilantes por detrás dos óculos com armações de osso, é que eram os mesmos. Os olhos de uma mulher que até mesmo aos setenta anos não hesitaria em retirar uma navalha do líquido desinfetante azul, caso a necessidade lhe parecesse premente. Sabemos como são os assassinos, ainda que acabem a sua vida como velhinhas que ocupam a posição de bibliotecárias em pequenas cidades meio adormecidas. Pelo menos temos a obrigação de saber, quando passamos tanto tempo a vigiar homicidas, tal como eu próprio. Só houve uma ocasião em que questionei a natureza das minhas funções. Estou convencido de que foi isso que me levou a escrever esta narrativa.

O amplo corredor no centro do Bloco E tinha o chão revestido a linóleo, da tonalidade de limas velhas; assim, o que nas outras prisões se chamava “Última Milha”, na de Cold Mountain era conhecido por “Milha Verde”. Calculo que teria a extensão de sessenta passos de sul a norte, desde um extremo ao outro. Ao fundo situava-se a cela do isolamento. Na extremidade do topo havia uma espécie de entroncamento. Uma viragem à esquerda significava a vida - isto é, no caso de se apelidar de vida aquilo que se passava no pátio, onde o sol incidia, inclemente, enquanto se faziam os exercícios físicos; grande número dos reclusos vivia ali ao longo de muitos anos, sem que se lhes detectassem quaisquer efeitos secundários aparentes. Ladrões e piromaníacos, criminosos que haviam incorrido em ofensas sexuais, todos eles falavam entre si do que tinham a falar, davam as suas caminhadas e procediam às suas pequenas transações.

No entanto, uma viragem à direita e tudo era inteiramente diferente. Em primeiro lugar, ia-se ao meu gabinete (onde a alcatifa também era esverdeada, uma coisa que eu pensava constantemente em alterar, mas que por qualquer razão acabei sempre por nunca fazer), tendo a pessoa em questão de se apresentar em frente da minha secretária, a qual era flanqueada pela bandeira americana à esquerda e pela bandeira do estado à direita. Na parede mais afastada existiam duas portas. Uma dava acesso a uns pequenos lavabos que eram utilizados por mim e pelos guardas prisionais do Bloco E (por vezes, até mesmo o diretor Moores se servia daquela casa de banho); a outra abria para uma espécie de sala de arrecadação. Era para ali que se acabava por ir, no caso de se ter de percorrer a Milha Verde.

Tratava-se de uma porta pequena - sempre que eu a transpunha era obrigado a baixar a cabeça, e o John Coffey foi forçado a sentar-se para poder transpô-la. Tinha-se acesso a um pequeno patamar, descendo-se depois três degraus em cimento até a um chão de madeira. Era uma sala esquálida e sem aquecimento que tinha um telhado de metal, exatamente igual ao do bloco que lhe ficava adjacente. Durante o Inverno, fazia ali frio suficiente para se poder observar a respiração a condensar-se, mas era sufocante ao longo do Verão. Durante a execução do Elmer Manfred - o que estou em crer ocorreu em Julho ou Agosto de 1930 - tivemos nove testemunhas que desfaleceram.

No lado esquerdo da arrecadação - uma vez mais - existia a vida. Ferramentas (todas presas em estruturas cobertas por correntes, como se fossem carabinas em vez de pás e picaretas), artigos secos, sacos de sementes que na Primavera eram semeadas nos jardins da penitenciária, caixas de papel higiênico, grades com materiais para a serralharia da prisão... até mesmo sacos de cal para marcar as linhas do campo de basquetebol e de futebol - os condenados costumavam jogar naquilo que era conhecido por “Pastagem”, e as tardes de Outono eram ansiosamente aguardadas em Cold Mountain.

À direita - uma vez mais - a morte. A própria Velha Faísca instalada num estrado de tábuas no canto sudeste da arrecadação, com as suas pernas de carvalho sólido, braços largos também de carvalho que haviam absorvido o suor aterrorizado de muitos homens durante os derradeiros minutos das suas vidas, e o capacete de metal, o qual habitualmente se encontrava pendurado nas costas da cadeira de uma forma a dar nas vistas, qual capacete de robô num livro de banda desenhada do Buck Rogers. Dele saía um cabo elétrico, que passava através de um orifício circular recortado num bloco de cimento da parede, que se encontrava por detrás da cadeira. Ao lado havia um balde de zinco galvanizado. Caso se olhasse para o seu interior, ver-se-ia um círculo de esponja cortado exatamente à medida para poder acomodar o capacete de metal. Antes de uma execução, era mergulhado em salmoura, para que a passagem da corrente direta, através do cabo elétrico e da esponja, se fizesse nas melhores condições e entrasse no cérebro do condenado.

