À Espera de um Milagre

Stephen King · Capítulo 5 de 9 · parte 1/3

Páginas do PDF

À Espera de um Milagre

Parte Três .........................................................................................

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

As mãos do Coffey

 

Revendo tudo aquilo que escrevi até agora, verifico que classifiquei Georgia Pines, onde vivo presentemente, como um lar para a terceira idade. Os fulanos que dirigem este estabelecimento não se sentiriam muito satisfeitos com essa descrição! De acordo com as brochuras que têm no vestíbulo e que enviam aos clientes em perspectiva, trata-se de “um complexo de primeira categoria destinado às pessoas de idade”. Até tem um Centro Recreativo - de acordo com o que a brochura afirma. As pessoas que são forçadas a viver aqui (a brochura não lhes chama “internos”, embora eu por vezes o faça) limitam-se a chamar-lhe “sala da televisão”.

As pessoas consideram-me um tudo-nada distanciado, porque durante o dia não vou à sala da televisão, mas isso deve-se ao fato de não conseguir suportar os programas, e não as pessoas. Oprah, Ricki Lake, Carnie Wilson, Rolanda - o mundo está a desmoronar-se em redor dos nossos ouvidos, e tudo o que interessa a estes apresentadores é falar acerca de foder mulheres de saias curtas, e de homens que têm sempre as camisas abertas. Pois bem, que raio - não julgues, não vás tu próprio ser julgado, diz a Bíblia, por isso estou disposto a descer do meu estrado de orador improvisado. O que acontece é que se eu quisesse passar o meu tempo na companhia de gentalha que vive em caravanas, ter-me-ia mudado para o Parque de Caravanas Rodas Felizes, a cerca de três quilômetros mais abaixo, para onde os carros-patrulha da polícia parecem estar sempre a acorrer nas noites de sexta-feira e sábado com as sirenas a soar estridentemente e as luzes azuis a funcionarem, intermitentes. A minha amiga especial, a Elaine Connelly, pensa da mesma maneira. A Elaine já tem oitenta anos é alta e magra, ainda tem a postura direita e o olhar límpido, muito inteligente e refinada. Caminha com muita lentidão porque qualquer coisa não está bem com a sua bacia, e eu sei que a artrite que lhe afeta as mãos lhe provoca um grande sofrimento, mas possui um lindo pescoço comprido - quase um colo de cisne - e belos cabelos compridos, que lhe caem até aos ombros sempre que ela os solta.

Porém, o melhor de tudo é que ela não me considera um fulano peculiar nem reservado. Passamos muito tempo juntos, a Elaine e eu. Se eu não tivesse alcançado uma idade tão grotesca, suponho que me referiria a ela como a minha namorada. Ainda assim, o fato de ter uma amiga que considero muito especial - somente isso - não é assim tão mau, e, sob certos aspectos, chega até a ser preferível. Uma grande quantidade dos problemas e dores do coração que existem entre namorados deixaram muito pura e simplesmente de existir dentro de nós. E, embora eu saiba que ninguém, digamos, abaixo dos cinqüenta, acreditaria nisto, por vezes as braseiras são melhores do que as fogueiras. É estranho mas é verdade.

Por conseguinte, não vejo televisão durante o dia. Por vezes dou passeios; noutras ocasiões dedico-me à leitura; mas na maior parte do tempo, durante mais ou menos o último mês, escrevo estas memórias instalado entre as plantas do solário. Estou convencido de que existe mais oxigênio nesse recinto, o que ajuda a memória que já está enfraquecida. Sem dúvida que esta atividade ganha aos pontos qualquer programa bombástico de televisão, essa posso eu garantir-vos.

No entanto, sempre que não consigo conciliar o sono, às vezes desço sorrateiramente até ao andar de baixo e ligo o televisor. Em Georgia Pines dispomos dos serviços básicos da televisão por cabo, o que significa que temos acesso ao canal de filmes americanos. Esse é o canal em que (para o caso de o leitor não desfrutar dos serviços básicos da televisão por cabo) a maior parte dos filmes é a preto e branco, e onde nenhuma das mulheres despe as suas roupas. Para um peido velho como eu, esse é um aspecto tranqüilizador. Houve um bom número de noites em que me deixei adormecer em cima do sofá de um verde horroroso, colocado em frente do televisor, enquanto Francis, a Mula Que Fala, tira uma vez mais do lume a frigideira do Donald O'Connor, ou o John Wayne corre com a escumalha, expulsando-a de Dodge, ou o Jimmy Cagney apelida alguém de ratazana asquerosa e saca de uma arma. Vi alguns na companhia da minha mulher, a Janice (a qual não era só a minha namorada, mas também a minha melhor amiga), e eles acalmam-me. O vestuário que as personagens usam, a maneira como andam e falam, até mesmo a música da banda sonora - todas essas coisas contribuem para me acalmar. Suponho que me tragam à recordação os tempos em que eu era um homem que caminhava sobre a pele do mundo, em vez de ser uma relíquia comida pelas traças que vai fenecendo num lar para a terceira idade, onde muitos dos residentes usam fraldas e cuecas de plástico.

No entanto, não havia nada de tranqüilizante naquilo que tive oportunidade de ver esta manhã. Absolutamente nada. Em algumas ocasiões, a Elaine junta-se a mim para as tão famosas Sessões dos Pássaros Madrugadores, as quais têm início às quatro da manhã - ela não se abre muito sobre o assunto, mas eu sei que nessas alturas a artrite a faz sofrer atrozmente, e que as drogas que eles lhe dão já não surtem grande efeito.

Esta madrugada, quando ela desceu num passo deslizante, qual fantasma, envergando o seu roupão de turco branco, encontrou-me sentado no sofá cheio de altos e baixos, debruçado sobre as canelas escanzeladas que costumavam ser as minhas pernas, agarrado aos joelhos, a fim de tentar pôr cobro aos tremores que me percorriam o corpo, como se fossem um vento cortante. Sentia-me enregelado, à exceção da região das virilhas que me dava a sensação de arder como se fosse o fantasma da infecção urinária que tanto havia atormentado a minha vida no Outono de 1932 - o Outono do John Coffey, do Percy Wetmore e do Mister Jingles, o rato amestrado. O Outono que também fora o do William Wharton.

- Paul! - gritou a Elaine, dirigindo-se a mim num passo apressado... tão apressado quanto os pregos enferrujados e a placa de massa de vidro na sua bacia lhe permitia. - Paul, o que é que se passa contigo?