 

2

1932 foi o ano do John Coffey. Os pormenores poderiam ser encontrados nos jornais, onde continuariam para alguém interessado poder consultá-los - alguém que tivesse mais energia do que um homem já muito envelhecido que definhava no fim da vida, num lar da Jórgia para a terceira idade. Recordo-me bem de que esse Outono foi de muito calor; extremamente quente. Um mês de Outubro que mais se assemelhara a Agosto, e a mulher do diretor, Melinda, esteve internada durante algum tempo no hospital de Indianola. Também foi nesse Outono que tive a maior infecção urinária da minha vida; não foi tão grave que me obrigasse a ser também hospitalizado, embora quase suficientemente grave para que eu desejasse a morte de cada vez que tinha de verter águas. Foi o Outono do Delacroix, o pequeno francês calvo que tinha um rato, aquele que costumava aparecer no Verão e que fazia aquele truque engraçado com o carretel. Mas, acima de tudo, aquele foi o Outono em que o John Coffey deu entrada no Bloco E, tendo sido condenado à morte pelo crime de estupro e assassínio das gêmeas Detterick.

Durante cada um dos turnos havia quatro ou cinco guardas no bloco, apesar de muitos deles serem temporários. O Dean Stanton, o Harry Terwilliger e o Brutus Howell (os homens chamavam-lhe “Brutal”, mas isso não passava de uma simples brincadeira, ele não faria mala uma mosca, salvo se a isso fosse forçado, a despeito da sua constituição física) já estão todos mortos, o mesmo acontecendo com o Percy Wetmore, o qual, efetivamente, era brutal.., e estúpido. A presença do Percy no Bloco E não tinha qualquer razão de ser, pois era um local onde um caráter malévolo se mostrava inútil e por vezes perigoso; porém, como ele tinha laços familiares por afinidade com o diretor, fora autorizado a trabalhar ali.

Foi o Percy Wetmore quem conduziu o Coffey até ao bloco soltando o supostamente tradicional grito de “Homem morto a caminhar! Homem morto a caminhar, a passar por aqui!”

O tempo continuava a estar tão quente quanto as dobradiças das portas do inferno, fosse ele Outubro ou não. A porta que dava acesso ao pátio onde tinham lugar os exercícios físicos abriu-se, deixando entrar uma torrente de grande luminosidade, acompanhada do maior homem que alguma vez me foi dado ver, com a exceção de alguns tipos que jogam basquetebol e que se vêem no televisor que temos no “Centro Recreativo” desta casa para cabeçudos atoleimados, onde eu acabei por vir parar. Estava preso com correntes que lhe manietavam os braços junto ao peito do tamanho de um barril de água; tinha grilhetas nos tornozelos, arrastando uma corrente que as unia e a qual produzia o som de uma cascata de moedas, enquanto era arrastada pelo corredor de linóleo cor de lima que existia entre as celas. O Percy Wetmore mantinha-se num dos lados do homem, e no outro o escanzelado minorca do HaiTy Terwilliger; pareciam crianças a caminhar junto de um urso que acabara de ser capturado. Até o Brutus Howell dava a impressão de ser um garoto junto do Coffey, e não esqueçamos que o Brutal media quase dois metros e era igualmente entroncado, um jogador de futebol norte-americano que jogava ao ataque, o qual ganhara uma bolsa para poder jogar pela Universidade Estadual da Luisiana, até que chumbou e foi obrigado a regressar a casa, de volta aos sulcos da terra.

O John Coffey era um indivíduo de raça negra, tal como o era a maior parte dos homens que passavam algum tempo no Bloco E antes de serem executados ao colo da Velha Faísca, e tinha mais de dois metros. No entanto, não era tão esguio como os tipos do basquetebol que apareciam na televisão - era largo de ombros e possuía um tórax portentoso, vendo-se os músculos fortes por todo o corpo. Tinham-lhe dado o maior par de calças de ganga que havia em armazém, embora a bainha lhe desse pelo meio da barriga das pernas entroncadas e cheias de cicatrizes. A camisa mantinha-se aberta até abaixo do peito, enquanto as mangas acabavam algures nos antebraços. Numa das suas mãos enormes trazia um boné, o que até era melhor; caso estivesse colocado na sua cabeça calva, que mais parecia uma bola de mogno luzidio, ter-se-ia assemelhado ao boné que os macacos dos tocadores de realejo costumavam usar, com a única diferença que seria azul em vez de vermelho. Parecia capaz de rebentar as correntes que o manietavam com tanta facilidade como qualquer pessoa poderia rasgar as fitas de um presente de Natal; todavia, quando se olhava para o seu rosto, sabia-se que não faria nada que se assemelhasse a isso. Não tinha uma expressão lorpa - embora essa fosse a opinião que o Percy havia formado; não foi preciso muito tempo para o Percy ter começado a chamar-lhe mentecapto - mas dava a impressão de que se sentia perdido. Continuava a olhar em seu redor como se tentasse compreender onde é que se encontrava. Talvez mesmo para descobrir quem ele próprio era. O meu primeiro pensamento foi de que ele se parecia com um Sansão negro... com a diferença de que seria depois de Dalila lhe ter rapado a cabeça com a sua pequena mão infiel, tendo-lhe extorquido todo o gosto pela vida.

- Homem morto a caminhar! - troava a voz do Percy, arrastando o homem de aspecto ursino pela algema que lhe rodeava o pulso, como se acreditasse realmente que tinha poder para o deslocar, ainda que o Coffey decidisse que não desejava fazer mais qualquer movimento de sua livre vontade. O Harry não fez o mínimo comentário, embora exibisse uma expressão de constrangimento. - Homem morto...