- Não tarda nada, estarei bem - respondi-lhe, apesar de as minhas palavras não soarem muito convincentes... Saíram-me da boca de forma pouco articulada, através de uns dentes que queriam bater uns nos outros. - Dá-me apenas um minuto ou dois e ficarei são que nem um pêro.

A Elaine sentou-se junto de mim, colocando um braço em redor dos meus ombros.

- Tenho a certeza que sim - disse ela. - Mas o que é que te aconteceu? Por amor de Deus, Paul, parece que viste um fantasma.

E vi, disse para comigo, sem me ter apercebido de que havia proferido aquelas palavras em voz alta, até que avistei os seus olhos arregalados.

- Não foi verdadeiramente isso - acrescentei, dando-lhe uma pancadinha na mão (suavemente - tão suavemente!). - Mas durante um minuto, Elaine... Meu Deus!

- Recordaste-te dos tempos em que eras um guarda da prisão? - perguntou ela. - Da época sobre que tens vindo a escrever quando estás no solário?

Acenei-lhe afirmativamente.

- Eu costumava trabalhar na nossa versão do Corredor da Morte... - afirmei.

- Eu sei...

- Com a diferença que lhe chamávamos a Milha Verde. Por causa do linóleo que cobria o chão. No Outono de trinta e dois, recebemos um fulano... um selvagem... chamado William Wharton. Ele gostava de se considerar uma espécie de Billy the Kid, e chegou ao ponto de ter uma tatuagem no braço com esse nome. Não passava de um rapazote, mas era bastante perigoso. Ainda me recordo daquilo que o Curtis Anderson, que nessa época era o assistente do diretor, escreveu sobre ele. “Um doido varrido e orgulhoso de o ser. O Wharton tem dezenove anos de idade e, muito simplesmente está-se nas tintas para o que lhe possa acontecer.” Ele sublinhou esta frase.

O braço que até então rodeara os meus ombros esfregava-me naquele momento as costas. Começara a acalmar-me. Naquela altura, senti amor pela Elaine Connelly, e tinha podido cobrir-lhe as faces de beijos, tal como lhe disse. Talvez o devesse ter feito. É horrível estar-se sozinho e atemorizado em qualquer idade, mas estou convencido de que é muito pior quando se é velho. No entanto, eu tinha outra coisa no pensamento, aquele peso de algo antigo por concluir.

- Seja como for - continuei -,tens razão... Tenho andado a escrevinhar sobre a chegada do Wharton ao bloco e como ele quase matou o Dean Stanton, um dos tipos com quem eu trabalhava nesses tempos.

- Como é que ele foi capaz de fazer uma coisa dessas? perguntou a Elaine.

- Por maldade e também por falta de cuidado - respondi sombriamente. - O Wharton forneceu a maldade e os guardas que o acompanhavam a falta de cuidado. O grande erro foi a corrente que prendia os pulsos do Wharton... Era um tudo-nada demasiado comprida. Quando o Dean abriu a porta que dava acesso ao Bloco E, o Wharton encontrava-se atrás dele, com um guarda de cada lado, mas o Anderson tivera razão... muito simplesmente, o Billy Selvagem não se preocupava com essas coisas. Deixou cair a corrente que lhe prendia os pulsos por cima da cabeça do Dean e começou a asfixiá-lo com ela.

A Elaine estremeceu.

- Então, pus-me a matutar em tudo aquilo e não fui capaz de adormecer, e foi por isso que vim até cá abaixo. Liguei para o canal dos filmes, pensando que tu talvez viesses até cá abaixo, e assim poderíamos ter um pequeno encontro...

A Elaine riu-se, beijando-me a testa mesmo acima do sobrolho. Sempre que a Janice me beijava na fronte, eu era percorrido por um arrepio, e senti a mesma coisa quando a Elaine o fez naquela madrugada. Calculo que algumas coisas nunca se alterem.

- ... e na tela surgiu este filme antigo a preto e branco sobre os bandidos dos anos quarenta. Chama-se O Denunciante.

Senti-me prestes a recomeçar a tremer, o que me levou a empregar todos os esforços para o evitar.

- E com o Richard Widmark - acrescentei. - Parece-me que foi o seu grande primeiro papel. Nunca cheguei a vê-lo com a Janice... Normalmente, prescindíamos dos filmes de polícias e ladrões, mas ainda me recordo de ter lido algures que o Widmark desempenhou um papel extraordinário, interpretando a figura do malfeitor. Sem dúvida que sim. No filme está muito pálido... dá a impressão de não andar mas sim de deslizar pela cena... está sempre a chamar “borra-botas” às pessoas... a falar sempre dos bufos... do quanto odeia os bufos...

A despeito de todos os meus esforços, começava a tremer de novo. Não conseguia evitá-lo.

- Cabelos louros - acrescentei num sussurro. - Cabelos louros escorridos. Fiquei a ver até à parte onde ele empurra uma velhota, que está sentada numa cadeira de rodas, pelas escadas abaixo mas depois desliguei o televisor.

- Ele fez-te lembrar o Wharton?

- Ele era o Wharton, até ao mais ínfimo pormenor. - Paul... - começou a Elaine a dizer, interrompendo-se.

Olhou para a tela em branco do televisor (onde continuava a poder ver-se o número dez no canto superior, correspondente ao canal dos filmes), e voltou a concentrar a sua atenção em mim.

- O quê? - perguntei. - O que é que ias a dizer, Elaine? - Pensei: Ela vai dizer-me que deveria deixar de escrever sobre este assunto. Que o melhor seria rasgar as páginas que já escrevi até agora, desistindo de tudo isso.

- Não permitas que isso te impeça de continuar - foi o que ela me disse. - Fiquei a olhar de boca aberta para a Elaine. - Fecha a boca, Paul... não vá entrar alguma mosca. Desculpa. É que... bem...

- Tu pensaste que eu me preparava para te dizer o oposto, não é verdade?

- Sim, de fato foi isso que pensei.

Suavemente, agarrou-me nas mãos (suavemente, tão suavemente - com os seus longos e maravilhosos dedos enclavinhados, formando um amontoado de nós retorcidos) e inclinou-se para a frente, olhando fixamente para os meus olhos azuis com os seus cor de avelã, com o esquerdo ligeiramente nublado devido à aglutinação de uma catarata.

- É possível que eu já seja demasiado velha e frágil para continuar a viver - acrescentou a Elaine -, mas não sou velha de mais para ainda ter a faculdade de pensar. Na nossa idade, que significado é que têm umas quantas noites sem dormir? E já agora, o que é que há de mais no fato de vermos um velho fantasma na televisão? Vais dizer-me que foi o único que já viste?

Pensei no diretor da cadeia, o Moores, no Harry Terwilliger, no Brutus Howell; ocorreu-me a imagem da minha mãe, assim como a da Jan, a minha mulher, que morrera em Alabama. Sem dúvida que eu tinha bastantes conhecimentos em matéria de fantasmas.

- Não - concordei. - Não foi o primeiro fantasma que vi. Mas, Elaine... foi um choque. Porque era ele, sem tirar nem pôr.

Ela beijou-me de novo e levantou-se, retraindo-se ao deslocar-se, fazendo pressão com a palma da mão sobre as ancas, como se receasse que a bacia rebentasse através da pele, caso não tivesse cuidado.

- Parece-me que mudei de idéias quanto à televisão acrescentou ela. - Tenho um comprimido guardado para um dia... ou uma noite em que mais necessitasse dele. Acho que vou tomá-lo e depois volto para a cama. Talvez devesses seguir o meu exemplo.

- Sim - concordei. - Suponho que seja o que deveria fazer. - Durante um momento de loucura, pensei em sugerir que fôssemos juntos para a mesma cama, mas então detectei o sofrimento surdo que se refletia nos olhos da Elaine, e reconsiderei a minha idéia. Porque é possível que ela tivesse anuído, apenas para me fazer a vontade. O que não me parecia ser muito aconselhável.

Deixamos a sala de televisão (não estou disposto a dignificá-la com o outro nome, nem sequer por uma questão de ironia) lado a lado, eu a atrasar o meu passo pelo dela, que era lento e dolorosamente cauteloso. No interior do edifício reinava o silêncio, com a exceção dos gemidos de alguém, apanhado .por um mau sonho, por detrás de uma qualquer porta cerrada.

- Achas que conseguirás adormecer? - perguntou a Elaine.

- Sim, parece-me que sim - respondi, embora soubesse de antemão que isso seria impossível; fiquei deitado na cama até ao nascer do Sol, a pensar no filme O Denunciante. Em pensamento via o Richard Widmark a rir-se de forma demente enquanto amarrava a senhora de idade à sua cadeira de rodas e a empurrava pelas escadas abaixo.

- É isto o que costumamos fazer aos bufos - dizia-lhe ele... E então o seu rosto adquiria a expressão fisionômica do William Wharton, a que ele mostrara no dia em que tinha chegado ao Bloco E e à Milha Verde, o Wharton a rir-se à socapa tal como o Widmark, o Wharton a gritar: Isto é que é uma festa de arromba, não acham? É ou não é? Não me dei ao incômodo de descer para o pequeno-almoço, depois daquela noite; limitei-me a ir para o solário, onde retomei a minha escrita.

Fantasmas? Com certeza.

Eu sei tudo o que há a saber sobre fantasmas.

2

 

- Ennaaa, rapazes! - exclamou o Wharton, rindo-se. Isto é que é uma festa de arromba, não acham? É ou não é? Continuando a gritar e a rir-se, o Wharton regressou para junto do Dean, a fim de continuar a asfixiá-lo com a corrente que lhe prendia os pulsos. E porque não? O Wharton sabia aquilo que o Dean, o Harry e o meu amigo Brutus Howell sabiam - que eles só poderiam fritar um homem uma vez.

- Bate-lhe! - gritava o Harry Terwilliger. Continuava agarrado ao Wharton, tentando pôr cobro àquela situação antes que se adiantasse mais, mas o Wharton conseguira libertar-se dele, pelo que naquele momento o Harry tentava levantar-se do chão. - Percy, bate-lhe!

Todavia, o Percy continuava imóvel, com o bastão de nogueira numa das mãos e os olhos tão arregalados que nem pratos de sopa. Ele adorava o raio daquele bastão, e qualquer pessoa teria dito que aquela era a sua grande oportunidade de o utilizar, a oportunidade por que ele ansiara desde o primeiro dia que chegara a Cold Mountain... mas agora que esta surgira, ele sentia-se demasiado atemorizado para a aproveitar. O prisioneiro não era nenhum pequeno francês aterrorizado, como o Delacroix, nem o gigantesco negro que mal sabia que se encontrava no interior do seu corpo, como o John Coffey; era um demônio enraivecido.

Saí da cela do Wharton, deixando cair a prancheta com a papelada e sacando da minha calibre trinta e oito. Pela segunda vez naquele dia, esqueci-me por completo da infecção urinária que tanto ardor me provocava na região central do corpo. Não duvidei da história que os outros me contaram, quanto à expressão vazia do rosto do Wharton, assim como os seus olhos entorpecidos; contudo, esse não era o Wharton que eu tinha à minha frente. Aquilo que vi foi o rosto de um autêntico animal - não uma criatura inteligente, mas sim repleto de manha... de maldade... e de satisfação. Sim. Ele estava a pôr em prática aquilo que tencionara fazer. O local e as circunstâncias não tinham qualquer importância. A outra coisa que vi foram as faces inchadas e avermelhadas do Dean Stanton. Ele estava a morrer em frente dos meus olhos. O Wharton avistou a arma e posicionou o Dean na sua direção, de forma a que, quase de certeza, eu seria forçado a alvejar um quando alvejasse o outro. Por cima do ombro do Dean, avistei um olho azul flamejante que me desafiava a disparar. O outro olho do Wharton encontrava-se oculto pelos cabelos do Dean. Por detrás deles avistei o Percy imobilizado numa atitude irresoluta, com o seu bastão meio empunhado ao alto. E foi então que, enchendo a ombreira da porta aberta que dava para o pátio da prisão, surgiu um milagre em carne e osso: o Brutus Howell. Já tinham acabado de mudar o que restava do equipamento da enfermaria, pelo que ele tinha ido até ao bloco “para perguntar quem é que queria café.

Ele agiu sem um único momento de hesitação - empurrou o Percy para o lado contra uma parede, com uma força capaz de abalar tudo e todos, sacou do seu próprio bastão e bateu na região posterior da cabeça do Wharton, utilizando toda a força do seu musculado braço direito. Ouviu-se o som ensurdecido de uma pancada - um ruído que era quase cavo, como se não existisse qualquer espécie de cérebro por baixo do crânio do Wharton - o que fez com que finalmente a corrente se soltasse em redor do pescoço do Dean. O Wharton foi-se abaixo como se fosse uma saca de farinha, o que permitiu ao Dean arrastar-se para longe daquela besta, a respirar com dificuldade e com a mão na garganta; os olhos pareciam querer saltar-lhe das órbitas.