- Já chega dessa conversa - atalhei eu da cela que fora destinada ao Coffey; aguardava sentado em cima da sua tarimba. É claro que eu fora avisado da sua chegada, estava ali para lhe dar as boas-vindas e me responsabilizar por ele, mas não tinha a mais pequena noção do seu tamanho até o ver. O Percy brindou-me com um olhar que dizia que todos nós sabíamos que eu era um idiota (exceto, como é evidente, o mentecapto gigantesco, o qual só sabia violar e assassinar menininhas), mas não disse nada.

Os três detiveram-se do lado de fora da porta da cela, que se mantinha aberta em cima das calhas por onde corria. Acenei para o Harry que me perguntou:

- Tem a certeza de que quer ficar ali dentro com ele, chefe? - Não haviam sido muitas as vezes em que eu tivera oportunidade de ver o Harry dar mostras de nervosismo; ele mantivera-se firmemente ao meu lado quando dos tumultos que tinham ocorrido havia seis ou sete anos, sem nunca ter vacilado, até mesmo quando começaram a circular rumores de que alguns dos amotinados possuíam armas... Todavia, naquele momento, não conseguia ocultar o nervosismo que o invadia.

- Tencionas criar-me problemas, vadio? - perguntei, continuando sentado à beira da tarimba e tentando não deixar transparecer o quanto me sentia um desgraçado: a infecção urinária que mencionei anteriormente ainda não tinha atingido a gravidade que mais tarde veio a ter, mas deixem que vos diga que não era nenhum piquenique na praia.

O Coffey abanou lentamente a cabeça - uma vez para a esquerda e outra para a direita, parando em seguida ao meio. Logo que os seus olhos me encontraram nunca mais voltaram a largar-me.

O Harry segurava numa pequena prancha de madeira, à qual estavam presos os impressos referentes à admissão do Coffey.

- Entrega-lhe os papéis - ordenei eu ao Harry. - Coloca-os na mão dele.

O Harry fez como eu o havia instruído. O gigantesco rafeiro aceitou a papelada como se fosse um sonâmbulo.

-- Agora entregamos, vadio - acrescentei, e o Coffey obedeceu, com as correntes a chocalharem e a arrastarem. Para transpor a porta da cela, foi obrigado a vergar a cabeça.

Com o olhar percorri-o de alto a baixo, para poder abarcar toda a sua estatura, certificando-me de que não se tratava de uma ilusão de óptica. Era real: um pouco acima de dois metros de altura. O peso que fora indicado rondava os cento e quarenta quilogramas, mas acho que era apenas uma estimativa; deveria pesar uns cento e sessenta quilos. Por baixo do espaço reservado às cicatrizes e demais marcas de identificação, via-se uma palavra em letras de imprensa, na escrita laboriosa do Magnusson, o antigo prisioneiro de confiança que trabalhava nos registros: Numerosas.

Ergui o olhar. O Coffey tinha-se deslocado um pouco para um dos lados, o que me permitia ver o Harry de pé do outro lado do corredor, em frente da cela do Delacroix - este era o nosso único encarcerado no Bloco E, na altura em que o Coffey chegou. O Del era um homem esguio com uma acentuada calvície, exibindo a expressão preocupada de um contabilista que sabia que o desfalque que cometera seria descoberto dentro em pouco. O rato que ele domesticara encontrava-se sobre um dos seus ombros.

O Percy Wetmore mantinha-se encostado à ombreira da cela que acabara de ser atribuída ao John Coffey. Empunhava o bastão de nogueira que retirara de uma espécie de coldre feito de encomenda onde costumava mantê-lo, batendo-o contra a palma da mão como um homem que tem um brinquedo e anseia poder utilizá-lo. De súbito foi-me impossível suportar a sua presença ali. Talvez isso se devesse ao calor tão anormal para aquela época do ano, talvez à infecção urinária que me provocava um ardor nas virilhas, e tornava insuportável a comichão por baixo da roupa interior de flanela, talvez ao fato de eu saber que o estado me havia enviado um homem de raça negra, à beira da idiotice, para que eu o executasse, e que o Percy estava desejoso por poder trabalhá-lo um pouco antes que tal viesse a acontecer. Provavelmente, eram todas estas coisas. Fosse o que fosse, deixei de me preocupar com as . ligações políticas do Percy durante algum tempo.

- Percy - disse. - Estão a mudar de casa na enfermaria.

- O Bill Dodge está encarregado dessa tarefa...

- Eu sei - acrescentei. - Mas vai dar-lhe uma ajuda. - Isso não faz parte das minhas funções - retorquiu o Percy, renitente. - Este giga parvalhado é que faz. - O Percy utilizava este termo para troçar com os grandes; uma combinação de gigante e aparvalhado. Invejava os homens de estatura elevada e entroncados. Não era escanzelado como, por exemplo, o Harry Terwilliger, mas era atarracado. Um tipo que se assemelhava a uma espécie de galo de capoeira, o gênero que gostava de provocar brigas, muito em especial quando as coisas não poderiam deixar de lhe correr de feição. E vaidoso no que dizia respeito ao cabelo. Mal conseguia manter as mãos afastadas da cabeleira.