Ajoelhei-me junto dele e ele abanou a cabeça com violência.

- Eu estou bem... - proferiu numa voz enrouquecida. - Tomem conta... dele! - Fez um gesto na direção do Wharton. - Fechem-no! Na cela!

Não me pareceu que ele precisasse de uma cela, depois da forma selvagem como o Brutal o tinha atingido; imaginei que aquilo de que ele necessitaria era de um caixão. No entanto, a sorte não nos bafejou. O Wharton tinha perdido os sentidos, mas encontrava-se muito longe de estar morto. Ficara esparramado de lado, com um braço estendido e as pontas dos dedos a tocarem no linóleo da Milha Verde, os olhos fechados e a respiração lenta mas regular. No seu rosto via-se mesmo um sorriso beatífico, como se houvesse adormecido a ouvir a sua canção de embalar preferida. Do cabelo escorria um pequeno fio de sangue intensamente vermelho, manchando o colarinho da nova camisa do uniforme prisional. E era tudo.

- Percy! - chamei. - Dá-me uma ajuda!

Contudo, o interpelado não se mexeu, continuando encostado à parede, olhando fixamente para o vazio com olhos atordoados. Não me parece que ele soubesse com exatidão onde é que se encontrava.

- Percy, raios te partam, agarra nele!

Só então é que ele começou a mexer-se e o Harry foi em seu auxílio. Nós os três arrastamos o inconsciente Wharton para a sua cela, enquanto o Brutal auxiliava o Dean a pôr-se de pé, suportando-o com toda a suavidade, como qualquer mãe teria feito a um filho; o Dean dobrava-se sobre si mesmo, tossindo para conseguir encher os pulmões de oxigênio.

A nossa nova criança problemática não recobrou os sentidos durante quase três horas, mas, quando tal aconteceu, não parecia ter sido afetado pela violenta pancada que o Brutal lhe desferira. Voltou a si da mesma maneira como se movimentara - com rapidez. Num dado momento, estava estendido em cima da tarimba, absolutamente morto para o mundo. No segundo imediato, encontrava-se levantado junto das grades da cela - silencioso que nem um rato - olhando-me com fixidez quando eu me encontrava sentado à mesa do guarda de serviço, elaborando um relatório acerca da ocorrência. Quando finalmente pressentia presença de alguém que me fitava, soergui o olhar e ali estava ele exibindo um esgar que revelava um conjunto de dentes deteriorados e enegrecidos, entre os quais já se viam vários espaços. Senti um sobressalto ao avistá-lo ali, naquela postura. Tentei ocultar a minha reação, mas tenho a impressão de que não lhe passou despercebida.

- Ei, lacaio - disse ele. - Da próxima vez calhar-te-á a ti. E nessa altura não vou falhar.

- Olá, Wharton - repliquei num tom tão calmo quanto me era possível. - Em vista das circunstâncias, calculo que possamos dispensar o discurso e o comitê de boas-vindas, não te parece?

O seu esgar vacilou um tudo-nada. Aquela não era a resposta que ele tinha esperado e, muito provavelmente, não era a que eu teria dado noutras circunstâncias. Mas algo tinha acontecido enquanto o Wharton se mantivera inconsciente. Suponho que tenha sido uma das principais coisas que tenho tentado descrever-vos ao longo destas páginas. Agora vamos a ver se vocês acreditam.

 

3

À exceção de ter gritado numa ocasião ao Delacroix, o Percy manteve a boca fechada depois de todo aquele rebuliço ter chegado ao fim. Isso era, possivelmente, resultado do choque e não de uma tentativa destinada a mostrar um certo tato - o Percy sabia tanto de tato como eu das tribos mais primitivas de África - mas essa atitude veio muito a calhar, fosse por que motivo fosse. Se tivesse começado a lamentar-se quanto à forma como o Brutal o havia arremessado contra a parede, ou caso se interrogasse sobre a razão por que ninguém lhe dissera que por vezes homens tão maus como o Billy Selvagem acabavam por ir parar ao Bloco E, tenho a impressão que teríamos optado por matá-lo. Isso ter-nos-ia permitido percorrer a Milha Verde em moldes totalmente diversos. O que não deixa de ser uma idéia engraçada, se pensarmos bem. Desperdicei a minha grande oportunidade de agir como o James Cagney em Fúria Sanguinária.

Enfim, quando tivemos a certeza de que o Dean continuaria a respirar, e que não se encontrava prestes a perder os sentidos ali mesmo, o Harry e o Brutal levaram-no para a enfermaria. O Delacroix, que se mantivera num silêncio absoluto durante toda aquela confusão (já tinha estado na prisão muitas vezes, pelo que sabia quando era prudente manter a boca fechada e quando era relativamente seguro abri-la de novo), começou a gritar, fazendo um grande alarido no corredor, enquanto o Harry e o Brutal levavam o Dean para fora. O Delacroix queria saber o que tinha acontecido. Pelo seu tom de voz, até se poderia pensar que os seus direitos constitucionais haviam sido violados.

- Cala a boca, larilas! - berrou-lhe o Percy, tão furioso que as veias em ambos os lados do pescoço ficaram salientes. Coloquei uma mão sobre o seu braço, sentindo-o a tremer por baixo da camisa. Parte daquela atitude devia-se ao medo residual, como é evidente (de vez em quando, eu era forçado a recordar a mim mesmo que parte do problema do Percy era o fato de ele ter apenas vinte e um anos, não sendo muito mais velho que o Wharton), mas estou convencido de que, em grande medida, aquilo era resultado da raiva. Ele odiava o Delacroix, não sei bem por que motivo, mas o certo é que era assim.

- Vai ver se o diretor Moores ainda cá está - disse eu ao Percy. - Se estiver, apresenta-lhe um relatório verbal, bem completo, daquilo que sucedeu aqui. Diz-lhe que amanhã lhe entregarei um relatório escrito, se conseguir elaborá-lo.

Percy inchou visivelmente por causa da responsabilidade de que eu estava a incumbi-lo; durante um ou dois momentos horríveis, pensei que ele ia fazer-me continência.

- Sim, senhor. Assim farei.

- Começa por dizer-lhe que a situação no Bloco E já está normalizada. Isto não se trata de uma história, e o diretor não apreciará o fato de a arrastares, para criares mais expectativa.

- Não farei isso - replicou o Percy. - Muito bem. Vai-te embora.

Encaminhou-se para a porta, mas pouco depois deteve-se, voltando atrás. A única coisa que podíamos esperar era que ele fizesse o oposto daquilo que queríamos. Eu desejava desesperadamente que ele saísse dali, sentia as virilhas em fogo, e agora tudo indicava que ele não estava disposto a ir-se embora.

- Estás bem, Paul? - perguntou ele. - Talvez estejas a ficar com febre. Estás a chocar alguma gripe? Digo isto porque tens as faces cobertas de suor.

- Talvez esteja a chocar alguma, mas de uma maneira geral sinto-me bem - afirmei. - Despacha-te, Percy, vai informar o diretor.

Ele anuiu com um acenar de cabeça e afastou-se - graças a Deus pelos pequenos favores. Assim que a porta se fechou, dirigi-me rapidamente para o meu gabinete. Deixar a mesa do guarda de serviço desocupada era contra os regulamentos mas naquela altura esse aspecto não me interessava rigorosamente nada. Sentia-me bastante mal - tão mal como me sentira nessa manhã.

Consegui entrar no pequeno cubículo que servia de lavabo por detrás da mesa, e tirei o coiso para fora das calças antes que a urina começasse a jorrar, mas esteve mesmo por um triz. Fui obrigado a tapar a boca com uma mão para abafar um grito quando o mijo começou a jorrar, e com a outra agarrei-me ao bordo do lavatório, sem ver o que fazia. Não era como em minha casa, onde podia cair de joelhos e mijar até formar uma poça junto à pilha de lenha; se eu me pusesse de joelhos ali, a urina derramar-se-ia pelo chão todo.

Com grandes dificuldades lá consegui manter-me de pé sem gritar, embora tanto uma coisa como a outra tivessem estado por pouco. Parecia que a minha urina estava cheia de ínfimos estilhaços de vidro. O cheiro que se evolava da privada era desagradável e pestilento, e vi uma substância esbranquiçada - calculo que se tratasse de pus - a flutuar à superfície da água.

Retirei a toalha do toalheiro e limpei o rosto com ela. Suava profusamente; a transpiração jorrava dos poros. Olhei para o espelho de metal e avistei as faces congestionadas de um homem cheio de febre, o qual retribuía o meu olhar. Trinta e oito e meio? Trinta e nove? Talvez fosse preferível não saber. Voltei a colocar a toalha no seu lugar, acionei a descarga de água e, num passo lento, atravessei o meu gabinete, dirigindo-me para a porta do bloco. Receava que o Bill Dodge, ou qualquer outra pessoa, pudesse ter aparecido, deparando com três prisioneiros desacompanhados, mas aquele espaço encontrava-se vazio. O Wharton continuava inconsciente deitado em cima da sua tarimba, enquanto o Delacroix se remetera ao mutismo e o John Coffey nem sequer chegara a emitir um único ruído, apercebi-me eu inesperadamente. Nem um pio. O que era preocupante.

Comecei a percorrer a Milha, lançando um olhar para o interior da cela do Coffey, um pouco à espera de verificar que ele se tinha suicidado através de um dos dois meios mais comuns no Corredor da Morte - enforcar-se com as próprias calças ou dilacerar com os dentes os próprios pulsos. Veio a verificar-se que não sucedera nem uma coisa nem a outra. O Coffey limitara-se a continuar sentado na tarimba, com as mãos pousadas sobre as coxas; o homem mais corpulento que eu alguma vez vira em toda a minha vida, olhava para mim com os seus estranhos olhos lacrimosos.

- Capitão? - chamou ele.

- O que é que se passa, vadio? - perguntei. Preciso de falar consigo.

- Por acaso não estarás tu a olhar para mim neste mesmo momento, John Coffey?

Não replicou àquela pergunta, continuando a examinar-me com o seu olhar estranho e umedecido.

- Num segundo, vadio - retorqui com um suspiro. Fixei a minha atenção no Delacroix, o qual se colocara junto das barras da sua cela. O Mister Jingles, o seu rato de estimação (o Delacroix não tinha o mínimo pejo em dizer-nos que havia ensinado o Mister Jingles a fazer habilidades, todavia, todos os que trabalhavam na Milha Verde achavam que o rato se amestrara a si mesmo), saltava desassossegadamente para lá e para cá, de uma das mãos estendidas do Del para a outra, qual acrobata a dar saltos de plataformas acima do centro da arena. Os seus olhos estavam muito arredondados, e tinha as orelhas encostadas ao crânio acastanhado de linhas esguias. Não me restava a mais pequena dúvida de que o rato reagia em função do nervosismo que o Delacroix sentia. Enquanto eu o observava, ele começou a correr pelas calças do Delacroix, atravessando o chão da cela até ao carretel de cores garridas que se encontrava encostado a uma parede. Empurrou o carretel até próximo dos pés do Delacroix, fitando-o ansiosamente, sem que o pequeno cajun tivesse prestado atenção ao amigo, pelo menos naquela altura.

- O que é que aconteceu, chefe? - perguntou ele. - Quem é que se magoou?

- Está tudo em ordem - respondi. - O nosso novo rapaz entrou com atitude de leão, mas agora está inconsciente e sossegado que nem um cordeirinho. Tudo está bem quando acaba bem.

- Ainda não acabou - retorquiu o Delacroix, erguendo o olhar por cima da Milha, na direção da cela onde o Wharton continuava prostrado. - L'homme mauvais, c'est vrai! 6

- Pois bem - disse-lhe eu. - Não deixes que isso te deprima, Del. Ninguém te vai obrigar a saltar à corda com ele no pátio.

Vindo de trás, ouvi o som ranger de uma tarimba quando o Coffey se levantou.

- Chefe Edgecombe! - chamou ele de novo. Desta feita, a entoação da sua voz denotava urgência. - Preciso de falar consigo!

 

6 Em francês no original: “O homem é mau, é verdade.” (N. da T.)

Voltei-me para ele, pensado: “Muito bem, não existe qualquer problema, falar faz parte das minhas funções.” Durante todo este tempo, envidava esforços para não tremer, uma vez que a febre me provocava arrepios de frio, como por vezes acontece. Exceto na região das virilhas, que continuava a dar-me a sensação de ter sido golpeada, cheia com carvões em brasa e depois cosida.