- Nesse caso, já fizeste o que tinhas a fazer - acrescentei. - Vai já para a enfermaria.

O beiço inferior esboçou um trejeito de amuo. O Bill Dodge e os seus homens estavam a mudar caixas e pilhas de lençóis, até mesmo as camas; toda a enfermaria iria ser instalada num novo edifício situado na ala ocidental da prisão. Trabalho esforçado que implicava carregar coisas pesadas. O Percy Wetmore não queria ter nada a ver com aquele gênero de tarefas.

- Eles já têm todos os homens de que necessitam - insistiu.

- Nesse caso, vai até lá e faz de chefe - repliquei, erguendo a voz. Reparei que o Harry se retraía, embora eu não tivesse prestado atenção a isso. Se o governador do estado ordenasse ao diretor Moores que me despedisse por eu ter feito ondas onde não devia, quem é que o Hal Moores colocaria no meu lugar? O Percy? Isso teria muitíssima piada. - Francamente, Percy, não me interessa o que possas fazer, desde que saias daqui durante algum tempo.

Por breves instantes, pensei que ele iria defender a sua posição, provocando problemas a sério, com o Coffey a assistir a tudo aquilo, como se fosse o maior relógio parado do mundo. O Percy, porém, optou por guardar o seu brinquedo na espécie de coldre feito por encomenda - que dava expressão a toda a sua arrogância - tendo começado a percorrer o corredor num passo pesado. Não me recordo de qual era o guarda que estava de serviço à mesa do corredor nesse fim de tarde - calculei que seria um dos temporários - mas o certo é que o Percy não deveria ter gostado muito da expressão no seu rosto, pois disse numa voz rosnada quando passou pelo homem:

- Tira esse sorriso estúpido da tua cara de merda ou sou eu quem o fará por ti. - Ouviu-se um entrechocar de chaves, uma momentânea vaga de luminosidade veio do pátio de recreio, e depois o Percy Wetmore desapareceu, pelo menos de momento. O rato do Delacroix correu de um ombro ao outro do pequeno francês, com as cerdas dos bigodes a fremirem.

- Está sossegado, Mister Jingles - disse o Delacroix, ao que o rato se deteve no seu ombro esquerdo, como se tivesse compreendido o que lhe fora dito. - Deixa-te estar quieto e sossegado. - No sotaque cajun 1 do Delacroix, as palavras adquiriam a entoação exótica de um estrangeirismo.

- Vai descansar, Del - disse eu de forma sucinta. - Vai-te deitar. Este assunto também não te diz respeito.

Ele fez como lhe disse. Tinha violado e morto uma rapariga e deixara o corpo atrás do prédio onde ela vivia, depois de o ter regado com querosene e de lhe ter chegado fogo na esperança de conseguir eliminar as provas incriminatórias do seu crime. O fogo acabou por se propagar até ao

 

1 Nome que se dá aos descendentes dos colonizadores franceses do estado da Luisiana. (N. da T.) próprio edifício, envolvendo-o em chamas, e morreram mais seis pessoas, entre as quais duas crianças. Aquele era o único crime que havia cometido, não passando agora de um homem de maneiras brandas com um rosto preocupado, uma coroa calva e uns cabelos compridos que lhe chegavam ao colarinho da camisa. Dentro de pouco tempo, iria sentar-se na Velha Faísca, e esta poria fim aos seus dias... No entanto, o que o levara a cometer aquele crime pavoroso já desaparecera e agora encontrava-se estendido em cima da sua tarimba, permitindo que o seu pequeno companheiro lhe corresse pelas mãos enquanto soltava pequenos guinchos. De certa forma, aquilo era o pior de tudo: a Velha Faísca nunca incinerava o que se encontrava dentro deles, e as drogas com que os injetam hoje em dia não conseguem adormecer isso. Desocupa-se o corpo, a alma salta para dentro de qualquer outra pessoa, deixando-nos a nós a tarefa de matar as cascas secas que, de qualquer forma, não estão realmente vivas.

Concentrei a minha atenção no homem gigantesco.

- Se eu deixar que o Harry te liberte dessas correntes, prometes portar-te bem?

Ele acenou afirmativamente. Um gesto que era como o seu abanar de cabeça: para baixo, para cima, de volta ao centro. Os seus olhos estranhos fitavam-me. Neles refletia-se uma espécie de paz, mas não o gênero em que eu tivesse a certeza de poder confiar. Com o dedo dobrado indiquei ao Harry que se aproximasse, o que ele fez, passando a soltar as correntes. Não mostrou o mais pequeno receio, até mesmo quando se ajoelhou entre as pernas do Coffey, grossas como troncos, a fim de abrir as grilhetas que lhe prendiam os artelhos, o que até certo ponto me tranqüilizou. Fora a presença do Percy que enervara o Harry, e eu confiava nos instintos deste último. Confiava nos instintos de todos os meus homens no Bloco E, exceto nos do Percy.

Tenho sempre um pequeno discurso para os recém-chegados ao bloco; todavia, senti-me a hesitar perante o Coffey: parecia-me tão anormal, e não apenas no tamanho.

Quando o Harry retrocedeu (o Coffey havia permanecido imobilizado durante toda a cerimônia da abertura das grilhetas e correntes, numa postura tão plácida como a de um percherão), soergui o olhar até ao novo homem que ficaria sob a minha responsabilidade, batendo na prancheta com o polegar. - Sabes falar, rapaz?

- Sim senhor, chefe, sei - respondeu ele. A sua voz era grave e tranqüila, com uma entoação ribombaste. Trouxe-me à mente o motor de um trator acabado de ser afinado. Não falava com a toada arrastada característica das gentes do Sul; no entanto, reparei posteriormente que o seu discurso, de certa forma, era estruturado à maneira de falar do Sul. Como se ele fosse oriundo dessa zona, mas não fosse de lá. Não dava a impressão de ser iletrado, embora não parecesse ter estudos. Na forma de se expressar, assim como em muitas outras coisas, o homem era um mistério. Acima de tudo, eram os seus olhos que me perturbavam - neles refletia-se uma espécie de ausência beatífica, como se se encontrasse muito distante daquele lugar.

- Chamas-te John Coffey 2 - continuei.

- Sim senhor, chefe, tal como a bebida, com a diferença de que não se escreve da mesma maneira'.

- Isso quer dizer que és capaz de soletrar, não é verdade? Sabes ler e escrever?

- Só o meu nome, chefe - respondeu ele com grande serenidade.

Suspirei e comecei a apresentar-lhe uma versão encurtada do meu discurso habitual. Já tinha chegado à conclusão de que o homem não iria causar quaisquer problemas. Nisso eu estava tão certo quanto errado.

- O meu nome é Paul Edgecombe - apresentei-me. - Sou o superintendente do Bloco E... o manda-chuva. Se pretenderes alguma coisa

 

2 Trocadilho intraduzível: Coffey e coffee (café) são homófonas. (N. da T.). de mim, pergunta pelo meu nome. Se eu não estiver aqui, pede para falar com este outro homem, o Harry Terwilliger. Também poderás perguntar por Mister Stanton ou Mister Howell. Compreendes o que estou a dizer? O Coffey fez um gesto afirmativo com a cabeça.

- Quero ainda avisar-te de que não deves esperar obter aquilo que queres, a menos que nós decidamos que tens necessidade disso... Isto não é nenhum hotel. Continuas a perceber o que estou a dizer?

Uma vez mais, ele acenou que sim.

- Este lugar é muito tranqüilo, vadio... não é como o resto da prisão. Aqui só estás tu e o Delacroix. Não serás obrigado a trabalhar; passarás a maior parte do teu tempo sentado. O que te dará a oportunidade de poder meditar nas coisas. - Para a maioria deles, aquilo era demasiado tempo, mas não partilhei este pensamento com o Coffey. - Quando tudo está em ordem, por vezes ligamos o rádio. Gostas de ouvir rádio?

Ele acenou que sim, ainda que num trejeito de dúvida, como se não tivesse a certeza daquilo que era um rádio. Mais tarde vim a descobrir que, até certo ponto, isso era verdade: o Coffey reconhecia as coisas quando voltava a vê-las; porém, durante o espaço de tempo em que estas não se encontravam. presentes, esquecia-as. Conhecia as personagens da série Our Gal Sunday, embora a recordação que guardava da ação do último episódio fosse bastante vaga.

- Se te portares como deve ser, comerás sempre a horas e nunca verás o interior da cela do isolamento ao fundo do corredor, nem serás obrigado a usar um desses casacões de lona que abotoam nas costas. Poderás passar duas horas no pátio todas as tardes das quatro às seis, exceto aos sábados, quando o resto dos prisioneiros realiza os seus jogos de futebol. Se houver alguém que queira visitar-te, poderás receber as tuas visitas nas tardes de domingo. Tens alguém que queira ver-te, Coffey?

- Não tenho ninguém, chefe - retorquiu ele, abanando a cabeça.

- Bem, nesse caso, o teu advogado - adiantei.

- Acho que nunca mais vou vê-lo - proferiu. - Ele foi-me emprestado. Não me parece que seja capaz de descobrir o caminho até aqui, por entre estas montanhas.

Olhei-o atentamente, a fim de descortinar se estaria a tentar brincar comigo, mas não foi essa a impressão com que fiquei. Diga-se de passagem que não tinha esperado nada de diferente. Os recursos ao tribunal não se destinavam a gente da igualha do John Coffey, pelo menos nesses tempos; eles tinham direito ao seu dia em tribunal, após o que o mundo se esquecia da sua existência, até as pessoas lerem no jornal que um determinado fulano havia consumido, por volta da meia-noite, um pouco de eletricidade a mais. Contudo, a realidade era que um homem que tivesse mulher, filhos ou amigos, e que aguardasse ansiosamente a sua visita aos domingos à tarde, era mais fácil de controlar, caso o controlo viesse a ser um problema. Naquele caso não seria essa a questão, o que era uma vantagem. Ele era tão diabolicamente grande...