- Nesse caso, diz o que tens a dizer, John Coffey - repliquei, tentando imprimir à voz um timbre ligeiro e calmo. Pela primeira vez desde que chegara ao Bloco E, o Coffey tinha o aspecto de quem se encontrava realmente ali, entre nós, de corpo e alma. O quase ininterrupto fio de lágrimas que lhe saía pelo canto dos olhos havia cessado, pelo menos de momento; eu apercebia-me de que ele via realmente aquilo para que olhava, Paul Edgecombe, o manda-chuva dos guardas do Bloco E, e não qualquer lugar para onde desejasse poder regressar, desfazendo a ação pavorosa que cometera.

- Não - disse ele. - Tem de vir aqui dentro.

- Ora vamos lá a ver, tu bem sabes que eu não posso fazer isso - redargui, continuando a manter um tom aligeirado -, pelo menos, neste preciso momento. Por agora encontro-me sozinho aqui e tu pesas, no mínimo, cerca de uma tonelada e meia a mais do que eu. Esta tarde já tivemos rebuliço de sobra. Por conseguinte, vamos ter de travar a nossa conversa através das grades, isto é, se” tu não vires inconveniente nisso...

- Por favor! - O Coffey apertava as barras com tanta força que os nós dos dedos tinham empalidecido e as unhas estavam brancas. O seu rosto era a expressão do desânimo, vendo-se nos seus olhos uma necessidade premente que eu não conseguia compreender. Recordo-me de na altura ter pensado que talvez tivesse podido compreender se não me sentisse tão adoentado; isso poderia ter-me proporcionado um meio de o ajudar através do resto dessa situação. Quando se sabe do que um homem necessita, conhece-se o homem.

- Por favor, chefe Edgecombe! Tem de entrar na cela! Mas isto é a coisa mais disparatada que já ouvi, pensei, apercebendo-me de algo ainda mais insensato: eu estava disposto a aceder ao seu pedido. Tinha o molho de chaves fora do cinto, procurando entre elas as que abriam a cela do John Coffey. Ele teria podido agarrar em mim e ter-me quebrado em cima dos seus joelhos, como se eu fosse um mero galho, num dia em que eu me sentisse em boas condições de saúde e, decididamente, aquele não era um desses dias. Fosse como fosse, encontrava-me prestes a fazê-lo. Sozinho e tendo decorrido menos de meia hora depois da demonstração gráfica de até onde é que a estupidez e a falta de cuidado nos podem levar, quando se lida com assassinos condenados à morte, eu estava disposto a abrir a porta da cela daquele gigante negro, entrar e sentar-me junto dele. Se esse meu ato viesse a ser descoberto, poderia muito bem vir a perder o emprego, mesmo que ele não se comportasse de uma maneira tresloucada, mas, apesar de tudo, eu não ia hesitar.

“Pára”, disse eu a mim mesmo, “pára neste mesmo momento, Paul.” Contudo, não o fiz. Inseri uma das chaves na ranhura da fechadura de cima e outra na de baixo e fiz deslizar a porta sobre a calha.

- Sabe, chefe, isso talvez não seja uma idéia muito boa - disse o Delacroix numa voz tão enervada e efeminada que provavelmente, e noutras circunstâncias, me teria feito rir.

- Preocupa-te com os teus assuntos que eu preocupo-me com os meus - respondi-lhe sem olhar em redor. Mantinha os olhos fixos na figura do John Coffey, de uma forma tão intensa que se poderia dizer que estavam pregados no homem. Era como se eu houvesse sido hipnotizado. A minha voz soava aos meus próprios ouvidos como algo que tivesse vindo a ecoar através de um longo vale. Que diabo, talvez eu estivesse sob o efeito de hipnose. - Deita-te e descansa um pouco.

- Céus, este lugar é de loucos - comentou o Delacroix numa voz tremida. - Mister Jingles, quem me dera que eles me fritassem para acabar de uma vez por todas com este assunto!

Entrei na cela do Coffey. Quando comecei a avançar, ele afastou-se. Quando já se encontrava de costas contra a sua tarimba - tocando-lhe com a barriga das pernas, isto dá-vos a medida da altura do homem - sentou-se em cima do colchão. Os seus olhos não se desprendiam de mim; indicou-me o lugar na tarimba junto de si. Sentei-me onde ele me indicara, e o Coffey colocou o seu braço em redor dos meus ombros, como se nos encontrássemos no cinema e eu fosse a sua namorada.

- O que é que pretendes, John Coffey? - perguntei, continuando a fitar-lhe os olhos... Aqueles olhos tão serenos e tão entristecidos.

- Só quero conseguir evitar o mal - replicou ele. Suspirou como um homem que se vê perante uma tarefa que não lhe apetece muito levar a cabo; em seguida, baixou a mão até à minha região entre pernas, sobre o osso que fica mais ou menos trinta centímetros abaixo do umbigo.

- Eh! - gritei. - Tira já o raio da tua mão...

Nessa altura senti um impacte violento a atravessar-me o corpo, um golpe enorme sem dor que não consegui identificar. Fui sacudido por um solavanco em cima da tarimba que fez com que as minhas costas se curvassem; aquilo trouxe-me à mente a imagem do velho Pouca Terra a gritar que estava a ser frito, estava a ser frito, era um peru cozinhado. Não senti calor nem a passagem de corrente elétrica, mas por breves instantes fiquei com a impressão de que as cores tinham saltado para fora de tudo, como se o mundo, de uma maneira qualquer, houvesse sido espremido. Conseguia distinguir todos os poros na pele do rosto do John Coffey, assim como todos os vasos sanguíneos que lhe atravessavam os olhos de expressão assombrada; via ainda um pequeno arranhão no seu queixo que já começara a sarar. Compreendi que os meus dedos eram ganchos, enclavinhando-se no vácuo, e que os meus pés batiam contra o chão da cela do John Coffey.

Em seguida, terminou tudo. O mesmo aconteceu à minha infecção urinária. Tanto o ardor como aquele latejar atroz, que tantas dores me causavam, tinham desaparecido das minhas virilhas, tal como a febre que me afligira a cabeça. Continuava a sentir a transpiração que aquilo fizera aflorar à minha pele, conseguindo cheirar o mal que me atormentara, mas que sem dúvida alguma desaparecera.

- O que é que se passa? - perguntou o Delacroix numa voz esganiçada. Eu tinha a impressão de que a sua voz vinha de muito longe, mas quando o John Coffey se inclinou para a frente, interrompendo o contato visual que mantivera comigo até então, de súbito, a voz do pequeno cajun tornou-se clara. Era como se alguém houvesse retirado bolas de algodão, ou um par de tampões, das minhas orelhas. - O que é que ele lhe está a fazer, chefe?