Agitei-me um pouco em cima da tarimba, tendo chegado à conclusão de que era possível sentir-me um pouco mais confortável nas partes baixas se me levantasse, o que fiz. Numa atitude respeitosa, o Coffey retrocedeu, afastando-se de mim e entrelaçando as mãos à frente do corpo.

- O tempo que tiveres de passar aqui poderá ser fácil ou difícil, vadio, tudo dependerá de ti. Estou aqui para te dizer que seria preferível que facilitasses as coisas a todos, porque, no fim, tudo isto irá dar ao mesmo. Tratar-te-emos de forma adequada, de acordo com o que venhas a merecer. Tens algumas dúvidas que queiras esclarecer?

- Depois da hora de dormir costumam deixar alguma luz ligada? - perguntou ele de imediato, como se só tivesse aguardado por uma oportunidade para poder fazer aquela pergunta.

Pestanejei, surpreendido. Todos os prisioneiros recém-chegados ao Bloco E já me haviam feito uma grande quantidade de perguntas estranhas - numa ocasião até me tinham perguntado qual o tamanho das mamas da minha mulher - mas nunca ninguém tinha abordado aquele assunto.

O Coffey esboçava um sorriso que refletia um certo mal-estar, como se soubesse que íamos pensar que era um imbecil, embora lhe tivesse sido impossível evitar aquela pergunta. - É porque às vezes sinto-me um pouco assustado na escuridão - justificou ele. - Se estiver num lugar estranho. Olhei para ele - para o tamanho gigantesco daquele corpo - e senti-me estranhamente tocado. Não sei se sabem, mas eles conseguem comover-nos; não os víamos no seu pior, a malhar o ferro dos seus horrores, quais demônios numa forja.

- Sim, isto por aqui é bastante iluminado durante toda a noite - tranqüilizei-o eu. - Metade das luzes a todo o comprimento da Milha está sempre ligada, desde as nove horas até às cinco da manhã. - Foi então que me dei conta de que ele não faria a mínima idéia do que eu estava a falar... Não deveria saber distinguir a Milha Verde do lodaçal do Mississipi, por isso indiquei: - No corredor.

Acenou com uma expressão de alívio. Não tenho bem a certeza se ele sabia ó que era um corredor; no entanto, podia ver as lâmpadas de duzentos watts nas suas armações de rede de arame.

Então, fiz algo que nunca fizera antes a nenhum prisioneiro: ofereci-lhe a minha mão. Ainda hoje não compreendo o que me levou àquela atitude. Talvez tenha sido o fato de ele me ter feito a pergunta sobre as luzes. Garanto-vos que o meu gesto fez com que o Harry Terwilliger pestanejasse de perplexidade. O Coffey agarrou-me na mão com uma ternura surpreendente, tendo esta desaparecido quase completamente no interior da sua, e foi tudo. Eu tinha recebido outra mosca na minha teia de aranha mortífera. Estávamos despachados.

Saí da cela. O Harry fez deslizar a porta na calha e fechou à chave as duas fechaduras. Durante um momento ou dois, o Coffey deixou-se ficar no mesmo lugar, como se estivesse indeciso quanto ao que fazer em seguida; depois, optou por se sentar em cima da tarimba, com as enormes mãos entre os joelhos, a cabeça vergada sobre o peito, como um homem que rezasse ou sofresse de um grande desgosto. Pouco depois, começou a dizer qualquer coisa na sua estranha voz, onde se adivinhava um sotaque que era quase do Sul. Ouvi-o com toda a clareza e, embora não estivesse muito a par daquilo que ele fizera - não é necessário que se tenha conhecimento das ações de um homem para poder alimentá-lo e cuidar dele, até chegar a hora em que terá de pagar a sua dívida para com a sociedade - senti-me percorrido por um calafrio.

- Não fui capaz de evitar, chefe - adiantou ele. - Tentei desfazer o que estava feito, mas já era demasiado tarde.

 

3

- Vais arranjar problemas com o Percy - advertiu-me o Harry quando começamos a percorrer o corredor até ao meu gabinete. O Dean Stanton, uma espécie de meu terceiro adjunto na cadeia de comando (na realidade, não tínhamos esse tipo de hierarquia, uma situação que o Percy Wetmore teria resolvido numa fração de segundos), encontrava-se sentado por detrás da minha secretária, atualizando os processos, uma tarefa para a qual dava a impressão que eu nunca conseguia arranjar tempo. Quando entramos, ele mal ergueu os olhos da papelada, limitando-se a dar um pequeno empurrão aos óculos com a ponta do polegar, regressando de imediato aos papéis.

- Tenho tido problemas com esse palerma desde que ele aqui entrou - redargui cautelosamente, afastando as calças da região . das virilhas com uma careta. - Ouviste o que ele gritou quando trouxe aquele gigante meio tolo cá para baixo? - Era impossível não ter ouvido - respondeu-me o Harry. - Não sei se sabes, mas eu encontrava-me presente. - Eu estava na privada e ouvi-o na perfeição - interveio o Dean. Chegou uma folha de papel mais para junto de si, ergueu-a contra a luz de forma a que eu pudesse ver bem o círculo de café em cima das palavras datilografadas e lançou-a para dentro do tabuleiro dos papéis. - “Homem morto a caminhar.” Deve ter lido isso numa dessas revistas de que ele tanto gosta.

O que provavelmente fora o caso. O Percy Wetmore era um grande leitor da Argosy e da Stag, assim como da Men's Adventure. Em cada uma dessas publicações havia sempre uma história passada na prisão, ou pelo menos era a impressão com que se ficava, e o Percy costumava lê-las com avidez, como um homem que se dedicasse a um trabalho de pesquisa. Parecia que tentava descobrir como é que deveria agir, e julgava que esse tipo de informação estaria contido naquelas revistas. O tipo começara a trabalhar ali depois de termos acabado com o Anthony Ray, o assassino do machado, e ainda não participara verdadeiramente numa execução, embora já tivesse testemunhado uma delas do compartimento do quadro elétrico.

- Ele tem conhecimentos - acrescentou o Harry. Gente influente. Vais ter de justificar porque correste com ele do bloco e de explicar ainda melhor porque é que esperaste que ele fizesse algum trabalho a sério.

- Eu nunca esperei isso - repliquei, e era verdade... embora houvesse albergado algumas esperanças. O Bill Dodge não era dos que deixava um homem ficar ao pé de si sem fazer nada, a olhar para quem trabalhava. - Neste momento estou mais interessado no vadio. Iremos ter alguns problemas com ele?

O Harry sacudiu a cabeça com grande determinação. - Ele esteve calado que nem um rato lá no tribunal do município de Trapingus - adiantou o Dean. Retirou do nariz os pequenos óculos sem aros e começou a limpar as lentes com a ponta do colete. - É claro que ele estava manietado com mais correntes do que aquelas que o Scrooge viu no fantasma do Marley, mas se quisesse poderia ter começado a dar pontapés a tudo o que tinha à sua frente. Não sei se sabes a quem é que me estou a referir, meu amigo.

- Sei muito bem - respondi, embora não soubesse. Mas acontece que detesto que o Dean Stanton me leve a melhor. - O homem é bem grandinho, não é verdade? - continuou Dean.

- De fato, é - concordei. - Monstruosamente grande. - O mais provável é termos de ajustar a Velha Faísca para o programa do Super-assado para poder dar cabo do couro do homem.

- Não te preocupes com a Velha Faísca - redargui distraidamente. - Ela faz com que os grandes se transformem em pequeninos.

O Dean apertou os lados do nariz, nas zonas onde se avistavam um par de manchas avermelhadas provocadas pelos óculos.

- Sim - disse ele com um acenar de cabeça. - Há alguma verdade no que acabaste de dizer.

- Algum de vocês sabe de onde é que ele veio antes de ter aparecido em... Teflon? - perguntei. - Foi em Teflon, não é verdade?

- Sim - anuiu o Dean. - Teflon, no município de Trapingus. Antes de ter aparecido por lá e de ter feito aquilo que fez, dá a impressão que ninguém sabe por onde é que andou. Imagino que andasse de um lado para o outro ao acaso. Talvez possas descobrir mais alguma coisa nos jornais da biblioteca da prisão, se estiveres realmente interessado. O mais provável é não os tirarem de lá até à próxima semana. - O Dean exibiu um esgar sorridente. - No entanto, é possível que tenhas de ouvir o teu amiguinho a gemer e a implicar no andar de cima.

- Seja como for, talvez vá dar só uma espreitadela - repliquei, e nessa mesma tarde foi exatamente o que fiz. A biblioteca da penitenciária situava-se nas traseiras do edifício, área que em breve estava destinada a transformar-se na oficina de reparação de automóveis - pelo menos era isso o que havia sido planeado. Na minha opinião, seriam mais uns dinheiros no bolso de alguém, mas o certo é que a Grande Depressão se tinha instalado entre nós, pelo que eu guardava as opiniões para mim próprio - da mesma maneira que deveria ter ficado de boca calada em relação ao Percy, mas acontece que por vezes um homem não é capaz de refrear aquilo que tem a dizer. Na maior parte das vezes, a boca de um homem arranja-lhe mais complicações do que o coiso alguma vez conseguiria causar-lhe. E em qualquer dos casos, o projeto da oficina nunca chegou a concretizar-se: na Primavera seguinte, as instalações da penitenciária mudaram-se para um local noventa e cinco quilômetros mais abaixo, à beira da estrada para Brighton. Calculei que isso se deveria a mais maquinações nos bastidores. Mais uns dinheiros que iriam parar à algibeira de alguém. Todavia, eu não tinha nada a ver com aquele assunto.