Não lhe dei resposta. O Coffey continuava debruçado para a frente, com o rosto contorcido e a garganta que parecia querer rebentar. Os olhos estavam esbugalhados. Tinha a aparência de um homem com um osso de galinha atravessado na garganta.

- John! - gritei. Comecei a dar-lhe palmadas nas costas; não me ocorreu outra coisa para fazer. - John, o que é que aconteceu contigo?

Ele estremeceu por baixo da minha mão e emitiu um som engasgado, que deixava adivinhar ânsias de vômito. A sua boca abriu-se, da mesma forma que os cavalos, por vezes, abrem as suas, a fim de permitir a entrada do freio - relutantemente e com os lábios arreganhados para trás, revelando os dentes, numa espécie de esgar desesperado. Pouco depois, os seus dentes também se entreabriram e ele soltou uma nuvem de insetos negros pequeníssimos, os quais se assemelhavam a mosquitos ou a moscas. Esvoaçavam furiosamente entre os seus joelhos, mas logo depois ficaram brancos e desapareceram.

De repente, senti que todas as forças abandonavam a parte do meio do meu corpo. Era como se os músculos naquela região se tivessem transformado em água. Deixei-me descair contra a superfície da parede de pedra da cela do Coffey. Recordo-me de ter pensado no nome do Salvador – Cristo, Cristo, Cristo, repetindo-o vezes sem conta - e também me lembro de que me ocorreu que a febre me fizera entrar em delírio. E foi tudo.

Nessa altura, dei-me conta de que o Delacroix gritava por ajuda; anunciava ao mundo que o John Coffey estava a matar-me, com toda a força dos seus pulmões. O Coffey encontrava-se debruçado sobre mim, sem dúvida, mas apenas para se certificar de que eu estava bem.

- Cala a boca, Del - ripostei, levantando-me da tarimba. Fiquei à espera que as dores me dilacerassem as entranhas, mas tal não aconteceu. Sentia-me muito melhor. De verdade. Embora tivesse uma ligeira tontura, esta desapareceu antes mesmo de eu ter estendido a mão para me agarrar às barras da porta da cela do Coffey, a fim de me equilibrar. - Estou muitíssimo bem.

- Saia já daí - disse o Delacroix numa voz que parecia a de uma velhota nervosa a dizer a uma criança que descesse de uma macieira. - Não deveria ter entrado na cela sem haver mais um guarda no bloco.

Olhei para o John Coffey, que continuava sentado na tarimba, tendo colocado as suas mãos enormes sobre os joelhos grossos que nem troncos. O John Coffey retribuiu-me o olhar.

Foi obrigado a inclinar a cabeça um pouco para cima, mas não muito.

- O que é que tu fizeste, vadio? - perguntei em voz baixa. - O que é que me fizeste?

- Consegui evitar o mal - respondeu ele. - Consegui evitar o mal, não é verdade?

- Sim, suponho que sim, mas como? Como é que conseguiste evitar o mal?

Abanou a cabeça - para a direita, esquerda e de volta ao centro, onde se imobilizou. Não sabia como é que tinha evitado o mal (como é que havia curado o mal); o seu rosto plácido sugeria que se estava nas tintas - tal como eu me estaria nas tintas acerca da mecânica de uma corrida se fosse à frente durante os últimos cinqüenta metros dos três quilômetros da corrida do 4 de Julho. Ainda pensei em lhe perguntar como é que tinha descoberto que eu estava doente, só que eu sabia antecipadamente que teria como resposta outro sacudir de cabeça. Li algures uma frase de que nunca me esqueci, qualquer coisa sobre “um enigma envolto num mistério”. Era isso mesmo o que o John Coffey era, e suponho que ele só conseguia dormir à noite porque não se interessava por nada. O Percy costumava apelidá-lo de mentecapto, o que era um termo cruel, mas que não se encontrava muito longe da verdade. O nosso vadio conhecia o seu nome, sabendo que não se escrevia da mesma forma que a bebida, e isso era mais ou menos tudo o que lhe interessava saber.

Como que a dar mais ênfase a essa realidade, abanou de novo a cabeça daquela maneira tão deliberada e estendeu-se em cima da tarimba com as mãos entrelaçadas por baixo da bochecha esquerda, como se esta fosse uma almofada, mantendo o rosto virado para a parede. As suas pernas estavam suspensas do fundo do colchão, desde as canelas até aos pés, mas isso nunca pareceu incomodá-lo. A parte de trás da camisa estava arrepanhada para cima, o que me permitia avistar as cicatrizes que se entrecruzavam na sua pele.

Abandonei a cela, fechei-a à chave e olhei para o Delacroix, que se encontrava agarrado às grades, olhando-me com uma expressão de ansiedade. Talvez até mesmo com um certo receio. O Mister Jingles estava empoleirado em cima do ombro, com os seus bigodes finos que fremiam como se fossem filamentos.

- O que é que aquele escarumba lhe fez? - perguntou o Delacroix. - Foi bruxedo? - Falava com aquele sotaque cajun que lhe era peculiar.

- Não sei de que é que estás para aí a falar, Del.

- O diabo é que não sabe! Olhe bem para si! Todo mudado! Chefe, até está a andar de uma maneira diferente! De fato, é provável que eu caminhasse de maneira diferente. Tinha uma sensação maravilhosa de calma nas minhas virilhas, um sentimento de paz tão extraordinário que quase se lhe poderia chamar êxtase - alguém que tenha sentido dores atrozes, e que depois recuperou, sabe perfeitamente o que quero dizer.

- Está tudo bem, Del - insisti. - O John Coffey teve um pesadelo e nada mais.

- Ele é um homem de bruxarias! - afirmou o Delacroix com toda a veemência. Acima do seu lábio superior haviam-se agrupado várias gotículas de suor. Não conseguira ver muita coisa, somente o suficiente para o assustar de morte. - Ele é um homem de vodu! - acrescentou.

- O que é que te leva a dizer isso?

O Delacroix estendeu a mão e agarrou no rato. Com a palma da mão em forma de concha levou-o à face. Da algibeira retirou um fragmento de qualquer coisa amarelada - um daqueles rebuçados de hortelã-pimenta. Estendeu-o para o rato, mas este inicialmente ignorou a guloseima, preferindo esticar o pescoço na direção do homem, cheirando o seu bafo da mesma maneira que uma pessoa poderia cheirar um ramo de flores. Os seus pequenos olhos, semelhantes a contas negras e brilhantes, cerraram-se quase por completo, numa expressão que se igualava a um sentimento de êxtase. O Delacroix beijou-lhe o focinho, o que o rato permitiu. Em seguida agarrou no bocado de rebuçado, começando a mordiscá-lo. O Delacroix ficou a observar o bicho durante mais algum tempo, após o que olhou para mim. De chofre, percebi tudo. - O rato contou-te - disse eu. - Estou certo?