A administração ficara instalada num novo edifício, na ala oriental do pátio; a enfermaria também ia ser transferida para outro lugar (para começar, quem fora o grande labrego que tivera a idéia de instalar a enfermaria no primeiro piso? Aquilo era mais um dos mistérios da vida); a biblioteca continuava a manter-se parcialmente abastecida - não que alguma vez houvesse contido muito material de leitura - embora não se visse ninguém por ali. O velho edifício era uma espécie de caixa aquecida construída de sarrafos de madeira, encaixada entre os blocos A e B. As casas de banho destes últimos situavam-se nas traseiras da biblioteca, e aí pairava sempre um vago cheiro a urina, o que provavelmente seria a única razão que poderia justificar a mudança de instalações. A biblioteca tinha o traçado de um “L”, não sendo muito maior do que o meu gabinete. Procurei uma das ventoinhas, mas estas já haviam sido todas retiradas. Ali dentro a temperatura deveria rondar os trinta e oito graus; quando me sentei, senti nas virilhas um latejar provocado pelo calor. Como se fosse um dente inflamado. Sei que é uma comparação absurda, levando em consideração a região do corpo a que estou a referir-me, mas era a única coisa que me ocorria para estabelecer uma comparação adequada. Aquela situação agravava-se bastante mais sempre que urinava ou depois de ter urinado, e acabara de fazer isso quando entrei naquele recinto.

Ao fim e ao cabo, havia outro tipo na biblioteca - um antigo prisioneiro de confiança, um homem esquelético, de nome Gibbons, que passava pelas brasas a um canto, tendo sobre as coxas um romance sobre o Oeste selvagem e a aba do chapéu a cobrir-lhe os olhos. O calor parecia não o incomodar, o mesmo acontecendo em relação aos resmungos, sons de passos pesados e o praguejar ocasional que vinham da enfermaria no andar de cima (onde deviam estar pelo menos cinco graus mais quente, e eu esperava que o Percy estivesse a saborear tal fato). Não incomodei o homem, tendo-me dirigido para a secção mais curta do “L,”, onde se encontravam os jornais. Ocorreu-me que talvez tivessem levado o mesmo caminho das ventoinhas, apesar do que o Dean dissera. Verifiquei que isso ainda não tinha acontecido. O assunto das gêmeas Detterick era bastante fácil de encontrar; fora notícia de primeira página desde que as investigações haviam tido início, em Junho, até ao julgamento em fins de Agosto, entrando por Setembro adentro.

Ao fim de pouco tempo, já eu me tinha esquecido do calor, dos passos que ecoavam vindos do andar de cima e do ressonar asmático do velho Gibbons. O pensamento daquelas duas menininhas de nove anos, muito ao estilo das gêmeas Bobbsey 3 - com os seus macios cabelos louros e sorrisos irresistíveis - relacionado com o negrume da figura entroncada do Coffey era desagradável, mas impossível de ignorar. Dado o tamanho do homem, era fácil imaginá-lo a devorá-las, qual gigante de uma fábula. O que ele fizera era ainda pior do que isso, e tivera muita sorte por não ter sido linchado ali mesmo, na margem do rio. Isto é, no caso de se considerar uma sorte o fato de ele estar à espera de percorrer a Milha Verde, para acabar por se sentar no colo da Velha Faísca.

 

4

O rei algodão fora deposto no Sul setenta anos antes de todas estas coisas terem acontecido, sem possibilidade de jamais voltar a ser rei, mas nesses anos da década de 30 havia atravessado uma pequena fase de revivalismo. Tinham deixado de existir plantações de algodão, embora houvesse quarenta ou cinqüenta quintas prósperas que se dedicavam ao plantio do algodão, na região meridional do estado. Klaus Detterick era o proprietário de uma delas. De acordo com os padrões de sociedade que

 

3 (Expressão utilizada para descrever duas pessoas que estão sempre juntas, e que fisionomicamente são parecidas, o mesmo acontecendo em relação às suas atitudes. (N. da T. ) vigoravam nos anos 50, ele estaria apenas um furo acima do estado de pobreza; não obstante, segundo os valores que vigoravam nos anos 30, Detterick tinha uma vida desafogada, uma vez que costumava pagar em dinheiro a conta da mercearia no final de todos os meses, e poderia olhar bem de frente para o gerente do banco, caso se cruzasse com ele na rua. A casa da quinta era limpa e confortavelmente espaçosa. Para além do algodão, criava também umas quantas galinhas e vacas. Ele e a mulher tinham tido três filhos: Howard que deveria andar por volta dos doze anos e as gêmeas, Cora e Kathe.

Numa noite quente de Junho desse ano, as meninas pediram e obtiveram autorização para dormir no alpendre lateral da casa, circundado por rede. Tanto para uma como para a outra aquilo era um grande acontecimento. A mãe deu-lhes um beijo de boas-noites muito próximo das nove da noite, quando os últimos raios de luz estavam prestes a desaparecer no horizonte. Foi a última vez em que teve oportunidade de ver as filhas, até que estas foram colocadas nos respectivos caixões pelo cangalheiro, que entretanto reparara a maior parte das mutilações infligidas nos seus corpos.

Naquele tempo, as famílias rurais tinham por hábito deitar-se cedo - “assim que começasse a fazer escuro debaixo da mesa”, como a minha mãe dizia por vezes – dormindo um sono profundo. O que foi certamente o caso em relação a Klaus, Marjorie e Howie Detterick na noite em que as gêmeas foram arrebatadas de sua casa. Sem dúvida que Klaus teria sido despertado por Bowser, o velho cão da família, mestiço de collie, caso este houvesse ladrado, o que não se verificou. Nem nessa noite nem nunca mais.

Continuar: parte 2 de 3