- Oui.

- Tal como te segredou o seu nome - acrescentei. - Oui - murmurou-me ao ouvido.

- Deita-te, Del - continuei. - Descansa um pouco. Todos esses segredos devem cansar-te muito.

O Delacroix acrescentou mais qualquer coisa - acusou-me de não acreditar no que ele me dizia, suponho eu. Uma vez mais, tive a impressão de que a sua voz vinha de muito longe. E quando regressei à mesa do guarda de serviço, mal tinha a sensação de estar a caminhar - era mais como se flutuasse, ou talvez mesmo nem sequer me deslocasse, com as celas a passarem por mim em ambos os lados, adereços de filmes e rodas escondidas.

Comecei a sentar-me de maneira normal, mas a meio dos meus movimentos, senti os joelhos a desfalecerem e deixei-me cair em cima da almofada azul que o Harry trouxera de casa no ano anterior, instalando-me sobre o assento da cadeira. Imagino que se a cadeira não tivesse estado ali, teria caído redondamente no chão.

Deixei-me ficar sentado, sentindo aquele nada nas partes íntimas, onde ainda não havia dez minutos tinha lavrado o incêndio de uma floresta. Eu consegui evitar o mal, não é verdade?, dissera o John Coffey, e isso era verdade no que dizia respeito ao meu corpo. No entanto, em relação à minha paz de espírito o assunto era outro. Isso ele não havia evitado nem um pouquinho.

O meu olhar pousou no amontoado de impressos debaixo do cinzeiro de zinco que tínhamos num dos cantos da mesa. Escritas em maiúsculas ao cimo estavam as palavras RELATÓRIO DO BLOCO, e abaixo, mais ou menos a meio da folha, havia um espaço em branco com o cabeçalho Relatório de Todas as Ocorrências Anormais. No relatório que elaboraria naquela noite, servir-me-ia desse mesmo espaço para descrever a chegada do William Wharton ao bloco, cheia de cor e de ação. Mas suponhamos que eu também relatava o que me acontecera na cela do John Coffey? Observei-me a mim próprio a agarrar no lápis - aquele cuja ponta o Brutal lambia constantemente - afim de escrever uma única palavra em letras maiúsculas: MILAGRE.

Certamente que isso teria imensa graça, mas em vez de sorrir, fiquei de repente com a certeza de que iria chorar. Cobri o rosto com as mãos, com as palmas contra a boca para poder abafar os soluços - não queria assustar o Del outra vez, exatamente na altura em que ele começara a acalmar-se - mas os soluços de choro não me saíram da garganta. Também não me assomaram lágrimas aos olhos. Ao fim de alguns momentos, baixei as mãos, pousando-as sobre o tampo da mesa, onde as entrelacei. Não sabia o que é que estava a sentir; o único pensamento claro que tinha na cabeça era o desejo de que ninguém aparecesse no bloco até eu ter recuperado um pouco o domínio sobre mim próprio. Receava aquilo que eles pudessem ler na minha expressão.

Agarrei num dos impressos intitulados “Relatório do Bloco”. Tencionava aguardar até me ter acalmado um pouco mais para começar a descrever como é que a minha última criança problemática estivera quase a estrangular o Dean Stanton, mas entretanto poderia iniciar o preenchimento do resto de toda aquela treta. Pensei que a minha letra talvez ficasse esquisita - tremida - mas verifiquei que me saía quase como de costume.

Cerca de cinco minutos depois de ter começado, pousei o lápis e dirigi-me para os lavabos adjacentes ao meu gabinete, a fim de urinar. Não tinha muita necessidade de ir, todavia, consegui reunir o suficiente para pôr à prova o meu novo estado. Enquanto ali fiquei, à espera que o líquido começasse a jorrar, tive a certeza de que iria doer-me tanto como nessa manhã, como se estivessem a passar pequenos estilhaços de vidro moído; ao fim e ao cabo, o que ele me tinha feito não seria mais do que o efeito de uma espécie de transe hipnótico, e que até certo ponto poderia ser um alívio, apesar das dores.

Só que não senti quaisquer dores, e o fluxo que saiu para a privada era límpido, sem o mínimo vestígio de pus. Abotoei a braguilha, puxei a corrente do autoclismo e regressei à mesa do guarda de serviço, sentando-me uma vez mais.

Eu sabia o que tinha acontecido; suponho que o sabia mesmo quando tentava dizer a mim mesmo que fora hipnotizado. Eu experimentara uma cura milagrosa, uma autêntica “Jesus Seja Louvado, o Senhor É Todo-Poderoso”. Como em rapaz estava acostumado a ir às igrejas batistas ou pentecostais que num dado mês a minha mãe e as irmãs agraciavam com a sua presença, tinha ouvido o suficiente sobre as histórias miraculosas de “Jesus Seja Louvado, o Senhor É Todo-Poderoso”. Não acreditava em todas elas, mas havia bastantes pessoas em que eu acreditava. Uma destas era um homem de nome Roy Delfines, que vivia com a sua família cerca de três quilômetros mais abaixo, na mesma rua que nós, quando eu tinha mais ou menos seis anos. Delfines tinha decepado acidentalmente com um machado o dedo mindinho do filho, quando o garoto, num gesto inesperado, deslocara a mão sobre o tronco que segurava sobre o cepo das traseiras, onde era costume o pai rachar a lenha. O Roy Delfines dissera que tinha, praticamente, desgastado a carpete com os seus joelhos durante esse Outono e Inverno; na Primavera, o dedo do rapaz tinha voltado a crescer. Até mesmo a unha tinha crescido de novo. Eu acreditei no Roy Delfines quando ele .apresentou o seu testemunho na reunião de júbilo, de quinta-feira à noite. Nas suas palavras adivinhava-se uma honestidade tão franca e tão pouco complicada quando ele falou ali à frente dos outros, com as mãos enfiadas nos bolsos do fato-macaco, que era impossível não se acreditar no que ele dizia.

- O rapaz sentia algumas comichões quando o dedo começou a crescer, e ficava acordado à noite - disse Roy Delfines -, mas ele sabia que aquelas comichões eram do Senhor, e que não devia fazer nada. - Jesus Seja Louvado, o Senhor Todo-Poderoso.

Continuar: parte 2 de 3